quarta-feira, 22 de abril de 2009

Forte beleza


Vista da Fortaleza
Perto do 25 de Abril e alguns dias após o Dia Internacional dos Monumentos (DIM) recordamos um que foi prisão política em Portugal e é, há um quarto de século, Museu da Resistência. Trata-se da fortaleza de Peniche - que está a comemorar 400 anos da elevação a cidade - agora projectada para se transformar em pousada, com a apreensão da Associação Não Apaguem a Memória. Uma história secular evocada num texto escrito há mais de duas décadas.


Texto e fotografia Dina Cristo

As muralhas elevam-se sobre rocha, recortam no céu o perfil estranho das ameias e baluartes. Esta maciça e altiva construção tem cerca de 20 mil m2, é composta por quatro frentes regularmente baluartadas nos vértices, no entanto, a restante linha marginal segue as ondulações das rochas escarpadas, que constituem a sua base.
A ligação definitiva da ilha de Peniche ao continente provocou uma profunda transformação na distribuição demográfica, organização social e valorização económica da vila. No séc.XV (altura em que Peniche sofre o repovoamento) Portugal dispunha de quatro locais pelos quais facilmente se desembarcava: Chaves, Peniche, os rios Tejo e Guadiana. Destas áreas era efectivamente Peniche que apresentava maiores facilidades de acesso, permitindo o desembarque de muitos milhares de combatentes, independentemente do estado do tempo.
Portugal via-se constantemente ameaçado pelos corsários, prontos ao assalto e traficância, tal como os barcos inimigos que aproavam à terra com o objectivo de derrotar as forças portuguesas, destruindo e furtando no mínimo os bens dos habitantes. Estes, muito indefesos, eram na maior parte transformados reféns no mercado de escravos.
Assim desprotegida, Peniche representava um grave perigo no domínio político-militar, uma vez que se situava próximo de locais de alto valor estratégico e era habitat de grande parte da nossa população.
Mas após tantos séculos, o sonho tornar-se-ia realidade, começando a ser palpável a resposta ao problema defensivo do qual o litoral tanto carecia. Finalmente, chegado que era o ano de 1557, D. João III concretizava a idealização do seu pai. Aliás, já no séc.XV D. Manuel havia mandado construir um pequeno castelo.
Quatro séculos e meio A primeira construção a tomar formas palpáveis e precisas foi o redondo, terminado logo em 1558, já no reinado de D. Sebastião. A obra foi orientada por D. Luís de Ataíde, que teve igualmente a seu cargo as obras adjacentes. Até 1567 a edificação era constituída pela dita torre e a muralha a sul – de modo a poder receber guarnições. Entretanto, para fazer face às despesas, são lançados (entre 1567 e 1577) impostos sobre o pescado.
O forte seria interrompido entre 1568 e 1572, durante a ausência do nosso Vice-Rei na Índia, tal como em 1577, altura em que o traçado ficou algo semelhante ao actual. Após o seu término parcial, serviu no combate das tropas inglesas aquando do desembarque de 12 mil homens postos à disposição de D. António Prior do Crato – na sua tentativa infundada de derrube à intrusão filipina.
Aquando do reinado dos Filipes são construídos alguns redutos – fase concluída já no reinado de D. João IV, desta feita sob as ordens de D. Jerónimo de Ataíde.
O sistema fica terminado em 1645 (sem atingir os dois mil réis), posteriormente ampliado e aperfeiçoado consoante as necessidades. E foi no termo da edificação que Peniche foi considerada uma praça de guerra de primeira ordem, governada de início por um general e mais tarde por um coronel.
Cinco anos mais tarde Nicolau de Langres traça a planta do muralhamento oriental, construído nas suas linhas gerais e durante algumas décadas.
A cintura das muralhas ficara concluída com a edificação ulterior dos fortes, baluartes, baterias e alguns entrincheiramentos. Mais tarde, durante oito meses na primeira década do séc.XIX, a fortaleza sofre as agruras da invasão francesa, embora Junot, por um mal entendido, mande restaurar algumas áreas.
Mas a cidadela foi ainda objecto de trabalho por parte de reis portugueses como D. Miguel e D. Luís tal como pelo marechal Beresford.
Ao longo do século começa a ultrapassar o seu passado militar uma vez que se torna depósito prisional. Por lá passaram franceses encarcerados pelos miguelistas, boers, prisioneiros alemães, políticos opositores do regime do Estado Novo e depois político-policiais do mesmo e, finalmente, famílias retornadas.
Definitivamente liberta a cidadela, é assumida pela Câmara a responsabilidade da sua dinamização e integração na vida dos cidadãos sendo palco de várias manifestações culturais.

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quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Arruinamo-la?


Depois do Dia Nacional dos Castelos, ontem, divulgamos o caso de uma torre de defesa, a oito quilómetros de Coimbra. Tem quase um milénio e, dividida entre a responsabilidade de diversas autoridades, ameaça ruir. Uma reportagem realizada há quatro anos pelo autor no nosso logotipo. Descubra as diferenças.

Texto e fotografia Bruno Ferreira

«Quatro ruazinhas floridas e uma torre. À volta desdobram-se as colinas e os montes». É à simplicidade destas palavras que Margarida Ribeiro, autora do livro Torre de Bera, reduz esta pequena aldeia da freguesia de Almalaguês. Situada a oito quilómetros de Coimbra, Torre de Bera mantém há quase um milénio o ex-libris que lhe deu o nome: uma torre de defesa.
A aldeia é pacata e tipicamente coimbrã. O seu tipicismo valeu-lhe a representação da Beira Litoral no famigerado concurso de 1938, Aldeia mais portuguesa de Portugal. Disputou arduamente o primeiro lugar com a de Monsanto, conseguindo a menção honrosa de segunda aldeia mais portuguesa de Portugal.
O desenvolvimento desfigurou a terra que hoje se esforça para reaver o tipicismo do passado.
Torre de defesa
Embora não haja concordância relativamente ao século exacto da sua edificação, autores como António Nogueira Gonçalves (criador do Inventário Artístico de Portugal: distrito de Coimbra, 1952) pensam que a torre «deve pertencer historicamente à época dos condes e aos princípios do século XII». Por sua vez, o Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR), após ter encontrado algum material romano no local, reconhece que a construção da atalaia «parece apontar para uma cronologia ligeiramente recuada, muito provavelmente em pleno século X», há 1000 anos.
Acredita-se ter sido construída por populares para o refúgio dos senhores e que faria parte da linha de defesa do sul de Coimbra, ao longo do Rio Dueça, que compreende a edificação de torres semelhantes em Castelo Viegas, Monforte, Sr.ª da Alegria (na freguesia de Alamalguês) e a comunicação com as grandes construções de Coimbra, Miranda do Corvo e Penela.
Da grandiosidade de outrora restam apenas duas paredes, a de sul e poente, e não há escritos anteriores à queda do ângulo noroeste.
Se há bem poucos anos os populares se juntavam para limpar os acessos à torre, as imposições dos novos tempos retiraram a possibilidade de realizar essa tarefa.
Em 1995, a vigia foi entregue ao IPPAR que hoje tem a sua tutela, tendo em 2003 proposto à Câmara Municipal de Coimbra a sua classificação como «imóvel de interesse municipal» de acordo com um despacho assinado pelo Engenheiro Carlos dos Santos Rodrigues (director da Direcção Regional de Coimbra do IPPAR).
Mudanças
Alterações visíveis de 1995 até hoje, só para pior e operadas pelo tempo. Mesmo os responsáveis pela Casa Municipal da Cultura de Coimbra não são capazes de responder se a torre é ou não um edifício de interesse municipal, embora a Presidente da Junta de Freguesia de Almalaguês, Ângela Fonseca, em entrevista, tenha garantido que sim.
Embora a responsável tenha revelado ao Jornal de Notícias a «vontade grande, de muita gente com responsabilidade, para avançar com a reabilitação da aldeia, que é um caso ímpar de beleza, na região e no país», a verdade é que os populares, como Luzia dos Santos, em entrevista, consideram que «a torre de defesa foi abandonada por quem de direito».
Em 1996, a Junta de Freguesia de Almalaguês pediu ao IPPAR uma vistoria à atalaia no sentido de serem tomadas «as previdências necessárias à sua preservação», segundo o despacho do IPPAR para a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN). As conclusões da vistoria foram as mesmas que António Nogueira Gonçalves havia chegado 50 anos antes quando, em 1949, escreveu o artigo «A torre de Bera” para o Diário de Coimbra: «verificou-se que o imóvel se encontra em ruínas, restando de pé praticamente só dois paramentos de paredes, e mesmo esses em muito mau estado de conservação». Mais à frente, o mesmo despacho mostra que as «paredes apresentam várias patologias como sejam fissuração, fenduração e destacamento de conjuntos de blocos nos paramentos». Este despacho indica também um plano de acção a seguir para a conservação do que resta do edifício, embora seja visível que tal plano não foi sequer posto em prática.
Já em 1949, António Nogueira Gonçalves alertava para o facto de «a ruína total estar eminente», criticando também as entidades competentes. O autor dizia que os técnicos que podem fazer alguma coisa não têm cultura para dar «valor à modesta torre» e que aos seus olhos ela «não passará de quatro paredes mal feitas». Chega mesmo a concluir o seu artigo no Diário de Coimbra, dizendo que este serve de «elogio fúnebre, se de salvação não lhe puder ser».
É curioso que o IPPAR, hoje, para caracterizar o estado da velha torre, cite António Gonçalves. Isso mostra que volvidos mais de meio século, não se fez rigorosamente nada e a torre de defesa, que enche de orgulho Torre de Bera, está, a cada dia que passa, a caminhar para o fim, sem que ninguém de direito faça alguma coisa para o evitar.
Casa Municipal da Cultura de Coimbra, Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, IPPAR, Junta de Freguesia de Almalaguês são algumas das instituições onde se pode obter informação acerca desta torre, mas o mais extraordinário é que não consegui apurar quais as responsabilidades de cada uma e, entretanto, o trabalho prático continua por fazer.

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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Abandonamo-la?


Numa antecipação do Dia Mundial da Música, publicamos uma conversa com uma das bandas filarmónicas portuguesas: a penichense. Em agonia, eis as suas últimas vontades.

Texto Victor Hugo Cristo fotografia Dina Cristo

- Olá banda, como estás? Há muito tempo que não te via.
- Eu estou em coma.

- Em coma!?
- Sim, em coma.
- Cheguei a ver-te tão feliz da vida.
- Isso já faz muito tempo, quando ainda cuidavam de mim.

- Não entendi!
- Há pois, não entendes, é natural. Nesse tempo havia pessoas que se interessavam por mim, pelo meu bem-estar, ficavam felizes por eu poder dar muita alegria aos outros, mas depois…
- Depois o quê?
- Depois foram uns e vieram outros, julguei que fossem melhores mas enganei-me, e a partir daí fui adoecendo e agora estou neste estado de saúde, como podes ver.
- Realmente estás muito mal, para estares em coma.
- Mas mesmo assim estou a reconhecer-te.
- Pois é, eu sou aquele que sempre tentou dar a saúde que mereces, continuo a teu lado, mas também já estou a ficar doente com tudo isto. Não queria que desaparecesses, tenho feito tudo para que isso não aconteça, tenho falado com várias pessoas, algumas delas com um certo poder, para me ajudarem a ficares realmente boa; como estás muito doente uns dizem-me que não podem outros que vão ver, mas se tivesses a gozar de boa saúde eles já podiam.
- Eu sei que tens feito tudo para me salvares e reconheço que tenho pouco tempo de vida, mas antes de eu falecer, para ficares tranquilo, queria dizer o seguinte…
- Então diz o que tens a dizer. Pelo menos para a população saber.
- Como estou muito mal, peço-te que sejas tu a dizeres.
- Então diz-me ao ouvido.
-Agradece à população os donativos (sem eles não conseguíamos os instrumentos) e aplausos nas saídas. Agradece também aos nossos forasteiros pela sua bondade e ofertas. Agradece a algumas pessoas, que foram incansáveis nos seus préstimos, à Câmara e à Associação Recreativa. Devolve ou encaminha para alguma instituição o valor emprestado por um director já falecido. Resolve a parte essencial, os instrumentos que estão espalhados pelos “músicos”, e o dinheiro que ainda está no banco. Com isto resolvido já posso morrer em paz.
- Há que teres esperança. Quem sabe se, um dia, ressuscitares, verás outra irmã pelas ruas de Peniche.

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quarta-feira, 2 de abril de 2008

Moinhos ao vento


Quase ficavam reduzidos aos actuais moinhos de café. Testemunhos de uma importância económica e influência social, estão hoje a ser inventariados, preservados e revalorizados. Lembramo-los quando se aproxima o seu Dia Nacional, Segunda-Feira.



Texto e fotografia Dina Cristo

Na memória colectiva, os moinhos, com os seus provérbios, lendas, selos e moleiros, fazem parte do nosso património cultural. Estão espalhados por todo o território (inter)nacional: os de vento, mais no litoral, os de água (azenhas), sobretudo no Centro e Norte, e, na montanha, os mais pequenos (rodízios) - são os mais conhecidos. Há, contudo, outros, como as atafonas, moinhos puxados por burros e cavalos, que ainda funcionam nos Açores, ou os sazonais, que existem nos rios Guadiana e Zêzere.
Há milhares de moinhos no nosso país. Se, ao longo dos últimos tempos, foram sendo desactivados, abandonados, tornando-se ruínas, há, no entanto, actualmente um movimento no sentido da sua
inventariação e recuperação. São já algumas as organizações, uma ou outra empresa, vários os interessados na sua revitalização, animação com alguma fidelidade à sua função produtiva, no aproveitamento, como museus, na dinamização dos mais diversos projectos (turísticos, educativos, profutivos) e divulgação.
As suas mós, movidas pelo vento (energia eólica) ou pela água (energia hidráulica) fragmentam, trituram, filtram, seleccionam, peneiram, refinam os grãos de cereais. Separam o trigo do joio, o farelo de trigo, tradicionalmente considerado uma substância mais rude e por isso habitualmente dada a animais (hoje valorizada pelo seu valor nutritivo). Tudo, sem poluição ou desperdício. Hoje, as centrais de energia eólica, com as suas hélices, já não moem os grãos, apenas produzem energia.
A peneira era o instrumento por onde passava a farinha. Nos nossos dias, a expressão “peneiras” está relacionada quer com atitudes de orgulho (a vaidade de ter passado o crivo da fineza), quer com ilusão, a aparência exterior que engana ao contrário do interior (já refinado). Tal pode ser altamente simbólico. Paulo Ramalho pergunta, no caso das adversidades serranas, «Conseguiremos nós peneirar o passado no crivo do presente até lhe retirar o joio espúrio da pobreza e da miséria? E que destino dar a todo este grão, enfim limpo?», e conclui: «uma coisa é certa, cada geração come o
pão que outra antes amassou».
Tradicionalmente constituído por quatro velas, mais os respectivos espaços, representam, na interpretação de Humberto Álvares da Costa, os oito passos de Budha: concentração, contemplação, meditação, acção/existência, pensamento, palavra e compreensão justa.
Séculos de história
A 'época' dos moinhos em Lisboa foi entre meados do séc.XVIII e do séc.XIX. Segundo Jorge Miranda, presidente da Associação Portuguesa de Molinologia, com mais de vinte anos de investigação na área e referido pela agência Lusa, existiam, no final do séc.XVIII, cerca de cinco centenas. Começaram depois a encerrar, por motivos tecnológicos (a industrialização veio permitir a concentração da produção em fábricas de moagem) e mercantis (havia o acesso ao trigo importado, mais barato).
Desde há dois séculos, portanto, que a capital se tornou dependente do estrangeiro em cerca de oitenta por cento do trigo que consome. Eram seus proprietários burgueses, ordens religiosas e pessoas endinheiradas. Estas entregavam o seu investimento aos moleiros, que necessitavam de uma carteira profissional.

Em Cernache, onde foi criado um bairro dos moinhos, o primeiro documento que faz referência à sua existência, segundo Marco Paulo Cruz, data de 1086, «altura em que o presbítero Sendamiro Moniz doou à Sé de Coimbra metade dos seus moinhos que possuía em Anobra (…) no princípio do séc. XX, existiam ao longo das ribeiras de Cernache, Casconha e Pão Quente (estas afluentes da primeira), 58 assentos de moinho, com 112 casais de mós. No entanto, com o tempo, os moinhos de água começaram a parar e os açudes deixaram de fazer represa, as levadas e aguieiras entupiram e os rodízios a seco empenaram e deformaram-se».

A introdução de electricidade, nos anos 60, foi, como explica aquele assistente administrativo camarário, uma das razões para a alteração da sorte dos moinhos de água: «A grande indústria, sobretudo as moagens indus­triais, a alteração dos hábitos alimentares, o surgimento das padarias, a migração das popu­lações rumo a outras paragens, são outros tantos factores que contribuíram para a derrocada desta economia cujos pilares assentavam na moagem do milho (inicialmente, do arroz) e na distribuição da farinha pelos fregueses habituais - o carreto - para a confecção da tradicional

broa de milho, então, elemento essencial de sobrevivência das famílias e, subsidiariamente, à alimentação dos animais.» Moinhos ancestrais - uma herança cultural que ainda pulula pela nossa paisagem (mais) rural.

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quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Suástica: o lado desconhecido

Perto do fim do ano e começo de um novo, eis um dos signos tradicionais de boa sorte: a cruz suástica (no cimo deste símbolo da Sociedade Teosófica).

Texto Susana Nunes

Quando a maioria das pessoas olha para uma suástica, a primeira coisa em que pensa é na Segunda Guerra Mundial, no Nazismo e no Holocausto. Em perseguição, tortura, sofrimento e morte. No entanto, este símbolo é considerado uma das mais remotas formas da Cruz, já que as mais antigas suásticas datam de 2500 ou 3000 a.C. (Índia e Ásia Central). Assim, para além de ser dos mais encontrados, considera-se que é um dos mais antigos símbolos místicos da Humanidade. A palavra “suástica” vem do sânscrito e significa “aquilo que traz boa sorte”. A sua raiz, “Svas”, quer dizer bondade.
Universalidade
Seria de estranhar o facto de este símbolo ser encontrado em diferentes culturas sem contacto entre elas, mas, na verdade, existe uma explicação muito simples: desenhar duas linhas rectas perpendiculares sobrepostas no seu centro, com um braço em cada extremo, é básico. Então, tal como o círculo, por exemplo, é de se esperar ver-se este símbolo repetidamente, em diferentes lugares e épocas, devido à sua simplicidade.
Assim, se explica também a enorme variedade de suásticas que existem e a sua diversidade a nível de simbologias. A nazi, por exemplo, tem os braços voltados para a direita, sendo que um deles fica no topo. Várias suásticas são constituídas por três linhas e outras nem sequer têm braços, consistem em cruzes com linhas curvas. Portanto, os símbolos designados por suásticas são, muitas vezes, bastante distintos. A chamada suástica celta, por exemplo, dificilmente se assemelha a uma.
A suástica ou cruz gamada, como também é conhecida, é usada há milénios por diferentes povos. Faz parte da cultura dos budistas, dos hindus, dos aztecas, dos celtas, dos japoneses, dos chineses, dos gregos, dos dinamarqueses, dos escandinavos, dos saxónicos, dos nativo-americanos e até mesmo, quase ironicamente, dos judeus.
Simbologia
Na China, este símbolo místico representa a orientação quádrupla que segue os pontos cardeais, o infinito, a saúde, a felicidade e a perfeição cósmica.
No Tibete, é um talismã, signo da fortuna.
Na Índia, é um dos símbolos mais sagrados místicos e tem exactamente o mesmo valor que o “sinal da salvação” tem para os cristãos. Para os hindus, é símbolo do poder fertilizante da natureza, da sua regeneração característica, e os seus quatro braços representam os diversos planos de existência (o mundo dos Deuses, o dos Homens, o dos animais e o Mundo Inferior).
No Budismo, a cruz suástica é o selo sobre o coração de Buda e é um símbolo tão importante que ainda hoje é usado com frequência.
Para os escandinavos, é designada de “o martelo de Thor” e era usada como protecção contra as forças maléficas por guerreiros ou heróis que lutavam até à morte por justiça, pelo seu próprio povo.
A mais conhecida suástica, que também pode ser chamada de Roda Solar, porque simboliza o ano solar, com as suas quatro estações, representa a energia do cosmos em movimento, o que lhe confere dois sentidos distintos, consoante o lado para qual estão os braços: o horário, com os braços voltados para a direita (tal como o símbolo nazi), e o anti-horário, com os braços voltados para a esquerda.
A suástica em sentido horário representa o movimento evolutivo do Universo, as forças da criação. A cruz em sentido anti-horário remete para uma dinâmica involutiva, significa Entropia (as forças naturais que trabalham para o fim do Universo, para a destruição). Numa análise superficial, poderiam ser entendidas como a representação do Bem e do Mal, no entanto, considera-se que os dois lados da suástica têm o seu lado bom e o seu lado mau, tal como tudo na Natureza. Assim, os dois lados não se opõem, mas complementam-se, num equilíbrio dinâmico, sem tendências para a criação nem para a destruição.
“Omnipresença” no pré-nazismo
Antes de ter adquirido uma extrema conotação negativa no período do Nazismo, a suástica “estava em todo o lado”, tanto no sentido horário, quanto no sentido anti-horário, até nos EUA: a conhecida Coca-Cola lançou um pingente com este símbolo e a cerveja Carlsberg tinha-o gravado nas suas garrafas. Durante a Primeira Guerra Mundial, a 45ª Divisão da Infantaria americana usava a suástica laranja como emblema no ombro. Até mesmo os escuteiros distribuíam este símbolo como distintivo.
Até 1939, a Força Aérea Finlandesa tinha suásticas nas asas dos seus aviões. Mesmo as medalhas militares e civis emitidas pelo governo finlandês nessa época tinham a suásticas na sua concepção gráfica.
No entanto, desde que o exército alemão invadiu a França, em 1940, a suástica deixou de ter este carácter tão omnipresente e “desapareceu”, com a óbvia excepção das bandeiras Nazis.
“Usurpação” por parte dos Nazis

Ao contrário do que se possa pensar, a onda racista e xenófoba já era bem patente na Alemanha, mesmo antes de se consolidarem os ideais nacional-socialistas. Em 1897, por exemplo, Karl Lueger foi eleito em Viena por voto directo, apesar da sua campanha política se centrar na “libertação do povo cristão da opressão judaica”.
Foi, no entanto, com o Nacional-Socialismo (Nazismo), em 1920, que se veio consolidar a adopção da suástica por parte dos alemães, pois era um símbolo que tinha um significado muito importante para a “raça ariana”, o povo proto-indo-europeu.
Segundo os livros "Raízes Ocultas do Nazismo" de Nicholas Goodrick-Clarke e Hitler e as Religiões da Suástica de JeanMichel Angebert, é inegável o misticismo que envolvia o Partido Nacional-Socialista, para além do seu carácter político. De acordo com a ideologia deste partido, um ariano era qualquer pessoa não-judaica, cujos ancestrais fossem nórdicos. A palavra “ariano” vem do sânscrito “arya” e quer dizer “nobre”.
Refere-se a um povo de guerreiros e está associada a um estereótipo físico: os olhos azuis, o cabelo loiro, a pele clara e a robustez. Estes guerreiros julgavam que a suástica era o talismã que os ajudava garantir as suas vitórias nas batalhas. Foi devido a esses grandes triunfos que este povo se tornou ancestral da população que formou a base do que hoje são os diversos tipos étnicos da família europeia.
Muitos comparam toda esta grandiosidade aos nazis, que, em pouco tempo, conquistaram quase toda a Europa, apesar de não terem o exército mais poderoso, e que só perderam a guerra devido a um erro táctico de Hitler, na invasão da Rússia.
Aparente “queda” da suástica nazi
p>A queda da suástica nazi foi, aparentemente, tão rápida quanto a sua ascensão: em 1946, a sua exibição pública foi proibida constitucionalmente na Alemanha. No entanto, verifica-se actualmente que novas ondas de racismo e xenofobia, designadas de neonazis, por ressuscitarem esses mesmos ideais, têm vindo a surgir um pouco por todo o mundo.
No Brasil, por exemplo, em 1994, o presidente Itamar Franco proibiu o uso da suástica em todo o território, com o propósito de desencorajar o crescente neonazismo brasileiro. Nos EUA, tem-se verificado um aumento da divulgação da suástica, como símbolo do regime Nazi. Na Grã-Bretanha, em Maio de 2001, foram detidos cerca de 20 jovens, depois de várias manifestações de violência racista. Em Portugal segundo a revista Visão, também nesse ano se assistiu a uma concentração de skinheads (cabeças-rapadas) na Amadora e, em 2004, a uma grande polémica devido a um site português nazi ter divulgado uma lista de alvos “a abater”, com fotografias, moradas e números de telefone de mais de 20 pessoas.
Incerteza do futuro
A grande questão, actualmente, para aqueles que pretendem ver a simbologia original deste símbolo universal restaurada é se, algum dia, esta deixará de representar todos os crimes perpetrados pelo Regime Nazi. Esta é uma questão complicada, pois, em diversas partes da Ásia, a suástica não possui nenhuma das conotações que contém no Ocidente. Na Índia, por exemplo, existe uma marca de sabão Suástica, na Malásia, um estúdio fotográfico Suástica, e no Japão há cartões dos famosos Pokémon que possuem o “manji”, a suástica no sentido anti-horário.
Mesmo nos EUA, apesar das vagas neonazis, existe quem pretenda restaurar a simbologia original da suástica: a organização Friends of the Swastika (Amigos da Suástica), um grupo bem coordenado, formado em 1985.
No entanto, o futuro é incerto. Ao mesmo tempo que se verifica o ressurgimento de ideais nazis, também se verifica uma maior vontade em restaurar a essência da simbologia suástica, o que não tem sido fácil. Em 2003, por exemplo, a Coca-Cola teve de retirar do mercado um brinde promocional em forma de robot, por ter gravadas no peito duas suásticas, o que originou a revolta por parte da comunidade judaica. Esta não conseguiu compreender que esses símbolos não tinham qualquer ligação com a suástica nazi.
Provavelmente, vai existir sempre este “estigma” em relação à cruz suástica, pois, por mais que se tente explicar que existem duas faces neste símbolo, existe sempre quem não consiga esquecer os horrores que a ela estiveram associados, num dos períodos mais negros da nossa História Universal. Por mais nobre que a herança seja, o símbolo da suástica foi, provavelmente
para sempre, manchado pela associação aos Nazis, no mundo Ocidental.

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