quarta-feira, 10 de julho de 2013

Vi(d)a hortícola





Antes do Dia do Agricultor vamos conhecer, através da pena de um deles, alguns  dos principais desafios dos homens da terra.

Texto Filipe Sêco desenho Patrícia Sêco

Sol na eira e chuva no nabal. Este podia muito bem ser o Santo Graal de qualquer hortelão, e demonstra bem os tormentos que o cultivo da terra acarreta. A Natureza quer, pode e manda nas vontades do agricultor, pondo à prova, ano após ano, a sua persistência, força de vontade e paciência.
O agricultor é um eterno insatisfeito. Se faz sol, anseia por uma chuvinha, se chove, pede sol, e se o frio aperta, reza pelo tempo mais quente. Nunca se pode ter tudo, e em agricultura a frase é ainda mais certa. É evidente que o sol dá vida a tudo o que aquece, mas também pode queimar quando o termómetro sobe. A chuva incha as sementes e dá-lhes o sinal de que que é tempo de despertar, mas também pode ter efeitos destruidores, quando em excesso alaga os campos. O frio tem um efeito positivo no controlo natural de pragas, mas quando uma geada fora de tempo congela as “novidades” da horta, o hortelão roga pragas a quem controla o tempo.
Nesta relação homem /natureza, umas vezes ganha-se outras vezes perde-se. O agricultor depende então de si mesmo e das boas graças da mãe natureza. Há já muito tempo que se diz que a agricultura vive dos subsídios, e que sem eles era impossível fazer-se agricultura. Ao pequeno agricultor pouco lhe importa se há subsídios ou não, o que ele quer é estar em contacto com a terra e produzir o seu próprio sustento. Se falarmos de uma agricultura em larga escala, com os custos e os investimentos em sementeiras, equipamentos, mão-de-obra, etc., estes poderão fazer algum sentido. Os subsídios servem para isso mesmo, auxiliar algo que implique grande risco. Nenhuma outra actividade está tão dependente das condições ambientais como a agricultura.
Quando decidi tornar-me agricultor biológico a ideia poética do que era trabalhar a terra estava no auge. Passados mais de 10 anos desde o início e após grandes tormentos, como a perda da estufa passando por colheitas fracas, a ideia poética, apesar de tudo, ainda se vai mantendo. A Lousã é considerada pelo Ministério da Agricultura como uma zona desfavorecida, principalmente pelas condições climatéricas e fertilidade dos solos, muito diferentes, por exemplo, de uma região mais costeira. Acrescido ao facto de a Agricultura Biológica exigir muito trabalho manual e de planeamento de culturas mais rigoroso.

O grande desafio, para os próximos anos, vão ser as alterações climáticas, que já se fazem sentir. Também esta lei das sementes de que tanto se fala poderá limitar bastante a autonomia do agricultor, caso se confirme a impossibilidade de podermos guardar e trocar as nossas próprias sementes. Para mim, o maior desafio de todos vai ser mesmo resistir, e ter força de vontade para vencer o desânimo interior que a incerteza de uma sementeira traz. Uma vez agricultor, agricultor para sempre, o que pode mudar é mesmo o objectivo para o qual se trabalha, auto-suficiência ou produção em grande escala.

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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Mozart no telemóvel?



Publicamos hoje - dia em que faria 45 anos - um dos poemas* do cinéfilo, musicófilo e cosmófilo, antigo locutor na Rádio Activa, membro do grupo seis da Amnistia Internacional, presidente da Associação Portuguesa de Subbuteo e do Cineclube do Porto.



Final de tarde num Agosto qualquer.

Prenúncio de autocarro cheio em hora de

Ponta. Silêncio entrecortado por ruminantes

Telemóveis. O Pára-arranca do BUS transforma

Passageiros em equilibristas e mesmo em frente

A mim uma mulher com aspecto desgastado

Mata o tempo a carregar nas teclas do

Telemóvel. Que toca. Alto. Abafado o som, é

Interpelada por um idoso com curiosidade

Pelas novas tecnologias. – O seu telemóvel dá

Música? Ignora-o (estava de phones).

- Desculpe, o seu telemóvel dá música? Não era

Nada com a sujeita, entretida a mandar

Mensagens escritas.

O Ancião não resiste, toca-lhe no braço e

repete a pergunta. A sujeita tira um phone do

ouvido e com ar contrariado erra: SIM. DÁ!

Volta a colocar os phones e com enfado, volta

À música e ao teclado do aparelho. Não ouve

(ou não quis ouvir) a pergunta nova do

Incauto: Não dá a 5ª de Mozart, pois não?

Como não obteve resposta, ficou cabisbaixo a

olhar para um vazio enorme, com cara de

arrependido, cogitando certamente se não

deveria ter antes optado por Beethoven ou

Wagner. O alarido continuava noutros lugares

do veículo e eu senti-me também

envergonhado por não ter respondido algo

como – é grande demais para tão minúscula

caixa, não lhe parece?

Porto, 27/8/2002

* "Mozart não cabe no telemóvel" in BASTO, Fernando J. Pinto - Por ti e para ti, Edição de autor, Fevereiro 2005, pág. 71-73.

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quarta-feira, 15 de junho de 2011

Tributo



Quando José Saramago foi homenageado, aos 80 anos, em Santa Maria da Feira, estava na sala um dos seus leitores. Fernando Pinto Basto relata o evento, num texto editado, em 2005, no livro “Por ti e para ti”. Publicamo-lo, autorizados, a um ano do escritor nos ter deixado e a quase sete do desaparecimento do jovem cinéfilo.


Texto Fernando J. Pinto Basto fotografia Dina Cristo


O tempo estava impiedoso de chuva e vento, convidativo ao aconchego do lar e ainda três dias antes a cidade tinha sido assolada por um temporal que causou os inevitáveis prejuízos próprios dos temporais. Mesmo assim, apesar das condicionantes climatéricas, e desafiando a intempérie, o velhinho cine-teatro estava quase cheio e era mesmo aí que iria ter lugar o recital de homenagem ao agora octagenário Autor, homem de parágrafo longo, pontuação escassa e palavra justa. No palco estariam três mulheres de nacionalidades diferentes mas unidas pelo mesmo sentimento: o tributo aos livros escritos pelo Autor das inesquecíveis personagens Blimunda, Maria Magdala e A Mulher do Médico. Os inevitáveis contratempos que estes acontecimentos têm como propriedade, fizeram com que só uma hora depois do previsto se desse início ao referido tributo, mas como era noite de aniversário ninguém quis abandonar a cerimónia mais cedo; a juntar a este facto acresce ainda o outro de chover como no dilúvio e o recinto estar assim provisoriamente transformado em arca de Noé, embora o Autor já com idade bíblica não estivesse certamente à espera de encontrar um casal de cada espécie lá dentro. O que ele esperava nunca o saberemos, mas o que ele poderá ter visto não deve ter sido muito diferente do que aqui e agora se dá conta.
Entraram primeiro em palco os dois músicos que iriam fazer os breves interlúdios às leituras dos textos escolhidos. Após uns acordes singelos, surgem Laura Morante, Maria de Medeiros e Marisa Paredes, as tributárias. A primeira a usar a voz é a espanhola e, apesar de um providencial ecrã onde surgem traduzidas as palavras do Ensaio prefiro ver as expressões e auditivamente absorver o texto em castelhano, não assim tão longe de nós como confirmaria Blimunda mais tarde, através de emocionada voz, quando o Memorial se fez ouvir num português irrepreensível. Faltava ainda ouvir a musa italiana, naquela que seria a interpretação mais teatral da noite e voltar-se-ia aos cegos e ao convento por diversas vezes, mas a declamação final pertenceria a uma mulher proscrita no seu amor pelo filho de um homem, e cujo pecado foi amar tão terrenamente o que estava destinado aos céus.
Com o Evangelho segundo o Autor se finalizou a sessão, onde torrentes de emoções andaram à solta numa demonstração de que a palavra é o elemento primordial da humanidade e afinal não estamos assim tão longe daqueles tempos onde nos reuníamos ao redor de uma fogueira a ouvir as estórias que alguém mais imaginativo inventava para nos aconchegar num mundo de sombras. Agora a caverna é um pouco maior mas o ritual repetiu-se nessa noite celebratória à qual não faltaram os desejos de parabéns e muitos anos de vida a quem a leva tão cheia de tudo. Conta-nos mais coisas, José.

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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Vida minúscula


Uma vida heterónoma e existência controlada - errónea, diria Wayne Dyer - são alguns efeitos da necessidade de ser aceite e motivo para reflexão antes do Dia Mundial da Saúde Mental, este Domingo.

Texto Elton Rodrigues Malta desenho* Dina Cristo

Não sei se já reparaste, mas as tuas acções e movimentos estão muito limitados. Às vezes até podes pensar que os fios não existem devido a não os veres, mas na verdade eles estão lá e bem firmes. Se estiveres atento vês que os fios são a opinião dos outros. Não te queria dizer que és uma marioneta, mas repara bem nos teus comportamentos, escolhas e pensamentos, ou melhor, na falta deles. Devido à tua ânsia de seres aceite, numa situação ou noutra, há sempre alguém que controla a tua vida. Agora foquemo-nos nesse domínio e vejamos se não és uma marioneta: se esse alguém te puxa para cima tu olhas para o céu, já te sentes num nível superior aos teus semelhantes. Se o teu dono brinca contigo, danças e dás pulos, alegre pelo destaque, e enérgico enquanto tens os teus momentos de protagonismo. Contudo, se o patrão te larga a mão bates em quem tens mais perto, ou não é verdade? Se cais, ficas à espera que te levantem e se não te conduzem ficas estático sem qualquer tipo de iniciativa.
Tu não te vestes, simplesmente vestem-te, eles determinam o teu estilo, e este depende do papel que querem que representes. Já reparaste que não tens voz? Mas eles podem emprestar-te… se estiveres disposto a propagandear as suas ideias. Tu estás dependente dum superior que te controla, superior esse que se encontra escondido, ninguém o vê. Não queria ser mau, mas no fundo vives uma vida em miniatura. Talvez seja por isso que tudo o que fazes na vida tem o objectivo de te tornar grande e vistoso.
Não é obrigatório que sejas uma marioneta. Também podes ser um fantoche. Reflecte no facto de bastar não seres novidade para já não servires. Se vêem que tens defeito, já cais na inutilidade, já não vais servir para ser o principal. Mas o problema é que te fizeram para o seres. Fazes a tua vida para um público, a tua vida é um teatro, é só representação e show off, no fundo vives para o espectáculo. Tu até sabes que o cenário é só aparente mas continuas a viver para ele. Inúmeros fantoches já representaram esse papel, mas tu repetes, pois os donos são os mesmos e os seus objectivos também… É por isso que tu ages tal e qual como querem, não passas de um boneco nas suas mãos, tratado como objecto, descartável. Acabas por ser um fantoche, vazio, que dá permissão que invadam o teu interior.
Será que tens vida própria? Achas que tens uma vontade e que conduzes a tua vida? Ou és apenas um boneco subjugado? A diferença entre ti e as marionetas e fantoches é que eles não escolhem ser manipulados.
* Anos 70

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quarta-feira, 2 de junho de 2010

Portugal SA


Num momento negocial da PT e de vulnerabilidade económico-financeira do país, editamos um artigo, publicado em Março de 1993, no jornal do Gabinete do INE Norte, "O INtEndido"

Texto Fernando Pinto Basto fotografia Dina Cristo


Nos últimos anos a ideologia neoliberalista preconizou para as empresas um modelo de custo-beneficio que seria o padrão único de medida da sua eficácia. Como são as multinacionais quem mais ordena neste sistema, os Estados foram-se, com maior ou menor descaramento, submetendo à sua lógica. Temos agora instalado no nosso país uma coligação de duas minorias (caso não se tivessem apercebido, só esta santa aliança lhes permite o cumprimento dos deveres conjugais assumidos no casamento com a Pátria) que vai tentando estabelecer uma governação baseada em lógicas empresariais, ainda assim longe do pretendido pela nata empresarial nacional; conforme se devem lembrar, 40 ilustres empresários foram entregar (em 1992) ao governo uma petição para que fossem acautelados os seus interesses que são - como todos sabemos os da Nação.
Que acto nobre! Que dignificante! Que nacionalismo exacerbado!
E no entanto, nesses signatários estava um empresário que meses antes tinha vendido a Telecel (lembram-se, uma empresa nacional com lucros?) à multinacional Vodafone. E assim nos tornámos patrocinadores do Manchester United e da Ferrari. Uau! Que bom fazer parte das vitórias do Beckham e do Schumacher! Está bem, dirão os mais cépticos, mas foi só um entre quarenta! Dou-lhes mais um exemplo: a recente venda de parte das acções de um banco nacional aos espanhóis do Santander partiu de livre e espontânea vontade de outro desses empresários.
Questionado sobre esta iniciativa, depois de ter sido um dos signatários da tal petição, a resposta foi, entre outras subtilezas: "subscrevi-a, mas não fui eu que a redigi".
Elucidativo do carácter moral e da ética empresarial que regem as grandes empresas nacionais. As tais que não conseguiram colocar um produto, uma marca que se impusesse com sucesso na Europa e no Mundo (o vinho do Porto não conta, pois estes ainda não eram nascidos e o seu comércio começou a ser feito por ...ingleses).
Nesta história das mil e uma noites, não há Ali-Bábá que nos valha. Com um discurso irresponsável de crise a cobrir todas as suas acções, o primeiro-ministro e os seus acólitos implementaram uma série de medidas draconianas para acabar com o suposto regabofe do governo precedente.
Escolhendo como alvo a Função Pública, trataram de a difamar primeiro aos olhos da opinião pública, para justificar depois todos os meios coercivos utilizados contra tais hereges, começando pela redução da despesa pública como primeva solução para não ultrapassar o sacrossanto défice.
Atente-se no seguinte facto: os trabalhadores da Administração Pública são mais de 600 mil e o Estado é o maior empregador dos recém-licenciados.
Com o congelamento de admissões decretado para este ano e seguintes, e a inevitável reforma de algumas dezenas de milhar de funcionários públicos por limite de idade, parece-me linear o descalabro que irá reinar nas mais diversas áreas do funcionalismo público nos próximos anos: administração local, educação, saúde, justiça, obras públicas, transportes ferroviários e por aí fora. Mas, nada de aflições antecipadas: o primeiro-ministro, homem alertado que é, esteve há uns meses nos Estados Unidos da América (país a quem - como se verificou recentemente - deve maior fidelidade do que a Portugal!) especificamente para convidar os empresários norte-americanos a investir em terras lusas pois "a mão-de-obra é barata" (sic). O nosso drama é que ainda existem melhores escravos (na Roménia, na Índia, nos países asiáticos) e as empresas estrangeiras, que cá estavam, estão a abandonar este oásis cada vez mais árido.
Agora que continua o emagrecimento de instituições onde se quer fazer crer que se tinha emprego remunerado mas não se trabalhava, também o I. N.E. começa a sentir os danos colaterais de tais medidas: não concretização do acordo de empresa, perda de autonomia financeira, não renovação de contratos a termo, diminuição dos prestadores de serviços, aumentos salariais liliputianos e um sentimento de conformismo que levaram à falta de solidariedade e intervenção quando era preciso demonstrar precisamente o oposto a quem nos tutela.
Mas era pedir demasiado a quem já tinha sido instilada uma porção de medo q.b. para não colocar em perigo o ordenado contado no fim do mês, o suficiente para se deixar extinguir uma Comissão de Trabalhadores. Agradecidos ficaram aqueles que ainda pensam poder tirar proveitos de uma instituição pública e das suas virtudes privadas, e uma força política que quando esteve no poder, em 1993, teve um ministro das Finanças a dizer que as estatísticas do INE não serviam para nada. E os seus funcionários, ainda servirão?.

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quarta-feira, 8 de julho de 2009

São Tomé sentido


Mauro

A sul da linha do Equador existem cores, olhares, sorrisos, vida, sabores, alegria, odores… uma ilha perdida no Atlântico que dá pelo nome de São Tomé e Príncipe. Visitamo-la agora que está perto de assinalar 34 anos sobre a sua independência.

Texto e fotografia Catarina Tagaio

A lua despede-se e o sol começa lentamente a iluminar a ilha de São Tomé. O relógio pára quando ali poisamos e as horas do mostrador (cinco e meia da manhã) marcam o início da jornada. Visitar São Tomé implica entrar no ritmo das pessoas que ali vivem… sentir a alegria que os são-tomenses sentem, sorrir como os são-tomenses sorriem, sentir como os são-tomenses sentem, viver a vida sem stress, de forma “leve-leve”. E é como são-tomense que vamos fazer esta viagem… devagarinho, de forma “leve-leve!”.
O verde abundante forra árvores e montanhas, o azul imenso pinta céu e mar, há cheiros e sabores que pairam pelo ar… Os nossos sentidos ficam presos a este quadro; dezenas de olhares curiosos aproximam-se da pista do aeroporto onde malas e caixotes formam um “fora de quadro” insignificante quando comparado com a “verdadeira” obra de arte.
Uma visita ao mercado local é a primeira etapa da nossa estadia. Aqui há cores, há odores, há sabores… Aqui todos os nossos sentidos são “activados”. Cenouras, pimenta, coco, fruta-pão, matabala
[1], carambola, limas, jacas, bananas de vários tipos (banana-prata, banana michelle, banana-maçã, entre outras) enchem bancadas e são pretexto para ouvirmos um:
- “Amiga, dez mil dobras!”
Os olhares brilhantes das vendedoras e os sorrisos abertos das crianças que as acompanham levam-nos a conhecer toda a beleza da ilha. Nestes olhos podemos ver cascatas, roças, praias e gentes que vivem em todos os recantos.
À saída do mercado dezenas de táxis oferecem uma viagem diferente. Entramos no primeiro e rumamos até à roça de Bombaim. Aqui, provamos o famoso fruto mangustão e mergulhamos nas águas frescas e límpidas da cascata de São Nicolau. Seguimos caminho e encontramos a roça de Agostinho Neto. A casa grande da roça faz-nos sonhar e por momentos somos teletransportados até à década de 70 do século passado.
Vemos a produção do cacau a todo o gás, senhoras nobres passeiam com os seus guarda-sóis, crianças cantam e dão gargalhadas estridentes, o sol brilha… mas de repente uma nuvem tapa o sol. E o sonho acaba! Subimos à roça de São João dos Angulares onde João Carlos Silva
[2] nos aguarda com o seu famoso “calulu de peixe”.
Para finalizar a visita a estas “mini-ilhas” aceitamos o desafio do taxista: uma visita a uma “roça anónima”. Abade recebe-nos de braços abertos. Por momentos também nos sentimos parte desta grande família. Uma criança chora quando vê uma “branca” aproximar-se. Abade não conhece turistas nem “gentes do continente”. A cidade fica longe e a estrada que as liga é de difícil acesso. Mas há magia neste pedacinho de terra e é com saudade que deixamos esta nossa “nova” família.
Abandonamos o táxi e seguimos de boleia num jipe. O sul da ilha é a próxima etapa. Entramos num barco e em vinte minutos chegamos ao Ilhéu das Rolas. O resort do ilhéu oferece-nos um quadro diferente. O azul imenso e o verde brilhante mantêm-se mas como pano de fundo encontramos agora bungalows de madeira e piscinas povoadas de turistas. Visitamos o marco que traça a linha do Equador e é aqui que sentimos pela primeira vez o calor húmido que nos abafa. E é com um pé no hemisfério Norte e outro no hemisfério Sul que regressamos a São Tomé.
Há tempo ainda para um mergulho nas belas praias que cercam a ilha e são muitas vezes utilizadas como página principal do grande livro que é São Tomé. Sete-Ondas encanta-nos com a sua areia escura e com as suas conchinas originais; Micondô faz-nos entrar na história de Miguel Sousa Tavares e imaginar os encontros de Luís Bernardo e Ann; Jalé delicia-nos com as suas ondas enormes; Praia Piscina hipnotiza-nos com a sua beleza natural.
A nossa aventura por terras são-tomenses parece estar a chegar ao fim… Café & Companhia é uma das nossas últimas etapas. Bebemos um sumo natural de goiaba, de sape-sape ou de manga e comemos uma grande fatia de bolo de chocolate enquanto o ambiente é invadido por música ao vivo. Fora destas quatro paredes um grupo de crianças aguarda-nos com dezenas de colares feitos com sementes.
- “Amiga, colar por trinta mil dobras!”
-“Amiga, troco colar por esses ténis!”
- “Amiga, amiga, amiga…”
O sol começa a deitar-se… Ouvimos música ao longe e pé ante pé aproximamo-nos. Algumas crianças dançam “puita
[3]”. É delicioso ver a forma como sentem a música. Anestesiados com todo este ritmo continuamos a nossa viagem. O nosso jipe é levado por uma onda de carros até uma discoteca. Entramos e lentamente começamos a sentir a música. Experimentamos dançar tarrachinha[4] mas… a hora do voo aproxima-se. É preciso fazer check-in e regressar a Lisboa. Lentamente o céu cobre-se de nuvens e o cheiro a terra molhada invade-nos. Numa fracção de segundos relembramos toda a nossa aventura por terras são-tomenses e sentimo-nos plenos.
Já no céu vemos São Tomé adormecido. O pico do Cão Grande que ao longo do dia nos serviu de farol brilha com a luz da lua… e de forma “leve-leve” passaram seis semanas!.

[1] Planta geralmente utilizada na culinária são-tomense. Espécie de batata. [2] Apresentador do programa “Na roça com os tachos” [3] Dança típica de São Tomé. [4] Kizomba.

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quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Borderline


Mercado Sali Pazaar
Num momento de férias para muitos, propomos a segunda parte de uma crónica sobre um bairro turco, Tarlabasi, com a sua riqueza cultural, tradições, estigmas, rotinas, problemas e novos desafios. Um contributo para uma aproximação ao mundo islâmico, objectivo da Aliança das Civilizações, criada há três anos.

Texto e fotografia Susana Nunes

Istambul é, sem qualquer dúvida, uma cidade profundamente marcada pela multiculturalidade. Não, mais do que isso. Istambul é mais do que uma simples mistura de culturas. Basta percorrermos as suas ruas para a vivermos, para a sentirmos. Istambul é uma cidade que invade e se entranha na alma das pessoas, sem pedir licença e sem aviso prévio, transformando esta “multiculturalidade” num aglomerado único, em que a individualidade da cidade se impõe à individualidade de cada um.
Mas Istambul é também uma cidade que vive a dois ritmos completamente distintos, onde coabitam diferentes realidades. Apesar de a alma de Istambul ser omnipresente, existem várias comunidades e bairros quase fechados, que chegam mesmo a ser hostis a estranhos. O mais extraordinário é quando todas estas definições se aplicam a um único bairro. Apesar de Tarlabasi ser uma comunidade extremamente fechada, estranhamente, é também um bairro repleto de diferentes culturas que aprenderam ou que são obrigadas a partilhar o mesmo espaço.
Uma vez mais, o meu prédio não poderia ser melhor exemplo deste peculiar fenómeno: para além da excepcional família curda, vivíamos ainda com uma família de japoneses, Julie, uma empresária francesa, e Michael, um professor britânico homossexual. Obviamente, nenhum destes vivia em Tarlabasi com o mesmo à vontade que os nossos vizinhos curdos. Da família de japoneses, só o pai saía de casa para ir trabalhar (nunca cheguei a ver a mãe, pois nunca saía nem abria a porta a estranhos sem o marido estar presente). Julie, a empresária francesa, nunca passava muito tempo em Istambul por causa dos negócios, mas visitava-nos após cada regresso. Penso que nunca se chegou a sentir completamente em casa nesta cidade e que falar um pouco connosco tornava a situação mais fácil. Partiu no primeiro dia do ano, deixando-nos uma garrafa de champanhe, e nunca mais regressou. Michael é o típico britânico, extremamente educado e organizado e que se enquadra no contexto turco, claramente, como um peixe fora de água. Nunca conseguimos perceber porque escolheu um país tão conservador para ensinar. Renovou de tal forma o seu apartamento que ninguém conseguiria encontrar uma única semelhança com o nosso e, muito menos, com o da família curda. Não, estou uma vez mais enganada. Houve algo que Michael não pôde mudar, mesmo não combinando em nada com o novo estilo e com a decoração moderna do seu apartamento, e que continua e continuará a ser igual para todos os habitantes deste prédio em Tarlabasi e de muitos outros prédios de Istambul: o “buraco”.

Enclaves

Em Istambul, "o buraco” é um fenómeno tão significativo que Orhan Pamuk, em O Livro Negro, lhe dedica um capítulo inteiro
[1]: “Les jours où toute la famille allait dîner à l’étage du grand-père, la bonne utilisait le puits d’aération pour annoncer, en criant de tout sa voix, à ceux de l’étage d’en bas et aussi à tous les locataires de l’immeuble voisin, que le dîner était prêt. Les soirs où ils n’y avaient pas été conviés, la mère et le fils, relégués au dernier étage, lançaient de temps à temps un regard par la fenêtre, qu’ils tenaient ouverte, de leur cuisine, pour épier les plats du menu et les intrigues d’en bas.", p. 332.
De facto, ainda não sei ao certo com que finalidade, talvez para depósito do lixo, mas, nesta cidade, muitos prédios foram construídos com um buraco quadrangular no centro. Um buraco vertical, de cerca de três m2 de largura, cuja única abertura para o exterior se situa no topo do prédio, e para o qual todos os apartamentos dispõem de duas ou mais janelas. Apesar de actualmente não ter qualquer função específica, a quantidade de janelas concentradas num espaço tão fechado (no nosso apartamento, por exemplo, tanto a cozinha, como a sala e um dos quartos só tinham vista para “o buraco”) leva a que este, necessariamente, faça parte do dia-a-dia e da vida de cada apartamento e de toda a comunidade do prédio. É através do buraco que as mães gritam pelos filhos para que venham almoçar ou jantar, é para o buraco que inexplicavelmente alguém atira água de vez em quando. É no buraco que vive uma larga família de ratazanas, que passamos horas a observar, num misto de terror e de fascinação.
Para além do “buraco”, este prédio possui ainda outros dois espaços comuns: a cave, onde penso que, exceptuando todos os gatos da vizinhança, ninguém entra há anos, dado o odor pútrido e nauseabundo que daí provem, e o local onde passei várias tardes encantadoras, o terraço. Embora seja um local praticamente esquecido, bastante sujo e a precisar urgentemente de obras, a velha cadeira de baloiço e a impressionante vista, de um lado o aqueduto e o Bósforo, do outro Tarlabasi, fazem com que este terraço se torne num local mágico, onde, perante a dimensão da cidade, qualquer pessoa se sente tão pequena como uma formiga, mas extremamente privilegiada, simplesmente por ter a oportunidade de observar Istambul.
Obviamente, não sei o que o futuro me reserva, mas penso que o dia-a-dia no nosso pequeno apartamento em Tarlabasi foi e continuará a ser um dos períodos mais marcantes da minha vida. Viver em Tarlabasi é viver em constante estado de alerta, sem deixar de se ser surpreendido todos os dias. É estar-se sempre prevenido, sem deixar de se ser apanhado desprevenido.
Ainda hoje penso nos pobres homens que trabalham dia e noite num buraco (um outro tipo de buraco) do apartamento da frente, onde acumulam todo o tipo de sucata, móveis e velharias. Uma cave escura e muito suja, na qual, por vezes, só se vêem os seus pequenos olhos a brilhar. É impossível ficar-se indiferente a estas pobres vidas que se esgotam ao ritmo do vai e vem de objectos alheios. Todos os dias, a chegada e a partida de mercadorias provoca alguma azáfama no bairro, sobretudo quando se descobrem pequenas relíquias, como uma antiga máquina de escrever, que tanto apaixonou um dos meus colegas de casa, um jornalista espanhol.
Esta cave, “o buraco da frente”, como lhe chamávamos, é um local misterioso e difícil de compreender, como muitos outros em Istambul. Pela nossa observação diária, os objectos e materiais que chegam são muito mais do que os que partem. Todos os dias, os “homens da cave” carregam tudo e mais alguma coisa para este local. Para mim e para muitos outros habitantes do bairro, esta cave é como um buraco sem fim, labiríntico, constituído por diversas galerias, repletas de relíquias e tesouros antigos. Curiosamente, esta ideia é um pensamento comum relativamente a Istambul. Dada a sua riqueza histórica, muitos são os mistérios que assombram esta cidade e várias são as lendas e histórias sobre túneis e catacumbas que percorrem e interligam o coração desta cidade. Apesar de tudo, não é difícil de se acreditar nesta possibilidade, sobretudo quando é do conhecimento geral que sempre que se abre um buraco na zona histórica da cidade se encontram novos artefactos e relíquias de diferentes períodos. Tendo em conta que Istambul é uma cidade conhecida pela sua colossal riqueza histórica, é perturbante imaginar tudo o que se pode encontrar soterrado sob as suas ruas, os seus monumentos, as casas, os mercados… Como exemplifica a edição de 27 de Maio de 2008 do jornal Le Monde (p. 3), “o túnel ferroviário que ligará daqui a uns anos as duas margens de Istambul, passando por debaixo do Bósforo, permitiu a descoberta de centenas de objectos datando da época bizantina, mas também da época otomana, e de diversos pontos históricos de grande importância. Vestígios do neolítico, um porto bizantino, um pedaço de 50 metros das muralhas de Constantinopla, nunca antes encontradas nesta área, já emergiram no local. Desde há quatro anos que mais de 70 arqueólogos e de 700 trabalhadores estão em actividade dia e noite.”. E, tudo isto, no centro de Istambul.

Divisão

No entanto, não é com o curioso agregado de roedores que habita o buraco que termino a lista de moradores do nosso prédio. Embora tenha sido a família curda quem mais me marcou, deixei para o fim um grupo que é, sem dúvida, o mais relevante: no primeiro andar do prédio encontra-se situada a sede do DTP, o Partido Sociedade Democrática, um partido de esquerda, pró-curdo, isto é, que defende a criação de um Estado curdo, independente, no Curdistão (região dividida nas fronteiras da Turquia, do Irão, do Iraque e da Síria).
Apesar de todos termos bem noção que qualquer movimento pró-curdo é regularmente alvo de represálias e de atentados, nunca tive grandes preocupações a nível de segurança, até ao dia em que acordei às quatro horas da madrugada com um grande estrondo. Ainda tive tempo para pensar na possibilidade de estar a sonhar, mas imediatamente comecei a ouvir vidros a partir e vozes perturbadas. Apesar de Istambul não ser uma cidade nada silenciosa, não tive dúvidas de que algo grave se tinha passado e decidi acordar toda a gente, just in case. Saía fumo pelas janelas do primeiro andar e a rua estava repleta de pessoas assustadas. Os bombeiros não tardaram a chegar e o rumor de que o escritório do DTP tinha sido alvo de um atentado com um cocktail molotov espalhou-se por todo o bairro ainda mais rapidamente.
Evidentemente, ninguém pregou olho nessa noite e a possibilidade de novos atentados assombrou muita gente. Fui trabalhar na manhã seguinte e mal pude acreditar no que vi quando regressei a casa. Em vez de começarem a actuar de forma mais discreta ou de planearem retaliações, os membros do DTP decidiram responder ao atentado da maneira mais aterrorizadora que poderiam ter encontrado: organizando uma enorme festa e convidando todos os curdos do bairro.
No nosso apartamento, a semana seguinte foi de pânico constante. O estado de alerta geral traduziu-se pelo silêncio e, ao mínimo barulho, os nossos corações disparavam e o sobressalto invadia-nos. Para piorar a situação, o prédio não tinha caixas de correio e os envelopes ou encomendas eram deixados no rés-do-chão até que o destinatário os visse. Durante várias semanas não nos saiu do pensamento que, qualquer que fosse a resposta à provocação, seria certamente mais grave que um cocktail molotov. Ainda hoje me custa a acreditar que a festa não provocou retaliações. Ainda hoje não sei como é que os opositores engoliram a afronta e a ousadia mas sinto-me profundamente agradecida por tal ter acontecido.
É importante lembrar que esta é uma questão extremamente sensível para a Turquia, país onde existe uma comunidade de 11 a 15 milhões de curdos, considerada pelo governo como uma ameaça à segurança nacional do país. A palavra “genocídio” é tabu e completamente condenada pelo governo, mas não é difícil de a encontrar no olhar de cada turco. Aziz, um colega de faculdade, nunca conseguiu deixar de se sentir assombrado por este fantasma e contou-me que planeava fugir para a América do Sul, para escapar ao serviço militar. Sinan, um outro colega e uma pessoa extremamente simpática e trabalhadora, esteve preso durante algum tempo. Nunca me contou porquê, mas corria o rumor de que foi condenado por participar numa manifestação pró-curda. Desde sempre que os curdos têm resistido às tentativas de assimilação forçada por parte do governo turco. Mesmo após a supressão da sua língua e a abolição das palavras “curdo” e “Curdistão” dos dicionários e décadas de incentivo ao uso do turco, a maior parte continua a falar a língua curda. E este é um facto que em Tarlabasi não passa despercebido.

Cidade karisik

Para além do vaivém das mercadorias do “buraco da frente” e dos casamentos ciganos, eventos que provocam o caos durante quatro dias no mínimo, a azáfama é uma constante na nossa rua: os miúdos que jogam à bola e sonham em vir a ser grandes estrelas do futebol turco, as miúdas que jogam à macaca e que olham com curiosidade os estrangeiros, as mulheres que passam a tarde sentadas nas escadas dos prédios, a conversar e a observar a vizinhança, ao mesmo tempo que preparam os vegetais para o jantar… E que, pelo menos uma vez por mês, trazem as suas belas carpetes para a rua, onde as lavam e esfregam, sem se preocuparem com o trânsito ou com quem passa.
Neste mesmo espaço, é impossível não se reparar também na enorme quantidade de gatos que vagueiam pelas ruas, desfrutando do sol e da simpatia de quem passa. Apesar de não existir qualquer explicação lógica, os turcos têm uma relação bastante próxima com os gatos vadios, permitindo que estes ocupem qualquer espaço inabitado e alimentando-os regularmente. Na rua, várias vezes me deparei com taças de ração para gato e, surpreendentemente, sobretudo nos bairros mais pobres. Para além disso, numa cidade onde a circulação rodoviária é gerida pela lei do mais forte e onde é extremamente difícil ser-se um peão ou ir-se a algum lado de bicicleta, cheguei a ver o trânsito parar por completo apenas para que um gato pudesse atravessar a rua. Ninguém sabe explicar este fenómeno, e há mesmo quem o negue, mas a verdade é que, na Turquia, os gatos beneficiam de um estatuto bastante privilegiado.
Apesar de Istambul se “modernizar” e “ocidentalizar” um pouco mais a cada dia que passa, a vida na maior parte dos bairros ainda gira exclusivamente em torno do comércio local e dos vendedores ambulantes. Na minha rua, por exemplo, todos os dias por volta da hora em que terminam as aulas, ouve-se apregoar ao longe “SAHLEP, SAHLEP, SAHLEP!!!” (uma bebida quente feita à base de raízes de orquídeas). A voz vai-se aproximando, percorrendo cada viela, repetindo o pregão incansavelmente, até se afastar e deixar de se ouvir por completo.
Para além do “negócio do buraco da frente”, existe também um vendedor de frutos ambulante (que raramente sai do mesmo sítio) e um outro local bizarro, uma loja inicialmente repleta de ovos praticamente até ao tecto, actualmente transformada num atelier de exposição de fotografias. No entanto, o coração do comércio local encontra-se numa pequena loja típica, onde, como na maior parte das lojas turcas, se pode encontrar e comprar de tudo. O mais curioso é que esta loja está aberta 24 horas por dia e é gerida apenas por dois irmãos curdos, que se revezam, dormindo no camião estacionado do outro lado da rua. Neste tipo de lojas, algo que imediatamente se descobre é que a palavra é mais importante do que o dinheiro. Por exemplo, apesar de cada fruto ter um preço diferente, ao quilo, na altura de pagar, todos os sacos são pesados ao mesmo tempo e o preço total é calculado de forma quase aleatória, sem recurso a qualquer instrumento de cálculo. Embora difícil de se compreender e de se aceitar, o comércio turco baseia-se sobretudo na interacção imediata entre o vendedor e o cliente. O vendedor pode estipular um preço com uma margem de mais de 70% de lucro ou de apenas 5%, por exemplo. Sinceramente, à excepção de quando se espera que o cliente regateie o preço, nunca consegui decifrar os critérios que levam a um preço ou ao outro.
No entanto, apesar de todas as dificuldades de comunicação, acabei por chegar à conclusão de que, para mim, um dos maiores problemas de viver em Tarlabasi, não foi o convívio com a população local, mas sim os preconceitos existentes em relação a este bairro. Por exemplo, Istambul é uma cidade cujas reservas de água potável são insuficientes, por isso, verificam-se frequentemente cortes temporários no abastecimento de alguns bairros, sobretudo no Verão. Tendo em conta a reputação de Tarlabasi, obviamente, este é o primeiro bairro a sofrer com este problema. Há bens essenciais que tomamos como adquiridos e cujo valor só descobrimos em caso de verdadeira necessidade. Após três dias sem uma única gota de água a correr pelos canos, a meio de um Verão abrasador e extremamente seco, saí de casa pela manhãzinha, entrei num dos melhores e mais modernos cafés da Istiklal, Mado, pedi um pequeno-almoço e ocupei a casa de banho durante meia hora. Nem senti a falta de um chuveiro, o lavatório chegou perfeitamente para me voltar a sentir uma pessoa de novo. Normalmente, quando pensamos em falta de água, a primeira ideia que nos passa pela cabeça é sede. Neste caso, dispondo de água engarrafada para beber e cozinhar, o grande problema foi viver com mais cinco pessoas e partilharmos todas a mesma casa de banho.

Todas as minorias

Não posso concluir este modesto retrato do bairro turco onde vivi durante cerca de um ano, sem fazer referência a um outro fenómeno que bastante me intriga, ainda hoje, sobre uma outra comunidade que procurou abrigo em Tarlabasi. À noite, quando já não se vêem mulheres de véu nem crianças, as ruas deste bairro invadem-se de travestis. Estes constituem, sem qualquer dúvida, uma grande comunidade e muitos turcos e mesmo estrangeiros consideram Tarlabasi como o centro da procura/venda de sexo em Istambul, cidade onde existem cerca de 20 mil travestis. Como refere Deniz Kandiyoti no artigo “Transsexuals and the Urban Landscape in Istanbul”
[3], em Tarlabasi, os transexuais são membros de uma cultura local com consciência própria, que desenvolveu o seu próprio vocabulário. Até 1996, os travestis constituíam uma comunidade relativamente estável, baseada numa rotina bem estabelecida de protecção e subornos. No entanto, nesse ano, Istambul recebeu a conferência Nações Unidas Habitat II, "A Cimeira da Cidade", o que levou a uma massiva operação de limpeza de vários bairros, atingindo profundamente a comunidade transexual.
Ainda segundo Kandiyoti, poucos grupos sociais receberam tanta visibilidade e atenção mediática como os transexuais (de homem para mulher) receberam na Turquia nestes últimos anos: “parte da fascinação em torno dos transexuais está, sem dúvida, relacionada com o desconforto que causam na moralidade e nos conceitos dominantes sobre sexo e identidade. Numa sociedade que preza a masculinidade e que possui diversos tabus em relação à expressão da sexualidade feminina, os travestis ostentam com uma vaidade agressiva o estilo feminino e habitam geralmente um submundo sombrio de diversão e de prostituição”.
É de salientar que, contrariamente à maior parte dos países islâmicos, a Turquia é um país cuja legislação permite cirurgias de mudança de sexo e relações homossexuais. Em 1988, foi promulgada uma lei que legaliza a mudança de sexo através de cirurgia, baseada no precedente de Bülen Ersoy, curiosamente uma das cantoras mais adoradas da Turquia, que apelou em tribunal o reconhecimento da sua identidade como mulher, após uma operação de mudança de sexo, em Londres.
Apesar de Tarlabasi continuar a ser o bairro das minorias e dos indesejáveis, as frequentes perseguições e a pressão constante por parte das autoridades, fazem-me pensar que estes dias podem estar a chegar ao fim. Existe uma nova elite que está a redescobrir a antiga beleza de Istambul e o seu legado histórico, do qual faz parte Tarlabasi. No passado, as antigas casas de madeira, do estilo otomano, foram negligenciadas e, por vezes, demolidas ou queimadas (o que é excepcionalmente descrito por Orhan Pamuk em Istanbul: Memórias de uma cidade), para darem lugar a estradas ou blocos de apartamentos “rentáveis mas sem alma”. Actualmente, o boom do aumento do valor das propriedades já se começou a sentir até neste bairro (o que provavelmente levou a que fosse lembrado pelo governo), o que acabará por levar a um novo êxodo, provavelmente para os subúrbios da cidade. No fundo, o verdadeiro problema apenas será geograficamente afastado.

[1] Éditions Gallimard, 1995. [2] Karisik (karışık): mista, misturada. [3] Edição 206 do Middle East Report.

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quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Cidade-limite



Vista do Palácio Dolmabace, a partir de Bósforo



A Turquia é, a par de Espanha, o país promotor do Fórum Anual para a Aliança entre Civilizações, que tem lugar nos dias 15 e 16, em Madrid, e cujo alto comissário é Jorge Sampaio. Uma oportunidade para conhecermos melhor uma nação que (pretende passar de país associado da UE, desde os anos 60, a membro de pleno direito e) foi o berço de várias civilizações e impérios que fizeram a ponte entre o Ocidente e Oriente. Istambul (anterior Constantinopla e antiga Bizâncio), principal cidade do país, por exemplo, está dividida entre dois continentes, Europa e Ásia, através do estreito do Bósforo (na fotografia). Uma riqueza histórica que se reflecte na diversidade cultural actual, de que esta crónica testemunha.

Texto e fotografia Susana Nunes*

Por vezes, odeio esta cidade. Percorro o meu caminho o mais depressa possível, fugindo de qualquer troca de olhares. E a minha raiva aumenta a cada passo. Apetece-me esmurrar o próximo homem que olhe para o meu corpo e revelar toda a hipocrisia desta sociedade à primeira mulher que olhe com reprovação os meus tornozelos descobertos. Desejo que um novo dilúvio leve para longe toda a sujidade e este calor húmido que se entranha na pele e me consome. Esgotada, imploro por dois minutos de silêncio nesta cidade que não dorme nunca. Dois minutos apenas. Mas confesso que nunca me passou pela cabeça a ideia de desistir. Se após um ano aqui estou de novo é porque Istambul é realmente a cidade-limite: até mesmo o ódio e o amor se confundem facilmente. Toda esta raiva que sinto por momentos não é mais do que uma intensa forma de paixão.
Não percebi à primeira o que ela me tentava dizer. Devia ter pouco mais de 40 anos e, pelo lenço na cabeça e pelas suas roupas conservadoras, facilmente se percebia que aquele não era o seu lugar. Àquela hora da madrugada, não havia mais ninguém para além de nós no café da estação de serviço, numa cidade-fantasma, algures na Turquia. Foram várias as horas que ali passámos enquanto esperávamos pelo nosso autocarro. Ela parecia não ter destino. Acabei por perceber que estava em fuga, mas que tinha deixado muita coisa importante para trás. Apesar das evidentes dificuldades de comunicação e de um sorriso amargo nos lábios, tentava explicar-me que com a minha idade já tinha mais de três filhos. Muitas vezes penso no que teria acontecido para ela ali estar e em qual terá sido o seu caminho.
Embora este encontro não tenha ocorrido em Istambul, não poderia ser mais esclarecedor sobre o espírito desta cidade. Istambul pode ter um passado extremamente rico – foi a capital de três impérios – o Romano, o Bizantino e o Otomano – mas a maior parte dos seus habitantes chegou a este local há relativamente pouco tempo. No fundo, Istambul é um amontoado de diferentes histórias pessoais, de passados de diversas minorias, que tentam sobreviver juntas sem perder aquilo que as distingue umas das outras. Para além disso, Istambul é uma das maiores áreas metropolitanas do mundo, com mais de 12 milhões de habitantes (existem estatísticas que chegam a referir 18 milhões), isto é, mais habitantes do que em todo o território português. Estes ingredientes são a principal base para uma cidade que fervilha sem cessar, onde o próprio ritmo de vida chega a ser difícil de acompanhar.
Em Istambul é impossível pensar-se a longo-prazo. Tudo muda de um dia para o outro. O bairro onde estou a viver actualmente é um exemplo perfeito da cidade-limite que é Istambul. Embora o meu apartamento esteja numa zona relativamente segura, este é um bairro considerado por muitos turcos como um local a evitar. Até mesmo os taxistas revelam alguma hesitação quando refiro “Tarlabasi”. O mais curioso, e inacreditável, é que, apesar disso, está localizado mesmo ao lado do coração comercial e cultural da cidade. Na verdade, não preciso de andar nem cinco minutos para estar na avenida mais conhecida de Istambul: a Istiklal. A linha divisória entre estes dois espaços é tão ténue que, muitas vezes, me sinto a viver na borderline, em todos os aspectos. De um lado, uma das zonas mais ricas da cidade, do outro o bairro de todos os “indesejáveis”.
Duas velocidades
Ninguém consegue ficar indiferente a esta cidade. Nunca senti tanta fluidez de pensamento como ao percorrer as suas ruas. O ritmo é alucinante e as coisas só param quando menos se espera, ou quando há futebol, claro. Uma das ruas em que este fenómeno é evidente é a já referida Istiklal. Muitas vezes me senti levada pela multidão, sem possibilidade de recuar ou abrandar. Muitas vezes entrei numa livraria ou num café, só para ficar a observar o fluir da multidão a partir de um dos andares superiores. É como se existissem duas comunidades que andam a ritmos diferentes. Uns permanecem diariamente no mesmo local e por ali andam, faça chuva ou faça sol. As únicas faces que reconheço são as dos mendigos e as dos vendedores ambulantes. As restantes perdem-se na multidão em movimento.
É curioso como esta rua está em constante mutação, seja de pessoas ou de locais. Durante a minha primeira estadia, todo o pavimento foi substituído por duas vezes (a primeira por necessidade, a segunda por alguém não ter ficado muito satisfeito com o resultado). Tenho ainda a sensação de que praticamente todas as vezes que a percorri descobri algo diferente, ou uma loja nova ou um pormenor que me tinha passado despercebido. Mesmo ao regressar a casa, de madrugada, já muitas são as pessoas que se preparam para a agitação de um novo dia.
Uma das profissões que mais se enquadra nesta peculiaridade é a de carregador ou transportador. Apesar de Istambul ser uma cidade cada vez mais moderna, estes não parecem estar em extinção, muito pelo contrário. É impressionante observar o trabalho dos carregadores de mercadorias pesadas, indivíduos que carregam quilos seja do que for às costas, literalmente. Lembro-me especialmente de uma mulher de bastante idade andar sempre para cima e para baixo com uma enorme carga de papelão (bem maior do que ela própria). Um dia, num artigo, acabei por descobrir que já tinha mais de 90 anos, que era reformada, e que só continuava a trabalhar por querer continuar a ajudar a neta a pagar os seus estudos.
Apesar de esta ser uma actividade cada vez menos frequente, existe um outro fenómeno bastante curioso, que se deve ao sucesso das entregas ao domicílio. Já era habitual observar a rotina dos vendedores de chá, que andam de loja em loja, de escritório em escritório, rua acima, rua abaixo a distribuir e a recolher copos com uma bandeja redonda. No entanto, a opção da entrega ao domicílio teve tanto sucesso entre a população, que actualmente pode-se encomendar quase qualquer tipo de produto por telefone, seja da farmácia, do supermercado, da tabacaria ou de um restaurante, praticante 24 horas por dia! Existe mesmo um website que engloba centenas de restaurantes e cafés, onde se pode encomendar qualquer tipo de comida (incluindo gelados!). Por isso, não é difícil imaginar a quantidade de estafetas que anda pelas ruas diariamente…
Tarlabasi
Por incrível que pareça, este bairro, Tarlabasi, considerado actualmente o mais problemático de Istambul, também teve os seus tempos de glória. Se tentarmos ver para além da sujidade e da deterioração, ainda encontramos muitos indícios da sua antiga magnificência. A rua onde vivo, por exemplo, pertencia a um antigo bairro grego, uma minoria que outrora teve um período de considerável riqueza. Os prédios, embora em decadência, ainda mantêm a sua arquitectura característica. Alguns ainda possuem estátuas na sua fachada. No meu prédio as escadas ainda são as originais, de autêntico mármore branco, com um corrimão de madeira de visível qualidade, trabalhada à mão (apesar de grande parte ter desaparecido, aproveitada provavelmente para aquecimento no Inverno).
Até à década de 50, este era um bairro próspero habitado por Gregos e por Arménios abastados. No entanto, após a fundação da República Turca, em 1923, a exigência de uma homogeneidade étnica e religiosa veio contrastar com esta comunidade não muçulmana, por isso, uma série de medidas governamentais discriminatórias levaram à partida forçada da maior parte dos residentes cristãos. Uma das medidas que mais impacto teve foi a do “Imposto de Riqueza” (1942-44), colocada em prática durante a II Guerra Mundial. Esta medida, implantada para a rectificação da economia, foi aplicada apenas em minorias, sobretudo gregas, judaicas e arménias, de forma a enfraquecer a dominação destes grupos étnicos na economia. Este sentimento de descriminação chegou ao seu auge quando, a seis e sete de Setembro de 1955, a população turca se juntou em revolta, em Istambul e em Izmir, contra estas minorias, pilhando os seus bens e as suas propriedades, entrando nas suas casas, espancando-as e ameaçando-as.
Muitos dos edifícios foram abandonados e, com o passar do tempo, Tarlabasi tornou-se o destino dos sem-abrigo e da população sem raízes, vinda de áreas rurais, sobretudo do Este da Turquia. A habitação barata atraiu imigrantes pobres de todo o mundo, incluindo refugiados do actual conflito iraquiano. Tarlabasi tornou-se num denso e caótico aglomerado de pessoas, num local deteriorado e com poucas condições de vida. Em 2000, estimava-se que cerca de 31 mil pessoas vivessem neste bairro, 78% das quais imigrantes. Estes habitualmente planeiam uma estadia curta, olhando para Istambul apenas como uma entrada fácil para a Europa, mas acabam por ir ficando. Na década de 90, o desejo de tornar Istambul “uma cidade do mundo” levou a que o espaço urbano fosse violentamente redesenhado. Durante esta operação de limpeza, 368 edifícios em Tarlabasi foram demolidos, muitos deles históricos. Beyoglu, do outro lado da Avenida Tarlabasi, foi alvo de um processo de gentrificação e tornou-se no centro de cultura e de entretenimento de Istambul. Tarlabasi simplesmente permaneceu do lado errado da avenida, o lado para onde foram varridos todos os indesejáveis, que sendo-o noutros locais aprendem a acolherem-se uns aos outros, à sua maneira. Enquanto, para muitos dos habitantes de Istambul, esta longa avenida apenas serve de ligação entre os diversos centros da cidade, para os residentes de Tarlabasi, esta é a “borderline”, a fronteira onde o trânsito se torna uma barreira, para que Tarlabasi permaneça isolado do resto da cidade e do mundo. Existe mesmo quem refira que Tarlabasi, sendo um bairro com um fluxo permanente de migrações, provavelmente está mais próximo de outras cidades com as quais tem relações espirituais do que aquela em que se encontra.
São habituais as disputas entre famílias e entre minorias num local em que o espaço público, se existe, está confinado às conversas em frente às suas portas, abertas para ruas-corredor. Recentemente, houve uma grande disputa entre curdos e ciganos, que obrigou à intervenção da polícia. Entre estes dois grupos a situação é algo frágil pois tendem a ver-se como rivais: ambos sabem que não são bem vistos pela sociedade turca em geral, por isso, acabam por competir pela posição menos inferior. Os curdos referem-se aos ciganos como infiéis e ladrões, os ciganos penduram bandeiras turcas nas janelas para lembrar que os curdos é que são perigosos para o país (dado que lutam por um estado independente).
Nem sempre a polícia se envolve nos conflitos em Tarlabasi. Num artigo intitulado “Tarlabasi: 'Another World' in the City”, por exemplo, Nermin Saybasili recorre a um conceito de Georgio Agamben para caracterizar este bairro: um “local deslocado”. Segundo Saybasili, enquanto a altamente visível presença das forças policiais exerce uma violência aberta sobre este espaço, também indica uma violência encoberta que constitui o espaço, pois os eventos que nele têm lugar muitas vezes não são vistos e são deixados por investigar.
É óbvio que os conflitos já fazem parte da rotina neste bairro. Sempre que vou trabalhar tenho de percorrer a Tarlabasi Boulevard, embora já só me atreva a fazê-lo do lado “certo”, e é impossível não reparar no carro de combate militar, um tanque, que já há anos se encontra em frente da sede da polícia do outro lado da avenida. Mas, muitas vezes, cheguei a atravessar este bairro, do lado “errado”, para ir para a universidade. Muitas vezes, até ao dia em que assisti a uma cena de espancamento colectivo de um único indivíduo. Não sei se foi do susto ou se realmente aconteceu, mas, a dada altura, pareceu-me ter ouvido os ossos do rapaz a partir com a força da paulada que levou nas pernas. Pareceu-me que todos os restantes sons e barulhos pararam e que ouvi cada estalido, como se assistisse a esta cena em câmara lenta. Ainda hoje me recordo perfeitamente do som. Encurralado numa esquina, rodeado por uma dezena de homens, não consigo, nem quero, imaginar o seu estado final. Em choque, desviei o olhar assim que me apercebi que um dos agressores olhava para mim, acelerei o passo sem correr, não olhei para trás quando me apercebi que me chamava e, apesar de não acreditar em religiões, rezei como uma crente fervorosa para que não me seguisse. Só parei quando a porta de casa se fechou atrás de mim e pude finalmente descarregar toda a tensão num ataque de choro incontrolável. Este foi um dos momentos em que não tive dúvidas de que odiava Istambul. Não repeti sozinha o mesmo percurso, mas também não me passou pela cabeça em desistir desta cidade.
Os vizinhos curdos
A primeira vez que entrei no prédio onde estou a viver actualmente pensei que não seria capaz de viver num lugar assim. Realmente, de noite, ninguém pode ter uma boa impressão deste local. As ruelas estreitas e escuras, o cheiro intenso vindo dos caixotes do lixo, o barulho dos gatos que fizeram da cave o seu local de refúgio… Mas, apesar de ser evidente que já há muito que precisa de obras de recuperação, acabei por ficar surpreendida com o estado do apartamento, bem mais “normal” do que esperava. As circunstâncias acabaram por determinar que esta fosse a minha morada fixa em Istambul no meu ano de estudante e que o voltasse a ser, nesta minha segunda estadia.
A multiculturalidade existente neste prédio foi o que mais me fascinou. A família mais marcante é, sem dúvida, a família curda que vive no apartamento imediatamente abaixo do nosso. Todos tivemos algumas dificuldades em perceber quantas pessoas moravam ao certo naquele apartamento e em compreender como seria a divisão do espaço. Nós éramos apenas cinco e nem sempre foi fácil a gestão do uso dos espaços comuns, principalmente o da única casa de banho. Naquele apartamento viviam três casais, cada um deles com os seus filhos. Considerando, que quatro filhos é o mínimo para uma família curda, bem… Talvez seja por isso que quase todos os dias nos apercebíamos de uma criança nova a entrar naquela casa e nunca tenhamos conseguido identificá-las todas. Também talvez seja por isso que, bem antes dos nossos despertadores tocarem de manhã, já os gritos ecoavam pelo prédio. As discussões e as crises são constantes e não têm qualquer problema em expressá-las verbalmente. Tudo termina uma meia hora depois, com um dos miúdos a chorar desalmadamente ou com alguém a sair de rompante e a porta a bater.
Acabei por me aperceber de que, embora provavelmente os homens tivessem a última palavra, o chefe de família naquela casa era a mulher mais velha. Entre os vários trabalhos que tinha, costumava ser ela a limpar as escadas do prédio, pedindo em troca 15 liras a cada família (e não havia quem lhe conseguisse fazer frente, por cobrar por algo que ninguém lhe tinha pedido, mesmo sendo o preço invulgarmente elevado). Lembro-me de um dia acordar com uma gritaria assustadora, desta vez mesmo à porta do nosso apartamento. Levantei-me a correr para me aperceber de que era a mulher, a reclamar pelo atraso do pagamento. Sem dúvida, descobriu um método eficaz e usa-o em todos os casos, seja qual for o problema: ninguém aguenta muito tempo os seus gritos estridentes.
Lembro-me também do dia em que toda a família pegou nas malas e se foi embora, orgulhosa por sair “de vez daquele buraco”. Um mês depois, para surpresa de todos os vizinhos, estavam de volta com as mesmas malas. Ninguém soube o que se passou durante aquele período nem onde estiveram. O mais engraçado foi a reacção da matriarca, assim que descobriu que já tinham arranjado outra pessoa para a substituir na limpeza das escadas. Começou pela táctica habitual, cansando toda a vizinhança com os seus gritos mas, como viu que o efeito desejado estava a tardar, pareceu desistir… No dia seguinte, cruzei-me com ela quando entrei no prédio. Sorriu para mim, abraçou-me e chamou-me de filha. Depois, apesar de habitualmente não fazer qualquer esforço para falar mais devagar, para que eu pudesse entender, disse-me calmamente, e ainda a sorrir, para eu não pagar à outra mulher porque estava a pensar em diminuir o preço habitual. No dia seguinte, e apesar das escadas terem sido limpas no dia anterior, acordámos com ela a lavar as escadas. E pronto. Tinha recuperado aquilo que era seu.
Quanto aos jovens da família, a situação também era algo peculiar. Muitas vezes vi as duas raparigas mais velhas a fumar às escondidas nas escadas (não imagino as consequências caso venham a ser apanhadas um dia por um dos membros da família). Não sei ao certo as suas idades, mas deviam ser bem jovens para ainda não estarem casadas. Apesar das diferenças religiosas (já usavam véu), olham para nós e para as nossas roupas modernas com risinhos infantis e envergonhados, como se as cobiçassem, apesar de terem consciência do pecado. Mais curioso ainda é a forma como desviam o olhar ao cruzarem-se com rapazes estrangeiros, com sorrisos sussurrados e faces rosadas.
Outra das invulgares personagens desta família é um dos rapazes mais velhos. Durante um jantar de amigos, bateu-nos à porta e entrou de rompante, ameaçando-nos com uma garrafa partida a servir de punhal. Logo de seguida, entraram outros dois irmãos, levaram-no dali e pediram-nos desculpa. Disseram que o rapaz tinha um parafuso a menos e para não nos metermos com ele. Uns tempos depois, descobrimos que era conhecido por ter
furado a mão do patrão com um espeto de kebab, num ataque de fúria. Como é que toda esta gente consegue conviver no mesmo apartamento? Ainda hoje não faço a mínima ideiaia.

* Apesar das diferenças mais evidentes entre Portugal e a Turquia, e embora quase tudo em Istambul ainda me pareça algo “estranho”, sinto que descobri algo mais sobre o meu próprio país durante a minha ausência. Estando actualmente a morar em Lisboa, todos os dias me das semelhanças profundas que existem entre estas duas cidades e entre estes dois povos. Em Istambul o Bósforo é uma parte viva da cidade, com os seus barcos a vapor e os seus pescadores. É nas ruas de calçada, estreitas e labirínticas, e nos seus pequenos mercados populares que encontramos a sua essência. As mesquitas, as vozes dos muezins a ecoarem por toda a cidade ao fazerem o chamamento para as cinco preces diárias. A música turca, o cheiro a peixe grelhado, futebol, futebol, futebol. Lisboa, o Tejo, os mercados, as igrejas, o fado, a sardinha assada, futebol. Mesmo aquilo que mais identifica o povo português deixa de parecer tão único em Istambul: a saudade. Segundo Orhan Pamuk, o Nobel turco da literatura, também Istambul e o povo turco vivem num permanente estado de saudade, “hüzün”, em relação aos seus tempos de glória. De acordo com Pamuk, “hüzün” não é a melancolia de uma única pessoa, mas sim algo sentido por milhões. Uma perda espiritual profunda ligada a uma certa esperança em relação ao futuro. Pelo que Pamuk sugere e pelo que tive oportunidade de experienciar em Istambul, também os seus habitantes esperam passivamente pelo retorno dos tempos de glória.
Todas as personagens incluídas nesta crónica são indivíduos que observei ou com os quais convivi. Não pretendo, de forma alguma, criar ou fomentar estereótipos de qualquer tipo. Tal como em qualquer outro país, na Turquia, e especialmente em Istambul, há que se ter em conta a multiculturalidade e a diversidade da população, não sendo possível qualquer generalização.

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