quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O coelho na (car)tola


Nesta 33ª edição do Festival Internacional de Cinema do Porto, revisitamos uma das críticas de sétima arte, de um antigo director do Cineclube da cidade, originalmente publicada no jornal “O INtEndido”*.
Texto Fernando J. Pinto Basto
Ao som de Echo & the Bunnymen (não por acaso, esta banda e a canção chama-se “Killing Moon”, aliás nada neste filme é ao acaso) somos introduzidos na mente de Donnie Darko, adolescente suburbano de uma pacata cidade norte-americana estilo Twin Peaks. Só que neste caso não se trata de saber quem matou Laura Palmer, mas sim quem tramou o Frank Rabbit. Este coelho vindo da “Quinta Dimensão” tem muito que dizer a quem o queira ouvir e Donnie Darko é o super-herói escolhido para levar a cabo a missão impossível de um regresso ao futuro numa puritana América pós-Reagan; estamos em 1988 e as presidenciais são disputadas entre Dukakis e George Bush (sem o W.).
Nada de novo neste capítulo, tal filho, tal pai, o desfecho da eleição já o sabemos, mas não poderemos saber porque é que o mundo de Donnie Darko irá acabar antes que o céu lhe caia em cima da cabeça. Esta, a propósito, não anda a regular muito bem (será culpa dos comprimidos? Da família? Da escola? Da cidade?) e de repente parece que já estamos no ET, parte 2, até entra a mesma miúda, agora mais graúda, mas no céu não voam bicicletas, só aviões com disfunções.
A convocação “cinéfila” dos filmes da sua vida é por demais evidente, pois esta película é uma manta de retalhos bem urdida por uma mente brilhante, a do jovem realizador, Richard Kelly, que certamente cresceu a ver os grandes êxitos cinematográficos dos anos 80 e a ouvir a música do nosso (des)contentamento. Numa breve história de duas horas, somos transportados para a dimensão do tempo em que o destino se altera quando encontramos um “buraco de verme” e no final, Donnie Darko terá razões para pensar que it`s the end of the world as we know it… and I feel fine!.
*PBX – O coelho na (car)tola in O INtEndido – Jornal do GDINE – Norte, nº7, Dezembro de 2002, pág.10.

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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

A Era da Deusa


Trinta anos depois da publicação do livro que lhe deu origem, revemos o filme que mostra o desaparecimento da sociedade matriarcal.
Texto Dina Cristo
Com um alto poder de comunicação telepático, de leitura de pensamentos, de antevisões, de (in)visibilidade, auxiliados pela sinalética, canais de água, espadas, círculos e fogueiras, os habitantes do Lago, orientados pela lua e com práticas crematórias, colocam toda a sua vida ao serviço da preservação do culto à Grande Deusa: as mulheres tendencialmente pelo amor, os homens sobretudo pela luta.
Mas mesmo com todos os sacrifícios pessoais das sacerdotisas do conhecimento antigo, como Igraine, Morgana, ou Viviane, e dos homens ligados à ilha, como Merlim ou Lancelot, e até mesmo o nascimento planeado de Artur ou Mordred são insuficientes face à violência das invasões bárbaras e à ascensão do Cristianismo. Os sofrimentos e as renúncias não chegam e Avalon é engolida pela nova era de então, a dos sacerdotes cristãos.
Absorvida mas não completamente perdida. No final, as mulheres que sobrevivem, Igraine, Morgana e Guinevere, mantêm, no convento, o culto da Deusa: a Nossa Senhora - a Virgem Maria à espera de um dia ser recuperado na sua pureza original, como refere Morgana Le Fay, uma das principais personagens e narradora da história.
Durante três horas, o realizador, Uli Edel, mostra a importância das sacerdotisas em várias gerações e o seu papel essencial, de materialização, envolve o espectador no mistério da lenda do Rei Artur, dos Cavaleiros da Távola Redonda, da ilha sagrada, ainda hoje tema de uma canção de Bryan Ferry, fazendo lembrar a do Rei D. Sebastião, também ele escondido nas brumas da memória.

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Avatar


Os Globos de Ouro premiaram James Cameron e o seu filme, que permite ao espectador ver aquilo que, se o ser humano nada fizer, estará prestes, em 2154, a ser pura realidade virtual: um mundo habitado por indígenas em comunhão fraterna com a Natureza.

Texto Dina Cristo

São azuis, têm cerca de três metros, olhos grandes amarelados, vivem em comunidade e em harmonia com a Natureza, em Pandora, onde habitam a “Casa da Árvore”, cuja riqueza espiritual veneram.
Pelo contrário, os humanos cobiçam o seu minério, que planeiam explorar. Indiferentes à sua sensibilidade, invadem a sua Terra Mãe, cujo verde devastam sem piedade, cegos de ambição. Barricados nos seus robôs, metralham território virgem e explodem Árvores sagradas.
De um lado, Neytiri, a princesa dos Na`vi, clã Omaticaya, do outro Jake Sully, ex-fuzileiro paraplégico do exército americano. O amor os unirá e juntos lutarão pela sobrevivência de uma comunidade indígena que respeita, entre outros, os espíritos da Natureza e dos seus antepassados.
Um povo que não mata os animais, antes os comanda mentalmente, e a eles se liga, tornando-os cúmplices na sua defesa da floresta, um gigantesco espaço verde, que os humanos dizimaram do planeta e que, agora desesperados, procuram reservas. Nativos que diagnosticam de imediato a insanidade humana enquanto militares mercenários escarnam da vivência da sua delicada religiosidade.
A tribo de Pandora é constituída por seres pacíficos, obrigados a revelarem-se guerreiros verdes. Adoram as árvores – vivem numa, à qual chamam de “Casa das árvores”, refugiam-se noutra, a "Casa das Almas", e protegem outra ainda, a "Casa das Vozes" – as montanhas (caso da Aleluia), os antepassados (representados em Toruk), os mais velhos (caso do chefe, Eytukan) e, acima de tudo, a sua divindade, Eywa.
Não ignoram os sinais (como a cobertura de sementes da "Árvore da Vida"), não bloqueiam o fluxo energético reticular (‘a energia é-nos emprestada, depois teremos de a devolver’), conscientes de que a entidade divina não toma partido, apenas protege o equilíbrio, que o corpo dos seus fica com o povo mas o seu espírito segue para 'o lugar que o olho não vê'.
Os seus locais de oração são ainda mais reservados e puros. Vivem em total harmonia, consigo próprios, com os outros seres humanóides, celestiais, animais e vegetais, que se revelam no máximo esplendor. Sentem o outro para além da sua diferença corporal: independentemente da raça a que pertencem, são capazes de Ver a semelhança da sua alma: Namastê.
Do ponto de vista técnico, o filme, projectado a três dimensões, proporciona uma profundidade espacial, que capta os movimentos realistas dos actores e interage com o espectador. Uma inovação cinematográfica premiada e apreciada pelo público e também pela crítica.

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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Farol de Alexandria

Está em exibição nas salas de cinema em Portugal o último filme de Alejandro Menábar. Em pouco mais de duas horas, o realizador mostra aquilo que a história deixou esquecido: o modo como a Igreja Católica Romana se impôs à custa da destruição da Sabedoria da Antiguidade; dos seus templos, sábios e obras.
Texto Dina Cristo
Quando o poder de investigar deu lugar ao dogma formal através da força da destruição e assassínio, restou uma mulher que disse “não” aos homens que preferiram deixar de pensar e passar a apontar a espada a quem ousasse discordar da sua crença. Hypatia, filósofa que dirigiu a Escola Neoplatónica de Alexandria e deu a sua vida pela verdade, é, dezasseis séculos depois, recordada pela direcção de um homem espanhol.
Estimulada pelos imperadores da Igreja, vai crescendo a intolerância em relação ao saber filosófico e ao conhecimento antigo. Investigar, reflectir e pensar são doravante cada vez mais consideradas heresias. Sobetudo quando lideradas por mulheres respeitadas por homens de todas as religiões aos quais educava na fraternidade.
Enquanto isso, os “douto(re)s” do Cristianismo exibem milagres que impressionam e lhes vão multiplicando os crentes. A confiança no que é ostentado, por um lado, e na letra, repetida até à exaustão, por outro, tornam a fé (cega), publicamente proclamada, e a perseguição social a quem não se lhe ajoelha realidades.
Mulher virtuosa, para quem a “briga é para escravos ou gentalha”, enfrentará a ocupação da Biblioteca, a sua destruição e, mesmo perante a anulação de qualquer actividade racional, vai procurando incansavelmente respostas para as suas dúvidas. Experimenta, conferencia, deduz. Não sossega só de pensar que a Terra podia ser redonda, movimentando-se em forma de elipse à volta do Sol.
A Biblioteca, antes “local de cura da alma”, reservatório de todo o conhecimento humano, transforma-se, após a sua usurpação cristã, num local sombrio, animalesco e sem vida. A cidade vai-se tornando cada vez mais orgulhosamente só com o seu único Deus verdadeiro. Dela são excluídos e mortos judeus e pagãos.
Dali para a frente, o medo alastra. Deixa de haver condições para a dúvida inteligente e para o convívio são e sereno. Está aberto o caminho para o obscuratismo, o fanatismo e a obediência cega à letra morta, repetida mas incompreendida. A verdade deixará de ser procurada, passará a ser proclamada e seguida. Nada mais haverá, dali em diante, que possa ser questionável.
Um a um, os que preservavam os tesouros da Antiguidade, os registavam, estudavam e confrontavam, são dissipados. Até ao último “farol” da Escola Neoplatónica, a própria Hypatia que, embora com uma nobreza de carácter a toda a prova e de uma elevada dignidade e honra, será acusada pelos imperadores da Igreja de bruxa, prostituta e herége. À força da crueldade, perseguição e assassínio se instituirão as verdades oficiais, os dogmas que ninguém mais será permitido duvidar.
Carl Sagan em “Cosmos” descreve esse momento em que Hypátia é assassinada às mãos de um grupo de monges, acirrados por Cirilo, o arcebispo da cidade: «Arrastaram-na para fora do carro, arrancaram-lhe as roupas e, com conchas de abalone, separaram-lhe a carne dos ossos. Os seus restos foram queimados, os seus trabalhos destruídos, o seu nome esquecido. Cirilo foi santificado»(1).
Pérola eclética
Já 24 anos antes, como refere José Manuel Anacleto (JMA) em "Glória e ruína de Alexandria"(2), o tio de Cirilo - Teófilo, bispo cristão - havia instigado os seus acólitos que em 391, aproveitando a determinação de Teodósio, o Imperador Romano, para fechar todos os templos não cristãos, procederam à segunda e maior destruição da Biblioteca de Alexandria, depois do incêndio em 48 a.C., aquando da tomada da cidade pelas tropas romanas.
Estima-se que a Biblioteca chegara a reunir cerca de 700 mil obras, preciosidades do conhecimento antigo, como os cerca de 20 mil livros atribuídos a Hermes. Deste acervo restam alguns manuscritos e folhas soltas, recorda JMA que cita uma pergunta do cientista Carl Sagan: «Imaginem que mistérios sobre o nosso passado se poderiam resolver com um cartão de leitor da Biblioteca de Alexandria» (3).
A Biblioteca surgiu em 302 a.C. e tinha associado um Museu, protótipo de uma Universidade (dispunha de salas de reunião, laboratórios, jardins e observatório, com as despesas de funcionamento suportadas pelo Governo), e anexado o Templo “Serapeum”, dedicado a Serápis.
Alexandria, no norte do Egipto (perto das pirâmides de Gizé) hoje segunda cidade do país, depois da capital, o Cairo, foi fundada em 332 a.C. por Alexandre Magno com o objectivo de, aproveitando a sua localização - ponto de transição entre o Oriente e o Ocidente - ali constituir um centro cosmopolita, local de encontro entre diferentes culturas e civilizações.
A Escola Neoplatónica que ali floresceu, fundada por Amónio Saccas e depois continuada por Plotino, caracterizava-se por sintetizar, além do pensamento platónico, as principais correntes da filosofia da antiguidade grega, diversas concepções religiosas e místicas, incluindo as Orientais, e conciliar o monoteísmo com o politeísmo.
Hypatia, filha de Theon, dirigiu-a. Também filósofa, matemática e astrónoma, nasceu em 370 em Alexandria, estudou em Atenas e, solteira, dedicou toda a sua vida à instrução. Representou a preservação da Sabedoria da Antiguidade, o universalismo, o livre pensamento, a investigação científica, a inteligência. Mulher de prestígio, desafiou com a sua coragem e integridade a ignorância e o dogmatismo.
A protecção junto do governador romano foi insuficiente para compensar o mau-estar que o poder da sua sabedoria provocava em poderosos que se sentiam eclipsados. Com o seu assassinato, a sua decifração das fontes, nas quais a Igreja se baseava para construir a sua doutrina, como refere Helena Blavatsky, citada por JMA, foi também eliminada. Até novo Renascimento.


(1) Citado por José Manuel Anacleto (JMA), autor do livro “Alexandria e o Conhecimento Sagrado”, editado pelo Centro Lusitano de Unificação Cultural, num artigo anterior - “Glória e ruína de Alexandria", publicado no Outono 2003, pág. XXXII, na revista "Biosofia", vencedora do Prémio Informação Solidária 2009.
(2) Idem, pág. XXIII.(3) Idem, Ibidem.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Cinema comunitário


Em plena edição do Festival de Cinema Documental de Lisboa, reportamos uma outra sétima arte, a ambulante, que leva até ao Portugal profundo histórias animadas.

Texto e fotografia Sara Fidalgo

Dia Mundial da Criança. Pequenos e graúdos de mãos dadas, seguem para a Biblioteca Municipal de Montealegre para assistirem a um teatro em celebração do dia. Os mais velhos deixam a criançada “bem sentadinha e sorridente”. A calmaria é levada segundos depois. A directora Gorete Afonso* chega ao pequeno auditório, onde a pequenagem pedia para que os personagens chegassem depressa.

Simpática, protagonista de uma recepção calorosa e atenciosa, apresenta-se como a responsável do subprojecto do programa Leader Adrat, em vigor na União Europeia. Este plano trabalha sobre propostas inovadoras em prol de melhorias de vida e costumes das regiões em que actua.
Gorete Afonso adiantou que o ciclo de cinema e teatro não é um acontecimento agendado com grande frequência, no entanto, é um êxito certo sempre que se realiza. O projecto caseiro da biblioteca promete levar “som e imagem” junto dos mais novos, chegando (também) a quem deles toma conta.
Cada sessão funciona como novidade para a população. Os mais idosos afirmam que raramente viu filmes em tela, ou que a última vez que foram ao local foi a primeira vez que viram uma projecção. Novas visões do mundo, diferentes costumes e etnias são apresentadas a pessoas que raramente saíram da terra natal.
A interacção mantém-se entre os habitantes: deixam o sofá de casa para as pequenas, mas confortáveis, cadeiras das salas de projecção. Novos hábitos criados! José Santos, vindo da toma diária do cafezinho, adianta: "Deixamos os jogos de futebol de parte, porque neste país já não têm futuro. O melhor de tudo é podermos sentarmo-nos com os nossos parceiros, beber um suminho e provar as pipocas com caramelo. Menos mal que a cervejinha foi substituída, com menos barriga ficamos."
Cinema itinerante
A prática de levar o cinema de terra em terra parece algo rudimentar mas, na realidade, é uma iniciativa com largos horizontes para o tempo futuro. O material disponível, os altos níveis de interesse e o amor à camisola são os principais factores que tornam a acção comunitária algo tão honesto.
Helena Marta, uma senhora que costuma passear com o neto, perto da Biblioteca Municipal, deu-nos o seu parecer: "É bom poder juntar uma vila inteira para assistir a um acontecimento. É fantástico haver alguém que se preocupe connosco. Uma pessoa que vem, com a casa e o filme às costas, merecia que fizessem um filme sobre ela. Talvez a malta jovem siga a ideia dos mais velhotes!"
Os lucros são mínimos, o contentamento é massivo. Das salas saem sorrisos e palavras de aprovação. Dos bastidores não saem actores, sai quem apresenta, a um dos pequenos mundos do planeta Terra, clássicos e dá provas de bem-estar a um público (quase) estreante.
"Gosto muito de poder ver os diferentes rostos, ouvir as diferentes vozes, saber os diversos pontos de vista. Dentro e fora do filme. A cara dos meus vizinhos, as expressões dos actores. As conversas dos personagens e a fofoca das senhoras do mercado. Os pontos de vista que o sábio protagonista mostra ao principiante e os comentários dos mais novos”, diz António Marques que, enquanto passava pelo local, decidiu comentar o que ouviu de uma reunião de grupo espontânea.
Os patrocínios são indispensáveis para garantir o bom funcionamento dos meios de difusão de imagem. O café local ou a Câmara Municipal podem sempre dar um pequeno contributo para o projeccionista profissionalmente amador.
Há 15 anos, a fita, levada às costas, era posta a trabalhar num simples projector direccionado a uma parede das maiores casas da vila. Hoje em dia, numa sala acolhedora e com um projector ligado directamente a um computador, a dinâmica é acrescida ao tempo do filme.
Técnica
Durante anos surgiram novas tecnologias que evoluíram com uma visão pedagógica para um romance, thriller, uma comédia ou mesmo um filme de drama. Valter Carvalho, um dos simpáticos senhores de Montealegre comenta o assunto: "No meu tempo tínhamos a preocupação de cuidar da família. Os momentos em família eram passados a trabalhar ou às refeições. Graças a Deus que os nossos netos estão livres desses encargos e podem aproveitar o conhecimento e a prática do bom que o cinema lhes apresenta."
A mutação do cinema é matéria dos nossos dias. A história conta o cinema mudo e o falado, o preto e branco e a mistura de cores, a antiga tela e a pano imenso.
Actualmente, a tecnologia é algo confusa, um tanto desordenada. Este facto deve-se à ligação sinérgica entre as telecomunicações, informática, modos de produção de imagem e a sua distribuição.
Esta arte, a mais tecnológica de todas, torna-se especial por conseguir transpor o mundo da magia e o impossível para a realidade.
Existe uma vasta gama de públicos. A multiplicidade de filmes vai ao encontro de ideais antigos e novos aspectos que se pretendem cristalizar. Aqui se enquadram os idosos. À terceira idade estão direccionadas várias actividades, pedagógicas e lúdicas, que lhes permite aprendizagens e interacção.
O cinema e a vida contribuem para a criação de emoções, numa sala escura, junto de desconhecidos, onde o que atrai é o imaginário e a promessa de novas sensações.
*Directora da biblioteca em discurso directo:
A que público se dirige esta iniciativa? O cinema é dirigido para todas as idades mas mais concretamente para os jovens que procuram o espaço.
Qual o impacto das tecnologias no público em geral? As tecnologias têm quase um poder misterioso para os mais velhos. A receptividade é algo bastante positivo.
O que pode ser alterado na maneira de estar das pessoas? Normalmente não há grandes alterações no comportamento a não ser a nível intelectual, pois ganham conhecimento do mundo e crescem em cultura.

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quarta-feira, 11 de março de 2009

Filmes

Brindamos a chegada da nossa segunda Primavera com algumas das mais belas obras da sétima arte. À memória de Fernando J. Pinto Basto.



Selecção e fotografia Dina Cristo


FORMAN, Milos - Hair (1979):


EDEL, Uli - Avalon (2001):



REDFORD, Robert - Quiz show (1994):
/p

EASTWOOD, Clint - Outra vida (2010):

MASTROIANNI, Armand - Profecia celestina (2006):
CHAPLIN, Charles - Tempos modernos (1936): ALLEN, Woody - Os dias da rádio (1987): QUEIROGA, Perdigão - Fado, história de uma cantadeira (1947): SCHNITZLER, Gregor - A nuvem (2006): CARO, Niki - Terra fria (2005): GIBSON, Brian - What`s love got to do with it (1993): STONE, Oliver - Alexandre, o grande (2004): CAMERON, James - Avatar (2009): AMENÁBAR, Alejandro - Ágora (2009): BROOKS, James L. - Edição especial (1987): SHYAMALAN, Night M.- Sexto sentido (1999): EMMERICH, Roland - O dia depois de amanhã (2004): ANNAUD, Jean-Jacques - Sete anos no Tibete (1997): CHAPMAN, Brenda; HICKNER, Steve - Príncipe do Egipto (1998): GAGHAN, Stephen - Syriana (2005): VASCONCELOS, António-Pedro - Jaime (1999): STONE, Oliver - J.F.K. (1991): BENIGNI, Roberto - A vida é bela (1997): COSTNER, Kevin - O mensageiro (1997): EPHRON, Nora - Sintonia de amor (1993): SPIELBERG, Steven - A lista de Schindler (1993): Jackson, Peter - O Senhor dos Anéis (2001-2003): LOPES, Luís Vidal - Mensagem (1988): MONSON, Shaun - Terráqueos (2005): ZWANIKKEN, Gertjan & SOETERS, Karen - Uma verdade mais que inconveniente (2008): GOORJIAN, Michael - You can heal your life (2007): MOORE, Michael - Sicko (2007): ROCHA, Luís Filipe - Adeus pai (1996): BERTRAND, Yann Arthus - O mundo é a nossa casa (2009): BOAVIDA, Cristina; ESPÍRITO SANTO, Ricardo - Amo-te Teresa (2000): GIONO, Jean - O homem que plantava árvores: STREISAND, Barbra - As duas faces do espelho (1996): TORNATORE, Giuseppe - Cinema paraíso (1989): OLIVEIRA, Manuel - Vale Abraão (1993): CAMERON, James - Titanic (1997): BARTLETT, Hall - Fernão Capelo Gaivota (1973): GEORGE, Terry - Hotel Ruanda (2004): EPHRON, Nora - Você tem uma mensagem (1998): KIM, Ki-duk Kim - Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera (2003): MEDEIROS, Maria - Capitães de Abril (2000): PARKER, Alan - Culpado ou inocente (2003): GIBSON, Mel - A paixão de Cristo (2004): VIEIRA, Leonel - Zona J (1998): ZUCKER, Jerry - Ghost, o espírito do amor (1990):MEIRELLES, Fernando - Fiel jardinero (2005): ZEMECKIS, Robert - Contacto (1997): EASTWOOD, Clint - As pontes de Madison County (1995): BAY, Michael - A ilha (2005):

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quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Jornalismo (e) audiovisual VI

Após uma interrupção, devida ao artigo contínuo sobre IS, retomamos hoje o ensaio com o filme, central na investigação, que nos coloca perante uma escolha: o espectáculo, superficialidade, encenação e igorância ou a cultura, profundidade, rigor e a ética.

Texto Dina Cristo

O que “Broadcast News” nos diz é que, para se ser bem sucedido no mundo da televisão, basta dominar as técnicas televisivas, apresentar as notícias muito profissionalmente e ter uma cara bonita. Inteligência é característica da qual se pode prescindir para ser vedeta.
É o cinema, mais uma vez, a reflectir e a ser, ao mesmo tempo, um reflexo do tempo e do espaço onde é realizado… No caso concreto, os Estados Unidos e o final da década de 80. Um contexto que se pode alargar a uma vasta área geográfica, onde as mesmas preocupações (a informação transformada em espectáculo sujeito às tabelas de audiência e o carisma do locutor a sobrepor-se à pertinência das notícias) se colocam, nomeadamente em Portugal.
Retrato dos personagens
Tom, Aaron eJane desempenham três dos serviços fundamentais em televisão: a apresentação, a reportagem e a produção. Complementares nas suas funções diferentes, demonstram enquanto crianças as características que os distinguirão mais tarde como profissionais.
Tom, com dificuldades em termos de percepção e assimilação de conhecimentos, vai contar com dois factores coadjuvantes: a beleza e a sua determinação. Posteriormente, revela-se um indivíduo sem conteúdo, que não entende o que lê, mas que, por mera sorte, vai subindo até atingir o estrelato. Ele próprio se auto-retrata: não é educado, quase não tem experiência, não escreve e, no entanto, foi admitido na estação televisiva, ganhando uma fortuna.
Bastante diferente, Aaron possui uma cultura geral profunda (terminou o liceu aos 15 anos, com distinção), mas uma fisionomia que pouco o favorece. Forte conhecedor da actualidade, dominando-as como ninguém, será um repórter experiente, capaz de redigir textos belíssimos, mas muito pouco eficaz na utilização das mais elementares técnicas da linguagem televisiva.
Jane mostra-se uma pessoa de carácter forte, seguro e inteligente, características que farão dela uma produtora rigorosa, perspicaz e enérgica. Empenhada na qualidade poucas, lutará para que a ética profissional seja permanentemente respeitada – orientação da qual nunca se desviará um milímetro – atitude que lhe trará algumas amarguras.
«O noticiário passa a espectáculo oferecido aos espectadores por uma “estrela”, ao mesmo tempo que as verdadeiras notícias (…) passam ao lado»[1]. Eis, em resumo, duas concepções que vão estar na base de todo o conflito entre Tom – adepto da promoção do espectacular – e Aaron – a favor da valorização do conteúdo informativo. Entre ambos está Jane, defensora permanente da ética e eficácia televisiva. São diferentes formas de conceber e praticar jornalismo, que vão reflectir-se, necessariamente, no trabalho de cada um.
Trabalho da estação
Durante a elaboração do apontamento final sobre o soldado que regressa aos EUA, Jane e Aaron dão um bom exemplo de como o profissionalismo a nível individual pode contribuir para um bom trabalho de equipa. Jane conhece bem a peça (tanto que a memorizou) e, apesar dos escassos 14 minutos de que dispõe, teima em incluir na montagem o “homecoming” de Norman Rockwell. Uma relação de trabalho que se complementa de forma excelente, como prova o pequeno diálogo na redacção: “Queres o comentário?”; “Sim, de 15 segundos”. O resultado é um texto que explica as imagens e não estas que ilustram o texto.
Graças ao alto sentido de responsabilidade, com a preparação a ser feita com a devida antecedência, as exigências sobre um operador de câmara que filma mesmo sem luz, e a competência de Aaron, a reportagem da Nicarágua revela-se um êxito. No exacto momento em que começa o bombardeamento, Aaron faz um improviso no qual demonstra estar por dentro de toda a situação: «Os primeiros tiros soaram há 10 segundos. Os “contras” estão em minoria. São uma unidade pequena. Apesar disso, defendem as suas posições com armas que enervam e não disparam. Só receberão novo fornecimento de armas amanhã. Hoje, tudo o que têm são as suas botas». E mal as luzes se apagam, ainda em pleno tiroteio, a maior preocupação de Aaron é saber se há imagens das botas.
Numa coerência total entre o que defende e o que pratica, Jane, perante o pedido do operador de câmara para que um soldado calce as botas, grita: “Pára! Não estamos aqui para criar notícias. Façam o que têm a fazer. As decisões são vossas” – uma frase arrebatadora para uma luta nem sempre fácil entre a verdade e o pseudo-acontecimento.
De qualquer forma, enquanto Jane estiver presente, não dará tréguas aos que investem na fabricação e encenação de imagens. Com a produtora por perto, tudo se pautará pelo maior respeito pelos factos, pelo que efectivamente acontece, e não por atitudes solicitadas, sugeridas ou mesmo provocadas.
Autor de um bom texto e com um conhecimento perfeito da actualidade, Aaron vem a revelar-se no jornal de fim-de-semana, um total fracasso televisivo. À falta de uma imagem atraente e uma presença forte, junta-se-lhe uma insegurança, um ataque de transpiração e uma incapacidade de domínio das técnicas audiovisuais perante a câmara a dificultarem a exteriorização da sua credibilidade.
Uma situação totalmente oposta a esta é como se pode caracterizar a apresentação das reportagens sobre o avião líbio. Sem compreender o assunto que apresentava, mas descontraído, na posse de uma imagem persuasiva, de um contacto com a câmara convincente e de um texto (inclusive perguntas e ‘dicas’) a cargo de Jane e até de Aaron, Tom, que mais não fez do que dar a cara, transmitia a imagem de um profissional credível.
Bem reveladora da forma como Tom encara a profissão, é a reportagem sobre violações em que decide, após o seu terminus, fabricar a sua reacção, provocando algumas lágrimas com uma cebola. Uma encenação de emoções que vai aprofundar o fosso com Jane, entre o que é quotidianamente rentável e o que é eticamente correcto.
Questões éticas
Tom, ao encenar a sua reacção com a queda de lágrimas, põe em causa uma das principais “bandeiras” agitadas por Jane – o respeito pelos factos, a exigência de se captar apenas aquilo que acontece sem forçar ou provocar voluntariamente qualquer atitude ou comportamento. Exactamente ao contrário, Tom fez parecer autênticas lágrimas que, na verdade e apesar da ligeira perturbação que sentiu, não chegaram a cair, além de que, após acontecerem, já não seriam reais, mas sim reconstituídas.
Condenada por toda a gente e ao mesmo tempo por todos aceite como praticamente inevitável, a visão comercial da informação e a sede de vedetismo, protagonizada por Tom, constituem igualmente dois dos temas mais abordados.
Encaradas as notícias como meros produtos de que o jornalista é o vendedor por excelência, Tom é o protótipo do apresentador eficaz nesta sua “missão” de promotor. Assim, além dos requisitos necessários do produto (ser sedutor e atractivo), o seu agente de comercialização não se deverá negar, se necessário for, à venda da sua própria imagem. Para tal, monta-se toda uma estratégia de marketing, preocupada com o consumo efectivo do produto (a audiência do programa) e sacrificando, se preciso for, um conteúdo consistente por uma embalagem tão bela quanto falsa.
Apesar da sua confessada incapacidade para dominar a actualidade (e não só), Tom assume gradativamente o papel de grande vedeta. Requisitado primeiro, reconhecido depois, promovido mais tarde e aclamado no final – são as suas reportagens e “discursos” que obtêm aprovação por parte do público que parece preferir a forma ao conteúdo.
Uma opção que parece satisfeita pela própria estação de televisão. Ao apostar em Tom em detrimento da já comprovada capacidade, conhecimento e experiência de Aaron, aquela “network” ajuda a consolidar a primazia do superficial sobre o profundo. Uma questão vital para Jane: “Sei que é divertido. Eu gosto de me divertir. Só que isto não são notícias”, refere-se no congresso, a propósito de um apontamento sobre animais, apresentado em detrimento de uma mudança política importante e relacionada com o desarmamento nuclear.
Jane e Aaron, sempre críticos e atentos, constituem uma reserva de bom senso numa redacção que, apesar disso, opta pela via de acesso directo ao lucro (através dos “itens” que lhe permitem as grandes audiências) terminando por premiar o carisma do locutor em prejuízo do conteúdo das notícias. Inserida no mercado competitivo, a estação relega os valores e oferece ao público o que este gosta. Tom, com a sua capacidade de sedução e telegenia, faz parecer que a cultura, nesta profissão, é uma condição de somenos importância e que os atropelos à ética, passíveis de repreensão, são afinal, um belo “trampolim” para o mundo das estrelas.
No final, Aaron transfere-se para uma estação local enquanto Tom é promovido com a atribuição de um lugar para Londres. Moral da história: melhor esteve quem trocou a responsabilidade pela excitação e se preocupou mais em escolher a cor da camisa do que em preparar um bom texto. Como afirma Marie Christine, da revista Séquence, “Broadcast News” «mostra que o jornalista bem sucedido não é aquele que tem o sentido da notícia, mas sim o sentido do espectáculo».
Pode, então, dizer-se que estamos do domínio da ficção pura? Não são estas personagens protótipos dos actuais profissionais e não é aquela redacção uma ‘bela’ amostra do que se passa em muitas estações de televisão?
Veremos, nos artigos seguintes, como “Broadcast News” se aproxima da vida real.

[1] LOURENÇO, Frederico – Broadcast News/1987.

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quarta-feira, 28 de maio de 2008

Ver rádio

Nas vésperas de mais um aniversário de “A menina da rádio”, olhamos para a imagem da telefonia neste filme.

Texto Luís Manuel Martins

O filme “A menina da rádio”[1], um dos clássicos do cinema português, foi realizado em 1944, por Arthur Duarte, sob a chancela da Companhia Portuguesa de Filmes. Esta produção cinematográfica trouxe pela primeira vez a rádio para o grande ecrã, consagrando-a como um meio de comunicação cada vez mais importante. A Emissora Nacional (EN), estação pública de radiodifusão, havia nascido em 1 de Agosto de 1935 e começava agora a criar um público cada vez mais fiel, que ouvia com agrado as emissões. A envolvência e a familiaridade que os locutores despertavam junto dos rádio-ouvintes eram tão grandes que, por vezes, havia quem se deparasse a criar imagens mentais da fisionomia das grandes vedetas que falavam “ao microfone”. A “Menina da rádio” vem desfazer os equívocos e as imagens estereotipadas que os portugueses haviam criado sobre o novo meio radiofónico.
Os anos 40 constituíram o maior período de expansão da rádio em Portugal. Os seus receptores ocuparam um verdadeiro lugar de honra nos lares dos portugueses, servindo de companhia e de fonte de entretenimento. A rádio tornou-se um elemento aglutinador para as famílias, que passaram a estar mais vezes reunidas a escutar as suas estações preferidas. Foi também na década de 40 que os comerciantes atraídos pela potencialidade que a rádio tinha para oferecer, a nível da publicidade, começaram a anunciar os seus produtos.
Os conteúdos radiofónicos eram muito variados e incluíam espaços de informação de carácter geral, noticiários, programas políticos e música. A programação musical ocupava um lugar de grande destaque. O filme “A menina da rádio” dá a conhecer o advento das grandes orquestras radiofónicas, que actuavam nos estúdios das emissoras, em directo e ao vivo. Os anos 50 viriam a dar lugar ao espectáculo radiofónico, realizado por gente do teatro, do cinema e das artes em geral, onde se destacavam jornalistas habituados a escrever peças para o teatro de revista, argumentos de cinema e textos publicitários para os jornais e para a rádio.
“O chefe de casa, que geralmente está ausente, passando o tempo por locais nem todos recomendáveis, descuidando o lar monótono, atraído pelo ruído e pelo movimento que encontra fora dele, começa a fazer nova vida. Quando não põe o aparelho a funcionar enquanto janta, fá-lo depois, deixando-se ficar em casa”, referiam Fausto Gonçalves e Pereira Machado em 1939. “A menina da rádio” mostrou ao país um fragmento real das actividades radiofónicas, preconizadas por conhecidíssimos colaboradores da Emissora Nacional, estação que surge no filme com o nome fictício de Rádio Lisboa. Assim, Jorge Alves, distinto locutor da EN, dá-se a conhecer ao grande público, agora não só pela sua voz firme e colocada, como também pela sua estatura alta e elegante.
No sentido da representatividade do locutor, enquanto profissão equiparada ao jornalismo, Isabel Travancas escreveu no seu artigo “O Jornalista Como Personagem de Cinema” que “a indústria cultural e particularmente o cinema são um campo privilegiado de produções simbólicas e mitos modernos”, considerando que a chamada sétima arte tem “lugar de destaque na modernidade”. A autora defende que “a linguagem cinematográfica transmitiu o impacto das transformações sofridas neste século [Século XX]” e refere que “o cinema com o seu enorme poder de penetração nos mais diversos grupos sociais ajudou a construir mitos, a divulgar saberes novos, como a psicanálise e a popularizar actividades e profissionais, como foi o caso da imprensa e dos jornalistas”.
Isabel Travancas deixa no ar uma interessante afirmação, seguida de uma pergunta: “É possível afirmar que o cinema colaborou com a construção de uma imagem, ou melhor, de algumas imagens do jornalista; representações que certamente influenciaram na escolha profissional de futuros repórteres. Quantas carreiras jornalísticas não devem ter nascido no «escurinho» de uma sala de cinema?”
“A menina da rádio” permite entender esta reflexão de Isabel Travancas no seu sentido mais lato, uma vez que foi muito bem aceite pelo grande público, não tanto pela crítica. Podemos mesmo falar de um fenómeno mediático, nunca antes visto em Portugal, que se prendeu com o facto de, na fase de pré-produção do filme, não se ter encontrado rapidamente uma protagonista para o papel principal. Depois de uma longa espera, alimentada por rasgos de algum sensacionalismo da imprensa da época, a escolha acabou por recair sobre Maria Eugénia, uma jovem talento, com apenas 16 anos de idade. Este foi um factor que acabou por pesar no retumbante sucesso de bilheteira, proporcionado por um público ávido de contactar com algumas das suas maiores estrelas do teatro e da rádio.
Imagem ou realidade?
Uma análise de imagem mais pormenorizada de certas cenas isoladas deixa igualmente uma dúvida. Será que o filme pode ser considerado um documentário? Manuela Penafria, no seu artigo “O documentarismo no cinema”, considera que a base de um filme documentário é “o registo in loco dos acontecimentos do mundo e da vida das pessoas”. Neste sentido, este filme adquire em certas cenas um certo pendor documentarista, que favorece a percepção da imagem, devido à contextualização, que apresenta, a nível do texto narrativo.
Michel Tardy considera que “a pedagogia das mensagens visuais não pode deixar de ser, primeiro, uma reflexão sobre a verdadeira natureza da imagem e sobre as suas coordenadas ontológicas. Discute-se interminavelmente sobre os seus conteúdos e a sua beleza eventual; mas o essencial que é examinar o seu próprio ser, fica esquecido. Ora, a imagem não coincide com a realidade que ela representa. A sua transparência não passa de uma opacidade camuflada: ela tem a inocência dos hipócritas. Entre o elemento indutor, a realidade, e o elemento induzido, a imagem, interpõe-se toda uma série de mediações que fazem com que a imagem não seja restituição, mas reconstrução da realidade”.
O autor, na sua obra “O professor e as imagens”, afirma que estas não constituem um mundo paralelo, mas um segundo mundo, com suas características próprias e suas leis específicas. A imagem é sempre alteração, voluntária ou involuntária, da realidade. A alteração voluntária não é, aliás, a mais significativa, porque resulta numa falsificação e remete para a suposição implícita de que se trata apenas de uma questão de honestidade; restaurada esta, o problema desapareceria. Ora, faça-se o que se fizer, a imagem sempre coloca em jogo processos de derivação; ela é, por natureza, e não de modo contigente, deformante”.
O filme, apesar do seu carácter eminentemente cómico de situação, proporcionado por actores emblemáticos como António Silva, Maria Matos e Ribeirinho, adquire em certos momentos a visão aproximada de um documentário. Isto porque demonstra a preocupação de veicular uma imagem positiva do potencial que a rádio tem para oferecer. É este, sem dúvida, o vector da narrativa, omnipresente ao longo de todo o filme. Igrejas Caeiro considera mesmo que a película “consegue retratar” a imagem das grandes estações de rádio nacionais, tal como a Emissora Nacional, em contraste com as pequenas rádios de bairro, das quais fazia parte o projecto de Cipriano Lopes (António Silva), com a criação do Rádio Clube da Estrela.
Segundo o antigo locutor da Emissora Nacional, «Havia exactamente várias rádios. As rádios formais, mais completas, e outras pequeninas. É esse trabalho que aparece no filme. É a rádio da rua, do sítio. Havia várias, não só em Lisboa, mas também no Porto. Havia rádiozinhas dessas. Rádios pequenas. Antes ia tudo à censura. Não passava nada. E coisas com que nós ríamos, porque não tinham pés, nem cabeça. Bem... Aí havia uma possibilidade de comunicar de outra maneira. Aquilo era uma piada, era uma graça. E há certas graças que convinham ao movimento de então. Há coisas que lhes davam jeito. Parecendo que estavam a dizer, agradava-lhes que isso fosse dito. De uma maneira geral, esse tipo de filmes não tinham assim grande forma de... [ser censurados]. Eram aceites”.
Em comentário no DVD, Igrejas Caeiro declara: “Aquilo era muito fácil para as pessoas, era muito agradável e deixavam que as coisas passassem. Foi muito interessante. As pessoas gostaram de ver. Porque já havia aí o interesse pelos artistas. Aqueles de que se gostava mais. E vê-las num filme assim foi agradável. Agora, a propósito dos filmes portugueses, embora muito bons do ponto de vista fácil, de agradável, de comunicante, os críticos davam cabo desses filmes. [Diziam que] aquilo não era cinema, que não era isto, que não era aquilo... Agora, passados tempos, passam-se esses filmes e toda a gente fica... Mas que cinema extraordinário que havia nessa altura!”.
“Alô, alô! Confeitaria Bijou da Estrela. Especialidade em doce de ginja, merengues, pudins e compotas. É aqui que se fabricam as afamadas broas de noz e os célebres rebuçados para a voz (tussindo). Serviços para casamentos e baptizados. Copos de água aos domicílios”. Assim começa Ribeirinho, empregado da Confeitaria do Sr. Lopes, a “ladainha” publicitária, que ganhava agora notoriedade no espaço radiofónico e induzia no público-alvo o desejo de comprar os mais variados produtos.
Neste aspecto, o filme é absolutamente fantástico. Ele retrata fielmente, a necessidade sentida pelo Sr. Lopes de mobilizar a vontade de um grupo de notáveis comerciantes do Bairro da Estrela, em Lisboa, para o seu novo e visionário projecto radiofónico, onde todos haviam de lucrar, uma vez conseguido o retorno dos investimentos em publicidade. Rosa Gonçalves (Maria Matos) encabeçava o rol de incrédulos e eternos rivais de Cipriano Lopes. Ela era na verdade uma personagem detestável, que Cipriano acusava de “querer calar a boca ao progresso”.
Na verdade, António Silva, quer no cinema, quer na sua vida do quotidiano, era um grande entusiasta da rádio. Uma das suas grandes preocupações era a necessidade desta constituir um meio de formação eficaz para as pessoas. O rádio-receptor, a torneira que, segundo ele, se abria e “jorrava música”, devia informar, mas também formar. Já agora porque não... divertir? Sem rodeios, preconizava que os que não tivessem aproximação às emissões se tornariam verdadeiros “analfarádios”.
A fita teve um grande sucesso na sua estreia, contudo a imagem que os críticos de cinema retiveram foi a de um filme insípido, demasiado fácil de ver. Ora, por vezes, o segredo do sucesso está na simplicidade. Dava-se ao público o que ele gostava, atendendo obviamente às especificidades e exigências das comissões de censura, que não perdoavam o mínimo deslize aos propósitos originais de “Servir a Pátria”, exigidos aos realizadores de cinema portugueses. Tudo tinha de ser feito “A Bem de Portugal” - a velha máxima do Estado Novo. Face à necessidade de captar um vasto auditório de ouvintes para a Emissora Nacional, ter-se-á servido o Estado deste filme, como estratégia de propaganda? É uma pergunta que fica no ar, com pertinência, creio.
Imagem ou imaginação
O sentimento de pertença e a familiaridade dos ouvintes com as emissões era muito grande, na década de 40. Há uma passagem maravilhosa ao nível da compreensão deste fenómeno, que é aquela em que Maria Eugénia se encontra a ouvir rádio com a mãe, escutando Fernando Verdial (Fernando Ribeiro) a cantar na Rádio Lisboa. Nesta cena, a menina da rádio, embebida pela envolvência do som, imagina-o como um televisor. A suspirar, afirma que a imagem mental que tinha daquele cantor da moda “parece um sonho”. A mãe (Maria Olguim), logo de seguida, retorquiu dizendo: “parece mas é bruxedo. Some-te!” [Benzendo-se]. Por aqui é fácil observar que certas pessoas ainda não estavam habituadas nem aos novos avanços tecnológicos, nem à nova forma de fazer rádio, já longe das primeiras experiências radiofónicas amadoras portuguesas dos princípios do século XX.
A filosofia de trabalho, baseada na persistência e na auto-formação, era praticamente a mesma. No entanto, investia-se crescentemente em bases mais sólidas de formação técnica e tecnológica dos colaboradores do meio radiofónico. Afinal eram estes que permitiam a transmissão de uma mensagem perceptiva e cultural, tal qual o modelo preconizado por Roland Barthes. A rádio povoava o imaginário colectivo. A própria palavra “imaginário” está relacionada com as imagens mentais que se criam por indução. A manipulação da realidade, ou a manutenção dos seus pressupostos, vai levar a que se gerem, ou não, imagens mentais fidedignas ou adulteradas do seu sentido original.
Para Martine Joly, o binómio Imagem/imaginário gera relações de complementaridade entre imagens e palavras, que reside no facto de “elas se alimentarem umas às outras”. Segundo a autora, “não existe qualquer necessidade de uma co-presença da imagem e do texto para que este fenómeno se verifique”, já que “as imagens engendram palavras que engendram imagens, num movimento sem fim”. Esta visão de Martine Joly está bem patente no filme “A menina da rádio”, já que o seu visionamento remete sempre para uma relação analógica e multiforme, de reconhecimento da realidade representada.
Voz e palavras
Manuela Penafria presta igualmente um contributo valioso para a compreensão deste filme, através do seu artigo “Ouvir imagens e ver sons”, apresentado nos VII Encontros de Cinema Música(s), realizado em Dezembro de 2003, no Cine Clube de Faro. A autora considera, antes de mais, que “a teoria cinematográfica tem estado algo arredada em estudar o som como elemento expressivo e fundamental dos filmes”.
A autora refere que o som pode ser de diferentes tipos, citando o de ambiente, os diálogos, a música, a locução (voz off) e os ruídos. Assim, falar de som em cinema implica “afastarmo-nos de um discurso que considera que o mesmo se dirige ao ouvido (assim como considerarmos apenas que a imagem se dirige ao olho)”. Imagem e som exercem assim uma acção complementar que favorece, ou não, a criação de ideias, crenças e valores, acerca da realidade que está a ser representada por via da transposição para o cinema.
Manuela Penafria menciona ainda no seu artigo que “com a introdução do som directo foi possível dizer-se que havia uma relação directa e linear entre a realidade e a sua representação. Entrevistas de rua e som ambiente enquanto parte integrante da realidade foram incluídas nos filmes. Mas, como sabemos, esse projecto de representação fiel da realidade foi mais um projecto de entusiasmo que efectivo”. Ainda segundo a autora, “quando a matéria da representação são imagens, estamos afastados do objecto representado, em especial, por questões estéticas (escolha de ângulos, enquadramentos, etc.), o que não permite essa relação linear com a realidade.
Através desta primeira abordagem, facilmente se perceberá a sua aplicação ao caso d’ “A menina da rádio”. Na verdade, em muitas cenas do filme são precisamente os momentos sonoros, que permitem que a sua visualização se torne inteligível, favorecendo a criação de uma imagem uniforme do meio radiofónico retratado. A imagem perceptiva que se tira de um filme fica muito a dever ao som, mais do que à imagem, em certas situações.
Arlindo Machado, no artigo “O fonógrafo visual”, afirma que há uma terminologia bastante desenvolvida na área da imagem, a nível, por exemplo, da profundidade de campo e enquadramentos, enquanto que para o som não se passa o mesmo. O autor considera ainda que quase sempre as discussões sobre o cinema partem do princípio que este é apenas um fenómeno visual, deixando de parte a componente sonora que, ou não é referida, ou é tratada marginalmente.
Importa citar as palavras reveladoras do realizador Pedro Sena Nunes, incluídas na sua retrospectiva, numa Edição do V Festival Nacional de Vídeo de Ovar: “Eu não consigo imaginar ou suportar um documentário em que não se sinta a escuta. Se quem fica do outro lado não está a ouvir, o objecto já não é um documentário. Se há definição possível de documentário será porventura essa: saber ouvir. E não é ouvir para registar. É saber que, para registares um bocadinho, muita coisa tem de ser ouvida”.
A nível de som e de escuta, não nos podemos alhear da grande popularidade das várias canções lançadas no filme “A menina da rádio” como, por exemplo, a canção “Sonho de amor”, da autoria de Silva Tavares. A música povoou assim o imaginário dos ouvintes e espectadores de cinema, muito para além do momento em que contactaram com o grande ecrã, o que contribui para a compreensão do fenómeno de proximidade que o filme “A Menina da Rádio” desencadeou.
Conceito
“Uma representação da realidade (física, como uma fotografia, ou imaginária, como uma música). Elemento essencial da comunicação de massa, desde que a fotografia entrou na imprensa e sobretudo desde que a televisão a aliou ao som e ao movimento. Sendo polissémica (passível de ter vários significados) necessita do texto (escrito ou verbal) para esclarecer o seu sentido. Mantém uma relação analógica com a realidade e, como sublinharam os semiólogos, tem duas leituras, uma denotada (o que representa de facto) e outra conotada (o seu valor simbólico, o que evoca além do que representa e depende do leitor). «O espectador da imagem recebe ao mesmo tempo a mensagem perceptiva e a mensagem cultural», afirmou Roland Barthes”
[2].
Martine Joly considera que “o termo imagem é tão utilizado, com todos os tipos de significados sem ligação aparente, que parece muito difícil apresentar uma definição simples e que abarque todas as maneiras de a empregar”
[3]. A autora reconhece que nós “compreendemos que ela [a imagem] designa algo que, embora não remetendo sempre para o visível, toma de empréstimo alguns traços ao visual e, em todo o caso, depende da produção de um sujeito: imaginária ou concreta, a imagem passa por alguém, que a produz ou a reconhece”.
A imagem “longe de ser um flagelo contemporâneo ameaçador, é um meio de expressão e de comunicação que nos liga às tradições mais antigas e mais ricas da nossa cultura”, explica Martine Joly. Para a autora, a sua leitura, mesmo a mais ingénua e quotidiana, mantém em nós uma memória que apenas exige ser um pouco estimulada para se tornar num utensílio mais de autonomia do que passividade”. Neste sentido, a compreensão de imagens necessita do recurso ao contexto da comunicação, à historicidade da sua interpretação e às especificidades culturais.
O cinema, como processo de sequencialização fotográfica, torna inteligíveis as palavras de Roland Barthes a propósito da fotografia. Barthes considera que o que faz da fotografia “uma imagem fundamentalmente diferente das outras imagens: é a dupla conjunção de realidade e de passado que ela propõe – aquilo que ela representa esteve ali. É aquilo a que Barthes chamou «isto foi». Será que: “Uma imagem vale mais do que mil palavras”? Arriscaria dizer que sim.
Independentemente de qualquer abordagem a nível de análise da imagem cinematográfica e da estruturação de uma imagem mental uniforme do meio radiofónico, o filme “A menina da rádio” é um excelente ponto de partida para a afirmação de um progressivo interesse pelos artistas, por parte do público, o que demonstra a instituição de valores culturais e de culto pelos personagens mediáticos da época. Para além disso, a vertente didáctica de construção da linguagem radiofónica e da estruturação programática dos novos conteúdos, próxima do grande público rádio-ouvinte e cinéfilo, cruza-se com a popularidade de locutores consagrados, equiparados a jornalistas, cantores, actores e colaboradores da rádio que, no seu tempo, souberam engrandecer a profissão que abraçaram. A todos eles se deve o sucesso do filme, a eles se deve a inspiração do meu trabalho.

[2] CASCAIS, Fernando - Dicionário de Jornalismo – as palavras dos media. [3] JOLY, Martine - Introdução à Análise de Imagem.

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