segunda-feira, 22 de Setembro de 2014

(De)cisão



Após o sétimo ano de descanso, o Aqui & Agora volta com uma segunda série, ainda mais lenta e intemporal. Celebramos esta rentrée com alguns dos (in)convenientes em decidir (bem).

Texto e desenho Dina Cristo

A todo o momento acontecem decisões, mais ou menos (in)conscientes e (ir)relevantes. Óscar Quiroga escreveu um dia: «Nada acontece automaticamente no mundo humano, tudo é decidido ainda que inadvertidamente. A todo momento fazemos escolhas através dos pensamentos que nos permitimos pensar, das emoções a que nos agarramos para nos sentir vivos e intensos e, também, fazemos escolhas através das atitudes que decidimos tomar em relação aos nossos deveres e direitos».
Há pequenas escolhas tomadas de forma mais espontânea e naturalmente. Contudo, na viagem da vida, esta proporciona cruzamentos mais difíceis, com acesso a caminhos desconhecidos, para os quais não se sabe, antecipadamente, a saída, pelo que se torna mais arriscado e difícil decidir. O destino apropriado não está garantido e a incerteza e a tensão e ansiedade podem instalar-se.
Para que haja uma boa decisão é preciso evitar a precipitação, por um lado, mas também a indecisão prolongada, por outro, seguir somente a lógica mental como também escutar apenas o coração, ignorar os avisos alheios como seguir unicamente os conselhos de outrem. Uma decisão que, para ser rápida, sacrifica uma das partes torna-se imprudente e enfraquecida e corre o perigo de vacilar, recuar ou não ser aplicada.
Para uma decisão, ponderada e acertada, é necessário processar desde os aspectos mais factuais e práticos aos mais inspiradores e graciosos, passando pela reflexão e análise das informações disponíveis, que reduzem a incerteza, e pela atenção às emoções despertas[1]. É imprescindível tempo suficiente que permita aceder, apreender, compreender, compatibilizar, harmonizar, integrar e depois unificar e transcender as várias fontes numa única atitude unificada, ao mesmo tempo fundamentada e sólida, profunda e ampla, completa e elevada.
Autêntica (re)solução, a boa decisão é aquela que, assim, harmonizada e respeitando a natureza peculiar daquele homem ou mulher - os seus princípios, meios e objectivos -, tendo por base o amor próprio e não o medo, a luz e não o dinheiro, a Vontade e não a coação, se traduz num acto deliberado, exercício livre, autónomo e responsável do poder de escolher.
Pode ser avaliada por tornar a pessoa mentalmente mais discernida, e não confusa, emocionalmente mais generosa, e não maldosa, fisicamente mais estimulada a trabalhar, e não desanimada. Omraam Aivanhov ensinou a ouvir a voz interior que previne: «Se sentirdes uma sombra nos vossos pensamentos, uma perturbação nos vossos sentimentos e indecisão na vossa vontade, não assumais compromissos, pois este critério é absoluto»[2].
De acordo com Carlos Cardoso Aveline (CCA) para uma decisão correcta há que estabelecer metas claras, realistas, positivas (e não pela negativa), asseguradas com pequenos passos, graduais, sob aquilo que está ao alcance controlar, o nível interno (pensamentos, sentimentos e atitudes), em vez do externo, que, não dependendo da pessoa, gera ansiedade, além de (dis)trair.
Bem-estar e saúde são consequências de uma boa decisão, aquela que inspira, expande, eleva e liberta. Sempre que se alinha cabeça e coração, mental e emocional, a tomada de decisão traz paz, serenidade, alegria e leveza. Já a indecisão, hesitação ou inquietação - sinais de que a resposta deve ser negativa, de que o caminho não é por ali - sobretudo se prolongada, gera stress, angustia, mal-estar e, segundo Louise Hay, problemas físicos, nomeadamente nos dentes e gengivas.
Aceitar decidir
A indecisão, para cujo tratamento é adequado o floral “scleranthus”, pode ser devida a uma perturbação psíquica, devido a depressão ou a neura(stenia). No caso das Pessoas Altamente Sensíveis (PAS), deve-se ao facto de, ao serem muito intuitivas, terem acesso a diversas ideias e receberem demasiadas opiniões[3]. De igual modo, as pessoas com (forte) energia "dois" têm, ao ponderarem mais do que uma perspectiva, dificuldades em decidir. 
À indecisão arrastada ou à não decisão, é preferível, segundo alguns autores, uma má decisão, que poderá corrigir-se[4]. Ao contrário da indecisão, que implica inércia e estagnação, a decisão, ao ser uma escol(h)a, que gera acção, movimento e mudança, traz aprendizagem de acordo com os resultados obtidos. O que torna a (de)cisão, muitas vezes, difícil é a perda inevitável que provoca, pois há sempre alguma coisa a sacrificar para que algo se possa salvar. Decidir é - além de analisar, separar, selecionar e avaliar, saber optar – prescindir e renunciar, o que exige desapego.
A decisão benéfica activa o novo, útil, correcto e funcional em detrimento do passado, inútil, incorrecto e disfuncional, que deixa ir embora, como é propício no final de cada ciclo de nove anos de vida. Cada novo período, estimulado pela força do “um”, é uma das melhores oportunidades para efectivar as decisões tomadas, renovando pessoas, lugares, ideias e ocupações. O desafio é, ciclicamente, libertar o velho, ir dispensando cada vez mais o instintivo, grosseiro, pesado e pessoal por substância, física, emocional e mental, mais intuitiva, fina, leve e impessoal – a iluminação da “lua”.
A cada aniversário pessoal assim como a cada Ano Novo são, para CCA, também períodos ideais à tomada de decisão, à sua reavaliação ou reforço. Pela disponibilidade e disposição que propiciam são mais uma oportunidade para desapegar da rotina, exercitar a vontade, vencer a preguiça e ultrapassar a inércia.
O mesmo teósofo ensina como há sempre livre arbítrio nas escolhas efectuadas pelo Ser Humano, não só durante todo o tempo livre mas também na reacção face ao ocupado com o cumprimento das obrigações; a liberdade e responsabilidade são constantes e cada atitude define e orienta, no momento presente, a direcção do caminho a seguir, a via da animalidade ou divindade, a atenção a prestar ou não e a que(m).
A opção pelo bem, belo e bom, pela verdade, pelo amor e pelo serviço (1,0) em detrimento do mal, feio e mau, da ilusão, do medo e de se servir (0,1) são decisões importantes, que exigem coragem, força de vontade e sacrifício – há sempre um medo ou desejo a ultrapassar, uma perda a enfrentar, um “preço” a pagar. No caso destas decisões importantes, atravessar o Rubicão implica aceitar as consequências.
Para que a escolha do melhor seja influenciada pela profundidade da alma e não fique à mercê dos caprichos da personalidade é necessária persistência e paciência para que o apaziguamento mental, a serenidade emocional e a elevação aconteçam, como ensina Omraam Aivanhov[5]. Outro mestre, Platão, escreveu, no final da “A República”, que ainda que sejam os últimos a escolher, podem saber fazê-lo bem.
Cada um tem não só o direito como o dever, a responsabilidade, de decidir. A todo o momento é uma nova oportunidade de o fazer, que reflecte o seu autor e influencia os que o rodeiam. A cada nova decisão se avança no amor ou no medo, na vontade ou no desejo, no perdão ou na culpa, na elevação ou na degradação. As boas decisões, conscientes e amorosas, mais íntegras e demoradas, curam. As outras atrasam e desviam cada Ser Humano do seu caminho, autêntico, único e diferente.


[1] Como referiu António Damásio, em entrevista a Judite Sousa, na RTP, «É praticamente impossível tomar decisões que não tenham uma componente emocional». [2] AIVANHOV,OmraamPensamentos quotidianos 2011. Publicações Maitreya. Dia 13/8/2011. [3] Contudo, como sublinha Elaine Aron, embora não adoptem decisões rápidas, as PAS tomam normalmente boas decisões[4] O sentimento de remorso pode estar na base de novas boas decisões. [5] AIVANHOV, Omraam – Pensamentos quotidianos 2014. Publicações Maitreya. 3/8/2014.

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