quarta-feira, 31 de julho de 2013

(De)cisão



Decidimos terminar esta série do Aqui & Agora. Agradecemos àqueles que nos acompanharam e desejamos a todos boas leituras.

Texto e desenho Dina Cristo

A todo o momento acontecem decisões, mais ou menos (in)conscientes e (ir)relevantes. Óscar Quiroga escreveu um dia: «Nada acontece automaticamente no mundo humano, tudo é decidido ainda que inadvertidamente. A todo momento fazemos escolhas através dos pensamentos que nos permitimos pensar, das emoções a que nos agarramos para nos sentir vivos e intensos e, também, fazemos escolhas através das atitudes que decidimos tomar em relação aos nossos deveres e direitos».
Há pequenas escolhas tomadas de forma mais espontânea e naturalmente. Contudo, na viagem da vida, esta proporciona cruzamentos mais difíceis, com acesso a caminhos desconhecidos, para os quais não se sabe, antecipadamente, a saída, pelo que se torna mais arriscado e difícil decidir. O destino apropriado não está garantido e a incerteza e a tensão e ansiedade podem instalar-se.
Para que haja uma boa decisão é preciso evitar a precipitação, por um lado, mas também a indecisão prolongada, por outro, seguir somente a lógica mental como também escutar apenas o coração, ignorar os avisos alheios como seguir unicamente os conselhos de outrem. Uma decisão que, para ser rápida, sacrifica uma das partes torna-se imprudente e enfraquecida e corre o perigo de vacilar, recuar ou não ser aplicada.
Para uma decisão, ponderada e acertada, é necessário processar desde os aspectos mais factuais e práticos aos mais inspiradores e graciosos, passando pela reflexão e análise das informações disponíveis, que reduzem a incerteza, e pela atenção às emoções despertas[1]. É imprescindível tempo suficiente que permita aceder, apreender, compreender, compatibilizar, harmonizar, integrar e depois unificar e transcender as várias fontes numa única atitude unificada, ao mesmo tempo fundamentada e sólida, profunda e ampla, completa e elevada.
Autêntica (re)solução, a boa decisão é aquela que, assim, harmonizada e respeitando a natureza peculiar daquele homem ou mulher - os seus princípios, meios e objectivos -, tendo por base o amor próprio e não o medo, a luz e não o dinheiro, a Vontade e não a coação, se traduz num acto deliberado, exercício livre, autónomo e responsável do poder de escolher.
Pode ser avaliada por tornar a pessoa mentalmente mais discernida, e não confusa, emocionalmente mais generosa, e não maldosa, fisicamente mais estimulada a trabalhar, e não desanimada. Omraam Aivanhov ensinou a ouvir a voz interior que previne: «Se sentirdes uma sombra nos vossos pensamentos, uma perturbação nos vossos sentimentos e indecisão na vossa vontade, não assumais compromissos, pois este critério é absoluto»[2].
De acordo com Carlos Cardoso Aveline (CCA) para uma decisão correcta há que estabelecer metas claras, realistas, positivas (e não pela negativa), asseguradas com pequenos passos, graduais, sob aquilo que está ao alcance controlar, o nível interno (pensamentos, sentimentos e atitudes), em vez do externo, que, não dependendo da pessoa, gera ansiedade, além de (dis)trair.
Bem-estar e saúde são consequências de uma boa decisão, aquela que inspira, expande, eleva e liberta. Sempre que se alinha cabeça e coração, mental e emocional, a tomada de decisão traz paz, serenidade, alegria e leveza. Já a indecisão, hesitação ou inquietação - sinais de que a resposta deve ser negativa, de que o caminho não é por ali - sobretudo se prolongada, gera stress, angustia, mal-estar e, segundo Louise Hay, problemas físicos, nomeadamente nos dentes e gengivas.
Aceitar decidir
A indecisão, para cujo tratamento é adequado o floral “scleranthus”, pode ser devida a uma perturbação psíquica, devido a depressão ou a neura(stenia). No caso das Pessoas Altamente Sensíveis (PAS), deve-se ao facto de, ao serem muito intuitivas, terem acesso a diversas ideias e receberem demasiadas opiniões[3]. De igual modo, as pessoas com (forte) energia "dois" têm, ao ponderarem mais do que uma perspectiva, dificuldades em decidir. 
À indecisão arrastada ou à não decisão, é preferível, segundo alguns autores, uma má decisão, que poderá corrigir-se[4]. Ao contrário da indecisão, que implica inércia e estagnação, a decisão, ao ser uma escol(h)a, que gera acção, movimento e mudança, traz aprendizagem de acordo com os resultados obtidos. O que torna a (de)cisão, muitas vezes, difícil é a perda inevitável que provoca, pois há sempre alguma coisa a sacrificar para que algo se possa salvar. Decidir é - além de analisar, separar, selecionar e avaliar, saber optar – prescindir e renunciar, o que exige desapego.
A decisão benéfica activa o novo, útil, correcto e funcional em detrimento do passado, inútil, incorrecto e disfuncional, que deixa ir embora, como é propício no final de cada ciclo de nove anos de vida. Cada novo período, estimulado pela força do “um”, é uma das melhores oportunidades para efectivar as decisões tomadas, renovando pessoas, lugares, ideias e ocupações. O desafio é, ciclicamente, libertar o velho, ir dispensando cada vez mais o instintivo, grosseiro, pesado e pessoal por substância, física, emocional e mental, mais intuitiva, fina, leve e impessoal – a iluminação da “lua”.
A cada aniversário pessoal assim como a cada Ano Novo são, para CCA, também períodos ideais à tomada de decisão, à sua reavaliação ou reforço. Pela disponibilidade e disposição que propiciam são mais uma oportunidade para desapegar da rotina, exercitar a vontade, vencer a preguiça e ultrapassar a inércia.
O mesmo teósofo ensina como há sempre livre arbítrio nas escolhas efectuadas pelo Ser Humano, não só durante todo o tempo livre mas também na reacção face ao ocupado com o cumprimento das obrigações; a liberdade e responsabilidade são constantes e cada atitude define e orienta, no momento presente, a direcção do caminho a seguir, a via da animalidade ou divindade, a atenção a prestar ou não e a que(m).
A opção pelo bem, belo e bom, pela verdade, pelo amor e pelo serviço (1,0) em detrimento do mal, feio e mau, da ilusão, do medo e de se servir (0,1) são decisões importantes, que exigem coragem, força de vontade e sacrifício – há sempre um medo ou desejo a ultrapassar, uma perda a enfrentar, um “preço” a pagar. No caso destas decisões importantes, atravessar o Rubicão implica aceitar as consequências.
Para que a escolha do melhor seja influenciada pela profundidade da alma e não fique à mercê dos caprichos da personalidade é necessária persistência e paciência para que o apaziguamento mental, a serenidade emocional e a elevação aconteçam, como ensina Omraam Aivanhov[5]. Outro mestre, Platão, escreveu, no final da “A República”, que ainda que sejam os últimos a escolher, podem saber fazê-lo bem.
Cada um tem não só o direito como o dever, a responsabilidade, de decidir. A todo o momento é uma nova oportunidade de o fazer, que reflecte o seu autor e influencia os que o rodeiam. A cada nova decisão se avança no amor ou no medo, na vontade ou no desejo, no perdão ou na culpa, na elevação ou na degradação. As boas decisões, conscientes e amorosas, mais íntegras e demoradas, curam. As outras atrasam e desviam cada Ser Humano do seu caminho, autêntico, único e diferente.


[1] Como referiu António Damásio, em entrevista a Judite Sousa, na RTP, «É praticamente impossível tomar decisões que não tenham uma componente emocional». [2] AIVANHOV,Omraam – Pensamentos quotidianos 2011. Publicações Maitreya. Dia 13/8/2011. [3] Contudo, como sublinha Elaine Aron, embora não adoptem decisões rápidas, as PAS tomam normalmente boas decisões. [4] O sentimento de remorso pode estar na base de novas boas decisões. [5] AIVANHOV, Omraam – Pensamentos quotidianos 2014. Publicações Maitreya. 3/8/2014.

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quarta-feira, 24 de julho de 2013

Ilusões



A dias de se assinalar o seu nascimento, relemos uma das obras mais célebres de Jean Baudrillard.


Texto Myriam Mesquita Lopes

Actualmente a simulação ocorre em modelos de geração de um real sem origem, e como este real simulado não tem origem, não há exactamente uma realidade, o que há é o hiper-real. Segundo Baudrillard, o real é produzido a partir de memórias, matrizes e de modelos de comando, podendo ser reproduzido infinitamente.
O autor afirma, "Simular é fingir ter o que não se tem". No entanto, simular não é fingir. A simulação não pressupõe que se finja, apenas se passa a sentir os sintomas de uma doença real, ou seja, temos aí a doença simulada. A simulação não permite perceber o que é verdadeiro e o que é falso e o que é “real” e “imaginário”.
A imagem é o reflexo de uma realidade profunda/uma boa aparência, a imagem deforma uma realidade profunda, é uma má aparência. Por outro lado, a imagem disfarça a ausência de uma realidade profunda, isto é, finge ser uma aparência. A imagem não tem relação com qualquer realidade, é o seu próprio simulacro puro. A simulação atinge a sua fase máxima, o hiper-real, ou seja, diversas realidades coexistem como estratégia de dissuasão do real. Baudrillard sublinha que as imagens têm a propriedade de aniquilar o real e gerar o seu próprio real. Necessitamos de possuir um passado visível, um mito visível da origem para que possamos estar tranquilos em relação aos nossos fins. Afirma ainda que a Disneylândia não se trata de uma representação falsa da realidade mas sim de esconder que o real já não é o real, salvaguardando o princípio da realidade. O autor diz que o mundo se quer infantil para que os adultos pensem que estão no mundo “real”, e para esconder que “a verdadeira infantilidade está em toda a parte, é a dos próprios adultos que vêm fingir que são crianças para iludir a sua infantilidade real”.
Outrora tentava-se dissimular um escândalo, hoje em dia tenta-se esconder que ele não existe. Já não é possível a ilusão porque o real não é possível. Os acontecimentos hiper-reais já não contêm rigorosamente conteúdos ou fins próprios, mas estão indefinidamente refractados uns pelos outros. O que a sociedade procura ao produzir e reproduzir, é “ressuscitar o real que lhe escapa”. A produção material é ela própria hiper-real. Nenhuma sociedade sabe concretizar o seu trabalho de luto do real.
O poder à semelhança de uma outra mercadoria depende da produção e do consumo das massas. A análise ideológica tem como finalidade reconstituir o processo objectivo, pois é sempre um problema querer reinserir a verdade sob o simulacro. A filmagem exalta o insignificante: há um “gozo da visão microscópica que faz o real passar para o hiper-real”. Segundo Baudrillard esta é a fase futura da relação social, a nossa, a fase da dissuasão e não da percepção, na qual “Vocês são a informação, vocês são o social, vocês são o acontecimento, isto é convosco, vocês têm a palavra”.
Não há violência nem vigilância somente a informação, reacção em cadeia, uma implosão lenta e simulacros de espaços. O medium é inapreensível, difuso e difractado no real. É o fim do espaço perspectivo e panóptico. A televisão “olha-nos, manipula-nos, informa-nos…”. Quando a distinção entre os dois pólos tradicionais não é perceptível assiste-se à entrada na simulação, na “manipulação absoluta”, na indistinção do activo e do passivo”. Os pólos diferenciais implodem ou reciclam-se mutuamente.
A história que nos é contada hoje é uma neofiguração, isto é numa invocação da semelhança, mas ao mesmo tempo a prova de que os objectos desaparecem na “sua própria representação: hiper-real”. É o “brilho de uma hipersemelhança”, “figura vazia da semelhança, à forma vazia da representação”.
Jean Baudrillard invoca que não é coincidência que a televisão esteja justamente no local onde tudo acontece. A intrusão da televisão, faz surgir o incidente. Dá-se uma forma de catástrofe do sentido formal. A expectativa, a esperança é a implosão. A simulação é eficaz o real não. O suspense vence. A solução é: “(…) fazer acontecer a catástrofe”. A simulação “funciona como um incenerador que absorve toda a energia cultural devorando-a”. É uma máquina de produzir vazio. Materializa-se, absorve-se e aniquila-se. Tudo está em coma profundo. A cultura morreu. Foi elaborado um elogio à desconexão total, à hiper-realidade e à implosão da cultura. Quer-se animação, não reanimação. “São as próprias massas que põem fim à cultura de massas”. Tudo está previsto, já não existe alternativa, pois “o poder implode” e “é o seu modo actual de desaparecimento”. A violência implosiva “resulta já não da extensão de um sistema mas da sua saturação e da sua retracção”. Dá-se uma densificação desmedida do social. É-nos ininteligível, pois é indeterminada. Assim involuimos, regredimos. Procuram-se todas as respostas nos objectos. Eles interrogam-nos, testam-nos, intimidam-nos. Os Média funcionam da mesma maneira. É um universo de simulação, onde a limitação racional é contínua. Nasce uma nova morfogénese, a aglomeração face ao campo e à cidade. O hipermercado, como exemplo é um núcleo que gera uma órbita ao seu redor na qual se move a aglomeração. Estamos num universo em que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido. A informação é invadida por uma espécie de conteúdo fantasma, de transplantação homeopática, de sonho acordado da comunicação. É um processo circular entre a simulação e o hiper – real. Mais real do que o real. É assim que se anula o real. O autor sublinha que “Os Média são como instituição de um modelo irreversível de comunicação sem resposta”.
Defende que o “grau zero do sentido” acontece pela “absorção de todos os modos de expressão virtuais”, a razão é que a “publicidade é instantânea e instantaneamente esquecida”. É o triunfo da forma superficial. Não tem passado, nem futuro, por ser a última vence sobre todas as outras”. É uma linguagem de massas. Define a sociedade. Fala-nos de “uma cultura que se enterrou para escapar definitivamente à sua própria sombra”. Um holograma é a fantasia de captar a realidade ao vivo de forma contínua. É uma suspensão do real. Profundidade invertida, aura imaginária. Assim como o holograma, o clone é uma tentação inversa, fascínio inverso, fim da ilusão. É “imagem perfeita e fim imaginário”. Não existe real no fundo. A reprodução holográfica, já não é real, é hiper-real.
Baudrillard afirma existirem três categorias de simulacros: simulacros naturais, simulacros produtivos e simulacros de simulação. Já não podemos a partir do real construir o irreal, o imaginário a partir do real. O que tende a acontecer é exactamente o contrário: criam-se situações descentradas, modelos de simulação, reinventa-se o real como ficção, precisamente porque ele desapareceu da nossa vida. O que distingue Crash de toda a ficção científica, é que projecta no futuro as mesmas linhas de força e as mesmas finalidades do universo dito “normal”.
A ciência nunca está segura, por isso a experimentação não é “um meio para um fim, é um desafio e um suplício actuais”. O inconsciente “é o dispositivo logístico que permite pensar a loucura”. É o lugar da repetição indefinida do recalcamento e das fantasias do sujeito.
Nunca sabemos qual é o resto do outro. Podemos assim falar do resto como de um espelho, ou do espelho do resto. É que o sentido não existe. O resto é reversível e troca-se em si mesmo. Está em toda a parte e ao procurá-lo sem o encontrar, anula-se enquanto tal. Para o autor do livro, hoje faz-se do resto o problema crucial da humanidade.
Baudrillard conclui que “só uma patafísica dos simulacros pode fazer-nos sair da estratégia de simulação do sistema e do impasse de morte em que nos encerra”. “O universo da simulação é transreal e transfinito: já nenhuma prova de realidade lhe virá pôr fim – só o afundamento total e o deslizar do terreno, que continua a ser a nossa mais louca esperança”.

O sistema em que vivemos é niilista, no sentido em que tem o poder para reverter tudo, “inclusivamente o que nega, na indiferença”. O niilismo realizou-se inteiramente na simulação e na dissuasão. O fascínio é uma paixão niilista por excelência. A verdadeira revolução do século XIX é a “destruição radical das aparências, o desencantamento do mundo e o seu abandono à violência da interpretação e da história”. O autor do livro assume que já “não há esperança para o sentido”.

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quarta-feira, 17 de julho de 2013

Retribalizar


Cinquenta anos depois da publicação, pela primeira vez, de uma das obras mais importantes de Marshall McLhuhan, revemo-la, antes da celebração de mais de 80 anos do nascimento do autor.

Selecção Dina Cristo

«Para ter êxito comercial, um livro não pode arriscar mais do que dez por cento de novidade», pág.12
«Se o século XIX foi o tempo da cadeira do editorialista, o nosso [XX] é o século do divã do psiquiatra», pág.13
«Todas as culturas e tempos possuem um modelo preferido de percepção e de conhecimento, que procuram impor a tudo e a todos», pág.13
«A situação de abandono escolar nas nossas escolas ainda agora começou», pág.16
«O estudante de hoje vive de forma mítica e profunda», pág. 17
«(…) os homens nunca têm consciência das regras fundamentais da sua cultura (…)», pág.18
«(…) a compreensão paralisa a acção (…)», pág. 29
«(…) o ser humano transforma-se naquilo que contempla.», pág. 32
«Nós, por nossa parte, detectamosa vanguarda no frio e no primitivo (…)», pág.40  
«(…) uma situação de alto desenvolvimento oferece, por definição, baixos índices de participação (…)», pág.41
«O consumidor passivo deseja embalagens (…)», pág. 44
«À medida que começamos a reagir em profundidade à vida (…) tornamo-nos reaccionários», pág.48
«O jovem Narciso tomou o seu reflexo na água por outra pessoa», pág.55
«A auto-amputação impede o auto-reconhecimento», pág.56
«Na era da electricidade, nós usamos como nossa pele toda a humanidade», pág. 61
«Assim como a imprensa clamava pelo nacionalismo também a rádio clama pelo tribalismo», pág.63
«Nós podemos, se quisermos, planear as coisas antes de as criarmos», pág. 64
«(…) os meios linguísticos modelam  o desenvolvimento social tanto quanto os meios de produção», pág.64
«Hoje em dia possuímos anestésicos que nos permitem executar as mais aterradoras intervenções físicas», pág. 79
«O efeito da rádio é visual (..)», pág. 79
«(…) o contra-irritante costuma revelar-se mais incómodo do que o irritante inicial (..)», pág.81
«(…) a força de vontade é tão útil  para a sobrevivência como ainteligência», pág. 84
«A consciência não é um processo verbal», pá.98
«(…) cada ideograma é investido de uma intuição total do ser e da razão», pág.98
«(…) a mais banal das comodidades implica profundas mudanças culturais», pág. 100
«(..) em todos os sistemas há um ponto a partir do qual a aceleração redunda em ruptura e colapso», pág. 104
«(…) o número é a essência de  todas as coisas perceptíveis aos sentidos», pá. 124
«(…) o número contém todo o sentimento do mundo de uma alma apaixonadamente devotada ao “aqui” e ao“agora”», pág. 124
«A tecnologia da imprensa converteu o zero medieval no infinito renascentista», pág. 127
«(…) todos os meios são extensões do nosso corpo e dos nossos sentidos», pág.128
«Agindo como um órgão do cosmos, o homem tribal aceita as suas funções corporais como formas de participação na energia divina», pág. 135
«(…) a luz é um sistema de comunicação autónomo no qual o meio é a mensagem», pág.140
«Hoje em dia, na era da electrónica, o homem mais rico está reduzido a ter o mesmo tipo de diversões, e até o mesmo tipo de alimento e de veículos, que o homem comum.», pág. 145
«Uma actividade que envolva todo o ser do homem, não é trabalho», pág.149
«(…) a era mecânica é um interlúdio entre dois grandes períodos orgânicos de cultura», pág. 161
«A alfabetização é em si mesma uma forma de ascetismo abstracto (…)», pág. 162
«O visual dessacraliza o universo e origina “o homem não-religioso das sociedades modernas”», pág. 165
«O ouvido é hipersensível. O olho é frio e distanciado.», pág.165
«(…) o grande preceito da bibliografia: “quanto mais houve, menos há”», pág.169
«(…) o homem integral mostra-se sempre muito inepto numa situação de especialização», pág. 176
«(…) a imprensa desafiou os padrões corporativos da organização medieval tanto como a electricidade desafia agora o nosso individualismo fragmentado», pág.184
«Não existe ceteris paribus no mundo dos meios e da tecnologia», pág. 191
«Idealmente, a educação é uma forma de protecção colectiva contra as consequências negativas dos meios de comunicação», pág.201
«Hoje em dia, o viajante tornou-se passivo», pág.204
«Todos os meios existem para investir as nossas vidas com percepções artificiais e valores arbitrários», pág.205
«A antecipação dá-nos o poder de desviar o rumo e controlar a força», pág. 205
«Ocorrem menos crimes quando não existem jornais para os divulgar», pág. 211
«(…) no nosso mundo eléctrico, a informação é claramente o negócio principal e a maior fonte de riqueza», pág.212
«(…) a introdução duma nova tecnologia altera não apenas a imagem, mas o próprio quadro», pág.224
«O carro tornou-se na carapaça, a concha agressiva e protectora, do homem urbano e suburbano», pág.230
«Os anúncios elevam o princípio do ruído ao patamar da persuasão», pág.232
«Os recalcitrantes são os (…) melhores aclamadores e impulsionadores», pág.235
«Quando as culturas mudam, os jogos mudam também», pág.244
«Levar mortalmente a sério as coisas mundanas é sempre indício de uma lamentável falta de reflexão», pág.248
«Vivemos hoje na Era da Informação e da Comunicação porque os meios eléctricos criam instantânea e permanentemente um campo total de acontecimentos em interacção nos quais toda a humanidade participa», pág.253
«(…) a nossa co-presença em toda a parte ao mesmo tempo é uma experiência mais passiva do que activa», pág.253
«A electricidade confere aos fracos e aos sofredores uma poderosa voz, ao mesmo tempo que afasta a especialização burocrática», pág.258
«Um pouco por toda a parte, o orgânico tem vindo a suplantar o mecânico», pág.260
«A aceleração é uma fórmula para a dissolução e colapso de qualquer organização», pág.260
«(…) a máquina de escrever representa uma fusão da pena e da espada», pág.264
«(…) as guerras posicionais acabaram», pág.269
«Numa estrutura eléctrica não existem margens», pág. 278
«O homem como recolector de alimentos reaparece incongruentemente como recolector de informação», pág.288
«Há imensa subtileza e sinestesia na arte primitiva(…)», pág.292
«(…) qualquer tarefa especializada dispensa a maioria das nossas faculdades», pág.294
«(…) o sucesso é não apenas perverso mas também o caminho mais seguro para a infelicidade», pág.298
«Se a televisão já existisse em larga escala no tempo de Hitler, este teria desaparecido num instante», pág.302
«A rádio propiciou a primeira experiência massiva de implosão electrónica (…)», pág.303
«A ênfase na literacia é um sinal distintivo das regiões que se esforçam por iniciar esse processo de estandardização (…)», pág.304
«(…) os efeitos da rádio são em grande medida independentes da sua programação», pág.308
«Toda a gente vivencia muito mais do que compreende», pág.321
«Se o meio é de alta definição, a participação é baixa», pág.321
«A televisão é um meio que tem mais que ver com a reacção do que com a acção», pág.322
«O movimento ecuménico é sinónimo de tecnologia eléctrica», pág.323
«A América europeíza-se hoje tão rapidamente quanto a Europa se americaniza», pág.324
«(...) numa terra de cegos, quem tem um olho não é rei; pelo contrário é encarado como um lunático alucinado», pág.335
«De dia para dia, a pena torna-se mais forte do que a espada», pág.341
«(...) há uma relação entre a educação e a pontaria», pág.344
«Com a tecnologia eléctrica instantânea, o globo nunca será maior do que uma aldeia», pág.346
«Qualquer matéria, se estudada em profundidade, relaciona-se imediatamente com todas as outras», pág.350
«(...) descobrir o desconhecido no conhecido - tão necessário para a compreensão da vida das formas», pág.355.

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quarta-feira, 10 de julho de 2013

Vi(d)a hortícola





Antes do Dia do Agricultor vamos conhecer, através da pena de um deles, alguns  dos principais desafios dos homens da terra.

Texto Filipe Sêco desenho Patrícia Sêco

Sol na eira e chuva no nabal. Este podia muito bem ser o Santo Graal de qualquer hortelão, e demonstra bem os tormentos que o cultivo da terra acarreta. A Natureza quer, pode e manda nas vontades do agricultor, pondo à prova, ano após ano, a sua persistência, força de vontade e paciência.
O agricultor é um eterno insatisfeito. Se faz sol, anseia por uma chuvinha, se chove, pede sol, e se o frio aperta, reza pelo tempo mais quente. Nunca se pode ter tudo, e em agricultura a frase é ainda mais certa. É evidente que o sol dá vida a tudo o que aquece, mas também pode queimar quando o termómetro sobe. A chuva incha as sementes e dá-lhes o sinal de que que é tempo de despertar, mas também pode ter efeitos destruidores, quando em excesso alaga os campos. O frio tem um efeito positivo no controlo natural de pragas, mas quando uma geada fora de tempo congela as “novidades” da horta, o hortelão roga pragas a quem controla o tempo.
Nesta relação homem /natureza, umas vezes ganha-se outras vezes perde-se. O agricultor depende então de si mesmo e das boas graças da mãe natureza. Há já muito tempo que se diz que a agricultura vive dos subsídios, e que sem eles era impossível fazer-se agricultura. Ao pequeno agricultor pouco lhe importa se há subsídios ou não, o que ele quer é estar em contacto com a terra e produzir o seu próprio sustento. Se falarmos de uma agricultura em larga escala, com os custos e os investimentos em sementeiras, equipamentos, mão-de-obra, etc., estes poderão fazer algum sentido. Os subsídios servem para isso mesmo, auxiliar algo que implique grande risco. Nenhuma outra actividade está tão dependente das condições ambientais como a agricultura.
Quando decidi tornar-me agricultor biológico a ideia poética do que era trabalhar a terra estava no auge. Passados mais de 10 anos desde o início e após grandes tormentos, como a perda da estufa passando por colheitas fracas, a ideia poética, apesar de tudo, ainda se vai mantendo. A Lousã é considerada pelo Ministério da Agricultura como uma zona desfavorecida, principalmente pelas condições climatéricas e fertilidade dos solos, muito diferentes, por exemplo, de uma região mais costeira. Acrescido ao facto de a Agricultura Biológica exigir muito trabalho manual e de planeamento de culturas mais rigoroso.

O grande desafio, para os próximos anos, vão ser as alterações climáticas, que já se fazem sentir. Também esta lei das sementes de que tanto se fala poderá limitar bastante a autonomia do agricultor, caso se confirme a impossibilidade de podermos guardar e trocar as nossas próprias sementes. Para mim, o maior desafio de todos vai ser mesmo resistir, e ter força de vontade para vencer o desânimo interior que a incerteza de uma sementeira traz. Uma vez agricultor, agricultor para sempre, o que pode mudar é mesmo o objectivo para o qual se trabalha, auto-suficiência ou produção em grande escala.

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quarta-feira, 3 de julho de 2013

Co-operar


Antes do Dia Internacional das Cooperativas, perspectivamos a competitividade da cooperação, as vantagens de laborar com - e não contra - o(s) outro(s).

Texto e fotografia Dina Cristo

Uma das fontes mais profundas da competição é o pensamento de escassez. A sensação de insuficiência é um pressuposto que gera medo de não conseguir ter o que se necessita, o que conduz à luta pelo poder, para melhor controlar e dominar. A ideia de igualdade é outro importante factor que está na base do desejo de distinção, frequentemente de acordo com expectativas exteriores.
A consciência individual, o interesse pessoal, fazem do individualismo uma das causas mais influentes para relações competitivas, com ênfase na astúcia. «Competição ou espírito agonístico são, na nossa perspectiva, a mesma coisa. Resultam da incapacidade de sair de si próprio, no desejo de se sobrepor, ao invés de se identificar com o outro», elucida Clara Tavares[1].
Da comparação nasce uma sensação de privação relativa, o que provoca uma espécie de corrida social, para ver quem chega primeiro (ao ponto mais alto), à ostentação (de títulos e/ou de bens), como forma de sinalizar ascensão e posição social, na esperança de que esta traga algum respeito - uma ambição de diferenciação que incrementou a mobilidade social, sobretudo depois da Revolução Americana, como explica Abílio Oliveira[11].
Este foco egoísta e separatista expressa-se por uma atitude contra a Natureza, incluindo a Humana, cujo objectivo é tirar vantagens, explorar, lucrar, acumular, apropriar-se. Esta postura “anti”, meramente receptiva e coadjuvada por um estilo de vida rápida, vacilante e ensopada em quantidade, não vai, contudo, além da repetição, da homogeneidade e da uniformização.
Os seus pontos de partida reaparecem à chegada: isolamento, conflito, inimizade, agressividade, bloqueio, stress, vazio. No final, os frutos são idênticos à raiz desta “árvore”, enfraquecida em combate para ser alguém: violência, crueldade, aprisionamento, doença, indiferença e consumismo. Resulta desta relação incorrecta, após a eliminação, dominação, destruição e exaustão, ainda mais pobreza, separação, insegurança e uniformidade.
Carlos Cardoso Aveline refere, no entanto, como se trata de uma reacção em crise: «As ideologias da luta competitiva, baseadas na premissa de que o mundo é mau e o homem não presta, não sobreviverão à sociedade patriarcal que já está aos pedaços, como uma placenta que se rompe na hora do parto»[2]. «A maioria das espécies extintas ao longo do tempo» sustenta o autor no mesmo livro «não desapareceu pela competição entre si, mas por mudanças climáticasdrásticas ou doenças epidêmicas»[3]. A maior parte dos animais, argumenta ainda o autor - são sociais e dependem bastante da ajuda mútua para sobreviver.

Cooperar é natural

F.J.C. Jr. defende que a cooperação é a verdadeira essência da civilização. Ela está presente desde a célula, como esclarece Lynn Margulis, até à conversação, como argumenta Grice, constituindo a base da economia medieval, designadamente através das guildas ou do trabalho colaborativo e anónimo, de construção colectiva das Igrejas. Está actualmente presente em actos como, por exemplo, o Biogás ou o aperto de mão, uma troca entre o princípio activo (emissor) e o passivo (receptor).
Ao contrário da competição, parte do princípio de que existem recursos não só suficientes mas também abundantes, o que gera confiança, além de diversos e diferentes, o que predispõe ao desenvolvimento do potencial existente, mais interior, e à sua manifestação, através da doação e partilha, e ao reconhecimento, gerando satisfação, gratidão e cada vez mais riqueza, material e psicológica. É o caso de todo o ovo ou semente, testemunho da capacidade criadora e multiplicadora da Natureza, e do jogo win-win, aplicado no âmbito da comunicação não violenta, em que todos ganham.
Orientados por uma consciência mais social e colectiva, os cooperantes baseiam a sua actuação em harmonia com os outros (e não contra eles), numa atitude sã e amiga, em união livre, com ganhos mútuos e apoio recíproco sem esquecer os valores da solidariedade, fraternidade, camaradagem, comunhão e altruísmo. Nesta parceria horizontal e correcta, com o ponto Alfa e Òmega a coincidirem na pacificação, segurança e comunicação, tem lugar a gratuitidade, a compaixão, a inclusão, tal como a amizade ou o amor.
Os resultados de força, esperança e plenitude reflectem as intenções comunitárias, de troca, circulação, fluidez e comunicação, as finalidades de identificar, aproximar, associar, conciliar ou de tornar comum e mesmo como um. Em vez de se procurar ser alguém, destacado, é-se ninguém, nesta floresta sã, qual rede humana de interdependência, círculo que cuida, protege, apoia e convive em uni(ci)dade.
A atitude em que as acções são compartilhadas, os benefícios distribuídos e os objectivos comuns, em alinhamento com a intenção original, manifesta-se nas confrarias, cooperativas, misericórdias, casas mútuas e do povo. Com uma Aliança Internacional desde os anos 60, o espírito cooperativo renasce hoje nas mais diversas actividades, desde a pedagogia (colaborativa) à agricultura (permacultura), passando pela saúde (homeopatia).
«À medida que o tempo marcha, o clamor crescente será para mais e mais cooperação – porque, vivendo em cooperação num mundo global, nós encontraremos a paz e a abundância para todos os povos, indiferentemente da raça ou credo», assegura F.J.R. Jr. É a compreensão, aceitação e aplicação da predisposição natural colaborativa - do interesse mútuo e do trabalho em equipa, própria do dois - e complementar existente entre todos os pares de opostos, que se procuram, necessitam e completam para assim poderem criar.
Quando a Humanidade deixar de competir consigo, com os outros e com a Natureza, numa atitude hostil, e passar a cooperar com todos, poderá recuperar a graça e a alegria. Se, desde bebés, Homens e Mulheres deixarem de ter de concorrer pela atenção de um adulto e de uma relação duradoura e segura, poderão, religados, resgatar a sua vocação cooperativa. Nessa altura, sem motivo para guerras, os Seres Humanos terão espaço, tempo, dinheiro, tecnologia e criatividade suficientes para proteger as plantas e os animais, e se elevarem a planos mais subtis e refinados.


[1] TAVARES, Clara - in Biosofia, nº38, pág.43. [11] OLIVEIRA, Abílio; GRAÇA, João  - Privação relativa – porque não vivemos mais satisfeitos in Biosofia, nº38, pág.4-8. 2011.
[2] AVELINE, Carlos Cardoso -  Aqui e Agora, para viver até ao séc.XXI, Editora Sinodal, 1985, pág.39. [3] Idem, pág. 25.

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quarta-feira, 26 de junho de 2013

Alminhas

Próximo das férias, apreciamos monumentos populares espalhados por estradas e cruzamentos. Parar e rezar um pouco é o convite para que todos, cada qual em sua via, prossigam em paz e cheguem ao seu destino.


Fotografia Dina Cristo















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quarta-feira, 19 de junho de 2013

O Caminho do Yoga

Wikipédia
Antes do Dia Mundial do Yoga, publicamos um artigo originalmente editado na revista "Biosofia", no ano 2000[1]. Nele o autor, diácono da Igreja Católica Liberal, explica quais são os principais tipos e princípios do Yoga.

Texto João Gomes 

Olhamos à nossa volta, e sentimo-nos insatisfeitos com as respostas que encontramos nas várias áreas do conhecimento e da chamada fé. Percebemos, no âmago do nosso ser, que chegou a altura de desvendarmos os mistérios e os véus que cobrem a vida. É ai, num pedaço de milagre, surge o início da resposta, vinda muitas vezes por “acaso”, numa conversa, num livro ou num filme.
Para muita gente, o yoga é a resposta para essas quatro questões fundamentais. [Quem sou eu? O que faço aqui? Donde venho? Para onde vou?]. Infelizmente, também para alguns, ele é a teia que os sufoca e os ilude.

O que é o yoga?

Uns dirão que é uma espécie de ginástica, de acrobacia oriental; outros, mais perto da verdade, afirmarão que é uma filosofia de vida; outros ainda, que é uma forma de atingir a paz e a libertação da roda dos nascimentos. A resposta a esta questão, encontra-se na raiz etimológica do termo. O vocábulo yoga é uma palavra do sânscrito e deriva do termo yug, que quer dizer união, unir. No yoga, o aspirante pretende unir o seu eu inferior (a personalidade, o anjo lunar, o quaternário, o subconsciente e o consciente) ao seu Eu Superior (o Cristo Interno, a alma espiritual, o Ego, a tríade, o anjo solar, atma, purusha, o supraconsciente). Assim, o yoga faculta-nos os meios, as técnicas e os instrumentos, para chegarmos a este fim.
Será interessante fazermos aqui um pequeno parêntesis e compararmos a psicanálise ao yoga. Na primeira, temos uma metodologia que nos permite “descer” ao subconsciente e analisar e conhecer o seu conteúdo; no segundo, apresenta-nos uma técnica que nos permite “subir” ao supraconsciente e contactar com o seu mundo.

O folclore da pseudo-espiritualidade

São muitos, infelizmente, os falsos gurus, os falsos mestres, que pululam por aí. Com um ar mais ou menos oriental, com os olhos mais ou menos em bico, com uma conta mais ou menos choruda, estes vendedores de sonhos apresentam-se como salvadores, avatares encarnados, que apenas com um olhar, são capazes de ministrar as mais altas iniciações. E o ocidental, guloso por algo diferente, ansioso por poderes psíquicos e sensações místicas e ocultas, aspirando à paz enlatada do pseudo-nirvana, corre, com o olhar húmido e a bolsa aberta, para os braços do seu exótico e sorridente guruzinho, o papá espiritual.
Poucos são os Instrutores que, com a humildade da experiência e do conhecimento, sabem que eles não são mais do que alunos no meio de alunos; auxiliares no processo de descoberta, que o estudante fará no seu percurso espiritual, do seu Mestre Interno (o Cristo Interno). É precisamente esse mestre interno, que apresentará o discípulo ao seu (verdadeiro) Mestre, esse Ser Excepcional, flor rara das altas montanhas, que obviamente, não frequenta ginásios da Nova Era, grupos “esotéricos e iniciáticos” (que, de esotérico só têm o chapéu e, de iniciático, o avental) e ashrams poeirentos e anandicos.
Desculpem os leitores, se causticamente desanco certo folclore ligado ao yoga e a movimentos afins. Estar calado é ser cúmplice. Amo demasiado o yoga e a filosofia oculta, para suportar, sem gritar e sem protestar contra, o modo como certos gurupitecos usam e abusam da Doutrina Sagrada. Nada tenho contra aqueles que, competente e honestamente, vivem em exclusivo para o ocultismo, cobrando o seu justo salário. Lá porque se é espiritualista, não quer dizer que o indivíduo não tem o direito, e o dever mesmo, de viver com dignidade. Todavia, o que eu não posso de modo nenhum concordar e entender são: os luxos, a baba vaidosa e matreira; os excessos; o culto das personalidades; os “segredos de Polichinelo”; a ignorância primária; a exaltação do vulgar e da ocultite; a exploração da aspiração sincera e legítima; o fanatismo sectário – e os negócios chorudos que florescem à volta do sagrado. Quem o faz desconhece a regra, quem o faz “marimba-se” para o espiritual.
Quando despertamos para a espiritualidade, uma das primeiras questões que se coloca na nossa mente, é a de sabermos qual o tipo de yoga que devemos seguir. A resposta a esta dúvida encontra-se na auto-análise prévia, que devemos efectuar. O tipo de yoga a escolher vai depender de três ou quatro factores essenciais: a idade; a raça (no sentido oculto); as polarizações; e o temperamento do praticante ou raio predominante.

Os sete sistemas de yoga

De um modo geral, consideram-se sete grandes yogas:

O Hatha Yoga, método indicado para adultos polarizados no seu corpo físico (tipo lemuriano) e nos chakras inferiores (raiz ou sacro), imaturos emocional, mental e animicamente; crianças (quando devidamente adaptado); e, predominantemente, pessoas de temperamento do 1º raio (tipo voluntarioso e determinado), 4º raio (tipo artístico, com grande sensibilidade para a estética, beleza e harmonia) e 7º raio (organizado fisicamente, valorizando os detalhes e os pormenores). O praticante deste sistema utiliza os exercícios físicos (asanas) e os exercícios respiratórios (pranayama) para atingir os seus fins. Segundo esta metodologia, a mente (vritti) é governada e dirigida pelo prana (energia vital), ou seja, o princípio inferior governa o superior. Este yoga é o mais antigo de todos, e tem as suas raízes na Lemuria e na 3ª raça, quando a humanidade atravessava o estágio infantil. Acrescente-se ainda que os Mestres e os grandes iniciados desaprovam a prática deste sistema, argumentando que: o nível evolutivo actual e médio da raça; os excessos circenses e acrobáticos desta disciplina, e algumas práticas de recuperação do controlo consciente de certos órgãos internos, que naturalmente, ao longo do processo evolutivo, passaram para a direcção do inconsciente – são tudo razões que desaconselham, claramente, a prática deste marga. Acrescentamos por fim, que a espiritualidade não é, nem pode ser, um circo, um espectáculo!
O Karma Yoga, metodologia de tipo generalista recomendado a todos os tipos de yoguis. Este sistema é um dos mais seguros e eficientes, exigindo do praticante uma personalidade (corpos mental, emocional e físico) equilibrada e bem desenvolvida, alinhada com a alma ou o Eu Superior. Os Chakras inferiores (raiz, sacro e solar) direcionam-se para o chakra cardíaco, e funcionam em sintonia com ele. Este é o yoga da acção inspirada, do serviço, da entrega. Se tivermos em conta que iniciamos um ciclo regido pelo 7º raio (vector que governa o plano físico) e que, encarnados, temos o dever de utilizar o corpo mais denso no serviço ao plano divino, então percebemos a afirmação inicial de que este yoga é do tipo generalista. Os discípulos do 3º raio (inteligentemente activos e adaptáveis), do 7º raio e do 1º, sentem-se especialmente atraídos por este caminho. O Senhor Cristo Maitreya, Gandhi, Annie Besant e Madre Teresa de Calcutá podem ser considerados exemplos superiores deste tipo de percurso.
O Laya Yoga é um sistema utilizado pelos iniciados (do 2º grau, preparando-se para a 3ª iniciação) sob a direcção do seu Mestre. Neste sistema, o discípulo medita e reflecte nas características e natureza dos chakras elevando, nas últimas etapas, a energia de Kundalini até ao último centro, o chakra coronal. Num breve parêntesis, esclareço aqui que esta metodologia não tem nada a ver com qualquer tipo de exercício tântrico ou sexual. Se assim fosse, não faltaria por aí grandes iluminados. Esta prática exige que o iniciado tenha já algum desenvolvimento do princípio atmico ou espiritual e um certo alinhamento, ainda que mínimo, com a mónada. Este é um dos yogas mais perigosos, e que provoca um grande fascínio nos aspirantes. Contudo, nunca é demais repetir que são a consciência, a meditação, autodisciplina, o serviço e a maturação espiritual que devem levar ao despertar dos chakras e não o contrário.
O Bhakti Yoga é o marga do devoto, o caminho do coração, a via do místico, recomendado a todos aqueles que estão polarizados no seu corpo emotivo e no chakra do plexo solar (tipo atlante). É também o método indicado para os adolescentes e jovens quando devidamente adaptado na sua linguagem e técnica. O devoto, através de cânticos, mantras, orações e cultos, dedica todo o seu amor à sua divindade tutelar, ao seu Mestre, procurando unir-se misticamente ao seu objecto de adoração. É minha opinião que este yoga deveria ser adaptado para servir o homem de hoje. Provavelmente deveria incluir-se nele o amor à natureza, o amor ao próximo e o amor às hierarquias espirituais e angélicas. Isto permitiria ao grosso da humanidade direcionar as suas energias emotivas e afectivas, que predominam na estrutura psico-espiritual da maior parte de género humano, para fins e causas superiores. A médio e longo prazo, permitiria a solução do problema ecológico (a questão ambiental é não apenas uma problemática da informação e de vontades política e económica mas, sobretudo, o resultado da falta de amor, da falta de integração do homem nos reinos naturais, da perda do sentido da sacralidade da vida e da reverência pela Terra). Daí a urgência de um yoga verde, agente integrador do homem e da natureza, de um yoga humanista, que permita a fusão do ser humano no corpo maior da humanidade; e de um yoga angélico (não quero com este conceito alimentar certas práticas tão habituais nos tempos de hoje, que mais parecem negócios com o céu) que facilite o contacto do homem com os reinos angélicos e dévicos. Importa esclarecer que não se tratariam de três yogas diferentes mas de três ramos do mesmo sistema, o yoga do amor, o bhakti marga. Os temperamentos do 6º raio (tipo devoto, dedicado e idealista) e do 2º raio (características amorosas e sábias) sentem-se profundamente tocados por este yoga. Exemplos superiores deste caminho terão sido S. Francisco de Assis, S. João Apóstolo e Ramakrishna.
O Jnana Yoga ou o marga do conhecimento, da sabedoria e da iluminação. Nele, o discípulo procura unir-se à divindade através do conhecimento espiritual. As suas disciplinas compreendem o domínio dos sentidos, o controlo da mente, o estudo e a meditação no Espírito Omnisciente (a Mente Universal), de modo a que, com a prática, o yogui atinja a iluminação, transformando o conhecimento em sabedoria. Este é o caminho adequado a todos aqueles que estejam polarizados no corpo mental e no chakra laríngeo (tipo da 5ª Raça-Raíz): os intelectuais e os estudiosos. Os discípulos do 2º, 3º e 5º (tipo científico) raios sentem-se especialmente atraídos por este sistema. Exemplos típicos e elevados deste yoga terão sido o Senhor Buda Gautama, Helena Blavatsky, Teilhard de Chardin, Alice Bailey, Pietro Ubaldi e I.K. Taimni.
O Raja. Este é o caminho real (raja). É o marga que sintetiza todos os outros – não nas práticas, mas nos resultados. A prática essencial deste caminho baseia-se na meditação. O discípulo, ao longo de oito passos, vai aprimorando o seu carácter; rectificando a sua postura; dirigindo a sua energia vital; controlando os seus sentidos, aprendendo a pensar e a meditar; e, por fim, no último estágio, mergulha no seu Eu Superior, identificando-se gradualmente com a sua essência espiritual. Recomenda-se este yoga a todos os discípulos que têm já o seu quaternário inferior (a personalidade) razoavelmente coordenados e estão polarizados no chakra frontal (tipo superior da 5ª Raça-Raíz). Os estudantes dos 5º e 1º raios sentem-se sintonizados com este método.
O Agni Yoga. Muito pouco se sabe deste percurso espiritual. Conhece-se apenas que ele será o yoga da próxima raça, a Sexta. O discípulo deste yoga tem já o seu corpo búdico e intuitivo razoavelmente desenvolvido e encontra-se polarizado no chakra cardíaco e no centro correspondente da cabeça. Este é a via dos discípulos avançados e dos iniciados. Muito sinteticamente, poder-se-á dizer que ele é o caminho da vida, da síntese espiritual, do fogo, da intuição e do sacrifício. O 2º e o 4º raios regem este percurso.

Os primeiros passos

Entende-se no sistema preconizado por Pantajali, o sistematizador da Filosofia Yoga, que este caminho espiritual deva ser percorrido ao longo de oito passos, ramos, partes ou angas. Não deixa de ser curioso que, também o sistema budista de libertação ou emancipação espiritual – O Nobre Caminho Óctuplo – seja composto por oito passos, e que, os raios que governam a 5ª Raça-raiz, o actual tipo evolutivo liderante, sejam o 3º e o 5º, que somados perfazem oito. Aliás, os oito passos do yoga estão divididos em dois grupos: o yoga externo, que constitui os cinco primeiros passos, e o yoga interno, os três últimos. Coincidências?
Os primeiros dois passos, yama e niyama, consistem numa série de disciplinas ou valores de carácter moral, que perfazem o total de dez, tal como acontece nos mandamentos da tradição judaico-cristã. Os objectivos destes princípios são o de preparar o yogui para, de uma forma bem estruturada eticamente, poder enfrentar os desafios que a prática mais profunda da meditação lhe vai colocar no seu caminho. Para além disso, estes valores promovem: o desenvolvimento das correctas relações com o homem, com a natureza e com Deus; a cristificação da aura; a purificação dos chakras inferiores e dos corpos da personalidade; a elevação das forças dos centros inferiores, para os chakras superiores.

Os cinco Mandamentos

Yama - «Há apenas um caminho para a senda, e só bem no seu final se pode ouvir a “A Voz do Silêncio”. A escada pela qual ascende o candidato é formada de degraus de sofrimento e de dor, que só podem ser aplacados pela voz da virtude. Ai de ti, discípulo, se restar um só vício que não tenhas deixado para trás. Pois então a escada cederá e deitar-te-á abaixo; as suas pernas estão apoiadas no profundo lodo dos teus pecados e falhas e antes que possas tentar atravessar este largo abismo de matéria, tens de lavar os teus pés nas “águas da renúncia”»[2].
Ahimsa – Inofensividade ou Não Violência. Todo o yoga se fundamenta, se enraíza no valor, no voto da Inofensividade. O yogui deverá praticar a não violência em todos os pensamentos, palavras e actos. Este é o mandamento básico do Yoga. Ahimsa baseia-se no conhecimento, que o yogui tem, da unidade essencial, da sacralidade de toda a vida e de todo o Cosmos. Para o yogui, todo o Universo é o corpo, é o organismo da divindade, de Ishvara.[3] Por isso, ele deve pôr em todos os seus gestos, em todas as suas acções, o amor que lhe vai na alma e reparti-lo por toda a criação. Amando o Criador ele ama as criaturas. Esta é a Lei máxima de todo o yoga.
Disse Gandhi: «A não violência é uma força da Ordem Superior. É a força espiritual, o poder de Deus em nós. Participamos da divindade na medida em que manifestamos a não violência».
Brahmacarya – Controlo Sexual, Criatividade Mental. Este, devido à nossa incapacidade de perceber o lado interno da vida, é talvez um dos votos mais difíceis de entender. Brahmacarya não nos pede exactamente, como tradicionalmente se afirma, que deixemos de ter actividade sexual mas que apliquemos principalmente a energia reprodutiva, em acções de criatividade mental. Quando o yogui é criativo no modo como se veste, no modo como cozinha, na maneira como fala e se expressa, na sua profissão, enfim, no modo como vive e se manifesta, a sua actividade e necessidade sexual diminuem naturalmente. A energia criativa, que até aí se expressava essencialmente ao nível da libido, ao nível sexual (chakra sacro), passa de modo gradual a expressar-se ao nível mental (centro laríngeo).
Asteya – Honestidade, não roubar. A honestidade não significa, apenas, não roubar (no sentido legal do termo); quer dizer, sobretudo, não nos apropriarmos daquilo que não nos pertence. O discípulo não afirma ter escrito, dito ou feito aquilo que não realizou; não aceita uma recompensa por ter cumprido o seu dever; não aceita privilégios que não lhe são devidos.
Deixo aqui uma afirmação de Gandhi para meditação: «Todo aquele que possui coisas de que não precisa é um ladrão».
Aparigraha – Desapego. Ausência de Desejos. Sobriedade, Simplicidade. Todos os grandes yoguis, iniciados e iluminados, foram simples. Foram simples na forma como viveram, foram simples na forma como transmitiram os seus ensinamentos (o que não quer dizer que as suas doutrinas fossem simplistas!). Foram sóbrios nas suas posses, foram sóbrios nos seus desejos pessoais. Este mandamento, aparigraha, continua o anterior. O yogui não só é honesto, como também é sóbrio. Deseja ele apenas o necessário para a sua sobrevivência e dos seus, e o estritamente indispensável para o cumprimento da sua missão.
Satya – Veracidade, Sinceridade. Também aqui deverá entender este mandamento de uma forma mais abrangente do que o simples não mentir. Satya implica a abstenção de exageros e equívocos no pensamento, palavra e acção; o yogui deverá, consequentemente, ser verdadeiro e rigoroso nestas três áreas. Ele não deve pretender ser aquilo que não é; não deve pretender fazer aquilo que não pode ou não deve realizar.

As cinco regras; Niyama

Tapas – Autodisciplina. Quando abordamos esta regra e meditamos nela, percebemos que tem pelo menos três níveis de interpretação. A primeira, tradicional, resume-se à prática de austeridades, tão em voga nos regimes monásticos da Idade Média no Ocidente e nos Sinyasins da Índia durante a Idade de Peixes. Vemos assim grandes figuras do Oriente e do Ocidente dedicarem-se a este tipo de práticas, que tinham como objectivo o desenvolvimento da vontade e que, porém, levavam muitas vezes ao prejuízo do corpo físico. Trata-se de um tipo de disciplina pisciana, com raízes na Lemúria, e que já não tem nenhum sentido no tipo médio do yogui actual.
O segundo nível manifesta-se como autodisciplina(s) que, normalmente, são aquelas de que gostamos menos. É nestes sectores que o yogui deve autodisciplinar-se e desenvolver a sua vontade. Passarei a dar alguns exemplos: se o yogui tem dificuldades em se levantar da cama pela manhã, deverá desenvolver a sua vontade ou, dito de outro modo, deverá assumir como tapas erguer-se da cama ao primeiro toque do despertador; de uma tarefa doméstica lhe é extremamente desagradável, como tapas deverá efectuá-la com afinco e brio, se tem uma dificuldade enorme em chegar a tempo aos seus compromissos, como tapa fará um esforço para chegar 15 minutos antes. O “truque” de tapas está na concentração ou focalização da mente na tarefa disciplinadora. Se a mente focalizada ocupar todo o espaço da nossa consciência, não daremos espaço ao nosso corpo emocional para interferir e dizer: “Que seca! Que tarefa mais maçadora” Se, pelo contrário, deixarmos a mente solta, permitiremos ao nosso “amigo” emocional interferir na actividade, protestando constantemente, até nos convencer que, de facto, a tarefa em mãos é uma “chatice” e que o melhor é adiá-la para depois. Voltamos a repetir: a chave de tapas reside na concentração da mente. Se habituarmos a mente a identificar-se com uma determinada actividade, chegará o tempo em que a tarefa, que era absolutamente “intragável”, passará a ter o seu quê de interessante.
A forma superior de tapas denomina-se vontade para ou do bem. Esta energia poderosíssima tem a sua raiz na mónada ou Eu Divino e no corpo átmico ou espiritual, seguidamente, expressa-se no lótus egóico, ao nível das pétalas do sacrifício; e finalmente ancora no duplo etérico através do chakra coronal, via corpo mental. Só um iluminado com a terceira ou mais iniciações tem a capacidade de expressar a verdadeira vontade do bem. Talvez uma das fórmulas espirituais que mais revelem o mistério desta força esteja contida numa oração que se encontra no livro "Folhas do Jardim de Morya I” e que reza assim: «Ó Senhor, dá força ao meu coração, e poder ao meu braço, porque sou Teu servo. Nos Teus raios, aprenderei a verdade eterna do Ser. Na Tua voz, escutarei a harmonia do Mundo. Entrego-Te, ó Senhor, o meu coração, sacrifica-o em favor do Mundo».[4]
Svadhyaya – Estudo. Também esta regra espiritual tem vários aspectos. Tradicionalmente, considera-se que uma das regras a observar pelo yogui consiste no estudo das obras que abordam o tema do yoga e da espiritualidade. E assim é. Se, de facto, o yogui não estudar os grandes autores e Instrutores da espiritualidade, como poderá ele querer fazer um trabalho sério nesta área? É como pretender tocar superiormente piano, sem estudar os grandes compositores; ou pintar para a posteridade, sem se embrenhar nos grandes criadores; ou querer exercer medicina, sem frequentar uma boa Universidade e estudar Anatomia, Fisiologia ou Patologia. Não obstante, há alguns aspirantes que pensam que podem praticar yoga ou tornarem-se ocultistas ou esoteristas sem meditarem nas grandes obras da espiritualidade. Dizem eles, ocamente, sem qualquer tipo de consciência do que estão a dizer, que a sabedoria tem de vir de dentro. De duas uma: ou deveras vem de dentro, e então pergunta-se “onde é que ela está?”; ou, então, se não vem de dentro, como realmente acontece, que humildemente se pegue nos livros e se estude! Não nos coloquemos em bicos de pés; só os Grandes Iniciados podem afirmar que a sabedoria lhes vem de dentro. E tal apenas é possível porque durante muitas vidas passaram muito tempo aprendendo directamente com os Mestres da Sabedoria e da Compaixão e os seus discípulos, ou investigando e reflectindo nas grandes obras da espiritualidade.
Outro aspecto de svadhyaya consiste no estudo e na análise da sabedoria e da cultura do tempo onde o yogui está inserido. O yogui é um discípulo que se está a treinar para vir a ser um Mestre da Sabedoria e da Compaixão, um Jivanmukta. Para isso, ele precisará de ter uma cultura superior, devendo conhecer com algum pormenor todas as grandes correntes de pensamento do seu tempo e da história. Como poderá ele ser um posto avançado dos Grandes Mestres e da Doutrina Sagrada, se não conseguir conversar e comunicar, pelo menos ao mesmo nível, com os grandes intelectuais e líderes do seu tempo? É por isso que todos os Iniciados e iluminados foram homens e mulheres de superior cultura. Assim aconteceu com Blavatsky, Annie Besant, Steiner, Alice Bailey, Pietro Ubaldi e tantos outros.
O terceiro aspecto tem a ver com o estudo e a meditação nos símbolos. Para o yogui, o mundo e os acontecimentos da vida são os efeitos de um mundo interior, são símbolos dos mundos superiores. Interessa-lhe sobretudo perceber as forças e as energias que estão por trás de um acontecimento – mais do que, propriamente o acontecimento em si. Ele procura diariamente penetrar, cada vez mais, no mundo das causas, nos planos dos arquétipos.
Por fim, svadhyaya também se expressa como auto-estudo, autoconhecimento, análise das motivações, impulsos, forças e energias que nos fazem mover. Esse autoconhecimento manifesta-se essencialmente pela auto-observação que realizamos no dia-a-dia, e em especial à noite, no exame de consciência.
Isvara-pranidhana – Amor Crístico. Este amor, ao contrário do desejo e do amor pessoal, não está condicionado, sendo absolutamente altruísta e fraternal. O expoente máximo deste amor na história foi o Cristo, o Avatar ou o Senhor do Amor. Na sua vida, Ele expressou de uma forma única o sentido, a grandeza e a entrega do amor espiritual.
Isvara-pranidhana não é apenas um sentimento; ele é também serviço, acção e auto-sacrifício. É serviço prestado altruisticamente à humanidade, é serviço sacrificial prestado ao planeta, é serviço manifestado incondicionalmente ao próximo, é serviço doado impessoalmente ao Plano Divino e é serviço entregue abnegadamente à Hierarquia Oculta, aos Mestres.
Sauca – Pureza. A propósito de sauca passo a citar Taimni. «Antes que sejamos capazes de compreender como podemos purificar a nossa natureza devemos clarificar as nossas ideias acerca da pureza. O que é a pureza? De acordo com a filosofia do yoga todo o Universo, visível e invisível, é uma manifestação da Vida Divina e é impregnado pela Consciência Logóica. Para o sábio iluminado ou santo, que desenvolveu a sua visão espiritual, tudo, desde o átomo até a Ishvara de Brahmanda (O Logos Cósmico ou Solar), é um veículo da Vida Divina e, por isso, puro e sagrado. Assim, em termos absolutos, nada pode ser considerado impuro… Deste modo, purificação quer dizer a eliminação de todos aqueles elementos e condições que impedem os veículos de exercer as suas funções e atingir os seus objectivos. Para o yogui, o propósito é a autorrealização através da união da sua consciência individual com a consciência do Supremo ou a realização de Kaivalya (Libertação, Unificação), tal como a apresenta os Yoga Sutras. Para o yogui, Purificação significa assim, especificamente, a transformação de veículo, de modo a que ele possa servir crescentemente como instrumento para esta unificação…
Todos os veículos inferiores de Jivatma estão constantemente a mudar e a purificação consiste na substituição gradual e sistemática do material comparativamente grosseiro por um tipo mais refinado de matéria. No caso do corpo físico, é comparativamente simples e pode ser efectuada fornecendo ao corpo a matéria adequada na forma de comida e bebida… A carne, o álcool e muitos outros acessórios da dieta moderna tornam o corpo físico completamente inútil para a vida yóguica e, se o aspirante embruteceu o seu corpo através do uso destes alimentos e bebidas, deve sujeitar-se a um período prolongado de uma dieta cuidadosa, para se ver livre do material indesejável e tornar o seu corpo suficientemente refinado.
A purificação dos veículos subtis, que servem de instrumentos para a expressão dos pensamentos e emoções, é conseguida através de um processo diferente e mais complicado. Neste caso, as tendências vibratórias (inferiores) são gradualmente modificadas pela exclusão de pensamentos e emoções indesejáveis substituindo-os constantemente e persistentemente por pensamentos e emoções de natureza superior. À medida que as tendências vibratórias destes veículos mudam, a matéria dos corpos também muda “pari passu” e, depois de algum tempo, se o esforço é continuado, os veículos estão adequadamente purificados. O teste de uma purificação real é fornecido pela tendência vibratória normal que encontramos no veículo. Fácil e naturalmente uma mente pura reflecte pensamentos puros e sente emoções puras, e torna-se difícil para ela entreter-se com pensamentos e emoções indesejáveis; tal como, do mesmo modo, para uma mente impura é difícil produzir pensamentos e emoções superiores e nobres»[5].
A purificação espiritual envolve, assim, três tipos de disciplinas: uma, material, que implica uma dieta tendencialmente vegetariana, a supressão de tóxicos (tabaco, álcool, drogas) e um contacto íntimo com os elementos[6]; outra, psíquica, envolve todo um trabalho de vigilância dos pensamentos e das emoções, de modo a que o yogui não deixe penetrar e habitar na sua mente qualquer sentimento indigno do seu “Cristo Interno”.
Samtosa – Alegria. Como já deve ter percebido, a verdadeira alegria não tem a ver com as condições que nos rodeiam: ela desenvolve-se e cresce apesar das circunstâncias e dos condicionamentos que nos envolvem. Contrariamente, a felicidade depende das circunstâncias exteriores, sobretudo da satisafação ou não dos nossos desejos. Memorize esta chave da alegria, apesar de… Alice Bailey escreveu, a propósito de samtosa, o seguinte: «O contentamento produz uma condição psíquica que promove a paz mental, é baseado no reconhecimento das leis que governam a vida e fundamentalmente na Lei do Karma. Ele produz um estado mental onde todas as condições são aceites como correctas e justas, e como aquelas nas quais o aspirante pode melhor realizar e alcançar o propósito (superior) da sua vida. Isto não implica qualquer tipo de acomodação ou submissão mas, sim, o reconhecimento das condições do momento, uma avaliação das oportunidades, de modo a que formem a fundação e a base de todo o progresso futuro»[7]
*Diácono da Igreja Católica Liberal; Coordenador da Unidade de Serviço Aquarius, inspirada predominantemente na Boa Vontade Mundial.
Bibliografia:
BAILEY, Alice – The light of the soul. Lucis Press Ltd.
BLAVATSKY, Helena – Glossário Teosófico. Ed. Ground.
CLUC – O Tempo das Multidões. Centro Lusitano de Unificação Cultural.
GOMES, João – Curso de Raja Yoga – 1º Grau. Policopiado.




[1] . GOMES, João – Yoga – O Caminho Sagrado da Vida in Biosofia, nº5, Primavera de 2000, pág. 57-59  e nº6,Verão de 2000, pág.31-34. [2] BLAVATSKY, Helena – A Voz do Silêncio. Editora Pensamento, pág.69. [3] Helena Blavatsky escreveu o seguinte no Proémio da Doutrina Secreta: «A Doutrina Secreta ensina a identidade fundamental de todas as almas com a Alma Suprema Universal, sendo esta última em aspecto da Raiz Desconhecida… Por isso dizem os hindus que o Universo é Brahman e Brahmâ; porque Brahman está em todo o átomo do Universo, sendo os seis princípios da natureza a expressão ou os aspectos vários e diferenciados do Sétimo e Uno, a Realidade única do Universo, seja (ele) cósmico ou micrcósmico…» [4] Convido os leitores, com um conhecimento mais profundo do ocultismo, a fazerem o seguinte exercício: substituam na fórmula o termo Senhor por mónada, coração por lótus egóico; braço por personalidade; raios por antahkarana; e voz por corpo búdico ou intuitivo – e uma nova luz poderá brotar sobre este assunto. [5] TAIMNI, I.K. – The Science of Yoga, Quest Book, pág. 221-224. [6] Para alguns ocidentais, poderá parecer algo radical e tipicamente oriental este tipo de visão a propósito das disciplinas de purificação. Devo dizer contudo, que estas disciplinas eram e são tão comuns quer no Oriente, quer no Ocidente. Jesus, no «Evangelho da Paz» (Texto Apócrifo do Séc.I da nossa era) apresenta o mesmo tipo de soluções. [7] BAILEY, Alice – The Light of The Soul, Lucis Press Ltd. , pág. 189.

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