terça-feira, 11 de junho de 2013

Elucidações


Abraçamos a entrada no nosso sexto Verão esclarecidos por alguns excertos de     livros editados pelo CLUC - Centro Lusitano de Unificação Cultural.

Selecção e fotografia Dina Cristo


«Bem-aventurados os que superam a dor e as crises por dentro e não por fora» (4)

«A real "expansão" faz-se "para dentro"» (3)


«Repudiar o mal e, não obstante, amar interiormente o seu portador» (2)

«É incomparavelmente mais importante transmitir amor, estabelecer laços de solidariedade e promover valores justos e edificantes do que ter uma profissão materialmente produtiva» (1).

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Vida espiritual



Em época natalícia folheamos um dos Tratados inseridos no “Livro dos Preceitos de Ouro”, escrito em Sânscrito, e editado no final do Séc.XIX em Inglaterra.


Texto Dina Cristo

Entre os principais ensinamentos estão matar a ambição, a fome de crescimento, todo o sentido de separação, o desejo de sensação, de conforto e o próprio desejo de viver. «O Caminho e a verdade vêm em primeiro lugar, em seguida vem a vida», indica Mabel Collins neste livro, um clássico da literatura espiritual oriental, editado em Londres em 1885.

«Cada homem é para si próprio absolutamente o caminho, a verdade e a vida», depois de ter dominado a personalidade. «Uma vez que tenha passado pela tormenta e atingido a paz, então é sempre possível aprender», afirma a autora que aconselha: «Procura pela flor que desabrocha durante o silêncio que se segue à tormenta (…)», altura em que a percepção desperta.

A autora britânica ensina a desejar somente o que está dentro e além de cada um e é inalcançável. Fixar os sentidos no invisível e no inaudível é a única cura para o desejo, assegura. Mabel Collins orienta a desejar ardentemente o poder e fervorosamente a paz e quanto a posses que estas sejam acima de tudo para o Eu, a Alma Pura. «Deseja apenas plantar a semente do fruto que alimentará o mundo», afirma.

Dos ensinamentos fazem parte a observação de tudo ao redor de cada um, incluindo as sensações. Há que ter confiança, abrir a alma, auxiliar os outros, ajudar as pessoas que fazem o bem (em vez de censurar ou afastar-se do mal), controlar e usar o eu, a personalidade, um instrumento de experiência e experimentação sujeito ao erro.

Há que combinar um pouco de leitura ou de escuta com muita meditação, cientes de que a voz mental apenas é ouvida no plano em que a mente actua, que ao conservar os olhos fixos na pequena luz ela crescerá, que é no centro, na Alma, que reside a esperança e o amor e que é no silêncio que se encontra um momento de satisfação, de paz e de força.

Entre as verdades essenciais, como a alma e o princípio que dá a vida ser imortal – demonstrado por Immnuel Kant – cada pessoa é o seu próprio legislador. E um dos conselhos deixados pela autora, inspirada por Hilarion, que pertenceu ao movimento gnóstico e neoplatónico, é mesmo estudar as leis, entre as quais a da Graça.

Entre as regras transmitidas está procurar o Caminho, recolhendo-se para o interior e avançando ousadamente para o exterior, sabendo que para cada temperamento há uma estrada (mais) adequada. Depois de iniciada não há mais que ceder às seduções dos sentidos ou então experimentar até não mais ser afectado por elas.

É a dor, em primeiro lugar, e depois a sua superação que leva os seres humanos a ouvir a alma, a fazer silêncio e a encontrar a paz. «Assim como o indivíduo tem voz, aquilo em que ele existe também tem voz. A própria vida tem uma fala e nunca está silenciosa», escreveu a autora desta obra cuja segunda parte é dedicada apenas a discípulos.

Carlos Cardoso Aveline, teósofo, faz, no seu website uma análise e interpretação do Tratado para se ler com os olhos do espírito: « “Luz no Caminho” [1] tem um estilo paradoxal, e fala mais à alma que ao cérebro. Contém palavras, mas está livre delas. Leva o leitor a um plano da realidade em que a compreensão está além da linguagem verbal e transcende as suas limitações. A obra fala aos dois hemisférios do cérebro humano, o lógico e o intuitivo. Dá conselhos aparentemente contraditórios, mas isto se deve ao fato de que a natureza do ser humano é, realmente, dual».

(1) “Luz no Caminho”, Mabel Collins, edição de bolso com 110 pp., Editora Teosófica, Brasília, 1999. Há uma edição da Editora Pensamento, com 85 pp.

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quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O Graal


Quase quatro anos depois de um grupo informal ter iniciado o ciclo "Na Demanda do Graal", que decorreu durante vários Equinócios e Solstícios em nove locais de Portugal, desvendamos um pouco o seu carácter.

Texto e fotografia Dina Cristo 

O Graal é, segundo a Tradição, a taça que Jesus Cristo usou na noite da Ceia e onde foram recolhidas, após a sua crucificação, algumas gotas de sangue, por José de Arimateia, que a deixou ao seu filho. A taça representa o princípio feminino, que acolhe e protege o sangue - vermelho, cor de Marte - a mais preciosa das quintas essencias.



A taça simboliza a matéria, o corpo, a receptividade, que consegue atrair e fixar o Espírito, depois de purificada. «Há uma coisa que o Graal e as suas virtudes não poderão tolerar nunca em ti: o descomedimento dos desejos», afirmava Wolfram von Eschenbach. Depois de transcender a dimensão passional, reaparece espiritualmente, como a fénix renascida das cinzas.



O Graal contém dois mitemas: a procura da iniciação espiritual, do conhecimento iniciático, e o regresso do Rei Artur, a restauração de uma Idade de Ouro, Era do Espírito Santo - o regresso de um reino onde volta a existir a harmonia entre os seres (humanos) e a Comunicação entre a Humanidade e a Divindade.



Numa outra versão, o Graal é a taça talhada de uma esmeralda - a pedra preciosa, lapsit exilis, qual pedra filosofal, verde, cor de Vénus - caída da fronte de Lúcifer, quando este se precipitou sobre o abismo, após a revolta contra o Divino. O receptáculo das comunicações celestes corresponde ao sexto raio e ao número 235.



O santo Graal simboliza, assim, a união dos dois princípios, o feminino, o corpo, a mãe, a terra, que recebe e acolhe o princípio masculino, o espírito, o pai, o céu. Segundo a Tradição, Portugal, qual Porto do Graal, desempenha uma missão na procura e no retorno da Taça da Abundância e Alegria, Fonte de Vida e de Luz cujo rasto se perdeu.

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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Francisco de Assis


Na véspera do Dia de S. Francisco, quando se assinalam 830 anos sobre o seu nascimento, mostramos o excerto inicial de 68 sonetos sobre a vida do frade italiano recitados pelo Frei Morgado do Convento Franciscano de Santo António do Varatojo.

Recolha e selecção Dina Cristo


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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Teosofia


Helena Petrovna Blavatsky


Esta semana assinalam-se 135 anos do Movimento Teosófico moderno - oportunidade para desfolharmos um pouco da sua história, (re)conhecermos as suas individualidades e actuação também em Portugal.


Texto Joaquim Soares


Na sua essência, o movimento teosófico tem a origem na noite dos tempos. Ele é invisível e a sua acção pode ser notada ao longo de toda a história humana, em todos os tempos e lugares. Ele começou no Mundo Espiritual superior e os seus efeitos podem ser observados, século após século, na contínua luta pela liberdade de pensamento, no labor abnegado pela evolução moral da humanidade, na destemida afirmação dos valores do espírito, da dignidade do ser humano e do valor sagrado da vida. Ele é o meio de expressão no mundo da Sabedoria Divina, ou Teosofia, presente nas grandes religiões e filosofias e nas principais ciências da humanidade.
Para a nossa era e geração actual, o movimento teosófico, ou a escola moderna de Teosofia, foi criado há 135 anos. No dia sete de Setembro de 1875, uma terça-feira, dezassete pessoas reuniram-se na residência de Helena Petrovna Blavatsky [1] em Nova Iorque, para ouvirem uma palestra de George Henry Felt sobre os mistérios antigos, intitulada “O Cânone Perdido das Proporções, dos Egípcios, Gregos e Romanos”. Após um intenso debate, Henry Olcott, lançou a proposta de criar uma Sociedade para que se pudesse continuar aqueles estudos. Nessa mesma reunião, Henry S. Olcott foi eleito presidente e William Q. Judge eleito secretário. [2]
Os seus três objectivos declarados são até hoje os seguintes: I – Formar o núcleo de uma Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor; II – O estudo de religiões, filosofias e ciências antigas e modernas, e a demonstração da importância de tal estudo; III – A investigação das leis inexplicadas da Natureza e dos poderes psíquicos latentes no homem;[3]
O movimento teosófico adoptou também o antigo lema do Marajá de Benares, na Índia, que é originalmente em sânscrito: “Satyat Nasti Paro Dharma”. Helena Blavatsky faz a seguinte tradução na edição original de “A Doutrina Secreta”: “Não há religião (ou lei) mais elevada que a verdade”[4].
As bases do movimento teosófico moderno foram lançadas essencialmente entre 1875 e 1891, quando morre H.P.Blavatsky (HPB). Esta notável mulher foi autora das mais maravilhosas e profundas obras de Filosofia Esotérica – ou Teosofia –, sem paralelo na história da literatura filosófica dos últimos dois mil e quinhentos anos. A obra de HPB é uma referência confiável para aqueles que se esforçam por percorrer com seriedade o caminho espiritual. O estabelecimento do movimento teosófico foi, sem dúvida, a sua principal herança, a sua verdadeira obra-prima, a sua maior dádiva à humanidade.
Pouco tempo depois da sua fundação em Nova Iorque, o mesmo movimento universalista surge na Índia, em Adyar. É preciso, no entanto, ter em consideração que não existe hoje nenhuma instituição que detenha o monopólio da Teosofia ou do movimento teosófico.
Como escreveu William Judge: “Há uma diferença muito grande entre o Movimento Teosófico e qualquer Sociedade Teosófica. O Movimento é moral, ético, espiritual, universal, invisível excepto nos seus efeitos, e contínuo. Uma Sociedade formada para o trabalho teosófico é uma organização visível, um efeito, uma máquina para conservar energia e para colocá-la em acção; ela não é nem pode ser universal, nem é contínua. As corporações teosóficas organizadas são feitas pelos homens para uma melhor cooperação, mas, como são meras cascas externas, elas devem mudar de tempos em tempos à medida que as falhas humanas aparecem, à medida que os tempos mudam, e à medida que o grande movimento espiritual subjacente provoca tais alterações.” [5]
O movimento é amplo e diversificado: ele contempla diversas linhas e propostas de trabalho, e não está preso a nomes ou corporações. Sabemos que ao nível do plano oculto, nada está separado no movimento esotérico.


Correntes (inter)nacionais

As três principais tendências do movimento são hoje a Sociedade Teosófica (ST) de Adyar, a Sociedade Teosófica de Pasadena e a Loja Unida de Teosofistas (L.U.T). A ST de Adyar congrega entre 80 a 90 por cento dos milhares de estudantes teosofistas do mundo, seguida da L.U.T, que está presente em 15 países e, por fim, da ST de Pasadena, presente em 9 ou 10 países. Para além destas três linhas de trabalho principais, existem depois várias outras pequenas associações e grupos de estudantes significativos, importantes, espalhados por vários países do mundo.
Em Portugal, o movimento teosófico teve a sua primeira aparição através da obra do pensador Frederico Francisco Stuart e Mourão (1827 – 1908), o Visconde de Figanière. Discípulo directo e colaborador de Helena Blavatsky, Figanière foi o grande pioneiro da teosofia moderna em língua portuguesa.
Em 1889, Figanière escrevia na sua obra “Estudos Esotéricos: Submundo, Mundo, Supramundo” palavras proféticas: “O materialismo é uma das aberrações do século. A sociedade expectante está dando sinais de impaciência e de cansaço. (…) Quando as duas irmãs – como as chama o professor Huxley – quando a Religião e a Ciência se congraçarem, prestando-se mútuo auxilio com a Filosofia de permeio (um ternário ou trindade, como em toda a potência que se manifeste) é de crer que se repita, com variante, o que já, mais de uma vez, se tem realizado neste mundo, se não mentem as vozes vindas de longe.” [6]
Em 1921, é criada em nosso país a primeira secção nacional da Sociedade Teosófica de Adyar. Em 1990, é feito algum trabalho por um pequeno grupo de estudos da L.U.T. Em 2010, surge publicamente em Portugal pela primeira vez a Loja Luso-Brasileira da L.U.T., que pretende, de certo modo, resgatar e valorizar o esforço pioneiro do Visconde de Figanière.
É importante referir que “a Teosofia, como filosofia abstracta e universal, desdobra-se na prática e no dia-a-dia através de um amplo Movimento Teosófico onde não faltam desafios e limitações humanas.” [7] Sendo um movimento humano, significa que tem em si verdades e ilusões, a letra morta e o espírito que vivifica, significando que erros do passado precisam ser corrigidos, propostas fantasiosas devem ser abandonadas e quaisquer processos burocráticos e autoritários necessitam ser extinguidos. O movimento teosófico funciona, afinal, como o grande meio de provação, teste e aprendizagem para os estudantes de teosofia.
Em 135 anos, o movimento teosófico influenciou o pensamento humano em muitas áreas. [8] Sendo um movimento de ideias, é notório que a sua missão está muito longe de estar cumprida.
Na sua obra “A Chave Para a Teosofia” H.P.B. faz a seguinte descrição: “Se o movimento teosófico fosse mais um dos numerosos modismos de hoje em dia, que são no final das contas tão inofensivos quanto evanescentes, ele seria simplesmente um motivo de riso (...), e seria deixado de lado. Mas a verdade é muito diferente. Intrinsecamente, a teosofia é o movimento mais sério da era actual; e um movimento, além disso, que ameaça a própria existência da maior parte das falsificações, dos preconceitos e dos males sociais da actualidade, todos legitimados pela tradição; males que engordam e tornam felizes a minoria dominante e os seus imitadores e bajuladores - os pouco numerosos membros da classe média alta - ao mesmo tempo que claramente esmagam e fazem passar fome milhões de pobres.” [9]
A tarefa do movimento teosófico não é de curto prazo. A sua função é plantar as bases da futura civilização planetária. Como escreveu um estudante: “O verdadeiro movimento teosófico, que é maior do que quaisquer rótulos externos, está presente onde quer que emerja e actue a nova consciência planetária baseada na busca da verdade sem dogmas, na solidariedade universal e na fraternidade sem fronteiras.” [10].



[1] Ler “Helena Blavatsky – A Sabedoria Universal”, José Manuel Anacleto, Biosofia n.º1, Lisboa, 1999, pp.20-24. Aconselhamos igualmente a leitura da excelente biografia “Helena Blavatsky – A Vida e a Influência Extraordinária da Fundadora do Movimento Teosófico Moderno”, de Sylvia Cranston, Ed. Teosófica, Brasília. [2] Adaptação do texto “Sete de Setembro em Nova Iorque”, no website www.filosofiaesoterica.com . [3] Texto traduzido da contracapa do livreto “Work for Theosophy - Articles by William Q. Judge”, The Theosophy Company, Los Angeles, Califórnia, EUA, 48 pp. [4] “The Secret Doctrine”, H.P. Blavatsky, Theosophy Company, Los Angeles, 1982, volume I, p. xli. A edição brasileira neste ponto não é perfeitamente fiel ao original: “A Doutrina Secreta”, Ed. Pensamento, volume I, p. 64. [5] Do texto “O Movimento Teosófico – Interesses Corporativos Não Controlam a Sabedoria Universal”, do website www.filosofiaesoterica.com. [6] “Estudos Esotéricos: Submundo, Mundo, Supramundo”, Livraria Internacional de Ernesto Chardron, Porto, 1889, 744 pp., Capítulo I, “Introdução”, pp.31-32. Esta obra teve uma edição brasileira que publicou apenas parte do seu conteúdo. Trata-se de “Submundo, Mundo e Supramundo”, Visconde de Figanière, Editora Três, Biblioteca Planeta, São Paulo, 298 pp., 1973. Veja-se outro texto de Figanière intitulado “
A Palavra e o Pensamento”, publicado no website http://www.vislumbresdaoutramargem.com/. [7] Do textoA Teosofia e o Movimento Teosófico”, do website http://www.filosofiaesoterica.com/. [8] Ler “Helena Blavatsky – A Vida e a Influência Extraordinária da Fundadora do Movimento Teosófico Moderno”, de Sylvia Cranston, Ed. Teosófica, Brasília. [9] Traduzido directamente de “The Key to Theosophy”, H.P.Blavatsky, Theosophy Co., Mumbai, Índia, p. 269. Na edição em língua portuguesa de “A Chave Para a Teosofia” (Ed. Teosófica), veja p. 233. [10] Do texto “Sete de Setembro em Nova Iorque”, no website http://www.filosofiaesoterica.com/

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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Árvore de Natal


Próximo do Natal, concentramo-nos no significado de um dos símbolos mais usados: a árvore.

Texto João Gomes* fotografia Dina Cristo

«Toda a vez que encontres nos nossos livros, uma narrativa cuja história te pareça impossível, um conto que é repugnante tanto à razão como ao senso comum, tem então a certeza que a parábola contem uma profunda alegoria, velando uma misteriosa e profunda verdade e, quanto mais absurda é a letra, mais profunda é a sabedoria do espírito.»
Moisés Maimonides -Teólogo Judeu, médico, historiador, talmudista e filósofo (1135-1205).
Todos os anos, por altura do Solstício de Inverno, celebramos o nascimento do deus menino, o salvador da humanidade sofredora. Muito poderia ser dito acerca desta criança divina, deste sol espiritual que deverá, mais tarde ou mais cedo, emergir em cada um de nós para nos salvar, para nos libertar, para nos emancipar. Todavia, não é este o âmbito deste trabalho, fica talvez, para uma próxima oportunidade.
Um dos elementos simbólicos mais poderosos da quadra de natal é, seguramente, a árvore. Não há casa, não há lar, por mais modesto que seja, que não tenha a sua árvore de natal, alegrando e encantando os nossos e os corações das crianças, com as suas tímidas e volúveis luzes.
A árvore é já por si só, na dimensão simbólica, um mundo. Encontramo-la em inúmeras tradições mitológicas e religiões. Logo nos primeiros capítulos da Bíblia, no Jardim do Éden, deparamos com a referência a duas árvores especiais: a da vida e a da ciência do bem e do mal. Foi a ingestão dos “frutos” desta que tornou o homem um deus. Encontramos no Génesis, depois do episódio da queda de Adão e Eva, o seguinte: “O Senhor Deus disse: «Aqui está o homem, que pelo conhecimento do bem e do mal, se tornou como um de nós.»”
[1].
O episódio relata simbolicamente o despertar da mente no ser humano. A fruta da árvore representa o intelecto. É a mente que nos permite distinguir o bem do mal e fazer ciência. Uma criança, um animal, que têm a sua mente ainda imatura e infantil, não estão prontos para discernir o bem do mal. Por outro lado, o despertar da mente permitiu também ao homem criar cultura, as “túnicas de pele”, referidas no texto sagrado[2], são uma personificação dessa capacidade.
Por sua vez, na vida de Buda, os acontecimentos mais importantes ocorrem debaixo de árvores. Ele nasce no jardim de Lumbinî
[3], debaixo de uma enorme árvore sâla. Atinge a iluminação sentado em meditação sob a árvore de boddhi[4] e desencarna, no bosque de Upavattana, deitado à sombra de duas árvores gémeas sâla[5].
No cap. 15 do Bhagavad Gittâ (sagrada escritura hindu) vem descrita a árvore Ashvatha (ficus religiosa), cujas raízes se encontram viradas para cima e a copa para baixo. Esta árvore invertida simboliza o Universo nas suas duas dimensões: a metafísica e a material. As raízes ligadas ao céu, personificam os mundos espirituais que alimentam a árvore – é o espírito que anima a matéria e lhe dá vida. A copa, dirigida para baixo, representa o plano material, as esferas mais “baixas” e mais densas. Diz-nos o versículo 3: «Não se pode perceber a verdadeira forma desta árvore, ninguém pode compreender onde ela acaba, onde começa, ou onde se alicerça.»
Tendo dado uma panorâmica mais alargada da simbólica da árvore, vamos agora focalizarmo-nos no simbolismo da árvore de natal. Em primeiro lugar, tal como Ashvatha, a árvore de natal, corporifica o nosso Sistema. O Sistema Solar na sua dimensão física e espiritual. A parte mais larga, a base da árvore, personifica os mundos mais densos e mais materiais; a secção mais estreita representa as esferas mais elevadas e espirituais. Encimando a árvore encontramos a estrela que simboliza o Logos, a Divindade Suprema do nosso Sistema: Deus dos cristãos, Allah dos muçulmanos; Ishvara dos hindus e Amon-Rá dos antigos egípcios. Penduradas na árvore colocamos as bolas coloridas, que corporificam os astros e os planetas. Enrolando à volta da árvore penduramos as luzinhas que representam as estrelas cintilantes que iluminam o céu. Completamos algumas vezes o quadro, prendendo anjos, fadas e gnomos, que personificam as Hierarquias Criadoras. A árvore torna-se assim um microcosmo, um reflexo do Cosmos em que “vivemos, nos movemos e temos o nosso ser”.
Ela representa em última análise, a unidade da vida, a unidade de todo o organismo vivo cósmico. Nada está morto, tudo pulsa com a vida divina. Do mais gigantesco astro à mais ínfima partícula subatómica tudo está prenhe do Espírito Santo.


* Teósofo e holista

[1] Génesis 3. 22. Repare-se na utilização do prenome plural “nós”(3) em vez do singular. Em rigor, não é Deus, o Senhor Supremo do Sistema, que cria o homem mas, as Hierarquias Criadoras, (Anjos, Arcanjos, Principados …) que criam o homem. Adão e Eva, personificações da humanidade colectiva, ao comerem o fruto da Árvore da Ciência do Bem e do Mal tornaram-se deuses. Ou seja, o despertar da mente na humanidade, tornou-a uma Hierarquia Criadora capaz de cultura, de ciência e de ética (distinção entre o bem e o mal). [2] Génesis 3. 21 [3] Paul Carus. Open Court. «The Gospel of Buddha» 4.5 [4] Ibid. 11.1 [5] Ibid. 96. 1-2

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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Antropogénese

Nesta segunda parte apresentamos a evolução humana numa perspectiva teosófica. Começamos pelos primeiros contestatários à teoria proposta em "A origem das espécies", faz Terça-Feira 150 anos.

Texto Joaquim Soares desenho Cristina Lourenço

Darwin fez, sem dúvida, um conjunto notável de descobertas que explicam muitos aspectos do processo evolutivo (no plano físico). Isso é indesmentível. E se atentarmos para o facto de que essas mesmas descobertas acabaram por abalar os dogmas da religião oficial do Vaticano, então o nosso reconhecimento é ainda maior. A questão, no entanto, é que, baseado nessa visão parcial dos processos da natureza, Charles Darwin especulou que a vida era conduzida por um acaso cego, caindo no dogma materialista, o que, mais tarde, acabou por ser usado para legitimar ideologias que reforçaram a exploração humana. Estava assim criado o cenário para a negação absoluta da natureza espiritual do homem.
Reconhecemos alguma razão a Fred Hoyle quando disse que era “perseguido pela convicção de que a filosofia niilista que a chamada opinião educada decidiu adoptar depois da publicação de ´A Origem das Espécies` conduziu a Humanidade no rumo de uma auto-destruição automática”[1].
Ao contrário do que muitas vezes se quer fazer crer, a doutrina darwinista encontrou oposição logo nos primeiros anos em que foi tornada pública. Vários foram os autores e cientistas contemporâneos de Darwin que repudiaram muitas das especulações darwinistas, entre os quais vale a pena destacar Alfred Wallace (co-autor da Teoria da Evolução das Espécies) e J. Louis de Quatrefages (renomado naturalista francês). Em algumas das suas obras, Wallace e Quatrefages apresentaram dados que deveriam ter inspirado os seguidores de Darwin a serem bem mais prudentes e humildes.
Foi exactamente a humildade de quem está comprometido, acima de tudo, com a Verdade, que levou Quatrefages, a escrever, por exemplo: “para aqueles que me questionam sobre o problema da nossa origem, eu não hesito em responder em nome da ciência – EU NÃO SEI.” Referindo-se também à falta de prudência e bom-senso, afirmou peremptoriamente: “Infelizmente, por ter esquecido os trabalhos dos seus predecessores, Darwin e os seus seguidores conceberam conclusões erróneas a partir de suas premissas. Eles imaginam que deram explicações quando afinal não deram nenhumas”
[2] Tanto Quatrefages como Wallace apresentaram dados que provavam ser a humanidade muito mais antiga do que pressupunha a teoria darwinista. O próprio Wallace, um espiritualista convicto, acreditava que a chamada “Selecção Natural” era insuficiente para justificar o aparecimento e o desenvolvimento das espécies e do Homem. Ele acreditava que Inteligências superiores guiavam os processos evolutivos, que ele via como necessárias para responder às inúmeras questões para as quais a teoria darwinista não tinha resposta.
Uma corajosa senhora

No entanto, a pessoa que se opôs mais vigorosa, destemida e eloquentemente à teoria darwinista da evolução foi Helena Blavatsky, fundadora do
Movimento Teosófico Moderno[3]. Escreveu ela em 1888: “A Ciência hoje tem uma inegável predilecção por apresentar ao público, como fatos comprovados, hipóteses baseadas em ideais pessoais; por oferecer, em lugar de conhecimentos, meras suposições com o rótulo de ´conclusões científicas`. Os especialistas preferem inventar mil e uma especulações contraditórias a confessar um facto embaraçoso mas evidente por si mesmo (…)”[4]
Sobre a “Selecção Natural”, afirma Blavatsky, sem rodeios, em “
A Doutrina Secreta”: "No que tange à Selecção Natural em si, noções as mais erróneas têm curso entre os pensadores actuais, que aceitam tacitamente as conclusões do darwinismo. Por exemplo, é um mero artifício de retórica atribuir à Selecção Natural o poder de originar espécies. A Selecção Natural não é uma entidade; é só uma expressão cómoda para indicar como se dá a sobrevivência do mais apto e a eliminação dos inaptos na luta pela existência. Todo o grupo de organismos tende a multiplicar-se além dos meios de subsistência; a luta constante pela vida – a ´luta pata obter o bastante que comer, e para escapar de ser comido`, adicionada às condições ambientes – necessita de uma perpétua eliminação dos inaptos. Os seleccionados de cada grupo, que assim permanecem, propagam a espécie e transmitem suas características orgânicas aos descendentes. Todas as variações úteis se perpetuam desse modo, e uma progressiva melhora se realiza. Mas a Selecção natural – a ´Selecção como poder`, na humilde opinião da autora – realmente não passa de um mito; especialmente quando a ela se recorre para explicar a Origem das Espécies. É tão-somente um termo representativo, que exprime a maneira pela qual as ´variações úteis` se esteriotipam quando produzidas. (…) O Darwinismo só descobre a evolução no seu ponto médio, isto é, quando a evolução astral cede o campo ao funcionamento das forças conhecidas pelos nossos sentidos actuais."[5]
Uma terceira hipótese

Existe uma profunda divergência entre a teoria darwinista e o ensino da
Teosofia ou Sabedoria Esotérica (que nada está relacionada com crenças infundadas e esoterismos a vulso, tão infelizmente na moda). A Antropogénese Ocultista está em consonância com as tradições religiosas universais dos povos (porque, em verdade, está na sua base) mas em flagrante oposição ao ensino religioso literalista e sectário, e vai muito mais além do paradigma darwinista da Evolução.
Na sua monumental obra “A Doutrina Secreta”, Blavatsky apresenta a Antropogénese dos Ensinamentos Secretos do Oriente. Para além disso, num trabalho notável de investigação e de fundamentação rigorosa dos princípios enunciados, oferece-nos um enorme volume de provas de todo o tipo, entre elas várias evidências geológicas que estão de acordo com os ensinamentos ocultos sobre a origem do Homem.
Por isso, permanecem mais do que actuais estas suas palavras: “A antropologia de Darwin é o incubo do étnologo, filha robusta do materialismo moderno, que se desenvolveu e adquiriu cada vez mais vigor à medida que a inépcia da lenda teológica da "criação" se fazia mais e mais aparente. E medrou graças à estranha ilusão de que, como diz um reputado homem da ciência, ´Todas as hipóteses e teorias acerca da origem do homem podem reduzir-se a duas (a explicação evolucionista e a versão exotérica da Bíblia) … Nenhuma outra hipótese é admissível…! `"
[6] Contrariando essa ideia, Blavatsky afirma peremptoriamente: a “antropologia dos Livros Ocultos é, no entanto, a melhor resposta que se pode dar a afirmativa tão pouco razoável."[7]
O Conhecimento Sagrado

O conhecimento presente nos referidos livros ocultos do Oriente, contêm uma exposição dos princípios da Eterna Sabedoria, ou Teosofia, que "foi a religião universalmente difundida no mundo antigo e pré-histórico"
[8] e que, “refulgindo em fragmentos dispersos em todas as religiões e filosofias”[9], se encontra(va) velada em linguagem simbólica em milhares de escritos. Parte desses ensinamentos eram outrora comunicados na instituição dos Mistérios, sob forma alegórica. Conforme nos informa Blavatsky, a “fase que se inicia com Buddha e Pitágoras, e finda com os Neoplatónicos e os Gnósticos, é o único foco, que a história nos depara, aonde pela última vez convergem os cintilantes raios de luz emanados de idades remotíssimas e não obscurecidas pelo fanatismo."[10] Podemos perguntar, entretanto, porque foi feito agora um esforço por tornar público uma parte desse Conhecimento Sagrado? Várias são as razões. Uma delas prende-se, directamente, com as especificidades do actual momento civilizacional. O diagnóstico foi feito por Helena Blavatsky com grande clareza: "O mundo converteu-se hoje em uma vasta arena, em um verdadeiro vale de discórdia e de luta sem fim, em uma necrópole onde são sepultadas as mais elevadas e santas aspirações de nossa alma espiritual."[11]
A evolução humana atingiu o ponto médio do percurso evolutivo, o ponto de maior afastamento da origem (do pólo espiritual), a altura em que o movimento evolutivo deve necessariamente inflectir a trajectória de descida em direcção aos níveis mais densos de matéria/consciência e começar a percorrer o arco ascendente. E esta é exactamente a altura mais crítica.
O crescente fanatismo e o surgimento do materialismo fizeram mergulhar a humanidade num período em que o eco da Alma já quase não se faz ouvir, correndo o risco de "romper" a ligação com a nossa natureza interior e real. Tudo isto se reflectiu numa selvática "luta pela sobrevivência", num esquecimento do sofrimento do nosso semelhante, numa competição desenfreada por bens materiais, poder e posição social, à custa da miséria de milhões e milhões de seres humanos e da destruição da natureza.

O labor científico de gerações de Sábios

Nunca como hoje foi tão importante o resgate da Sabedoria Antiga. Deve-se contudo frisar que o conhecimento sagrado não é uma invenção, é sim, fruto do labor científico dos grandes sábios da humanidade. Esta Ciência Espiritual está subjacente nas formulações e nas doutrinas genuínas originais de todos os grandes Instrutores da Humanidade e fundadores das religiões (Krishna, Orfeu, Buda, Hermes, Cristo, Platão, Pitágoras, etc.). Por detrás dos mitos e símbolos apresentados nas diversas Antropogéneses religiosas, está presente um conhecimento mais rigoroso do que aquele que nos é apresentado pela doutrina darwinista.
Esclarece-nos Helena Blavatsky: “A Doutrina Secreta é a Sabedoria acumulada dos séculos, e a sua cosmogonia, por si só, é o mais prodigioso e acabado dos sistemas (…) Mas tal é o poder misterioso do simbolismo oculto que os factos, que ocuparam a atenção de gerações inumeráveis de videntes e profetas iniciados, para os coordenar, classificar e explicar, durante as assombrosas séries de progresso evolutivo (…) A visão cintilante daqueles Iniciados foi até ao próprio âmago da matéria, descobriu e perscrutou a alma das coisas, ali onde um observador comum e profano, por mais arguto que fosse, não teria percebido senão a tessitura externa da forma. (…) tal sistema não é fruto da imaginação ou da fantasia de um ou mais indivíduos isolados; constitui-se dos anais ininterruptos de milhares de gerações de videntes
[12], cujas experiências cuidadosas têm ocorrido para verificar e comprovar as tradições, transmitidas oralmente de uma a outra raça primitiva, acerca dos ensinamentos de Seres superiores e excelsos que velaram sobre a infância da Humanidade.
Durante muitos séculos, os ´Homens Sábios` da Quinta-Raça
[13], pertencentes ao grupo de sobreviventes que escapou ao último cataclismo e das convulsões dos continentes, passaram a vida aprendendo, e não ensinando. Como o faziam? Examinando, submetendo a provas e verificando, em cada um dos departamentos da Natureza, as tradições antigas, por meio das visões independentes dos grandes Adeptos, isto é, dos homens que desenvolveram e aperfeiçoaram, no mais alto grau possível, seus veículos físico, mental, psíquico e espiritual. O que um Adepto via só era aceito depois de confrontado e comprovado com as visões de outros Adeptos, obtidas em condições tais que lhes conferissem uma evidência independente – e por séculos de experiências.”[14]
A este propósito, vale a pena trazer aqui também algumas palavras escritas por um dos estudantes mais próximos de Blavatsky,
William Judge: [A Teosofia] não é uma crença, ou um dogma formulado ou inventado pelo homem, mas é o conhecimento das leis que governam a evolução dos factores físicos, astrais, psíquicos e intelectuais na natureza e no ser humano. A religião de hoje é apenas uma série de dogmas fabricados pelo homem, sem nenhuma fundamentação científica para a ética que divulga; enquanto nossa ciência ainda ignora o invisível e não admite a existência de um conjunto completo de faculdades perceptivas internas no homem, ficando apartada do campo de experiência imenso e real que existe dentro do mundo visível e tangível. Mas a Teosofia sabe que o todo é constituído do visível e do invisível, e ao perceber que as coisas e objectos externos são transitórios, compreende os fatos da natureza, tanto interna quanto externa. Ela é, portanto, completa em si mesma e não vê mistério insolúvel em lugar algum; ela risca a palavra ´coincidência` de seu vocabulário e saúda o reinado da lei em tudo e em todas as circunstâncias”.[15]
A ciência materialista, ao desconsiderar outros planos de Ser, de Substância e de Vida, limita-se a investigar o pequeno campo externo de actividade das Forças e
Inteligências internas e espirituais. A Teosofia ou Sabedoria Esotérica abrange todos os níveis, visíveis e invisíveis da realidade, e demostra que a matéria física é apenas o nível mais denso, a “casca externa”, de outros níveis mais internos da substância universal homogénea, progressivamente mais subtis – astral, mental e espiritual.
A Sabedoria Esotérica,
partindo da Causa Incausada, ensina que tudo tem a sua origem no espírito e que a evolução se processa do interior para o exterior, do subtil para o denso, e não ao contrário conforme afirma o darwinismo.
É preciso esclarecer que não se trata aqui de invocar a figura de um Deus Antropomórfico das religiões exotéricas, que nada mais é do que uma criação da mente humana. A
Filosofia Esotérica fundamenta-se na LEI UNIVERSAL , e não em nenhum deus.
Alguns princípios da Ciência Esotérica

Deixamos, em seguida, um breve apanhado de alguns ensinamentos essenciais da Ciência Esotérica.
Antes de tudo, a Doutrina Secreta estabelece
três proposições fundamentais: (a) “Um PRINCÍPIO Onipresente, Eterno, Ilimitado e Imutável, sobre o qual toda especulação é impossível, porque ele transcende o poder da concepção humana e só poderia ser distorcido por qualquer expressão ou comparação humanas. Está além dos limites e do alcance do pensamento – nas palavras do Mandukya, é “impensável e indescritível”; (…) (b) A Eternidade do Universo in toto [na sua totalidade] como um plano ilimitado; sendo periodicamente “cenário de inúmeros Universos que se manifestam e desaparecem incessantemente`”; (…) (c) A identidade fundamental de todas as Almas com a Alma-Superior Universal, sendo esta última, em si mesma, um aspecto da Raiz Desconhecida ; e a peregrinação obrigatória de cada Alma — uma centelha da Alma-Superior Universal — através do Ciclo da Encarnação (ou “da Necessidade”), de acordo com a lei Cíclica e Cármica, durante todo o período.”[16]
É também importante perceber que: "A primeira lição ensinada na Filosofia Esotérica é que a Causa incognoscível não leva adiante a evolução, nem consciente nem inconscientemente, limitando-se a exibir periodicamente diferentes aspectos de Si mesma para a percepção das mentes finitas. Ora, a Mente colectiva – a Mente Universal – composta de inumeráveis e variadas Legiões de Poderes Criadores, por mais infinita que seja no Tempo manifestado, é, ainda assim, finita quando em contraste com o Espaço não-nascido e inalterável no seu aspecto essencial supremo. Aquilo que é finito não pode ser perfeito."
[17]
O
Universo emanou a partir do seu arquétipo, ou plano ideal, mantido através da Eterna Duração em Parabrahman.
Nada existe de não-vivo no Universo
[18]. Toda a matéria é viva e consciente, variando apenas o grau dessa mesma consciência.
O Universo é constituído por Sete Planos de Manifestação, sete níveis da Substância Universal primordial, do mais subtil ou espiritual, ao mais denso ou material.
Da mesma forma, o
Homem reproduz em si o Cosmos e tem, por isso, também uma constituição septenária, ou Sete Princípios de Consciência, que em linguagem teosófica têm a seguinte designação: Sthûla Sharîra (Corpo Físico), Prâna (Princípio Vital), Linga-Sharîra (modelo ou corpo padrão), Kâma (sede das emoções, desejos e paixões), Manas (mente, inteligência), Buddhi (Inteligência Espiritual, Intuição), Atman (Espírito, o verdadeiro Eu).
No que se refere à evolução da humanidade, ensina também a Sabedoria Esotérica: “(a) a evolução simultânea de sete grupos humanos em sete diferentes partes do nosso globo; (b) o nascimento do astral, antes do corpo físico: sendo o primeiro um modelo para o último; e (c) que o homem, nesta Ronda, procedeu a todos os mamíferos – incluindo os antropóides – do reino animal.”
[19]
Decorre daqui que a Doutrina Secreta ensina a origem poligenética da humanidade, contrariando a teoria monogenética da Ciência, bem como, a ideia de que a humanidade descende de um par humano (Adão e Eva) conforme pretende o Cristianismo exotérico. Convém, no entanto, ter em consideração que uma interpretação esotérica do simbolismo presente no livro do Génesis permite perceber que o Adão ai mencionado não se refere a um homem mas a uma raça.
A
Humanidade vai progredindo através sete patamares evolutivos, chamados de Raças-Raízes. Assim como cada indivíduo passa necessariamente por diferentes fases de crescimento e desenvolvimento (infância, pré-adolescência, adolescência, fase adulta, velhice), assim as mónadas humanas vão percorrendo cada um dos diferentes conjuntos de características que se designam por Raça-Raíz (com a suas sete sub-raças). Um imenso número de personalidades, manifestações externas da mesma mónada, vai desfilando sucessivamente ao longo de idades incontáveis percorrendo as sucessivas Raças-Raízes e suas respectivas sub-raças. As diferenças externas nada mais significam do que “roupagens” diferentes que permitem aprendizagens distintas. Todas são necessárias de forma a proporcionarem a maior amplitude e adequação ao tipo de experiências necessárias ao desenvolvimento e exteriorização das potencialidades internas. Como alguém escreveu: “A onda de vida que habita o reino humano deve evoluir através de sete raças-raízes no ciclo actual. Cada raça-raiz inclui povos de características físicas bastante diferentes e nenhum é melhor do que outro. Igualmente, nenhuma raça-raiz é melhor ou pior que outra. Todas compartilham a mesma essência universal. As mónadas ou almas imortais são todas de um carácter sagrado do ponto de vista esotérico, independentemente do seu grau de evolução ser maior ou menor.
O Homem é o paradigma de todos os outros Reinos que o precedem (Animal, Vegetal, Mineral e Elemental). Isto tem como consequência que a cada Raça-Raiz implica não apenas um novo tipo humano mas também novas formas animais, vegetais, novas Eras Geológicas e novas massas terrestres.
Como já aqui foi referido, a evolução processa-se do interior para o exterior, de dentro para fora. Cada Reino começa nos Planos superiores até que, depois de um longo período evolutivo, acaba por atingir o Plano físico denso. Daí se compreende, tal como ensina a Doutrina Secreta, as duas primeiras Raças foram Raças Astrais (não tendo portanto manifestação no Plano Físico). Por isso também não haver nessa altura reencarnação, pois não existia qualquer corpo físico denso. Essas raças tinham como veículo mais inferior de manifestação o Corpo Astral. A isso se refere o simbolismo de “Adão e Eva” no paraíso, onde não “não conheciam a morte”. Tudo isto aconteceu ao longo de uma evolução de muitos milhões de anos.
Isto significa que a Humanidade está na Terra em corpos não-densos desde a “Era Primária”, isto é, antes das quatro Eras Geológicas enumeradas pela Ciência e com corpo físico-denso desde o Período Cretáceo da Era Secundária,
há cerca de 18 milhões de anos.
Faz parte da Tradição Universal dos Povos o conhecimento de que o Homem viveu entre os grandes monstros (dinossauros e outros seres tidos como fantasia), há milhões de anos atrás – durante o Cretácico e o Jurássico. Aliás, as próprias mitologias dos diferentes povos falam também de homens gigantes, capazes de lutar e viver entre esses seres já extintos.
A Ciência Espiritual permanece oculta sobre camadas de símbolos e adulterações efectuadas por mãos comprometidas. Um exemplo disso é a frase inicial do Génesis. Em vez de “No princípio Deus criou os céus e a terra”, o que estava escrito na língua original, o Hebraico, era “Os Elohins deram forma aos céus e ao mundo”, isto é os deuses deram forma, a partir da substância pré-existente, aos diversos globos da cadeia planetária e ao mundo físico.
Está assim no original do Génesis, ao contrário da ideia de um Deus criador, o profundo ensinamento de que os deuses, ou Legiões de Seres, a Colectividade de Inteligências, sob a acção da Lei Universal, despertam do Pralaya e passam a ser as Forças que constroem o(s) Universo(s) e coordenam, impulsionam e dirigem a evolução universal.
Voltando agora mais directamente a algumas das pretensões do darwinismo, a Doutrina Secreta afirma que a “causa que determina as variações fisiológicas das espécies – causa a que estão subordinados todas as outras leis, que são de carácter secundário – é uma inteligência subconsciente que penetra a matéria e que, em último termo, é um
REFLEXO da Sabedoria Divina e Dhyân-Chohânica."[20] Isto quer dizer que a evolução não é fruto de um acaso, mas é coordenada e dirigida por um agregado de Inteligências que, no seu conjunto, constituem a Inteligência da Natureza, a Mente Universal.
Um ramo bastardo da Linhagem Humana

O homem não descende do macaco ou de um qualquer antepassado comum. O antepassado comum do homem e do macaco é o próprio homem.
Ao contrário da teoria darwinista, a Ciência Esotérica afirma que é o macaco que descende do homem, sendo um ramo bastardo da linhagem humana, resultante do cruzamento entre os humanos sem auto-consciência da
3.ª Raça-Raiz (Lemúriana) e certos animais (na Doutrina Secreta este episódio é referido como “o pecado dos sem-mente”). Por outro lado, os grandes antropóides, gorilas, orangotangos, chimpanzés, etc., resultaram do cruzamento de seres humanos de sub-raças da 4.ª Raça-Raiz (Atlante) e os animais descendentes dos cruzamentos referidos anteriormente. É por isso que a ciência encontra uma grande similaridade genética entre o homem e grandes antropóides, o que não acontece com os outros símios.
Uma hipótese para explicar uma descoberta recente

É aqui, por hipótese, que poderemos enquadrar a
descoberta recentemente anunciada de um “hominídeo” que viveu há cerca de 4,5 milhões de anos.
A forma como esta informação é transmitida para o público deve ser olhada com bastante cautela. Apesar de se reconhecer agora uma maior antiguidade da linhagem dos hominídeos, não deixa de ser verdade que os cientistas continuam a insistir que descobriram mais um elo do antepassado do homem, isto é, persistem apegados à interpretação darwinista. Por isso, um dos investigadores faz notar: “Dois séculos depois do nascimento de Charles Darwin, podemos verificar que ele estava certo. Em ciência é preciso termos evidências e não especular.”
[21] Perguntamos: em que medida esta descoberta demonstra que Darwin estava certo? De facto, só se quisermos negar as evidências e, parafraseando Blavatsky, preferirmos “inventar mil e uma especulações contraditórias a confessar um facto embaraçoso mas evidente por si mesmo”.
A verdade é que não se descobriu um registo fóssil de um humano com 4,5 milhões de anos, mas antes de um “hominídeos” com 4,5 milhões de anos, o que é diferente.
O facto de os investigadores referirem que os restos fósseis parecem indicar que este hominídeo tem “características mais parecidas com os humanos do que com os chimpanzés”, podem levar-nos a considerar, como hipótese, que estejamos perante um exemplar mais antigo de um descendente dos cruzamentos entre humanos e símios referidos há pouco no texto.
Isto porquê? Porque, há medida que recuamos no tempo, mais esses antropóides guardam uma maior semelhança hereditária e fisionómica (esqueleto, dentição, etc.) com os seus (meios) progenitores humanos do que os seus descendentes actuais (os macacos e chimpanzés, que mostram a influência de longo de milhões de anos de afastamento dos seus ancestrais). Desta forma, não temos porque não concordar com o investigador citado há pouco, quando termina dizendo: “Valeu a pena esperar para sabermos mais sobre o hominídeo mais próximo do nosso ancestral comum com o chimpanzé até hoje.”
Nós também achamos que valeu a pena, fazendo notar que esse ancestral comum é o próprio homem!

Conciliando Religião e Ciência

Serão a religião, filosofia e ciência conciliáveis? Como afirmou um bom amigo nosso: “Já o foram no passado. Grandes pensadores da Grécia antiga, como Pitágoras e Platão, eram simultaneamente filósofos, cientistas e eminentes estudiosos do sagrado. Na altura não havia qualquer dicotomia, a busca de sophia - do conhecimento integral - estava sempre presente. O drama é que se perderam as chaves e os códigos interpretativos que estão na base da ciência e das formulações teogónicas e mitológicas do mundo antigo. E perderam-se devido ao fanatismo religioso, que no século IV e seguintes, desencadeou a mais terrível perseguição e destruição contra todo o património da sabedoria, da ciência e até da arte da antiguidade, consideradas demoníacas. Foram perseguidos e aniquilados pensadores genuínos, pilhados e queimados centenas de milhares de livros que reuniam o esforço de gerações sucessivas de investigadores... Em que patamar poderia estar hoje a humanidade se ao longo dos tempos não tivesse havido tanta intolerância e fanatismo? Certamente, estaríamos bem melhor."[22]
Só através da Sabedoria Esotérica será possível conciliar a Religião e a Ciência – tornando a Ciência Religiosa e a Religião Científica – libertando assim da Humanidade de um Deus antropomórfico, do Acaso e da luta desumana pela sobrevivência.

[1] “O Universo Inteligente” (3.ª Ed.), Fred Hoyle, Editorial Presença, Lisboa, 1993, p.8 [2] “The Human Species”, A. De Quatrefages, Kessinger Publishing (fac-simile da edição de 1893), p.128. A edição original em francês desta obra é amplamente citada por HPB em “A Doutrina Secreta”. [3] Cfr. “Helena Blavatsky – A Vida e a Influência Extraordinária da Fundadora do Movimento Teosófico Moderno”, Sylvia Craston, Editora Teosófica, Brasília, 1997. [4] “A Doutrina Secreta”, H.P.Blavatsky, Pensamento, São Paulo, Vol.III, p.335. [5] Na obra citada anteriormente, Vol. IV, p.218-219 [6] Na obra citada anteriormente. [7] Na obra citada anteriormente. [8] Na obra citada anteriormente, Vol.I, p.57. [9] Cfr. “Alexandria e o Conhecimento Sagrado”, José Manuel Anacleto, CLUC, Lisboa, 2008. [10] “A Doutrina Secreta”, H.P.Blavatsky, Pensamento, São Paulo, Vol.I, p. 67 [11] Na obra citada anteriormente. [12] Para não haver confusão relativamente ao que hoje se entende por vidente, esta palavra deve ser aqui entendida aqui como aquele que pelo intenso esforço, renúncia, disciplina, treinamento oculto, sujeição ao Eu Superior e serviço à grande Causa, desenvolveu os seus poderes internos latentes no mais elevado grau. [13] Em Teosofia o termo raça nada tem haver com o geralmente adoptado. Resumidamente, significa uma fase no processo evolutivo da Humanidade, de um conjunto específico de características ou qualidades espirituais, mentais e físicas. [14] “A Doutrina Secreta”, H.P.Blavatsky, Pensamento, São Paulo, Vol.I, p.304. [15] Retirado de http://www.filosofiaesoterica.com/ler.php?id=256 [16] Cfr “As Três Proposições Fundamentais”. [17] A Doutrina Secreta, H.P.Blavatsky, Pensamento, São Paulo, Vol.IV, p.54. [18] Cabe aqui citar uma ideia bastante acertada de uma das mais reconhecidas biólogas, Elisabet Sahtouris "... A crença fundamental da ciência ocidental é que este é um universo não-vivo. Ninguém nunca provou isso. Eu não acho que alguém poderia prová-lo. É uma suposição. Se eu disser que quero construir uma ciência baseada na hipótese de este é um universo vivo, os cientistas vão dizer – prove-o. Acontece que eles não têm que provar o seu pressuposto fundamental que este é universo não-vivo. A ciência ocidental desenvolveu a única cultura na história, eu acho, que desenvolveu o conceito de não-vida". [19] Obra citada anteriormente, Vol.III, p.15. [20] Obra citada anteriormente, Vol. IV, p.218-219 [21] Ver www.noticias.terra.com/ciencias/noticias [22] Trecho de entrevista a José Manuel Anacleto "Notícias Magazine", nº683 (suplemento do Diário de Notícias/Jornal de Notícias), 26-06-2005, págs.26-32.

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