sábado, 26 de fevereiro de 2011

Transição mundial


Num momento de agitação social internacional, reproduzimos, na íntegra e autorizados, uma reportagem publicada há mais de 25 anos. Faz parte do livro “Aqui e Agora” de Carlos Cardoso Aveline, autor de, entre outras, a obra “A informação solidária”. No website que coordena, Filosofia Esotérica, o autor tem disponível um acervo actualizado sobre as transformações mundiais na secção Crise Ambiental e Civilização do Futuro.

Texto Carlos Cardoso Aveline fotografia Dina Cristo


«Toda a estratégia das políticas económicas das nações do Ocidente tem girado em torno do chamado crescimento económico. Mas os economistas e o povo da Europa já aceitam o fato de que a era do “pleno emprego” passou e não voltará. Com o capitalismo estancado e sem perspectivas de crescimento, o que se observa é a expansão da economia não monetária.
James Robertson, estudioso das alternativas para a economia mundial, pergunta se não devemos criar condições de trabalhar por nós próprios, em vez de procurar empregos. A era industrial intensiva que está terminando destruiu a indústria caseira e fez com que trabalho fosse inteiramente subordinado a emprego.
A alternativa que surge para os dilemas da sociedade industrial decadente está na volta às actividades simples do tipo “faça você mesmo” – com destaque para a auto-produção de alimentos e outros bens essenciais. Entre as vantagens da volta atual ao trabalho caseiro figura a revalorização do trabalho livre dos velhos, das mulheres e das crianças, totalmente ignorado no esquema massificante da economia monetária.(1)
Para Robertson, no livro “The Sane Alternative”, o conceito de riqueza pessoal mudou radicalmente. Já não é uma questão de conta bancária, estoque de mercadorias ou mansões e limusines. Rica, hoje, é a pessoa que depende menos do atual sistema económico-social, frágil e inseguro. “Trabalho” já não pode ser definido em termos de passar muitas horas longe de casa para receber um salário no final do mês. Trabalho está voltando a combinar-se com lazer, recreação e prazer, do mesmo modo como se combina auto-suficiência económica com realização pessoal. O principal é a busca de uma vida integral e a rejeição das existências fragmentadas que o capitalismo industrial cencentrador pode (podia) oferecer ao cidadão.
As pessoas desempregadas da Europa e dos Estados Unidos – afirma Robert Jungk em entrevista à revista Peace News, da Inglaterra(2) - estão de certo modo numa posição privilegiada, por não se acharem mais acorrentados à engrenagem mecânica da produção capitalista. Elas têm mais tempo, podem pensar e atuar de modo benéfico para a sociedade se tiverem suficiente motivação. Podem estabelecer e estão estabelecendo estilos de vida e de produção alternativos. Na entrevista de 1982, Jungk afirmava que esta movimentação estava acontecendo na Dinamarca. Hoje ocorre em toda a Europa.
As vantagens da produção caseira são expostas de modo claro por Erhard Eppler, um dos líderes do Partido Social Democrático (SPD) da Alemanha:
“A parte da Alemanha em que me criei, Wurttemberg, tem superado bem as crises dos últimos setenta anos, porque uma grande proporção dos trabalhadores sempre reteve um pequeno pedaço de terra para plantar. Desemprego para eles significava uma oportunidade para reparar o estábulo, semear a terra, engraxar e reparar o trator, pintar a cerca, etc. Isto durou muito tempo e suavizou o efeito do desemprego na Alemanha. Quando se promove o trabalho autónomo, grande parte do medo ao desemprego é afastado”.(3)
A economia feita em casa. O crescimento da economia invisível é um fenómeno mundial. Ocorre nos Estados Unidos, na Itália, na Hungria. A jornalista gaúcha Tânia Krutscka esteve em Budapeste em 1984 para cobrir um encontro da Federação Luterana Mundial. Na volta, contou-me que a estratégia económica húngara passa hoje pelo cooperativismo – onde tem destaque o cultivo de ervas medicinais – e a combinação do setor formal com o setor informal. A economia húngara é a de maior desempenho em todo o bloco socialista graças à ênfase que dá à empresa familiar. O cidadão médio trabalha meio turno para uma grande empresa ou o Estado e meio turno em casa, produzindo alimentos ou roupas que venderá sem pagar imposto algum. Um reflexo desta estratégia foi o grande superávit na produção húngara de alimentos em 1984: nada menos que 14 milhões de toneladas.
Mesmo crescendo com alguma lentidão, a consciência das alternativas para o estancamento capitalista adquiriu solidez por toda parte. Um sociólogo e um sindicalista alemães analisaram este fato de passagem pelo Brasil em 1984.(4) O desemprego atingia naquele ano 8,6% da força de trabalho alemã, cerca de 2,2 milhões de trabalhadores. No futuro, esperava-se quatro milhões de desempregados. O sociólogo Claus Offe acha que o jeito é reduzir o tempo necessário à aposentadoria e “organizar um novo tipo de economia” através do mercado informal de trabalho.
A descentralização é a marca registrada da economia da Iugoslávia e o que a distingue desde o pós-guerra do resto do bloco socialista. A ênfase central é dada à autogestão dos trabalhadores e ao cooperativismo. É certo que há um centralismo excessivo na política e na economia, mas a experiência, mesmo limitada, é fundamental para a discussão do socialismo no mundo de hoje. E aponta claramente para a necessidade do autogoverno da população nos diversos agrupamentos concretos em que ela se estrutura. Ora, este autogoverno não é possível senão parcialmente numa estrutura industrializada centralizada, e este foi precisamente o limite da experiência iugoslava, desenvolvida num mundo industrial que busca a padronização não só da produção, mas do consumo, das vontades, dos comportamentos, e das opiniões políticas.(5)
Optar entre a uniformização e padronização imitadora das pautas de desenvolvimento que já não servem aos países desenvolvidos, e a riqueza variada da criatividade local, é a tarefa dos países do Terceiro Mundo e da América Latina. O economista da CEPAL, Edgar Knebel, falando num simpósio sobre as metrópoles latino-americanas em crise, previu que até ao ano 2000 o desemprego na nossa região chegará a algum lugar entre 20% e 50%. E não falta quase nada para chegarmos a esta percentagem. Em 1984, depois de assumir o governo da Argentina, a equipe de Raul Alfonsin descobriu que só metade da população economicamente ativa está empregada formalmente. A outra metade vive de biscates e pequenos empreendimentos organizados à margem de toda legislação.
A parcela marginalizada da população não pode organizar-se em sindicatos nem em partidos políticos, que atuam em torno de questões nacionais. A alternativa para eles é a organização comunitária nos locais em que moram, através da economia não-formal. A solução está na estruturação de pequenas cooperativas onde estas pessoas moram. Assim se elimina, entre outros, os problemas de transporte, cada dia mais caro, poluente e demorado.(6)
Só recentemente estas soluções recebem uma relativa prioridade por parte dos governos. Isso é resultado do fato de que os setores dominantes da opinião pública e os meios de comunicação de massa acreditavam, até há bem pouco, que as políticas sociais devem ser feitas de cima para baixo e que o dinheiro é a única mola mestra.
No entanto, muito ao contrário das aparências, o dinheiro não é capaz de dar sentido à atividade económica ou social. Todo indivíduo humano precisa ver sua vida e o que ele faz ou produz como algo significativo, dentro de um todo maior. Quando uma pessoa não vê sentido na vida, é comum, por exemplo, surgirem fantasias de suicídio. Alguns efectivamente se matam – por falta de significado em suas vidas.

A civilização do absurdo.

De modo similar, a maior parte dos processos que ocorrem na vida diária da nossa sociedade perderam, absolutamente, o seu significado original de afirmação da vida.
Não há sentido algum em produzir milhares de bombas mortais quando pessoas passam fome. Não há sentido em trabalhar dentro das máquinas burocráticas que dificultam, com regulamentações e controles inúteis, a vida do cidadão comum de carne e osso. Não tem sentido manter uma civilização que engendra doenças degenerativas pela má alimentação sistemática da população e produz remédios químicos que tendem, a longo prazo, a piorar ainda mais a saúde do povo.
Não faz sentido produzir tantos automóveis particulares que, primeiro, desperdiçam o petróleo cada dia mais caro; segundo, poluem o ar lançando CO2 que nos ameaça; terceiro, criam crises de engarrafamento no trânsito; e quarto, matam milhares de pessoas em acidentes de tráfego. Uma média de 300 mil acidentes mata 21 mil brasileiros por ano em ruas e estradas. Poucas guerras civis são tão sangrentas como a nossa tentativa de reproduzir no Brasil o padrão de consumo dos países ricos.
Cansados de tudo isso, estamos optando pela simplicidade e pela relação imediata entre produtor e meios de produção. Sempre que o trabalhador controla o processo produtivo ele trabalha pela afirmação da vida. Então produzimos coisas realmente úteis e sentimos que o nosso trabalho faz sentido dentro de um todo maior. Um aspecto central de todas as manifestações do surgimento do homem novo neste final de século é a identificação cada vez maior entre o produtor e o que ele faz. Através da generalização do cooperativismo, da produção doméstica, da cogestão e o socialismo autogestionário, a loucura vai sendo deixada de lado gradual mas definitivamente. Perdem sua razão de ser o egocentrismo e a agressividade exagerada do homem das nossas cidades.
O contraste entre a democracia política formal e o autoritarismo concreto que se vive na maior parte dos locais de trabalho é uma das questões que se debatem amplamente nesta fase da transição. A Harvard Business Review publicou um artigo do editor David Ewing a respeito: “Cruzando a porta da fábrica ou do escritório, às nove da manhã, o norte-americano médio fica quase sem direitos até às cinco da tarde, de segunda a sexta. Os empregados cedem frequentemente direitos como a liberdade de pensamento e de expressão”.
Isto se percebe muito claro no Brasil. O empregado deve pensar aquilo que acha que será agradável ao patrão saber que ele pensa. O fenómeno tupi-guarani do puxa-saquismo não é outra coisa. O pensar dos puxa-sacos é também o “duplipensar” (doublethink) que George Orwell denunciou no famoso livro “1984”. Ali, o personagem Winston pagou caro por não pensar aquilo que o estado gostaria que ele pensasse.
Estes mecanismos psicológicos sutilmente opressivos é que estão sendo deixados de lado pela democratização dos locais de trabalho da sociedade industrial.
O caso de Lucas. A luta por controlar o resultado do trabalho tem importância, pela necessidade do indivíduo perceber um significado naquilo que faz. A experiência dos operários da Corporação Lucas Aeroespacial ilustra esta afirmativa. A Corporação emprega 75 mil pessoas no Reino Unido e 35 mil no exterior. Foi na Inglaterra que surgiu um movimento operárioinicialmente de resistência contra planos da direção de racionalizar a produção mandando embora milhares de empregados. Na primeira etapa os operários foram derrotados. Mas depois detonaram um movimento cultural com debates para definir o que poderiam produzir de útil à sociedade na Corporação Lucas. Por que motivo estavam produzindo armamentos, e não bens necessários à vida?
Um dos líderes do movimento, Mike Cooley, recebeu o prêmio internacional conhecido como “Nobel Alternativo” em 1981. Para Mike, o grau de depravação a que chegou a sociedade atual é indicado pelo fato de que cinquenta por cento dos cientistas e tecnólogos de países como a Inglaterra passam todo o tempo da sua vida trabalhando na pesquisa e produção de armamentos que eles sabem, no fundo dos seus corações, que se fossem usados um dia provocariam o fim da humanidade.(7)
“Fizemos o que deveríamos ter feito desde o começo”, escreve Mike Cooley. “Perguntamos à nossa força de trabalho o que ela pensava que poderia produzir, e que deveria estar produzindo. Organizamos reuniões em todas as fábricas, e depois fizemos um questionário para cada trabalhador”.
No questionário, era pedido aos empregados que pensassem no seu papel duplo de produtores e consumidores. O que fizessem durante o dia, nas empresas, deveria ser útil para que pudessem viver da melhor maneira possível o resto das suas vidas.
Centenas de propostas apareceram e foram seleccionadas. Entre as 150 idéias aprovadas no final, figuravam marca-passos para cardíacos e máquinas de hemodiálise para doentes dos rins. Na preparação de todos os projectos foi utilizada, ao máximo, a criatividade dos homens das linhas de produção, cujo conhecimento prático foi reconhecido como valioso.
Mike Cooley foi demitido do grupo Lucas “por estar trabalhando em problemas cuja solução cabe mais à população em seu conjunto”, segundo seus patrões. Quando isto ocorreu, a mobilização participativa já havia atingido os trabalhadores de todos os níveis e todos os setores da corporação.

A co-gestão na Europa.

A participação operária na administração da empresa está institucionalizada em grande número de países europeus. Na Alemanha há co-gestão paritária em todas as empresas de mineração e metalurgia com mais de 1000 empregados. Aqui o conselho de direção da empresa é formado por 50% de representantes do capital e 50% de representantes dos trabalhadores. Já nas empresas industriais e comerciais com mais de 500 funcionários, a co-gestão alemã estabelece uma participação operária inferior a 50%.
De acordo com um documento da Confederação Sindical, há duas condições para o êxito da co-gestão na empresa alemã: o treinamento contínuo dos representantes dos trabalhadores em questões económicas e industriais, e o perfeito entrosamento entre eles e os seus sindicatos. A extensão real da presença do trabalhador na direção da empresa depende da energia, e das aptidões, dos seus representantes.
Os trabalhadores da Noruega preenchem um terço das vagas dos conselhos de administração das empresas com mais de 200 funcionários. Na Suécia, estabelecimentos com mais de 50 pessoas têm conselhos administrativos aproximadamente paritários. Isto não ocorre por força de alguma lei formal, mas por convenção direta entre empregados e empregadores.
Na França, toda empresa com mais de 50 empregados é obrigada a ter um comitê de empresa que consulta os operários – na maior parte das vezes sobre questões de recursos humanos. Na Dinamarca, os conselhos de trabalho – Samarbejdsuvalg – discutem a organização do trabalho, sua segurança e bem-estar, acompanham a situação financeira da empresa e discutem os planos para o futuro. Na Holanda, há uma co-gestão inspirada na experiência alemã (a mais intensa da Europa) nas empresas com mais de 100 pessoas. O Conselho Paritário é que elege os diretores.(8)
Experiências brasileiras. Estão surgindo as primeiras comissões de fábricas brasileiras. O Ministério de Trabalho já as estimulava durante o governo Figueiredo. Mas muitos empresários resistem ao que sentem como “uma interferência indesejável na gestão dos seus negócios”. Também alguns sindicalistas apresentam resistências à ideia. Têm medo de uma manobra maquiavélica para marginalizar os sindicatos.
A comissão de fábrica da indústria metalúrgica Vogg S.A. de Canoas, com 270 empregados, era uma das pioneiras no rio Grande em 1984. Mas, mais antigas que ela, são as comissões da fábrica Taurus, que funciona desde 1967, e do Estaleiro Só, desde 1979. As duas últimas funcionam estreitamente vinculadas ao Sindicato dos Metalúrgicos.
Há experiências mais avançadas no Rio Grande. Depois das falências do grupo Wallig, os antigos empregados receberam o apoio do governo do estado para reerguê-las em 1984 na forma de cooperativas. Com os prédios e máquinas arrendados, 340 trabalhadores e os antigos diretores se reuniram para tocar a produção para diante, e em pouco tempo estavam produzindo 500 fogões por mês, organizados em duas cooperativas: uma de fundição, outra de mecânica.
A experiência da Wallig foi baseada, em parte, na história de outra falência com final feliz, ocorrida em 1983, em Teutônia. Quando faliu a fábrica de calçados Schaeffer, os operários conseguiram do juiz e do prefeito local o arrendamento das máquinas e do local, constituíram com êxito a Cooperativa dos Calçadistas Autônomos de Teutônia, Cocate.(9)
Rápido ou gradualmente, desta ou daquela forma, a democracia vai chagando aos locais de trabalho. Está mudando a maneira das pessoas se relacionarem. A democracia brota de dentro para fora das pessoas, de baixo para cima da sociedade. “O que é democracia industrial?” pergunta, num ensaio, o economista norte-americano Herbert Simon.(10) “Os empregados são apenas um dos grupos cujos interesses são afectados pelas decisões. Há também os executivos e os proprietários do capital, que frequentemente têm interesses bastante diferentes. E há o público consumidor dos produtos da organização, assim como os seus supridores. Devemos levantar a questão da democracia industrial para todos estes grupos”, escreve Simon, antes de admitir que os empregados têm um papel central neste processo, porque estão vinculados por uma relação imediata com o processo produtivo.
O cidadão deseja participar das decisões económicas da sociedade, e isso se reflecte no crescimento das organizações de consumidores. Hoje cerca de 120 organizações de consumidores de 50 países estão associadas numa Organização Internacional de Consumidores, com sede na Malásia.
O avanço da democracia participativa acelera-se sob as mais diferentes formas. “As companhias norte-americanas estão revendo o valor da participação do trabalhador – isso fica evidenciado no crescimento recente dos Círculos de Controle de qualidade (CCQ) ao estilo japonês”, escreve John Naisbitt.
Grupos de até 15 pessoas ganham horas-extras para reunir-se depois do expediente, discutindo e resolvendo questões como condições de trabalho, produtividade, relações entre setores e racionalização do trabalho. A ideia surgiu nos Estados Unidos várias décadas atrás, mas inicialmente não mereceu atenção. Foi no Japão que a proposta de CCQs causou rebuliço e alastrou-se. Trinta anos mais tarde, anota Naisbitt, o movimento chega de volta aos Estados Unidos como uma moda japonesa, um instrumento capaz de reerguer a decadente produtividade da economia norte-americana.
Foi através da Volkswagen (1971) e da Johnson & Johnson (1972) que os primeiros Círculos de Controle de Qualidade chegaram ao Brasil. Mais tarde foram adotados n Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), General Electric, Cia. Hering, Fundição Tupy, Geladeiras Cônsul e General Motors. Hoje há 500 empresas brasileiras lançando mão da criatividade e da participação dos trabalhadores. Foram criadas oito associações de CCQ, e para o primeiro semestre de 1985, na Colômbia, estava previsto o primeiro congresso latino-americano de CCQs.
Na indústria de calçados Ohlweiler (Taquara, RS), cerca de 30% dos empregados eram membros de CCQs nos primeiros meses de 1985. A opção é bastante clara, no entender do engenheiro João Diniz, que coordenou o começo da experiência: “Uma empresa pode contratar firmas de consultoria, que vão cobrar Cr$20 milhões por mês, e que fazem um trabalho de cima para baixo, ou a empresa pode implantar CCQs, que custam no máximo Cr$ 500 mil mensais e têm ótimos resultados a médio e longo prazo”. A segunda hipótese significa uma mudança de mentalidade para democratizar o local de trabalho, enquanto se racionaliza a produção e melhora o relacionamento humano.
Na fábrica de geladeiras Cônsul, a experiência começou há três anos e envolve 26% da mão-de-obra. Foram recolhidas 2.850 sugestões, 43% das quais em melhoria ambiental, 39% sobre mudanças de métodos de trabalho, e o resto sobre relacionamento no trabalho ou segurança. Já a fábrica Volkswagen tinha, em 1984, 137 grupos de CCQ funcionando em todos os seus setores. Mas apesar do seu progresso rápido, os CCQs brasileiros estão longe do nível de aproveitamento dos CCQs no Japão. Lá, a Toyota recolheu 1,7 milhões de sugestões de 59 mil empregados, com um índice de aproveitamento de 97%.(11)».

(1)IFDA dossier 35, May/June 1983, p.65. Ver também “Revival of Nonmonetary economy makes economic growth unnecessary in the small industrialized countires”, idem, p.68. E ainda IFDA dossier 34, March/April 1983, p.45; (2)“Peace news for non-violent revolution”, Nott hingham, England, September 1982, nº 21 77, reproduzido em IFDA dossier 34, March/April 1983, p.75; (3)Ensaio Erthard Eppler sobre políticas alternativas, em IFDA dossier 33, Jan./Feb 1983, p.56; (4)Zero Hora, 18/9/1983; (5)Palmyos Paixão Carneiro, “Iugoslávia, cooperativismo e autogestão”, Veja Novom Espaço, Belo Horizonte, MG, 1983. Bertino Nóbrega de Queiroz, “A Autogestão Iugoslava”, Brasiliense, 1982. Edward Kardelj y otros, “Nuevas Respuestas para un Mundo en Crisis, la verdad sobre Iugoslavia”, Ed. Sophos, Buenos Aires, 1960; (6)Sobre as metrópoles: Zero Hora, 13/9/1984. Sobre a argentina: “Veja”, 18/7/1984; (7)Sobre a Harvard Business Review : “Megatrends/Megatendências”, de John Naisbitt, Livros Abril/Círculo do Livro, SP, 1983, p.179-180. Sobre a Corporação Lucas: IFDA dossier, nº 35, May/June 1983, p.53; (8)Fernando Prestes Motta, “Participação e Co-Gestão”, Brasiliense, 1982; (9)Sobre as comissões de fábrica: Zero Hora 31/7/84. Sobre a Wallig, Zero Hora, dias 19/9/84, 18/9/84 e 23/10/84. Sobre Teutônia: Carlos aveline “De Baixo para Cima”, Vozes, 1984, p.27-29; (10)Revista “Economic Impact, a quarterly review of world economics”, 1983, p.76; (11)Jornal “Panorama”, Taquara, RS, 21/12/84, e contatos com a Ohlweiller. “Gazeta Mercantil”, 30/10/84.

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Economia ou humanidade?



Quem recusa enriquecer uma comunidade com a sua específica maneira de ser, de estar ou de fazer? Globalização: uns estão a favor, outros nem tanto. Vamos espreitar um pouco o Fórum Mundial Social a decorrer neste planeta. Sábado é Dia de Acção Global, também em Portugal.

Texto Dina Cristo fotografia Victor Hugo Cristo

Na mesma altura em que na Suiça se reúne o Fórum Económico Mundial (FEM) por todo o mundo se comemora a oitava edição do Fórum Social Mundial (FSM). De um lado os países do Norte, materialmente mais ricos, a economia, o mercado, os lucros, do outro, os países do Sul, materialmente mais pobres, a sociedade civil, a ética, a humanidade. Será que podemos dividir, com tanta simplicidade, os que estão a favor e os que estão contra a globalização?
A "aldeia global" é um processo de unificação, integração, livre e voluntário, com vista à construção de um mundo a várias vozes, rostos e cores. Um só globo, com toda a diversidade, natural, humana, cultural, política, religiosa, social, que decorre da elevação da consciência humana. Na verdade, já estamos a ser "processados" e é natural, como escreve José Manuel Anacleto, que até mesmo os manifestantes anti-globalização ouçam música inglesa, vejam filmes americanos, telenovelas brasileiras, utilizem aparelhagens japonesas, calcem sapatos italianos, usem perfumes franceses, conduzam carros alemães, entrancem os cabelos de forma africana, se colorem com roupas orientais.
A globalização nada mais é do que a pertença a um todo maior, como antes representava a Nação em relação aos conflitos regionais. A oposição a ela é, na verdade, mais uma resistência à integração forçada, imposta - e que elimina identidades, oblitera património cultural, história, artes, letras, tradições e imaginários tradicionais - do que à pureza da sua formulação teórica. Afinal, quem não quer pertencer a um colectivo maior, preservando a sua peculiaridade?
FSM
Nasceu há sete anos, no Brasil. Começou por juntar 20 mil pessoas à volta do lema “Um outro mundo é possível”. Pretendeu ser uma alternativa, em alguns casos mesmo uma oposição, ao Fórum Económico Mundial, que ocorre no primeiro mês de cada ano, em Davos, na Suiça. Ao contrário deste, é organizado pelas ONG e movimentos sociais.
Depois dos primeiros três anos (de 2001 a 2003) sedeado em Porto Alegre, realizou-se em 2004 na Índia, em 2006 teve dois centros, um em África (Mali) e outro na América Latina (Venezuela) e em 2007 voltou ao continente africano, mais propriamente ao Quénia. O próximo encontro mundial de povos será daqui a um ano, também no Brasil.
O quarto realizado no Brasil foi em 2005, quando foi subscrito o Consenso de Porto Alegre, com doze propostas (assinado entre outros pelos portugueses José Saramago e Boaventura de Sousa Santos) entre as quais a promoção da economia solidária e da autonomia dos “media” alternativos. Nesse ano, o Fórum Social Mundial reuniu mais de 150 mil participantes, entre os quais cerca de 2500 relacionados com a economia solidária e quase 2800 voluntários; houve cerca de uma centena de espectáculos, filmes e exposições.
Dia global
A proposta deste ano é de uma Semana - de Mobilização Global - com a participação de múltiplos agentes sociais cuja acção culminará este Sábado, num Dia de Acção Global. O objectivo, a essência do FSM, é celebrar a diversidade e procurar alternativas sociais para os problemas do mundo.
Os eventos serão acompanhados numa comunhão de esforços mediáticos da imprensa alternativa através da Ciranda Internacional da Informação Independente, organismo criado no primeiro FSM, em 2001, cujo objectivo é compartilhar informação multimédia, através de plataformas livres que permitam uma comunicação horizontal.
Fruto do II FSM, o Observatório Global de “Media” (criado em Porto Alegre e formalizado um ano depois em França), pela mão do jornal “Le Monde Diplomatique” e da Agência Internacional de Imprensa, IPS, tem como finalidade a constituição de um quinto poder e a promoção do direito de qualquer cidadão deste mundo a ser bem informado. Tenta reunir jornalistas, consumidores e académicos a fim de denunciar o poder dos grandes meios de informação e identificar incumprimentos em relação à imparcialidade e ao rigor.

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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Vida mutante



Para além de ir ou vir de férias, como a época que atravessamos, das mudanças profundas, ao nível climático, e superficiais, ao nível do penteado - expressão dessa força de vontade – há várias outras que abordamos a seguir.

Texto e fotografia Dina Cristo

Uns temem-na, outros desejam-na. Os pessimistas porque se fixam nos perigos, os optimistas porque acreditam nos benefícios. Como contou Spencer Johnson, no seu livro, os “pigarras” agarram-se ao medo, os “gaguinhos” à esperança.

Na vida, há os que tentam resistir à mudança e os que a tentam provocar, quer do ponto de vista individual quer colectivo. Os conservadores bloqueiam-na, os activistas incitam-na. Uns a favor da estabilidade, outros do dinamismo.

A mudança faz parte da vida. Tudo o que é vivo se movimenta, balança entre um pólo e o seu contrário. Uma acção que ou se faz em equilíbrio, moderadamente, quando se aceita a alternância, tão naturalmente como o dia e a noite, ou, sendo evitada, ocorrerá de forma abrupta, dada a necessidade de compensação. Sempre que se pende para um lado, mais cedo ou mais tarde, irá tender-se para outro; e não é pouco comum transformar-se mesmo no seu oposto, afinal duas faces da mesma moeda.
Tudo muda continuamente. A única constante na vida (relativa) é precisamente a mudança e a melhor forma de a enfrentar é preparar-se para ela, como se conclui do conto de “Quem mudou o meu queijo?”, e aceitá-la, sem a evitar ou antecipar. Os próprios padrões humanos (masculinos e femininos) também se vão alterando ao longo da vida, como explicou Jean Shinoda Bolen.
Sem obstrução, esta força limpará tudo o que já não serve e é, portanto, inútil à evolução pessoal e colectiva, abrindo espaço para o novo, a inovação e a criatividade. Do ponto de vista positivo pode ser experienciada, assim, com(o) entusiasmo, liberdade e alegria. Pelo contrário, se a ênfase é colocada no que se perde, na inércia, na resistência, no apego ao velho traz consigo sofrimento e, depois, doença.

Em termos verbais implica uma doação (mudar) e enquanto processo uma oscilação (mudança). Em ambos os casos, do ponto de vista numerológicos, representa o 21: o saber viver, o melhor possível, com o que se tem disponível, conforme a atitude de fluidez ou não o fazê-lo numa postura de resistência(1).

As diferentes perspectivas podem constatar-se desde quem prefere (in)conscientemente morrer a mudar às que mantêm, dentro do possível, um estilo de vida nómada, como os ciganos. Também ao nível sanguíneo, grupos como o tipo O têm maior facilidade de adaptação. Em termos numerológicos, o mesmo se pode dizer dos "nove", por conterem características de todos os outros números, e os que se encontram num ciclo "cinco", um dos mais propícios a mudanças relevantes.

A vida é dinamismo constante entre forças que se atraem e se repelam, entre fluxos e refluxos, inspirações e expirações. Desse balancear, o velho é “convidado” a sair para que o novo possa entrar. Em cada segundo. A toda a hora. É esta mudança contínua que permite a preservação do sistema, mais tarde visível em destruição (fim de ciclo), que dará lugar à (re)novação e à (re)recriação (em nova etapa).

Apesar de omnipresente, e fundamental nas passagens das diferentes fases da vida, do nascimento à morte, hoje quase sem rituais, este processo, que também é de desapego em relação ao passado, por vezes é difícil, ou porque foi bom – e se deseja reter – ou porque foi mau – e se culpa ou se sente culpado. Será mais fácil se houver não só preparação mas também precaução, para que não se elimine ou prescinda de tudo só porque é passado, como acontece nas revoluções, e se for enfrentado conscientemente e por vontade da própria pessoa, sem imposição, pressão ou manipulação exterior.

A mudança foi cantada por José Mário Branco e, mais recentemente, pelos “Humanos”. É hoje foco e nome de “medium”. Foi reflectida por autores como Gandhi – sê a mudança que queres ver no mundo -, Heráclito - ninguém se banha duas vezes na água do mesmo rio – ou, por exemplo, Lavoisier, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Em Portugal, ficou célebre o manifesto anti-Dantas de Almada Negreiros.

O processo de mudança pode ser despoletado não só pela perda, ao nível da saúde, do trabalho, da família, por exemplo (caso em que a terapia floral aconselha o remédio Walnut), mas também pela insatisfação ou pelo erro. Nesta ocasião, é preciso tempo para reflectir e corrigir, alterar a direcção e, como nas curvas da vida, mesmo as físicas (umas mais apertadas, outras mais inclinadas), a visibilidade diminui. Aumenta o desconhecido e, por consequência, o medo e a angústia.

É preciso, pois, uma certa dose de coragem e confiança para o desafio que constitui enfrentar o incógnito, o diferente. Contudo, o risco está em não mudar, pois tal implica estagnar e, na prática, andar para trás. Como disse Omraam Aivanhov, “aqueles que se deixam ir atrás da facilidade, da preguiça, da estagnação, aproximam-se da vida instintiva, vegetativa, mineral, e petrificam-se”(2).

Como diz o provérbio português, “parar é morrer”, mas também “quem está mal, muda-se”. Se por um lado há tendência, pela lei da inércia, a prosseguir (n)o estado em que se está, para a contração, por outro também há um impulso evolutivo, para a expansão, e sem se descartar da pele velha, como acontece com os animais na muda, não haveria lugar à regeneração, ao renascimento.

Tolstoi chamava a atenção para a importância da mudança interior: “Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si próprio”, afirmou. Ora esta transformação pessoal é condição para que a mudança no mundo exterior aconteça. Foi a conclusão no movimento hippie, nos anos 60, e é hoje explicada pelas novas teorias. Trata-se de uma decisão individual, confirmada a cada instante, que começa, antes de mais no pensamento.

Para que o comportamento se altere, de forma que não seja meramente superficial, artificial, momentânea e inconsciente, mas antes constituia uma atitude sustentável, mais profunda e construtiva é necessário começar pela transmutação mental própria, em detrimento da expectativa em relação às modificações físicas e exteriores. Como escreveu Johannes F. Hasenack, “a soma de muitas iniciativas, a partir de baixo, e de novas atitudes a partir de dentro, bem pode desencadear um processo de mudança no todo ao qual pertencemos”.

Novo paradigma

Tendo em conta o papel vital da informação no sentido de dar forma, estrutura, como explicou Lucienne Cornu, e a existência de novos dados processados e acessíveis através da internet é, hoje, mais facilmente possível e provável, como defende Dieter Duhm, a alteração da organização nos organismos individuais e colectivos. Uma transformação global, impulsionada também ao nível cósmico, com a entrada na Nova Era de Aquário, com o trânsito de Plutão até 2023 e a própria alteração do campo magnético da Terra e da actividade solar com consequências ao nível do campo cerebral, genético e de frequência humano.

Esta elevação de consciência, do ponto de vista mitológico traduz-se na passagem dos deuses-céu para os deuses-terra, como explicou Jean Shinoda Bolen: de um contexto sócio-cultural patriarcal padronizado pelo medo, poder, opressão, domínio, objectividade e competitividade, modelo representado no Velho Testamento pelo Deus ciumento e vingativo, para outro matriarcal, baseado no amor, liberdade, subjectividade e solidariedade, representado no Novo Testamento pelo Deus afectuoso e clemente.

Para a autora americana, é o ressurgimento de Métis - a deusa da sabedoria, Sofia, a Mãe Natureza, que havia sido engolida por Zeus e esquecida - e com ela a emergência da ecologia, a vinculação entre e a todos os seres, desde o próprio à Terra. Sabina Lichtenfelds chama, e põe em prática em Portugal, esta Era da Deusa, da Graça, onde o poder-saber feminino é expresso, fortalecido e correspondido. Um retorno que Maria Flávia já o havia antecipado também.

Entretanto, pelo mundo prepara-se, cada vez mais ampla e intensamente, a transição para o novo modelo de tendência mais local, descentralizada, comunitária, simples e humana. Carlos Cardoso Avelino já o escreveu há mais de um quarto de século, mas, desde os últimos anos, com o problema do petróleo, as iniciativas, a nível internacional e mesmo nacional, têm sido mais determinadas, como as experiências de formação de comunidades, ou até hortas comunitárias.

O novo modelo dirige-se, entre outros, para a alegria, o amor, a coragem, a confiança, a comunhão, a compaixão, a cooperação, a cura, e também a ética, a lentidão, a memória, a paz, a protecção, a sensibilidade, a união. Tudo parte de um novo pensamento criativo de abundância, com repercussões nas mais diversas áreas, desde as ciências socias à economia. Neste campo desenvolvem-se conceitos como a Economia baseada em Recursos, Economia da Dádiva, Economia Sagrada ou Economia Social e Solidária.

Qualquer crise é uma oportunidade de mudança, de limpeza, de arrumação, de actualização, processando, compreendendo e perdoando o passado – um momento para expressar e ultrapassar tensões, libertando espaço e tempo disponível para viver o presente, aceitando os factos e reconhecendo a realidade do aqui e agora. A actual crise, potenciada pelas condições comunicacionais e sociais presentes, a nível mundial, é uma ocasião favorável a descartar de velhos pensamentos e hábitos, repetitivos e reproduzidos, como o pressuposto da escassez de recursos, em função de uma nova criatividade digna da Humanidade.

Novos começos são propícios em ciclos “um” (e nós estamos precisamente na primeira década do século XXI) mas para tal é preciso, antes, que exista um ciclo destruidor, renovador, alimentado, segundo a tradição religiosa, pelo Espírito Santo, o transformador, capaz de dinamizar mesmo o ponto máximo de estabilidade, a Terra e o corpo físico, correspondente, do ponto de vista cabalístico, à sephiroth Malkuth.

Segundo Stuart Hall, as séries da indústria cultural veiculam a ideia de que a mudança é impossível, de que é inútil desafiar o sistema e o melhor é rir. Mas, hoje, um pouco por todos os cantos do mundo há apelos à mudança. Dentro e fora do sistema, que se distanciou cada vez mais da vida (social), há pessoas e grupos envolvidos na mudança, para além dos que têm estado nas ruas, em diversos movimentos pacíficos. Como referiu Spencer Johnson “(…) quando se muda aquilo em que se acredita, muda-se igualmente a forma de actuar”.

Já a Teoria Social clássica havia notado que se o sistema é a estrutura condicionante, restritiva, ao nível individual, a agency, constitui um espaço de acção de maior liberdade. No caso do autor jamaicano este atenta que as práticas sociais são hoje constantemente reflectidas, examinadas e reformuladas à luz das informações recebidas, com inúmeras possibilidades de mudança de identidades, reforçadas pelo aumento das migrações, da globalização e das indústrias culturais.

Mudar é não só dar, “dançar”, balancear, variar, mas também alquimizar, transmutar – fazer, como diz a sabedoria popular, das tripas coração. É um processo de alternar que inclui a alteração, a transformação, mas compreende, além dela, a renovação, a recriação – uma espécie de reciclagem, numa oitava acima. Mudar implica, pois, não só ser capaz de se adaptar e flexibilizar mas igualmente de evoluir, melhorar, avançar e elevar. Envolve movimento capaz de reequilibrar, reorganizar e reformar qualquer sistema, organismo ou estrutura.

(1) RESINA, Luís – Tarot e numerologia. Pergaminho, 1998, pág.136. (2) AIVANHOV, Omraam – Pensamentos quotidianos, Publicações Maitreya, 2010 (14/2/2010).

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quarta-feira, 28 de julho de 2010

Vida grupal

Ao completarmos três anos de actividade, mergulhamos - antes da pausa no mês de Agosto em todas as secções - num livro escrito pelo autor da corrente de Informação Solidária, que nos inspira. Em 1985, perante o perigo nuclear, Carlos Cardoso Aveline propõe uma transformação pacífica, e pela base, para um novo modelo social, político e económico (d)e uma vida comunitária auto-sustentável.

Texto Dina Cristo

A macro-economia, da sociedade industrial, deverá dar lugar à micro-economia, da era da informação e da ajuda mútua. O pressuposto da escassez de recursos, da sociedade patriarcal, e a ideia de luta, de espécies, de classes e de atenção no seio famíliar (considerada a única fonte legítima de contacto e que se reflecte no complexo de Édipo e de Electra) favoreceu a sociedade baseada na competição. A repressão emocional (carência expressa pela arte) e sexual (de modo a evitar o incesto) gerou separatividade e frustração. O poder é, então, exercido contra o outro, num modelo hierárquico, de dominação e manipulação.
O jornalista brasileiro mostra como, ao contrário desta percepção e citando os estudos de Kropotkin, de 1907, a selecção natural, entre os mais aptos, se deu entre aqueles em que a ajuda mútua venceu (o egoísmo e a preguiça). A competição enfraqueceu as espécies, ao contrário da cooperação, inata, que lhes aumentou a possibilidade de sobrevivência e lhes proporcionou um mais alto desenvolvimento. Referindo casos concretos, o autor afirma «Os mais astutos e inescrupulosos, que alguns darwinistas descreviam como vencedores, são eliminados para dar lugar aos indivíduos que compreendem as vantagens da vida social e do apoio mútuo» .
A sociedade que promove o distanciamento, a desconfiança, a inimizade, na tradição dos grandes impérios, impôs a padronização, a uniformização, a concentração, a centralização (nomeadamente da produção) e gerou uma vida escravizada, sem sentido (de que são efeito as taxas de suicídio), fragmentada, isolada e de sobrevivência. Espalhou a destruição, do Ser Humano (individual e colectivamente), da Natureza e da própria Terra.
O autor, ecologista, explicou algumas das principais ameaças ecológicas e o desequilíbrio ambiental entretanto gerado. De forma documentada decifrou as interacções entre a desmineralização dos solos, o excesso de substâncias químicas, como o CO2, a desflorestação e o perigo de uma Nova Era Glacial (para regeneração dos solos, entretanto esgotados neste final de Era Inter-Glaciar, temperada) e os sinais ora de frio e seca, com desertificação, ora de inundações, nas zonas tropicais, gerando mais refugiados e o colapso agrícola.
Como problema central, a fome (também de nutrientes e de afecto), a desnutrição dos países do Terceiro Mundo, por falta, mas também do Primeiro, por excesso. A necessidade de alimentação, lembra no início do seu segundo livro editado, ou o medo da fome é uma fonte de conflito que, para além de desvitalizar o Ser Humano, lhe provoca sofrimento, faz aumentar a fertilidade (como mecanismo de compensação e de sobrevivência da espécie), conduz à guerra e provoca inúmeras mortes.
A sociedade de imposição, que obrigou a pagar impostos aos Senhores, niilista e sem esperança, exclui o Ser Humano da própria vida e da vida em si, envenena-o, literalmente, e sujeita-o a integrar exércitos de guerra, até à irracionalidade geral. «Não há sentido em trabalhar dentro das máquinas burocráticas que dificultam, com regulamentações e controles inúteis, a vida do cidadão comum de carne e osso. Não tem sentido manter uma civilização que engendra doenças degenerativas pela má alimentação sistemática da população e produzir remédios químicos que tendem, a longo prazo, a piorar ainda mais a saúde do povo. Não faz sentido produzir tantos automóveis particulares que, primeiro, desperdiçam o petróleo cada dia mais caro; segundo, poluem o ar lançando o CO2 que nos ameaça; terceiro, criam crises de engarrafamento no trânsito; e quarto, matam milhares de pessoas em acidentes de tráfego (…)» .
Alternativas
O cenário de catástrofe levou o autor a procurar soluções, teóricas e práticas. Primeiro, a constatação de uma nova percepção do mundo, mais variada. A visão holística, mais integral, ecológica, mais inter-relacional, e informática, mais reticular, levaram a uma nova concepção da realidade, do mundo, da Natureza e da Humanidade. Com o aumento dos perigos, cresce também o conhecimento sobre as ameaças à vida e começa a nascer uma nova consciência sobre (o respeito pela) biodiversidade e, ao mesmo tempo, unidade dos seres vivos - concepções que facilitam o (re)surgimento do princípio da cooperação.
Actualmente editor do site de Filosofia Esotérica desenvolve a sua presença ao longo da evolução humana. Desde as tribos, passando pelas aldeias livres de povos como os Celtas, até às cidades-livres na Idade Média ou mesmo aos cantões da Suíça. Em comum, a vida comunitária, autónoma, baseada na co-gestão, co-operação e entre-ajuda, na decisão e construção colectiva - paciente, humilde e anónima. Um modelo democrático, abafado pela sociedade industrializada e burocrática, da série e dos números, que parte do princípio de que o Ser Humano é mau e o mundo não presta, correspondente ao dos deuses-Céu, de Jean Shinoda Bolen, assente no medo e na coação.
Olhando para os problemas globais, o autor propõe uma transição, pacífica, construtiva, de baixo para cima, no âmbito da responsabilidade individual, como salienta Johannes Hasenack, em posfácio. O objectivo é gerar confiança na capacidade colectiva de transformar a realidade, devolver a esperança e mobilizar para a acção efectiva, aqui e agora. Ensaiar experiências de novos modos de vida, mais humanos, desde o quintal ao local de trabalho, passando pelo bairro, correspondentes ao emergir do paradigma dos deuses-Terra, da referida autora, apoiado no amor, na coragem, na liberdade e na solidariedade.
Antes de mais a alteração da premissa para a abundância de recursos: há terras disponíveis suficientes para que todos tenham uma dieta adequada. A fome é resultado de uma capacidade alimentar má distribuída e não motivada por constrangimentos técnicos, como enfatiza actualmente o Projecto Vénus. Os países do Terceiro Mundo, ao produzir o que interessa às grandes potencias, descuraram a agricultura de subsistência. África, onde há milhões de pessoas a agonizar, possui mais de metade das terras cultiváveis sem utilização da Terra.
A resposta está, segundo Carlos Aveline, na descentralização da produção. Uma escala mais próxima, ao nível local e regional, municipal ou comunitário, que permita a identificação entre produtor e produto, evite os meios de transporte e produza mais e melhores alimentos. As hortas têm um papel de destaque. Caseiras, comunitárias, escolares ou hospitalares, os horticultores actuam simultaneamente ao nível da agricultura, da saúde, da educação e da alimentação; o excesso é doado, a outros grupos, ou escoado para as cooperativas, estruturas essenciais no sistema comunitário, algumas fundadas pelos antigos trabalhadores de fábricas falidas. As empresas familiares, como as fazendas europeias, também são revalorizadas.
Economia solidária
Trata-se da retoma da produção doméstica, trabalho - e não emprego - que se conjuga com lazer e prazer, devolvendo não só ao homem mas também às crianças, às mulheres e aos velhos liberdade, criatividade, tempo e significado daquilo que fazem. Resultados mais eficientes e uma atitude mais construtiva, sustentável, solidária e também mais simples, em que a pobreza é vista como a via moderada e desejável, entre a miséria e o luxo.
Praticando uma agricultura natural, localizada e de subsistência garante-se a saúde, o sustento e a preservação do meio ambiente. O reequilíbrio ambiental através, sobretudo, da reflorestação, nomeadamente com árvores nativas, sementes locais e pomares colectivos, e da remineralização, designadamente com pó de cascalho rico em minerais das rochas formadas durante a última Era Glacial. Com o solo esgotado por falta de minerais «(…) as florestas, que além de purificar o ar, evitam a erosão, conservam o solo, regulam o clima, dirigem o ciclo de evaporação e precipitação das águas (…)» enfraquecem, secam, ficam mais vulneráveis aos incêndios e não conseguem eliminar o CO2 da atmosfera.
Funções agrícolas, de protecção ambiental e também de assistência social, como é o caso do Exército da Paz do Sri Lanka, podem passar a ser a actividade normal dos exércitos, que se devem tornar, primeiro, populares, como no caso da Suíça, e, depois, serem reconvertidos para actividades produtivas. Organização autoritária, perigosa e inútil, à volta da guerra, sangue coagulado da ferida da violência, o exército é castrador de jovens, fiéis à Mãe-Pátria e fonte de insegurança internacional, defende Carlos Aveline, para quem a paz se atinge pelo Bem-Estar geral e segurança mútua e não pelo armamento.
Em causa está a revalorização do pensamento de Gandhi, renascido no Movimento Gramdan, liderado pelo seu discípulo Vinoba Bhave, e depois recuperado por A.T. Ariyaratne, através do Sarvodaya Shramadana, um movimento de libertação ao qual estavam associadas, nos anos 80, cerca de dois milhões de pessoas. O desafio é reconstruir a sociedade à margem das instituições burocráticas e do aparelho estatal centralizado. Voltar a viver a virtude, a simplicidade voluntária, o desenvolvimento local, com base na cooperação, no amor e na unidade, sob o princípio da diversidade, da inclusão e da participação.
Hoje parecem-nos naturais, mas estas ideias foram percepcionadas há 25 anos em plena corrida ao armamento e ao capital financeiro internacional. A Economia Solidária, budista como então lhe chamava o autor, teósofo, afirma o valor da vida e reinventa-a de forma mais proveitosa, reduzindo o desperdício, a poluição, as doenças, os acidentes, devolvendo às pessoas a esperança, a confiança, a criatividade, a autonomia, a alegria e a acção. Uma oportunidade para ultrapassar o pensamento bi-polar, superar os modelos europeus ou norte-americanos e fazer a síntese integradora, numa sociedade grupal que exerça o poder (de agir) com o outro, exalte a afinidade e amizade e recupere a unidade profunda com a Natureza, preservando a individualidade entretanto conquistada.

i AVELINE, Carlos Cardoso – Aqui e Agora – para viver até ao século XXI, Editora Sinodal, 1985, pág. 36. ii Idem, pág. 116. iii Idem, pág. 62.

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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Vida com Graça


Arranca amanhã a segunda peregrinação, em Portugal, em nome de Graça. Vamos saber porquê neste Dia Mundial da Poupança.



Texto e fotografia Dina Cristo



Começa amanhã uma peregrinação denominada “Terra Nova a Despertar” promovida pelo Movimento “Por uma Terra Livre”. De diversos locais de Portugal, os vários grupos juntam-se Terça-Feira, dia 6, em Sintra, de onde partirão, em conjunto, até Lisboa, onde se irá comemorar, dia 9, desta Sexta-Feira a oito dias, o Dia Global da Graça.



Este Dia foi promovido em 2005 por Sabine Lichtenfelds, desde a sua primeira peregrinação internacional a Israel, à qual se seguiram a Jerusalém, em 2007, à Colômbia, em 2008 e 2010, e em Portugal, em 2009. Este ano, a caminhada a pé decorrerá ao longo do mês de Novembro, entre oito a 29, desde o Mar da Galileia até ao Mar Morto, em nome da paz.



Embora o nove de Novembro seja o dia em que se iniciou a perseguição pública aos judeus, cerca de meio século depois também caiu o muro de Berlim. Apesar do profundo sofrimento humano inerente, na base da proposta do Dia Global da Graça está a queda de todos os muros, incluindo os internos, que separam os seres humanos.



Em vez de manifestações contra a vingança, o Movimento propõe uma caminhada a favor da reconciliação entre todos os seres - uma revolução suave, gentil e pela positiva, no âmbito «(…) da construção de uma sociedade pós-capitalista e de um futuro sem guerra», lembra o grupo português em Tamera, uma comunidade guiada pelos princípios do amor, do apoio mútuo, da verdade e da vida, entre outros

Para Dieter Duhm, trata-se de comemorar a ascensão de uma nova humanidade e forma de habitar o planeta, sem ódio e sem violência. «A energia, a água, e os alimentos estão gratuitamente disponíveis para todos os seres humanos se seguirmos a lógica da natureza e não a lei do capital»*, afirma o co-fundador de Tamera, natural de Berlim, no seu apelo deste ano.

Em vez do pressuposto da economia capitalista de que os recursos são escassos, a nova economia (como a dos recursos, espiritual, social e solidária) parte do princípio que os meios são suficientes e até abundantes, pelo que, em vez de competir, vale a pena cooperar, com benefício para todos. É um dos aspectos da Graça divina, a disponibilidade e a gratuitidade – ser grátis, de graça.



Conceito

Graça é também a protecção divina, o carisma e a caridade, a compaixão, a misericórdia, o amor. Ela é a providência divina que disponibiliza à humanidade todos os bens necessários à sua existência material e espiritual. Graça é um dom ao qual o Ser Humano deve estar grato, gratificado, agradecido, em especial no (Equinócio de) Outono, época de recolha das sementeiras, representada na cornucópia, símbolo da abundância, fertilidade e riqueza.



Em Portugal ela é aludida em nomes, ruas, igrejas, freguesias, provérbios, cultos, orações e expressões como “ser um desgraçado”, “ter graça”, “engraçar”, “estado de graça”, “Qual é a sua graça?” ou “por obra e graça do Espírito Santo”. Neste caso é uma referência à Lei da Graça ou lei das analogias, correspondente ao excerto do “Pai Nosso”, “Assim na terra como no céu”, e que, segundo H. Álvares da Costa(1), permite acesso ao Eu Superior.

Qual espelho, o inferior reflecte o superior, como na alegoria da caverna de Platão ou inscrito na lei hermética “Assim como é em baixo é em cima”. É a Graça que torna visível a luz, a vontade divina, o cosmos, o universo, espelho do Logos, o Verbo Criador, por sua vez reflexo da mente divina. É a segunda lei, a do Filho do Homem, Jesus Cristo, ou o Cristo no Ser Humano, o que lhe permite trazer o céu à terra.



A lei da Graça, base da Alquimia, permite, assim, abrir um canal e transferir a energia do superior para o inferior e revelar o Dharma, o dever de cada um, bem como transfigurar o karma, a lei do Filho da Mulher, que não conhece o pai, um nível determinístico, ao contrário da Graça, nível de livre arbítrio e potencia, em que se conhece o Pai do céu, Zeus ou Júpiter.



A premissa de que o que acontecer no âmbito do Macrocosmos se reflecte no microcosmos é precisamente a base da astrologia, para a qual Júpiter representa o entusiasmo, a fé, a esperança, o optimismo, as longas viagens, a participação e envolvimento da alma na vida social, de forma espontânea, alegre e altruísta e, sobretudo, a expansão, a abundância, a bem-aventurança, a protecção espiritual que, numerologicamente, está no zero.



Júpiter corresponde, em termos cabalísticos, à sephiroth Héssed, regida por Tsadkiel, locus das Dominações e plano da misericórdia ou compaixão, o reconhecimento de que todos são parte do corpo de Cristo, numa espécie de lei da gravidade espiritual. É a lei do Cristo-Rei, que protege os desfavorecidos e se comemora no próximo dia 25.



O amor, a misericórdia e a esperança estão também presentes no cântigo "Amazing Grace", escrito no séc.XVIII e com inúmeras versões, entre as quais as dos “Moonriders”, grupo formado em Tamera, no CD “Level Eden”, lançado em 2011. Graça é também o tema principal dos programas de rádio de Join John, “The power of Grace in your life”, com a convidada Cheryl Richardson, autora do livro “The unmistakable touch of Grace”, e de Sonia Choquette, "Grace, guidance and gifts", ambos na Hay House Radio.

«Se viverem a Graça de Cristo talvez possam ser os portadores da Graça Divina, para um mundo sedento de paz, fraternidade e ciência e uma nova sociedade nasça dos escombros das ruínas morais», afirmava há vários anos H. Álvares da Costa(2). Hoje, «As forças de transformação são mais fortes do que toda a violência. Abalam-se os montes, os mares, e os corações dos seres humanos. Das ruínas dos antigos sistemas cresce o espírito de uma nova comunidade planetária», afirma Dieter Duhm, no seu manifesto.



A Graça abre as portas da confiança cósmica, de acordo com Sabine Lichtenfelds, autora, entre outros, do livro "Grace - Pilgrimage for a Future without war". Por isso, os promotores irão fomentar a segurança para além do dinheiro, encorajando o espírito aventureiro, o contacto, o intercâmbio, a troca, a empatia e a compaixão entre as pessoas durante a peregrinação até à celebração do Dia Global da Graça, a protecção da vida e um futuro mais humano ou, como apela a co-fundadora da comunidade no Alentejo em manifesto, redescobrir e tornar realidade a imagem original e intacta de uma Vida Sagrada para um mundo melhor.

(1) COSTA, H. Álvares – Lei da Graça – Lei das Analogias – assim na terra como no céu. Colecção Teosofia básica para um novo homem. Ed. Sociedade Teosófica de Portugal. s/d. (2) Idem, contracapa. * Sublinhado da redacção.

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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Vida inteligente



Na semana em que recomeçam as aulas, reflectimos sobre a natureza, tipologia, poder e efeitos do pensamento.

Texto e fotografia Dina Cristo


Há duas formas de pensar. Uma é com lógica. É própria do intelecto, é estratégica, astuta, interessada, pessoal e apaixonada; é confusa, `animalesca`, intoxicante, venenosa ou, como diria Kant, impura. É a razão calculista, egoísta, agressiva, separatista e analítica, dos impulsos e inclinações. Está ligada às sensações e corresponde à esperteza. A outra é com amor. É própria da inteligência, é natural, desinteressada, impessoal, desapegada - pura; é clara e esclarecida, verdadeira e curativa. É natural, “nutritiva”, amorosa, humana, comunicativa e sintética.



É a razão distorcida, do pensamento concreto, que, tendo em conta o desenvolvimento humano, deve ser controlada, dominada, domesticada, orientada e direccionda. Pelo contrário, a razão pura, do pensamento abstracto, deve ser libertada. Óscar Quiroga escreveu «Você deve perguntar-se constantemente a respeito do pensador interno para que a mente seja instrumento útil em vez de chicote que invade seu tempo com idéias para lá de absurdas e inconsistentes. Dominar a mente é a próxima etapa evolutiva de nossa humanidade» .

O Ser Humano, que possui consciência individual e vontade própria, tem capacidade para melhorar e aperfeiçoar o seu modo de pensar. Este pode tornar-se melhor, mais qualitativo, subtil, “afiado”, despoluído, belo, universal e tranquilo - como acontece na passagem para a lentidão, da consciência alfa, em que um neurónio se descarrega entre sete a 14 ciclos por segundo de informação e o pensamento predomina sobre a acção – e mais elevado, através do foco em ideias nobres – como a solidariedade - e ideais, como a sonhada fraternidade universal.

Também é possível substituir os pensamentos negativos, analíticos, repetitivos, críticos, problemáticos, obscuros, pesados, de carência (como o pressuposto da economia capitalista), inúteis e destrutivos, que provocam enfraquecimento, aprisionamento, fatiga e doença por outros mais positivos, criativos, de síntese, aceitação, leveza e abundância (como a economia da dádiva), orientados para as soluções - úteis e construtivos, que promovem o fortalecimento, a libertação e a saúde.

Contudo, transitar de pensamentos viciosos, como o medo, a inquietação, a preocupação ou o desânimo, para pensamentos virtuosos, de confiança, tranquilidade e ânimo implica um esforço, dada a frequência habitual dos primeiros e o grau de dificuldade da mudança. Evitar a dispersão, treinando a concentração é essencial. Como uma espécie de combustão, ao inflamar, o pensamento focado – no Bem - além de proteger, potencia a purificação dos detritos ou resíduos tóxicos, provocados pelos pensamentos negativos, demasiada informação e não processada.



Há cerca de um século, Erich Scheurmann, o chefe da tribo dos tiavéa, retratava o pensamento dos europeus, os Papalagui, como vão, contínuo, rápido, excessivo, ruidoso como «a grave doença de estar sempre a pensar», provocando velhice, feiura, divisão, paixão, conflito, tormento, orgulho, embriaguez, sobrecarga, cansaço e tristeza. Quanto aos livros, as «esteiras com pensamentos», afirmava: “quem absorver esses pensamentos ficará imediatamente contaminado, e eles ingerem essas esteiras como se fossem bananas doces. Em cada cabana há baús cheios delas a transbordar. Velhos e jovens Papalaguis roem naquilo como ratos em cana de açucar» .



Entre o excesso de pensamentos e a falta de consciência há que procurar o equilíbrio. Mais difícil ainda talvez seja a gestão da sua ligação aos sentimentos, que influencia. A razão pura inclui e não exclui o amor, ela corresponde ao nível ético em que se cumpre a lei desinteressadamente, por amor a ela, sendo a lei máxima, amar o próximo como a si próprio, como se conclui do livro "Crítica da razão prática", de Immanuel Kant. Daí o provérbio chinês: «Recorda-te sempre da boa acção e nunca da injúria».



Falando metaforicamente para discípulos, Omraam Aivanhov aconselha a dar prioridade ao pensamento. Se os sentimentos são importantes porque constituem uma espécie de “maquinaria” que faz mover e avançar o “navio”, deve ser a cabeça, que está no topo do corpo humano, a funcionar como um capitão que decide a direcção, observa, orienta e dá ordens, fazendo-o chegar a bom porto. Como Carlos Cardoso Aveline referiu «A habilidade de pensar é muito nova, e ainda perturba a coordenação das sensações e dos gestos concretos» .



Os pensamentos filtram e influenciam o que se sente, por sua vez os sentimentos influenciam o olhar e filtram as acções. Pensar é criar: «Tudo é criação da mente», como escreveu Fernando Nené. Tal potência está expressa ao nível religioso (com o poder criador do Verbo) como ao nível científico, com o construtivismo - sendo dada cada vez mais importância à imagem porque não apenas representa o mundo mas também o recria e forma. Assim se constroem realidades mais ou menos vastas ou limitadas consoante o pensamento original. Para Omraam Aivanhov, o pensamento é uma entidade viva, que deixa marcas visíveis ao ponto de esculpir o próprio corpo. «(…) conhecer a natureza da mente é saber a origem de todas as coisas» lê-se no Livro Tibetano da Vida e da Morte.

Como publicou a revista Rosacruz , os pensamentos são uma espécie de gema que influencia a clara, o ambiente. Flávia de Monsaraz afirmou que “a energia segue o pensamento”. Dieter Duhm declara a propósito do seu poder: «Através de pensamentos e visões são construídos campos de energia e de informação invisíveis que não possuem nenhumas fronteiras espaciais (…) a partir dos quais o mundo visível surge». Cada pensamento é uma semente da qual depende o futuro. É preciso, pois, peneirar o trigo do joio, queimar a má colheita como se faz às ervas daninhas, e guardar a boa no celeiro para mais tarde a semear.



O documentário “Que raio sabemos nós?” trata esse bit de informação concentrada, que é o pensamento, do ponto de vista de onda, quando ao olhar se “vê” infinitas possibilidades de escolha, e de partícula, em que apenas se observa de forma objectiva. O mesmo vídeo considera o impacto dos pensamentos para além água, conforme estudado por Massaru Emoto. A pergunta é: se os pensamentos provocam a (de)formação de cristais de água, com as mais diferentes cores e formas conforme a natureza dos que são expressos - quanto mais elevada for a ideia mais harmoniosa e bela a forma geométrica - que farão às pessoas, que são constituídas essencialmente por água?



Os pensamentos emitem frequências (incluindo sobre objectos) que, segundo a lei do feed-back, realimentarão a sua própria fonte; depois de formados lançam-se em todas as direcções à volta de quem os emitiu. Daqui, como também do seu poder de realização, decorre a responsabilidade por cada pensamento emitido e transmitido, o cuidado a ter com a focagem no mal, na crítica investindo, em vez disso, no agradecimento e reconhecimento – caso em que, para Omraam Aivanhov, permite renovar a matéria, tornando-a ao mesmo tempo mais resistente e sensível. Enquanto mente dual, como uma escada rolante, ela tanto pode projectar a Humanidade para andares superiores, o “paraíso”, ou inferiores, o “inferno”,”lugar” subterrâneo sem luz, calor, ar ou espaço, como lembra o autor búlgaro.



A substância mental corresponde à intenção e permite a comunicação, a ligação do Ser Humano com a sua essência mais profunda, com as outras pessoas (a ligação mental, pelo amor ou pelo ódio, é habitualmente mais forte do que a física), com a Natureza (e a sua linguagem universal e silenciosa) e com o mundo divino. Contudo, este capital mental sofre várias vezes de apego - provocando uma obstipação “cerebral”, resistindo a prescindir das ideias ultrapassadas, ou diarreia mental, quando não é aceite a chegada de novas ideias – ou ainda de orgulho, falta de integridade mental, preguiça ou indolência, quantas delas provocadas pela indústria cultural, como explicou Theodor Adorno, que as adormece, infantiliza, reprime, domestica e “hipnotiza”.



O facto dos dois hemisférios do cérebro estarem frequentemente desequilibrados e por vezes fortemente desligados dificulta o processo de desenvolvimento mental. Enquanto o lado direito, da mente mais abstracta, concentra-se no todo, é mais subjectiva, imaginativa, compreensiva, não sequencial e produz pensamentos mais complexos e também mais flexíveis e divergentes, o lado esquerdo, da mente concreta, critica, analisa, pormenoriza, calcula, classifica, compara, separa e dispersa, actuando de forma estratégica, linear, objectiva, parcial e produzindo pensamentos directos e dominantes. É esta racionalização fria, intelectual mas não inteligente, que se manifesta em diversos sistemas, nomeadamente o administrativo, através da burocracia.

Foi a mente que permitiu ao Ser Humano criar cultura, fazer ciência e, ao ter valores, a ética, discernir o bem do mal, ser lúcido e esclarecido. Contudo, os Humanos têm-se pensado a si próprios como pecadores (pela religião) ou manipuláveis (pela ciência). Hoje, porém, têm condições para assumir o poder de se governar, de se tornar criadores benéficos, ao conduzir os seus próprios pensamentos para a verdade, para o bem comum, procurando abrir espaço para o silêncio e, ao ultrapassar as nuvens mentais no céu da intuição, o sexto sentido, provocar a cura. «Porque o pensamento que nos permite compreender também nos permite agir: ele é algo mais do que uma simples faculdade que tem por objectivo o conhecimento; ele é a chave de tudo, é a varinha mágica, o instrumento da omnipotência» .



Através do pensamento, é possível purificar a matéria, dar sentido aos gestos, fazer acupunctura mental ou proporcionar a mudança social. Para Dieter Duhm, «A humanidade tornar-se-á também capaz de mudar rapidamente e facilmente as estruturas materiais através do poder do pensamento». Os pensamentos circulam e, positiva ou negativamente, irão influenciar algures uma acção; como diapasões despertam ecos noutras mentes receptivas e sintonizadas. Daí a importância de o melhorar, focá-lo na pureza da impessoalidade, recuperar a naturalidade e aprender a despreocupar - sobretudo em lua vazia, como defende Óscar Quiroga, uma forma mais eficaz de descansar do que nada fazer.

Roberto Carlos recomenda, em “Não quero ver você triste assim”, «Esqueça o mal, pense só no bem que, assim, a felicidade um dia vem». Pensar no bem ou no mal constitui um poder pessoal e, embora seja uma decisão difícil, como uma pedra que se deixa cair o movimento vai acelerando, com as suas benfeitorias ou malfeitorias. Costa Alves e Joaquim Soares já relacionaram os padrões de pensamento com as anomalias climáticas, por exemplo. A própria ideia de mente, de um sujeito, está a ser reintroduzida na própria ciência, quer ao nível do observador quer do observado.



O desafio é, assim, transmutar os pensamentos com lógica, frios, interessados e separatistas, em pensamentos com amor, calorosos, desapegados e comunicativos. Tal processo implica uma aprendizagem e mais facilmente pode ocorrer depois dos 21 anos, altura em que finaliza a consciência ainda animalizada. Depois disso, há que ultrapassar os obstáculos internos - a que Carlos Cardoso Aveline chama a luta sem tréguas, no campo de batalha mental, entre a verdade e a ilusão – e os externos, que, como a indústria mediática ao serviço do ruído, reprimem o florescimento da inteligência espiritual.

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