quarta-feira, 19 de Dezembro de 2007

João 3-16

Nesta quadra de Natal, eis um conto original sobre a importância... do essencial

Texto José Maria Alves fotografia Dina Cristo

Foi na cidade de São Paulo. Na avenida Brigadeiro Faria Lima. A noite de Inverno estava escura e triste, com os fumos da poluição a envolverem os candeeiros de iluminação pública. O frio inusitado circundava objectos e seres. A pobreza era mais pobre, e o sofrimento mais sofrido. A miséria dos desfavorecidos golpeada pela opulência dos edifícios e pela quentura da riqueza.

Junto a uma loja, na calçada, um rapazinho de 11 anos, sujo, vestido de indigência, trémulo, de uma magreza desconfortante a exibir uns belos olhos negros, vendia os doces que não se aventurava a comer.

O pai morrera num assalto, quando tinha dois anos. Não nascera salteador, assim como a sua desventurada mãe, perdida nos subúrbios, não nascera prostituta. Só ele nascera desafortunado.

Quando o frio o não acossava tanto, interpelava-se quanto à justiça do mundo. “Não lhe daria Deus uma fogueira, e quem sabe um pedaço de pão com manteiga? Ele que enchia de afagos e carícias os passantes de viaturas aquecidas e dos condomínios luxuosos. Ouvia gente rica e poderosa falar dos pobres, mas tinham a barriga inchada de tanto comerem e roupas caras para se aquecerem.”

Os pensamentos desvaneciam-se na bruma e no gélido bafo da noite. A melancolia dos seus olhos, mais parecia clamar pela morte em segredo, de modo lento, para não doer.

Os transeuntes apressavam-se, não reparavam nele, nem acudiam aos seus apelos de compra, transformados em invocações de misericórdia. Ninguém comprava, apenas passavam por si, alheios ao padecimento e ao desabrigo, presos ao seu próprio ego e mesquinhas ambições.

Renunciou. Por que havia de insistir?! De que lhe serviriam mais uns magros reais?! Sentou-se nos degraus de um prédio de escritórios, e olhou para o céu. “Nem uma estrela”, pensou. “Gostava ao menos de poder olhar uma estrela a luzir no firmamento.” “Teriam os ricos um céu só para eles?; provavelmente têm, com muito pão, doces, e lume para se aquecerem quando faz frio e limonadas geladas para quando o calor comprime o peito e não nos deixa respirar.”

Tinha saudades da mãe que o abandonara e do pai que não se lembrava de ter conhecido. E tinha frio, e fome, e uma tristeza que só os pobres sabem reter. Não pedira para nascer. Deus bem podia ter-se esquecido dele e dar a sua alma a outro menino que não tivesse de dormir num vão de escadas. Até o Menino Jesus dos presépios, que vira no último Natal, tinha palha, uns panos e animais para o aquecer, uma mãe para o alimentar e um pai que o escudava do mal, da agonia e do pesar. Também ele queria uma cama, um gato que se enroscasse na sua barriga e um pão recheado que a enchesse.

Nisto, um polícia aproximou-se, visivelmente cansado, com as faces enrugadas por não saber sorrir, e perguntou: - Estás perdido? - Não, não estou senhor. Apenas queria um lugar quente para dormir – respondeu o rapaz com a indiferença e naturalidade de quem nada pode perder, por nada ter. - Onde é que tu dormes? – volveu o agente, que parecia ausente na dureza viciada do seu modo de falar.

- Na Paulista, numa caixa de cartão. Mas hoje tenho muito frio. Talvez não seja o frio, talvez seja eu. Quem sabe se não tenho febre?! Dói-me o corpo. Só queria um lugar quente. Dizem que no Norte faz sempre calor e que as praias estão sempre cheias; aí venderia água de coco, gelados e não teria frio. Mas não sei como ir, não tenho reais que cheguem para comer um pão, quanto mais para viajar. E como deve ser longe; nunca saí desta cidade. Gostava de ver o mar e os barcos com as velas ao vento, como nos postais; e de ir no comboio ao Rio para olhar os turistas que vivem em lugares onde não lhes falta nada e por isso têm dó dos mendigos. Se calhar só dão para poderem ir para o céu, ou para se verem livres de nós, mas pelo menos dão; quem me disse foi o “Caipira” da Rua Augusta.

O polícia apesar de exausto, olhou a criança, demoradamente, como quem chora ou como quem quer chorar e não sabe. Ficou em silêncio por alguns segundos, deslocou o boné para o lado e coçou a cabeça luzente, já quase sem cabelos.

Apontando para uma transversal, disse: - Bem, menino, desces esta rua e mais ou menos ao meio, vais encontrar uma casa grande, pintada de branco, com um jardim e com portões verdes. Quando chegares, toca na sineta. Alguém te irá abrir a porta, abrem sempre. - E o que é que eu faço? – questionou o rapaz um tanto confundido. - Nada. Diz apenas: João 3-16.

Estranho. João 3-16... João 3-16. Nunca ouvira tal coisa. Quem seria o João? O dono da casa? Um amigo do dono? E 3-16? Estranho. João 3-16. Ninguém se chama assim, com números e tudo, pensava, só os que estão presos com tabuletas no peito, como nos filmes que correm nas televisões das montras.

O frio aumentava enquanto a noite crescia. Desceu a rua, tocou a sineta. Ninguém vai aparecer, pensou. Não deve estar ninguém. História de polícia; se calhar estava bêbado. Toco outra vez? É melhor não. Ainda me maltratam.

Enquanto absorto nessa torrente de pensamentos, acendeu-se a luz da ombreira e abriu-se a porta de madeira talhada. Uma senhora idosa poisou nele o seu olhar meigo e caridoso, como quem acaricia com a vista uma flor, ou envolve uma criança num pano de linho, o que lhe fez perder o receio que o afligia. - João 3-16 - disse baixinho. - Não te oiço menino. - João 3-16 – volveu o rapazinho. - Entra meu filho.

A casa era bonita demais. Cheirava a lenha queimada e a comida. Tinha cadeiras, mesas, panos nas janelas, jarras, quadros nas paredes. E não parecia ter mais gente.

- Vem, aproxima-te do fogão de lenha – disse-lhe afectuosamente. Senta-te neste banco e aquece-te, estás branco, enregelado. Deves ter fome; aguarda um momento.

Enquanto o corpo recuperava o calor perdido, pensou consigo: - João 3-16, quem será? Não sei, mas aquece-me. É bom, deve ser bom, só pode ser, senão não me aquecia.

A Senhora retornou com um prato cheio de comida. Nunca havia comido nada assim. Há dois dias que nada comia. Nem os doces que vendia. Se os vendesse como poderia comprar pão? João 3-16. Nada sabia dele, apenas que aquecia e matava a fome. Não sei o que é, nem quem, mas cuida de mim, pensou. - Come o que quiseres filho. Há mais na cozinha.

Quando terminou a refeição, a benévola Senhora levou-o por umas escadas circulares ao andar cimeiro e deu-lhe um banho de água bem quente que cheirava ao perfume que as senhoras ricas deixavam na calçada quando entravam nas lojas do centro. Não sabia que a água tinha cheiro. Será que também se podia beber?!

- Posso ficar sozinho? – perguntou. Tenho vergonha que me veja assim. - Claro, criança. Mas não podes demorar. Terminaste agora a refeição. Não sabia quem era João 3-16, ou o que era João 3-16, mas tinha a certeza que o limpava de tanta sujeira.

Ao fim de algum tempo, a Senhora disse-lhe que tinha de sair da água. Que pena, estava tão quente, tão confortável, que o esforço para não adormecer era enorme. Segurou a sua mãozita, e conduziu-o a um quarto com uma cama de ferro, lençóis brancos e almofada de penas.

Não sabia quem era João 3-16, mas sabia que lhe estava a dar uma cama macia num quarto quente, e que dormiria como nunca havia dormido em toda a sua vida.

A Senhora abraçou-o, beijou-o na testa, deitou-o e apagou as luzes, dizendo: - Durma em paz criança de Deus.

No escuro, com uma ténue luminosidade que entrava pela janela, pensou: “Não sei quem é João 3-16, mas aquece, alimenta, limpa, e dá repouso, e dá carinho. Talvez seja rico, mas não como os outros ricos da Paulista.” E duas grossas e límpidas lágrimas escorreram no rosto inocente

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