quarta-feira, 8 de maio de 2013

Seara jornalística


Após o desaparecimento físico, há uma semana, de António Alves Seara, Director do jornal “A Voz do Mar” durante mais de 40 anos,  publicamos uma entrevista realizada, em sua casa, em Outubro de 1985.
Texto e fotografia Dina Cristo
Qual foi a evolução da “Voz do Mar”, desde o seu nascimento até à actualidade?
A sua primeira edição foi no dia 25 de Dezembro de 1956. O jornal foi fundado pelo Sr. Luís dos Santos Costa. Comecei a participar no segundo número. Quando começaram a surgir alguns problemas esteve durante algum tempo sem sair.
Assim, o Centro Paroquial propôs a compra o que foi aceite pelo fundador, ficando eu como editor, embora fizesse praticamente todo o trabalho de director, porque o Sr. Francisco Manuel Reis na prática não dirigia a vida do jornal; após alguns anos morreu ficando eu como responsável principal – director, o chefe de redacção e o administrador Carlos Sá.
Até agora não tem tido modificações significativas.
Porquê o nome “Voz do Mar”?
Porque nasceu num meio essencialmente marítimo e com uma preocupação dominante de dar prioridade a temas relacionados com o mar.
Quais são os vossos apoios?
Vivemos à custa dos nossos próprios meios e da publicidade. Temos ajudas insignificantes como o subsídio de papel (dez contos de três em três meses para uma despesa de cem contos por mês) e o benefício do porte pago. Também é verdade que não queremos subsídios pois dá-nos uma certa dependência em que não estamos interessados.
Quais são os temas aos quais a "Voz do Mar" dá prioridade?
Problemas de interesse local que são abordados em várias secções do jornal como “Ecos e Notas”, “Reparos”, “Café-Concerto” e outras.
A “Voz do Mar” está receptiva a propostas dadas pelos leitores?
Está, e abriu recentemente uma secção que lamentavelmente não teve sucesso.
A vossa posição mantem-se em relação a artigos?
Sim, aceitamos artigos desde que tenham o mínimo de qualidade (a fim de não prejudicar o jornal e a própria pessoa) e que não defendam partidos políticos ou acusem a Igreja.
Quais são as vossas aspirações?
Que os nossos colaboradores sirvam os interesses da terra.
É difícil conjugar a actividade de director de um jornal com a de responsável de educação de adultos?
Muito difícil, porque cada número que sai é produto de muitas noites perdidas pela parte dos responsáveis máximos. Mas penso que vale a pena, é aliciante, como é tudo aquilo que constitua um serviço à comunidade.
O público tem correspondido às vossas expectativas?
A nossa receptividade em Peniche, quanto a mim, é razoável, sendo de considerar que se fizesse uma campanha de angariação de assinaturas os nossos leitores aumentariam consideravelmente.
Quais são as principais diferenças encontradas na “Voz do Mar” no seu começo e actualmente?
No início não tinha tantos artigos de opinião; quanto ao aspecto gráfico era interessante porque era artesanal, depois caiu um pouco porque passou a ser mecânico, e actualmente está bem melhor pois é impresso em off set - não apresenta melhor qualidade por manifesta falta de tempo.
Quer-se pronunciar em relação ao fornecimento de notícias particulares pelos próprios leitores?
Desde que o assunto tratado nessa notícia tenha interesse para a comunidade damos a publicidade que merece. São prova disso as notícias desse género que normalmente figuram nas “Cartas ao Sr. Director”.
Já publicaram livros acerca do IVA?
O jornal já publicou alguns artigos sobre o assunto para esclarecimento não sendo na quantidade desejada por falta de colaboração. Penso que a imprensa devia fornecer esclarecimentos sobre isso.
E quanto às consequências da nossa adesão ao Mercado Comum?
O jornal também já publicou alguns artigos sobre o assunto e inclusive colaborou na organização de iniciativas para esclarecer determinados sectores da população, concretamente os agricultores.
O que é para si fazer jornalismo?
É um modo de realização pessoal e de servir a comunidade.
Qual é, no seu ponto de vista, o jornalismo de má qualidade?
É aquele que destaca fundamentalmente os aspectos negativos, procurando promover-se através da violência, da pornografia, etc.
Quais as medidas que são de tomar para mudar esta situação?
Promover acções de consciencialização da missão do jornalista, de modo que nunca perdesse de vista a formação dos leitores, no sentido de serem melhores cidadãos dentro da sociedade a que pertencem.
A televisão deveria evitar o excesso e o abuso daquilo que é negativo.
Os estabelecimentos de ensino deveriam procurar fazer sentir junto dos jovens a importância que o jornal tem dentro de uma comunidade. Despertar nos jovens o desejo de servir a comunidade através do jornal. E no serviço que assim venham a prestar à sociedade não perderem de vista a identidade cultural desta.
Como vê o jornalismo em Portugal?
Sem ser alheio a programas de qualidade apresentados pela televisão, considero que esta tem sido um órgão bastante manipulado e demasiado manipulador. Penso que está muito longe de ser um órgão eminentemente formativo de acordo com as possibilidades que tem para tal.
Merece mais credibilidade o jornalismo que se pratica através da rádio e da imprensa escrita, pois é mais isento e formativo.
Quer comentar a frase “o redactor faz o fabrico da actualidade”?
Na TV os redactores dão uma imagem que por vezes não corresponde inteiramente à verdade pelas grandes possibilidades que tem de desmistificar o acontecimento. Assim, a notícia que dá é mais um produto da sua ideologia política e sensibilidade do que da verdade.
O verdadeiro redactor deve veicular a verdade sem a modificar de acordo com as suas ideias políticas ou outras, deve ser, pois, o veículo da verdade e não o seu fabricante.

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quarta-feira, 14 de março de 2012

Ofício de pai


Antes do Dia do Pai publicamos uma singela conversa tida há quase 35 anos entre uma criança e o seu pai.

Texto Isabel Mota


O paizinho gosta do seu ofício?

Sim, gosto muito.

A sua oficina é longe?

Não se torna muito longe.

O que faz o paizinho no seu trabalho?

Eletrifico as coisas para as pessoas terem melhores condições nas casas.

Gosta mais de arranjar ferros ou campainhas das portas?

Gosto mais de arranjar ferros porque são mais necessários para as senhoras.

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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Imprensa romântica?



Amanhã é publicada a edição comemorativa dos 80 anos do "Avante!". Oportunidade para (re)conhecermos um pouco da sua história, através das memórias de Carlos Pires, antigo tipógrafo do jornal, numa entrevista realizada em 2003.

Texto Catarina Teles

Com que idade começou a trabalhar no “Avante!”?
Tinha 17 anos. A partir de 1957, mais ou menos, comecei a fazer o “Avante!” clandestino. Vivi durante 20 anos na clandestinidade com o “Avante!”.


O “Avante!” é o órgão central do Partido Comunista Português e como tal é um jornal comunista, o que o obrigou a viver na clandestinidade durante 43 anos. Em termos de tiragens e publicações, como foi a história deste jornal?
As tiragens tiveram várias fases e agora não me recordo de todas, mas próximo do 25 de Abril houve uma tiragem de três mil exemplares. Já era muita coisa, uma tiragem bastante elevada para um jornal clandestino.
Hoje, um dos objectivos do "Avante!" é que ele chegue mais longe e seja lido por um número crescente de pessoas militantes e não militantes do PCP. Isso dantes era possível?
Sim, até era… Nas fábricas, os militantes comunistas que existiam, deixavam o “avante!” no local de trabalho daquelas pessoas que eles achavam que estavam mais ou menos contra o regime das altura. Havia várias formas de deixar o “Avante!” clandestino, inclusivamente na caixa do correio. Havia várias formas de pôr o “Avante!” a circular.
Quais eram os objectivos clandestinos do “Avante!”?
Sobretudo dar informação mais correcta do que aquela que era publicada na imprensa diária, que era sempre camuflada. As lutas eram sempre anunciadas no jornal. Claro que com um certo atraso, porque as lutas desenvolviam-se hoje e só passados 15 dias é que eram anunciadas no “Avante!”. Mas o objectivo primeiro era dar informação correcta sobre aquilo que se passava, inclusivamente sobre as guerras coloniais.
E na altura em que o jornal era clandestino, noticiavam acontecimentos apenas nacionais ou também internacionais? E quais os temas que abordavam?
Noticiávamos acontecimentos nacionais e também internacionais. Em relação aos temas, abordávamos de tudo um pouco. Sobre a Europa e o mundo, sobre literatura, sobre a vida interna do PCP… Claro que na altura não estávamos directamente virados para a cultura, mas sim para as lutas operárias da época e tudo o que se passava no mundo em relação a esses problemas. Hoje é diferente. Podemos noticiar de tudo um pouco, já que não há necessidade de nos mostrarmos apenas contra o fascismo, porque graças à coragem de muitos homens e mulheres, esse já vai longe.
A clandestinidade impunha condições desfavoráveis à elaboração e difusão da imprensa. Como era feito o “Avante!” clandestino?
Tínhamos que ter o tipo, o papel, a tinta… E tínhamos que ter pelo menos duas pessoas: uma colocava o papel e puxava o rolo, a outra tirava o papel e prensava. Isso era feito nos extremos cuidados, como é óbvio, numa casa normal como a de toda a gente. Tínhamos um rolo que passava por cima do tipo e esse rolo pesava no mínimo 30 a 40 quilos e eu via-me aflito para tirar aquilo, por que se caía no chão fazia um estrondo imenso para o vizinho de baixo e isso não convinha nada. Na altura também era jovem, por isso não me custava muito! (risos) Mas tínhamos que pôr tudo em casa. Havia um ponto de apoio, uma casa onde tínhamos o papel guardado que se ia buscar aos poucos. Enquanto um saía, havia que preparar logo o outro para ir buscar mais papel para a casa, com calma, fazendo de conta que aquilo não era nada connosco, como qualquer pessoa que vai às compras e traz embrulhos. E era assim que nós fazíamos.
E onde era feito?
Em casas clandestinas para os outros não saberem. Foi sempre feito dentro de Portugal.
Como era distribuído?
Depois de feito o jornal, havia um camarada responsável que o ia lá buscar. Nós entregávamo-lo, mas tínhamos que fazer aquilo muito disfarçadamente. Por vezes, quando se levavam para distribuir, tínhamos de pôr uns nabos e umas couves por cima para disfarçar… Depois havia vários camaradas a quem distribuir para este os fazer chegar aos diversos sectores do país, principalmente às fábricas. Em termos de transporte, íamos de bicicleta e mais tarde de carro. Os “Avante!” eram distribuídos na rua, escondidos. Eram distribuídos mil para aqui, mil para ali… Eram embrulhos relativamente pequenos, porque o “Avante!” era publicado em papel bíblia, um papel fino. Era fácil de transportar de mão em mão.
Mas se distribuíam em mãos tinham de saber a quem o faziam, senão corriam o risco de entregá-lo a um elemento da PIDE, ou a alguém ligado ao regime.
Obviamente tinham de ser camaradas conhecidos de determinados sectores. Por exemplo, aqui em Lisboa um camarada responsável recebia-os e depois entregava aos camaradas das empresas que conheciam, não podia ser a qualquer um.
E isso não limitava a distribuição?
Mais ou menos… Depois as pessoas que recebiam o “Avante!” faziam-no chegar a outras pessoas, davam conhecimento, deixavam-no na caixa do correio, debaixo das árvores, junto às portas, era lido em locais discretos… era sempre um risco para quem fazia, para quem distribuía e para quem recebia.
O “Avante!” foi o jornal que resistiu durante mais tempo à clandestinidade. O que motivou tantos colaboradores a levarem esta nobre causa até às últimas consequências?
Houve um camarada que estava ligado ao “Avante!” que foi assassinado. Nós tratávamo-lo por Alex… Houve também outros que foram perseguidos, mas conseguiram fugir. O motivo era tentar acabar com o regime da altura, a todo o custo.
As pessoas que faziam o “Avante!” clandestino tanto escreviam como trabalhavam na tipografia?
Não. Os originais, digamos, vinham através do secretariado, onde estavam as pessoas ligadas às causas clandestinas. Portanto, era escrito pelos camaradas que recebiam as informações, que depois passavam para o papel. Depois, o original era-nos entregue, para o imprimirmos. Portanto, havia aqueles que produziam o “Avante!”; nós depois recebíamos os originais e fazíamos aquilo que se fazia nas tipografias: colocávamos os caracteres todos, que são nove milhões!! Tínhamos de fazer as palavrinhas todas e isso era muito complicado. Mas valeu a pena!.

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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Profissão: informador


Quando passam esta Sexta-Feira 65 anos sobre a criação da Pide, publicamos uma entrevista a Eduardo, nome fictício - um agente da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (Novo), entre 1970 e 1974.


Texto António Miguel Ferreira fotografia Dina Cristo


Como foi o Eduardo parar à Pide?

Basicamente por razões económicas mas também de poder. Tinha 25 anos e o desejo de ser alguém. Os meus pais só tinham migalhas para pôr na mesa. Mas basicamente era a sensação de poder. Um informador recebia cerca de 300 escudos, na altura, esse dinheiro por mês não era nada pouco. Fui convidado por um amigo do meu pai, inspector da Pide, e não demorei dois segundos a aceitar o convite. Além disso, a partilha do poder numa ditadura era muito apetecível. Houve casos de pessoas que apresentavam crachás da Pide a fingir, e que diziam que eram da Pide; chegaram a ser presas pela própria Pide, porque estavam a usurpar a autoridade.


Havia muitas pessoas a oferecerem-se para informadores? Quantos eram esses agentes?
Com os agentes do Ultramar, talvez fossem quase 3.000 efectivos. E este número não é nenhuma enormidade. Não se esqueça que Portugal ia do Minho a Timor. Não eram muitos atendendo que Portugal era muito mais vasto devido às colónias.

Qual era o seu papel como informador? Quais eram as suas funções?
Há que distinguir dois tipos de informadores: aqueles que fornecem informações por entenderem que o devem fazer, sem terem sido solicitados para tal e sem exigirem qualquer pagamento, e aqueles que, como em qualquer Estado e em qualquer polícia, fornecem informações para ganhar umas coroas, ainda que sejam indivíduos bem formados. Porque também há informadores angariados na ralé, como são quase todos aqueles que colaboram hoje com a Polícia Judiciária: a gatunagem, os traficantes de droga, que se denunciam una aos outros. Nenhum Estado sobrevive sem informação. Ora, sem informadores não há informação. Por isso, como qualquer polícia, a Pide também tinha informadores, inclusivamente no Partido Comunista. Agora, se me pergunta qual o peso que esses informadores tinham dir-lhe-ei que eles eram catalogados de acordo com a qualidade das informações. Havia indivíduos cujas informações batiam sempre ou quase sempre certo e outros cujas informações não tinham qualquer veracidade. As minhas informações sempre primaram pela veracidade.

Como era processado o pagamento aos funcionários da Pide?
Atenção que eles tinham de apresentar trabalho. Muitos informadores inventavam "informações". Ao fim de um tempo, se a Pide verificava que aquilo não tinha interesse nenhum, punham-nos a andar. Mas a partir do momento em que começavam a apresentar trabalho e estavam bem situados, especialmente se tinham relações com a oposição - o que interessava à Pide era relações com a oposição e/ou gente organizada mesmo dentro do Partido Comunista -, nessa altura, passavam a receber semanalmente. Havia muita corrupção. Houve elementos da Pide que em vez de pagar aos informadores - aquilo vinha sempre de uma espécie de "saco azul", os serviços de assistência ou serviços reservados - muitas vezes ficavam com uma parte. Havia muitos informadores a queixarem-se, a escreverem cartas - algumas chegaram a Salazar - a dizer: "Então eu sou informador e estou a receber muito menos; acho que ele se está a abotoar com o meu dinheiro".

A Pide não tinha uma mão demasiado pesada contra quem ia contra as ideias do regime? A tortura não era uma prática recorrente utilizada pela Pide?
Claro que não. Um dia vi na televisão uma velhota a mostrar as cicatrizes causadas por queimaduras de cigarro que lhe haviam sido feitas pelos torcionários da Pide. Uns dias depois, a mesma velhota dizia nos jornais que recebera 40 contos do Partido Comunista para mostrar as queimaduras, que afinal foram provocadas por azeite a ferver num acidente doméstico. É que com estas mentiras que se faz a história! Olhe, eu servi na GNR e na Pide. Onde eu vi grandes sovas foi na GNR. A Pide era uma polícia semelhante à de muitos outros países democráticos. A França tinha o SDECE e o DST, a Inglaterra tinha o II5 e o DI6, os Estados Unidos da América tinham e têm a CIA e o FBI. Todas estas polícias faziam ou fazem ainda investigação, informação, espionagem e contra-espionagem. Afinal, éramos diferentes em quê? Fazíamos escutas telefónicas? Fazem-nas hoje todos os serviços de informação dos países democráticos. E Portugal não é excepção! Com estas atordoadas de tortura e de escutas telefónicas que se lançam para o ar ninguém repara que hoje mesmo se está a formar uma nova polícia à escala mundial que, utilizando meios informáticos poderosos e altas tecnologias, controla facilmente a própria vida privada de cada um de nós. Mas como tudo é feito em nome da democracia, ninguém parece estar muito preocupado... Os horrores da Pide continuam a ser propagados para justificar a revolução e esconder as misérias destes últimos 25 anos. Não fomos nada do que dizem. Fomos, sim, uma das três melhores polícias do mundo. Prestámos relevantes serviços ao país.

E a tortura era o meio de descobrir a verdade?
Era uma das formas. Mas só se praticava tortura em raríssimos casos. Só quando tudo o resto falhava…

O Eduardo participou em alguma acção de tortura?

Sim, numa meia-dúzia. Mas em nenhuma delas se utilizaram queimaduras e muito menos se despiram as mulheres. Há um ou outro relato, muito raro, de que colegas meus faziam queimaduras de cigarro, e a não ser num caso de mulheres presas do Couço em que humilhações directas de carácter sexual foram utilizadas, desconhecem-se testemunhos nesse sentido. A Pide insultava as “companheiras” de tudo quanto havia, mas não as despia. Também se utilizava a privação do sono; o recorde foi de um jovem engenheiro, comunista, mantido desperto durante um mês. Cometeu o suicídio após a sua libertação. Os tectos das celas tinham altifalantes que difundiam sons ruidosos e terrificantes, ou por vezes os choros e soluços de suas esposas e os filhos. As refeições eram servidas de modo deliberado. O pequeno-almoço podia chegar às 16h, e o jantar a meio da noite. Não existiam relógios e as celas não tinham camas.

A censura era uma das armas com que o regime contava para se defender. Quer explicar como se processava? Tinha algum manual que deveria seguir?
Tínhamos algumas linhas orientadoras que éramos convidados a seguir. Mas eram geralmente os agentes mais velhos que ensinavam os novatos.

E o famoso lápis azul?
O "lápis" começou como protecção do golpe militar de Gomes da Costa, iniciado em Braga e transformou-se no guardião da ideologia "Deus, Pátria e Família", que regia a ditadura que se vivia. Era com o "lápis azul" que se decidia aquilo que o país deveria saber, através da imprensa, rádio, televisão, livros, cinema, teatro, música, pintura, ou de qualquer outro meio de divulgação da criatividade humana.

O que procurava a Pide apagar, não deixar que chegasse aos ouvidos e aos olhos do povo?
Tudo o que fosse contra o regime e a sua estabilidade. E os meios de comunicação eram os veículos que precisavam de ser controlados. As artes também não poderiam passar despercebidos. Penso que a Pide cumpriu essa missão. Pouca informação ofensiva chegava ao povo. A longevidade do Estado Novo deve-se em grande parte à acção da Pide.

A Comunicação Social deveria ser um instrumento de propaganda. Então considera que a Pide conseguiu controlar as vozes revolucionárias que emergiam na imprensa?
Sim, sem dúvida! Como disse pouca informação desaglutinante escapou ao controlo da Pide.

A Comissão de Censura era competente?

Sim, sem dúvida. O que escapava não podia ser controlado. À comissão de censura pertenciam homens de grande visão. A censura era obra da sua inteligência.

Mas não havia muita informação proibida a circular?

Refere-se a informação clandestina. Sim, chegavam muitos livros e panfletos clandestinos. Mas não tanta como dizem. Um ou outro livro chegava ao nosso país pelas mãos de comunistas.

Na sua opinião entre a imprensa, a rádio e a televisão, qual foi o meio que cumpriu melhor a sua missão? Qual o que melhor a Pide conseguiu controlar?

Penso que a televisão serviu plenamente os interesses do regime. A imprensa foi o mais difícil de controlar. Havia muitos jornalistas e revolucionários com ideais comunistas nas redacções, e tornava-se muito difícil controlá-los. Mas mesmo assim penso que a missão da Pide alcançou claramente os seus objectivos.

A Pide foi apanhada de surpresa quando se deu o 25 de Abril?
A ideia que eu tenho é que não sabia o dia, e aí o Otelo tem todo o mérito, porque depois das Caldas da Rainha, em que eles apanham toda a gente, convenceram-se que tão depressa não ia haver outro golpe. O golpe das Caldas foi muito bom para o 25 de Abril, porque eles aprenderam o que não se devia fazer. E a Pide pensou: "agora não nos vamos preocupar com estes, porque estes estão inutilizados". E isto, ainda por cima, foi transmitido a todos os serviços secretos. A CIA chegou até a tirar os dois ou três agentes que cá tinha, porque pensava que durante um tempo não ia haver nada. A Pide sabia que se preparava qualquer coisa, mas não soube do dia 25 de Abril. Mas acho que isso tem a ver - e isso ainda está tudo por investigar - com saber se havia, digamos, recrutas dentro da DGS que fossem mais spinolistas. Porque depois também ninguém esperava o processo revolucionário que se seguiu. Aquilo era um golpe militar. Os presos não estavam para sair todos...

Eduardo, conheceu pessoalmente Salazar?


Sim. Conheci-o. Ao seu lado respirava-se tranquilidade e confiança. É um dos dias de que nunca me esquecerei. E Portugal deve muito a ele. E o povo português ainda recentemente o reconheceu ao proclamá-lo o maior português de sempre. Acompanhou a polémica à volta da inauguração de um largo com o nome de Salazar em Santa Comba Dão? Acompanhei e senti vergonha. A história de hoje não pode esquecer a história do passado. Como um amigo meu dizia é mais honesto baptizar a ponte Salazar com o nome ponte 25 de Abril?

Como vê o Portugal contemporâneo?

Como um navio à deriva. Um navio que ameaça naufragar há três décadas. E não vejo ninguém que possa devolver à nossa pátria a auto-estima e a grandeza que outrora possuíamos. Estamos a caminho da bancarrota. Este não foi o Portugal que o Dr. Salazar sonhou. Se fosse possível Salazar regressar ele não quereria vir. Não temos agricultura nem indústria, nem pescas, e com a maior onda de roubalheira de todos os tempos. E a censura parece tão ter estado tão viva como hoje. Só que actualmente ela é mais descarada!

Alguma das pessoas que denunciou morreu às mãos da Pide?

… Prefiro não responder.

O Eduardo dorme hoje com a consciência tranquila?

Sim… procuro dormir.

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Cantautor


Faz esta Sexta-Feira 40 anos que se estreou como cantor, no Teatro Villaret para o programa de televisão “Zip Zip”, transmitido quatro dias depois. Desde o seu primeiro disco, “Trova-dor”, em 1970, até ao seu mais recente CD, “Sensual Idade”, DVD, “Pedro Barroso - 40 anos de músicas e palavras”, e livro, “Contos de um anarquista”, o último trovador do 25 de Abril, que junta palavras inteligentes em música bonita, fala-nos, nesta entrevista, originalmente publicada no jornal "Trevim"*, da sua indignação perante o desprezo pela música e cultura nacionais.


Entrevista Carlos Sêco fotografia Dina Cristo


Porque é que não vemos o Pedro Barroso na televisão e não o escutamos mais na rádio?
Isso também eu gostava de saber. Tenho 40 anos de carreira e sempre cantei em sítios normalmente alternativos. São coisas relacionadas com semanas culturais, são convites de universidades. Nunca estive naquele circuito de grande “hit”, nem nacional nem internacional, mas este ano {2008], por acaso, posso dizê-lo com algum orgulho que tem sido um ano de muita solicitação para concertos, entrevistas, exposições, palestras. Ando por uns espaços e a convite de um determinado tipo de pessoas de bom gosto neste país, onde o bom gosto começa a ser cada vez mais raro. A rádio e a televisão não querem uma pessoa com ideias, uma pessoa que chateie.
Em 2002 deu voz ao manifesto sobre o estado da música portuguesa. O que é que mudou desde então?
O manifesto é da minha autoria e depois telefonei ao Manuel Freire, companheiro de estrada e também de certa maneira um último trovador tal como eu, que me disse: “isto está bem escrito. Vamos tentar fazer circular isto por mais meia dúzia de amigos, para ver se isto aparece com mais umas assinaturas, para que isto tenha outro peso”. Entretanto, começou a circular na Internet e a coisa foi subscrita por centenas de músicos de todas as áreas, desde o jazz à clássica, ou seja, por todas as pessoas que se sentiram solidárias com uma situação de menoridade cultural, que fazem crer que o músico em Portugal tenha que viver dentro desse défice permanente contratual e até de dignificação de carreira.
Dá-me a sensação que na altura foi útil, foi uma pedrada no charco. Fomos atendidos por todos os grupos parlamentares. Demos azo a várias discussões parlamentares. Lutou-se para reemplementar a Lei da Rádio e fomos inclusivamente recebidos pelo Presidente da República da altura. Foi uma luta datada, mas hoje em dia continuo a notar uma certa desunião. Para se fazer uma lei da Rádio em que se passe 25 por cento de música portuguesa, acho que perdemos uma boa oportunidade de estarmos quietos e de não fazer nada.
Em Espanha, há um orgulho nacional, que faz com que se passe 95 por cento de música em língua castelhana ou, pelo menos, numa das línguas oficiais das regiões. Em Portugal, 25 por cento torna-se uma percentagem ridícula. Não está a adiantar grande coisa. Além disso, os lobbies que estão instalados fazem com que, nas rádios nacionais, muitas vezes ao longo do dia, acabemos por ouvir só as coisas de uma ou duas editoras. Não existe só o “apito dourado”, também há o “microfone dourado”. Dificilmente se pode cumprir os 25 por cento de música portuguesa, passando afinal sempre as mesmas pessoas das mesmas etiquetas.
O efeito que se pretende é que haja um espaço aberto, abrangente, até porque as rádios, pressupostamente generalistas e que são pagas com dinheiro dos contribuintes, têm que passar fado e música popular de alguma qualidade. Tem que haver uma selecção baseada no mérito e na qualidade daquilo que se faz. Ora, eu tenho 40 anos de música. Sei o que poeticamente estou a fazer, sou uma pessoa da literatura, da escrita e da cultura. Por isso, não admito ser julgado por pessoas cuja envergadura intelectual ou cultural ou a nível poético nada fizeram. Quem é que determina afinal essa qualidade? Quem é que constrói essas “playlists”? Com que base é que é feita essa selecção? Não haverá compadrios?
A televisão que temos também está aquém daquilo que exigiríamos culturalmente. A televisão galega, por exemplo, é deliciosa, com uma atenção à natureza, às profissões e ao património. Nos dois canais oficiais e dois privados portugueses raramente temos programas realmente interessantes para uma pessoa minimamente atenta às questões da cultura portuguesa. Alguns anos depois desse manifesto, a rádio e a televisão continuam a ter um lamentável défice de qualidade perante os portugueses.
Os artistas de um país são tão ou mais importantes do que o ministro da Cultura. Pergunto: quem era o ministro da Cultura no dia em que morreram o Ary dos Santos e o Zeca Afonso? Ninguém sabe. Mas o Ary dos Santos e o Zeca Afonso ficaram para toda a vida e é isso que o político não suporta no artista. Não suporta que o artista congregue três mil pessoas à sua frente, para lhe bater palmas. Para ter três mil pessoas à sua frente, o político tem de oferecer alguma coisa. Eles têm o poder e ganham todos os tachos do mundo, mas nós temos o poder da opinião.
Portugal continua a cuidar mal dos seus artistas?
Poderia agora lembrar o Camões, que tinha uma tença miserável do D. Sebastião. Aqui está um homem com uma cultura universal fantástica e que tem de ir ler os “Lusíadas” ao D. Sebastião, que era uma criança, para lhe ser aprovada uma pequena tença e que, praticamente, morreu de fome. O Zeca Afonso, meu querido companheiro, numa altura em que ele tinha tratamentos muito caros, por causa da doença que acabou por matá-lo, tinha descoberto umas injecções, mas que eram caríssimas. Houve uma escola em Azeitão que o contratou para dar aulas, mesmo sabendo que ele já não estava em condições de o fazer. Muitas vezes, éramos nós que fazíamos várias iniciativas, aqui e acolá. Eu cantei, por exemplo, em Madrid com o José Mário Branco, para darmos notoriedade à situação que o Zeca Afonso estava a atravessar e, sobretudo, trazer dinheiro.
Recentemente, morreu o Carlos Paredes, génio da guitarra portuguesa, ele que, imagine-se, teve de ser arquivista de radiologia, no Hospital de São José durante não sei quanto tempo, para conseguir sobreviver. Eu fui aluno de latim de Vergílio Ferreira, a quem sonegaram um prémio Nobel. Ele era um homem de uma genialidade universal, que nunca foi professor universitário. Portugal tem sido padrasto ou a cultura portuguesa tem sido madrasta para si mesma, sobretudo a governação.
A administração tem sempre desconfiança de uma pessoa que tenha um discurso coerente, seguido, cultural e isento. Não é o Pedro Barroso que está aqui a falar, mas também eu me sinto incompreendido e injustiçado. Fiz pela primeira vez uma exposição ao Ministério da Cultura e não queira saber os meandros, os becos e as vielas por onde eu andei. “Ah, isso é melhor ser dirigido para o tal departamento”. De segmento em segmento, de beco em viela, acaba-se por dar em coisa nenhuma. Este é o país hieroglífico que temos, no sentido de resolução de problemas que são prementes.
Hoje não me posso queixar, mas há artistas que, no ano inteiro, têm quatro ou cinco contratos, o que não dá para viver. Os artistas, neste país, fazem muito mais numa hora no palco pela cultura e pelo nome de Portugal do que muitos cônsules e embaixadores numa vida inteira jamais farão. Não custava nada apoiar-nos, nesse sentido de mantermos a dignidade até ao fim das carreiras.
Em 2005, publicou um livro “A história maravilhosa do país bimbo”. É o que realmente pensa de Portugal?
É um exercício de ironia. Deu-me imenso gozo escrevê-lo. É um desabafo. Em 2009, vou publicar “Os contos anarquistas”. Em Outubro, vou lançar “Sensual Idade”, o meu novo disco e que demorou de Abril a Agosto a orquestrar e a gravar. É um disco lindíssimo que eu gosto muito de ter feito, com amigos aqui da zona, como o Manuel Rocha, director do Conservatório de Coimbra. São discos, são livros, eu disperso-me imenso. Sou um poço de ideias e de energia.
Há ainda o seu heterónimo Pedro Chora…
O Pedro Chora diverte-se imenso. Desenha mulheres, por quem é doido. É muito perverso, muito louco. O Pedro Barroso é um tipo apolínio, sabedor e com muitos estudos. O Pedro Chora não. Tem um traço muito espontâneo.
Como é que reage quando o consideram o último trovador do 25 de Abril?
Fico com muita pena de o ser, mas depois da elevação do Manuel Freire a presidente da direcção da Sociedade Portuguesa de Autores, que passou a estar incumbido de defender a música portuguesa e os autores de todas as áreas, sobra-me para mim essa escola, embora ainda haja alguns companheiros que andam por aí. A linguagem que eu falo é uma linguagem que este país desaprendeu. É a linguagem da dignidade, da sensibilidade, da poesia, do gosto pelo gosto e não do catchapum-catchapum. Andamos todos a consumir o mesmo produto e ainda por cima avariado, em que não há afinação, nem harmonia, nem musicalidade, nem contraponto, nem carga poética, nem intenção. É um produto chiclete, música de elevador, para consumir no aeroporto.
Quando me perguntam que tipo de música é que eu faço, eu respondo que não sei. Só sei que tento juntar palavras inteligentes em música bonita e é tudo o que sei que faço. Tranquilamente, faço a minha carreira. Comparo-me com o Obélix: sou eu a lutar ainda e sempre com o invasor. Que invasor é esse? É o mau gosto e é o consumismo do que se gasta por aí em termos musicais e televisivos.
É a insatisfação que o continua a inspirar?
Limito-me a estar atento. É observarmos o que está à nossa volta e que andamos a perder. Andamos a ficar com a sensibilidade embotada por um produto que nos dizem ser muito bom, mas que é uma porcaria. Essa cultura amoraganda que existe em Portugal não é coisa nenhuma. É preciso que haja alguém que denuncie isto, olhos nos olhos. Enquanto eu existir, eu denuncio. A TVI tem 15 anos e só por pedido expresso do Ruy de Carvalho eu fui pela primeira vez cantar na TVI pelos seus 80 anos.

* SÊCO, Carlos - Cantautor Pedro Barroso contra cultura amorangada in Trevim, edição nº 1132, 25 de Setembro 2008, p.12-13.

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quarta-feira, 30 de abril de 2008

Rádio teatral

Na primeira parte desta entrevista, Etelvina Lopes de Almeida fala do teatro radiofónico. A “Coxinha do Tide” e as “Pupilas do Sr. Reitor” ficaram na história.

Entrevista Virgílio Luís Silva


Este é uma resumo das várias vezes que falei com a Etelvina Lopes de Almeida a propósito da Rádio. Quis saber como era o trabalho, que pressões se sofria, o que não se dizia, o que não se podia fazer. De própria voz, a Etelvina contou.
Em 1950 um dos dados interessantes que consegui recolher, foi a Invasão da Coreia do Norte pela Coreia do Sul. Não sei em certa medida que repercussão teve cá em Portugal e se foi feita alguma coisa a nível da rádio cá, ou como foi dada a notícia pela Rádio cá em Portugal...
Eu devo dizer-lhe que tudo o que era dado politicamente sobre qualquer acontecimento era só através da Nota do Dia que era uma folhinha que nós líamos antes de começar o noticiário...
A Nota do Dia era uma espécie de Editorial …
Era. Era um editorial político feito pela casa, evidentemente, ou feito por pessoas a quem a casa os encomendava. Nós tivemos várias pessoas a fazer essas coisas desde o Silva Dias ao João Ameal e outros assim e, portanto, a Nota do Dia era marcada pelo lado político do governo e depois eram notícias soltas, notícias das agências depois de censuradas.
O problema que a Coreia Norte e Sul teve para o público em geral, e para aqueles que tinham uma visão democrática da vida, resultava numa simpatia para a Coreia do Norte e o Estado tinha uma simpatia para a Coreia do Sul. Daqui havia, por exemplo um choque de noticiário, que as pessoas democráticas diziam “olha lá estão eles a dizer contra...” e nós a dizer a favor, portanto, nem a interpretação do público é que se poderia encontrar a diferença entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, porque a partir da Guerra de Espanha, as pessoas ficaram cépticas em relação às notícias que dava o Estado.
Primeiro o Estado, enfim, os nacionalistas ganhavam em toda a parte, e não era bem assim, e claro, quando chegou à vitória do Franco, as pessoas, a maior parte dos portugueses, ficaram desanimados, muitos tinham combatido na guerra de Espanha. A Guerra de Espanha tinha trazido a Portugal um acender de novas ideias que não se coadunavam com as ideias do Estado Novo, houve muita gente presa por defender as ideias republicanas, portanto, houve por assim dizer uma explosão em Portugal de política, devido à Guerra de Espanha, até porque nós sabíamos todos que nós estávamos a apoiar Franco, que estávamos a mandar mantimentos para lá, que estávamos a ter cada vez menos mantimentos em Portugal mas o Estado continuava a negar. Portanto esse jogo de verdade/mentira estabeleceu aquilo que levou depois às listas da oposição.
Tanto assim que no principio da década de 50 o Marechal Carmona, na sua mensagem de ano novo, faz a apologia de Deus, Pátria e Família e diz a certa altura “com tal proceder, não só se afirma a consciência de uma solidariedade espiritual e o natural anseio de sobrevivência pela família, como demonstramos crer que alguma coisa na vida transcenda a nossa vontade, os nossos desígnios, o nosso próprio esforço, por muito dependerem de uma bênção superior, enfim da protecção da Providência que dirige os destinos dos homens e dos povos”.
Dá a sensação que tudo está bem, que o governo trata muito bem as pessoas, que estamos todos unidos, solidários, perante o futuro da Pátria, mas não é nada disso...
E que Deus está lá de cima a olhar por todos nós...
Não era nada disso! Eu pergunto: Onde cabe aí nessa ideia o Tarrafal, onde cabe aí nessa ideia o bailarico que existia no governo civil que, de vez em quando, eu ouvia na Renascença...
A Renascença quanto a isto, era mais liberal que a Emissora Nacional, ou não....A censura estava lá também.
Não sei como a gente pode dizer que a Renascença era mais liberal. Evidentemente, eu estava lá, fiz programas lá, que até fiquei a transmitir uma opereta russa chamada Katiuska, e eles não percebiam o que era. Não era mais liberal, talvez fosse menos agressiva no sentido de fiscalização, no sentido de censura, e deixava a nós “ad limitum” a responsabilidade daquilo que fazíamos. É a outra maneira de contornar o problema. Tu tens a responsabilidade, agora aguenta-te.
Isso fazia com que as pessoas respondessem posteriormente pelos seus actos...
Não nunca dei por isso, havia era coisas muito estranhas. Eu vou-lhe dizer. Na Renascença durante um grande período, fazia-se uns sorteios de automóveis, vendiam-se os bilhetes e depois o sorteio era pela Santa Casa da Misericórdia e um dia a chefe do escritório chegou ao pé de mim e disse: “Etelvina hoje o Monsenhor Lopes da Cruz convida todas as pessoas a rezar o Terço no seu gabinete, para pedir a Nossa Senhora que faça sair o número da lotaria, nos números de bilhetes que ficaram na casa, que são muitos. Ficou muito bilhete em casa”. Eu não vou pedir isso a Nossa Senhora, tem paciência, isso é um comércio. Sou cristã não posso de maneira nenhuma fazer comércio com Cristo. “Ah mas pede para estarem todas”... Evidentemente quando chegou à hora lá do Terço, o Monsenhor Lopes da Cruz, lá com as Senhoras que estavam junto dele e que pertenciam à sua Igreja, armaram um altar em cima do cofre a Nossa Senhora e Fátima, puseram uma vela e começou o Terço. Simplesmente isso era uma coisa que na minha consciência eu não podia, eu não peço nada para mim. Eu parto do princípio de que eu tenho aquilo que mereço. Para eu pedir para mim, eu tenho que pedir para a Humanidade inteira, de modo que eu não fui. Assumi a responsabilidade. O Monsenhor nunca mais me falou... Quando chegou a altura de pôr o problema da minha saída da Renascença, deixaram-me vir embora, percebi muito bem.
O que é certo, ou pela prece ou não, o número do automóvel saiu na casa. De maneira que ficaram todos contentes que Nossa Senhora de Fátima tinha feito um milagre. Havia estas coisas que dentro dos católicos, não quer ofender ninguém, mas para uma pessoa que de religião tem um respeito muito maior, não dá! Eu não podia colaborar numa coisa destas.
Outro dos acontecimentos grandes na década de 50, logo no início da década na rádio, nomeadamente o da E.N. ter decidido que o Teatro Radiofónico passaria a ser diário. A Rádio Nacional escrevia assim em 18 de Fevereiro de 1950: “um grande acontecimento na Rádio Portuguesa. A E.N. vai ter um folhetim radiofónico diário”. D. Etelvina, como é que foi? A rádio já tinha teatro radiofónico.
O teatro radiofónico já existia com a Virgínia Vitorino. Ela dirigiu o teatro radiofónico e muito bem. Trabalhei no teatro radiofónico da Virgínia Vitorino durante vários meses. Houve uma peça, “A Castro”, do António Ferreira. Pela necessidade, naquela altura nós não podíamos voltar a trás, tinha de ser tudo gravado de seguida. É claro, nós não podíamos de maneira nenhuma gravar teatro radiofónico nos estúdios da Emissora Nacional da Rua do Quelhas sem barulho e “A Castro” exigia o som de pedra pisada e o som de coisas daquela época. E então a Virgínia Vitorino disse: Só há uma maneira. É irmos para a Torre de Belém. Começamos às duas horas da madrugada e terminamos com o sol nascido”. Mas esse trabalho era um trabalho não para a Emissora Nacional, mas para nós próprios. Nós apaixonávamo-nos por aquilo que estávamos a fazer.
Agora em relação ao folhetim. O primeiro folhetim que foi para o ar foi no Rádio Clube Português e chamava-se “A Coxinha do Tide”. Esse foi o primeiro folhetim. Depois, não sei se foi o terceiro se o segundo, eu fiz a adaptação do Mário da Silva Gaio e fiz a adaptação da Rosa do Adro.
“A Rosa do Adro” teve um grande impacto. Foi para o ar três vezes. Esgotou os chocolates que a patrocinavam. De maneira que o dono da fábrica de chocolates me diz: D. Etelvina pare com o folhetim. Mas paro porquê, respondi eu. É que já tive de fazer um pavilhão na fábrica e não tenho mais espaço nenhum. Pare com isso. Eu agora não posso parar. Tenha paciência. Aumente outro pavilhão.
Era a Marquise, a fábrica de chocolates Marquise. Depois terminei, foram duas vezes e depois ainda uma terceira. Esse folhetim quem o tem é o Luís Sambado. Foi um folhetim que eu fiz com muito apego e com muito bons actores, à base do Vasco Santana e de pessoas do Teatro Nacional. Tinha a Maria de Resende, que naquele tempo era uma grande vedeta, tinha a Manuela Reis, eram as duas adaptadoras, que eu naquela altura tinha muito que fazer e dei a adaptação a elas.
E olhe, com o Vasco Santana aconteceu uma coisa engraçada. É que ele só podia fazer aquilo numa Segunda-feira, que era o dia em que não havia teatro. Tinha feito duas sessões no Domingo e depois tinha de fazer a sessão da noite de Terça-feira. E tinha oito folhetins a gravar, oito episódios. Lá chegamos, ele gravou os episódios todos e quando chegou ao fim era de madrugada, fomos embora. Isto está gravado e ele disse-me assim: Mas ó D. Etelvina então diga-me uma coisa, eu gravei isto tudo e agora não ouço. Se quiser ouvir, ouve, disse eu, mas oito folhetins, são oito vezes dez minutos. Como é que vai fazer isso, a que horas vai chegar a casa para dormir. Ele replicou: Ai, não me importo nada.
Ele era de um profissionalismo espantoso. Depois no Rádio Clube Português, os folhetins sucederam-se. É como hoje com as telenovelas. As pessoas ficavam agarradas ao aparelho, com uma vantagem, eu acho que é uma vantagem entre o folhetim radiofónico e a telenovela. Na telenovela nós somos só espectadores, vemos tudo quanto está ali, vemos a pessoa, ouvimos a sua voz, temos a cor, temos o décors, temos as viagens, temos a paisagem, temos tudo. Tudo nos é dado e nós só temos de receber. No folhetim radiofónico, como só existe uma via, o som, automaticamente o radiouvinte compõe o resto. E o folhetim é tanto melhor quanto através do diálogo ou através da sonorização nós levamos o ouvinte a compor o ambiente mais do que outro qualquer que não tenha a condição de compor. É uma das coisas que eu acho que a rádio ainda tem vantagem sobre a televisão. A pessoa colabora. Ao passo que na TV só recebe.
A propósito disto eu vou-lhe dizer que um dia fui para o Alentejo com o Urbano Tavares Rodrigues que queria falar com ceifeiros do Alentejo. Andava a fazer um romance, eu também fiz um sobre o Alentejo, ele é de Moura e eu sou de Serpa. Um dia tinha-me dito: Etelvina, eu gostava de falar com o povo autêntico. E eu disse-lhe: Então vamos embora. Fomos para baixo. Vejo uma quantidade de ceifeiras e disse-lhe: Urbano, vamos parar aqui e falar com elas. Bom. Chego ao pé delas e disse-lhes: Olhem eu sou da rádio, este senhor é escritor, tal, tal...- Ai a senhora é da rádio. Então diga uma coisa. Porque é que a senhora não nos dá conselhos de beleza para nós. Eu respondi-lhes: Dou conselhos de beleza a toda a gente. Não dou só para as senhoras que estão em Lisboa.
Porque é que não nos dá um remédio para a gente não esfolar as mãos, solicitaram elas. Olhem, porque eu penso que vocês enquanto estão no campo não ouvem rádio, retorqui eu. E eles responderam: Ai não. Então olhe ali para o corno da vaca. E estava um aparelho de rádio ali a transmitir. Devo dizer que o Urbano ficou impressionado com isto, que não conseguiu falar, estabelecer o diálogo, não conseguiu.
Eu disse-lhe: Então ó Urbano porque é que você não fala com elas. E ele: olhe é uma questão de pudor. Eu acho que esta gente vigorante é tão autêntica, tão simples e sincera que eu para fazer um romance não tenho a coragem de fazer perguntas.
Esta peça particularmente, que nós estamos a falar, e deu azo a esta notícia na Rádio Nacional, era as “Pupilas do Sr. Reitor”...
Isso foi dirigido pelo Adolfo Simões Müller.
Que era o produtor, tinha montagem de Jorge Alves, assistido por Jorge Santos, argumento e direcção musical de Belo Marques, que estará à frente, para este seu novo trabalho da Orquestra de Salão e o Coro Feminino da E.N.. E depois vem o rol de actores: Samwel Dinis (Reitor); Adelina Campos (Margarida); Barbara Virgínia (Clara); Estevão Amante (José Dias Dornas); José Amaro (Pedro); Álvaro Benamor (Daniel); Vasco Santana (João Semana); Rosina Rego (Joana a criada); Pestana de Amorim (João da Esquina); Luz Veloso (Stª Teresa de Jesus); Emíla Duque (Francisquinha); Barroso Lopes (mestre barbeiro). Lembra-se das Pupilas do Sr. Reitor?
Teve muito êxito.
Esta iniciativa de ter um folhetim diário na rádio não perdeu só com as “Pupilas do Sr. Reitor”. Teve seguimento?
Não me lembro qual foi o folhetim a seguir a esse. Lembro-me que foi o Mário da Silva Gaio, que foi adaptado também, mas não me lembro se foi na Emissora. Não deve ter sido na Emissora porque é um romance que a certa altura tem uma certa revolução lá dentro.
De qualquer modo o trabalho deste género de folhetim, implicava uma equipa muito numerosa a produzir e adaptar as peças para os actores.
Lembro-me quando eu fiz para os actores o folhetim “A Coxinha do Tide” não teve o respeito das pessoas que trabalhavam na rádio, percebe. Era uma coisa que todos diziam que era mal feita e era para as pessoas de bairro. Quando fiz a adaptação da “Rosa do Adro”, o Silva Dias chamou a direcção da Emissora e disse, porque é que nós não fazemos folhetins assim. É nessa altura que o Müller propôs a adaptação das “Pupilas do Sr. Reitor”.
Passando a diário.
Pois.
De qualquer modo as “Pupilas do Sr. Reitor” teve a importância histórica de ser um folhetim diário.
Sim, mas além disso havia uma coisa que era muito importante e que tinha muita audiência, que eram os diálogos de Domingo, o “Domingo Sonoro”, que era uma revista semanal e terminava com um diálogo de Domingo que era geralmente feito pelo Francisco Mata (escrito) e interpretado pelo Olavo d’Eça Leal e pela Maria João Duval, que era o pseudónimo da Virgínia Vitorino.
Mas teve uma altura em que era também interpretado pelo Ribeirinho e pelo Vasco Santana.
Não me lembro.

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Ofício radiofónico



Nesta segunda parte, Etelvina Lopes de Almeida fala das inaugurações, gravações e visitas oficiais. A morte de um presidente e a coroação de uma rainha.

Entrevista Virgílio Luís Silva

Em 1951, morre o Marechal Carmona. Presumivelmente haverá eleições e Salazar sobe ao poder. Esse período conturbado da morte do Marechal Carmona e da subida de Salazar ao poder como é que foi vivido na Rádio?
A rádio dava a notícia que o governo mandava.
Pura e simplesmente.
Pura e simplesmente.
E o ânimo das pessoas nessas alturas... Morre o presidente... Não houve um sentimento de luto nacional?
Havia da parte da oposição uma esperança de que qualquer coisa mudasse. Quando veio o Américo Tomás... As pessoas estavam muito cépticas, já não acreditavam. Claro, você vai para a rua e o povo todo que vai agora bater-se pelo Pinto, que foi castigado, vai amanhã bater-se pelo Presidente de novo. Eles deram uma volta grande pela cidade, veio de Belém, não sei onde ele está sepultado, se é nos Jerónimos se noutro sítio, sei que as pessoas acompanharam e choraram. Mas isso é o povo de rua que não tem qualquer consciência.
De qualquer modo a Rádio tinha de fazer a reportagem.
A rádio tinha de fazer a reportagem daquilo que acontecia.
Em 1950 foi eleito o General Francisco Craveiro Lopes, presidente, em Julho, mas em Abril havia morrido o Marechal Carmona e como candidatos oposicionistas à Presidência da República Portuguesa, apresentaram-se o Almirante Quintão Meireles e o Prof. Rui Luís Gomes. Estas são referências políticas da década de 50. Nesse mesmo ano é inaugurada a ponte sobre o rio Tejo em Vila Franca de Xira e a Barragem de Castelo do Bode.
Fez-se muita coisa sobre a Barragem do Castelo do Bode.
E sobre a Ponte de Vila Franca, também?
Também. Com o Carmona a inaugurar. Mas o Castelo do Bode até teve uma repercussão maior porque é lá que está uma estação retransmissora de rádio, ou da Emissora Nacional ou da Rádio Renascença. Se agora não existe, na altura existia de certeza, porque eu ligava os “bicordios” (sistema de comutação entre emissores ou entre Central-Emissor e vice-versa e entre equipamentos) ao Castelo do Bode.
O artigo da Rádio Nacional sobre a inauguração do Castelo do Bode diz assim: «Mas é justo assinalar o brilho da reportagem radiofónica realizada pela Emissora Nacional. Pode mesmo afirmar-se desconhecerem-se os meios que teriam tornado este trabalho mais meritório, tão completo e perfeito ele nos pareceu. Quem não teve a felicidade de assistir ao acto de inauguração pôde empreender com enorme facilidade as cerimónias realizadas. E só se a rádio podia oferecer ao ouvinte o desenrolar dos acontecimentos técnicos que trouxeram, em minutos, a energia até à Central Tejo. Na barragem do Castelo do Bode, Artur Agostinho descreveu aos radiófilos portugueses as principais cerimónias ali efectuadas dando emoção e quase realismo aos momentos da bênção da maquinaria pelo Senhor Cardeal Patriarca e início dos trabalhos da Barragem propriamente ditos, realizando simbolicamente, pelo Senhor Presidente da República. Na estação de Sacavém, Pedro Moutinho foi um perfeito rádio-reporter. O calor da sua voz, o trepidar das suas palavras, num fundo musical verdadeiro das maquinarias que gemiam ao esforço novo, deram na realidade, a todos os que o escutaram a noção grave e entusiástica do momento que passava. Raul Feio, na Central Tejo, aguardava que lá chegasse o novo fluído. E não foi menos feliz ao interpretar a satisfação dos engenheiros e pessoas daquela Central agora reforçada, graças ao trabalho e esforço de Portugueses. E a reportagem findou no estúdio. O percurso fora completo. A gota de água era agora energia. E a energia estava ao serviço da Civilização. Maria Teresa Caldeira fez, na cabine, o elogio do recém-chegado. Talvez em poema que cada um de nós gostaria de fazer - ou de dizer».
ELA - Eles eram por assim dizer os locutores oficiais de Estado. O Artur Agostinho e o Pedro Moutinho.
Em termos dos conteúdos, eles limitavam-se, por aquilo que o artigo diz, eles limitavam-se a descrever os acontecimentos, não entravam em grandes polémicas, por assim dizer.
Polémicas? Não. De maneira nenhuma. Eles descreviam. Umas das minhas provas de exame de locutora foi imaginar-me na Estufa Fria do Parque Eduardo VII para uma inauguração de flores com a presença da mulher do Chefe de Estado e com as entidades relativas à Câmara Municipal de Lisboa. E eu tinha de preencher dez minutos.
Portanto toda a descrição.... era aquilo que eu dizia, a TV dá a imagem nós temos de falar nas coisas. Eu desde as flores às plantas e toda a vegetação e ambiente antes da chegada das personalidades e a partir do momento da chegada da senhora eu elevava a voz exactamente para dizer que acabava de chegar.... Portanto eu tinha de imaginar tudo aquilo que estava a acontecer. Ora bem; se eu fiz isto como prova de locução para um exame, quem está a fazer isso na realidade tem a obrigação de dar o mais pequeno pormenor das coisas que vê. Mas só dava o que vê. Só dá o que vê.
Porque é que a D. Etelvina diz que o Artur Agostinho, o Pedro Moutinho, o Raul Feio, eram os locutores oficiais do Estado?
Porque eram sempre eles que eram nomeados para fazer as reportagens oficiais.
Foram eles também que estiveram na inauguração da Ponte de Vila Franca de Xira.
Sim.
Em 1951 realizou-se o 3º Congresso da União Nacional, cá em Portugal. Em Março de 1953, morre José Estaline na União Soviética. A Rádio Portuguesa fez ou disse alguma coisa de especial?
Além de dar a morte?
Nada mais houve?
Em 1957, no principio do ano a Rainha Isabel II vem a Portugal, e aí a Rádio Portuguesa brilha de outra maneira. Como é que foi D. Etelvina?
Olhe, com um palanque enorme no Terreiro do Paço, um bergantim todo enfeitado que vinha desde a fragata que a trouxe até à escadaria que estava toda forrada de tapeçaria vermelha. Depois havia um grande palanque, cá em cima, com as entidades todas, oficiais, para a chegada dela, havia hinos nacionais dos dois países e depois ficou alojada no Palácio de Queluz. Foi nessa altura que, dá-me a sensação, o Palácio de Queluz foi preparado para a Rainha e depois ficou a residência oficial para as figuras oficiais que visitam Portugal. Mas só chefes de Estado.
Mais uma vez os locutores oficiais do Estado fizeram a reportagem, Pedro Moutinho, Artur Agostinho... Em conversas anteriores, a D. Etelvina disse-me que havia uma estratégia de produção por detrás destas reportagens, que consistia no trabalho prévio dos produtores da Emissora Nacional investigarem e escreverem os textos de propósito para os locutores com vista ao preenchimento dos tempos mortos da reportagem.
O locutor quando ia para essas coisas já levava do Assistente Literário, os textos para preencher esses espaços, no caso de ser necessário. De maneira que eram textos que vinham da redacção, visados e tudo isso. Umas vezes eram precisos, outras vezes não. Mas isso era normal, tanto aqui como lá fora. Lembro-me de uma visita do Presidente da República a Madrid e foram todos os redactores para Madrid para apoiar o locutor.
Havia então sempre um trabalho preparatório destas coisas, muito grande, não só em termos dos produtores como também em termos dos meios técnicos, dos carros de exteriores e tudo isso.
E maquinaria e tudo.
A azáfama era grande. Eram momentos de tensão muito grandes.
Olhe. Era tão grande que eu vou-lhe dizer uma coisa. Quando eu estava na Emissora o Salazar gostava muito da minha voz e sempre que ele fazia uma apresentação ao País ele pedia que me pusessem de cabine e eu, evidentemente, nem sabia que era por pedido do Presidente do Conselho. Claro, como eu toda a vida fui uma pessoa profissional quer seja o Salazar ou outro qualquer. Tinha de dar o «gong», naquela altura era o «gong», e emitia as coisas todas por aí fora. Eu fazia o meu trabalho. Um dia eu estava preparada para fazer o trabalho, chega o Eng. Leote, que era um dos nossos directores técnicos, e disse-me: - Etelvina, hoje não pode ser. Hoje não pode ser. Hoje fala Salazar. Quem vai dirigir isto somos nós. Entrou ele. Entrou o Eng. Bívar e sentaram-se à mesa de comando e eu sentei-me numa cadeira cá atrás. Olhe não queira saber a barafunda que foi, porque os «pick-ups» (gira-discos) na Onda Média estavam todos atados com linhas e com cordelinhos, porque não havia técnica para substituir os «pick-ups» e como não havia substituição dos «pick-ups», nos que trabalhávamos todos os dias com elas adaptávamos conforme as nossas necessidades. De modo que naquele dia foi uma tragédia. - Como é que vocês fazem isto, como é que fazem aquilo. Isto é a prova de que, quando entram pessoas todas técnicas, pode não resultar, porque no dia-a-dia o trabalho que resulta é o trabalho do homem que está lá.
E na coroação da Rainha Isabel II, em 1953?
Nós estivemos lá.
Como é que a reportagem da coroação foi feita?
Os repórteres foram para a Inglaterra e faziam reportagens para cá, pelo telefone. Não podia ser de outra maneira. Já não me lembro muito bem como era. Ou então as reportagens eram gravadas lá e depois eram enviadas e transmitidas cá. O que eu me lembro é que alguns camaradas que lá foram me trouxeram lembranças da coroação da rainha, que ainda hoje tenho em minha casa.
Um dado interessante no que diz respeito a esta técnica de reportagem à distância foi por exemplo o que aconteceu relativamente ao Prof. Egas Moniz. A Revista Rádio Nacional fala de uma homenagens que lhe foi feita através de uma estação de rádio no Brasil, que descreve do seguinte modo: «No programa “Rosa dos Ventos” que Álvaro Dinis dirige na Rádio Cultura de S. Paulo, Brasil, foi prestada eloquente homenagem ao Prof. Dr. Egas Moniz por motivo da distinção que recentemente lhe foi concedido (conferida) pela Academia das Ciências e Artes da Suécia. Fizeram o elogio do eminente professor os senhores Pacheco e Silva e Edmundo Vasconcelos, tendo sido enviado para a Emissora Nacional, um disco com as palavras proferidas. Em resposta aos médicos brasileiros, o Dr. Egas Moniz esteve na Emissora Nacional, onde gravou uma mensagem de agradecimento radiodifundida pela E.N., através das suas estações 1 e 2 Porto, Coimbra, Faro e Ondas Curtas». Estas estações 1 e 2, concretamente o que eram?
Há o programa ligeiro e o programa clássico. Era música escolhida e música ligeira.
E como eram feitas as emissões nessa altura? Dá-me a sensação que a orquestra estava no estúdio, que os cantores estavam no estúdio, que os locutores estavam no estúdio.
Isso era na hora de variedades.
Só?
Só!
O restante já era gravado?
Era tudo gravado!
Então, quando no fim da década aparecem os discos estereofónicos, que foi em 58, é um marco importante em termos de rádio. Como é que isso foi sentido cá?
Pois! Sabe, havia uma espécie de política entre alguns locutores e as discográficas. As discográficas davam a esses locutores o disco para ser difundido. E a maior parte das pessoas não tinha. E muitas vezes nem a estação tinha, porque eles ficavam com o disco para si. De maneira que as pessoas que estavam medidas nesse «gang», digamos assim, usavam esses discos o mais possível e cá os radiouvintes gostavam de ouvir o programa, até houve um programa no RCP feito por gente nova, entre eles o José Manuel Nunes e o João David Nunes e outros. Era um complot de cinco ou quatro locutores que tinham os melhores discos.
O programa não se chamaria “Em Orbita”?
“Em Orbita”! Mas era do Rádio Clube Português.
Em 1953 foi inaugurado o Hospital de Santa Maria. As coisas passaram-se de novo do mesmo modo?
A mesma coisa. Era o relato visível, passo a passo do acontecimento, com a descrição das enfermarias inauguradas e que a maior parte dos apetrechos haviam sido dados pela Gulbenkian.

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Força democrática

Nesta terceira parte revisitamos os movimentos independentistas africanos, o documento dos 43, numa “Hora da Saudade”.

Entrevista Virgílio Luís Silva


Em termos da década há alguns factos políticos que marcam os anos 50 relativamente à política e à sociedade, resta-nos saber relativamente à rádio. Por exemplo em 1955, há uma tentativa, muito embora frustrada, de invasão dos territórios portugueses na Índia: Goa e Damão.
A rádio portuguesa, reagiu patrioticamente. Nacionalistamente. Os invasores são os invasores. Nós estamos na nossa casa. Simplesmente, Goa recebeu da metrópole armas velhas, o Salazar dizia: é uma guerra sem fim, portanto temos de aguentar. A mesma coisa que ele dizia para África. É uma guerra sem fim. É evidente que os heróis dessas guerras, lá por fora, foram geralmente pessoas da oposição, porque parte deles estavam deportados e eles não tinham outro remédio senão lutar. Passou-se isso em Timor. Havia muitos exilados em Timor. Bem, exilados não. Eram condenados a ir para Timor, como o Mário Soares esteve na Guiné, como outros estiveram assim, não é. De modo que isso foi considerado, à face do Estado, como uma agressão que nós tínhamos que defender. Mas o que é certo é que nós não cuidamos antes, nem durante, de dar meios às pessoas de lá de se defenderem.
Em 1955 morreu o Luís de Freitas Branco e o Egas Moniz. Estas perdas, que foram significativas, não só para a sociedade portuguesa, e no caso do Freitas Branco também para a rádio, já que ele era compositor...
Foi director de Orquestra durante muito tempo.
Como é que estas mortes foram vistas e como é que foram noticiadas?
Bom. O Egas Moniz não era uma persona grata ao Estado Português. Não houve folguedos nem nada dessas coisas pelo facto de ele ter tido o Prémio Nobel. Foi uma coisa que quase passou despercebida. Há-de haver muita gente que nem sabe que o Egas Moniz teve o prémio Nobel da Medicina. O Luís de Freitas Branco foi diferente, porque era um homem que mantinha uma personalidade independente. Era muito querido dentro da música. Era um bom director de orquestra e compositor e depois tinha um filho que lhe seguiu as pisadas, o João de Freitas Branco, que é uma pessoa extraordinária. Ele foi muito acarinhado e, claro, as suas exéquias foram à dimensão desse carinho.
Em 1956 começa a haver uns certos movimentos independentistas relativamente a Angola, Guiné e Cabo Verde, nomeadamente, nestes movimentos, que aliás vêm já desde o final da década de 40, com o que acontece na União Indiana face à Grã-Bretanha que governava o território. Em 56 Amílcar Cabral funda o PAIGC e por assim dizer faz voltar os olhos do Estado para a Guiné e para Cabo Verde. A rádio cá ficou de “bico calado”.
“Bico calado” não. A rádio cá dizia que o Amílcar Cabral era um traidor. Todos os movimentos africanos colocavam-se ao nível mais baixo e dizia-se: são negros que estão a fazer isto. Posso dizer-lhe que houve pessoas que vieram prevenir Salazar de que a guerra estava eminente e de que ele podia salvar o problema ainda, através de eleições, através dessas coisas. Ele não aceitou nada e disse sempre que era uma guerra até ao fim. E depois começaram os movimentos em Portugal já dentro da oposição a favor dos negros. Muita gente foi para a cadeia por causa disso. Eu própria assinei um documento pela libertação dos prisioneiros portugueses e pelas eleições livres. Fui demitida. Depois assinei outro documento pela libertação dos prisioneiros do Tarrafal, isto coincide nessa época toda. Esse documento foi assinado por 43 pessoas, até se chamava o documento dos 43. Pedia a liberdade dos prisioneiros do Tarrafal, pedia a liberdade de imprensa, pedia eleições livres, creio que eram as três coisas. E a maior parte foram demitidos ou presos.
É aí que começa em Portugal um latejar de qualquer coisa que não está bem e que há-de chegar ao 25 de Abril e que a guerra de África veio trazer muita força. Há medida que partiam daqui os barcos cheios de soldados para África, eram milhares de mães, de noivas e irmãs que ficavam no cais a chorar porque iam para a morte. Toda essa gente, agregada cá, estabeleceu nova desconfiança. Todos os meses ia um barco cheio e não voltava ninguém. Como é que é isto?
Evidentemente que da gente que foi para África nem todos iam para matar. Muitos até iam. Mas, principalmente os milicianos iam para estabelecer camaradagem com os homens de África e isso foi estabelecendo uma visão diferente do problema africano, daqueles que escreviam para cá, em relação aquilo que se dizia aqui, que era uma coisa até ao fim.
Isto que lhe estou a dizer, se fosse dito naquela altura eu ia para a cadeia, porque não era isto o que o Estado queria. O Estado queria era manter África, era manter a Guiné, tanto Angola como Moçambique, com o patrocínio de Portugal, mas simplesmente o que aconteceu sempre nas colónias portuguesas é que elas foram o berço de riquezas de pessoas de cá, mas não educamos as pessoas e você sabe que um homem que não tem instrução não tem independência. Não abrimos escolas, só duas ou três para fazer ver, não preparamos indústrias, com tanta coisa que tem África, deixamos através da guerra estiolar todo o campo que deveria ser semeado e cultivado, aquelas madeiras extraordinárias que Angola exportava, quase tudo ardeu e hoje vemos um país devastado por quem?
Eu estou neste momento como Vice-Presidente da Federação das Mulheres Empresárias a trabalhar com África, com as mulheres de África, e já conseguimos abrir sociedades e fazer protocolos com mulheres da Guiné, Angola e Moçambique. As dificuldades delas em abrir uma escola, mandando nós de cá a Cartilha Maternal, que é o princípio de qualquer coisa... “Pois é, mas nós temos de fazer uma escola debaixo de um embondeiro com uma palhoça que guarde o vento e os miúdos trazerem um banquinho de casa, aqueles que trazem. Os restantes sentam-se no chão. É esta a Angola que eles herdaram.
O dinheiro todo que se gastou na guerra de África, transformado em escolas, em indústrias, em ensino para a agricultura, tinha feito dos países da África portuguesa, países extraordinários. Mas nós mandamos dinheiro para queimar. Evidentemente, você diz isso porque foi uma pessoa da oposição, não foi uma pessoa do Estado Novo que queria manter o património nacional. Pois é, eu quero manter o património enquanto o possa aguentar.
Acontece-me agora isso com a Fundação Sara Beirão. Sara Beirão deixou um bom património para a gente aguentar o lar de idosos e deixou-nos algumas casas de renda em Lisboa. Eu tenho dito sempre ao Caeiro (Igrejas Caeiro): “Eu não vendo património”. Agora se eu tiver uma casa velha com uma proposta boa de venda para ser remodelada e eu pegar nesse dinheiro e o puser em Tábua a melhorar aquilo que lá está, então faço! O que não tenho é que estar agarrada às pedras velhas que se vão demolindo e cada vez é mais caro manter. Então é melhor largar.
Nessa altura, mais ou menos, aparece um programa que tem uma certa importância que se chama “A Hora da Saudade” que muito embora venha mais detrás, com a guerra assume outro fôlego.
É, eu fiz muitas vezes “A Hora da Saudade”.
Mas “A Hora da Saudade” começa por ser para a frota bacalhoeira.
Sim, começou para a frota bacalhoeira. Vinham as mães, as noivas, traziam um papelinho escrito, não se podia ler nem uma palavra que não estivesse nesse papelinho que era visado pela administração. Traziam o papelinho e liam aquilo ao microfone. Muitas vezes embargava-se a voz, não podiam, e era o locutor que tinha de fazer a leitura. Não era nada fácil, principalmente para uma mulher quando via aquelas noivas e aquelas mães a chorar. Agora,...pegar no papelinho e fazer a voz delas, não era nada fácil. Não era nada fácil.
Primeiro foi para os bacalhoeiros e depois foi para os soldados de África. Houve uma senhora do Estado, que não me lembro o nome dela agora, Pinto, Cortez Pinto,... não sei, que tomou a seu cargo ser madrinha de guerra dos nossos soldados e então ia a Angola e andava lá com os rapazes a levar medalhinhas para os estimular, mas era uma coisa que caía no ridículo aqui.
Acabava por ser mal vista?
É.
“A Hora da Saudade”. Qual foi a razão de existir da “Hora da Saudade”? Foi proposta por alguém ou saiu da cabeça do Estado?
Não sei quem é que propôs. Sei que era uma companhia que se dava às pessoas que estavam distantes. Os bacalhoeiros chegavam a estar dois meses, três meses no mar. Havia um navio que lhes prestava assistência de saúde, com médicos e tudo isso e era esse navio que recolhia via rádio as coisas todas.
As emissões eram essencialmente em Onda Curta?
Em Onda Curta.
Do outro lado chegavam alguma sensações para vocês, não vinham pessoas visitar-vos e dizer obrigado?
Cartas. Bem. Quando estava na Onda Curta, já recentemente, eu tive pessoas que me vieram visitar da América, do Canadá, de muitos países, eu mandava mensalmente para o correio à volta de três mil cartas e fiz concursos trazendo crianças de lá a Portugal e, enfim, muita coisa. Isso era uma maneira de os unir a nós e eles acabavam por trazer os pais para ver a terra dos seus amigos portugueses. Isso foi uma coisa bonita que eu fiz. E fiz uma coisa em rádio, que está hoje no Museu das Telecomunicações, com o Luís Sambado, que foi uma mesa redonda de sete países numa noite de Natal. Ligava ao Brasil, ligava à Venezuela, aos Estados Unidos, ligava a França e havia uma pessoa no estúdio que atendia a chamada que vinha de lá.
Mas voltemos à “Hora da Saudade”. O programa com a guerra de África assume uma outra importância, diferente da que teve para os bacalhoeiros?
Claro. Era sempre dar saudades, beijinhos para a mãe. Não se podia passar disso. Elas não deixavam. Não havia outras frases que não fossem as frases de família.
Mas não havia também bacalhoeiros durante a guerra de África?
Eu penso que a história dos bacalhoeiros terminou a certa altura. Até os barcos deixaram de ir e houve um problema qualquer em que a história dos bacalhoeiros acabou. Vou-lhe dizer que eu estive na Associação de rádio nessa altura e o nosso presidente era o Carlos Ribeiro que ia sempre no barco dos bacalhoeiros. Deu-me a sensação que houve qualquer problema a nível superior, que eu não soube, que se deixou de fazer. Depois passaram-se a fazer as “Horas da saudade” para África.
Bem. Depois já no final da década de 50, existiam algumas “coisas” interessantes que dizem respeito à entrada de Portugal para a ONU, por exemplo. A entrada de Portugal para a ONU deve ter sido um motivo de regozijo?
Houve regozijo da parte estatal. Da oposição não. Foi mal interpretada a entrada de Portugal para a ONU, porque nós não nos esquecíamos...
Mas a ONU era uma coisa boa para Portugal, no fim de contas...
Pois era, mas era americana. Espere estou a confundir ONU com NATO.
A ONU era uma coisa melhor que a NATO no que diz respeito a Portugal.
Era.
Em 1957, dá-se a assinatura do Tratado de Roma que cria a Comunidade Económica Europeia. O facto passou despercebido cá?
Houve assim um embandeirar em arco. E eu vou-lhe dizer porquê. É preciso a gente compreender a psicologia do Salazar. O Salazar era um homem de Coimbra, ou perdão, era um homem de Santa Comba Dão que tinha estudado em Coimbra. Tinha começado pelo seminário e depois passou para a Universidade e era um homem muito fechado. Era um homem que nunca saiu do país, senão para ir a Mérida a uma conferência com o Franco, uma vez... Aqui na fronteira. De resto, nunca saiu do País. Ele achava que não valia a pena e tinha uma frase que era: “Nós somos um país pobre e temos de nos governar como pobres”. Para ele era uma coroa de glória Portugal estar só, daí a sua frase, célebre frase: “Orgulhosamente sós”. Era um homem que detestava tudo quanto fosse para lá da fronteira.
Então como é que Portugal adere à ONU, que era uma organização estrangeira?
ELA - Porque ele foi empurrado depois da guerra. Não tinha alternativas.

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