quarta-feira, 1 de julho de 2009

Suicídio juvenil


Numa altura em que grande parte dos alunos do ensino superior enfrenta uma época de exames, publicamos uma reportagem sobre o suicídio entre os estudantes daquele grau em Coimbra. Quando nada parece valer a pena.

Texto Elisabete Paulos Ribeiro

Falar desta “solução permanente para problemas temporários” ainda é tabu. O suicídio entre os jovens afecta quem não vislumbra alternativa para lidar com problemas emocionais, com o insucesso escolar e com as dificuldades económicas. O fenómeno é complexo e implica um trabalho conjunto de prevenção, envolvendo a escola, a comunidade, serviços de saúde e de apoio social.
“Cheguei a pôr várias vezes a hipótese do suicídio”. A expressão é partilhada por jovens que debatem o “suicídio sem dor”, num fórum na Internet. Pelos comentários, percebe-se que são cada vez mais os jovens que já estiveram de alguma maneira ligados a um dos mais sérios problemas de saúde pública: o suicídio.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) define suicídio como um “acto deliberado, iniciado e levado a cabo por um indivíduo com pleno conhecimento ou expectativa de um resultado final”. Carlos Braz Saraiva, psiquiatra responsável pela Consulta de Prevenção de Suicídio nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), estabelece as diferenças entre suicídio e para-suicídio: “O para-suicídio está mais ligado à sobrevivência, pois a pessoa em princípio não quer morrer” enquanto “um suicídio só é suicídio se ocorrer morte”.
O, também, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) esclarece que “uma coisa é a ideação de morte onde pode haver, inclusive, uma questão filosófica ou de inquietação própria da juventude sobre o que é viver e o que é morrer, e outra coisa é a ideação suicida onde existe um plano de auto-aniquilação”. Daniel Sampaio, médico e coordenador do Núcleo de Estudos do Suicídio (NES), refere no seu livro "Tudo o que temos cá dentro", que “o suicídio é uma estratégia, às vezes uma táctica de sobrevivência quando o gesto falha, tudo se modifica em redor após a tentativa” e de acordo com o especialista está “Maria”, nome fictício, que aos 17 anos tentou suicidar-se. Hoje, passados dois anos, está “a recuperar amigos que se afastaram porque ficaram em choque”.
Ajuda ao alcance de todos
Em Coimbra, não há dados estatísticos que permitam quantificar as tentativas de suicídios entre os jovens que estudam no Ensino Superior, embora sejam conhecidos diversos casos entre a comunidade universitária, diz Braz Saraiva. Para ajudar os estudantes que se encontram em situações de perturbação emocional e comportamental foram criados, há dez anos, o Gabinete de Aconselhamento Psicopedagógico dos Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra (GAP-SASUC) e o Gabinete de Psicologia dos Serviços de Acção Social do Instituto Politécnico de Coimbra (GP-SASIPC). Para além dos alunos, auxiliam também docentes e funcionários das respectivas instituições. A média de idades entre os dois gabinetes difere. No Gabinete de Aconselhamento Psicopedagógico dos SASUC a faixa etária situa-se nos 24 anos, já no Gabinete de Psicologia dos SASIPC são maioritariamente estudantes de 22 anos que recorrem aos serviços.
Quanto à afluência aos serviços do GP-SASIPC a psicóloga responsável pelo gabinete, Helena Moura, refere que “a lista de espera está sempre a aumentar”. Já a psicóloga do GAP-SASUC, Ana Carvalhal de Melo, revela que o gabinete tem “um número de consultas elevado, chegando quase às mil consultas por ano”. As duas médicas estão de acordo quanto à necessidade de acompanhar os estudantes desde o seu ingresso no Ensino Superior. “Muitos alunos sofrem com o processo de transição da escola secundária para o ensino superior, mas é curioso porque os alunos do primeiro ano não nos procuram, são mais alunos do segundo e do terceiro ano”, afirma Ana Carvalhal de Melo. Helena Moura acrescenta: “Infelizmente há situações que só apanhamos no segundo ano e que se tivéssemos apanhado logo no primeiro ano não teriam sido tão graves”.
Ao depararem-se com casos mais problemáticos, os dois gabinetes de psicologia das instituições de Ensino Superior de Coimbra, encaminham os jovens para os Serviços de Psiquiatria dos HUC, que dispõe de uma Consulta de Prevenção do Suicídio (CPS), que não tem lista de espera e que visa prioritariamente observar jovens que cometeram tentativas de suicídio e que foram observados primeiramente na urgência. Segundo Braz Saraiva quem frequenta mais a CPS são as pessoas entre os 15 e os 24 anos. A maior parte dos casos de tentativas de suicídio que dá entrada nas urgências dos HUC deve-se a cortes e à ingestão de medicamentos ou tóxicos.
Tanto nos gabinetes de psicologia da Universidade de Coimbra (UC), como do Instituto Politécnico de Coimbra (IPC) e na Consulta de Prevenção de Suicídio do Serviço de Psiquiatria dos HUC, são maioritariamente raparigas que pedem ajuda. Embora a psicóloga do GP-SASIPC mencione que “surgem cada vez mais rapazes”. De acordo está a Linha SOS-Estudante que recebe mais chamadas de pessoas do sexo masculino.
“A Linha SOS-Estudante foi criada em 1997 com o objectivo de combater algumas falhas que um dos estudantes de Coimbra notou”, conta a vice-presidente da linha, Ana Margarida Teixeira. É uma linha telefónica de apoio emocional e prevenção ao suicídio, sendo ao mesmo tempo uma Secção Cultural da Associação Académica de Coimbra (AAC). Este projecto é actualmente constituído por 22 estudantes voluntários que receberam formação “tendo em conta algumas temáticas principais nomeadamente a prevenção do suicídio e outros temas mais recorrentes como a solidão e a sexualidade” como explica a vice-presidente da linha.
O reduzido horário de funcionamento, das 20h às 01h, deve-se, principalmente, ao insuficiente número de voluntários. A SOS-Estudante recebe em média três a cinco telefonemas por dia de Portugal Continental e Ilhas. “Um pouco contra os nossos objectivos iniciais, actualmente, a faixa etária que liga é dos 40 anos para cima”, afirma Ana Margarida Teixeira. Também contrariando os objectivos primários deste projecto, a maioria das chamadas rondam os temas da solidão e da sexualidade. A vice-presidente da linha afirma que a SOS-Estudante “tem pouquíssimas chamadas de suicídio e a nível de estatística em apenas um por cento das chamadas são identificados alguns factores de risco e outras coisas que levem a pensar numa ideação suicida”.
Exceptuando o Instituto Superior de Educação de Coimbra (ISEC) que às quintas-feiras recebe a psicóloga responsável pelo GP-SASIPC, a Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC) é a única instituição do ensino superior da cidade que possui um espaço nas suas instalações para consultas de psicologia e que tem sempre uma psicóloga disponível para apoiar os seus estudantes. A responsável pelo serviço, Catarina Neves, revela que não existem muitos estudantes em risco de suicídio na escola e que “o facto do gabinete não estar num local muito movimentado ajuda a que os alunos venham conversar sobre os mais diversos temas principalmente entre os meses de Fevereiro e Julho”.
Problemas emocionais e escolares
As causas mais apontadas pelos jovens que recorrerem aos serviços de psico-terapia são, essencialmente, os problemas afectivos e escolares. Ana Carvalhal de Melo refere que os motivos que levam os estudantes a entrar em situações de risco são “problemas de ordem emocional (rupturas afectivas/depressão), insucesso escolar e suas consequências (a nível da auto-estima), problemas de autonomia e problemas económicos”.
O Gabinete de Psicologia dos SASIPC acompanha, actualmente “talvez uns três estudantes em risco de suicídio, embora com graus e riscos diferentes”. O Gabinete de Aconselhamento Psicopedagógico dos SASUC, segundo Ana Carvalhal de Melo, não tem estudantes em risco declarado de suicídio já que, nesses casos, “os jovens são encaminhados imediatamente ou para as urgências ou para a Consulta de Prevenção de Suicídio dos HUC”. “Aquilo que pode acontecer é algumas das pessoas que estão a ser seguidas em situação de crise tentarem o suicídio”, refere.
Quanto às épocas em que recebem mais pedidos de ajuda os dados divergem. “Apesar de haver algumas oscilações em determinados meses do ano não é estatisticamente significativo”, afirma Carlos Braz Saraiva. Helena Moura refere que “na altura da Queima das Fitas há sempre um ou outro caso mediático” e Ana Carvalhal Melo garante que “existem épocas do ano em que a procura é maior e situa-se à volta de Fevereiro, Março e também em Maio, Junho e Julho”.
Os estudantes suicidas “são normalmente pessoas impulsivas, com uma pobre auto-estima, que não conseguem visualizar ou pensar em alternativas para resolver os seus problemas e portanto o suicídio aparece como solução”, segundo a psicóloga do Gabinete de Aconselhamento Psicopedagógico dos SASUC. Esta técnica acrescenta ainda que “existem sempre factores de personalidade que estão por trás destas situações catastróficas”. “Maria”, explica que quando tentou pôr fim à vida, penso que “era uma opção que à partida ia resolver os meus problemas e me ajudava a parar de pensar em tudo”. Braz Saraiva adianta no seu mais recente livro Estudos sobre o para-suicído que o perfil é o de “uma jovem estudante, classe baixa ou média-baixa, problemas afectivos ou escolares, com mau relacionamento familiar, [...] história familiar de doenças psiquiátricas”. São também, em grande parte, estudantes deslocados que recorrem aos gabinetes de psicologia da UC e do IPC.
Estar alerta
Em 1999, Daniel Sampaio alertava na revista "Adolescentes" para a eventualidade do bem-estar de um jovem poder “esconder um grande sofrimento interior, que só uma relação de maior proximidade poderá detectar”. “Acima de tudo estar atento”, é assim que a vice-presidente da Linha SOS-Estudante define o que deve uma pessoa fazer quando repara que um amigo está a pensar em suicídio. Helena Moura realça a importância das amizades e adianta que “devemos recorrer aos amigos e aos familiares e se mesmo assim virmos que não conseguimos ultrapassar os problemas, devemos pedir ajuda a técnicos”. Já Ana Carvalhal de Melo aconselha a que se converse com o potencial suicida e a “nunca tratar o suicídio como tabu”. “Foram os meus amigos que me estenderam a mão e me arrancaram da angústia em que estava”, conta a estudante “Maria”. O responsável pela CPS dos HUC sintetiza: “No fundo, há duas regras básicas que são: criar proximidade e encontrar alternativas”.
No entanto, é importante realçar que os jovens têm mais à vontade para falar sobre os seus problemas com os psicólogos e/ou psiquiatras, que são pessoas que não conhecem do que com amigos, familiares ou namorados/as. A psicóloga do Gabinete de Aconselhamento Psicopedagógico dos SASUC realça a visão imparcial do psico-terapeuta e explica da seguinte maneira esta tendência: “Quando alguém recorre a um psiquiatra ou psicólogo é porque procura alguém que tem bases teóricas e conhecimentos que permitam compreender essa pessoa e que está disponível para ouvir sem fazer juízos de valor nem julgamentos.”
O Núcleo de Estudos do Suicídio (NES) defende que a eficácia dos serviços de apoio depende da facilidade de acesso, proximidade, disponibilidade, divulgação e difusão para as comunidades a que se destinam. A consciência das limitações por parte dos gabinetes de apoio e a sua articulação com serviços de saúde especializados também contribuem para uma maior eficácia na prevenção do suicídio.
Prevenir é essencial
Para um psico-terapeuta, perder um paciente devido a um suicídio é “a maior angústia”, como explica Ana Carvalhal de Melo: “Alguém que trabalhe nesta área tem que se arriscar a que isso aconteça”, mas “é sempre uma ferida que fica. Cura-se mas a marca está lá”. Carlos Braz Saraiva conta que se sente “desconfortável” e que se interroga: “Será que fiz tudo o que deveria ter feito?”.
Porém o psiquiatra, comparando o nosso país com outros países do Mundo, revela que “em Portugal o suicídio do adolescente ou do jovem não é um problema tão dramático como noutros países, como por exemplo em Inglaterra” e adianta que existe sim o problema do suicídio dos idosos, mencionando que “em 2002, pela primeira vez, suicidaram-se 60 adolescentes em Portugal. Mas suicidaram-se por exemplo mais de 500 ou 600 idosos. Portanto, dez vezes mais”.
A prevenção do suicídio é bastante importante e programas de prevenção que trabalhem várias dimensões como a assertividade, a autonomia e a confiança, vão fazer com que os jovens se tornem mais capacitados para lidarem com as várias situações e problemas que vão encontrar nos seus quotidianos. Braz Saraiva refere que o suicídio abrange “fenómenos que são complexos e multi-determinados: “Muitas vezes, aquilo que se verifica é que estes jovens, à semelhança da sociedade actual, lidam muito mal com três factores: o tempo, o poder e os afectos em geral”. Para o professor da FMUC, os jovens actualmente não estão “programados para perceber que há cinzentos entre o preto e o branco”. Também Helena Moura realça que deve existir “prevenção em todos os níveis” enumerados por Braz Saraiva, no seu livro Estudos sobre o para-suicídio: comunidade, saúde, escola e política social.
A psicóloga do GP-SASIPC defende o desenvolvimento de projectos nas residências e entre alunos: “Ainda há muito a fazer e nem é preciso dinheiro, é preciso é tempo e vontade”. Ana Carvalhal de Melo realça a importância do programa de apoio “pares por pares”. Este é um programa relativamente inovador que já foi experimentado noutros países e que para a psicóloga “faz muito sentido pois são alunos que recebem formação básica, que têm um acompanhamento especial por parte do Gabinete e que apoiam e orientam em particular outros colegas”. A psico-terapeuta do GAP-SASUC alerta para a necessidade de existirem programas de prevenção a nível do ensino superior e defende que para prevenir o suicídio deve-se “procurar fomentar as relações inter-pessoais dos alunos, ajudando-os a serem mais auto-afirmativos, mais assertivos, a comunicar com os outros quando têm problemas e a conseguirem reclamar pelos seus direitos sem serem agressivos. Isto a nível pessoal pode ajudá-los a sentirem-se mais fortes, a conseguirem resolver os seus problemas com mais facilidade e portanto o suicídio nem lhes passa pela cabeça como solução”.
Como comenta um jovem no fórum onde se debate o “suicídio sem dor”: “Há sempre uma solução, há sempre algo de belo pelo qual vale a pena viver”.

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quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Imprensa regional de parabéns

O “Trevim”, uma das publicações mais estruturantes do jornalismo de proximidade nacional, está a comemorar 40 anos de existência. Eis um olhar sobre a história da alma de um povo: o lousanense.

Texto e fotografia Susana Nunes

No centro da vila, tocam os sinos da igreja. Terça-feira. Do outro lado da rua, num antigo edifício, procura-se terminar os últimos pormenores para se fechar a edição. E o telefone vai tocando, interrompendo a música que habitualmente acompanha a movimentada jornada de trabalho. É o dia mais complicado da semana. Os cigarros vão-se sucedendo, uns após os outros. O fumo paira no ar. No entanto, o espírito de entreajuda e de camaradagem é uma constante. É este o ambiente vivido no edifício do jornal Trevim, um jornal local, ou “de proximidade”, como João Silva, um dos fundadores e actual director, gosta de referir. Um jornal cuja longevidade não o envelheceu. Muito pelo contrário. Tem rejuvenescido ao ritmo dos tempos: “Uma voz nova, para uma Lousã renovada”, sendo uma referência constante nas vivências da sua terra, a Lousã. E sempre “de caneta em riste”. Se existem histórias cuja profundidade não pode ser alcançada através de meras palavras e factos, a do Trevim é uma delas.
Sonho
Tudo começou nos finais da década de 50, quando um grupo de jovens, Pedro Malta, João Silva, José Duarte, António Ribeiro, Fortunato de Almeida, José Redondo e Rui Fernandes, cansados da pobreza cultural, da rotina e da monotonia local, e procurando trazer uma “lufada de ar fresco” para a sua terra, idealizaram um novo jornal. Segundo Pedro Malta, um dos fundadores e o primeiro director do Trevim, pretendiam “abordar os problemas da Lousã noutra perspectiva, numa vertente mais independente, isenta de ligações políticas, religiosas” e “falar com as pessoas, cobrir o concelho e arranjar correspondentes em cada freguesia, portanto, dar uma maior abordagem aos problemas da terra”. Desejavam, também, fomentar o debate e a discussão pública, a defesa dos interesses do povo lousanense e a divulgação cultural.
Mas, passar do sonho à realidade não foi fácil. A ideia levou alguns anos a concretizar. Por um lado, nenhum deles tinha experiência, nem verdadeira consciência da dificuldade da sua concretização, tanto a nível burocrático, como a nível económico. Por outro, tratava-se de uma época em que a divulgação da informação e a liberdade de expressão eram bastante controladas. A censura era algo muito presente.
Concretização
Apesar das evidentes dificuldades, a determinação e o idealismo próprios da juventude foram mais fortes, o sonho não morreu. Para a sua concretização, foi fundamental a ajuda de João Fernandes de Almeida, que, através da sua empresa, garantiu a fiança bancária exigida pela Lei, a boa-vontade do Presidente da Câmara da altura, Henrique de Figueiredo, que acelerou o processo burocrático, e a colaboração e a solidariedade de Joaquim Duarte, simpaticamente apelidado de “Ti Joaquim da Gráfica”, proprietário da Gráfica da Lousã, indispensável para a impressão dos primeiros números do jornal.
Passo a passo, o projecto inicial ia ganhando forma, tornando-se uma realidade. Mas havia ainda um importante aspecto a definir: a sua denominação. Inicialmente, tinham pensado em “Arunce” ou “Arouce”, designações bastante ligadas às raízes, às origens da sua terra. No entanto, como é referido na edição nº 447 deste jornal, “uma noite já em época de exames, encontrando-nos no café Tropical em Coimbra, aparece-nos o Pedro Malta com um ar feliz, justificando e propondo «TREVIM» para cabeçalho do novo órgão da imprensa regional que estava para sair”. Segundo o autor da ideia, “tratava-se de um nome mais significativo, porque representava, no cume mais alto da montanha, o ponto de encontro de povos vizinhos, comungantes da mesma cultura de uma serra, onde só o génio de porfiar do Homem seria capaz de rasgar e contornar os agrestes alcantis e arrotear as courelas conquistadas a pulso, procurando, ao mesmo tempo, manter as costas rijas para suportar torrentes de injustiça séculos adiante”. Para além disso, significava “uma amplidão de horizontes susceptíveis de poderem vir a receber a mensagem dos nossos ideais, generosos mas firmes nos seus objectivos”.
Primeiros Anos
As dificuldades não se ficaram apenas pela concretização inicial do jornal, que começou por ser quinzenário. Os primeiros anos foram bastante complicados, sobretudo no que diz respeito à sua relação com o poder instituído. Como é referido na edição do Trevim inicialmente mencionada, “a não aceitação do jornal por alguma da elite socio-política local, levou mesmo esta à denúncia junto dos membros da Censura distrital de falsas acusações sobre os membros do jornal”. Segundo João Silva, esta “era uma situação um pouco embaraçosa porque o jornal, muitas vezes, era censurado e censurado de uma forma extremamente exagerada. Por vezes, havia cortes quase brutais, o que implicava que se tivesse de refazer os textos cortados e, também, uma despesa bastante grande”.
Para além disso, “a partida de alguns fundadores, quer por motivos militares, quer por razões profissionais, implicou igualmente dificuldades administrativas que o Pedro Malta soube suportar, realizando essa missão com esforço e sinceridade”. Não existia uma administração profissional, o jornal era feito em regime de voluntariado, nas horas vagas, “por 'amor à arte', sem estar à espera de qualquer compensação material”. Foi Pedro Malta quem, durante muito tempo, tratou da parte administrativa, os recibos, as cobranças. E, desta maneira, como o próprio o comenta, “lá foi andando”.
No entanto, a situação financeira foi-se agravando, cada vez mais, até ao ponto de, em Março de 1970, a edição ter de ser suspensa. A dívida à gráfica atingiu uma dimensão complicada para a época, portanto, “teve de se fazer a paragem, para se pensar o que se iria fazer”. A solução encontrada foi a mudança de gráfica: o jornal passa a ser composto e impresso em Coimbra, pois esta era mais acessível financeiramente.
Quatro meses depois da sua suspensão, o Trevim regressa, afirmando a continuidade e a renovação das suas intenções e dos seus objectivos, evidenciando um notável amadurecimento: “porque deixámos em aberto algumas promessas que a nossa consciência teima em obrigar-nos fazer cumprir ou a lutar por isso. Para darmos realização a um corpo de ideais que encontram na via jornalística o meio mais apropriado para a sua exteriorização. (...) Trata-se de um novo tempo de intervenção, baseado num novo conceito de jornalismo regional, que se quer cada vez mais menos pessoal, virado na sua totalidade, para o conjunto dos problemas da grei, quer a nível de zona, quer à escala nacional. (...) Exigimos a crítica – aplauso ou discordância – ou a sugestão. Desejamos manter bem vivo o diálogo que sempre soubemos travar com todos os que têm acreditado na sinceridades das nossas palavras, na autenticidade dos nossos actos”. O reconhecimento de que se pode fazer sempre mais e melhor, de que foram cometidos alguns erros foi um grande sinal do seu amadurecimento. A 1 de Outubro de 1970, no seu terceiro aniversário, chega-se mesmo a publicar o seu próprio de Ipiranga: “Transformação ou morte”.
Pós 25 de Abril
A Revolução dos Cravos foi vivida com bastante empolgamento por todos os que se dedicavam a este jornal. O entusiasmo foi tal que incentivou a chegada de novos colaboradores, o que foi bastante positivo. Havia um longo trabalho pela frente, pois, com a implantação de novos ideais, era necessária uma revolução e uma renovação a nível de mentalidade. O fim da censura abriu “novas perspectivas à projecção do jornal”, o que se materializou num aumento do número de notícias, tanto nacionais como internacionais.
A 1 de Novembro de 1978, “por conveniência redactorial e necessidade de melhoria gráfica”, o jornal passa a ser composto e impresso novamente na Lousã, mas, desta vez, na Tipografia Lousanense.
Em Agosto do mesmo ano, como forma de ultrapassar as dificuldades que continuamente colocavam em causa a sobrevivência do jornal, anuncia-se a intenção de se constituir uma Cooperativa. Graças ao esforço dos seus promotores e à significativa adesão de amigos do jornal, a 3 de Março de 1979, é registada a escritura da constituição da Cooperativa Editora e de Promoção Cultural Trevim (SCARL), no Cartório Notarial da Lousã. Esta assume, alguns meses depois, o direito de propriedade e a administração do jornal, tendo como objectivo a sua produção e gestão. Para além disso, tinha também a finalidade de editar outras publicações e de realizar eventos culturais. Os sócios fundadores da Cooperativa foram: Pedro Malta, António Ribeiro, João Silva, José Casimiro, José Simões, José de Almeida, Paulino Tavares, José Reis, António Rodrigues e José Duarte.
Em Novembro é criado o conselho de redacção, mas dificuldades continuam a ser uma constante. O 25 de Abril não foi premissa para o fim da conturbada relação entre este jornal e o poder local, o que foi bastante notório quando, existindo a necessidade de novas instalações, “a Câmara Municipal – dispondo na ocasião de outros espaços vagos – concedeu apenas a utilização de uma sala na então arruinada escola do regueiro, de onde se teve de 'fugir', por causa da constante permissividade de assaltos”. Em alternativa, e “à custa de sacrifícios financeiros”, optaram pelo aluguer das actuais instalações (embora, inicialmente, não tivesse sido na sua totalidade).
Em Novembro de 1985, Carlos Henggeler Antunes assume o cargo de director-adjunto interino.
Novas Tecnologias
Segundo José Orlando Reis, “o Trevim foi dos primeiros jornais de âmbito regional que procedeu à reconversão tecnológica. O Governo, reconhecendo a importância do papel da Comunicação Social, estabeleceu um programa de financiamento para a modernização tecnológica de jornais (...) Nós concorremos, apresentámos um projecto e conseguimos apoio. Na altura, esse projecto foi liderado pela Cooperativa Trevim, mas foi em conjunto com o jornal de Poiares e com o de Miranda. O equipamento que veio foi repartido pelos três jornais”, refere.
Para haver um melhor aproveitamento destas novas tecnologias, o jornal passa, a partir de 1992, a ser impresso na Tipografia Comercial, em Coimbra.
A renovação tecnológica torna-se uma preocupação constante da Cooperativa, “é um desafio a que, como é óbvio, não podíamos (nem devíamos) furtar-nos, pois é na sua superação que assenta, em grande parte, a sobrevivência do 'Trevim' como órgão de informação moderno. O futuro aponta, cada vez mais com mais força, a implantação de novas tecnologias como arma decisiva a favor do combate a que a Imprensa desde sempre se devotou”, salienta Orlando Reis. A Cooperativa procura, assim, uma melhoria a nível da qualidade do jornal e o alargamento do número de assinantes, tal como a continuação do trabalho de animação cultural.
Declaração de Utilidade Pública
A 12 de Julho de 1988, a Cooperativa Trevim é declarada instituição de Utilidade Pública, por despacho do primeiro-ministro da época, Cavaco Silva. Segundo João Silva, “ser de utilidade pública é sempre um benefício para a própria instituição porque, perante as pessoas que a consideram como tal, se manifestou de um grande interesse para a comunidade”. Para além disso, existem algumas vantagens a nível económico.
Mais tarde, este jornal viria a ser também distinguido pela Câmara Municipal da Lousã, na comemoração do seu 32º aniversário, a 23 de Outubro de 1999, com a atribuição da Medalha de Mérito do Município.
Em Abril de 1989, Pedro Júlio Malta demite-se da direcção do jornal, a seu pedido, sendo substituído por José Ricardo de Almeida.
Em Novembro de 1990, este também abandona, a seu pedido, as funções de director do Trevim, “cargo que desempenhou com a dedicação e empenho” que sempre consagrou ao jornal, “particularmente desde a criação da cooperativa que ajudou a fundar”.
Casimiro Simões, profissional que trabalha na Agência Lusa, e que já era colaborador do jornal, é convidado para o cargo: “nessa altura fazia de tudo: escrevia textos, fazia notícias, programava, fazia noitadas aqui, às vezes sozinho, para o jornal sair, ia à tipografia...”.
Processos Judiciais
Em Março de 1992, Horácio Antunes, presidente da Câmara, acusa judicialmente o Trevim de abuso de liberdade de imprensa, devido a um artigo publicado alusivo ao processo de licenciamento da rádio local, em que se afirmava como falsa uma declaração autenticada com o selo branco da autarquia. Segundo Casimiro Simões, que viveu este processo como director, autor, co-autor e defensor, este foi um momento que marcou bastante a vida do jornal e que foi vivido com muita preocupação, no geral. Na véspera do julgamento, Horácio Antunes volta a apresentar outra queixa, relativa a um texto opinativo de Casimiro Simões, em que o título era “Câmara abre vagas apenas para inglês ver”, pois denunciava um processo fictício de abertura de vagas para cantoneiros.
A 2 de Novembro de 1993 é criado o Conselho Editorial.
Só em Dezembro deste mesmo ano é que, finalmente, “pára a chuva de processos” contra o jornal, tendo este sido absolvido do primeiro e Horácio Antunes desistido incondicionalmente do segundo, já que “as eleições autárquicas estavam outra vez à porta”.
Renovação
Na edição de 5 de Outubro de 1995, nº 642, o Trevim surge com uma nova concepção gráfica e com um novo cabeçalho, concebido por Manuel Vieira. Esta renovação, “apesar de singela”, visava uma melhor qualidade do projecto informativo, “aproximando-o ainda mais do leitores”.
Em 18 de Dezembro de 1999, as instalações do jornal são parcialmente destruídas por um incêndio, que terá deflagrado por causa de uma avaria num aquecedor eléctrico. São perdidos alguns documentos irrecuperáveis e parte do material de escritório e equipamento da sala da administração.
A 20 de Junho de 2002, o jornal passa a ter uma periodicidade semanal.
A 5 de Setembro do mesmo ano, Casimiro Simões pede a demissão de director: “cabe-me informar os leitores, todos os colaboradores, anunciantes e amigos do jornal que, a meu pedido, formalizado junto da direcção da Cooperativa Trevim, o meu nome figura no cabeçalho pela última vez nesta edição. Não foi fácil esta decisão, sobretudo numa altura em que o jornal já trilha o seu caminho como semanário”, sendo substituído por João Silva. Este, na edição de 12 de Setembro, afirma que procurará dar continuidade ao projecto com dedicação e manter a atitude habitual do Trevim, citando a directriz da primeira edição do jornal: “critica, construindo, informa, formando”. Para além disso, reforça o apelo à colaboração, sobretudo no que diz respeito aos jovens.

Na edição de 1 de Abril de 2004, nº 904, é declarada a aprovação da criação do cargo de Provedor de Leitor do Trevim: “teria de ser alguém bom profissional e bom conhecedor da profissão, que pudesse analisar textos dentro do contexto do jornal”, como afirma Pedro Malta.
Defesa da Cultura Local
Desde o seu nascimento que o Trevim se declarou de imediato um órgão de divulgação de cultura. E isso não foi esquecido com o tempo. Ao longo das suas muitas edições, não é difícil depararmo-nos com os mais diversos programas culturais. A Cooperativa Trevim foi, muitas vezes, protagonista na organização de exposições, de debates, de sessões de caricatura, de concursos, de passeios, de palestras, entre outros, podendo-se dizer que em muito tem contribuído para o fim do “marasmo cultural” por terras lousanenses.
Outra das preocupações deste jornal, foi mostrar que a Imprensa local, ou de proximidade, não tem de ser necessariamente “pobre”, nem tem de estar dependente de qualquer tipo de poder, procurando ser uma prova “viva” disso mesmo.
Para além disso, procurou participar activamente no esclarecimento dos seus leitores sobre o que é a Imprensa local e qual é o seu verdadeiro papel, realizando congressos, palestras, cursos e publicando notícias e artigos alusivos a esta temática: “um jornal regional, ou local, é como um coração. Dirige as pulsações das entradas e saídas de ar. E é, também, como uma espécie de fotografia: por ele podem conhecer-se os rostos reais que estão por detrás de cada notícia, de cada nome, de cada página impressa em velhas tipografias que cumpriam a reprodução de notícias e de lamentos, recordações, euforias, desenganos. (...) Os jornais regionais, ou locais, informando e publicando as suas notícias directamente relacionadas com a sua região, com o bairro de cada assinante, de cada leitor que a um determinado dia da quinzena procura no seu jornal o reconhecimento do seu próprio mundo – esses jornais, dizia eu, cumprem outra função essencial: a da comunicação directa, que rareia hoje nos grandes órgãos de comunicação social, nos diários nacionais, nos semanários de grande informação. (...) São obras de vontade, mais do que dinheiro. São produto de entusiasmo e de empenhamento”.
Apelo à Colaboração

Frequentemente se apelou à colaboração, sobretudo dos mais jovens. Segundo Casimiro Simões, “se não temos jovens, não temos futuro”. O mesmo é salientado por Pedro Malta, “antes de tudo, temos de olhar para a gerações que vêm. Um jornal tem de estar sempre a par do seu público leitor. As gerações vão-se sucedendo, o jornal tem de estar sempre a acompanhar as gerações que se seguem. Embora já tenhamos discutido muito sobre arranjar assuntos que possam interessar a estas gerações mais novas, nem sempre se tem conseguido, mas é importante. É tão importante ter jornalistas jovens, como é importante fornecer a informação que os leitores jovens estejam à espera de receber”.
Segundo José Orlando Reis, administrativamente, o Trevim é um jornal que desde sempre funcionou em regime de voluntariado, o que não permitiu ainda o avanço para um departamento comercial, vivendo muito na base dos assinantes, “cerca de 40 a 60% das receitas assenta nos assinantes, o que, à partida, nos dá uma certa autonomia e independência, não estamos dependentes dos anunciantes. Mas, hoje em dia, de facto, é fundamental ter uma boa carteira de publicidade. E esse é um dos problemas que temos para resolver actualmente”, refere.
Segundo João Silva, na Lousã de hoje, o papel desempenhado pelo Trevim, que ultrapassa as 3500 assinaturas e tem uma redacção profissional com dois jornalistas a tempo inteiro, “continua a ser um papel de defesa dos interesses da nossa terra, da comunidade. Continua a ser um papel de dar voz às pessoas, para se manifestarem, em relação àquilo que não concordam, e um papel de natureza cultural, de levas a cultura às pessoas. A função deste tipo de jornais é ser um transmissor, um veículo de cultura para a comunidade. Penso que o jornal Trevim tem cumprido, dentro das suas limitações, das suas dificuldades, esse papel”, comenta. Quanto à motivação existente, João Silva não tem dúvidas em afirmar que “é óbvio que os tempos são outros. Há 37 anos, havia um entusiasmo muito grande para termos na Lousã um jornal que nos permitisse defender a nossa terra, participar na defesa dos seus interesses e no seu desenvolvimento cultural e levar um pouco às pessoas o conceito de liberdade, que, efectivamente, era importante. Hoje, noutros contextos, o entusiasmo continua. É claro que as dificuldades também (...) Mas eu penso que, mesmo assim, nós continuamos com o mesmo entusiasmo que existia. Até porque também temos aqui jovens, que têm sempre mais entusiasmo. E, enquanto o houver, penso que o jornal Trevim continuará”.

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quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Informação útil

No dia 11 de Junho, realizámos uma conferência sobre “Informação Solidária”, o primeiro passo do “Aqui & Agora”.



Tivemos connosco, desde Brasília, através da Internet, Carlos Cardoso Aveline, jornalista e especialista deste movimento informativo. À mesma mesa, em Coimbra, juntámos Gabriela Oliveira, freelancer, Henrique Pinto, director da Associação Cais, além de Dina Cristo, moderadora, e Bruno Ferreira e Sandra Silva, assistentes. Agradecemos todo o apoio dos convidados, técnicos, alunos e público envolvidos. Eis, de seguida, a cobertura da ESECTV, com reportagem de Cláudia Lucas, imagem de Marco Lucas e edição de Filipa Reis Silva.

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