quarta-feira, 5 de junho de 2013

Algas


No Dia Mundial do Ambiente e antes do Dia Mundial dos Oceanos falamos das verduras marinhas, neste que é o melhor período para as recolher, entre o fim da Primavera e o início do Verão.

Texto Dina Cristo


Portugal tem 800 km de costa e 400 espécies diferentes de algas visíveis, com valor alimentar, nutritivo e medicinal, usadas em território nacional desde pelo menos o séc. XIV. Os mais velhos são ainda testemunhas da apanha do sargaço destinado à indústria farmacêutica. Mais actualmente as algas são estudadas, em laboratórios. Em Coimbra temos a Algoteca e existem, além da investigação, algumas publicações como o “Guia ilustrado das Macroalgas” de Leonel Pereira. Fotossintéticas, podem também ser usadas como fertilizantes ou rações, na talassoterapia ou produção do biodiesel ou em aquacultura.
Mas verduras marinhas são sobretudo uma fonte alimentar e medicinal. Possuem macrooligoelementos, como cálcio, enxofre, fósforo, magnésio, potássio, sódio, e micro-oligoelementos, tais como cobalto, cobre, ferro, iodo, manganésio, selénio, silício ou zinco. As mais conhecidas são a Agar-Agar, Dulse, Esparguete do Mar, Fucus, Musgo da Irlanda, Nori, Kombu e Wakame. Normalmente desidratam-se, umas comem-se cruas, em saladas, outras podem ser assadas, guisadas e até fritas, como condimento ou guarnição, por exemplo. Devem-se ingerir em pequenas quantidades, como um princípio homeopático, e podem ser usadas na dieta da cor, dada a sua variedade azul, vermelha, castanha ou verde.
Do ponto de vista terapêutico estes vegetais marinhos são anti-cancerígeno, anti-celulíticos, anti-coagulantes, anti-inflamatórios, anti-microbianos, anti-oxidantes, anti-sépticos, anti-tumorais e anti-virais. Entre os seus benefícios está o reforço das defesas, activação das glândulas endócrinas, manutenção do PH equilibrado, capacidade de neutralizar os radicais livres, prevenção da absorção de elementos poluentes radioactivos e formação de cálculos biliares ou redução do excesso de colesterol e triglicéridos. Há algas indicadas para, entre outras, o cabelo, as constipações, o estômago, a hipertensão, os olhos ou a tosse.

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quarta-feira, 20 de março de 2013

Recurso vital


Neste que é o Ano Internacional da Cooperação pela Água, e antes do seu Dia Mundial, reflectimos sobre o que nos espelha.
Texto Dina Cristo
Cai do céu e gosta de penetrar profundamente na terra, onde descansa. Depois de repousar, brota como nascente. Corre lentamente pelo leito dos rios, nutrindo as suas margens. Vitalizada, desagua no mar. Eis o grande ciclo, em equilíbrio, sem falta ou excesso de água.
Contudo, hoje, com a deflorestação, sem húmus suficiente, ela desperdiça-se apressadamente pelos vales abaixo. Enquanto deixa o solo seco inunda as margens dos rios, levando consigo detritos e causando destruição. Crescem os riscos de incêndio, aumenta a poluição e o nível do mar. As fontes secam, os caudais diminuem, as reservas escasseiam. Existe cada vez menos água potável e com menor qualidade.

O consumo, esse, aumenta. Durante o séc.XX o uso de água cresceu nove vezes, segundo Janez Potocnik, Comissário Europeu do Ambiente. Quando mais de um bilião de pessoas não possuem abastecimento de água, e Moçambique consome quatro litros diários, no território português, apesar de um Programa Nacional para o seu uso eficiente, utiliza-se cerca de 175 litros por dia, 70% dos quais em autoclismos e em duches.
Em Portugal existe uma legislação quase centenária e uma Lei da Água desde 2005, um Plano Nacional, do qual decorre o Plano de Gestão das Regiões Hidrográficas, além de um Plano Estratégico para o Abastecimento de Água e Saneamento de Águas Residuais (PEAASAR), uma Estratégia Nacional para os Efluentes Agro-Pecuários e Agro-industriais (ENEAPAI), uma Entidade Reguladora e, entre outros organismos, um Instituto da Água, agora integrado na Agência Portuguesa do Ambiente.
Contudo, falta uma gestão articulada e integrada, disse Carmona Rodrigues, em entrevista à “QuercusAmbiente”(1), referindo que um terço da água tem má ou muito má qualidade, que a factura do consumidor se mantém demasiado elevada e que do Plano de Barragens, lançado à margem do Plano Nacional de Água, não constava o do Baixo Sabor, além de não ter sido sujeito ao parecer prévio do Conselho Nacional da Água.

Reequilíbrio
Em Tamera, desde 2007 que Bernd Walter Mueller vem pesquisando e implementando uma paisagem de retenção de água e o grande ciclo. Lagos, com barragens naturais, permitem aproveitar a água da chuva que, de forma lenta e profunda, é absorvida pelos solos. Os lençóis freáticos recuperam-se, a paisagem regenera-se e, além dos três lagos existentes e cerca de uma centena de pássaros, há já uma nascente.
Eis o resultado da cooperação com o espírito da água, de natureza feminina e que gosta de repousar como de se movimentar livremente, em S: «Como qualquer ser vivo, a água precisa de ser livre para se mover de acordo com o seu Ser. A água gosta de se mover sinuosamente, de se enrolar e de descrever curvas e espirais. Desta forma, ela mantém a sua frescura e vitalidade. Através destes movimentos, purifica-se a si própria ao mesmo tempo que abranda o seu ritmo e se infiltra no corpo terrestre» (2), explica Bernd Walter Mueller.

O segredo está em compreende-la, respeitá-la e estimá-la; conhecer a sua essência, por dentro, e não apenas medi-la por fora. Trabalhar com ela, em harmonia, e não contra ela, em concorrência, exploração ou abusos, permite obter nutrição e energia suficiente, reverter o deserto em paraíso, sonhar com mil lagos para o Alentejo e visionar a região como um modelo para o mundo, com direito a acesso livre a água potável de boa qualidade.
Universalmente conhecida como origem da vida, de purificação e de regeneração (a sua capacidade de Memória, ligada à Imortalidade) será, assim - despoluída, cuidada e protegida - capaz de devolver aos seres (humanos) as bênçãos da Graça, da cura e do rejuvenescimento(3). Fonte altamente informativa, capaz de receber e distribuir pela terra inteira informações vitais, restruturando-a, e veículo de comunicação entre todos os seres, ela é hoje também foco de olhares mais (híper)sensíveis e atentos que experienciam outros modos mais energéticos de a purificar, como o pensamento ou a aurosoma.

Matriz
Matéria-prima original, Prakriti, a Mãe do Universo, ligada à Mulher, à Alma, como à Luz, à Águia e a Gabriel, excelente condutora (de Electricidade, Sabedoria, Verbo e Sentimento), é também, segundo Maria Flávia de Monsaraz, filtrada pela Lua.
Manifesta-se como fonte, lago, rio, ribeira, mar, gelo, chuva ou vapor. Pode ser doce (pura) ou salgada (amarga), destilada ou mineralizada, pluvial ou subterrânea, ácida ou alcalina, corrente ou pantanosa, benta e abençoada, termal ou residual, pode estar calma ou raivosa, viva ou adormecida, livre ou engarrafada, limpa ou poluída, em cisternas ou fontanários, aquedutes, açudes ou albufeiras (hoje transformados em praias fluviais).
Depois da herança romana, com os seus balneários termais, e, séculos mais tarde, das termas, com as suas águas caldas, minerais e curativas, um pouco por todo o país e para as mais variadas doenças, ela é hoje não só considerada um elemento vital para a saúde como também para a beleza e bem-estar, como mostram, por exemplo, os SPA, saúde pela água, e a talossoterapia.
Água presa
A água salgada é um importante recurso terapêutico mas quando, devido à secura dos solos, neles se infiltra torna-os inférteis - um perigo sempre que os aquíferos subterrâneos naturais se começam a esgotar. Neste momento, o recurso a barragens ou mesmo mini-hídricas não é, para a Quercus, a solução. As grandes (mais de cem) ou pequenas e médias (cerca de 800) infra-estruturas ocupam 90% dos troços dos rios (4) e afectam a sua conectividade, qualidade, quantidade e morfologia de água, além de, entre outros danos, a livre e efectiva passagem de peixes.
Em vez disso, a Associação Nacional de Conservação da Natureza, que aponta deficiências ao nível da aplicação, fiscalização e gestão das entidades responsáveis e documentação produzida, propõe a poupança do recurso hídrico e a micro-geração como moinhos de água, preservando em vez de destruir o património, como no caso de Alqueva onde «Pastagens, montados, olivais foram engolidos, centenários moinhos do Guadiana e um castelo ficaram cobertos pela água, estradas foram cortadas, conduzindo a lado nenhum, e uma povoação desapareceu para sempre» (5).

«O Programa Nacional de Barragens, onde a Barragem do Foz Tua se destaca como um dos casos mais deploráveis, deve ser cancelado. As nove grandes barragens aprovadas permitiriam satisfazer apenas 3% das necessidades anuais de electricidade em Portugal. Apostar em medidas de eficiência energética é dez vezes mais barato do que aumentar a capacidade instalada de produção de electricidade», escreviam há um ano, a Quercus, o GEOTA, Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente, e o CEAI, Centro de Estudos da Avifauna Ibérica (6).

Aguados

Quase a finalizar a Década Internacional de Accção da Água para a Vida, estamos perante um confronto, como na Bolívia, entre os que lutam pelo seu controlo, domínio, privatização e em que a escassez de H2O se transforma em poder e lucro, e os que defendem o seu livre acesso, como um direito fundamental, a um bem indispensável à prossecução da vida e nela vêem a sacralidade, abundância, fertilidade e pacifismo. Em Portugal, Carmona Rodrigues, em entrevista a Carla Graça, afirmou que a privatização das "Águas de Portugal" deveria ser (re)equacionada pois o mais importante é a capacidade reguladora do Estado. O tema é objecto de atenção mediática internacional.
Os humanos, que são seres de água, constituídos essencialmente por ela, em especial o seu cérebro, dela dependem para sobreviver. Este elemento que não se fabrica, está na base do ecossistema, que provê a própria economia, hoje tão desejada. Constituída por elementais, como as ondinas, associada à terra, também ela elemento receptivo, omnipresença constante, em cada ser e objecto, interna e externamente, para tudo é necessária.
Contudo, aos olhos técnicos a água não passa de uma fórmula a controlar, manipular e explorar. O afastamento da Natureza levou a medi-la, a planifica-la estratégica e friamente. E desconhecendo-a, a Humanidade desrespeitou-a. Invadiu o seu próprio espaço, poluindo-a, abusando e desperdiçando-a. A água cai graciosamente e os humanos, além de não a aproveitarem, muitas vezes maldizem-na, quando chove na cidade, mesmo após anos de seca severa.
Cantada, em Portugal e no mundo, ela é hoje peça de Museu, uma prenda acessível, motivo de pesquisa, de invocação e também de atenção em fóruns de discussão real e internacional. Faz parte da pegada ecológica de cada ser humano que a requer pura para primeiro lavar e depois levar as suas máculas. Depois de tão ignorada, mal tratada e poluída, é da sua própria reabilitação que está dependente o futuro e regeneração da própria Humanidade.
(1) GRAÇA, Carla - Recursos hídricos em Portugal in QuercusAmbiente, Janeiro/Fevereiro, 2013, pág.4-5. (2) MUELLER, Bernd Walter - o segredo da água - a base para um novo mundo. Institute for Global Peace Work, pág.6. (3) CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain - Dicionário dos símbolos, Teorema, 1994, pág.41-46. (4) «Não nos sobram muitos rios num território já cortado em fatias por dezenas de auto-estradas», afirmavam Mara Sé, Bruno Caracol e Marcos Pais, na QuercusAmbiente, Maio/Junho 2012, nº52, pág.26. (5) JORGE, José Luís – Alqueva – paisagem de água. Tempo Livre, Setembro 2012, pág.28. (6) Quercus, GEOTA, CEAI – Plano Nacional de Barragens in QuercusAmbiente, Janeiro/Fevereiro 2012, pág.20.

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quarta-feira, 16 de março de 2011

Défice florestal

No Ano Internacional das Florestas e antes do Dia da Árvore, transcrevemos parte de um capítulo do livro “Aqui e Agora”*, esgotado, de Carlos Cardoso Aveline, autor e editor de livros e, hoje, websites sobre temas filosóficos e tesóficos**. Denominado "O dióxido de carbono" o texto explica como o nível de desmatamento leva à destruição do equilíbrio ambiental. Estávamos, então, em 1985.

Texto Carlos Cardoso Aveline fotografia Dina Cristo


«(...) Paralelamente ao problema da fome, Jimmy Carter fez uma séria tentativa de enfrentar a crise ecológica. Logo em 1977 pediu ao Congresso um “Informe Global sobre o Ano 2000”.
“Problemas ambientais”, afirmou ele na década, “não obedecem a fronteiras nacionais. Na década passada, nós e as outras nações tivemos que reconhecer a urgência de esforços internacionais para proteger o meio ambiente comum a todos nós”.
Quando o Informe ficou pronto, entre as suas conclusões, podiam ler-se duas especialmente graves:
- As grandes florestas estão desaparecendo no mundo todo à proporção de 18 a 20 milhões de hectares por ano, com a maior parte da perda ocorrendo na América Latina, África e Ásia. São 830 hectares por minuto e 50 mil hectares por dia de matas derrubadas.
- As concentrações atmosféricas de dióxido de carbono e substâncias químicas que eliminam o ozónio chegarão a um volume que pode alterar significativamente o clima do mundo e a temperatura atmosférica até ao ano 2050. A chuva ácida ameaça os lagos, os solos e as lavouras.
O Informe 2000 dizia, ainda, que “como o clima tem um profundo efeito sobre nossas vidas e nossa economia, não podemos ignorar estes problemas que fazem incerto o nosso futuro”. Mas foi exactamente isso que aconteceu. Jimmy Carter foi considerado um “fraco”, dentro da política norte-americana. A direita reaganiana conquistou a gerência da máquina do grande império. No resto do mundo, nenhuma outra potência quis ou pôde dar real importância ao assunto. O meio ambiente é de todos. O que é de todos não é de ninguém”.
Como consequência, a devastação – que é um bom negócio a curto prazo – prosseguiu como se não houvesse perigo. Um dos fenómenos que se alastraram foi o incêndio das florestas. As causas não são simples. Uma delas é que o solo do planeta está esgotado e fraco por falta de elementos minerais. A desmineralização, mais o excesso de dióxido de carbono (CO2) acaba enfraquecendo as árvores. Elas vão secando e ficam vulneráveis ao fogo. Uma faísca incendeia uma floresta, e o fogo se alastra, lançando mais dióxido de carbono no ar, o que aumentará o ritmo dos incêndios.(1)
A Austrália sofreu em 1980 o pior incêndio desde a Segunda Guerra, com a destruição de 40 mil hectares de florestas. Na Espanha, um incêndio de Barcelona a Alicante. Na mesma época doze mil acres ardendo no Arizona, e dez mil destruídos no Colorado, USA. John Hamaker cita dezenas de exemplos documentados no seu livro “A Sobrevivência da Civilização” (pág.90-91). Na Grécia, 90 mil soldados são mobilizados para o combate a um incêndio em centenas de milhares de acres de florestas. A notícia está no “San Francisco Examiner”, de 6/7/1981.
As advertências do Informe 2000, aparentemente, estavam esquecidas. Ninguém pensou no significado desta onda de incêndios. Quem gostaria de parar as fábricas e deixar de lado a sociedade industrial consumista para construir um modo de vida mais simples e mais durável? Mais fácil continuar como está para ver como fica. Eram todos individualmente demasiado vivos para que pudessem ser colectivamente inteligentes.
Em Novembro de 1982 a revista Time dedicou uma reportagem de capa ao problema da chuva ácida, “a praga silenciosa”. A devastação “é silenciosa, invisível, penetrante”, dizia o semanário norte-americano, no primeiro parágrafo da reportagem. Mas devia ter dito, em vez de silenciosa, silenciada. Silenciada pelos mesmos grandes grupos industriais que lançavam elementos tóxicos na atmosfera, causando a chuva ácida. Há mais de 200 lagos perto de Nova Iorque já sem qualquer forma de vida em si, dizia a Time. A opinião pública se mobilizava. Numa visita ao Canadá, Reagan foi recebido com vaias e protestos, devido à chuva ácida oriunda dos Estados Unidos que causava danos aos canadenses. Mas os protestos não foram levados em conta.
Em Fevereiro de 1984, um expert da ONU informou: “Os desertos estão avançando, a cobertura verde do planeta está desaparecendo, e no ano 2000 a terça parte das terras até aqui agricultáveis estarão reduzidas a pó e a deserto”.(2) Meses depois, um filme da BBC de Londres choca a Europa. Milhões de pessoas esperam a morte por fome no norte da África. Seus países viraram desertos. Ninguém é responsável pelo fato. A ajuda internacional é insignificante.

Um banho de ácido sulfúrico.

A expressão “chuva ácida” foi criada em 1872 pelo químico inglês Robert Angus Smith para descrever as precipitações cada vez mais ácidas em Manchester, um dos centros da revolução industrial da época.
O processo químico é simples. Quando combustíveis fósseis como carvão e petróleo são queimados, libertam grandes quantidades de dióxido de enxofre (SO2) e óxidos de nitrogénio. Uma vez na atmosfera, estes gases reactivos se combinam com a água e o oxigénio para formar os ácidos sulfúrico e nítrico, que caem sobre a terra, rios e lagos, como chuva ácida. É certo que estes ácidos podem também cair na sua forma gasosa original, - ou ainda como partículas muito finas. Os cientistas chamam o fenómeno em suas várias formas de “deposição ácida”. Mas a palavra chuva é mais expressiva e ficou conhecida popularmente.(3)
Em 1980, as emissões de dióxido de enxofre chegaram a 24,1 milhões de toneladas, só nos Estados Unidos. Dois terços vinham de centrais eléctricas e 22% de indústrias. As fusões de metais também emitem muito SO2.
Depois que a chuva ácida se mistura ao húmus no solo dos bosques, a morte das árvores é uma questão de tempo. A árvore retira sua nutrição básica de elementos como cálcio, magnésio e potássio, presentes entre os minerais do solo. A deposição ácida acrescenta ao solo íons de hidrogénio (ávidos de combinações) que retiram estes nutrientes.
O cálcio, por exemplo, é essencial para a vitalidade das árvores. Tem a ver com a formação das células e o transporte dos açucares, da água e de outros nutrientes – desde a raiz até as folhas.
Magnésio é um elemento vital na fotossíntese e um portador de fósforo para a produção do DNA, principal componente do material genético. Não é só decisivo na constituição das sementes, mas também na reprodução das células que ocorre continuamente em todo organismo vivo.
Esta retirada de elementos vitais ocorre ao mesmo tempo em que se acentua no solo e na atmosfera a presença de metais pesados como chumbo, zinco, cobre, cádmio, cromo, manganês e vanádio, todos, quando em excesso, adversários da vida.
O efeito da chuva ácida não é apenas devastar florestas e despovoar lagos. Ela afecta a saúde humana, através do ar e dos alimentos. Amostras dos cientistas norte-americanos indicam que a água, particularmente, está demasiado ácida.
“As florestas estão morrendo na Suíça”, dizia a Agência Associated Press num telegrama de Genebra em Abril de 1984. Dados oficiais mostravam que uma de cada cinco árvores da área florestal suíça estava doente devido à poluição. “As florestas estão morrendo devido ao ácido nítrico lançado pelos carros, tóxicos lançados pelas fábricas, e à conhecida chuva ácida”, diziam os jornais.
“As árvores mortas, morrendo, ou muito doentes se multiplicam na Europa e nos Estados Unidos devido à chuva ácida” diz o Instituto World watch. No leste norte-americano, a morte das florestas é uma das questões que mais preocupam a opinião pública. O governo da Alemanha Ocidental revelou que um terço das florestas do país está em sério perigo. Entre as mais atacadas está a área da famosa Floresta Negra. Na Tcheco-Eslováquia, 485 mil hectares de floresta estão doentes. Na Polônia, estima-se que até 1990 tenham desaparecido 2,83 milhões de hectares de florestas atualmente enfermas”.(4)
Na Europa, 56% a emanação de CO2, dióxido de carbono, vêm de centrais elétricas e térmicas movidas a carvão. Vinte e seis por cento são lançados por indústrias de produção, 13% por estufas e calefações privadas, 3% por ônibus e automóveis. O jornalista Joelmir Beting escreve sobre o problema:
“Na Tchecoslováquia, um programa de reflorestamento deu com as mudas no nada: as árvores negaram viço. Ou se vingaram, porque, como se descobre agora, a natureza não se defende, apenas se vinga…”
“Que tal uma chuvinha fina de ácido sulfúrico? Não é o caso de Los Angeles, mas é o caso de São Paulo: alto teor de enxofre no óleo diesel verde-amarelo provoca alterações químicas na massa poluente dos ônibus e caminhões, do que resulta, ao cair da primeira garoa, um banho de ácido sulfúrico na vida da gente?” (5)
Em 23 de Junho de 1985, a repórter Ivone Cassol pergunta na Zero Hora, de Porto Alegre: “Será chuva ácida?” Acontece que, em Canoas, as folhas das árvores estão pretas, e as abelhas não produzem mel. Há muito tempo os pássaros desapareceram dos céus da cidade. Ao invés deles, o que paira no ar são minúsculas e invisíveis partículas que lentamente se depositam principalmente sobre as árvores. “Canoas quer saber exatamente o que está respirando”, diz o jornal.

O Desmatamento.

Numa reunião do Banco Mundial nos Estados Unidos, em Setembro de 1984, o fundador da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, Agapan, José Lutzenberger, denunciou que são destruídos na Amazônia 100 mil quilómetros quadrados de mata virgem por ano – uma área igual à metade do Rio Grande do Sul. Até 1988, Lutzenberger prevê que as florestas de Rondônia terão desaparecido. “É uma destruição irreversível”, diz ele. Enquanto isso, os incêndios são frequentes. Um deles destruiu 10 quilômetros quadrados de reserva florestal no Parque Nacional de Itatiaia, estado de São Paulo.
Igualmente importante é a devastação da Mata Atlântica. Da exuberante mata que cobria a faixa litorânea, ocupando 2 milhões de quilómetros quadrados quando aqui chegou Pero Vaz de Caminha, restam apenas cerca de três por cento. O que avança hoje não são as matas, mas o território das secas e enchentes sucessivas. E a devastação por parte do homem continua numa proporção de 300 mil hectares por ano. O diretor do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro, Adelmar Coimbra, acrescenta a estes dados que a ilusão de usar a terra desmatada para a agricultura ou pecuária não dura mais que três anos. Quando se devasta a mata, nem a cinza das queimadas fica no solo desprotegido. A chuva a leva para os rios e a natureza fica sem o húmus que levou milhões de anos para produzir.
Isto constitui um suicídio ecológico. “Primeiro morrem as árvores, depois morremos nós”, advertiam os ecologistas anos atrás. As florestas tropicais da América do Sul estão desaparecendo ao ritmo de 40 mil quilómetros quadrados por ano, diz o relatório do Congresso para a Conservação da Natureza, em Madri. O dado é mais otimista que a cifra de Lutzenberger (100 mil quilómetros quadrados só na Amazônia), e mostra as dificuldades para fazer um cálculo exato. “As florestas tropicais ocupam 35% do território sul-americano e têm função determinante no clima mundial”, informa o congresso madrilenho. (6)
Há vários anos Lutzenberger vem atribuindo a sequência de enchentes que atinge o Sul e outras regiões do país à devastação das florestas. Lutzenberger não está só.
[Nota de 2011: Mais adiante, José Lutzenberger passou a trabalhar para os poluidores do meio ambiente, chegando ao ponto de entrar em choque frontal com os defensores da natureza]
“As repetidas enchentes no Sul têm como uma das suas causas principais o desmatamento, e o Governo Federal é responsável por isso, pois não estimula a preservação das matas, nem o reflorestamento”, disseram os líderes da Igreja Evangélica Luterana (IECLB), da Igreja Episcopal e da Igreja Metodista, em Porto Alegre, em Agosto de 1984. A notícia está na Zero Hora do dia 18. Os religiosos citaram dados concretos: há 150 anos atrás, havia 37% de matas nativas no território gaúcho. Hoje as matas são 1,8%. O número vale como alerta para o que está acontecendo no resto do país.
Apesar de já desmatado, o Rio Grande ainda continua perdendo 45 mil hectares de matas por ano, enquanto são replantados apenas 12.700 hectares. Em 1984 esperava-se que mediante um esforço especial fossem replantados cerca de 40 mil hectares, reduzindo o deficit anual para cinco mil hectares. No entanto, o Rio Grande do Sul, apesar de tudo, é um dos estados onde a consciência ecológica é mais forte. No resto do país o desmatamento está ocorrendo em maior velocidade.

Reverter a Contaminação

Paralelamente ao agravamento dos problemas ecológicos, surgem as primeiras respostas. Nem todo o mundo está paralisado diante do problema.
Os suecos conseguiram diminuir consideravelmente a poluição no ar e na água. Descobriram que a contaminação causava prejuízo de 5,5% do PIB. Com um terço destes recursos, reduziram em muito o envenenamento, com filtros e outras precauções. Já na Suíça, novas leis limitam o uso de carros e outras atividades poluidoras. Os suíços redescobriram recentemente os passeios a pé pelas montanhas. Organizam caminhadas individuais ou em grupos, longe dos ruídos das cidades. As rotas organizadas do excursionismo têm cerca de 50 mil quilómetros. (7) O novo hábito traduz uma volta à simplicidade que se encontra em todas as partes, sob mil diferentes formas.
Na Alemanha, o governo adota um programa radical de redução de gases sulfurosos da indústria, que serão reduzidos a 10% do volume anterior. Há um projeto parecido em relação às térmicas de carvão.
Na Austrália, anos atrás, jovens ecologistas passaram a fazer grandes mutirões de reflorestamento aos domingos. Quem conta é a ecologista Betsan Coats, de passagem pelo Brasil em 1984 para dar palestras sobre a desregulação climática como resultado do excesso de CO2.
Nos Estados Unidos há um movimento com o objectivo de criar “florestas urbanas”, e um milhão de árvores foram plantadas a partir de 1980 na cidade de Los Angeles. Este dado foi fornecido por dona Wanda Seibt, da Associação Democrática Feminina Gaúcha, ADFG, uma das principais entidades ecológicas do país.
O Departamento de Recursos Renováveis, da Secretaria da Agricultura do Estado gaúcho, criou em 1984 uma Bolsa de Sementes florestais que tem despertado enorme interesse por parte da população. Em poucos meses, centenas de pessoas haviam trocado ou ganhado mudas e sementes de árvores nativas e exóticas para plantar em grandes ou pequenas áreas e mesmo em seus quintais.
Entre as espécies preferidas estão araçá, butiá, gerivá, figueira e capororoca. O engenheiro agrónomo José Carlos Dias explicou que em 1985 a Secretaria da Agricultura mantinha convénio com mais de 80 municípios gaúchos, dando assistência técnica e treinando pessoal, para programas de reflorestamento surgidos nos últimos anos. Cerca de 500 milhões de mudas foram produzidas deste modo.
A EMATER, empresa de extensão rural, a Fundação Zoobotânica e a Prefeitura de Porto Alegre lançaram uma campanha para reflorestar a cidade (Zero Hora, 12 de Junho de 1985), com venda de mudas nativas a preço de custo e total assistência técnica aos plantadores.
O reflorestamento está sendo feito por escolas, pais e mães de família, crianças, prefeituras municipais, delegacias de educação do interior do Estado e amantes da natureza em geral. Sua importância não é apenas numérica. Está também no novo padrão cultural de relacionamento com a natureza que ele tende a estabelecer e que em breve se estenderá a toda a sociedade, impedindo a devastação.
O ritmo com que o governo federal toma medidas preservacionistas tem sido muitas vezes inferior ao que seria necessário para efetivamente garantir algum equilíbrio ambiental. Será preciso uma transformação radical na atitude frente ao problema durante o governo da Nova República. Esta transformação não pode ocorrer por decreto. Terá que dar-se simultaneamente em todos os níveis, e será consequência de uma nova maneira de ver (e de viver) a natureza».

* AVELINE, Carlos - Aqui e Agora - Para Viver até ao Século XXI. Editora Sinodal. Brasil. 1985. O capítulo, cinco, começa na página 51 e a transcrição na página 53. Ambos terminam na pág. 61.
** Atualmente Carlos Cardoso Aveline é o editor geral dos websites http://www.filosofiaesoterica.com/, http://www.teosofiaoriginal.com/, http://www.esoteric-philosophy.com/ e http://www.theosophyonline.com/.
(1) John Hamaker, "The Survival of Civillization", Hamaker-Weaver Publishers, Michingan, USA, 1982. "Solar Age or Ice Age?" bulletin, December 1983, 88 p.; "Solar Age or Ice Age?" bulletin, August 1984, 120 p., Revista "Time", 8/11/1982. (2) "Indian Express", India, 20/2/1984. (3) Science Digest, revista de Nova Iorque, USA, September 1984, vol.92, nº9, p.39 to 49. (4) Dados do Instituto Worldwatch, citados no jornal Zero Hora, de Porto alegre, dia 2/4/1984. Ver também Zero Hora, 6/5/1984. (5) Zero Hora, 5/5/1984. (6) Incêndio no Itatiaia: Zero Hora, 14/8/1984, Lutzenberger; Zero Hora 25/9/1984 e Zero Hora 3/6/1984. Mata atlântica; revista "Interior", do Ministério do Interior, Brasília, maio/junho/1984, p.31 a 47. florestas sul-americanas; Zero Hora, 8/11/1984. (7) "Jornal do País", Rio, 7 a 13/fevereiro/1985.

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quarta-feira, 24 de junho de 2009

Elementais


Publicamos neste dia (das fogueiras) de S. João um texto sobre a importância dos Espíritos da Natureza; para além do fogo, a água, a terra e o ar.


Texto João Gomes fotografia Dina Cristo

«O nosso mundo já toca o das fadas em alguns pontos. Muitas pessoas sentem em maior ou menor grau o espírito de um bosque ou a grandiosidade de uma montanha, mas atribuem isso, na maioria das vezes, a estranhas visões, sons e sensações. No entanto, essa sensação procede com frequência do mundo mágico que o habita. Poetas como A.E., James Stevens, Yeats, Tennyson e Shakespeare(1), enriqueceram o nosso conhecimento e sentimento sobre o mundo das fadas. Há uma enorme quantidade de pessoas, mais do que se supõe, que estão em intima comunhão com fadas e anjos. A brecha entre os dois grupos de seres, as fadas e os homens, não é tão grande quanto o imagina a nossa ignorância. Se ao menos pudéssemos entender que vivemos num mundo coalhado de fadas, de anjos e de toda a espécie de seres, isso fazia uma enorme diferença na nossa atitude e em nosso modo de viver. A simples crença de que tal mundo existe deveria deliciar-nos; seu conhecimento e certeza seriam, sem dúvida, uma consequência disso. Nós mesmos nos tornaríamos muito mais alegres, pois é impossível entrar em contacto com esse mundo que palpita de alegria sem deixar de adoptar o mesmo espírito, que desperta nossa energia criativa.»(2) Dora van Gelder
Talvez por ignorância, talvez por preconceito, talvez por falta de informação, talvez porque vivemos numa sociedade materialista ou, talvez ainda, pela súmula de todas estas razões – os espíritos da natureza são esquecidos.
A tradição, o povo, nunca os esqueceu e a sua memória e o seu culto ficaram gravados nos contos populares e de fadas. Todos nós estamos lembrados do papel das fadas no drama da Bela Adormecida ou, dos anões, na história da Branca de Neve. Quantas histórias de fadas e duendes nos encantaram na nossa infância. Agora, adultos, vemo-los como contos fictícios, como produtos da riqueza da imaginação popular, contudo, por trás deles, existe uma realidade que os fundamenta e sustenta – os Espíritos da Natureza.
Estes seres não são criaturas materiais, densas, físicas, estão mais próximos dos anjos do que de nós, humanos. A substância dos seus corpos é denominada na Teosofia Moderna como etérica: uma matéria mais subtil do que os gases mais finos. Daí a dificuldade em observá-los; não obstante, muitos são os testemunhos daqueles que, numa determinada altura, divisaram estes seres.
Os Alquimistas da Idade Média classificaram os Espíritos da Natureza (ou Elementais Naturais) em quatro grandes grupos conforme o elemento em que se expressavam: Os espíritos das águas ou ondinas; os espíritos da terra ou gnomos; os espíritos do fogo ou salamandras; e os espíritos do ar ou silfos.
Os elementais têm, como já dissemos, uma função importantíssima na Natureza. O seu trabalho está associado à propagação e crescimento dos seres vivos. Eles, dirigidos superiormente pelas Hierarquias Criadoras (Anjos, Arcanjos …), encontram-se por trás dos processos vitais e da evolução da vida natural; eles e as Hierarquias Criadoras corporificam a Inteligência que está por trás da vida. Nada acontece por acaso, a natureza é inteligente e caminha para um Propósito Supremo.
É a nossa cultura materialista, que de uma forma supersticiosa e ignorante, retira dos processos naturais a sua componente espiritual e a sua dimensão divina – à revelia dos Ensinamentos dos Grandes Mestres e Instrutores Espirituais, de todas as épocas e latitudes.
Contudo, nestes tempos dramáticos de crise e suicídio ambiental, torna-se vital voltar a entrar em contacto e a colaborar com as Hierarquias Criadoras de modo que, em conjunto com elas, possamos ultrapassar esta fase crítica da história da vida no nosso Planeta – a nossa casa comum.
Paz… a todas as criaturas.

[1] E também o nosso poeta maior, Camões. Nos Lusíadas por exemplo, várias vezes invoca e refere os espíritos da natureza. As ninfas, as tágides, e as nereidas aparecem em inúmeros episódios no texto. Todos estamos recordados do papel das ninfas na Ilha dos Amores ou, das nereidas, na salvação da armada do Gama da cilada do duro e esperto mouro. [2] «O Mundo Real das Fadas». 21. Editora Pensamento. São Paulo

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quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Vi(d)a livre

Oito anos após o primeiro Dia Europeu Sem Carros (DESC) aí estão iniciativas alternativas mais saudáveis à vida urbana sustentável. Alguns dias, até Segunda-Feira, para abrandar, descontrair, despoluir e socializar nesta Semana Europeia da Mobilidade (SEM).

Texto e fotografia Dina Cristo

Quando foi criada, a máquina de quatro rodas parecia trazer consigo uma promessa de vida mais desocupada e mais tempo livre para o lazer. Cem anos após a saída do primeiro modelo T, de Henry Ford, a democratização do automóvel transformou-o de um veículo de mobilidade em, muitas vezes, ao contrário do sonhado, em quase imobilidade que nos faz perder tempo, dinheiro e saúde.
Tornou-se factor mais de limitação e desumanização do que de movimento e liberdade. Com um benefício mínimo numa viagem curta, «Muitas das jornadas que fazemos de carro poderiam ser feitas facilmente – e muitas vezes, ainda mais facilmente – a pé”, como escreve Carl Honoré
[1], usado, muitas vezes, mais por hábito do que por necessidade, o carro representa hoje, para o Ser Humano, mais uma dependência do que autonomia.
As cidades em Portugal têm sido, e continuam, desenhadas para os automóveis e não para os cidadãos, como lembrou Rogério Lopes Soares, da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados (ACAM), no programa Sociedade Civil sobre eventuais portagens urbanas. É preciso, acrescentou Manuel Ferreira dos Santos, da LPN e Geota, reabilitar os centros urbanos e deixar de centrifugar os habitantes, nos seus movimentos triangulares entre o descanso – trabalho – lazer. Para tal, sugeriu, há que, por exemplo, “taxar” os estacionamentos (privados e comerciais) e criar mais espaços reservados para os transportes públicos, que devem ser devidamente articulados.
O trânsito, insustentável, está a atingir a saturação psicológica, fisiológica, ecológica e económica. Esta consciência tem originado movimentos que questionam cada vez mais o (ab)uso dos automóveis, desde campanhas populares anti-velocidade, como a iniciada por Sherry Williams, “Compromisso de Abrandar”, Programas de Andamento nos Bairros, de Aceleradores Anónimos e de Consciencialização da Velocidade.
Para além da defesa do uso do transporte público, rodoviário, ferroviário, fluvial e (inter)urbano, um pouco por todo o lado se encetam “novos” modos de movimentação dos peões. O aumento dos combustíveis ajuda a encontrar alternativas criativas que podem ir desde a boleia à partilha de veículos, das motorizadas aos patins, passando por andar a pé ou… pedalar. Naturalmente, ou com a ajuda das duas rodas, cada vez mais cidadãos encontram assim a forma de se deslocar de/para ou nas zonas metropolitanas.
Desde o primeiro ano do Dia Europeu Sem Carros, em 2000, que os ciclistas têm aumentado. As bicicletas, antes pontuais, começam a tornar-se um hábito. Em Portugal, às 18h da última Sexta-Feira de cada mês pedala-se em Aveiro (com encontro na Praça Melo Freitas), Coimbra (no Largo da Portagem), Lisboa (no Marquês de Pombal), em Portimão (no Tribunal) ou no Porto (na Praça dos Leões). A próxima está marcada para dia 26.
A massa crítica aumenta. Após a implementação das Bugas em Aveiro, e do projecto "Freebikes", em Vila Real, é agora a vez da Bute, Bicicleta de Utilização Estudantil, a circular, graciosamente, em vários pólos académicos. Depois de 70 voltas a Portugal, e ainda com a memória de Joaquim Agostinho, os mais jovens parecem dar o exemplo de como encontrar uma solução económica, saudável e relaxante. No Brasil, a bicicletada tem vindo a aumentar de ano para ano.

Cidades Lentas

A procura da libertação do automóvel, a ânsia de escapar à via rápida (cada vez mais congestionada e a passo de caracol), a redescoberta do culto pelo ar livre, a tranquilidade, o contacto mais directo com outros seres vivos e humanos deu lugar, um pouco por todo o mundo, ao(re)nascimento de cidades lentas, autênticos refúgios para o mundo moderno. Os seus princípios assentam no prazer antes do lucro, nos seres humanos acima do chefe, na lentidão em vez da velocidade.
As cidades lentas, com menos de 50 mil habitantes, prescindiram dos automóveis e devolveram a vida aos seus habitantes. Apostam nos espaços verdes (mais parques públicos, esplanadas, árvores, arbustos e flores), em zonas pedestres ou domésticas, como na Grã-Bretanha, com baixos limites de velocidade, redução de parques de estacionamento e aumento de áreas de recreio e arvoredo, num convite ao passeio e ao convívio social.
Nas cidades desocupadas privilegia-se o comércio tradicional e produtos regionais. A italiana Bra, por exemplo, proibiu cadeias de supermercados e anúncios luminosos; a câmara subsidia a reabilitação de edifícios que usam a cobertura de telha típicos da região; as cantinas (escolares e hospitalares) servem pratos tradicionais. Além de estimular a ligação às pessoas, em vez da corrida em áreas alienantes, ajuda a evitar o desemprego, a dar vida à economia e atrai turistas.
No caso de Kenlands, onde se caminha até à rua principal em cinco minutos, as crianças vão a pé para a escola, as ruas enchem-se de pessoas e a taxa de crime é baixa. Com uma vida mais calma e comunidade mais forte e solidária, entrou num ciclo virtuoso de tranquilidade: «O bairro está solidamente unido à moda antiga. Os pais olham pelos filhos uns dos outros nas ruas. A criminalidade é tão baixa – quando toda a gente conhece toda a gente, os intrusos são facilmente reconhecidos – que alguns residentes nem fecham as portas à chave. As informações também circulam facilmente»
[2].
Diminui o "apetite" pelo tráfego, o ruído, os subúrbios e aumenta a "caça" aos estacionamentos, o desejo de viver em centros urbanos rejuvenescidos, com bairros favoráveis a peões, onde se fazem as compras e se confraterniza a pé. Mais tempo para as pessoas, menos espaço para os veículos: “Com esse fim, muitas cidades, por todo o lado, estão a transformar ruas em zonas pedestres, a abrir vias para bicicletas, a proibir o estacionamento, a aplicar portagens e a proibir mesmo o trânsito»
[3]. O Novo Urbanismo já arquitecta bairros com edifícios próximos, ruas estreitas - com passeios largos e arborizados - onde se pode andar a pé, generosos espaços públicos e garagens escondidas. Como disse Rogério Soares, é já tempo de devolver ao peão o uso do espaço comum, deixando de se limitar aos passeios e passar a ter toda a prioridade, mesmo nas estradas.

[1] HONORÉ, Carl - “O movimento slow”, Estrela Polar, 2006. [2] Idem, pág. 107 [3] Idem, pág. 101

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quarta-feira, 9 de abril de 2008

Com a Terra


Ao aproximar-se o Dia da Terra, e no Ano Internacional do Planeta, publicamos um artigo de um ecologista, membro do Movimento Partido da Terra (MPT), e deputado na Assembleia da República, que nos fala da nossa casa comum: o globo terrestre.

Texto Luís Carloto Marques

Interrogo-me se damos a este habitat colectivo comum, que orbita no sistema solar e nos proporciona gratuitamente todos os anos uma viagem em torno do sol, a atenção que lhe é merecida.

Não conseguimos viver escassos minutos sem ar, mas teimamos, mais do que lhe é devido, a inundar a atmosfera de gases com efeitos nocivos sobre o ambiente comum. Sabemos que é assim, mas quase todos fingem que não o será bem.
Sem água serão poucas as horas que sobreviveremos. As fontes deveriam inundar de águas cristalinas os rios, quais artérias que necessitariam de dar ao oceano um sopro de nutrientes. Mas fontes não deixam precipitar águas puras e os rios transformaram-se em veias que despejam nos oceanos o que não desejamos junto de nós.
Milhares de nossos concidadãos no planeta vivem em condições miseráveis. Alguns num longínquo país, mas outros não muito longe de nós. O que a uns sobeja a outros falta.
O que me impressiona não é o diagnóstico da realidade, que me parece quase consensual, mas as propostas e políticas que levam à sua resolução.
O Verde invadiu no nosso léxico, nos discursos, na publicidade, nos média, mas será que entrou no nosso quotidiano? Tenho, acreditem, as maiores dúvidas.
Ontem, em nome da prosperidade económica, dos lucros, vendia-se uma ideia. Hoje, em nome dessa mesma ideia, com ligeiras modificações, é o Verde que a faz vender. Seriam imensos os exemplos que elegia para ilustrar estas palavras. Concentremo-nos num: o plano nacional de barragens e a barragem do Foz - Tua.
Será necessário produzir mais ou consumir menos energia? Talvez sejam as duas opções. No entanto, quando se afogam linhas de caminho-de-ferro, olivais e vinhedos, pessoas que deixam de ser agricultores, aldeias sem ligação férrea, património e paisagem invulgares, tudo isto em nome de uma ideia Verde - a de produzir energia a partir de uma albufeira - convínhamos que existe nesta opção um Verde sem esplendor.
Pergunto-me quem é que por omissão o permite? Sobrevive-se numa selva, onde o indivídual, a sobrevivência política é que conta, ainda que durante o sono os fantasmas assaltem algumas consciências.
Penso que chegou a sua hora de ser protagonista da nossa Terra. É este o desafio da política: o de saber gerir melhor os nossos destinos. Coerentemente.

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quarta-feira, 26 de março de 2008

Nova Era Glacial?


Vale glaciar na Serra da Estrela

Numa semana em que Al Gore, o político que colocou as mudanças climáticas na agenda mediática, completa 60 anos, apresentamos a ponta de uma nova meada ecológica: o arrefecimento da terra.

Texto e fotografia Dina Cristo

Carlos Cardoso Aveline (CCA) comparou as ideias de Al Gore às de William Judge, defendidas no final do século XIX, e viu como se identificavam: ambos apresentam uma perspectiva de mudanças tão profundas ao nível do planeta (a passar pela alteração das correntes marítimas) que podem indiciar uma nova era glacial.
Uma Idade do Gelo dura cerca de 100 mil anos, 10% dos quais corresponde a um período inter-glacial, relativo a uma época quente, como aquele que vivemos (potenciado pela poluição pós-Revolução Industrial) mas a aproximar-se de uma Nova Era Glacial, de que a extinção das espécies seria um dos primeiros sinais de alerta. Outros avisos seriam constituídos pelos terramotos, incêndios ou o degelo dos pólos.
As teses mais oficiais quanto às mudanças de clima são, contudo, contestadas a nível (inter)nacional. O chamado aquecimento global, afinal é, parcial (numas regiões a temperatura aumenta, noutras diminui) e, diversas vezes mesmo, um arrefecimento, contradizendo as previsões do IPCC. São exemplos da refutação, Luís Carlos Campos Nieto, jornalista que editou o livro “Calor Glacial”, e Rui G. Moura, climatologista, autor do blogue “Mitos climáticos”.
São muitas e variadas as interpretações sobre a natureza, o significado, a importância e os efeitos sobre o que está a acontecer ao nosso condomínio comum. O que é consensual é o aumento da subida de CO2. A discussão é se se trata de um efeito provocado pela acção humana ou de um reequilíbrio do Sistema Gaia e a sua (eventual) relação com o alegado aquecimento geral do planeta.

Religião-Ciência-Teosofia

Não deixam de ser curiosas as ligações temporais entre o Dilúvio (visão religiosa), a última Glaciação (visão científica) e o afundamento da Atlântida (visão teosófica), há mais de 10 mil anos. Por outro lado, cada uma destas áreas do conhecimento humano detém modelos, os quais remetem para uma continuação no tempo e no espaço: uma visão cíclica.
Para CCA, a degradação bio-química da terra não está isolada de uma decadência ética e moral. Defensor da ecologia profunda, acredita que as alterações chegaram a um ponto de não retorno e, embora devamos estar atentos, o melhor será não resistir à contracção das actuais estruturas económico-sociais e aproveitar, antes, para semear as bases de uma nova civilização saudável. Em vez de se passar da negação da realidade ao desespero, como salienta Al Gore em “Uma verdade inconveniente”, o mais útil será ter uma posição moderada, que pode passar por acções tão simples como plantar uma árvore (retendo CO2) ou ser vegetariano (evitando os desmatamentos) - atitudes ao alcance de qualquer mortal.

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quarta-feira, 12 de março de 2008

Barrar a água?


Barragem de Vilarinho da Furna

Depois da comemoração, há oito dias, da luta dos atingidos pelas barragens, esta Sexta-Feira é dia internacional contra estas construções. Bruxelas suspendeu o Sabor e dá ordens para economizar energia, mas Portugal, com um consumo irracional, avança para a construção de nada menos do que… dez barragens.

Texto e fotografia Dina Cristo

O Programa Nacional de Barragens com Elevado Potencial Hidroeléctrico (PNBEPH) tem previsto a construção de uma dezena de novas barragens em Portugal, sobretudo na bacia hidrográfica do Douro. São elas Almourol, Alvito, Daivões, Foz do Tua, Fridão, Girabolhos, Gouvães, Padroselos, Pinhosão e Vidago, cujo custo económico total estimado de execução é 2,278 milhões de euros, além dos anuais de exploração que são, ao todo, mais cerca de 12 milhões de euros.
Pronunciaram-se contra este programa entidades como a Quercus, o GEOTA, a LPN ou os “Verdes”. Referem, entre outros, o facto de a verdade técnica e científica contrariar argumentos (emocionais) apresentados pelo Governo. Alguns deles são a independência energética de Portugal, a criação de mais empregos, o desenvolvimento económico das regiões. Os especialistas lembram que, por exemplo, em termos de União Europeia a estratégia é de poupança e eficiência energética, estando em curso um plano para a redução, até 2020, de 20% do consumo.
Os danos da construção de barragens têm sido contestados, no Brasil, em Espanha e agora também em Portugal. Se olharmos para o passado podemos recordar as consequências para a comunidade humana e natural da edificação da barragem em Vilarinho da Furna, há 40 anos, e de Alqueva, com os efeitos sobre a Aldeia da Luz: foram centenas de portugueses que se juntaram aos cerca de 80 milhões de deslocados em todo o mundo devido a estas obras.
O PNBEPH prova que há alternativas à construção da barragem no Sabor - como defendeu a Plataforma Sabor Livre, chumbada pela União Europeia, motivo pelo qual foi excluída das 25 hipóteses iniciais. Como refere a Quercus no seu parecer «Se a opção Baixo Sabor tivesse sido incluída neste programa seria mais que evidente que os seus custos ambientais seriam inaceitáveis e seria, em sequência disso, uma das 15 opções excluídas (…)».
Efeitos destrutivos
Cada khw produzido custa 10g de CO2, sendo mais de dois terços correspondentes à construção dos empreendimentos. É sabido que as barragens diminuem a qualidade da água, destroem ecossistemas, alteram o clima, agravam a erosão costeira, levam à perda de diversas espécies, à submersão de floresta e, além destes e outros custos ambientais, cujos benefícios de imediato não ultrapassam algumas décadas, possuem também preços sociais, como o abandono territorial progressivo. Em 2007, o “Público”
[1] defendia que «O Governo (…) deve obrigar as empresas que explorarem as barragens a pagar impostos nas regiões onde produzem os bens que comercializam».
Contra a vontade das populações e os pareceres técnicos, que privilegiam a pequena hídrica em detrimento das grandes, por todo o mundo continuam-se a construir mega-barragens, que desafiam o equilíbrio ecológico, do qual dependemos. A vantagem lucrativa, particular e imediata esmaga o interesse público, humano, de médio e longo prazo. É contra esta exploração de comunidades e habitats que, também à escala internacional, emerge uma nova cultura da água, a favor da vida dos rios, do seu livre curso, da fluência das suas correntes.
Da água (cujo dia mundial se irá comemorar daqui a dez dias), base de toda a existência, depende o futuro da Terra e da humanidade. Se, como diz o povo, parar é morrer, qual será, pois, o nosso destino se optarmos por bloquear hoje o livre curso das águas dos rios? Que espécie de liberdade nos iludimos ter quando prendemos um dos nossos bens mais preciosos? Estaremos, de facto, a evoluir quando paramos o curso das correntes de água? E que qualidade de vida podemos ter com base em águas estagnadas? Ao abusarmos destas barreiras estaremos a ser humanos, racionais e a proteger os direitos das gerações futuras e dos seres vivos, para um desenvolvimento efectivamente sustentável? E como reagiríamos nós se alguém detivesse o impulso vital de nos movimentarmos?.

[1] 8/3/2007

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