quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Mozart no telemóvel?



Publicamos hoje - dia em que faria 45 anos - um dos poemas* do cinéfilo, musicófilo e cosmófilo, antigo locutor na Rádio Activa, membro do grupo seis da Amnistia Internacional, presidente da Associação Portuguesa de Subbuteo e do Cineclube do Porto.



Final de tarde num Agosto qualquer.

Prenúncio de autocarro cheio em hora de

Ponta. Silêncio entrecortado por ruminantes

Telemóveis. O Pára-arranca do BUS transforma

Passageiros em equilibristas e mesmo em frente

A mim uma mulher com aspecto desgastado

Mata o tempo a carregar nas teclas do

Telemóvel. Que toca. Alto. Abafado o som, é

Interpelada por um idoso com curiosidade

Pelas novas tecnologias. – O seu telemóvel dá

Música? Ignora-o (estava de phones).

- Desculpe, o seu telemóvel dá música? Não era

Nada com a sujeita, entretida a mandar

Mensagens escritas.

O Ancião não resiste, toca-lhe no braço e

repete a pergunta. A sujeita tira um phone do

ouvido e com ar contrariado erra: SIM. DÁ!

Volta a colocar os phones e com enfado, volta

À música e ao teclado do aparelho. Não ouve

(ou não quis ouvir) a pergunta nova do

Incauto: Não dá a 5ª de Mozart, pois não?

Como não obteve resposta, ficou cabisbaixo a

olhar para um vazio enorme, com cara de

arrependido, cogitando certamente se não

deveria ter antes optado por Beethoven ou

Wagner. O alarido continuava noutros lugares

do veículo e eu senti-me também

envergonhado por não ter respondido algo

como – é grande demais para tão minúscula

caixa, não lhe parece?

Porto, 27/8/2002

* "Mozart não cabe no telemóvel" in BASTO, Fernando J. Pinto - Por ti e para ti, Edição de autor, Fevereiro 2005, pág. 71-73.

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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Ter razão?


Figuras humanas

Ao aproximar-se o Dia Internacional para a Tolerância, “eis” quem tem “A razão” - um poema de Carlos Paião, editado em 1984.

Pintura Alexa

«Algures na tarde
Há um fumo que arde
No sangue de dois faladores.
Discutem, agitam,
E, com o que gritam,
Atraem mais espectadores.
Têm a raiva nos dentes
E fogo no olhar,
Atiram serpentes
De fúria, ao falar!
Perguntam à toa,
Respondem que não
E, mesmo que doa,
Hão-de ter
A Razão, a Razão!
Com frases alheias
Defendem ideias
Que ouviram alguém defender.
Arriscam a fé
E enganam até,
Se sentirem que podem vencer.
E não buscam Verdade,
Que é isso, afinal?
Viva a tempestade,
Mentir não faz mal!
Avançam nos gritos
(Talvez frustração)
E por ditos não ditos
Lá têm
Razão, a Razão, a Razão!
E uma criança sem tempo
Aproximou-se, atrevida...
E tem na frente o exemplo
Do que é ser gente crescida!
Afasta-te já,
Não demores por cá,
Tu não ouves, não olhas, não vês!
Tu és simples e justa
Ai eu sei quanto custa
Tentar aprender os porquês...
Tu és vida e bonança
Depois do furor,
És sol de esperança
Dalgum sonhador.
Sorris na beleza
Da tua ilusão,
Tu tens a pureza
De não
Ter Razão, ter Razão...
Eu invejo o sorriso
Que agora te vi,
Criança, eu preciso
Lembrar-me de ti!
Na vida tão escura
Tens luzes na mão:
O sonho, a Ternura,
O Amor,
A Razão, a Razão,
A Razão! ...»

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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Somos todos livros


A anteceder o dia dos namorados, publicamos um poema de um autor, antigo presidente do Cineclube do Porto, cujo nascimento se recorda esta semana.

Texto Fernando J. Pinto Basto pintura Alexa
«Somos todos livros à espera
Que nos leiam
Mas às vezes rasgam-nos ou
Então
Não reparam sequer em
Nós e tornámo-nos
Então
Em calhamaços
Empoeirados, emproados
Tristes folhas que
Nenhuma vista porá
Os olhos
Em lágrimas
Abandonados cheios de vigor
Para agarrar a
Tinta, os trinta
Então
Quase sem darmos por isso
Já só queremos
Um desfolhar por breve
que seja
para podermos contar a
olhos distraídos a história
perdida algures
então
alguma palavra se destaca
no meio de capítulos
sem interesse absoluto, absurdos
e ficamos nítidos
de novo, como outrora
então
podemos chegar a ter
muita saída, ser um
best-seller,
iludidos com o
sucesso fácil e aparente
de quem só está na estante para decorare ser visto
então
gostaríamos de ser
lidos em surdina
secreta e intimamente
como um livro de cabeceira»
Porto, Março 2001

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