quarta-feira, 3 de julho de 2013

Co-operar


Antes do Dia Internacional das Cooperativas, perspectivamos a competitividade da cooperação, as vantagens de laborar com - e não contra - o(s) outro(s).

Texto e fotografia Dina Cristo

Uma das fontes mais profundas da competição é o pensamento de escassez. A sensação de insuficiência é um pressuposto que gera medo de não conseguir ter o que se necessita, o que conduz à luta pelo poder, para melhor controlar e dominar. A ideia de igualdade é outro importante factor que está na base do desejo de distinção, frequentemente de acordo com expectativas exteriores.
A consciência individual, o interesse pessoal, fazem do individualismo uma das causas mais influentes para relações competitivas, com ênfase na astúcia. «Competição ou espírito agonístico são, na nossa perspectiva, a mesma coisa. Resultam da incapacidade de sair de si próprio, no desejo de se sobrepor, ao invés de se identificar com o outro», elucida Clara Tavares[1].
Da comparação nasce uma sensação de privação relativa, o que provoca uma espécie de corrida social, para ver quem chega primeiro (ao ponto mais alto), à ostentação (de títulos e/ou de bens), como forma de sinalizar ascensão e posição social, na esperança de que esta traga algum respeito - uma ambição de diferenciação que incrementou a mobilidade social, sobretudo depois da Revolução Americana, como explica Abílio Oliveira[11].
Este foco egoísta e separatista expressa-se por uma atitude contra a Natureza, incluindo a Humana, cujo objectivo é tirar vantagens, explorar, lucrar, acumular, apropriar-se. Esta postura “anti”, meramente receptiva e coadjuvada por um estilo de vida rápida, vacilante e ensopada em quantidade, não vai, contudo, além da repetição, da homogeneidade e da uniformização.
Os seus pontos de partida reaparecem à chegada: isolamento, conflito, inimizade, agressividade, bloqueio, stress, vazio. No final, os frutos são idênticos à raiz desta “árvore”, enfraquecida em combate para ser alguém: violência, crueldade, aprisionamento, doença, indiferença e consumismo. Resulta desta relação incorrecta, após a eliminação, dominação, destruição e exaustão, ainda mais pobreza, separação, insegurança e uniformidade.
Carlos Cardoso Aveline refere, no entanto, como se trata de uma reacção em crise: «As ideologias da luta competitiva, baseadas na premissa de que o mundo é mau e o homem não presta, não sobreviverão à sociedade patriarcal que já está aos pedaços, como uma placenta que se rompe na hora do parto»[2]. «A maioria das espécies extintas ao longo do tempo» sustenta o autor no mesmo livro «não desapareceu pela competição entre si, mas por mudanças climáticasdrásticas ou doenças epidêmicas»[3]. A maior parte dos animais, argumenta ainda o autor - são sociais e dependem bastante da ajuda mútua para sobreviver.

Cooperar é natural

F.J.C. Jr. defende que a cooperação é a verdadeira essência da civilização. Ela está presente desde a célula, como esclarece Lynn Margulis, até à conversação, como argumenta Grice, constituindo a base da economia medieval, designadamente através das guildas ou do trabalho colaborativo e anónimo, de construção colectiva das Igrejas. Está actualmente presente em actos como, por exemplo, o Biogás ou o aperto de mão, uma troca entre o princípio activo (emissor) e o passivo (receptor).
Ao contrário da competição, parte do princípio de que existem recursos não só suficientes mas também abundantes, o que gera confiança, além de diversos e diferentes, o que predispõe ao desenvolvimento do potencial existente, mais interior, e à sua manifestação, através da doação e partilha, e ao reconhecimento, gerando satisfação, gratidão e cada vez mais riqueza, material e psicológica. É o caso de todo o ovo ou semente, testemunho da capacidade criadora e multiplicadora da Natureza, e do jogo win-win, aplicado no âmbito da comunicação não violenta, em que todos ganham.
Orientados por uma consciência mais social e colectiva, os cooperantes baseiam a sua actuação em harmonia com os outros (e não contra eles), numa atitude sã e amiga, em união livre, com ganhos mútuos e apoio recíproco sem esquecer os valores da solidariedade, fraternidade, camaradagem, comunhão e altruísmo. Nesta parceria horizontal e correcta, com o ponto Alfa e Òmega a coincidirem na pacificação, segurança e comunicação, tem lugar a gratuitidade, a compaixão, a inclusão, tal como a amizade ou o amor.
Os resultados de força, esperança e plenitude reflectem as intenções comunitárias, de troca, circulação, fluidez e comunicação, as finalidades de identificar, aproximar, associar, conciliar ou de tornar comum e mesmo como um. Em vez de se procurar ser alguém, destacado, é-se ninguém, nesta floresta sã, qual rede humana de interdependência, círculo que cuida, protege, apoia e convive em uni(ci)dade.
A atitude em que as acções são compartilhadas, os benefícios distribuídos e os objectivos comuns, em alinhamento com a intenção original, manifesta-se nas confrarias, cooperativas, misericórdias, casas mútuas e do povo. Com uma Aliança Internacional desde os anos 60, o espírito cooperativo renasce hoje nas mais diversas actividades, desde a pedagogia (colaborativa) à agricultura (permacultura), passando pela saúde (homeopatia).
«À medida que o tempo marcha, o clamor crescente será para mais e mais cooperação – porque, vivendo em cooperação num mundo global, nós encontraremos a paz e a abundância para todos os povos, indiferentemente da raça ou credo», assegura F.J.R. Jr. É a compreensão, aceitação e aplicação da predisposição natural colaborativa - do interesse mútuo e do trabalho em equipa, própria do dois - e complementar existente entre todos os pares de opostos, que se procuram, necessitam e completam para assim poderem criar.
Quando a Humanidade deixar de competir consigo, com os outros e com a Natureza, numa atitude hostil, e passar a cooperar com todos, poderá recuperar a graça e a alegria. Se, desde bebés, Homens e Mulheres deixarem de ter de concorrer pela atenção de um adulto e de uma relação duradoura e segura, poderão, religados, resgatar a sua vocação cooperativa. Nessa altura, sem motivo para guerras, os Seres Humanos terão espaço, tempo, dinheiro, tecnologia e criatividade suficientes para proteger as plantas e os animais, e se elevarem a planos mais subtis e refinados.


[1] TAVARES, Clara - in Biosofia, nº38, pág.43. [11] OLIVEIRA, Abílio; GRAÇA, João  - Privação relativa – porque não vivemos mais satisfeitos in Biosofia, nº38, pág.4-8. 2011.
[2] AVELINE, Carlos Cardoso -  Aqui e Agora, para viver até ao séc.XXI, Editora Sinodal, 1985, pág.39. [3] Idem, pág. 25.

Etiquetas: , ,

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Ser criança


 

Que função social têm as crianças? Está o seu potencial a ser aproveitado? Qual o papel que desempenham os cuidadores? Vamos ler antes do seu dia mundial.

 Texto e desenho* Dina Cristo

A exploração infantil faz-se em toda a linha, desde o trabalho ao marketing e publicidade, passando pela via militar, com a infantaria, e até sexual. Eis um panorama indicativo do estado de “saúde” da sociedade já que, como afirma Carlos Cardoso Aveline, «Pode-se saber o estado de alma de um povo observando apenas o modo como ele trata suas crianças»[1].
Quantas são mortas, desprezadas, mal tratadas, negligenciadas, ignoradas, abusadas ou violentadas, quando não são vistas como um dano colateral ou mais uma posse. Só no Brasil há cerca de oito milhões abandonadas. Por vezes, começa logo nos hospitais, ao nascer. Por todo o mundo são inúmeras as meninas e meninos de rua, órfãos, carenciados, doentes e esfomeados, física e psicologicamente.
Com cada vez menos condições para brincar e mais (de)pressões, falta de atenção, orientação e compreensão por parte dos seus progenitores, educadores e cuidadores, as crianças sofrem cada vez mais cedo sintomas de patologias e atitudes “adultas”, quer ao nível do corpo quer da alma. Por vezes o problema é o oposto, excesso de preocupações, expectativas ou protecções, desproporcionadas e exageradas, que as envolvem e atrofiam o seu desenvolvimento. Os sentimentos de medo e de imperfeição incutidos, mesmo ‘sem querer’, nos mais pequenos, como explica Louise L. Hay, são disso exemplo.
Vítimas de uma sociedade hipermaterialista as crianças imitam e degeneram, por vezes, em pequenos monstros de egoísmo; como os alimentos, apodrecem rapidamente sem nunca antes terem amadurecido. Contudo, elas nascem para construir o futuro, novo e diferente, para induzir a mudança, acrescentar valor, (re)criar a realidade, alterar as estruturas, fazer avançar a sociedade e facilitar a evolução dos povos.
As crianças vêm para mostrar qual o caminho a percorrer, para lembrar qualidades entretanto esquecidas ou perdidas, como autenticidade, bondade, felicidade ou simplicidade. Os mais pequenos dão uma lição aos mais crescidos sobre, por exemplo, como viver aberta e plenamente, no aqui e agora. Os bebés, por exemplo, não temem expressar livremente as suas emoções e não fazem comparações, lembra Louise L. Hay.
Cada recém-nascido traz consigo a pureza, a inocência e a bem-aventurança da unidade original. «Uma criança que encanta a alma das pessoas com seu sorriso estimula nos adultos a capacidade de amar e de compreender. Recém-chegada do Reino dos Céus, ela traz consigo o perfume sagrado da etapa celestial (…)»[2], refere Carlos Cardoso Aveline, no artigo "O poder das crianças".
Para o autor brasileiro, os mais pequenos são um símbolo da alma, alegre, sincera e confiante. «Ela faz acordar a criança imortal dentro de cada um. O sorriso infantil que se abre como um sol cura instantaneamente as feridas da alma»[3]. Também Omraam Aivanhov ensina que a criança, que se encontra ou se cuida, é enviada «(…) para despertar em vós algo de delicado, de poético, de espiritual….»[4].
A criança exterior é um reflexo do centro infantil que existe em cada um, a criança Interior, Imortal e Divina que se comemora no Natal, um símbolo da consciência Crística: «Uma criança de um a dois anos de idade confia em todos. Seu amor é universal. Ela sorri para qualquer um e faz amizade em um instante. Não reconhece rixas ou preconceitos e ignora disputas políticas.  Não vê separação entre pessoas nem percebe a si mesma como um ser independente»[5], explica o pensador brasileiro.
A criança é veículo de uma sensibilidade ampliada, ela tem frequentemente percepções extra-sensoriais, como a telepatia ou a clarividência, muitas vezes ignoradas e que não devem, segundo o editor de “Filosofia Esotérica”, ser reprimidas. Sabine Lichtenfelds revela, em “As pedras de sonho”, o seu vínculo natural às plantas, até aos sete anos, e aos animais, até aos 14 anos de idade, o qual era apoiado nas sociedades ancestrais. As crianças cristal e índigo de hoje são exemplos do quanto a sociedade tem a aprender com as novas gerações, mais refinadas e intuitivas. Elaine Aron esclarece que as crianças hipersensíveis preferem muitas vezes brincar sozinhas e que quanto mais brilhantes forem maior a possibilidade de serem introvertidas.
Esta aparente inadequação das crianças, a espontaneidade, descontração e despreocupação, a capacidade de brincar e imaginar podem resgatar a Humanidade, devolvendo-lhe leveza e alegria. Para aquelas que foram incompreendidas na infância têm mais tarde, ao contactar com crianças, a oportunidade de cicatrizar as feridas, «(…) passando a limpo de um ponto de vista superior os primeiros anos da nossa vida», indica Carlos Aveline, no seu livro “O poder da sabedoria”[6]. A cura acontece quando alguém recupera a capacidade de amar, a si, aos outros e a todas as crianças.
Contudo, numa sociedade que desconhece os rituais e iniciações de passagem entre as idades e obliterando a infância a preenche precocemente de stress, pressa e sobreocupação, em vez do apoio, o mais habitual é ouvir a repreensão: “não sejas criança! Que parvoíce!” – num incentivo à contenção, à repressão, à “seriedade” e à hipocrisia.

Necessidades infantis

Há mais de meio século que foram consagrados, na Declaração Universal dos Direitos da Criança, os deveres da sociedade, adultos e cuidadores perante estes novos seres humanos. Além da alimentação, vestuário, habitação, saúde e educação, também foi reconhecido o direito ao amor, à compreensão e à protecção. De referir que tradicionalmente colocava-se em cada recém-nascido um círculo (fio, pulseira ou anel) em ouro como talismã.
As crianças têm uma natureza mais receptiva e estão intrinsecamente ligadas aos pais pelo que precisam de ser protegidas do mal e de permanecer num ambiente de tranquilidade: «Os pais devem criar uma atmosfera de paz, de harmonia, ao redor dos seus filhos, mesmo enquanto eles dormem, pois as crianças são recetivas a todas as correntes que circulam à sua volta», explica Omraam Aivanhov[7].
O mesmo autor destaca a responsabilidade de todo o adulto perante qualquer criança da qual se aproxime: «É necessário, sobretudo, que eles evitem abusar da sua confiança, dar-lhes maus exemplos e conselhos perniciosos. O que uma criança vê, ouve e vive imprime-se nela para sempre»[8]. Contudo, evitar a exposição aos perigos não significa negar a vida. Para que se possam enriquecer é importante que as crianças contactem com o maior número possível de seres humanos e adquiram consciência do que se passa à sua volta.
O mais importante não é ter crianças, ocupar-se delas ou educa-las. O essencial é o amor, a atenção, o respeito e a sinceridade. A criança necessita de ser acompanhada, encorajada, sobretudo nos momentos mais críticos, de ter bons exemplos e a presença da figura paterna para além da mãe, a qual pode agir desde logo sobre o feto que traz no ventre pelos seus pensamentos e sentimentos. Elaine Aron descreve como é fundamental a criação de relações afectivas, estáveis, seguras e estimulantes para o seu são desenvolvimento e moderada auto-estima.
Como Omraam, Kahlil Gibran lembra que as crianças não são posse dos pais nem estes lhes devem incutir as suas ideias: «Os vossos filhos (…) Vêm por vosso meio mas não de vós; e apesar de estarem convosco, não vos pertencem. Podeis dar-lhes o vosso amor, mas não os vossos pensamentos: porque eles têm pensamentos próprios»[9]. Kahlil Gibran aconselha a que os progenitores os deixem voar, como setas projectadas do arco que fica, em vez de os tentar torcer ou forçar: «Podeis esforçar-vos por ser como eles; mas não tenteis fazê-los como vós»[10].
Assim, sensatamente cuidadas e devidamente respeitadas na sua essência, as crianças também têm o dever de obedecer e confiar nos adultos, ser humildes em relação aos seus conselhos e submissos quanto às suas ordens. Na “República”, Platão defende que não se deve dar liberdade às crianças até que cultivem o seu melhor e saibam governar-se.
Gabriela Oliveira defende[11] que o meio familiar é o ambiente mais adequado para responder às necessidades emocionais das crianças mais pequenas e refere, entre outros, o caso da Noruega que desincentiva o tempo de estadia na creche, onde têm de competir pela atenção de um adulto. Como referiu Victor Hugo «A criança é como a tenra planta que o hábil jardineiro ajeita a seu prazer».
Para compensar a sua falta (de qualidade), multiplicam-se campanhas e instituições, como as Aldeias de Crianças SOS, a Casa do Gaiato, a Comunidade Juvenil de S. Francisco de Assis ou a Fundação Infantil Ronald McDonald, para além da Unicef. Há dez anos foi criada no Brasil a Agência de Notícias dos Direitos da Infância e depois o Jornalista Amigo da Criança com vista a defender o universo infanto-juvenil.
Um pouco por todo o mundo, têm sido criados com vista a apoiar, proteger e cuidar das cria(nça)s, as mais diversas iniciativas, projectos e obras em múltiplas áreas, desde yoga, meditação e orações para crianças, ao mercado de trocas de brinquedos, passando pela pedagogia. A Escola da Ponte, no concelho de Santo Tirso, a Escola da Esperança, em Tamera, são exemplos de inovação pedagógica, como a Waldorf, implementada no território português, com vista a adequar a vontade de conhecer e descobrir o mundo às necessidades infantis dos novos tempos.
Aos poucos institucionaliza-se a verdadeira amizade e amor pelas crianças, a vera pedofilia; para a História fica o abuso da sua confiança e inocência. Como elucida Carlos Aveline «As crianças chegam ao mundo com seus corações puros, e se encontrarem adultos sinceros poderão fazer com que a vida colectiva melhore radicalmente em pouco tempo»[12]. 



* Anos 70 [1] In http://www.filosofiaesoterica.com/ler.php?id=142 [2] Idem [3] Idem [4] AIVANHOV, Omraam Mikhael – Pensamentos quotidianos, Edições Prosveta/Publicações Maitreya, 2013, pág. 151. [5] AVELINE, Carlos Cardoso – O poder das crianças in http://www.filosofiaesoterica.com/ler.php?id=142  [6] AVELINE, Carlos Cardoso – O poder da sabedoria, Editora Teosófica, Brasília, 3ª edição, 2001, pág. 152. [7] AIVANHOV, Omraam Mikhael – Pensamentos quotidianos, Edições Prosveta/Publicações Maitreya, 2012, pág. 26 [8] Idem. [9] GIBRAN, Kahlil – O profeta, Editora Pergaminho, 2004, pág. 40. [10] Idem, pág. 41.[11] OLIVEIRA, Gabriela – Bebés – nada se compara ao aconchego do lar in Biosofia Inverno 2009/2010, pág.7. [12] AVELINE, Carlos Cardoso – O poder da sabedoria, Editora Teosófica, Brasília, 3ª edição, 2001, pág. 152.

Etiquetas: , ,

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Labutar?



Disfuncional, o trabalho está muitas vezes associado a uma espécie de frete e é encarado com enfado. O desafio está hoje, dia do trabalhador, em recuperar a sua essência, como fonte de alegria.

Texto e fotografia Dina Cristo


O dinheiro, como necessidade ou ambição, o prestígio, estatuto ou poder social, a falta de auto-estima, de reconhecimento ou aprovação alheia, a ansiedade, impaciência ou capricho, o desequilíbrio emocional e a fuga do sofrimento, pela obtenção de um alívio imediato e superficial, são algumas das principais motivações para o trabalho. Tais causas provocam quantas vezes a obsessão, o excesso (a hiperactividade), o vício e a dependência de um trabalho sem ordem e sem limites, o "workaholic".
A ocupação da era industrial é repetitiva, rotineira, automática, rápida, sob pressa(o), sem parar nem espaço para pensar. Torna-se uma l(ab)uta, em que ora se trabalha para viver ora se vive para trabalhar, com a mão-de-obra como mercadoria, sem direitos, e onde impera a competição, a exploração (mesmo a infantil), o autoritarismo, a opressão, o controlo e a dominação externa.
É o trabalho forçado, compulsivo, bloqueado pelo interesse e expectativas, vivido com indiferença e sem afecto, por obrigação, ao nível do medo instintivo e do desejo personalísticos, controlado por finalidades imediatistas e sem lugar para a criatividade, que se torna quantas vezes numa forma de aprisionamento, escravização, numa certa castração, por um lado, ou prostituição, por outro.
Alienante e desumanizado, ele não só contrai e embrutece, como cansa, fatiga, desgasta e enerva. O trabalho assim entristece, frustra e deprime, gera resistência, preguiça e proscratinação; ele envenena, destrói e esgota, da doença até à morte. Ao roubar tempo à vida familiar e ao descanso, por exemplo, conduz a uma profunda insatisfação pessoal, (des)compensada, depois, pelos bens que o salário permite adquirir.
Este trabalho, assente no (em)prego, a serviço dos objectivos pessoais, com base na “transpiração” e no hétero-trabalho, disfuncional, onde os profissionais têm como objectivo o lucro e a especialização técnica, afasta cada vez mais a “lifeworld” e o sistema, corresponde numerologicamente ao quatro.

Amar o trabalho

A era digital traz novas possibilidades ao trabalho solidário, colaborativo, participativo, democrático e voluntário, de Graça, a uma actividade mais humana, altruísta, criativa, útil, necessária, moderada, paciente, psíquica e interior. Autores como Omraam Aivanhov defendem que o verdadeiro trabalho é espiritual, de auto-domínio, auto-aperfeiçoamento, regeneração, purificação e harmonização. Trata-se de um trabalho alquímico sobre si próprio, digerindo os resíduos emocionais e mentais e transformando a sua vida numa obra de arte. Corresponde ao sacrifício, ao santo ofício de quem está ao serviço divino, da vinda do reino de Deus à terra, à ideia da fraternidade universal, ao despertar do amor, à defesa do bem, do belo e do bom.
Este tipo de trabalho, mais invisível, é o que eleva, enobrece e dignifica, ele energiza, fortalece e reforça, realiza, satisfaz profundamente, traz alegria, esperança, entusiasmo (do dever cumprido), promove a descontração, a cura e a verdadeira libertação. Corresponde numerologicamente ao vinte e dois, ao trabalho pela família universal, como é o caso dos “peace workers” ou das Pessoas Altamente Sensíveis, que o adequam à sua motivação, vocação e ritmo mais lento.
Nele se permite o repousa, a pausa, o descanso, o relaxamento e a descontração, na Lua Vazia, por exemplo, onde encontra inspiração para a sua criatividade. De carácter mais impessoal, de unificação e religação - entre o público (homem) e privado (mulher), associando o princípio masculino e o feminino, o corpo e a alma, o lado divino e a animalesco, o fazer e o lazer, a quantidade e a qualidade, o coração e o intelecto – é uma forma de expressão e realização.
Este é o trabalho motivado já não por sentimentos de culpa, medo ou desejo, que aprisionam, mas pelo amor, que liberta, habitualmente manifestada numa obra, verdadeiramente amadora, desinteressada, atenta e sensata, em prol da comunidade. Como escreveu Kahlil Gibran «(…) todo o trabalho é vazio menos onde há amor».

Mudar de trabalho

O trabalho tem sido uma tentativa de desviar da letargia e da inércia e promover a responsabilidade e o altruísmo, um treino para cultivar a mobilidade física, a actividade mental, o sentido do colectivo e da capacidade cooperativa, lê-se em “Sete Chaves”. O livro, editado pelo CLUC, refere que, quando tais intentos forem atingidos, o tempo dedicado à causa do progresso geral, com efeito mais amplo e duradouro, passará, então, a ser mais importante que as anteriores ocupações.
Para já, uma das melhores formas de o ultrapassar é pela gratidão, como ensina Louise L. Hay, e através da dedicação e não da negligência, preguiça ou adiamento, tal como defende Óscar Quiroga. "Que ninguém negligencie o seu próprio bom trabalho em função do trabalho de outro, por melhor que este seja. Uma vez que o homem tenha identificado o seu próprio trabalho, que se dedique a ele", lê-se no Dhammapada.
Carlos Cardoso Aveline refere, em "Três caminhos para a paz interior", a importância da unidade entre o fim e os meios no Karma Yoga: "Quando você estiver fazendo uma tarefa qualquer, não pense em mais nada. Faça-a como se fosse a coisa mais sagrada que existe, e dedique sua vida inteira a ela enquanto estiver fazendo"(1). Na mesma obra o autor cita Marco Aurélio: "Pensa firmemente a cada instante em fazer o que estiver em tuas mãos com uma seriedade total e sincera, com sentimento, independência e justiça; e trata de livrar-te de todas as outras preocupações. Poderás livrar-te delas se praticares cada acção ao longo da vida como se fosse a última, evitando a negligência, a irracionalidade, a hipocrisia, o egoísmo e o inconformismo diante do que te foi destinado (...)"(2).
Apesar das políticas em sentido contrário, há hoje propostas que passam por um emprego rotativo, parcial, partilhado, (re)pousado, com menos horas, mais flexível, ou seja, menos e melhor trabalho, que integre a subjectividade, a parte excluída do todo, nomeadamente a qualidade e o coração, e que, embora com menos salário, renda mais tempo e poupança e menos desemprego para todos.
O trabalho do futuro pode, pois, vir a ser despoletado não através da carência mas pela abundância, vontade de contribuir, de partilhar, de trocar e de dar, como já acontece nos serviços do Banco do Tempo, é defendido pelo Movimento Zeitgeist e posto em prática em Tamera. Nesta nova visão, o trabalho resulta não da impulsividade, do desejo de diferenciação e de se servir dele mas da preparação, da vontade de comunicação e de estar ao serviço de todos.

(1) AVELINE,Carlos Cardoso - Três caminhos para a paz interior, Editora Teosófica, 2002, p.60/61, (2) Idem, pág.62

Etiquetas: , ,

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Somos livres?

 


Na véspera da celebração da Revolução do 25 de Abril e a dias da de inauguração, há 45 anos, na Broadway, do musical “Hair”, vamos saber o que é e até que ponto se consegue ser livre.
  
Texto e fotografia Dina Cristo

Alguém é livre quando age de acordo com a própria natureza, vontade, verdade e consciência. Tal pressupõe o auto-conhecimento, fundamental para que se possa actuar de acordo com quem se é. Ser livre é ter o poder e a capacidade de decidir o melhor para si, fazer a escolha mais acertada tendo em conta a sua essência, quem já se sabe que é e não para se vir a ser alguém; é ter capacidade de saber de que se ocupar, ao que dar atenção, a quem se ligar, como indica Omraam Aivanhov.
“(…) a verdadeira liberdade consiste em obrarmos em nosso próprio nome, em sermos nós em nossas obras e pensamentos”, escreveu Teixeira de Pascoaes. Esta capacidade de auto-determinação, do livre arbítrio da acção individual visível, o “agency”, é hoje enfatizada pela ciência pós-moderna em detrimento do determinismo externo, do constrangimento da estrutura colectiva invisível. No caso da pragmática acional, para a qual falar é agir, essa actuação é de âmbito discursivo.
Viver de acordo com a sua questão particular implica escolher o seu caminho, saber selecionar o mais adequado para si e não o mais atraente ou sedutor. Para Platão, a liberdade está em ser-se senhor de si mesmo, o que acontece quando a sua melhor parte, a mais virtuosa, embora menos desenvolvida, domina a pior, a mais viciosa e abundante. Como alguém escreveu, a liberdade atinge-se quando o intelecto compreende o que é o bem, o belo e o bom, o coração o deseja e a vontade vai atrás.
Quando está ao serviço das paixões o ser humano enceta uma falsa libertação que o mantém dependente dos apelos instintivos e expande as suas amarras. Dar vasão aos gostos, apetites e inclinações, como diria Immanuel Kant, apenas o amarrará aos seus interesses limitados, ao condicionado, à região abaixo do diafragma. Já Antero de Quental havia ensinado que “só é verdadeiramente livre aquele que sabe limitar voluntariamente a própria liberdade”.

Desprendimento

A verdadeira libertação está no auto-domínio, em saber integrar apegos, desejos e medos, para depois os direcionar e ultrapassar. Primeiro a aceitação já que, como lembra Carlos Cardoso Aveline, “ficamos presos a tudo aquilo que rejeitamos”. Há que aprender a harmonizar, a reequilibrar, a reunir o pólo da liberdade e da ordem, com moderação, para evitar que o investimento excessivo num conduza ao aprisionamento no outro, oposto e oculto.
«Sereis livres de facto não quando os vossos dias decorrerem sem cuidados e as vossas noites sem desejos e sem fadigas mas antes quando todas estas coisas cercarem a vossa vida e vos elevardes acima delas, nus e libertos”, ensinou Kahlil Gibran(1). Esta superação e subida às alturas acontecem quando se age sem esperar nada em troca, desinteressadamente, através do desapego, sobretudo quando se libertam as (outras) pessoas, se prescinde de objectos e actividades inúteis ou se livram de preocupações mentais ou emoções destrutivas, como a culpa, a raiva ou o medo, nomeadamente através do canto.
A libertação real advém do perdão, uma desculpa pelos erros, próprios e alheios, cometidos no passado, a cuja memória se associam emoções, como a tristeza, que precisam de ser enfrentadas, expressas, processadas e compreendidas. Muitas vezes o que resulta em termos de significado e sentido atribuído à experiência é a consciência de uma ilusão, o que normalmente origina um sofrimento duplo, tendo em conta a decisão de separação, uma grande perda e mudança que implica. “Você não encontrará a liberdade”, disse António L. Santos, “até ser capaz de enfrentar a mudança e a incerteza”.
A verdade é a via da autêntica libertação. Dependente do estado ou foco de consciência, do nível evolutivo, própria do mundo inteligível, incondicionado, da Razão Pura kantiana, ela dissipa as ilusões e desapossa de pessoas, ideias, lugares e ocupações, que ora o medo ora o desejo tentavam, pelo controlo, manipulação e mentira, suster, fixar e agarrar. Libertar é deixar fluir, circular e movimentar, é ser um sistema aberto, dinâmico e renovador. Estagnar, amarrar, prender ou parar, como diz o provérbio popular, é morrer.
Dependendo do estado de consciência, assim o ser humano se vai desembaraçando de ilusões em direcção a focos de luz maiores e melhores, num processo continuo que o leva a deixar para trás as percepções mais deturpadas ou distorcidas pelo egotismo, com gratidão pelo grau de evolução que a experiência anterior lhe permitiu alcançar. Como no Outono, em que as folhas caem da árvore, a efectiva libertação ocorre aquando da maturidade, quando há sabedoria suficiente para orientar e salvar.

Livramento

A verdadeira autonomia e independência são interiores. Corresponde à vibração anímica do amor, reino da abundância e da doação, da altivez, acima do diafragma, ao reino da Graça e da abundância, a Providência divina, repleta de luz e de leveza. Liberta dos p(r)esos materiais, mesmo sem nada, a pessoa é, como interpretou Nina Simone e é sentindo quem é, ao abrir o coração, viver cada emoção e ouvir a intuição que o indivíduo pode, doravante, viver em conformidade com esse conhecimento, fiel à sua própria natureza.
Contudo, o mais vulgar é a ampliação, amputação ou ajustamento das características e peculiaridades para uma rápida e conveniente adaptação à cultura vigente, aos papéis sociais, às expectativas alheias, se necessário recorrendo a comprimidos… para normalizar, ‘adormecer’ ou anestesiar, incluindo os sentimentos. Quer esta implosão psicológica interna quer a rejeição externa, que se crê ser causa de limitação e, por isso, se pretende desembaraçar, mesmo que abruptamente, são falsas libertações.
Ser livre é diferente de se ter a sensação de o ser. Embora o controlo seja cada vez mais remoto, tecnológico e indirecto, ele está omnipresente e tornou-se, no actual sistema, não apenas consentido mas também, devido aos sentimentos de insegurança fabricados e publicitados, desejado pelos próprios indivíduos. Enquanto domina, como denuncia a Teoria Crítica, o sistema difunde a auto-propaganda através do consumo, trabalho, “media”, educação e cultura em vigor como meio de libertação.
Contudo, como explicitou a 10/10/2011 Óscar Quiroga, o que impera é a opressão. Mesmo nos relacionamentos humanos, quando não se atinge a frequência amorosa, (ab)usa-se da ameaça, culpa, chantagem, julgamento, manipulação ou mentira que elimina o espaço, que não se tem e por isso não se dá, e, assim, sufocada, vicia-se a ligação num curto circuito fechado de dependência, medo ou subordinação. As Pessoas Altamente Sensíveis, como esclarece Elaine Aron, deixam-se aprisionar pelas exigências dos outros, por exemplo.
Sem amor e sem verdade, a escassa liberdade - de pensamento, expressão, opinião, circulação ou acção - reflecte-se numa atitude de bloqueio face ao meio ambiente: a ocupação do tempo, o condicionamento do ar como o barramento da água, aprisionada por estruturas equivalentes às que restringem o livre fluxo venusiano. Trata-se de um espelho de toda a estratégia mental que, por insegurança e falta de auto-conhecimento, a leva a investir na manutenção de algo que é, por natureza, constantemente transformado e alter(n)ado.
Contudo, florescem os mais diversos movimentos a favor da liberdade, desde o software ao amor, dois séculos após a independência americana e a Revolução francesa e meio após o movimento de contracultura hippie, nascido em S. Francisco e retratada no musical e filme “Hair”, contra a guerra, o consumismo e as restrições sociais, com o seu “flower power”, “make love, not war”, o desnudamento, os cabelos cumpridos, o valor da amizade, simplicidade e festividade e de vanguarda a favor dos movimentos ecologistas, sociais, pacifistas, comunitários e esotéricos, que entretanto se desenvolveram.

A peça, estreada desde então um pouco por todo o mundo, com as mais diversas traduções e versões, contou nos seus elencos com nomes como Sérgio Godinho (em França), Donna Summer (Alemanha) ou Sónia Braga (no Brasil) e as suas músicas ficaram para a História bem como a sua influência nas artes e nos costumes. A criação retrata uma tribo urbana liderada por Berger, um homem extrovertido e amigo de Claude, um romântico pensativo apaixonado por Sheila, uma mulher com destacado estatuto social. Embora contra a guerra no Vietname, o líder acaba, no filme, ao contrário do musical original, por embarcar, por engano, no lugar do seu amigo recrutado e morre não sem deixar o seu exemplo de combate a favor da paz, que passa a ser seguido.


(1) GIBRAN, Kahlil - O profeta, Pergaminho, 2004, pág.103.

Etiquetas: , ,

quarta-feira, 27 de março de 2013

Vida ilusória

 


A anteceder o Dia das Mentiras, mergulhamos nas causas, condições e efeitos de (não) expressar a verdade.

Texto e fotografia Dina Cristo

Uma parte significativa da vida real é constituída pelo sonho e ilusão, em que se baseia, aliás, muito entretenimento. Por vezes é mesmo difícil distinguir onde acaba uma e começa outra dimensão. Nos tempos actuais de transição, a mistura aumenta e a confusão cresce tal como a necessidade de as distinguir.
O sonho, embora difícil, pode ser concretizado, depende por isso da acção, esforço e talento do sonhador. É ele que dá qualidade, humanidade e sentido à vida e impulsiona a evolução, lembra Carlos Cardoso Aveline. Por seu lado Omraam Aivanhov recorda que “Os verdadeiros progressos sempre foram obra de utópicos”[1].
Quando, apesar de ausente, no presente, o sujeito ou objecto permanece na memória de alguém, está-se perante uma imaginação. Pode ser uma fonte de alegria, criativa e construtiva - é o caso das fantasias artísticas, nomeadamente as musicais. Em relação ao deslumbramento e encantamento, de carácter emocional, próprio do fascínio, pode e deve ser corrigido pelo âmbito mental.
Já a ilusão não depende do iluso para a sua concretização. A pessoa ou objecto ilusor não está e nunca esteve presente. De carácter mental, pode ser reequilibrada com o nível emocional, nomeadamente através do amor. É um engano, uma esperança sem fundamento, que constitui uma distorção da realidade.
Muitas vezes uma fuga, a ilusão pode ter, entre as suas principais causas a dureza da realidade (social) e o egoísmo. Resulta também da astúcia e do ódio. O seu objectivo é o interesse, proveito e conveniência pessoal (como o aumento da posse), o desejo de dominar (pessoas e situações) e de ganhar tempo. Conduz, com frequência ao envelhecimento, à tristeza, à dor, que temia, e mesmo à infelicidade, miséria e, inevitavelmente, à desilusão.
A confusão mental provoca cada vez mais enganos, equívocos, erros, sofrimentos e intranquilidade emocional, que, por sua vez, pode levar à depressão ou (co)dependências – um ciclo vicioso que só aumentará a sombra e o aprisionamento. Se a curto prazo os efeitos parecem atrativos, em pseudo-realidades mais agradáveis, confortáveis ou prazerosas, a médio e longo prazo tornam-se desgastantes e destrutivas, uma espécie de pântano que alimenta a escravidão, como um vampiro que se sustenta do sangue da sua própria… presa.
A resposta mais comum é o prolongamento de uma ilusão com outra (nomeadamente casa, emprego, relação), a substituição do optimismo pelo pessimismo (o desânimo e o desespero, a crença de que não há saída) ou a troca deste por aquele. Poucos aproveitam a oportunidade para se sintonizarem com o realismo ou se elevarem a um plano real mais duradouro.

Quem (não) tem medo de expressar a verdade?

Os motivos são vários. A falta de experiência e de reflexão pessoal como a repetição de falsidades e mentiras colectivas, por um lado, a imposição e, ao mesmo tempo, a relativização de verdade(s), ao nível institucional, por outro, dificulta o reconhecimento da ilusão. A mescla entre realidade e ficção dissemina-se. Quantas vezes as mentiras são ditas com ar sério (seja no jornalismo, na história ou na vida quotidiana) e em “on”, utilizando palavras (muitas vezes escritas) e as verdades em (tom, programas e desenhos de) humor, na dita ficção científica, nas lendas, mitos, brincadeiras comuns como no “off”, nas palavras não ditas, no silêncio.
Superar o ‘sincretismo’ mental e discernir entre o que é e aquilo que parece ser é uma tarefa árdua. Exige força, coragem, renúncia às falsidades, reaprendizagem da arte de pensar (menos e melhor), experiência, maturidade, preparação e mesmo precaução para que, dada a sua energia, possa ser recebida sem estragos, como previne Omraam Aivanhov, autor para quem a verdade deve ser assimilada e integrada, experiênciada, vivida e aplicada antes de ser transmitida. Para Neale Donald Walsch, a sua expressão deve ser a cinco níveis: de cada um a si próprio e a outra(s) pessoa(s), da(s) outra(s) pessoas a si próprio e a ela(s) e acerca de tudo a toda a gente.
É difícil encontrar a verdade numa sociedade que confunde carência com amor e, como diria Emanuel Kant, o condicionado, as inclinações (patológicas), o sensível e a parte com o incondicionado, o mundo das Ideias, da Razão Pura, o todo; repleta de falsificações, onde as cópias substituem, com vantagens lucrativas, o original, com cada vez há menos alimentos genuínos e mais “do tipo de”, objectos contrafeitos e argumentos falaciosos.
Numa sociedade assim, com os indivíduos a perceberem as realidades de acordo com os seus filtros emocionais (onde predomina o medo e o desejo), como explicou Lucienne Cornu, com pressa(o) de se adaptar, os exemplos de ilusão são inúmeros. Desde (a linearidade de) o tempo, a separação, o isolamento entre seres e a permanência dos fenómenos, a própria ciência, religião e engenharia (segundo Óscar Quiroga), até à convicção de que a verdade não existe, de que se pode obliterar o envelhecimento, a doença e evitar a morte, agir sem quaisquer consequências ou colher sem semear.
Carlos Cardoso Aveline explica como Maya não é literalmente uma ilusão mas um nível de realidade em perpétua renovação, mutante e dinâmica, cíclica e impermanente. Esta dimensão enganosa constitui um nível mais externo de realidade, campo de competição, de carácter mental, e de interesses personalísticos.
A ilusão, que envolve a maioria dos humanos, corresponde às trevas, a objectividade, a superficialidade ou a aparência. Identifica-se com os pensamentos e palavras, da mente concreta, que controla, manipula, oprime, oculta, bloqueia, mente, desconfia, analisa, esconde, separa e, insegura, precipita a própria destruição, ao invés da sobrevivência para a qual encontra todas estas estratégias de defesa.
O intelecto é um meio de conhecimento, embora limitado, pois julga a partir das aparências, conclui a partir de visões parciais sem conseguir captar elementos subtis, o que origina erros, enganos e incorrecções, lembra Omraam Aivanhov. Amigo da crença, da fé e dos desejos, muitas vezes omite, resiste ou rejeita a realidade.
A mentira, denunciada em fados e canções, nacionais e internacionais, além de livros, é coadjuvada pela velocidade de informação, eufemismos e fingimentos. Amiga do joio, da preguiça e da anestesia, é cúmplice da submissão, susceptibilidade e estagnação bem como da cosmética em que tenta imitar e, ao mesmo tempo, encobrir e maquiar a realidade mais pura.

Da ilusão à iluminação

Mas aquilo que é objecto de ilusão pode, despoletado por uma desilusão e uma fraqueza, que leva ao crescimento, tornar-se um propulsor de iluminação e de franqueza, para um punhado de almas que procuram ultrapassar os limites da ignorância, da opacidade e da parcialidade e atingir um nível mais interno, anímico, intuitivo e unitário da realidade.
A verdade vai além do intelecto e concilia o conhecimento mais profundo, a sabedoria, com o amor, o que lhe permite penetrar instantaneamente no íntimo das coisas e dos seres e conhecê-los na totalidade, sem nada lhe ser ocultado e nunca se enganar, explica Omraam Aivanhov. Este nível mental abstracto ao integrar o significante, o corpo, a matéria visível e também o significado, a essência e o espírito invisível permite-lhe obter a visão do todo e não se reduzir a uma parte dele.
Ao contrário da mentira, tem pernas cumpridas e transcende o tempo e o espaço. Está para além das conveniências pessoais e dos interesses personalísticos. É, por isso, de seguimento raro e difícil mas criativo este caminho, em que a estética está ao serviço da revelação e descoberta da realidade, em direcção à transparência, à frontalidade e à aceitação, cujo desfecho é a correcção, confiança e segurança. Como escreveu Óscar Quiroga[3] «Belas ilusões se tornam indigestas e promotoras de problemas ao longo do tempo. Enquanto isso, cruas realidades enfrentadas com coragem tornam o panorama claro e transitável com muita rapidez»[4].
Satya, a verdade, é uma luz que dissolve as barreiras, um raio fulminante, sensível, breve e profundo; uma força de vontade que liberta e cura, e cujos frutos são o discernimento mental e a serenidade emocional; o autêntico poder mág(ic)o de revelar e manifestar a realidade oculta(da), qual “iceberg” desconhecido. «Verdade é» segundo Óscar Quiroga «o que se vive interiormente, é o que resiste a quaisquer argumentações; verdade é aquilo que geralmente não se discute nem sequer nos momentos em que nossa humanidade decide ter conversas sérias».


[1] AIVANHOV, Omraam - Pensamentos quotidianos. Edições Prosveta e Publicações Maitreya, 2013 (27/3/2013). [3] 28/06/2011. [4] QUIROGA, Óscar – 6/6/2011

Etiquetas: , ,