quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Jornalismo de interesse público



Na véspera da litúrgia relativa ao patrono dos Jornalistas, S. Francisco de Sales, recuperamos o conceito de jornalismo público*, a assinalar vinte anos.

Texto e fotografia Dina Cristo
No jornalismo tradicional os profissionais controlavam todo o processo de produção de informação, desde a recolha à sua publicação. Aos receptores era dada apenas a possibilidade de reagirem, escrevendo, “a posteriori”, uma carta ao director. Perante o afastamento dos leitores e a crise de imprensa, nasceu nos EUA, em 1993, uma nova proposta de exercício do jornalismo: o jornalismo público que passa a liderar a mudança de relacionamento entre profissionais e audiência.
Com o objectivo de promover o aumento de vendas e recuperar a ligação com os leitores, o jornalismo público visa sobretudo envolvê-los nos assuntos públicos. Já que a internet havia retirado efectivamente o privilégio do fabrico do produto informativo aos profissionais, estes aceitaram oferecer aos leitores, telespectadores, ouvintes e usuários um papel na participação na elaboração dos conteúdos das notícias. Desde então o jornalismo público tem vindo a experimentar parcerias privadas na recolha e produção de notícias, embora reserve para si a publicação.
São três os seus principais objectivos. Ligar-se aos problemas das pessoas (comuns), dando-lhes a possibilidade de se expressarem sobre assuntos públicos, o que implica a noção de pertença, partilha de experiências, interacção, vínculo e espaço social, ultrapassando o lugar geográfico - a comunidade. Envolver as pessoas na contribuição para os assuntos públicos, mantendo-se informadas sobre a agenda pública e política, assumindo-se enquanto cidadãos, o que implica vontade, respeito, informação e igualdade de oportunidades de expressão - a cidadania. Debater e discutir os temas, opções, perspectivas, posições e informações em agenda, procurar soluções e decidir de forma inteligente - a deliberação.
Esta reconexão com o público tem-se concretizado sobretudo em três modelos: o jornalismo interactivo, em que o público pode participar mas apenas após a publicação, ao nível informativo, no conteúdo – através de uma leitura não linear e de uma escolha mais complexa – e ao nível comunicativo, na relação interpessoal – através do uso de correio electrónico, espaços de debate,  discussão e comentário. O jornalismo participativo em que os usuários recolhem e enviam conteúdos noticiosos, sobretudo fotografias, ao nível hiperlocal e de forma voluntária, como ocorreu no âmbito do Tsunami, em 2004. O jornalismo de cidadão em que os cidadãos realizam todo o processo produtivo, desde a recolha à publicação, passando pela produção e selecção, desde as fontes ao enquadramento noticioso. É o mais envolvente de todos, o que mais se liga às comunidades de leitores e o que melhor se tem desenvolvido. Geralmente exercido através de blogues, os primeiros a reportar, necessitam dos “media” tradicionais para exercerem a sua influencia e se tornarem (re)conhecidos, afirma Joyce Nip. São uma forma de jornalismo legítima desde que contenham entrevistas originais, reportagens e análise de acontecimentos públicos. Um dos maiores e melhores exemplos é o Indymedia, do Independent Media Center.
Mas até que ponto, questiona a autora, estes modelos de jornalismo têm contribuído para os fins do jornalismo público? No caso do jornalismo on line, por exemplo, as potencialidades, como a interactividade, não têm sido suficientemente aplicadas, pelo contrário a reprodução de produtos existentes nos media off line revelou-se frequente.
Desaproveitamento
Não bastam existir canais de comunicação com o público, caso dos endereços electrónicos, links, comentários a posts, é preciso que sejam usados, o que não se verifica em número suficiente, como no caso da falta de respostas aos @mails por parte dos profissionais. No caso dos arquivos, notícias personalizadas, sondagens e hiperligações facilitam o engajamento do público nos assuntos comunitários, contudo a sua optimização está aquém do necessário. Para o estímulo à conversação, com comunicação (a)síncrona, é imprescindível a administração e o agendamento dos assuntos para debate.
Apesar das finalidades de estreitamento da relação com o público, o jornalismo público, na prática, tem-se mostrado débil. Os blogues com mais sucesso reportam sobretudo as preocupações da elite; os dos jornalistas são os mais credíveis e confiáveis pelos “media” de mainstream que os citam e publicam e com os quais os próprios profissionais se relacionam; as hiperligações para websites oficias são menos comuns tal como é rara a oportunidade de conversação entre participantes; nos chats a tendência é convidar pessoas já conhecidas; a ligação entre as comunidades on line e off line está por fazer e a esfera pública on line, principal plataforma da prática dos modelos interactivo, participativo e de cidadão, não só também exclui como o faz de forma ainda mais extrema.
Para além das dificuldades de recursos (financeiros) e literacia (tecnológica) de vários membros das comunidades acresce o excessivo controlo administrativo, incluindo a pré-censura, e uma forma selectiva dos temas em debate insuficientemente democrática para o nível de deliberação pública pretendido.
Se a Web trouxe ferramentas inovadoras e forneceu novas oportunidades de concretização dos objectivos do jornalismo público também aumentou a complexidade das tarefas. Ainda assim, os seus princípios no âmbito do fornecimento de uma informação completa e na representação de todos os pontos de vista, na aceitação de formas diferentes de construir histórias, incluindo composições, enquadramentos e acções alternativas, com vista à compreensão dos temas, a ênfase nas possibilidades de soluções e na agenda pública, para além da estritamente política e mediática, são valiosos contributos para o desenvolvimento da actividade jornalística. 
De uma audiência tradicionalmente ignorada, onde apenas eram ouvidas as fontes especializadas ou governamentais, esta passou a integrar o próprio processo de fabrico, em diferentes graus de participação e actividade. Entrámos na segunda fase do jornalismo público, com a audiência a tomar a iniciativa e a ultrapassar as acções dos próprios meios de comunicação social.
Apesar das potencialidades da Web estarem sub-aproveitadas, a verdade é que com a facilidade da auto-publicação e a popularização dos blogues, a maior parte dos profissionais acredita que o futuro da imprensa depende da interactividade com o público ao que o autor acrescenta vantagens de um trabalho em rede que beneficiaria ambos, cidadãos e profissionais.
O envolvimento das comunidades, previsto e pretendido pelo jornalismo público há duas décadas, foi superado pela própria dinâmica tecnológica e motivação do público, cada vez mais envolvido na procura, realização e discussão dos assuntos comunitários. O objectivo de ir para além da mera informação, os dados, e atingir a comunicação, a relação com os receptores, foi promovido pelas próprias circunstâncias e condições técnicas.
Contudo, ainda assim, de uma forma geral, é o profissional que exerce o “gatekeeping”, é ele que tem o poder de escolher, editar e publicar os conteúdos informativos. Talvez esta resistência a perder o controlo do monopólio da (definição da) informação explique a actual controvérsia e enfraquecimento do jornalismo público, com a anterior directora do Pew Center for Civic Journalism, Jan Schaffer, a fundar projectos no âmbito da cidadania.

* Seguimos o artigo de NIP, Joyce – Exploring the second phase of public journalism in Journalism Studies, vol.7, nº2, 2006, pág.212-236.

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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Jornalismo de Paz



Antes do Dia dos Jornalistas pela Paz, Sábado, seguimos de perto o artigo* do especialista Jake Lynch sobre o "Peace Journalism".

Texto e fotografia Dina Cristo

O actual interesse (teórico) e emergência (prática) de um jornalismo de paz tem a sua origem nos estudos de Galtung e Ruge, nos anos 60, e de MacBride, nos anos 80. Ambos mostraram as fragilidades do jornalismo convencional, dominado pela guerra.


Johan Galtung e Mari Ruge mostraram como os principais critérios jornalísticos – a amplitude, o inesperado, a negatividade, a frequência e a clareza – são uma escolha sistemática dos profissionais. Os três últimos conduzem quer ao privilégio dos acontecimentos, em detrimento dos processos, quer do dualismo – o costume de contar dois lados da história, o que impulsiona, ainda mais, o conflito.

Por seu lado, os dois últimos factores de noticiabilidade criam padrões de omissão – os processos positivos que beneficiam grupos e países de menor poder, riqueza, influência ou expressão – e inclusão, que conduz à preferência pelas fontes oficiais como preponderantes na definição e representação nas notícias.

Desta forma, a reportagem de mainstream tem-se orientado para a violência (o conflito entre duas partes a reivindicar apenas o objectivo de vitória), as elites (o privilégio dado a fontes oficiais, líderes políticos e militares), a propaganda (atenção às falsidades) e à vitória (saindo os repórteres assim que a guerra termina).

Mais tarde, MacBride, num estudo encomendado pela UNESCO, confirmava o desequilíbrio do fluxo de notícias a nível mundial, com os países materialmente ricos, com os EUA, a liderar como a principal fonte de notícias internacionais. O alinhamento de notícias pelas nações ainda se aplica; muito do consumo mediático é nacional na sua origem e orientação, apesar do enfraquecimento dos limites políticos pela expansão e desenvolvimento acelerado das Tecnologias de Informação e Comunicação. Há, no entanto, o risco de tal ser conotado com solidariedade em detrimento da opressão.

O hábito da citação oficial decorre da estratégia comercial da imprensa. Para vender mais jornais, acessíveis a qualquer ponto de vista político, era necessário apresentá-los de forma neutral, objectiva e imparcial. De facto, as fontes oficiais garantem a rotina jornalística, satisfazem as suas necessidades de recolha de informação de fundo e de declarações credíveis, lançando um “self serving declarations”, devidamente escrutinados pelos seus porta-vozes. São ambos sistemas institucionalizados, burocratizados, cristalizados que se asseguram mutuamente.

A sua eficácia produtiva gerou, contudo, um problema de abuso e de dependência. Só quando um acontecimento se torna preocupação oficial num dado país é que os seus jornalistas se interessam. Se, por outro lado, problemas houver que não convenham aos dois maiores partidos da democracia representativa - cujo foca se limita à dissidência e controvérsia, o que enfatiza ainda mais a oposição e dualidade – ele é ignorado ou cai da agenda.

Novo paradigma

Não é raro encontrar pessoas com uma visão de paz no âmbito de uma experiência de sofrimento decorrente da guerra. Contudo não são escutadas, vistas ou reportadas porque ou são afectadas pelos conflitos ou porque são pouco poderosas. Por seu lado, os líderes políticos, a quem os “media” prestam subserviência, privilegiando-os como fontes de informação primordiais, raramente dão um passo em prol da paz.

Contudo, desde a invasão do Iraque, em 2003, que o oficial perdeu significativa credibilidade e o militar entrou em crise de legitimidade. Acentuou-se a divergência entre a opinião política e a opinião pública, com os públicos dos países aliados cépticos (como a Austrália em 2008) enquanto os governos enviavam tropas para auxiliar os EUA. Na verdade, quando a imprensa designa Washington ou Londres quer-se referir à classe política.

O uso da força, monopólio das organizações políticas estatais, como lembrava Max Weber, só era aceite pelos americanos sob certas condições. Uma resposta a um conflito que ultrapassa a lei internacional, nenhuma vez mencionada, tal como a Carta da ONU, em qualquer dos 70 editoriais estudados por Friel e Falk sobre a ocupação do Iraque.

As instituições mediáticas, corporativas, autênticas indústrias culturais, com as suas estruturas, hábitos, usos e costumes atendem não só às suas próprias necessidades como às do sistema capitalista – motivo da sua desconexão, formal, com outros agentes importantes [como as ONG]. Porém, aumenta o nível de debate e contestação sobre a representação noticiosa dos conflitos. Segundo Michael Schudson, um dos muitos autores referidos por Lynch, o jornalista não pode aparecer como menos bem informado do que o seu público.

No presente

O activismo mediático, que desafia o padrão dominante de reprodução nos “media” globais, enfrenta hoje uma pronta e vasta oposição por parte dos jornalistas - caso de David Randall, do “Independent”, e David Loyn, da BBC – e dos círculos académicos – como Hanitzsch. Para este crítico, a paz, enquanto objectivo externo, ameaça os fins internos do jornalismo.


Pelo contrário, Jake Lynch defende que o Jornalismo de Paz (JP) é um instrumento para melhor os realizar, não só a correcção, pois a imagem que a audiência frequentemente recebe do conflito é menos pacífica do que os factos confirmam, como a justiça, com uma cobertura mais orientada para as pessoas, para as soluções e para a paz.

O "Peace Journalism" defende que o conflito enquanto problema pode parecer bastante diferente se for examinado por ângulos distintos pelos que o experienciam, o povo que está no terreno, na vida de todos os dias. Neste modelo o jornalista está preparado, procura e transmite iniciativas em prol da paz, quaisquer que sejam a sua proveniência, e representa as múltiplas e variáveis partes em conflito, perseguindo diversos objectivos e com várias oportunidades de intervenção.

O JP é, pois, uma oportunidade para colocar as respostas não violentas no debate público, para que a sociedade as conheça e valorize. A pesquisa e esclarecimento a nível mais profundo e contextual das iniciativas pacíficas é uma forma de resistência à guerra, ao terrorismo e um desafio às relações de domínio, na ordem económica, política e social mundial. E apesar das distorções e manipulações nos relatos jornalísticos tem havido maior abertura e aceitação desta prática profissional.

Exemplares


Desde o “Peace News”, já com 75 anos, ao recente “Sydney Morning Herald”, que lançou a campanha “Hora do planeta”, passando, de uma forma geral, pelo jornalismo alternativo e a “penny press”, o Jornalismo de Paz embora de uma forma descontinuada, em termos de tempo, e envergonhada, em termos de espaço, tem vindo a marcar presença (às vezes mesmo de forma pouco consciente, como o caso de David Loyn que respondeu ao autor afirmando que não fora sua intenção fazer JP).

A seguir à queda de Suharto na Indonésia, o maior jornal, “Kompas”, adoptou o “jurnalisme damai” como política editorial; o jornal de Jakarta, “Sinar Harapan” relançou o slogan “O jornalismo de paz representa a esperança de que podemos viver juntos” e a Associação Internacional de Jornalistas ajudou a encontrar um espaço seguro, em Ambon, para os repórteres contactarem com o ponto de vista do outro lado e, assim, contribuir para um mútuo entendimento.

Nas Filipinas, país com longa tradição ao nível da imprensa clandestina anti-colonial, o maior jornal “Philippine Daily Inquirer” alcançou o objectivo para o qual fora criado em 1985: contribuir para o fim da guerra. No conflito entre Israel e o Líbano, em 2006, Shinar encontrou uma notável limitação da penetração do discurso militar e uma considerável atenção às fontes orientadas para os civis. No caso do Afeganistão, Hackett e Schroeder identificaram perspectivas de múltiplas partes em conflito bem como critérios de Jornalismo de Paz em cerca de 3/10 dos artigos estudados.

Quando as excepções proliferam no modelo actual é sinal de que um novo paradigma está a surgir. Para tal, contribuem os activistas de “media”, que tomam iniciativas em prol da mudança a três níveis: dos jornalistas, com acções pedagógicas com vista à diminuição do uso da linguagem militar (e de vitimação); da audiência, com acções educativas e críticas com vista à consciencialização em relação à importância da linguagem como condutora, indirecta, da violência ou da reconciliação e harmonia social, de acordo com o discurso, e, por fim, dos meios, com a fundação, por uma agência da ONU, de um Banco de Desenvolvimento de “Media” como uma forma de criar mais meios com base no JP, de modo a formar um sistema de ética mediática à escala global.
Dov Shinar que fez o ponto da situação em relação ao Jornalismo de Paz, em 2007, actualizou as recomendações de MacBride sugerindo o trabalho em rede da imprensa independente, o treino em literacia mediática, para jornalistas e audiência e a garantia de acesso das minorias, sobretudo aos novos “media”. Uma exortação para que se encontre um lugar na actual prática noticiosa para o Jornalismo de Paz.



Um remédio para as influências nefastas dos critérios adoptados pelo jornalismo tradicional, nomeadamente na sociedade ocidental, liberal e individual e a defesa de que se podem e devem alterar as escolhas, sobre que histórias contar e como, tendo em vista a perversidade de invasões a outros países, como as ocupações recentes no Médio Oriente e na Ásia, em pleno séc.XXI ao que se juntam os efeitos de stress causados na audiência por um Jornalismo de Guerra.

* LYNCH, Jake – Peace journalism in ALLAN, Stuart (editor) - The Routledge Companion to News and Journalism. London and New York, 2010, p.541-553.

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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Jornalismo social III


Hoje, precisamente, completamos cinco anos de actividade semanal contínua. Antes de interrompermos, em Agosto, regressamos às nossas origens.

Texto  Dina Cristo imagem Cais

Desde há quase 20 anos que o jornalismo público se propõe recuperar a ligação perdida com os leitores, manifestada numa crise de imprensa, após a aplicação dos valores da objectividade e falsa neutralidade e imparcialidade, decorrentes de uma má interpretação da razão iluminista, autónoma e independente, e que degenerou num distanciamento, alheamento e indiferença perante o universo do público.
Conscientes acerca do quanto se haviam afastado dos destinatários, os jornalistas cívicos apresentaram três principais objectivos: a comunidade, a cidadania e a deliberação. Pretendiam agora envolver o público, levá-lo a interessar-se pelos temas públicos, motivá-lo a informar-se sobre os assuntos mediáticos, políticos, económicos ou militares e conduzi-lo à discussão e ao debate dos mesmos.
A sua intenção – medida para o valor moral de uma acção, segundo Kant – era sobretudo comercial, a recuperação das tiragens, em queda. A proposta traduzia-se em aumentar ainda mais a presença das elites em detrimento da inclusão dos problemas das pessoas comuns na agenda mediática. Assim, se esculpiria ainda mais o fosso entre os sub-sistemas e a lifeworld - os anseios, as acções e os sofrimentos dos indivíduos na sua vida de todos os dias.
Entretanto, o desenvolvimento das ferramentas digitais e a multiplicação de possibilidades e facilidades de publicação on line pelos cidadãos elevou a desejada contribuição do público. Com a Web passou a ser possível recolher, seleccionar e publicar histórias, sem controlo por parte de qualquer profissional e “desalinhadas” dos critérios jornalísticos convencionais.
Em alguns casos as atitudes dos cidadãos ultrapassaram a pretendida participação, limitada à recolha e envio de material, nomeadamente fotográfico. Este caso - em que o trabalho voluntário do cidadão é estimulado e usado pelas empresas que mantêm o poder de seleccionar e publicar – vai um pouco mais além do que o jornalismo interactivo, em que o cidadão apenas pode intervir após a publicação dos artigos, mas fica um pouco aquém do jornalismo de cidadão, onde todo o processo de produção é realizado pelo autor, como defendia Walter Benjamin.
Nesta segunda fase do jornalismo público as acções dos cidadãos ultrapassaram as próprias empresas que se sentiram obrigadas a acolher, de uma forma mais generalizada, os materiais enviados pelo público, não sem, contudo, resistirem à perda do exclusivo de informação exacerbando ainda mais o seu controlo. Como refere Sparks(1) «o tipo de material que tem maior sucesso on line é o que remete para os problemas da elite, e a esfera pública on line encarna o mesmo tipo de exclusões que estão presentes off line, mas numa forma mais extrema».
A par do discurso propagandísticos e demagógico, que afirma estar ao serviço da igualdade, pluralidade ou democraticidade, na prática o que se verifica, como demonstrou Lincoln Dahlberg, é o aprofundamento das desigualdades - desde as mais básicas, como o desnível de acesso, às mais elaboradas, como a produção do próprio discurso -, as exclusões, do diferente e particular, e a supremacia das ideias, vozes e grupos que já são bem vistos e predominam, quer na vida quer nos sub-sistemas.
O jornalismo público, que também se afirma cívico, mais focado no utilitarismo do que nos princípios, arrastado pelo empirismo, vê, afinal, os seus proclamados objectivos, como os de religação à audiência ou de oportunidades de expressão, informação e deliberação, por exemplo, ser mais e melhor atingidos por novas formas de fazer jornalismo, resistindo perante a efectiva participação e envolvimento da audiência, o que nos leva a questionar se os seus verdadeiros interesses não são efectivamente corporativos, privados e particulares.
O jornalismo público responsabiliza a audiência pelo dever de se interessar pelos factos que habitualmente integram a agenda mediática em detrimento de assumir a recuperação de uma agenda social, a par da política e da económica, que privilegia, de se ligar, dedicar e preocupar com as pessoas, público e fontes, e seus anseios, problemas e sofrimentos, nomeadamente em relação a grandes sectores da população como pobres, mulheres, cuidadores, sofredores ou vítimas. Afinal, trata-se de temas públicos que merecem atenção e deliberação pública.

Jornalismo alternativo

Além do jornalismo de cidadão (com o caso exemplar do Indymedia), um dos três tipos ao serviço do jornalismo público, segundo Nip Joyce, existem novas formas de reportar a actualidade que dão resposta a, pelo menos, algumas das dúvidas levantadas por autores da Escola Crítica de Frankfurt, nomeadamente a segregação e discriminação de largas camadas da população inseridas na vida do dia-a-dia e ocultadas, invisíveis e silenciadas nos sub-sistemas, como a indústria cultural mediática.
As novas formas de exercício do jornalismo representam e reintegram, de forma mais atenta e cuidadosa, as partes marginalizadas pelos principais meios de comunicação social. No caso da imprensa alternativa, esta constitui mesmo uma esfera pública alternativa, onde se informam e debatem, não só em livrarias alternativas mas já em “infoshops” especializadas, assuntos preteridos pelos “media” convencionais, ligados a causas pontuais ou grupos de interesse.
Trata-se com novos canais de comunicação, com ênfase na actividade, movimento e troca, na qual experiências, críticas e especificidades se podem expor e desenvolver através do estímulo ao pensamento livre, autónomo e independente do Estado, numa relação vital com os movimentos sociais, que esta imprensa reporta, suporta e desenvolve, pela transmissão de ideias dissidentes e mesmo radicais.
A imprensa alternativa está, pois, associada a minorias, isto é, grupos sub-representados nos “media” tradicionais tendo em vista a sua expressão na vida real, como ambientalistas, anarquistas(2), feministas, jovens, operários, pacifistas, pobres ou socialistas. Introduz, portanto, novos actores sociais, oprimidos e/ou marginalizados e articula, pelo menos, a agenda política com a social, conforme defende Alicia Cytrynblum.
A imprensa alternativa não reduz o indivíduo a um mero objecto manipulado mas capacita-o para se realizar como ser humano total, preferindo integrar os seus escassos recursos na vida dos seus participantes. Não concebe o ser humano como um meio, mas com um fim em si mesmo, em sintonia com Immanuel Kant, para quem o ser humano era sagrado e, portanto, não podia ser usado por ninguém como mero meio.
Comprometida contra o capitalismo, a favor de uma vida humilde e da acção social e política tendo em vista uma mudança social, por um todo mais equitativo, tão ou mais importante do que a informação é, na imprensa alternativa, o modo de produção, em auto-gestão, em comunicação horizontal, do escritor ao leitor, a atitude e posição nas relações de produção.
Coerente com os seus valores, a participação aplica-se ao ponto de incluir os leitores nas suas decisões e ao tornar a audiência em produtora. A criação é mesmo um dos seus pontos fortes, próprio da alta cultura, com tensão e distinção, tal como explicado por Adorno, ao contrário da mera cultura de reprodução dos “media” mais reconhecidos, o mais vulgar.
Consequente, a imprensa alternativa defende a aplica os baixos níveis de finanças, direitos autorais, circulação ou distribuição ou mesmo de graus de abertura, liberdade e gratuitidade. Possui, normalmente (muito) pouca publicidade, embora seja receptiva a donativos e acções de beneficiência, nomeadamente ao nível de concertos, e realiza-se com base no voluntariado.
Actuando no âmbito descentralizado, de micro-empresa, não comercial, exerce uma organização colectiva e pugna pela diversidade, a sua essência e a sua força democrática, defende Chris Atton que cita o Oxford Institute of Social Disengineering: «uma centena de publicações com uma circulação de mil é cem vezes melhor do que uma publicação com uma circulação de centenas de milhar»(3).
Além de dar voz às partes colonizadas pelos sub-sistemas, esta imprensa permite igualmente aproximá-las quando, por exemplo, no caso das revistas de rua, como a “The Big Issue”, facilita a conversa entre compradores e vendedores (seis mil em Inglaterra), os mesmos indivíduos que ali são retratados. Nas conversas que se proporcionam, nomeadamente sobre o problema da falta de habitação, o bloqueio entre “nós”, os centrais e integrados, e “eles”, os periféricos do sistema, dissipa-se ou atenua-se.
Nestes casos as publicações promovem o trabalho, alguma remuneração e aumentam consideravelmente a auto-estima, ao contrário da imprensa regular que a diminui, instala complexos, desrespeito pela auto-imagem e adormece a identidade do público através da “chupeta electrónica” sedutora mas perigosamente alienante, manipuladora e escravizante. Ao contrário, a imprensa alternativa esforça-se por repor o princípio da justiça.
Criada e distribuída para os indivíduos para as quais existe, esta imprensa, ligada às necessidades comuns das pessoas e à vida de todos os dias, opta pela partilha de recursos, até como potencial educativo de ânimo à participação, em detrimento da determinação económica ou da competição directa com os mercados ou modos de produção da imprensa convencional.
Uma imprensa activa, motivada para o desenvolvimento, com participação directa e realização humana, comprometida com um estilo de vida simples, aberta ao confronto com o diferente, o divergente, o heterodoxo, assumindo a pluralidade e envolvimento defendidos pelo jornalismo público que, segundo Joyce Nip, pelo menos em relação ao segundo, já acontecia e com mais profundidade antes do jornalismo industrial e objectivo.

Jornalismo de paz

O jornalismo de paz é orientado para a paz, para as pessoas e para uma solução. Representa as partes em conflito com multiplicidade e variedade, perseguindo muitos objectivos e com diversas oportunidades de intervenção, reconhece que o problema do conflito pode parecer muito diferente quando examinado através de ângulos cruzados pelos que estão no terreno e está preparado para procurar e reportar iniciativas de paz, vindas de qualquer procedência.
Parte da imprensa alternativa, o jornalismo de paz, com uma implantação de sete décadas, é não só um contributo para melhor realizar os intuitos de justiça, inerentes à própria profissão, como para o seu próprio desenvolvimento ao possibilitar a correcção, desde logo, dos relatos, habitualmente mais conflituosos e agressivos do que são na realidade.
Mas não só. Este jornalismo permite rectificar o desequilíbrio de fontes sistematicamente usadas – o privilégio de informações procedentes de entidades oficiais, de elite (individual ou colectivamente) ou militares – e do predomínio da linguagem agressiva, conflituosa ou de vitimação.
O novo paradigma emergente dá mais atenção às fontes orientadas para o povo, a vida concreta e real. Jake Lynch cita John Paul Lederach, que afirma nunca ter experienciado nenhuma situação de conflito em que, frequentemente emergindo da sua experiência de sofrimento, não tenha encontrado uma pessoa com visão de paz.
Estas pessoas, as suas acções, pensamentos e sentimentos, não deixam de ser prezadas pelo jornalismo de paz pelo facto de não possuírem poder político ou influência económica. Aliás esta imprensa não ignora as tentativas, os esforços e as propostas no sentido da harmonização social, para a qual contribui através de uma linguagem cuidadosa e de critérios que não “inflamem” ainda mais os conflitos.
Mas o aperfeiçoamento propiciado pelo jornalismo de paz verifica-se igualmente no reequilíbrio dos fluxos de informação a nível internacional, tal como recomendado no relatório de MacBride, há cerca de 30 anos, bem como no melhor nivelamento entre o que mais tem sido omitido, o construtivo e benéfico, e o que é repetido, o destrutivo e maléfico para uma grande quantidade de pessoas e países na base da pirâmide do poder.
De igual modo o jornalismo de paz evita o erro de fazer equivaler ou substituir a parte, a citação oficial, pelo todo, o acontecimento no espaço e tempo físicos, com múltiplos ângulos, diversos intervenientes e várias motivações. Também não tenta dissipar, ocultar ou dissolver artificialmente eliminando os conflitos, que se estendem pelo mundo, do discurso mediático ou reduzindo-os à insistência dos que mais intimamente se relacionam com interesses restritos.
O apuramento da actividade informativa traduz-se ainda na estima e carinho quer pela audiência - a quem se evita os efeitos de stress, causados pelo jornalismo de guerra – quer pelas fontes civis, como as Organizações Não Governamentais (ONG), a quem se previne a discriminação e desconexão, pela subserviência do sub-sistema informativo em relação ao sistema capitalista.
Esta pesquisa e reportagem das propostas, respostas e acções não violentas constitui um desafio às relações de dominação e opressão, baseadas precisamente na violência sistémica, como lembra, entre outros autores, Theodor Adorno. Trata-se de uma abordagem mais profunda, completa e contextual, tal como também defendido por Alicia Cytrynblum.
Até aqui têm prevalecido critérios de noticiabilidade - como a negatividade, o conflito, a morte, a notoriedade, a amplitude, a frequência, o inesperado, a clareza, entre muitos outros - com consequências designadamente ao nível da preferência pela cobertura de guerras e acontecimentos extraordinários, que têm como protagonistas pessoas e países de elite, com um grande número de indivíduos ou que se adequam bem ao planeamento e agendamento de notícias.
Estes critérios - além dos valores da objectividade, neutralidade e imparcialidade, que têm conduzido ao afastamento e à indiferença, entre público e jornalistas - têm vindo a ser cada vez mais contestados pelos activistas mediáticos, fontes, jornalistas, audiência, investigadores, e a própria ONU, que pretende criar um Banco de “Media” como forma de fomentar o jornalismo de paz e uma ética mediática a nível global.
A discussão está presente na teoria, com a ética do cuidado a defender a expressão da subjectividade, até aqui (auto)censurada, incluindo tomadas de posição – diferentes da parcialidade - e na prática, através do jornalismo de paz, cujo fundador é precisamente Johan Galtung, que nos anos 60 sistematizou as escolhas de noticiário estrangeiro e nos anos 90 se orientou mais especifica e directamente para o jornalismo de paz.

Jornalismo social

No caso do jornalismo social - uma disciplina emergente, como afirma, no seu livro, a jornalista Alicia Cytrynblum - alguns critérios são usados para mostrar a relevância dos assuntos sociais, que têm impacto, proximidade, interesse humano e importância económica, social e cultural, além de representarem o poder das pessoas comuns face ao Estado e às empresas.
A agenda social faz parte de uma trilogia constituída pelas bem conhecidas agendas políticas e económicas. Ignorar o tecido social, seus líderes e acções sociais é um erro que decorre da dependência dos jornalistas face ao poder instituído (dos sub-sistemas da burocracia e do capital) e que os levou a afastarem-se do seu papel original de mediadores equidistantes entre governantes e governados, informando em ambos os sentidos e não apenas na direcção da elite governativa para a massa eleitora.
É motivação do jornalismo social a articulação entre as três agendas, o que significa fazer a necessária e sublinhada, pela análise crítica, ligação entre os sub-sistemas (políticos e económicos) e a lifeworld. É próprio do jornalismo social somar novas fontes, como as ONG, ouvir as vozes dos directamente atingidos – como adolescentes, crianças, deficientes, mulheres ou pobres – e relatar a sua perspectiva, contribuindo para o seu conhecimento e reconhecimento público com impacto ao nível da representação e do imaginário social.
Alicia Cytrynblum lembra que o jornalista é o guardião do vínculo entre o poder e os cidadãos e que deve ter presente não apenas o seu papel social mas igualmente a sua função pontifica, de religação, fundamental não só para a recuperação da crise de imprensa e um dos propósitos do jornalismo público, mas também para a própria organização sistémica, que se tem vindo a desagregar, a fragmentar e a distanciar cada vez mais.
Segundo sustenta o jornalismo social, é inerente à profissão tornar visível ao poder o que para este está invisível: «Se estes [os actores sociais] participam na notícia devem ser incluídos na cobertura. Se foram omitidos será tarefa do jornalista denunciá-lo claramente»(4). Não se trata de transformar o profissional em porta-voz das causas sociais, mas antes de ser de tal forma independente que não as abafa ou amputa da representação pública, quando estas possuem uma dimensão tão ou mais importante que as demais.
Na Argentina há mais de 460 mil empregados no terceiro sector e mais de 80 mil organizações sociais, entidades de bem público que constituem uma rede social, por todo o lado, que, entre outras coisas, gera emprego e defende os direitos das minorias representando o interesse social, repleto de pessoas que fazem coisas, às vezes heróicas, por outros, e que congrega o tecido social e a acção social da sociedade civil.
Ora a independência, para além das condições proporcionadas pela empresa na qual se exerce a profissão, é construída, é uma decisão pessoal que faz parte da responsabilidade individual de cada jornalista. Tal pode efectuar-se não apenas na soma de novas fontes mas também no uso mais atento, cuidadoso e adequado das palavras, em especial dos adjectivos, sobretudo quando relativos a pessoas já desfavorecidas ou estigmatizadas.
A dedicação dada às palavras, instrumentos de trabalho, não só eleva o nível de rigor com que se reporta a realidade como se traduz num esforço para espelhar a vida - em vez de a obscurecer, distorcer, manipular ou censurar, extirpando-a da percepção pública – e evitar a reprodução de pré-conceitos e estereótipos que reduzem o todo à parte assim redefinida, como explica Adorno.
A preocupação colocada na linguagem usada reflecte o respeito pelos indivíduos enquanto seres humanos, designadamente os noticiados, considerados na sua dimensão humana, integrando as suas possibilidades e potencialidades, em detrimento das suas condições pontuais de eventuais dificuldades ou incapacidades. Assim, não se trata de “pobres”, por exemplo, mas de “pessoas em situação de pobreza”.
Pode parecer um pormenor subtil mas altera o ângulo perspectivado: «São imensas legiões de pessoas a quem se prejudicou o acesso ao trabalho digno, à saúde, à educação e à habitação, entre outros direitos. Quer dizer, a pessoa pobre é uma vítima do sistema económico, nunca o vitimador. É a consequência, nunca a causa. Neste sentido os meios de comunicação e os jornalistas devem ser cuidados no enfoque ideológico das coberturas»(5).
Uma das características da imprensa social é precisamente a compreensão, explicação e contextualização dos fenómenos, a descrição das suas causas - frequentemente associadas a razões políticas e económicas - o seguimento das notícias e a pesquisa de soluções já empreendidas por alguma entidade nacional ou internacional, não se limitando à denúncia dos problemas sociais, ao relato isolado, fragmentado e objectivado, como acontece através da mera apresentação de números, taxas e estatísticas.
O jornalismo social prefere, pois, a profundidade, a abrangência, ao impacto imediato, estéril e paralisante. A informação sobre as alternativas disponíveis ou concretizadas para resolver o problema altera a percepção (da falta) de empenho das entidades responsáveis e mobiliza a audiência para a co-responsabilidade social, a acção concreta, a beneficiência, como defende a ética do cuidado.
Além do mais os problemas sociais não são um espectáculo. No jornalismo social vigora o princípio da prudência – um valor inerente à responsabilidade social e à máxima do amor de si que, segundo Kant, deve ser, de acordo com a lei moral, estendida ao outro – poupando não só o sofrimento gerado ao nível da audiência (como vimos ao nível do jornalismo de paz) mas também a quem é objecto de atenção mediática, nomeadamente em secções policiais.
Naqueles casos, Alicia Cytrynblum defende que o tratamento da informação deve ser baseado nos direitos humanos, evitando o seu uso estratégico para fins de controlo das massas - através do medo, do terror, da desestabilização, da insegurança, para assim melhor obter o consentimento para políticas mais agressivas, vigilantes e violentas - ou para gerar audiência, através do instinto da morbidez. Uma forma de actuação mais independente, activa e consciente que se nega a ser usada como meio para a construção de um sujeito vulnerável, amedrontado, controlado e subordinado.
Tal como o jornalismo de paz, o jornalismo social empreende um esforço no sentido do desenvolvimento do jornalismo, até aqui demasiado envolvido com os campos políticos e económicos, e da sua correcção - da distorção, do enviesamento, do deslocamento (que acompanhou o das próprias identidades) ou da exclusão de partes essenciais.
No caso da discriminação das ONG - quando estas são fontes percebidas pelo público pelo seu grau de independência, inovação e, fundamentalmente, confiança - em detrimento de outras, consultadas quase em exclusivo e nas quais a audiência não acredita, não só afasta os leitores, que não se revêem nos temas e ângulos tratados, como agrava a crise de imprensa. Além de poderem contribuir para a recuperação da credibilidade e pluralidade jornalística, as ONG são fontes de novos actores, líderes, ideias, temas, métodos e acções sociais, produzindo também informações relevantes.
Ao cumprir o seu papel social, ao comprometer-se com os processos sociais, o jornalismo social não só fortalece a democracia como colabora activamente na participação – uma reivindicação do jornalismo público e uma necessidade identificada pelas investigações teóricas de (re)tomar parte na representação pública, dada a sua importância e influência, nomeadamente em termos sociais.
O jornalismo social não negligencia a questão comercial, mas a verdade é que consegue aumentar as audiências sem prescindir dos princípios de cidadania e de serviço aos cidadãos – pelo que lhes fornece os dados necessários para poderem contactar directamente as fontes - capacitando-os, ao contrário do jornalismo público que, ao insistir nas obrigações da audiência e descuidando dos seus interesses, cada vez mais a perde.
O jornalismo social assume uma ideologia - como a democracia ou o desenvolvimento sustentável - promove a acção comunitária e tem a preocupação de compreender e de respeitar(6) a dignidade das pessoas envolvidas, difundindo os seus direitos e confirmando as informações transmitidas, atendendo e cuidando em relação às perguntas, aos enquadramentos ou ao uso de linguagem inclusiva e não violenta.
O jornalismo social (re)conhece a importância da agenda social sem, contudo, exacerbar a solidariedade nas notícias. Não se limita à mera informação, argumentativa e agressiva, à discussão de mente a mente, própria do hemisfério esquerdo, antes contribui para promover a comunicação, bidireccional, a comunhão - a constituição de comunidades fluentes, coesas, integradas e identificadas - e a inclusão da linguagem do amor, de coração a coração, própria do hemisfério direito.
A linguagem e acção amorosas, mesmo ao nível público e profissional, como defende a ética do cuidado, não deixam de corresponder às exigências de verdadeira liberdade, moralidade, autonomia e independência de uma razão esclarecida e não distorcida pelas inclinações, interesses ou necessidades empíricas. Equivale à acção virtuosa, o cumprimento da lei por amor dela - sendo que a lei das leis é precisamente o amor ao próximo - sem qualquer interesse pessoal, o que constitui, para Kant, o soberano bem.
Além de ajudar a implementar esta comunicação veramente racional – o que inclui a expressão da subjectividade, unificadora de todas as multiplicidades e, assim, verdadeiramente discernida, pura, genuína, livre e independente – a sua conduta concretiza diversas aspirações de outras tipologias de jornalismo, nomeadamente o jornalismo público, alternativo e de paz, que vimos, mas também realiza a própria natureza da profissão, presente desde logo na sua designação enquanto “meios de comunicação social”.
A dimensão social, presente na vida de todos os dias mas até aqui ocultada, silenciada e amputada da indústria cultural, é, agora, resgatada pelo jornalismo social que, assumindo a sua missão social e estando atento à nova ordem social e às reivindicações de expressão, representação e participação públicas das largas camadas de população colonizadas, não deixa de abordar questões como a política social, os valores sociais, a economia social ou o capital social.

(1) SPARKS, Colin – The Contribution of Online Newspapers to the Public Sphere: A United Kingdom Case Study in Trends in Communication 11(2), pág.111-126. citado por NIP, Joyce – Exploring the second phase of public journalism in Journalism Studies, vol.7, nº2, 2006, pág. 231. (2) No Reino Unido, os anarquistas são responsáveis por 25 publicações alternativas e 12 editores.  (3) ATTON, Cris – A reassessment of the alternative press in “Media, Culture & Society”, Sage Publications, London, 1999, vol.21, pág.64. (4) CYTRYNBLUM, Alicia – Periodismo social – Una nueva disciplina. La Crujía Ediciones. 2004, pág. 69. (5) Idem, pág.115. (6) Segundo Kant, este apenas se dirige a pessoas, sobretudo quando cumprem a lei moral, ao contrário da admiração e do amor.

Bibliografia: ATTON, Cris – A reassessment of the alternative press in “Media, Culture & Society”, Sage Publications, London, 1999, vol.21, pág.51-76. CYTRYNBLUM, Alicia – Periodismo social – Una nueva disciplina. La Crujía Ediciones. 2004. LYNCH, Jake – Peace journalism in ALLAN, Stuart (editor) - The Routledge Companion to News and Journalism. London and New York, 2010, p.541, p.543-553. NIP, Joyce – Exploring the second phase of public journalism in Journalism Studies, vol.7, nº2, 2006, pág.212-236.

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quarta-feira, 4 de julho de 2012

Imprensa alternativa


Antes do Dia Mundial da Cooperação, seguimos um artigo de Cris Atton*. Ao entrar no mês em que completamos cinco anos de actividade, reflectimos sobre a imprensa comprometida com uma esfera pública diversificada.

Texto e fotografia Dina Cristo

A imprensa alternative possui duas grandes áreas: uma que introduz actores sociais, como pobres, trabalhadores, mulheres e jovens comuns, como principais sujeitos das notícias, outra que é realizada por pessoas ordinárias que participam directamente na realização do próprio trabalho jornalístico.

Mais do que servir de mera fonte de informação, o seu objectivo é a mudança para um todo social, cultural e económico mais equitativo no qual o indivíduo não seja reduzido a um mero objecto, dos “media” ou do poder político”, mas antes capaz de se realizar como Ser Humano na íntegra.

Comprometida com a vida de todos os dias e as necessidades comuns das pessoas, contra o sistema (capitalista), esta imprensa não convencional inova nos meios que usa. Deliberadamente não comercial, ela aposta na baixa finança, distribuição e circulação – a sua essência, pouco compreendida por Comedia, segundo o autor.

Assim, nos títulos em análise - “Counter Information”, “SchNews”, “Do or Die”, “Green Anarchist”, "Squall” e “The Big Issue”, sobretudo na década de 90 – existe reduzida publicidade e a existente, sobretudo relativa a bens como livros ou outros jornais de imprensa alternativa, permite-lhe ultrapassar um dos filtros de propaganda próprios dos jornais de “mainstream”, referidos por Noam Chomsky, facilitando, assim, a sua independência e liberdade.

A subscrição, os donativos, os subsídios, nomeadamente através de concertos musicais de beneficiência, são outras formas de se financiar além do trabalho não assalariado, espelho do seu próprio comprometimento para com um estilo de vida humilde. O trabalho tem, aliás, uma função educativa de encorajamento para outros envolvimentos e participações na produção. Mais importante do que o conteúdo é o trabalho dependendo grande parte do seu valor da atitude perante as relações de produção.

Muita desta imprensa é contra os direitos de propriedade intelectual e são frequentes as publicações gratuitas e livres. Vários autores e editores incentivam a cópia e distribuição de parte do material ou mesmo do seu todo. O que está em causa é o estímulo à troca de informação e um comportamento justo. Com a ajuda da tecnologia, como as fotocopiadoras, desde os anos 80 que a audiência é capaz de (re)produzir o jornal de forma barata, rápida e limpa.

Existem três métodos de distribuição aberta: uma dependente dos maiores canais de distribuição, outra em locais adaptados mas não criados para o efeito, como cafés, restaurantes ou lojas, e, por último, as “infoshops”, locais já especializados em divulgar informação diponibilizando aconselhamento, prestação de serviços e até salas de leitura ou pequenas livrarias de publicações alternativas - um conjunto de actividades variadas concertadas com a formulação de confrontação de ideias divergentes.

Em sequência da baixa finança e distribuição, a imprensa alternativa tem (com a excepção das “New Socialist” e “New internationalist”) um baixo nível de circulação, o que é visto por Comedia como indício de subdesenvolvimento de uma imprensa para o desenvolvimento. Contudo, Atton salienta que é sua essência este carácter não mercantilizado e sublinha a sua contribuição democrática ao promover a criação de uma Esfera Pública Alternativa. A sua força, e sobrevivência, estão na sua diversidade. Cem publicações com mil tiragens são cem vezes preferíveis a uma publicação com cem mil impressos em circulação, defende.

Ligada a movimentos sociais como, por exemplo, os ecologistas, anarquistas, feministas ou socialistas, os quais suporta, reporta e incrementa, a imprensa alternativa, por vezes radical, tem em vista a disseminação de ideias heterodoxas e dissidentes. Os bares, cafés, restaurantes, pequenas livrarias são hoje novos locais de discussão em substituição dos históricos salões e fóruns mediáticos. Trata-se de uma renovada esfera de autonomia, na qual experiências, críticas e alternativas se podem desenvolver livremente e onde o público pode expor e debater questões sociais e políticas independentemente do Estado.

Comedia vê na sua precariedade e pouca visibilidade a marginalização e fracasso. Contudo Atton sublinha que, longe de estar em competição com a imprensa de “mainstream”, com os seus produtos ou mercados, a imprensa alternativa possui uma estratégia económica também ela alternativa, métodos que a integra nos próprios movimentos que desenvolve, como a economia verde (ecologia) e a economia preta (anarquia). Só no Reino Unido, por exemplo, existem 25 publicações e 12 editores da responsabilidade de anarquitas.

As suas crises financeiras recorrentes devem-se sobretudo ao facto do rendimento ser integrado na própria vida dos seus participantes, como é claro no caso da “The Big Issue”, ao desenvolver novas formas de distribuição através de vendedores de rua (quase seis mil em Inglaterra), identificados, treinados e actuando de acordo com um código de conduta.

Descentralizada, a imprensa alternativa devolve às pessoas a voz directa e o pensamento independente. Rejeita o modelo vertical, do topo para a base, que a maior parte dos “media” preserva, e adopta a auto-gestão, onde as decisões editoriais e de produção são feitas colectivamente, e fomenta uma comunicação horizontal, entre escritores e leitores. As publicações são criadas, produzidas e distribuídas pelos destinatários para as quais existem. O sujeito, objecto de notícia, pode ser o escritor ou distribuidor das mesmas.

Esta imprensa é activa, mobilizadora e comprometida com as opiniões das minorias, como os não alinhados. Assuntos que não têm cobertura regular por parte de outros meios de informação e que são focados no âmbito da responsabilidade social e da expressão criativa. Alguma imprensa está mais ligada a um protesto em especial (caso do anti-nuclear na Alemanha), outra encontra-se mais vinculada a grupos específicos e às suas actividades, sendo o seu principal objectivo - não a informação factual ou opinativa mas antes - a acção sócio-política já referida.

A imprensa alternativa, concretiza a diminuição da distinção entre produtor e consumidor, um momento de transformação entre o “Nós” e os “Outros” numa aproximação que se materializa no caso da “The Big Issue”, em que ¼ de milhão de pessoas conversa com o vendedor sobre o problema social dos sem abrigo. Isto quando muita pesquisa, mesmo no âmbito do estudos críticos dos “media”, concebe a audiência activa de forma ainda longe de ser criadora e produtora. Um carácter que as fanzines souberam realizar.

Em suma, o movimento mediático expresso na imprensa alternativa (à institucional), focada na actividade, participação e mobilização, assume um aparato sócio-cultural pluralista com uma estrutura complexa e articulada ao nível da acção económica, organizacional e social num esforço para ser coerente com os princípios que defende, a nova esfera pública que empreende e os objectivos de contribuir para mudar para um sistema mais democrático, pluralista, equitativo, aberto, livre, justo e humano.

* ATTON, Cris – A reassessment of the alternative press in “Media, Culture & Society”, Sage Publications, London, 1999, vol.21, pág.51-76.

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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Jornais (im)pre(s)sos



Estamos em vésperas do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa que, segundo José Manuel Tengarrinha em entrevista à Antena 1, não existe, hoje, face às forças ocultas, com interesses camufladas e actuações sofisticadas. Ensejo para redescobrir as suas origens, seguindo a obra clássica do autor octogenário.


A "História da Imprensa Periódica Portuguesa" é uma obra* que nos apresenta a evolução da imprensa portuguesa desde o século XVI. Incide em explicações dos estados sociológico e político que nas várias épocas se foram vivendo e na influência recíproca que esses acontecimentos e imprensa exerciam. Refere ainda as dificuldades técnicas e legislativas existentes.

Primeiras folhas noticiosas

A primeira folha noticiosa de que há registo, em Portugal, data de 1588, com informação sobre a destruição da “Armada Invencível”. Os registos seguintes faziam referência ao tempo e suas implicações na economia. Entre 1640 e 1643 há conhecimento de várias folhas manuscritas, normalmente de gazetas estrangeiras, originais ou traduzidas. Eram então o único meio de informação.

A primeira folha noticiosa impressa remete a 1655. Devido ao domínio espanhol, no segundo quartel do século XVII a circulação de folhas volantes aumentou e também surgiram os pasquins.
Primeiro jornal

As chamadas Gazetas da Restauração foram as primeiras a reunir a periodicidade (a primeira é mensal), a continuidade e o objectivo informativo. A primeira data de 1641. Apesar do seu aparecimento, as relações não diminuíram, e também apareceu o panfletarismo, com o intuito de alcançar o público interessado nos acontecimentos do País, quebrando as limitações encontradas na comunicação pelos livros. Foi neste contexto de agitação política que surgiu o jornalismo.

Nesta época surgiram também os mercúrios. O mais importante foi o Mercúrio Português, que durou de 1663 a 1667, redigido por António de Sousa Macedo. Tinha intenção política, mantendo na mesma o carácter noticioso.

Terminando o Mercúrio Português, não há imprensa periódica em Portugal até ao fim desse século. No início do século XVIII só a Gazeta foi criada, e dela apenas se conhecem dois números. Em 1715 apareceu a Gazeta de Lisboa, dando notícias internas, estrangeiras e das nomeações do governo português. Tornou-se na folha oficial, ao qual mais tarde o governo pombalino deu ordem de suspensão.

Nesta altura surgiram os primeiros periódicos de crítica social. O redactor do Lisboa, Correia Garção, morreu na prisão e alguns periódicos foram suspensos. Nasceu também a Gazeta Literária, considerada a primeira do jornalismo literário em Portugal, com “críticas inteligentes e bem formadas” deixando “um público culto português ao corrente das principais obras sobre literatura, artes e ciência” (p 47). Vários factores vieram dar espaço para nascer o enciclopedismo.

Em 1809 apareceu o primeiro periódico quotidiano, o Diário Lisbonense, saindo todos os dias menos ao Domingo e dias santos. No espaço de quatro meses passou a haver mais quatro diários. Este fenómeno cultivou ainda mais a curiosidade e a vontade de estar actualizado por parte dos leitores. Contudo alguns destes periódicos tiveram um curto tempo de vida.

Periódicos especializados

Apesar de atrasados relativamente a alguns países da Europa, no século XVIII apareceram periódicos que tratavam apenas ou de forma dominante de um certo assunto, sendo que a maioria tratava de assuntos literários, científicos e comerciais. Estes últimos eram caracterizados pelo seu “mau estilo, erros gramaticais e pobreza de vocabulário” (p 53). Os jornais especializados mostravam uma diversificação dos gostos do público, exercendo-se naturalmente uma maior influência. Nesta fase notava-se uma imprensa literária pobre, em grande parte devido ao controlo e repressão desde sempre feitos à literatura e ao jornalismo político.

No fim deste século e início do século XIX houve um grande crescimento dos periódicos humorísticos, também devido a uma vida com condições que poucos motivos de alegria proporcionava, tendo estes jornais bastante saída. Acima de tudo tratava de crítica social, mas há excepções, sendo que alguns tratavam apenas de diversão pura, sem qualquer crítica.

As muitas publicações de pendor sentimental que surgiram eram demonstrativas da tendência pré-romântica, com exageros sentimentais e desapegos aos valores clássicos, originando novas formas de pensamento. Apesar de periódicas, não eram jornalísticas.

Invasões napoleónicas

Até às invasões francesas o jornalismo político em Portugal era escasso, sendo que nessa altura o único jornal político era a Gazeta de Lisboa. É em 1808, já durante as invasões, que começou a haver jornalismo de combate, e aqui tiveram grande importância os papéis clandestinos. Nele havia diversas opiniões, fervilhando o ódio e os comentários apaixonados contra os invasores. Só durante o 1809 publicaram-se 24 periódicos. Neste período foi dada certa liberdade à imprensa devido ao apoio que os poderes portugueses precisavam para combater os franceses, a qual foi retirada novamente mal a guerra acabou. Aliás, entre a segunda e a terceira invasão já era evidente a preocupação dos governantes. Foi também quando se começaram a publicar as ideias liberais, considerando-se o Correio da Península o primeiro periódico liberal português, que logo foi suprimido. No entanto, o dinamismo estava instalado e após as invasões a imprensa não voltaria a ser como antes, pois a diferença era evidente tanto ao nível da atenção no tratamento dos assuntos como ao nível do interesse do público. A política era agora curiosidade de todos.

Os franceses sabiam do poder que as ideias revolucionárias dos papéis tinham, então assumiram a estratégia de inserir através deles a actividade propagandística nos países que dominavam. Neles se expressava, por exemplo, que a população estava tranquila, que Napoleão trazia benefícios, entre outras. Estes levavam a vantagem de poder espalhar a literatura panfletária e até afixá-la nas ruas.

Pós-Revolução de 1820

Após a Revolução de 1820, houve a preocupação de assegurar a estabilidade, e para tal continuou a existir censura prévia a livros e periódicos. No dia em que se jurou a Constituição foram dadas “instruções quanto à forma de proceder à censura dos jornais” (p 124). Isto gerou controvérsia, defendendo que “A Liberdade de Imprensa é a salvaguarda da Constituição” e que todos têm direito de apresentar as suas ideias. Multiplicaram-se então os periódicos, e houve uma reacção por parte dos homens defensores do Portugal Velho, como José Agostinho de Macedo que considerava a pátria oprimida pelo “flagelo dos periódicos”, notícias falsas, abusos e “projectos loucos”, achando isto incompatível com a ordem e estabilidade do Governo. Em 1821 determinou-se nas Bases da Constituição a criação de um Tribunal que regulasse a liberdade de imprensa: O Tribunal Especial da Protecção da Liberdade da Imprensa. Em Julho desse mesmo ano foi abolida a censura prévia, aparecendo a primeira lei de liberdade de imprensa, que na verdade nunca esteve completamente em prática. Esta medida de liberdade surgiu numa fase em que a população atravessava uma forte agitação, o que facilitou o aparecimento da imprensa de opinião. As mudanças foram inevitáveis e abrangeram tanto conteúdo como apresentação, que muito deveu aos jornalistas da primeira emigração.

Em 1827 a liberdade de pensamento era apenas aparente, e até na actividade tipográfica houve um retrocesso, pois voltou-se ao regime de privilégios. Os que fossem apanhados sem a licença eram presos e condenados. Neste ano foi ainda criada a Comissão de Censura, demitindo os censores menos rigoros” (p 140), mas só durou até D. Miguel ser aclamado rei absoluto, voltando a censura a estar a cargo da Mesa do Desembargo do Paço, o que atrofiou novamente o movimento jornalístico devido a severas punições, tal como a morte.

Em 1834 foi instaurada definitivamente a lei de liberdade de imprensa em Portugal, que garantia a total isenção de medidas preventivas, dando condições ao jornalismo, agora sim, para estar ao serviço do constitucionalismo. Desde esta data até à Regeneração, 1851, houve uma sequência quase contínua de importantes acontecimentos, o que se reflectiu na relação dos jornalistas com os poderes, na influência dos jornais no público e também num desenvolvimento magnífico do próprio jornalismo, sendo considerado pelo autor “talvez a sua fase mais brilhante” (p 148). De 1834 até 1838 foi crescendo o número de periódicos fundados, diminuindo continuamente até à restauração da Carta por Costa Cabral em 1842. Foi então publicado A Revolução de Setembro. Havia uma influência forte e recíproca entre a literatura e a transformação social. Era através dos relatos dos jornais que o público tinha acesso ao que se debatia na Assembleia, havendo o hábito de os ler em alta voz.

Importante foi a data de 1834, a partir da qual os jornais passaram a apresentar novas características.

Os periódicos literários também se desenvolveram bastante a partir desta data. Para além destes serem incentivados, eram reprimidos os jornais de opinião, sendo limitado um público intelectual.

Em 1846, no sentido de contornar as dificuldades de ordem técnica e legal, formou-se no Conservatório Real de Lisboa a Associação Promotora dos Melhoramentos da Imprensa, para defender os seus direitos.

Imprensa ilegal durante a guerra civil de 1846-1847

A partir de 7 de Outubro de 1846, além do Diário do Governo, apenas podiam ser publicados jornais científicos e literários, ordenando Saldanha a prisão de vários jornalistas pertencentes à oposição. Contudo, continuavam a circular jornais e panfletos políticos. Foi então que surgiu O Eco de Santarém, “o jornal clandestino mais importante da nossa história até ao aparecimento do Avante!”. Já O Popular foi o mais violento dos jornais clandestinos desta fase, com má redacção e apresentação. Durante a guerra civil também houve folhas supostamente ilegais mas publicadas por agentes governamentais, que teceram ataques, entre outros, a O Espectro.

Além de Lisboa, os dois importantes centros de publicação nestes dois anos foram Porto e Coimbra. Alguns jornais patuleias foram publicados também no Alentejo, Madeira e Açores.

Esta foi uma época de mau jornalismo a nível ideológico. Houve uma revolta e posição simplesmente negativa, em que não se tomaram diferenças no combate ao poder para não perder a energia das várias forças opositoras reunidas (miguelistas, setembristas, cartistas “puros”). Apesar de nesta fase já começar a ser expressa a vontade de derrubar a monarquia, só no ano seguinte com as revoluções em vários países da Europa é que apareceram jornais com programa republicano.

Regeneração

Após a marcante “Lei das Rolhas” o movimento jornalístico em Portugal enfraqueceu bastante. Em 1851, com a Regeneração, a imprensa encontrou grandes facilidades, sendo arquivados os processos por abuso de liberdade de Imprensa que estavam a decorrer. Além disto, em 1866 foram abolidas todas as restrições impostas à imprensa, estendendo-se esta liberdade até 1890, começo do reinado de D. Carlos, o que acabou por ser “a grande época de florescimento do jornalismo” (p 184): na década de 1850, a criação média anual de periódicos foi de 35, e na década de 1880 foi de 184. Não se conseguindo ainda separar das tendências que a guiavam até aqui, conseguiu contudo um maior desenvolvimento ao nível dos processos jornalísticos e dos meios técnicos.

Terceira época do jornalismo português

Em 1856 a actualidade tornou-se na grande preocupação do jornalismo moderno. 1865 assinalou o princípio da terceira época do jornalismo português, em que houve a passagem da imprensa romântica para a fase industrial, surgindo a designação de noticiário. Para acompanhar o ritmo da evolução das máquinas, era preciso interessar todas as opiniões, ser acessível monetariamente e usar a publicidade para as receitas. Com a publicação do Diário de Notícias começou então a dar-se espaço à intenção mercantilista, assim como também marcou o início do jornalismo contemporâneo baseado no carácter informativo. Com o desenvolvimento da comunicação havia processos continuamente mais rápidos e eficazes.

Nesta fase seria impossível que a paixão do jornalista se mantivesse intacta, já que passou a escrever temas com os quais não se identificava. Devido a não ter interesse nas ideias nem nos lucros dá-se a alienação. Ele passou a dividir-se entre o que queria e o que o patrão desejava, transformando-se numa máquina de fazer artigos, com o objectivo de atingir o público.

Imprensa republicana e operária

O Tribuno, aparecido em 1843, pode ser considerado o primeiro jornal republicano, ainda que escondesse a sua doutrina por motivos de prevenção, e afirmava “respeitar o trono mas sem servilismos”. Seguiram-se O Regenerador e O Republicano, estes explícitos mas clandestinos. Um dos mais activos e duradouros foi O Partido do Povo. Em 1881 foi publicado O Século, órgão do Partido Republicano, e que foi um dos mais importantes da história da nossa imprensa. Seguiu-se a criação de O Mundo, o de maior projecção e influência durante a propaganda. Até 1891 a imprensa republicana foi crescendo, até à fracassada revolta desse ano, enfraquecendo-se a partir daí. Desde 1903, ganhou novamente vitalidade, estrutura e dinamismo. Depois de 1906 começaram a assumir as suas posições extremas. A imprensa, juntamente com os comícios, foram as armas de maior efeito na luta dos republicanos.

Em meados do século XIX intensificou-se a imprensa operária, visando a libertação operária e apoio às lutas operárias. Neste contexto foi publicado o Emancipação da Mulher em 1868, o primeiro jornal em defesa dos direitos da mulher. Em 1871 este movimento entrou em conflito com a sociedade, devido à atitude predominantemente ofensiva, e com a ditadura de João Franco intensificou a censura, acabando por sair em 1896 uma das leis mais repressivas da história da nossa imprensa, chamada “dos anarquistas”. A Sementeira foi o jornal anarquista com maior duração, de 1908 a 1919, no entanto a imprensa anarquista não foi tão intensa como o seu movimento. Na primeira década de 1900 foi-se acentuando a separação entre movimento operário e movimento republicano.

Implantação da República

Após grandes repressões, cinco dias depois da implantação da República, a imprensa periódica foi finalmente liberta, sendo então publicados bastantes jornais políticos. Mas com o fim do controlo das ideias políticas abandonou-se a revisão gráfica. Relativamente aos abusos de liberdade de imprensa seriam julgados por um júri, o que em 1926 veio a ser reformulado para passar a ser julgado, em casos especiais, por um tribunal colectivo. Em 1933 a censura prévia foi novamente instituída.

Balanço

Jornalismo nasceu noticioso mas com intervenção política. Nas notícias não havia comentários ou crítica. As principais personalidades da intelectualidade portuguesa dos séculos XVII e XVIII não colaboravam no jornalismo. A técnica jornalística era ainda pouco desenvolvida, não havendo sequer grande preocupação com a informação ser actual e pormenorizada, nem em certificar-se da veracidade das fontes. Só no fim do século XVIII surgiu a preocupação de agradar ao leitor, no entanto a relação entre leitor e jornal era distante, fortalecendo-se a partir de 1808 com o aparecimento de jornais com “opinião própria mais visível” (p 119). Ao longo da história a censura foi sendo banida e voltando, tomando várias formas. Em 1834 foi instaurada a lei de liberdade de imprensa. Desta data a 1851 foi quando a influência na opinião pública foi mais forte. Em 1846 contou-se com um mau jornalismo a nível ideológico e em 1850 saiu a “Lei das Rolhas”, que enfraqueceu o movimento jornalístico.

O antigo jornalismo era uma arma de combate, um agente de propaganda, enquanto que o novo jornalismo se tornou industrial, tanto pela importância dada ao objectivo monetário como pela mecanização dos processos jornalísticos. Aqui o jornalista tornou-se máquina sem paixão e a relação entre público e jornal perdeu vitalidade. Em meados do século XIX deram-se os movimentos republicano e operário com grande influência na imprensa.

Com a implantação da República foi restituída a livre expressão e surgiram bastantes jornais políticos. Em 1933 voltou a ser instituída a censura prévia.

TENGARRINHA, José - História da Imprensa Periódica Portuguesa. Ed. Caminho. 1989.

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