quarta-feira, 26 de maio de 2010

França Morte

Antes do Dia do Pescador, na Segunda-Feira, editamos o perfil de um dos homens mais empreendedores da indústria pesqueira, publicado há 15 anos na edição nº589 do semanário "Vida Económica".

Texto e fotografia Dina Cristo

Navios. Desenhar, construir, transformá-los. É a sua paixão. Foi ao longo da sua vida. O primeiro “empreendimento” começou teria França Morte uns 16 anos. Juntou-se aos amigos e pôs de pé um barco de vela latina. Durante três anos, a obra fez a travessia entre o Barreiro, sua terra natal, e Lisboa. Foram tempos de passeios. “Andávamos a valer”, recorda.
Depois desta experiência, entra na Escola Náutica. Começa a sentir gosto pelos navios e a valorizá-los. A sério. Aos livros, presta uma atenção até então não dispensada. Faz o curso com “bastante gosto” e agarra a vida activa “com bastante interesse”. Paralelamente às lições, trabalha como desenhador de navios. É o início de uma relação profissional que permanece até agora, aos 72 anos, numa altura em que fez, na Miradouro, 25 lançamentos de navios.

De empregado a empresário

Durante seis anos, até 51, embarca como oficial maquinista. Faz o acompanhamento da construção de navios, inclusive na Inglaterra. Durante os dois anos seguintes é responsável técnico de vapor e energia na montagem de uma fábrica de celulose, no âmbito da qual faz um estágio de seis meses nos Estados Unidos. De volta aos navios, entra na Empresa de Pesca de Aveiro, onde transforma navios de guerra noutros para pesca do atum. É director técnico, projecta uma frota e dirige a sua concepção técnica. Até 65.
Com 42 anos toma a decisão, a partir daqui sucessiva, de ir mais longe. Neste caso, de criar a sua própria empresa. Decide baseado na sua capacidade de projectar navios e na exigência da actividade piscatória. A pesca, para ter êxito, afirma, necessita de pelo menos duas condições: uma concepção técnica, arquitectónica e económica adequada ao fim a que se destina o navio e uma manutenção técnica bem feita.
Tudo o que tinha era 400 contos. Primeiro auscultou amigos e banca. Ficou a saber que o apoiariam e assim se lançou na construção do primeiro e depois segundo navio costeiro. Passado o primeiro obstáculo, o interesse passou a ser a entrada na chamada grande pesca. Para ultrapassar as dificuldades de penetração neste tipo de actividade comprou dois navios (18 mil contos cada) já licenciados. Conseguido o crédito, transformou-os em congeladores e com eles foi para a Mauritânia.
Estávamos em 1967. Injectou capital na sociedade, abrindo portas à entrada de outros sócios, empenhou a camisa, como afirma, e assim começou a fazer as primeiras cargas e descargas de peixe congelado em Portugal. As primeiras reacções não foram as mais amistosas. “Fui muito perseguido pela equipa que orientava as pescas em Lisboa”, afirma, recordando as negações à descarga na Docapesca lisboeta e a montagem de um sistema alternativo entre camionetas e armazéns.

Antever e vencer

Repleto de contratempos e, ao mesmo tempo, de força para prosseguir caminho. Sabia que tinha a razão do seu lado, e a certeza, assegura, de que tecnicamente estava correcto. Ganhava dinheiro e, como diz, ia marchando. Pelo contrário, a quantidade de peixe fresco inutilizado atingia os 20%. Até que se tornou “evidente em Lisboa, que tinha razão”. Os mais directos opositores tornaram-se os seus mais fiéis apoiantes e, em 67, a imposição nos congelados estava conseguida.
Obtém uma ajuda de 12 mil contos do então Fundo de Renovação para a Indústria de Pesca. Um empréstimo referente à transformação dos navios, a uma taxa de juro de 3%. Estava resolvida mais uma etapa. E agora, ‘despachada’ a questão da Mauritânia, o pensamento de França Morte foi ‘só’ um: “vou andar mais para a frente”.
Comprou dois barcos que Portugal havia adquirido à Mauritânia (como exigência para o estabelecimento de quotas de pesca), inactivos. Motivo: a sofisticação da aparelhagem técnica. Sem receios ou medos de qualquer espécie, França Morte levou-os até Aveiro. Seis meses depois estavam prontos a iniciar a faina da pescada na África do Sul. Depois, também na Namíbia.
De navio em navio, o número ia crescendo e em 74 eram nove. Depois da revolução, França Morte ainda trabalha na congelação de peixe no Brasil, mas volta a Portugal para fazer crescer o império marítimo que havia iniciado. Durante a década de 80, constroem-se mais sete, de tal modo que hoje soma 16 navios. São embarcações que fazem parte da frota longínqua portuguesa, para a qual vai faltando quota de pesca.

Etiquetas: , ,

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Humberto Delgado

Faz, Sábado, 45 anos que desapareceu um homem que, em plena ditadura, ousou ser livre e desafiar o medo. Lembramo-lo hoje num texto lido aos microfones da Rádio Regional Sanjoanense, no programa "Espaço Boina Verde", da Associação de Pára-Quedistas das Terras de Santa Maria.



Humberto Delgado nasceu a 15 de Maio de 1906, na Aldeia de Boquilobo, perto de Torres Novas. Seguiu uma carreira militar e tornou-se num distinto e prestigiado General da Força Aérea Portuguesa. O destino perpetuou-lhe o nome de "General sem medo", fez do humanismo a base do seu comportamento e da sua filosofia.
Falar de Humberto Delgado é falar dos princípios da liberdade de pensamento; princípios esses, traduzidos no ponto de apoio da "alavanca" que devemos dirigir em proveito comum para a fortificação e progresso da Humanidade.
Foi politicamente um liberal democrata, fortemente influenciado pela cultura anglófona e pela sociedade americana.
Regendo-se pelo padrão do sentido do dever, toma a posição cívica em defesa dos mais fracos e dos mais oprimidos, contra a ditadura, pela defesa da liberdade de expressão.
O desprezo pela deslealdade entre os homens era um dos traços mais salientes e constantes do seu carácter incorruptível ancorado no seu cunho de valor moral e patriótico.
Ao longo da sua vida, nunca deixaria de associar a integridade e a coragem à virilidade, materializando-se no seu elevado grau de princípios.
Homem bom, dotado de fina e judiciosa integridade, sempre pautou a sua conduta pelos valores da nobreza de carácter, da coerência de ideias e da vontade de ser útil à sociedade, assumindo fortemente posições intransigentes na defesa do livre pensamento.
Auto-fidelidade

Corporizou o principal movimento de tentativa de derrube da ditadura através de eleições, tornou-se no homem que mais multidões congregou durante o regime salazarista.
De total frontalidade, dizia sempre o que pensava fosse a quem fosse. Numa famosa entrevista, um determinado jornalista pergunta-lhe que postura tomaria face ao Presidente do Conselho de Ministros, caso vencesse as eleições. Sem hesitar e fazendo ponto de honra à sua mais pura e legítima liberdade de pensamento, responde: "obviamente demito-o".
Foi a frase de declaração de guerra ao regime, reveladora de uma atitude indiscutivelmente corajosa.
Corria o ano 1958 e com ele as eleições presidenciais, que o levariam à derrota, graças à gigantesca fraude eleitoral montada pelo regime de então.
Sequência dessa derrota, vítima de represálias por parte da polícia política, pede asilo político ao Brasil, seguindo depois para a Argélia.
Nesse contexto, foi atraído a uma tramóia maquiavélica, previamente preparada, que resultou na sua morte às mãos da PIDE, no fatídico dia 13 de Fevereiro de 1965, na fronteira de Espanha, nos arredores de Olivença.
A luta que encetou até ao dia em que foi morto, reflecte-se na sua famosa frase: "estou pronto para morrer pela liberdade".
Coragem de ser livre
Foi um acérrimo combatente, indomável pela liberdade do seu País, a quem doou a sua própria vida.
O seu exemplo, leva-nos a personificar a ideia de que todas as derrotas são vitórias, uma vez que quando se morre por um ideal, vence-se sempre. Sensibiliza-nos ainda para o facto de que, sem memória, não existe história, assim como sem história, não existe memória.
A força e a coragem que empreendeu pela liberdade, pelo desenvolvimento e pela dignificação do nosso País, fez dele um cidadão que, sem hesitação, sempre sacrificou os seus interesses, aos ideais de uma sociedade mais justa e ao bem-estar do semelhante. Apostou sempre na mudança e na transformação da sociedade, num tempo em que, como sabemos, discordar era crime.
Presenteou-nos ainda com a "lição", de que o mundo gira à volta de dois grandes sentimentos: a vontade e o medo. A vontade, leva-nos a alcançar os objectivos traçados em consciência com o nosso livre pensamento, enquanto que o medo consentido dá a cobardia, ao contrário do medo vencido que nos dá a coragem.
Reflexo do seu glorioso exemplo, que nos deixou, e da "lufada de ar fresco que injectou" na sociedade portuguesa, tornou-se num verdadeiro precursor do 25 de Abril de 1974. Defendeu que a ditadura só cairia através da acção militar, o que viria a ser protagonizada pelas Forças Armadas, apoiadas pelo povo, o que aconteceu de facto nove anos após o seu assassinato.
Memória exemplar
Em 1990, esse grande vulto da democracia da nossa história contemporânea foi nomeado, a título póstumo, Marechal da Força Aérea e os seus restos mortais trasladados para o Panteão Nacional.
Humberto Delgado tornou-se numa das figuras mais marcantes do século XX, deixou o patriotismo aliado ao livre pensamento como traço marcante da sua personalidade. Pensamento esse, que sempre esteve no seu espírito e manteve muito bem guardado no âmago do seu coração. Assim seja acrisolado e herdado pelas novas gerações, por se tornar no bem mais precioso que a alma da democracia pode almejar.
Torna-se desta forma determinante, para que os princípios da liberdade, igualdade e fraternidade sejam respeitados à luz da declaração universal dos direitos do homem. Considerado um dos "pais" da nossa liberdade, e um mártir da resistência portuguesa, depois de morto ainda consegue mexer e, ao mesmo tempo, incomodar algumas mentes mais conservadoras.
Perpetuar a memória de Humberto Delgado é manter bem vivo o seu exemplo como homem, como cidadão e como lutador. De rara e forte coragem que, apesar de humilhado e perseguido, nada impediu de defender a excelência das suas convicções, e consequentemente as reformas sociais para a dignificação do ser humano.
Ficam aqui bem patentes e espelhadas as grandes virtudes no exemplo que esta gloriosa e ilustre figura Universal, nos deixou para a prosperidade; assim fica o seu merecido e honroso lugar na história.
Resta-nos agora saber honrar a sua memória, a sua coragem, a sua entrega às causas públicas e o amor à liberdade e à Pátria.

*Delegado da Fundação Humberto Delgado, Pára-quedista da Força Aérea Portuguesa e Sargento-Chefe da Guarda Nacional Republicana.

Etiquetas: , ,

quarta-feira, 7 de maio de 2008

No calor do relato


Três anos depois da sua morte, e num mês em que completaria 60 de aniversário, evocamos o rei da rádio, a voz que emocionava Portugal. Sobretudo relator, mas também animador, como no programa da Rádio Comercial “No calor da noite”.

Texto Dina Cristo

«Havia três modos possíveis de se ver futebol: no estádio, na TV ou ouvindo o Perestrelo». Angolano, onde viveu até aos 27 anos, com ida ao Brasil, trouxe das terras quentes uma forma diferente de ser, estar, comunicar e relatar o futebol. Amava o que fazia e a sua entrega à profissão era de corpo e alma. Na voz veiculava o que o seu coração sentia.
«O desaparecimento das palavras de Jorge Perestrelo das ondas do éter é uma dor na alma de Portugal. Poucos deram tanta cor na rádio à vivência mundana da vida. Destacou-se no desporto. Mais valia ter a televisão sem som e ficar a ouvi-lo (…) Com o sangue de África à flor da pele. Aprendemos a vibrar com o desporto com este senhor da rádio. Podia ser polémico. Ter um mundo próprio. Gostar de muamba e feijão com óleo de palma. Mas só quem nunca comeu o milho de Angola pode duvidar do seu gosto», redigiu Filipe Rodrigues da Silva.
Filipe Moura sublinhou: «Ninguém, mas ninguém, se lhe equiparava. Os momentos em que começava a mandar vir com os jogadores eram carismáticos, verdadeira transmutação num personagem colectivo por ele assumido no mais genuíno sentimento. Era sanguíneo, sempre atento aos "passarinhos", recordando as moambas, saudando a terra quente de África, celebrando os seus amigos. Era excessivo; logo, pouco português. Uma benesse».
Carreira

Nascido em terras de Angola, onde se iniciou na rádio - Rádio Clube (RC) do Lobito, sua terra natal, depois mais tarde com passagem pelo RC do Mochico e Rádio Comercial Sá da Bandeira – de lá trouxe uma cultura peculiar que não abandonou em Portugal. Igual a si próprio, fiel a si mesmo, perseguiu em ser como era, mesmo em ambiente mais frio e mental. «Com um estilo espontâneo, temperado pelas influências africana (Angola) e brasileira, sempre com o “coração ao pé da boca”, muitas vezes polémico, Perestrelo trouxe até nós, via rádio, ao longo de cerca de 30 anos, incontáveis momentos de esfusiante alegria, intensas e vibrantes emoções» .

Em Portugal trabalhou no Rádio Clube Português, na Rádio Comercial e esteve desde os primeiros momentos nos projectos de rádio – TSF – e televisão – SIC. «Tu nunca cabias em categorias. Ainda na quinta-feira falámos nisso, pela milésima vez. Sempre achaste piada à diferença. Nunca quiseste ser um tipo fácil. Partes depois dos repetidos «eu te amo Sporting» que arrepiam. Quando era a sério, Jorge, quando era preciso dar tudo, tu eras o melhor. O mais forte, o mais ousado. De ti vou guardar a irreverência perante os que se acham poderosos», escreveu Luís Sobral.

Emoção contagiante
Nas reacções à sua morte (há três anos) colegas e ouvintes recuperaram a sua personalidade: irreverente, exuberante, extremado, provocante, perturbador, extrovertido, eloquente, entusiasmado, enérgico, vibrante, alegre, criativo, empolgante, diferente, singular, talentoso, dedicado, frontal, autêntico. Traços de um homem que se expressam na sua actividade (profissional), com reações contra ou a favor, mas raramente de forma indiferente: «Devo confessar que não [o] suportava. [Ele] era adorado, venerado e idolatrado cá em casa. Os relatos de bola na rádio passaram, coisa inaudita, a ser ouvidos em altos berros por causa dele. O tom stressante punha-me os pêlos do coração em pé, as tais frases da rapaqueca arrepiavam-me o fígado», anotou um cibernauta.
A princípio contestado, criticado e mais tarde popular entre os ouvintes e copiado entre alguns colegas. Marcou uma época, como afirmou António Macedo e deixou discípulos, como lembrou Filipe Rodrigues da Silva. A sua voz silenciou-se mas na memória de muito público permanecem expressões peculiares como “ripa na rapaqueca”, “qu´é qu`é isso, ó meu?”, “essa até eu com a minha barriguinha marcava”, “é disto que o meu povo gosta”, “nem que a vaca tussa”. Agradecia aos ouvintes pelo privilégio de o sintonizarem e gritava “aguenta coração”.
De tanta emoção até ao último jogo, o coração não aguentou mesmo e parou. De repente. Nas mãos de um médico amigo no Hospital da Cruz Vermelha. Os seus últimos relatos e os derradeiros golos que descreveu são hoje arrepiantes, como sublinharam vários ouvintes. «Recordo o seu grito no relato da TSF, vulcão rouco de alegria e choro explodindo quando o Ricardo marcou o penalti aos ingleses: “Obrigado Portugal, obrigado meu Portugal, obrigado, obrigado, obrigado”, sempre a repetir estas palavras, “obrigado, obrigado, obrigado”, até perder a voz. Fiquei arrepiado até à raiz dos cabelos. Por pouco não chorava também».
Jorge Perestrelo que disse em tempos, que “se tivesse uma namorada oferecia-lhe este golo” e que um repórter que faz a cobertura de um funeral teria de chorar, foi cremado no cemitério dos Olivais na mesma altura em que a TSF anunciava um livro de Fernando Correia. Deixou a mulher e dois filhos, Luena e Pedro. Deixou-nos a todos, mas “a sua voz não se calará nas nossas memórias”. Como alguém disse, este monstro da rádio coloriu-a com palavras quentes do sul e nela deixou pegadas de liberdade.

Etiquetas: , ,

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Mulher sem medo

No dia em que passam quatro anos sobre a morte de Etelvina Lopes de Almeida, recordamo-la, numa auto-biografia, concluída há cerca de dez anos, durante uma investigação sobre a rádio nos anos 50. Numa entrevista inédita, esta voz da EN passa em revista alguns dos principais acontecimentos da década: os folhetins, inaugurações, os movimentos independentistas, Humberto Delgado e a oposição.

Recolha Virgílio Luís Silva fotografia Dina Cristo

Nasci em 1916, em Serpa, no Baixo Alentejo, e fiquei por lá até aos meus cinco ou seis anos. Os meus pais eram professores primários e, por volta de 1920, foram exercer a profissão em Idanha-a-Nova, onde residiam os meus parentes paternos.
Fiz a instrução primária em Idanha. Fomos, depois, residir para Barcarena, na sequência de um caso desagradável ocorrido com a minha mãe quando estava nos últimos meses de gravidez da minha irmã Maria Isabel: a minha mãe sentiu–se muito mal e faltou às aulas durante uma manhã. Nesse tempo as turmas eram muito grandes, na província um professor tinha três ou quatro classes juntas e, para poder ministrar o programa a cada classe, ficava na escola até muito tarde. Quando a minha mãe chegou à escola, depois do almoço, estava o inspector escolar à espera dela para a informar de que ia ser processada por ter faltado nessa manhã. A minha mãe, com uma gravidez mais do que evidente, lá se explicou. Mas não, não havia justificação plausível para o atraso.
O processo disciplinar penalizou-a em dois anos sem trabalho e sem remuneração. Ficámos numa situação difícil, com metade do orçamento para uma família acrescida. Descontentes, os meus pais resolveram sair do Distrito. Antes de nos fixarmos em Lisboa, ainda residimos no Monte da Caparica e Almada. As sucessivas aproximações da família à capital estavam relacionadas com a continuação dos meus estudos e dos de minha irmã.
Já em Lisboa, frequentei o Liceu Maria Amália que era, então, no Carmo. Tenho gratas recordações de algumas professoras. Quero prestar homenagem à minha professora de História, a Sra. Dra. Olímpia Bastos, que sabia prender a atenção dos alunos e transformava a aprendizagem num prazer. Era ela quem ensaiava as nossas festas e mantinha com as alunas um relacionamento de verdadeira amizade.
No Liceu fiz a secção de Letras. Pensei seguir o Curso de Filosofia, mas era necessário tirar a Secção de Ciências. Resolveu-se, em casa, que seria melhor ficar internada num colégio com boa reputação, que havia em Queluz. A mensalidade era de 400$00.
Eu tinha saído de um esgotamento cujo tratamento consistia em repouso absoluto, sem estudar, nem ler os jornais. Naquele tempo não havia muitas possibilidades de distracção sem sair de casa. Ouvia rádio. Entusiasmei-me, então, com as emissões de O Papagaio, dirigidas por José Castelo na Rádio Renascença e comecei a colaborar no programa enviando objectos que respondiam a jogos de adivinhas. Lembro-me, por exemplo, de que enviei um colar de bogalhos para completar a frase que devia ser ‘vila de Colares’.
Tinha uma participação activa no programa e a minha contribuição de artesanato foi tal que fui convidada para a exposição que encerrava o concurso. Conheci, então, a equipa de O Papagaio.
Por essa altura saiu a secretária do José Castelo e, lembrados do meu empenhamento, convidaram-me para a substituir. O vencimento era de 400$00 mensais. Aceitei, eu tinha 25 anos e achei que devia ajudar os meus pais a criar a minha irmã mais nova, a Maria Alexandra. Desisti do Curso de Filosofia.
Quando o José Castelo foi para a BBC, fiquei a substituí-lo tanto na locução como nos noticiários e sessões de lançamento de artistas. Lembro-me que nessas sessões se estrearam a Maria de Lourdes Norberto e a Carmen Dolores.
Fui acumulando trabalho e já estava a rever as provas da Revista da Renascença, ganhando os mesmos quatrocentos escudos. Não era justo nem suficiente. Eu estava a fazer economias até nas refeições. No andar por cima da Rádio Renascença havia a pensão dos pais do Igrejas Caeiro. Eu mandava vir o almoço da pensão, que constava de uma sopa, um prato de peixe, um prato de carne e vinho (que eu substituía por fruta) e pagava cinco escudos. Almoçava metade e guardava o resto para o jantar.
Sugeri ao Lopes da Cruz, então responsável pela Rádio Renascença, um aumento de vencimento correspondente ao aumento de trabalho. Recusou e decidi sair. Entretanto, o Adolfo Simões Muller que fazia parte da equipa de O Papagaio foi para o Diário de Notícias e, sabendo do meu descontentamento, convidou-me a ir também. Resolvi esperar mais um tempo para não deixar o programa sem substituto.
Surgiu outra oportunidade de trabalho que me pareceu interessante e deixei a Rádio Renascença. Entrei para uma empresa de recortes de imprensa, recém-criada. Recebia oitocentos escudos por mês, estava a melhorar.
Já tinha, então, a colaboração no Modas & Bordados. A Maria Lamas, então directora da Revista, convidou-me para a secretariar. E fui.
Em 1943 era chefe de redacção de Modas & Bordados e assinava contos e reportagens no Século Ilustrado, da mesma empresa.
Em 1944 concorri a locutora da Emissora Nacional. Na altura, a admissão na carreira exigia três provas de aptidão: prova de voz, que era eliminatória, em que passei sem dificuldade porque já vinha com a experiência da Rádio Renascença; uma segunda prova de conhecimentos de música erudita e ligeira; uma terceira prova que consistia na leitura de textos em língua francesa e inglesa. Passadas estas provas com êxito, fiz um estágio de oito dias ao microfone.
Em 1946, era locutora da Emissora Nacional e directora de Modas & Bordados. Por esses anos realizei, também, algumas tardes infantis no S. Luís e no Coliseu dos Recreios a favor da Colónia Balnear Infantil de O Século.
Nunca me desliguei de Serpa onde passava férias. Observava de perto o abandono sociopolítico do Alentejo. O desencanto dos trabalhadores espelhava-se nos cantares que, de uma forma poética chamavam a atenção para as disfunções sociais:
Bem podia, quem tem muito; Repartir com quem não tem; O rico ficava rico; E o pobre ficava bem.
No intervalo dos trabalhos sazonais, as mulheres (tal como os homens) do campo ficavam sem emprego e sem qualquer remuneração. Organizei uma ‘oficina’ de tecelagem onde mulheres da zona de Serpa pudessem aprender uma actividade que lhes valesse algum dinheiro para ajudar o orçamento familiar. Em 1945, a Casa do Alentejo, em Lisboa, expôs esses trabalhos de tecelagem. O certame abriu com uma conferência cujo tema foi A Mulher no Trabalho. Era, também, uma forma de chamar a atenção dos citadinos para os problemas económicos dos trabalhadores rurais.

Em 1948, surgiu a oportunidade de tomar posição a favor da democracia. Assinei, juntamente com outros colegas da Emissora Nacional, as listas da oposição que advogavam a liberdade de imprensa e a libertação dos presos políticos do Tarrafal, entre outras coisas.
A demissão dos cargos de quantos assinaram o documento era óbvia, mas não foi imediata. O António Ferro, então responsável pela Emissora Nacional, não tomou qualquer medida, pelo menos directamente. Só as atitudes das chefias mudaram. Eu pertencia à Secção Social da Casa do Pessoal e, nessa condição, era contactada pelos trabalhadores de menos recursos para lhes valer na compra de medicamentos e obter exames médicos de que necessitavam. Para isso, consegui um acordo com o Sr. Desidério, da farmácia do bairro: ele fornecia os medicamentos receitados pelo médico aos funcionários mais carenciados e eu, como funcionária da Casa do Pessoal, responsabilizava-me pelo pagamento no final do mês. Certo dia soube, pelo empregado da farmácia, que o meu nome «estava invalidado» pelo meu chefe.
A partir daí só conseguia consultas nos hospitais ou radiografias para os trabalhadores através de conhecimentos de gente da oposição que os faziam gratuitamente (não tinha garantia de que autorizassem o pagamento). Dificultava-lhes, assim, a tarefa de me excluírem dos serviços de Acção Social.
Quando o António Ferro saiu da Emissora Nacional para ocupar outro lugar, deixou na gaveta os processos dos oito trabalhadores que tinham assinado as listas da oposição. O Felner da Costa, que o substituiu (vinha da Federação Nacional para a Alegria no Trabalho!!!), apressou-se a pôr-nos na rua.

Em 1949, fiz-me sócia da Liga Portuguesa Feminina para a Paz, com sede num 1.º andar do Largo do Príncipe Real. Fazíamos reuniões em que se falava dos problemas da mulher, mas acabou. As sócias passaram para o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e aí é que havia actividade. Na direcção esteve a Sara Beirão e depois a Maria Lamas que estava muito feliz por ter um espaço onde podia dizer o que queria.
Então o Conselho fez uma exposição de obras literárias de mulheres de todo o mundo, cedidas pelas embaixadas, com os respectivos retratos pintados por uma das sócias. Tudo feito no maior segredo. Em cada dia que durou a exposição houve uma conferência. Correu normalmente até que chegou a vez de Maria Lamas falar. Foi brilhantemente agressiva, foi presa. A Associação, obviamente, fechada.
Mais tarde a Fernanda Pires da Silva resolveu ressuscitar o Conselho: reuniu, na Sociedade de Geografia, a Maria Lamas, a Cesina Bermudes, convidou a Presidente do Conselho Nacional das Mulheres Brasileiras, falou-se muito, fizeram-se muitos projectos e... ficou por aí.
Em 1962, assinei um documento da oposição contra a guerra de África e, por isso, fui demitida da revista Modas & Bordados. Estava sem Rádio e sem Revista. Para sobreviver recorri ao trabalho clandestino total. Nunca assinei com pseudónimos, não assinava.
Estive assim até 1968, quando fui para Paris, para casa de minha irmã Maria Alexandra, donde mandei uma série de reportagens sobre os emigrantes portugueses, para publicar no jornal O Século (sem a minha assinatura, claro!). Era a época do boom da construção civil e dos bidonville, esses buracos de chão térreo, muito frios, aquecidos com braseiras e onde morreram alguns emigrantes intoxicados. Fui muito bem recebida, era alguém que se interessava por eles.
Colaborava, então, na revista Donas de Casa e aí contactei com o projecto Cidade Turística - Madeira Matur, ligada à imobiliária Construtora Grã-Pará. A empresária, Fernanda Pires da Silva, convidou-me para coordenar o Gabinete de Relações Públicas da empresa e promover, directamente, os hotéis da Ilha da Madeira e do Algarve em exposições que realizámos na Espanha, Suíça, Bélgica, Brasil e Canadá. Tínhamos públicos específicos: operadores turísticos, embaixadas e emigrantes. Lembro-me de que levámos milhares de estrelícias para distribuir. Foi um êxito. Era uma forma muito diferente de promover serviços, era directa e com calor humano.
No Canadá, senti-me em casa. Desci a Rua Augusta, todas as lojas tinham produtos tipicamente nossos. Acabei por assistir a 17 baptizados (ao mesmo tempo), na Igreja de S. Luís.
Quando fui ao Brasil, os emigrantes convidaram-me para uma festa e avisaram-me de que havia uma surpresa. Era uma surpresa confrangedora: um par de tamancos acompanhados da frase «foi só isto que trouxemos». Era uma forma de agressão. No meio da surpresa, apertei os tamancos ao peito e disse «foi a melhor prenda que me podiam dar, foi de tamancos que os portugueses fizeram o Brasil» e desfez-se o gelo.
Com a revolução do 25 de Abril fui reconduzida ao meu lugar de locutora na Radiodifusão Portuguesa (nome resultante da fusão da Emissora Nacional com outras estações de rádio não estatais). Em 1975, fiz um curso de Chefe de Equipa de Realização Radiofónica e, no ano seguinte, fui chefiar o Departamento da Radiodifusão Portuguesa Internacional, onde podia continuar a contactar com as comunidades portuguesas no estrangeiro. Nesse mesmo ano, no dia de Camões, organizei a primeira Mesa Redonda Internacional. Depois fui várias vezes ao estrangeiro visitar as comunidades emigrantes. Fui a Lyon, convidada pela Associação de Emigrantes Portuguesas para festejar o 1.º de Maio e aos Estados Unidos inaugurar uma estação de rádio dirigida por emigrantes portugueses. A revolução dava-me espaço para continuar a luta pelos meus ideais e achei que o faria melhor integrada no Partido Socialista, onde sempre me situara ideologicamente.
Em 1976, fui eleita deputada do PS à Assembleia Constituinte, pelo Circulo Eleitoral de Évora. Foi o ano em que se discutiam, na Assembleia, os artigos da Constituição da República. Nem toda a gente queria uma Constituição democrática. As galerias estavam cheias de pessoas a assistir que se manifestavam contra tudo o que se dizia no hemiciclo. A certa altura resolveram boicotar a Assembleia e fecharam-nos as portas. Os deputados ficaram prisioneiros dos manifestantes durante dois dias e duas noites. Os manifestantes ocuparam o refeitório e obrigaram–nos a uma greve involuntária de fome.
Havia uma senhora grávida que se sentia mal. Telefonei para a Radiodifusão Portuguesa a pedir que nos enviassem comida e os colegas da rádio solidarizaram-se e mandaram sandes mas o piquete, que estava a controlar a porta do palácio de S. Bento, não deixou que entrasse a comida.

Como não conseguíamos dissuadir os manifestantes, o Professor Henrique de Barros telefonou ao Vasco Lourenço a pedir ajuda e apareceu um helicóptero que deixou cair as sandes no jardim do palácio. Ainda tentaram impedir que apanhássemos a comida saltando para o jardim, mas não conseguiram.

Os deputados de então tinham que responder a desafios muito diferentes. Um deles era gerir a novidade das cooperativas agrícolas. Solicitavam-me para os mais diversos assuntos. Era necessário arranjar técnicos agrícolas, maquinaria, tudo o que faltava. Bati-me pelo meu eleitorado e fui reeleita em 1978.
O meu interesse pelos problemas das mulheres continuaram e, em 1983, fui distinguida pelo Conselho Nacional das Mulheres Brasileiras como A Mulher do Ano no Relacionamento Portugal-Brasil. Estava integrada na Associação Portuguesa de Mulheres Empresárias e Profissionais e colaborei, activamente, no 1.º Congresso Internacional, em 1987. Em 1994, fui homenageada pela Associação das Mulheres Socialistas.
Outra das minhas preocupações era a qualidade de vida dos idosos. Fui à Suécia para contactar com formas de organização de casas para a 3.ª idade e, em 1983, o Parlamento Europeu para o Idoso convidou-me a presidir a uma sessão em Estrasburgo, aquando foi aprovada a Carta Europeia para os Idosos. Estes contactos deram-me curriculum e experiência para o que faço agora.
No dia 10 de Junho de 1995, o então Presidente da República, Dr. Mário Soares, agraciou-me com a Ordem da Comenda de Mérito. Continuo a trabalhar e a escrever. Estou a finalizar a introdução para um livro que a Fernanda Pires da Silva vai publicar sobre o primeiro restaurante junto ao Cristo Rei (que respeita o ambiente) e a rever o livro de que já falei, Ao Levantar das Tendas. Não lamento nada do que me aconteceu. Quero que se saiba que não trocava a minha vida por nada.




Etiquetas: , ,

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Souvenir de Portugal


Foi um dos nomes mais importantes da música ligeira portuguesa dos anos 80. Chama-se Carlos Paião e faria dia 1 de Novembro 50 anos.


Texto Dina Cristo fotografia EMI - Valentim de Carvalho


Fruto de uma “História Linda”, faleceu em 1988, num acidente de viação, a caminho de um espectáculo. Tinha 31 anos e havia concebido centenas de canções. Além da sua capacidade de produção, criatividade, inovação, simplicidade e versatilidade, ficou conhecido pela sua crítica, sátira e humor, qualidades hoje reconhecidas.

Defendendo que “o difícil é trabalhar o simples sem dar cabo dele”, Carlos Paião tinha, segundo João Gobern, “(…) um raro sentido de oportunidade e a difícil escola da simplicidade nas melodias que arquitectava revelava um invulgar domínio da língua portuguesa quando escrevia os seus poemas (…)». David Ferreira escreveu mesmo que “Aqui e ali, a cavalo num trocadilho que parece inocente, ressalta a capacidade de observação dum verdadeiro cronista de tiques, clichés e costumes”. Já Miguel Azevedo apreciava, no “Correio da Manhã”, que desde o “(…) fado à canção infantil, da balada de amor à composição burlesca escreveu de tudo para todos».
Depois de em 2003 ter sido editado pela EMi, Valentim de Carvalho, um CD duplo assinalando a sua morte, denominado “15 anos depois – Carlos Paião letra e música”, em 2006 foi editado um outro comemorativo do início da sua carreira, em 1981, com “Play-back”, tema vencedor do Festival RTP da Canção. Este CD reúne canções interpretadas pelos mais diversos artistas para os quais escreveu, entre os quais Herman José e Amália Rodrigues.
Carlos Paião nasceu em Coimbra e formou-se em Medicina. Nos anos 60 aprendeu música, nos anos 70 já havia escrito dezenas de canções, mas foi durante os sete anos de profissionalização, entre 1981 e 1988, que somou centenas de criações. Foi instrumentista e letrista, fazia os arranjos musicais, era compositor, intérprete e produtor. Deixou-nos num “Intervalo”, tendo vivido de mãos limpas e podendo gritar bem alto que viveu, como escreveu nesse último ano da sua vida.

Etiquetas: , ,