quarta-feira, 31 de julho de 2013

(De)cisão



Decidimos terminar esta série do Aqui & Agora. Agradecemos àqueles que nos acompanharam e desejamos a todos boas leituras.

Texto e desenho Dina Cristo

A todo o momento acontecem decisões, mais ou menos (in)conscientes e (ir)relevantes. Óscar Quiroga escreveu um dia: «Nada acontece automaticamente no mundo humano, tudo é decidido ainda que inadvertidamente. A todo momento fazemos escolhas através dos pensamentos que nos permitimos pensar, das emoções a que nos agarramos para nos sentir vivos e intensos e, também, fazemos escolhas através das atitudes que decidimos tomar em relação aos nossos deveres e direitos».
Há pequenas escolhas tomadas de forma mais espontânea e naturalmente. Contudo, na viagem da vida, esta proporciona cruzamentos mais difíceis, com acesso a caminhos desconhecidos, para os quais não se sabe, antecipadamente, a saída, pelo que se torna mais arriscado e difícil decidir. O destino apropriado não está garantido e a incerteza e a tensão e ansiedade podem instalar-se.
Para que haja uma boa decisão é preciso evitar a precipitação, por um lado, mas também a indecisão prolongada, por outro, seguir somente a lógica mental como também escutar apenas o coração, ignorar os avisos alheios como seguir unicamente os conselhos de outrem. Uma decisão que, para ser rápida, sacrifica uma das partes torna-se imprudente e enfraquecida e corre o perigo de vacilar, recuar ou não ser aplicada.
Para uma decisão, ponderada e acertada, é necessário processar desde os aspectos mais factuais e práticos aos mais inspiradores e graciosos, passando pela reflexão e análise das informações disponíveis, que reduzem a incerteza, e pela atenção às emoções despertas[1]. É imprescindível tempo suficiente que permita aceder, apreender, compreender, compatibilizar, harmonizar, integrar e depois unificar e transcender as várias fontes numa única atitude unificada, ao mesmo tempo fundamentada e sólida, profunda e ampla, completa e elevada.
Autêntica (re)solução, a boa decisão é aquela que, assim, harmonizada e respeitando a natureza peculiar daquele homem ou mulher - os seus princípios, meios e objectivos -, tendo por base o amor próprio e não o medo, a luz e não o dinheiro, a Vontade e não a coação, se traduz num acto deliberado, exercício livre, autónomo e responsável do poder de escolher.
Pode ser avaliada por tornar a pessoa mentalmente mais discernida, e não confusa, emocionalmente mais generosa, e não maldosa, fisicamente mais estimulada a trabalhar, e não desanimada. Omraam Aivanhov ensinou a ouvir a voz interior que previne: «Se sentirdes uma sombra nos vossos pensamentos, uma perturbação nos vossos sentimentos e indecisão na vossa vontade, não assumais compromissos, pois este critério é absoluto»[2].
De acordo com Carlos Cardoso Aveline (CCA) para uma decisão correcta há que estabelecer metas claras, realistas, positivas (e não pela negativa), asseguradas com pequenos passos, graduais, sob aquilo que está ao alcance controlar, o nível interno (pensamentos, sentimentos e atitudes), em vez do externo, que, não dependendo da pessoa, gera ansiedade, além de (dis)trair.
Bem-estar e saúde são consequências de uma boa decisão, aquela que inspira, expande, eleva e liberta. Sempre que se alinha cabeça e coração, mental e emocional, a tomada de decisão traz paz, serenidade, alegria e leveza. Já a indecisão, hesitação ou inquietação - sinais de que a resposta deve ser negativa, de que o caminho não é por ali - sobretudo se prolongada, gera stress, angustia, mal-estar e, segundo Louise Hay, problemas físicos, nomeadamente nos dentes e gengivas.
Aceitar decidir
A indecisão, para cujo tratamento é adequado o floral “scleranthus”, pode ser devida a uma perturbação psíquica, devido a depressão ou a neura(stenia). No caso das Pessoas Altamente Sensíveis (PAS), deve-se ao facto de, ao serem muito intuitivas, terem acesso a diversas ideias e receberem demasiadas opiniões[3]. De igual modo, as pessoas com (forte) energia "dois" têm, ao ponderarem mais do que uma perspectiva, dificuldades em decidir. 
À indecisão arrastada ou à não decisão, é preferível, segundo alguns autores, uma má decisão, que poderá corrigir-se[4]. Ao contrário da indecisão, que implica inércia e estagnação, a decisão, ao ser uma escol(h)a, que gera acção, movimento e mudança, traz aprendizagem de acordo com os resultados obtidos. O que torna a (de)cisão, muitas vezes, difícil é a perda inevitável que provoca, pois há sempre alguma coisa a sacrificar para que algo se possa salvar. Decidir é - além de analisar, separar, selecionar e avaliar, saber optar – prescindir e renunciar, o que exige desapego.
A decisão benéfica activa o novo, útil, correcto e funcional em detrimento do passado, inútil, incorrecto e disfuncional, que deixa ir embora, como é propício no final de cada ciclo de nove anos de vida. Cada novo período, estimulado pela força do “um”, é uma das melhores oportunidades para efectivar as decisões tomadas, renovando pessoas, lugares, ideias e ocupações. O desafio é, ciclicamente, libertar o velho, ir dispensando cada vez mais o instintivo, grosseiro, pesado e pessoal por substância, física, emocional e mental, mais intuitiva, fina, leve e impessoal – a iluminação da “lua”.
A cada aniversário pessoal assim como a cada Ano Novo são, para CCA, também períodos ideais à tomada de decisão, à sua reavaliação ou reforço. Pela disponibilidade e disposição que propiciam são mais uma oportunidade para desapegar da rotina, exercitar a vontade, vencer a preguiça e ultrapassar a inércia.
O mesmo teósofo ensina como há sempre livre arbítrio nas escolhas efectuadas pelo Ser Humano, não só durante todo o tempo livre mas também na reacção face ao ocupado com o cumprimento das obrigações; a liberdade e responsabilidade são constantes e cada atitude define e orienta, no momento presente, a direcção do caminho a seguir, a via da animalidade ou divindade, a atenção a prestar ou não e a que(m).
A opção pelo bem, belo e bom, pela verdade, pelo amor e pelo serviço (1,0) em detrimento do mal, feio e mau, da ilusão, do medo e de se servir (0,1) são decisões importantes, que exigem coragem, força de vontade e sacrifício – há sempre um medo ou desejo a ultrapassar, uma perda a enfrentar, um “preço” a pagar. No caso destas decisões importantes, atravessar o Rubicão implica aceitar as consequências.
Para que a escolha do melhor seja influenciada pela profundidade da alma e não fique à mercê dos caprichos da personalidade é necessária persistência e paciência para que o apaziguamento mental, a serenidade emocional e a elevação aconteçam, como ensina Omraam Aivanhov[5]. Outro mestre, Platão, escreveu, no final da “A República”, que ainda que sejam os últimos a escolher, podem saber fazê-lo bem.
Cada um tem não só o direito como o dever, a responsabilidade, de decidir. A todo o momento é uma nova oportunidade de o fazer, que reflecte o seu autor e influencia os que o rodeiam. A cada nova decisão se avança no amor ou no medo, na vontade ou no desejo, no perdão ou na culpa, na elevação ou na degradação. As boas decisões, conscientes e amorosas, mais íntegras e demoradas, curam. As outras atrasam e desviam cada Ser Humano do seu caminho, autêntico, único e diferente.


[1] Como referiu António Damásio, em entrevista a Judite Sousa, na RTP, «É praticamente impossível tomar decisões que não tenham uma componente emocional». [2] AIVANHOV,OmraamPensamentos quotidianos 2011. Publicações Maitreya. Dia 13/8/2011. [3] Contudo, como sublinha Elaine Aron, embora não adoptem decisões rápidas, as PAS tomam normalmente boas decisões[4] O sentimento de remorso pode estar na base de novas boas decisões. [5] AIVANHOV, Omraam – Pensamentos quotidianos 2014. Publicações Maitreya. 3/8/2014.

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quarta-feira, 17 de julho de 2013

Retribalizar


Cinquenta anos depois da publicação, pela primeira vez, de uma das obras mais importantes de Marshall McLhuhan, revemo-la, antes da celebração de mais de 80 anos do nascimento do autor.

Selecção Dina Cristo

«Para ter êxito comercial, um livro não pode arriscar mais do que dez por cento de novidade», pág.12
«Se o século XIX foi o tempo da cadeira do editorialista, o nosso [XX] é o século do divã do psiquiatra», pág.13
«Todas as culturas e tempos possuem um modelo preferido de percepção e de conhecimento, que procuram impor a tudo e a todos», pág.13
«A situação de abandono escolar nas nossas escolas ainda agora começou», pág.16
«O estudante de hoje vive de forma mítica e profunda», pág. 17
«(…) os homens nunca têm consciência das regras fundamentais da sua cultura (…)», pág.18
«(…) a compreensão paralisa a acção (…)», pág. 29
«(…) o ser humano transforma-se naquilo que contempla.», pág. 32
«Nós, por nossa parte, detectamosa vanguarda no frio e no primitivo (…)», pág.40  
«(…) uma situação de alto desenvolvimento oferece, por definição, baixos índices de participação (…)», pág.41
«O consumidor passivo deseja embalagens (…)», pág. 44
«À medida que começamos a reagir em profundidade à vida (…) tornamo-nos reaccionários», pág.48
«O jovem Narciso tomou o seu reflexo na água por outra pessoa», pág.55
«A auto-amputação impede o auto-reconhecimento», pág.56
«Na era da electricidade, nós usamos como nossa pele toda a humanidade», pág. 61
«Assim como a imprensa clamava pelo nacionalismo também a rádio clama pelo tribalismo», pág.63
«Nós podemos, se quisermos, planear as coisas antes de as criarmos», pág. 64
«(…) os meios linguísticos modelam  o desenvolvimento social tanto quanto os meios de produção», pág.64
«Hoje em dia possuímos anestésicos que nos permitem executar as mais aterradoras intervenções físicas», pág. 79
«O efeito da rádio é visual (..)», pág. 79
«(…) o contra-irritante costuma revelar-se mais incómodo do que o irritante inicial (..)», pág.81
«(…) a força de vontade é tão útil  para a sobrevivência como ainteligência», pág. 84
«A consciência não é um processo verbal», pá.98
«(…) cada ideograma é investido de uma intuição total do ser e da razão», pág.98
«(…) a mais banal das comodidades implica profundas mudanças culturais», pág. 100
«(..) em todos os sistemas há um ponto a partir do qual a aceleração redunda em ruptura e colapso», pág. 104
«(…) o número é a essência de  todas as coisas perceptíveis aos sentidos», pá. 124
«(…) o número contém todo o sentimento do mundo de uma alma apaixonadamente devotada ao “aqui” e ao“agora”», pág. 124
«A tecnologia da imprensa converteu o zero medieval no infinito renascentista», pág. 127
«(…) todos os meios são extensões do nosso corpo e dos nossos sentidos», pág.128
«Agindo como um órgão do cosmos, o homem tribal aceita as suas funções corporais como formas de participação na energia divina», pág. 135
«(…) a luz é um sistema de comunicação autónomo no qual o meio é a mensagem», pág.140
«Hoje em dia, na era da electrónica, o homem mais rico está reduzido a ter o mesmo tipo de diversões, e até o mesmo tipo de alimento e de veículos, que o homem comum.», pág. 145
«Uma actividade que envolva todo o ser do homem, não é trabalho», pág.149
«(…) a era mecânica é um interlúdio entre dois grandes períodos orgânicos de cultura», pág. 161
«A alfabetização é em si mesma uma forma de ascetismo abstracto (…)», pág. 162
«O visual dessacraliza o universo e origina “o homem não-religioso das sociedades modernas”», pág. 165
«O ouvido é hipersensível. O olho é frio e distanciado.», pág.165
«(…) o grande preceito da bibliografia: “quanto mais houve, menos há”», pág.169
«(…) o homem integral mostra-se sempre muito inepto numa situação de especialização», pág. 176
«(…) a imprensa desafiou os padrões corporativos da organização medieval tanto como a electricidade desafia agora o nosso individualismo fragmentado», pág.184
«Não existe ceteris paribus no mundo dos meios e da tecnologia», pág. 191
«Idealmente, a educação é uma forma de protecção colectiva contra as consequências negativas dos meios de comunicação», pág.201
«Hoje em dia, o viajante tornou-se passivo», pág.204
«Todos os meios existem para investir as nossas vidas com percepções artificiais e valores arbitrários», pág.205
«A antecipação dá-nos o poder de desviar o rumo e controlar a força», pág. 205
«Ocorrem menos crimes quando não existem jornais para os divulgar», pág. 211
«(…) no nosso mundo eléctrico, a informação é claramente o negócio principal e a maior fonte de riqueza», pág.212
«(…) a introdução duma nova tecnologia altera não apenas a imagem, mas o próprio quadro», pág.224
«O carro tornou-se na carapaça, a concha agressiva e protectora, do homem urbano e suburbano», pág.230
«Os anúncios elevam o princípio do ruído ao patamar da persuasão», pág.232
«Os recalcitrantes são os (…) melhores aclamadores e impulsionadores», pág.235
«Quando as culturas mudam, os jogos mudam também», pág.244
«Levar mortalmente a sério as coisas mundanas é sempre indício de uma lamentável falta de reflexão», pág.248
«Vivemos hoje na Era da Informação e da Comunicação porque os meios eléctricos criam instantânea e permanentemente um campo total de acontecimentos em interacção nos quais toda a humanidade participa», pág.253
«(…) a nossa co-presença em toda a parte ao mesmo tempo é uma experiência mais passiva do que activa», pág.253
«A electricidade confere aos fracos e aos sofredores uma poderosa voz, ao mesmo tempo que afasta a especialização burocrática», pág.258
«Um pouco por toda a parte, o orgânico tem vindo a suplantar o mecânico», pág.260
«A aceleração é uma fórmula para a dissolução e colapso de qualquer organização», pág.260
«(…) a máquina de escrever representa uma fusão da pena e da espada», pág.264
«(…) as guerras posicionais acabaram», pág.269
«Numa estrutura eléctrica não existem margens», pág. 278
«O homem como recolector de alimentos reaparece incongruentemente como recolector de informação», pág.288
«Há imensa subtileza e sinestesia na arte primitiva(…)», pág.292
«(…) qualquer tarefa especializada dispensa a maioria das nossas faculdades», pág.294
«(…) o sucesso é não apenas perverso mas também o caminho mais seguro para a infelicidade», pág.298
«Se a televisão já existisse em larga escala no tempo de Hitler, este teria desaparecido num instante», pág.302
«A rádio propiciou a primeira experiência massiva de implosão electrónica (…)», pág.303
«A ênfase na literacia é um sinal distintivo das regiões que se esforçam por iniciar esse processo de estandardização (…)», pág.304
«(…) os efeitos da rádio são em grande medida independentes da sua programação», pág.308
«Toda a gente vivencia muito mais do que compreende», pág.321
«Se o meio é de alta definição, a participação é baixa», pág.321
«A televisão é um meio que tem mais que ver com a reacção do que com a acção», pág.322
«O movimento ecuménico é sinónimo de tecnologia eléctrica», pág.323
«A América europeíza-se hoje tão rapidamente quanto a Europa se americaniza», pág.324
«(...) numa terra de cegos, quem tem um olho não é rei; pelo contrário é encarado como um lunático alucinado», pág.335
«De dia para dia, a pena torna-se mais forte do que a espada», pág.341
«(...) há uma relação entre a educação e a pontaria», pág.344
«Com a tecnologia eléctrica instantânea, o globo nunca será maior do que uma aldeia», pág.346
«Qualquer matéria, se estudada em profundidade, relaciona-se imediatamente com todas as outras», pág.350
«(...) descobrir o desconhecido no conhecido - tão necessário para a compreensão da vida das formas», pág.355.

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quarta-feira, 3 de julho de 2013

Co-operar


Antes do Dia Internacional das Cooperativas, perspectivamos a competitividade da cooperação, as vantagens de laborar com - e não contra - o(s) outro(s).

Texto e fotografia Dina Cristo

Uma das fontes mais profundas da competição é o pensamento de escassez. A sensação de insuficiência é um pressuposto que gera medo de não conseguir ter o que se necessita, o que conduz à luta pelo poder, para melhor controlar e dominar. A ideia de igualdade é outro importante factor que está na base do desejo de distinção, frequentemente de acordo com expectativas exteriores.
A consciência individual, o interesse pessoal, fazem do individualismo uma das causas mais influentes para relações competitivas, com ênfase na astúcia. «Competição ou espírito agonístico são, na nossa perspectiva, a mesma coisa. Resultam da incapacidade de sair de si próprio, no desejo de se sobrepor, ao invés de se identificar com o outro», elucida Clara Tavares[1].
Da comparação nasce uma sensação de privação relativa, o que provoca uma espécie de corrida social, para ver quem chega primeiro (ao ponto mais alto), à ostentação (de títulos e/ou de bens), como forma de sinalizar ascensão e posição social, na esperança de que esta traga algum respeito - uma ambição de diferenciação que incrementou a mobilidade social, sobretudo depois da Revolução Americana, como explica Abílio Oliveira[11].
Este foco egoísta e separatista expressa-se por uma atitude contra a Natureza, incluindo a Humana, cujo objectivo é tirar vantagens, explorar, lucrar, acumular, apropriar-se. Esta postura “anti”, meramente receptiva e coadjuvada por um estilo de vida rápida, vacilante e ensopada em quantidade, não vai, contudo, além da repetição, da homogeneidade e da uniformização.
Os seus pontos de partida reaparecem à chegada: isolamento, conflito, inimizade, agressividade, bloqueio, stress, vazio. No final, os frutos são idênticos à raiz desta “árvore”, enfraquecida em combate para ser alguém: violência, crueldade, aprisionamento, doença, indiferença e consumismo. Resulta desta relação incorrecta, após a eliminação, dominação, destruição e exaustão, ainda mais pobreza, separação, insegurança e uniformidade.
Carlos Cardoso Aveline refere, no entanto, como se trata de uma reacção em crise: «As ideologias da luta competitiva, baseadas na premissa de que o mundo é mau e o homem não presta, não sobreviverão à sociedade patriarcal que já está aos pedaços, como uma placenta que se rompe na hora do parto»[2]. «A maioria das espécies extintas ao longo do tempo» sustenta o autor no mesmo livro «não desapareceu pela competição entre si, mas por mudanças climáticasdrásticas ou doenças epidêmicas»[3]. A maior parte dos animais, argumenta ainda o autor - são sociais e dependem bastante da ajuda mútua para sobreviver.

Cooperar é natural

F.J.C. Jr. defende que a cooperação é a verdadeira essência da civilização. Ela está presente desde a célula, como esclarece Lynn Margulis, até à conversação, como argumenta Grice, constituindo a base da economia medieval, designadamente através das guildas ou do trabalho colaborativo e anónimo, de construção colectiva das Igrejas. Está actualmente presente em actos como, por exemplo, o Biogás ou o aperto de mão, uma troca entre o princípio activo (emissor) e o passivo (receptor).
Ao contrário da competição, parte do princípio de que existem recursos não só suficientes mas também abundantes, o que gera confiança, além de diversos e diferentes, o que predispõe ao desenvolvimento do potencial existente, mais interior, e à sua manifestação, através da doação e partilha, e ao reconhecimento, gerando satisfação, gratidão e cada vez mais riqueza, material e psicológica. É o caso de todo o ovo ou semente, testemunho da capacidade criadora e multiplicadora da Natureza, e do jogo win-win, aplicado no âmbito da comunicação não violenta, em que todos ganham.
Orientados por uma consciência mais social e colectiva, os cooperantes baseiam a sua actuação em harmonia com os outros (e não contra eles), numa atitude sã e amiga, em união livre, com ganhos mútuos e apoio recíproco sem esquecer os valores da solidariedade, fraternidade, camaradagem, comunhão e altruísmo. Nesta parceria horizontal e correcta, com o ponto Alfa e Òmega a coincidirem na pacificação, segurança e comunicação, tem lugar a gratuitidade, a compaixão, a inclusão, tal como a amizade ou o amor.
Os resultados de força, esperança e plenitude reflectem as intenções comunitárias, de troca, circulação, fluidez e comunicação, as finalidades de identificar, aproximar, associar, conciliar ou de tornar comum e mesmo como um. Em vez de se procurar ser alguém, destacado, é-se ninguém, nesta floresta sã, qual rede humana de interdependência, círculo que cuida, protege, apoia e convive em uni(ci)dade.
A atitude em que as acções são compartilhadas, os benefícios distribuídos e os objectivos comuns, em alinhamento com a intenção original, manifesta-se nas confrarias, cooperativas, misericórdias, casas mútuas e do povo. Com uma Aliança Internacional desde os anos 60, o espírito cooperativo renasce hoje nas mais diversas actividades, desde a pedagogia (colaborativa) à agricultura (permacultura), passando pela saúde (homeopatia).
«À medida que o tempo marcha, o clamor crescente será para mais e mais cooperação – porque, vivendo em cooperação num mundo global, nós encontraremos a paz e a abundância para todos os povos, indiferentemente da raça ou credo», assegura F.J.R. Jr. É a compreensão, aceitação e aplicação da predisposição natural colaborativa - do interesse mútuo e do trabalho em equipa, própria do dois - e complementar existente entre todos os pares de opostos, que se procuram, necessitam e completam para assim poderem criar.
Quando a Humanidade deixar de competir consigo, com os outros e com a Natureza, numa atitude hostil, e passar a cooperar com todos, poderá recuperar a graça e a alegria. Se, desde bebés, Homens e Mulheres deixarem de ter de concorrer pela atenção de um adulto e de uma relação duradoura e segura, poderão, religados, resgatar a sua vocação cooperativa. Nessa altura, sem motivo para guerras, os Seres Humanos terão espaço, tempo, dinheiro, tecnologia e criatividade suficientes para proteger as plantas e os animais, e se elevarem a planos mais subtis e refinados.


[1] TAVARES, Clara - in Biosofia, nº38, pág.43. [11] OLIVEIRA, Abílio; GRAÇA, João  - Privação relativa – porque não vivemos mais satisfeitos in Biosofia, nº38, pág.4-8. 2011.
[2] AVELINE, Carlos Cardoso -  Aqui e Agora, para viver até ao séc.XXI, Editora Sinodal, 1985, pág.39. [3] Idem, pág. 25.

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quarta-feira, 26 de junho de 2013

Alminhas

Próximo das férias, apreciamos monumentos populares espalhados por estradas e cruzamentos. Parar e rezar um pouco é o convite para que todos, cada qual em sua via, prossigam em paz e cheguem ao seu destino.


Fotografia Dina Cristo















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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Arrefecimento mediático?

Seis anos depois de realizarmos a Conferência sobre Informação Solidária(ante)vemos alguns sinais do (sobre)aquecimento mediático.

Texto Dina Cristo pintura Lídia Pinto

A exclusão do sujeito e o tomar a parte, assim, incompleta pelo todo transformou-se numa informação distanciada, objectiva e exclusiva de que resultou a crise de imprensa, em que de tanto afastamento os leitores a abandonaram tal como a atitude dos eleitores em relação aos políticos.
Agora, para recuperar da crise, o próprio jornalismo público defende o restabelecimento da ligação, do vínculo entre (e)leitores e agenda dos media e a agenda política, com envolvimento e participação.
Tal religação é também hoje defendida no âmbito do novo paradigma da ciência, holístico (quer o reaparecimento do sujeito enquanto tal quer no próprio objecto), na ética do cuidado (com a importância pública e profissional da atenção ao outro) – também aplicada aos jornalistas – e da informação social, com tripé mais equilibrado entre os líderes, acções, fontes e perspectivas não só política e económica mas também social.
Immanuel Kant chamava a atenção para o facto de o nível racional corresponder ao cumprimento da lei moral, sendo o amor aos outros a principal moralidade, que inclui não só o cumprimento da lei (mera legalidade) mas sobretudo o espírito da lei, por mor dela, ou seja, de forma desinteressada e impessoal.
Ora a informação irracional - que responde à satisfação das inclinações pessoais e dos interesses particulares, do mundo dos sentidos e dos fenómenos – e saturada, em alta definição e resolução de hoje, sem espaço para a reflexão, corresponde, em certa medida, à noção de colonização mediática, defendida por Adorno.
O sistema mediático, que apesar de ter como origem a lifeworld, autonomizou-se dela de tal forma que desenvolveu, dentro da complexidade das sociedades modernas, a especialidade e os códigos legais – que além de reduzir a necessidade de troca, entendimento partilhado e consenso, através da comunicação – delegando neles de tal forma o seu poder que passou a penetrar e até a determinar a própria vida de todos os dias. Os vários sistemas criados pelo ser humano, entre os quais o mediático, passaram não só a influenciar o quotidiano como a dominá-lo.
Numa acepção mcluhaniana, os meios verticais, unilaterais, fechados, agressivos e uniformes, já de si quentes, estão em sobreaquecimento, intensificando o seu carácter activo, distante, controlador, quantitativo e objectivo. Contudo, como nada está em expansão permanente, além de que o ponto de não retorno da sua ampliação conduzirá ao seu contrário, à contracção, é previsível (tal como ao nível climático) o arrefecimento.
Tal processo implica, ao nível mediático, uma maior aproximação à horizontalidade, bi e multeralidade, canais mais abertos, de baixa definição e espaço para a interpretação e participação do sujeito receptor, inclusão do feed-back, da subjectividade e da qualidade – dando valor não apenas ao rigor, aos números, aos factos e object(iv)os, mas também à compaixão, ao significado, às intenções, aos princípios e valores.
A deslocação para meios mais frios, passivos, receptivos, lentos e amplos, com efeitos ao nível da moderação e equilíbrio mediático, implica, ao nível informativo, também um jornalismo mais compreensivo, compassivo, democrático, integrando a diversidade, com implicações ao nível da unificação e da verdade dos relatos, representações e interpretações.
O arrefecimento mediático, mais soft e slow, verifica-se ao nível do maior envolvimento, quer do sujeito emissor, mais comprometido, quer do receptor, mais implicado na agency social. Tal significa menos informação e mais útil – capaz de se traduzir numa (mudança de) atitude efectiva.
Os media e a informação que produzem, neste âmbito, torna-se mais humilde, tolerante, diferente e sintética, com poder não ao nível do controlo informativo mas do desenvolvimento da comunicação. Enquanto se mantiverem ao nível de meios técnicos, extensões criadas pela humanidade, esta conserva-se enquanto fim, assegurando a sua dignidade e evitando que, em circunstância alguma, os humanos se tornem um meio sendo a técnica pervertida num fim em si mesma – a Humanidade como extensão tecnológica.
Esta moderação dos media traduz-se numa descolonização do sistema mediático: meios menos hierárquicos, ruidosos, analíticos, de alta definição também conceptual e resolução cultural, o que significa, segundo a escola crítica, menos dominadores e manipuladores. Diminuir a definição implica menos controlo na limitação do todo na parte (codificada) e uma alta informação, preservando a dialéctica, o conflito enriquecedor entre as partes, deixadas em aberto pelos criadores para que o receptor as possa recriar.
A valorização nomeadamente da rádio comunitária - indício de um maior equilíbrio entre a via pública, massiva, mais colectiva, e a via privada, de elite, mais individual, sinal não apenas de uma fase grupal, mais moderada, portanto, mas igualmente de uma efectiva religação, participação e envolvimento, tal como é pretendido pelos defensores do jornalismo público – é um reflexo da descolonização mediática.
Quando as preocupações dos cidadãos são relatadas, debatidas e procuradas soluções, como no caso do jornalismo social – onde o cuidado colocado nas várias relações e tarefas durante o processo de produção informativa, como as fontes e a linguagem usada – o público mostra interesse, interage, toma parte e envolve-se, num espaço auditivo apropriado, nem demasiado próximo nem excessivamente distante.
A acção concreta dos agentes mediáticos no âmbito social está a contribuir para a transformação do sistema, em algo mais harmonioso, contemplando não apenas a acção rápida, automática e interessada de qualquer dos seus agentes, mas atendendo igualmente à recepção, com mais baixa frequência e melhor processamento da informação, mais profundamente entendida e desinteressada – assente no princípio do bem comum, da comunicação e da comunidade – numa consciência e identidade já não líquida mas gasosa correspondente ao estágio pós-convencional de Kohlberg, indicativo de um círculo de cuidado e atenção de carácter universal.
É notória a tentativa actual para colocar o social no seio de grande parte do discurso e preocupações públicas, desde a teoria e pesquisa social até à comunicação social, passando pela semiótica social, função social, estrutura social, construção social da realidade, instituição social, relação social, agente social, estado social, segurança social, solidariedade social, justiça social ou, entre outras ainda, desenvolvimento social. Ao nível dos media, Ignatio Ramonet aponta a dimensão do quinto poder e Alicia Cytrynblum da informação social.
O decreto InterMirifica começa a produzir os seus efeitos, para além dos media sociais, nas redes sociais ou no jornalismo participativo - onde sob o argumento da interacçção e intervenção do receptor, se atinge a sua colaboração voluntária e graciosa na produção e reprodução de acontecimentos, transformando-o, na prática, em distribuidor gratuito de notícias, sendo explorado, muitas vezes sem tal consciência, dada o carácter sedutor, imediato e de aparente facilidade – numa real interdependência, integrando e ultrapassando a dicotomia entre a dependência, solidária e colectiva, e a independência, livre e individual.
Há, pois, sinais de arrefecimento mediático concretizando a designação “Meios de Comunicação Social” e de fortalecimento do meio sonoro, constantemente presente no audiovisual – omnipresente, subtil e invisivelmente, o que é fonte de poder e veículo de retribalização, à escala global, promovida pela actual digitalização que, por sinal, deixa mais espaço de transmissão disponível, capacitando-a para receber novos e diversos emissores.
Assiste-se, assim, à tentativa de religar e cuidar das partes excluídas, até aqui censuradas, por uma razão parcial, degenerada, distorcida e corrompida pelos mass media e a indústria cultural, como Adorno denunciou, rebaixada à impureza, à instrumentalidade e ao utilitarismo. A expressão da subjectividade, assim recuperada, será, pois, um reflexo da regeneração da razão, como Kant defendeu, o que significa o restabelecimento da centralidade do sujeito que, no âmbito do novo paradigma científico, se aprofunda mais pela colocação da Natureza no centro da própria pessoa, já de si nuclear nas formas pós-modernas de conhecimento.
Este reaparecimento do sujeito, da razão desembrutecida, da descolonização do sistema mediático na lifeworld - após a sua saturação, ao penetrar na própria vida social, indiferenciando a vida produtiva do espaço-tempo de lazer - implica a renovação da identidade e da consciência, com consequências ao nível da agency grupal, temperada, após o desequilíbrio entre o excesso e a falta de solidariedade, ambas inibidoras da acção social, da passagem da benevolência à beneficência, próxima e concreta.
Após a separação, o distanciamento, a exclusão, a razão enfraquecida, a colonização, o aquecimento, o domínio do sistema, em várias áreas sociais, da política ao jornalismo, há indícios (d)e vontade de (re)união das partes extirpadas, como a natureza mental, interior e subjectiva, de (re)aproximação, de (re)integração no todo original, de valorização da lifeworld, da purificação da razão, com um interesse cada vez mais impessoal e transpessoal, manifestada em novas disciplinas especializadas na área social, como a Semiótica social, a Jurisdição social ou também solidária, como a Economia ou o Turismo.
Num meio quente como a rádio, estimulante de um único sentido, a audição, tipicamente tribal, das sociedades arcaicas – prévias à complexidade e especialidade moderna – há sinais de arrefecimento depois da colonização informativa, como ocorreu no Rádio Clube de Moçambique, entre 1953 e 1973, com o aumento progressivo de horas de emissão de “A Voz de Moçambique” bem como a expansão, intensificada no período de Marcello Caetano, dos Emissores Regionais - uma forma mais agradável, subtil e próxima de a fazer infiltrar nos povos autóctones.
O (sobre)aquecimento mediático, a aceleração, a expansão, a saturação e a limitação máxima de espaço e tempo à participação terá, atingido o seu nível máximo, um efeito contrário, ou seja, de desaceleração, de (s)low information, mais ‘silenciosa’ e espaçosa, por forma a permitir o envolvimento democratizado, agora à escala digital e planetária e, portanto, uma maior aproximação, (re)ligação, comunicação e unidade social livre e com base na diversidade, o que, após os períodos de forte ênfase quer no comunitarismo, na ordem e na estabilidade social, quer no individualismo, na liberdade e na mudança social, acelerará o processo de retribalização universal e de fusão grupal.

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terça-feira, 11 de junho de 2013

Elucidações


Abraçamos a entrada no nosso sexto Verão esclarecidos por alguns excertos de     livros editados pelo CLUC - Centro Lusitano de Unificação Cultural.

Selecção e fotografia Dina Cristo


«Bem-aventurados os que superam a dor e as crises por dentro e não por fora» (4)

«A real "expansão" faz-se "para dentro"» (3)


«Repudiar o mal e, não obstante, amar interiormente o seu portador» (2)

«É incomparavelmente mais importante transmitir amor, estabelecer laços de solidariedade e promover valores justos e edificantes do que ter uma profissão materialmente produtiva» (1).

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quarta-feira, 5 de junho de 2013

Algas


No Dia Mundial do Ambiente e antes do Dia Mundial dos Oceanos falamos das verduras marinhas, neste que é o melhor período para as recolher, entre o fim da Primavera e o início do Verão.

Texto Dina Cristo


Portugal tem 800 km de costa e 400 espécies diferentes de algas visíveis, com valor alimentar, nutritivo e medicinal, usadas em território nacional desde pelo menos o séc. XIV. Os mais velhos são ainda testemunhas da apanha do sargaço destinado à indústria farmacêutica. Mais actualmente as algas são estudadas, em laboratórios. Em Coimbra temos a Algoteca e existem, além da investigação, algumas publicações como o “Guia ilustrado das Macroalgas” de Leonel Pereira. Fotossintéticas, podem também ser usadas como fertilizantes ou rações, na talassoterapia ou produção do biodiesel ou em aquacultura.
Mas verduras marinhas são sobretudo uma fonte alimentar e medicinal. Possuem macrooligoelementos, como cálcio, enxofre, fósforo, magnésio, potássio, sódio, e micro-oligoelementos, tais como cobalto, cobre, ferro, iodo, manganésio, selénio, silício ou zinco. As mais conhecidas são a Agar-Agar, Dulse, Esparguete do Mar, Fucus, Musgo da Irlanda, Nori, Kombu e Wakame. Normalmente desidratam-se, umas comem-se cruas, em saladas, outras podem ser assadas, guisadas e até fritas, como condimento ou guarnição, por exemplo. Devem-se ingerir em pequenas quantidades, como um princípio homeopático, e podem ser usadas na dieta da cor, dada a sua variedade azul, vermelha, castanha ou verde.
Do ponto de vista terapêutico estes vegetais marinhos são anti-cancerígeno, anti-celulíticos, anti-coagulantes, anti-inflamatórios, anti-microbianos, anti-oxidantes, anti-sépticos, anti-tumorais e anti-virais. Entre os seus benefícios está o reforço das defesas, activação das glândulas endócrinas, manutenção do PH equilibrado, capacidade de neutralizar os radicais livres, prevenção da absorção de elementos poluentes radioactivos e formação de cálculos biliares ou redução do excesso de colesterol e triglicéridos. Há algas indicadas para, entre outras, o cabelo, as constipações, o estômago, a hipertensão, os olhos ou a tosse.

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quarta-feira, 29 de maio de 2013

Ser criança


 

Que função social têm as crianças? Está o seu potencial a ser aproveitado? Qual o papel que desempenham os cuidadores? Vamos ler antes do seu dia mundial.

 Texto e desenho* Dina Cristo

A exploração infantil faz-se em toda a linha, desde o trabalho ao marketing e publicidade, passando pela via militar, com a infantaria, e até sexual. Eis um panorama indicativo do estado de “saúde” da sociedade já que, como afirma Carlos Cardoso Aveline, «Pode-se saber o estado de alma de um povo observando apenas o modo como ele trata suas crianças»[1].
Quantas são mortas, desprezadas, mal tratadas, negligenciadas, ignoradas, abusadas ou violentadas, quando não são vistas como um dano colateral ou mais uma posse. Só no Brasil há cerca de oito milhões abandonadas. Por vezes, começa logo nos hospitais, ao nascer. Por todo o mundo são inúmeras as meninas e meninos de rua, órfãos, carenciados, doentes e esfomeados, física e psicologicamente.
Com cada vez menos condições para brincar e mais (de)pressões, falta de atenção, orientação e compreensão por parte dos seus progenitores, educadores e cuidadores, as crianças sofrem cada vez mais cedo sintomas de patologias e atitudes “adultas”, quer ao nível do corpo quer da alma. Por vezes o problema é o oposto, excesso de preocupações, expectativas ou protecções, desproporcionadas e exageradas, que as envolvem e atrofiam o seu desenvolvimento. Os sentimentos de medo e de imperfeição incutidos, mesmo ‘sem querer’, nos mais pequenos, como explica Louise L. Hay, são disso exemplo.
Vítimas de uma sociedade hipermaterialista as crianças imitam e degeneram, por vezes, em pequenos monstros de egoísmo; como os alimentos, apodrecem rapidamente sem nunca antes terem amadurecido. Contudo, elas nascem para construir o futuro, novo e diferente, para induzir a mudança, acrescentar valor, (re)criar a realidade, alterar as estruturas, fazer avançar a sociedade e facilitar a evolução dos povos.
As crianças vêm para mostrar qual o caminho a percorrer, para lembrar qualidades entretanto esquecidas ou perdidas, como autenticidade, bondade, felicidade ou simplicidade. Os mais pequenos dão uma lição aos mais crescidos sobre, por exemplo, como viver aberta e plenamente, no aqui e agora. Os bebés, por exemplo, não temem expressar livremente as suas emoções e não fazem comparações, lembra Louise L. Hay.
Cada recém-nascido traz consigo a pureza, a inocência e a bem-aventurança da unidade original. «Uma criança que encanta a alma das pessoas com seu sorriso estimula nos adultos a capacidade de amar e de compreender. Recém-chegada do Reino dos Céus, ela traz consigo o perfume sagrado da etapa celestial (…)»[2], refere Carlos Cardoso Aveline, no artigo "O poder das crianças".
Para o autor brasileiro, os mais pequenos são um símbolo da alma, alegre, sincera e confiante. «Ela faz acordar a criança imortal dentro de cada um. O sorriso infantil que se abre como um sol cura instantaneamente as feridas da alma»[3]. Também Omraam Aivanhov ensina que a criança, que se encontra ou se cuida, é enviada «(…) para despertar em vós algo de delicado, de poético, de espiritual….»[4].
A criança exterior é um reflexo do centro infantil que existe em cada um, a criança Interior, Imortal e Divina que se comemora no Natal, um símbolo da consciência Crística: «Uma criança de um a dois anos de idade confia em todos. Seu amor é universal. Ela sorri para qualquer um e faz amizade em um instante. Não reconhece rixas ou preconceitos e ignora disputas políticas.  Não vê separação entre pessoas nem percebe a si mesma como um ser independente»[5], explica o pensador brasileiro.
A criança é veículo de uma sensibilidade ampliada, ela tem frequentemente percepções extra-sensoriais, como a telepatia ou a clarividência, muitas vezes ignoradas e que não devem, segundo o editor de “Filosofia Esotérica”, ser reprimidas. Sabine Lichtenfelds revela, em “As pedras de sonho”, o seu vínculo natural às plantas, até aos sete anos, e aos animais, até aos 14 anos de idade, o qual era apoiado nas sociedades ancestrais. As crianças cristal e índigo de hoje são exemplos do quanto a sociedade tem a aprender com as novas gerações, mais refinadas e intuitivas. Elaine Aron esclarece que as crianças hipersensíveis preferem muitas vezes brincar sozinhas e que quanto mais brilhantes forem maior a possibilidade de serem introvertidas.
Esta aparente inadequação das crianças, a espontaneidade, descontração e despreocupação, a capacidade de brincar e imaginar podem resgatar a Humanidade, devolvendo-lhe leveza e alegria. Para aquelas que foram incompreendidas na infância têm mais tarde, ao contactar com crianças, a oportunidade de cicatrizar as feridas, «(…) passando a limpo de um ponto de vista superior os primeiros anos da nossa vida», indica Carlos Aveline, no seu livro “O poder da sabedoria”[6]. A cura acontece quando alguém recupera a capacidade de amar, a si, aos outros e a todas as crianças.
Contudo, numa sociedade que desconhece os rituais e iniciações de passagem entre as idades e obliterando a infância a preenche precocemente de stress, pressa e sobreocupação, em vez do apoio, o mais habitual é ouvir a repreensão: “não sejas criança! Que parvoíce!” – num incentivo à contenção, à repressão, à “seriedade” e à hipocrisia.

Necessidades infantis

Há mais de meio século que foram consagrados, na Declaração Universal dos Direitos da Criança, os deveres da sociedade, adultos e cuidadores perante estes novos seres humanos. Além da alimentação, vestuário, habitação, saúde e educação, também foi reconhecido o direito ao amor, à compreensão e à protecção. De referir que tradicionalmente colocava-se em cada recém-nascido um círculo (fio, pulseira ou anel) em ouro como talismã.
As crianças têm uma natureza mais receptiva e estão intrinsecamente ligadas aos pais pelo que precisam de ser protegidas do mal e de permanecer num ambiente de tranquilidade: «Os pais devem criar uma atmosfera de paz, de harmonia, ao redor dos seus filhos, mesmo enquanto eles dormem, pois as crianças são recetivas a todas as correntes que circulam à sua volta», explica Omraam Aivanhov[7].
O mesmo autor destaca a responsabilidade de todo o adulto perante qualquer criança da qual se aproxime: «É necessário, sobretudo, que eles evitem abusar da sua confiança, dar-lhes maus exemplos e conselhos perniciosos. O que uma criança vê, ouve e vive imprime-se nela para sempre»[8]. Contudo, evitar a exposição aos perigos não significa negar a vida. Para que se possam enriquecer é importante que as crianças contactem com o maior número possível de seres humanos e adquiram consciência do que se passa à sua volta.
O mais importante não é ter crianças, ocupar-se delas ou educa-las. O essencial é o amor, a atenção, o respeito e a sinceridade. A criança necessita de ser acompanhada, encorajada, sobretudo nos momentos mais críticos, de ter bons exemplos e a presença da figura paterna para além da mãe, a qual pode agir desde logo sobre o feto que traz no ventre pelos seus pensamentos e sentimentos. Elaine Aron descreve como é fundamental a criação de relações afectivas, estáveis, seguras e estimulantes para o seu são desenvolvimento e moderada auto-estima.
Como Omraam, Kahlil Gibran lembra que as crianças não são posse dos pais nem estes lhes devem incutir as suas ideias: «Os vossos filhos (…) Vêm por vosso meio mas não de vós; e apesar de estarem convosco, não vos pertencem. Podeis dar-lhes o vosso amor, mas não os vossos pensamentos: porque eles têm pensamentos próprios»[9]. Kahlil Gibran aconselha a que os progenitores os deixem voar, como setas projectadas do arco que fica, em vez de os tentar torcer ou forçar: «Podeis esforçar-vos por ser como eles; mas não tenteis fazê-los como vós»[10].
Assim, sensatamente cuidadas e devidamente respeitadas na sua essência, as crianças também têm o dever de obedecer e confiar nos adultos, ser humildes em relação aos seus conselhos e submissos quanto às suas ordens. Na “República”, Platão defende que não se deve dar liberdade às crianças até que cultivem o seu melhor e saibam governar-se.
Gabriela Oliveira defende[11] que o meio familiar é o ambiente mais adequado para responder às necessidades emocionais das crianças mais pequenas e refere, entre outros, o caso da Noruega que desincentiva o tempo de estadia na creche, onde têm de competir pela atenção de um adulto. Como referiu Victor Hugo «A criança é como a tenra planta que o hábil jardineiro ajeita a seu prazer».
Para compensar a sua falta (de qualidade), multiplicam-se campanhas e instituições, como as Aldeias de Crianças SOS, a Casa do Gaiato, a Comunidade Juvenil de S. Francisco de Assis ou a Fundação Infantil Ronald McDonald, para além da Unicef. Há dez anos foi criada no Brasil a Agência de Notícias dos Direitos da Infância e depois o Jornalista Amigo da Criança com vista a defender o universo infanto-juvenil.
Um pouco por todo o mundo, têm sido criados com vista a apoiar, proteger e cuidar das cria(nça)s, as mais diversas iniciativas, projectos e obras em múltiplas áreas, desde yoga, meditação e orações para crianças, ao mercado de trocas de brinquedos, passando pela pedagogia. A Escola da Ponte, no concelho de Santo Tirso, a Escola da Esperança, em Tamera, são exemplos de inovação pedagógica, como a Waldorf, implementada no território português, com vista a adequar a vontade de conhecer e descobrir o mundo às necessidades infantis dos novos tempos.
Aos poucos institucionaliza-se a verdadeira amizade e amor pelas crianças, a vera pedofilia; para a História fica o abuso da sua confiança e inocência. Como elucida Carlos Aveline «As crianças chegam ao mundo com seus corações puros, e se encontrarem adultos sinceros poderão fazer com que a vida colectiva melhore radicalmente em pouco tempo»[12]. 



* Anos 70 [1] In http://www.filosofiaesoterica.com/ler.php?id=142 [2] Idem [3] Idem [4] AIVANHOV, Omraam Mikhael – Pensamentos quotidianos, Edições Prosveta/Publicações Maitreya, 2013, pág. 151. [5] AVELINE, Carlos Cardoso – O poder das crianças in http://www.filosofiaesoterica.com/ler.php?id=142  [6] AVELINE, Carlos Cardoso – O poder da sabedoria, Editora Teosófica, Brasília, 3ª edição, 2001, pág. 152. [7] AIVANHOV, Omraam Mikhael – Pensamentos quotidianos, Edições Prosveta/Publicações Maitreya, 2012, pág. 26 [8] Idem. [9] GIBRAN, Kahlil – O profeta, Editora Pergaminho, 2004, pág. 40. [10] Idem, pág. 41.[11] OLIVEIRA, Gabriela – Bebés – nada se compara ao aconchego do lar in Biosofia Inverno 2009/2010, pág.7. [12] AVELINE, Carlos Cardoso – O poder da sabedoria, Editora Teosófica, Brasília, 3ª edição, 2001, pág. 152.

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