quarta-feira, 2 de maio de 2012

Jornais (im)pre(s)sos



Estamos em vésperas do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa que, segundo José Manuel Tengarrinha em entrevista à Antena 1, não existe, hoje, face às forças ocultas, com interesses camufladas e actuações sofisticadas. Ensejo para redescobrir as suas origens, seguindo a obra clássica do autor octogenário.


A "História da Imprensa Periódica Portuguesa" é uma obra* que nos apresenta a evolução da imprensa portuguesa desde o século XVI. Incide em explicações dos estados sociológico e político que nas várias épocas se foram vivendo e na influência recíproca que esses acontecimentos e imprensa exerciam. Refere ainda as dificuldades técnicas e legislativas existentes.

Primeiras folhas noticiosas

A primeira folha noticiosa de que há registo, em Portugal, data de 1588, com informação sobre a destruição da “Armada Invencível”. Os registos seguintes faziam referência ao tempo e suas implicações na economia. Entre 1640 e 1643 há conhecimento de várias folhas manuscritas, normalmente de gazetas estrangeiras, originais ou traduzidas. Eram então o único meio de informação.

A primeira folha noticiosa impressa remete a 1655. Devido ao domínio espanhol, no segundo quartel do século XVII a circulação de folhas volantes aumentou e também surgiram os pasquins.
Primeiro jornal

As chamadas Gazetas da Restauração foram as primeiras a reunir a periodicidade (a primeira é mensal), a continuidade e o objectivo informativo. A primeira data de 1641. Apesar do seu aparecimento, as relações não diminuíram, e também apareceu o panfletarismo, com o intuito de alcançar o público interessado nos acontecimentos do País, quebrando as limitações encontradas na comunicação pelos livros. Foi neste contexto de agitação política que surgiu o jornalismo.

Nesta época surgiram também os mercúrios. O mais importante foi o Mercúrio Português, que durou de 1663 a 1667, redigido por António de Sousa Macedo. Tinha intenção política, mantendo na mesma o carácter noticioso.

Terminando o Mercúrio Português, não há imprensa periódica em Portugal até ao fim desse século. No início do século XVIII só a Gazeta foi criada, e dela apenas se conhecem dois números. Em 1715 apareceu a Gazeta de Lisboa, dando notícias internas, estrangeiras e das nomeações do governo português. Tornou-se na folha oficial, ao qual mais tarde o governo pombalino deu ordem de suspensão.

Nesta altura surgiram os primeiros periódicos de crítica social. O redactor do Lisboa, Correia Garção, morreu na prisão e alguns periódicos foram suspensos. Nasceu também a Gazeta Literária, considerada a primeira do jornalismo literário em Portugal, com “críticas inteligentes e bem formadas” deixando “um público culto português ao corrente das principais obras sobre literatura, artes e ciência” (p 47). Vários factores vieram dar espaço para nascer o enciclopedismo.

Em 1809 apareceu o primeiro periódico quotidiano, o Diário Lisbonense, saindo todos os dias menos ao Domingo e dias santos. No espaço de quatro meses passou a haver mais quatro diários. Este fenómeno cultivou ainda mais a curiosidade e a vontade de estar actualizado por parte dos leitores. Contudo alguns destes periódicos tiveram um curto tempo de vida.

Periódicos especializados

Apesar de atrasados relativamente a alguns países da Europa, no século XVIII apareceram periódicos que tratavam apenas ou de forma dominante de um certo assunto, sendo que a maioria tratava de assuntos literários, científicos e comerciais. Estes últimos eram caracterizados pelo seu “mau estilo, erros gramaticais e pobreza de vocabulário” (p 53). Os jornais especializados mostravam uma diversificação dos gostos do público, exercendo-se naturalmente uma maior influência. Nesta fase notava-se uma imprensa literária pobre, em grande parte devido ao controlo e repressão desde sempre feitos à literatura e ao jornalismo político.

No fim deste século e início do século XIX houve um grande crescimento dos periódicos humorísticos, também devido a uma vida com condições que poucos motivos de alegria proporcionava, tendo estes jornais bastante saída. Acima de tudo tratava de crítica social, mas há excepções, sendo que alguns tratavam apenas de diversão pura, sem qualquer crítica.

As muitas publicações de pendor sentimental que surgiram eram demonstrativas da tendência pré-romântica, com exageros sentimentais e desapegos aos valores clássicos, originando novas formas de pensamento. Apesar de periódicas, não eram jornalísticas.

Invasões napoleónicas

Até às invasões francesas o jornalismo político em Portugal era escasso, sendo que nessa altura o único jornal político era a Gazeta de Lisboa. É em 1808, já durante as invasões, que começou a haver jornalismo de combate, e aqui tiveram grande importância os papéis clandestinos. Nele havia diversas opiniões, fervilhando o ódio e os comentários apaixonados contra os invasores. Só durante o 1809 publicaram-se 24 periódicos. Neste período foi dada certa liberdade à imprensa devido ao apoio que os poderes portugueses precisavam para combater os franceses, a qual foi retirada novamente mal a guerra acabou. Aliás, entre a segunda e a terceira invasão já era evidente a preocupação dos governantes. Foi também quando se começaram a publicar as ideias liberais, considerando-se o Correio da Península o primeiro periódico liberal português, que logo foi suprimido. No entanto, o dinamismo estava instalado e após as invasões a imprensa não voltaria a ser como antes, pois a diferença era evidente tanto ao nível da atenção no tratamento dos assuntos como ao nível do interesse do público. A política era agora curiosidade de todos.

Os franceses sabiam do poder que as ideias revolucionárias dos papéis tinham, então assumiram a estratégia de inserir através deles a actividade propagandística nos países que dominavam. Neles se expressava, por exemplo, que a população estava tranquila, que Napoleão trazia benefícios, entre outras. Estes levavam a vantagem de poder espalhar a literatura panfletária e até afixá-la nas ruas.

Pós-Revolução de 1820

Após a Revolução de 1820, houve a preocupação de assegurar a estabilidade, e para tal continuou a existir censura prévia a livros e periódicos. No dia em que se jurou a Constituição foram dadas “instruções quanto à forma de proceder à censura dos jornais” (p 124). Isto gerou controvérsia, defendendo que “A Liberdade de Imprensa é a salvaguarda da Constituição” e que todos têm direito de apresentar as suas ideias. Multiplicaram-se então os periódicos, e houve uma reacção por parte dos homens defensores do Portugal Velho, como José Agostinho de Macedo que considerava a pátria oprimida pelo “flagelo dos periódicos”, notícias falsas, abusos e “projectos loucos”, achando isto incompatível com a ordem e estabilidade do Governo. Em 1821 determinou-se nas Bases da Constituição a criação de um Tribunal que regulasse a liberdade de imprensa: O Tribunal Especial da Protecção da Liberdade da Imprensa. Em Julho desse mesmo ano foi abolida a censura prévia, aparecendo a primeira lei de liberdade de imprensa, que na verdade nunca esteve completamente em prática. Esta medida de liberdade surgiu numa fase em que a população atravessava uma forte agitação, o que facilitou o aparecimento da imprensa de opinião. As mudanças foram inevitáveis e abrangeram tanto conteúdo como apresentação, que muito deveu aos jornalistas da primeira emigração.

Em 1827 a liberdade de pensamento era apenas aparente, e até na actividade tipográfica houve um retrocesso, pois voltou-se ao regime de privilégios. Os que fossem apanhados sem a licença eram presos e condenados. Neste ano foi ainda criada a Comissão de Censura, demitindo os censores menos rigoros” (p 140), mas só durou até D. Miguel ser aclamado rei absoluto, voltando a censura a estar a cargo da Mesa do Desembargo do Paço, o que atrofiou novamente o movimento jornalístico devido a severas punições, tal como a morte.

Em 1834 foi instaurada definitivamente a lei de liberdade de imprensa em Portugal, que garantia a total isenção de medidas preventivas, dando condições ao jornalismo, agora sim, para estar ao serviço do constitucionalismo. Desde esta data até à Regeneração, 1851, houve uma sequência quase contínua de importantes acontecimentos, o que se reflectiu na relação dos jornalistas com os poderes, na influência dos jornais no público e também num desenvolvimento magnífico do próprio jornalismo, sendo considerado pelo autor “talvez a sua fase mais brilhante” (p 148). De 1834 até 1838 foi crescendo o número de periódicos fundados, diminuindo continuamente até à restauração da Carta por Costa Cabral em 1842. Foi então publicado A Revolução de Setembro. Havia uma influência forte e recíproca entre a literatura e a transformação social. Era através dos relatos dos jornais que o público tinha acesso ao que se debatia na Assembleia, havendo o hábito de os ler em alta voz.

Importante foi a data de 1834, a partir da qual os jornais passaram a apresentar novas características.

Os periódicos literários também se desenvolveram bastante a partir desta data. Para além destes serem incentivados, eram reprimidos os jornais de opinião, sendo limitado um público intelectual.

Em 1846, no sentido de contornar as dificuldades de ordem técnica e legal, formou-se no Conservatório Real de Lisboa a Associação Promotora dos Melhoramentos da Imprensa, para defender os seus direitos.

Imprensa ilegal durante a guerra civil de 1846-1847

A partir de 7 de Outubro de 1846, além do Diário do Governo, apenas podiam ser publicados jornais científicos e literários, ordenando Saldanha a prisão de vários jornalistas pertencentes à oposição. Contudo, continuavam a circular jornais e panfletos políticos. Foi então que surgiu O Eco de Santarém, “o jornal clandestino mais importante da nossa história até ao aparecimento do Avante!”. Já O Popular foi o mais violento dos jornais clandestinos desta fase, com má redacção e apresentação. Durante a guerra civil também houve folhas supostamente ilegais mas publicadas por agentes governamentais, que teceram ataques, entre outros, a O Espectro.

Além de Lisboa, os dois importantes centros de publicação nestes dois anos foram Porto e Coimbra. Alguns jornais patuleias foram publicados também no Alentejo, Madeira e Açores.

Esta foi uma época de mau jornalismo a nível ideológico. Houve uma revolta e posição simplesmente negativa, em que não se tomaram diferenças no combate ao poder para não perder a energia das várias forças opositoras reunidas (miguelistas, setembristas, cartistas “puros”). Apesar de nesta fase já começar a ser expressa a vontade de derrubar a monarquia, só no ano seguinte com as revoluções em vários países da Europa é que apareceram jornais com programa republicano.

Regeneração

Após a marcante “Lei das Rolhas” o movimento jornalístico em Portugal enfraqueceu bastante. Em 1851, com a Regeneração, a imprensa encontrou grandes facilidades, sendo arquivados os processos por abuso de liberdade de Imprensa que estavam a decorrer. Além disto, em 1866 foram abolidas todas as restrições impostas à imprensa, estendendo-se esta liberdade até 1890, começo do reinado de D. Carlos, o que acabou por ser “a grande época de florescimento do jornalismo” (p 184): na década de 1850, a criação média anual de periódicos foi de 35, e na década de 1880 foi de 184. Não se conseguindo ainda separar das tendências que a guiavam até aqui, conseguiu contudo um maior desenvolvimento ao nível dos processos jornalísticos e dos meios técnicos.

Terceira época do jornalismo português

Em 1856 a actualidade tornou-se na grande preocupação do jornalismo moderno. 1865 assinalou o princípio da terceira época do jornalismo português, em que houve a passagem da imprensa romântica para a fase industrial, surgindo a designação de noticiário. Para acompanhar o ritmo da evolução das máquinas, era preciso interessar todas as opiniões, ser acessível monetariamente e usar a publicidade para as receitas. Com a publicação do Diário de Notícias começou então a dar-se espaço à intenção mercantilista, assim como também marcou o início do jornalismo contemporâneo baseado no carácter informativo. Com o desenvolvimento da comunicação havia processos continuamente mais rápidos e eficazes.

Nesta fase seria impossível que a paixão do jornalista se mantivesse intacta, já que passou a escrever temas com os quais não se identificava. Devido a não ter interesse nas ideias nem nos lucros dá-se a alienação. Ele passou a dividir-se entre o que queria e o que o patrão desejava, transformando-se numa máquina de fazer artigos, com o objectivo de atingir o público.

Imprensa republicana e operária

O Tribuno, aparecido em 1843, pode ser considerado o primeiro jornal republicano, ainda que escondesse a sua doutrina por motivos de prevenção, e afirmava “respeitar o trono mas sem servilismos”. Seguiram-se O Regenerador e O Republicano, estes explícitos mas clandestinos. Um dos mais activos e duradouros foi O Partido do Povo. Em 1881 foi publicado O Século, órgão do Partido Republicano, e que foi um dos mais importantes da história da nossa imprensa. Seguiu-se a criação de O Mundo, o de maior projecção e influência durante a propaganda. Até 1891 a imprensa republicana foi crescendo, até à fracassada revolta desse ano, enfraquecendo-se a partir daí. Desde 1903, ganhou novamente vitalidade, estrutura e dinamismo. Depois de 1906 começaram a assumir as suas posições extremas. A imprensa, juntamente com os comícios, foram as armas de maior efeito na luta dos republicanos.

Em meados do século XIX intensificou-se a imprensa operária, visando a libertação operária e apoio às lutas operárias. Neste contexto foi publicado o Emancipação da Mulher em 1868, o primeiro jornal em defesa dos direitos da mulher. Em 1871 este movimento entrou em conflito com a sociedade, devido à atitude predominantemente ofensiva, e com a ditadura de João Franco intensificou a censura, acabando por sair em 1896 uma das leis mais repressivas da história da nossa imprensa, chamada “dos anarquistas”. A Sementeira foi o jornal anarquista com maior duração, de 1908 a 1919, no entanto a imprensa anarquista não foi tão intensa como o seu movimento. Na primeira década de 1900 foi-se acentuando a separação entre movimento operário e movimento republicano.

Implantação da República

Após grandes repressões, cinco dias depois da implantação da República, a imprensa periódica foi finalmente liberta, sendo então publicados bastantes jornais políticos. Mas com o fim do controlo das ideias políticas abandonou-se a revisão gráfica. Relativamente aos abusos de liberdade de imprensa seriam julgados por um júri, o que em 1926 veio a ser reformulado para passar a ser julgado, em casos especiais, por um tribunal colectivo. Em 1933 a censura prévia foi novamente instituída.

Balanço

Jornalismo nasceu noticioso mas com intervenção política. Nas notícias não havia comentários ou crítica. As principais personalidades da intelectualidade portuguesa dos séculos XVII e XVIII não colaboravam no jornalismo. A técnica jornalística era ainda pouco desenvolvida, não havendo sequer grande preocupação com a informação ser actual e pormenorizada, nem em certificar-se da veracidade das fontes. Só no fim do século XVIII surgiu a preocupação de agradar ao leitor, no entanto a relação entre leitor e jornal era distante, fortalecendo-se a partir de 1808 com o aparecimento de jornais com “opinião própria mais visível” (p 119). Ao longo da história a censura foi sendo banida e voltando, tomando várias formas. Em 1834 foi instaurada a lei de liberdade de imprensa. Desta data a 1851 foi quando a influência na opinião pública foi mais forte. Em 1846 contou-se com um mau jornalismo a nível ideológico e em 1850 saiu a “Lei das Rolhas”, que enfraqueceu o movimento jornalístico.

O antigo jornalismo era uma arma de combate, um agente de propaganda, enquanto que o novo jornalismo se tornou industrial, tanto pela importância dada ao objectivo monetário como pela mecanização dos processos jornalísticos. Aqui o jornalista tornou-se máquina sem paixão e a relação entre público e jornal perdeu vitalidade. Em meados do século XIX deram-se os movimentos republicano e operário com grande influência na imprensa.

Com a implantação da República foi restituída a livre expressão e surgiram bastantes jornais políticos. Em 1933 voltou a ser instituída a censura prévia.

TENGARRINHA, José - História da Imprensa Periódica Portuguesa. Ed. Caminho. 1989.

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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Despertar


Antes da comemoração do nosso quarto aniversário, Segunda-Feira, publicamos um poema de intervenção sobre os benefícios de viver no Aqui e Agora.

Texto Elton Rodrigues Malta fotografia Dina Cristo



O passado não é real existe apenas na cabeça
Se o vives, vives um trauma que não deixas que desapareça
Porque não viveste o momento, não estavas presente
E recusas novamente desperdiçando todo o teu tempo
A obsessão não é real, torna-se fascínio que te ofusca
E a saudade é fuga à realidade que te assusta
Não vale a pena dizer que com o passado se ganha experiência
Porque se essa semente entrou, foi no momento da ocorrência
Só nao deixes que essa informação adormeça
Interpreta bem agora, acorda depressa
E pensa que não é passado o que causa arrependimento
Porque se o sentes, é porque esse aspecto ainda está presente
Para quê arrepender-me das situações da minha vida?
Se não fossem elas não estava agora a ver desta perspectiva
Se com esse comportamento já deitaste tanto tempo fora
Para quê deitar mais? Desperta agora...

O futuro não é real, só existe enquanto o imaginas
E se não abrires os olhos a tua presença nele torna-se rotina
Nele vives a melhor forma possível, mas só por instantes
Por isso é que o regresso à realidade se torna frustrante
Nunca verás o viste, porque nos sonhos estás às escuras
E quando surge o ideal... nem reparas, e continuas à procura
Podes ter tudo e ainda mais todas as prendas
Mas se viveres no amanhã... Amanhã não chega
O futuro que tu visionas é um jogo que a mente faz contigo
Imaginas uma situação ao teu gosto num certo sítio
Inconscientemente adicionas um sentimento já tido
Resumindo e concluindo... É tudo conhecido!
E quando surgir algo parecido não consegues pôr em prática
É como decorar exercícios para o teste de matemática
Se já deu tanta falsa esperança e só em desilusão se transforma
Para quê sonhar mais? Desperta agora...




o presente é que é real, é nele que se encontra tudo
Foi nele que aconteceu o passado e onde acontecerá o futuro
Os primeiros são imaginados, o segundo existe realmente
O presente parece o mais pequeno, mas é presente para sempre
Parece pequeno mas é presente eternamente...
Para além de eterno, é o único que existe
O único onde te moves e onde concretizas os planos que construíste
É neste momento que aquilo que não gostas, corriges
É aqui que te realizas, é agora que és feliz
Não imagines, sente, vive o momento
Absorve o sentimento e abstrai-te da mente
Apenas o presente está ao teu alcance
E tudo o que queiras alcançar é nele que o encontras
Enquanto pensas em remodelar o passado ou construir o futuro
Apenas o presente desmoronas
Há que viver com planos mas como bússola e não como mapa


Apenas um destino definido e não uma estrada traçada
Também há que recordar, mas de forma equilibrada
O mal para não repetir e o bem para dar força para nova etapa.

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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Criticar ou compreender?


Numa altura crucial para Portugal, publicamos um conto sobre a liberdade de escolher o caminho. De um jovem autor português a história alerta para a responsabilidade de aumentar o que mais se estimular: o conflito ou a elevação.

Texto Elton Rodrigues Malta fotografia Dina Cristo

Num belo parque, onde o Sol penetrava as folhas das árvores que dançavam com o vento, a água do lago brilhava com o reflexo da magnífica luz solar, e as aves voavam com infinita liberdade, encontravam-se três amigos bem diferentes.
Hélio, contemplava e absorvia aquela beleza, fundindo-se com a magia da natureza e enriquecendo-se com aquela energia. Repousava em silêncio, contagiando ao seu redor. Era firme, constante, compreensivo, respeitador e dado.
A segunda era Gaia, sempre muito influenciável pelo que a rodeava, sem opinião firme aquando de troca de ideias. O que defendia num momento rapidamente era esquecido, bastava ser confrontada ou não ser apoiada.
Por último encontrava-se Selene. Sentada no banco em posição rígida e sentindo-se perturbada, batia continuamente o pé enquanto agarrava em ramos e os partia em mil pedaços. Apesar de pouco reflexiva, tinha tendência a defender fanaticamente a primeira opinião que expressasse. Fechada sobre si mesma, recusava-se a ver mais além, o que a tornava agressiva. Dominada pelo instinto, desejosa de controlar tudo, e aborrecida com a impossibilidade de o fazer, alternava continuamente o alvo do seu olhar, mas ainda assim qualquer alvo era incomodativo.
Após algum tempo de silenciamento externo, Selene não resistiu mais e com revolta começou a atacar os pombos que ali passeavam:
- Olhem que animais tão parvos… Não param de comer. Nem sequer guardam um pouco para se mais tarde precisarem!
Hélio manteve-se no seu reflexivo silêncio, enquanto Gaia concordou e ainda acrescentou:
- É verdade, parece que comem para passar o tempo.
Depois de ouvir isto Selene sentiu-se apoiada, e com mais confiança continuou num ataque repartido com Gaia:
- Para onde voa um vão todos atrás! Vão para onde está a comida e não fazem nenhum esforço para a conseguir...
- Pois é, e ainda roubam a comida uns aos outros!
- Como se isto não fosse suficiente, limitam-se a um campo reduzidíssimo, não vão além deste curto espaço onde se habituaram a viver...
- São comodistas! Preferem o que é garantido em vez do esforço de crescer e arriscar.
- No fundo eles nem escolhem o seu caminho individualmente…
- Mas depois acabam por ser ainda mais individualistas! Não achas Hélio?
Hélio concorda, e em tom brando e assertivo responde calmamente:
- Sim, isso é um facto. Funcionam cada um por si, guerreiam para chegar primeiro e o que se safa vai logo embora...
Então Selene e Gaia, entusiasmadas, intensificaram o ataque:
- Já viram que quando eles querem acasalar andam às voltas sobre si mesmos para impressionar?
- Sim é verdade… e ainda por cima estão constantemente a fugir, azulam até de quem lhes dá alimento. Vivem completamente amedrontados... Mais rápido se acobardam do que enfrentam o perigo!
- Então e já repararam que não aproveitam a sua leveza, e optam por caminhar de forma mais pesada, sobre as suas finas patas, esforçando-as excessivamente?
- Sem dúvida, movem-se muito mais lentamente do que aquilo que conseguem, e preferem estar aqui a andar enquanto podem voar livremente.
E é quando Selene e Gaia, em coro, rematam:
- Ainda por cima estão sempre a fazer porcaria.
Após este ataque, Selene silenciou a voz, enquanto, sentindo-se tão superior àqueles animais, pensava que nem deviam partilhar o mesmo espaço. Foi durante esta pausa que anunciava o fim do ataque, que Hélio quebrou o seu profundo silêncio.
- Estive a ouvir-vos atentamente, e reflectindo sobre as vossas palavras concordo com tudo o que disseram. Mas vocês já repararam que estavam a falar de nós? Tudo o que disseram encaixa perfeitamente no Homem...
Indignada, Selene responde:
- Achas mesmo? Os pombos nem merecem estar no mesmo espaço que nós. Eles são inúteis, além de não construirem nada que nos seja benéfico ainda conseguem destruir o que está à sua volta. Ainda por cima sujam tudo, não respeitam o espaço do Homem.
- Exacto, continuas a dar-me razão. Só quando deixarmos de ter essas características que lhes apontaram é que eles deixarão de nos incomodar. Indo um pouco mais longe, só aí é que nós deixaremos de os incomodar a eles. Só teremos paz quando passarmos a viver presentes na nossa vida. Se criticamos nos outros, é porque nos sentimos incomodados, e isso só acontece porque também temos essas mesmas características, eles apenas nos mostram o que somos.
Hélio entra novamente no seu característico silêncio meditativo durante cerca de sete segundos e retoma o seu raciocínio:
- Só aí chegaremos ao seu nível, ou seja, não teremos este fel. Lutando para vencer estes defeitos mais básicos fortalecemos a força de vontade. Aí acreditaremos nas nossas capacidades e voaremos sem limite, com a possibilidade de realizar todos os nossos sonhos, porque nós somos o que acreditamos. Nós somos o que alimentamos. Tornamo-nos naquilo em que nos focamos, os nutrientes aos quais abrimos as portas psíquicas passam a integrar o nosso organismo, transformando o que somos. Aí deixaremos de viver num grupo pré-programado e cada um voará livre no seu próprio caminho. A ignorância é mãe da incompreensão e avó da revolta, e desta última nasce a frustração. A ignorância é a única prisão. Da liberdade nasce a felicidade e a realização.
Nós temos os genes de Gaia, não lhe podemos ser indiferentes. Mas temos o livre arbítrio para optar por dar mais espaço aos conflitos mentais ou à compreensão do coração, à escuridão ou à luz. E o que alimentamos cresce. Mas temos de nos lembrar que podemos ver sempre mais fundo do que nos parece à primeira vista. Podemos sempre ver as coisas por nós próprios. Só precisamos de luz.

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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Prostituição mental

Antes do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa publicamos um artigo de opinião sobre a relação entre jornalistas, patronato e público.

Texto Elton Rodrigues Malta fotografia Dina Cristo


Desde há muito que a prostituição, escondida atrás da desculpa de ser um modo de sobrevivência, ganha a legitimidade de ser praticada sem ser punida. Talvez por ser uma troca de interesses entre chulo, prostituta e clientes. Ou talvez porque quem tem a função de regular esta situação, também se serve dela, não tendo portanto qualquer interesse na sua eliminação ou mudança. Agora pergunto: será que há ocupação mais antiga do que divulgar os segredos da vida dos outros? Será que há ocupação mais antiga do que espalhar boatos para denegrir a imagem?
No fundo talvez seja o jornalismo a profissão que é considerada a mais antiga do mundo. Quero com isto dizer que a grande maioria das pessoas pertencentes a este grupo profissional são prostitutas. Ora vejamos. Estas pessoas não só utilizam técnicas de sedução com o intuito de aumentar os seus lucros, como outro dos seus propósitos é dar prazer ao cliente, com a intenção de o agradar para que este volte. E uma das bases do exercício da sua profissão é supostamente a imparcialidade, sem que a emoção tome espaço. Além de tudo isto, é um facto inegável que passam vírus aos clientes.
Muitas vezes, estes só têm interesse por ser uma forma de contorno à marginalização e isolamento. À parte disso, é sabido que eles procuram algo fugaz, rápido e fácil, sem ser necessário um esforço para conquistar, então logicamente o contacto entre eles e elas nunca é feito com o intuito de gerar um fruto, apenas satisfazer um interesse. Esta profissão é exercida no sentido de saciar um capricho a curto prazo. É algo momentâneo e feito à pressa, sem tempo para uma entrega e dedicação. É algo que o mantém submisso através de promessas de mais prazer. Logicamente ele acaba por sentir uma instisfação constante, e se não lhe dá um prazer imeadiato então não vale a pena. Apenas lhe interessa receber passivamente, no fundo só quer que o sirvam. E verdade seja dita: é o cliente que escolhe como o trabalho vai ser feito.
Já os chulos, com os seus interesses económicos, são responsáveis por destruições de lares, uma vez que roubam os clientes do convívio familiar. As pessoas que trabalham para eles são pressionadas no sentido de um trabalho sujo, com duas caras, forçadas a agir sem escrúpulos apesar destas saberem as consequências dos seus actos. Na verdade elas vendem a sua dignidade a um patrão que as chula. Eles escolhem as que têm melhor aparência, tentanto acima de tudo mostrar o jovem e belo, independentemente do trabalho realizado. Pode ver-se então uma sobrevalorização da forma, enquanto o conteúdo é repetido. Os mesmos actos, as mesmas palavras, sem entusiasmo devido a fazer por obrigação. Eles estão também a investir cada vez mais na importação. Gradualmente estão a ser eliminadas as que trabalham na rua, e agora fazem um trabalho com base em boates, ou boatos, como preferirem.
Este é um meio de degredo, degenerado, onde cada um saca o que pode, serve-se do outro como um meio para alcançar os seus fins, não passando de um mero objecto. É um meio onde as doenças se propagam, onde a morte se alastra, onde a hipocrisia prolifera. Onde o natural é condicionado por regras, por obrigações e exigências. Onde um dos pilares da possibilidade de vida humana que é a informação, é violado, e é utilizado não para gerar vida ou crescimento, mas sim como meio de prender.
É um facto que não existe apenas este jornalismo. Mas é este jornalismo que “educa” as massas.

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quarta-feira, 20 de abril de 2011

Não Ser Humano


Publicamos hoje alguns versos sobre a irracionalidade generalizada.

Texto Elton Rodrigues Malta desenho* Dina Cristo


O camelo bebe até não conseguir beber mais nada
Só para que os camelos seguintes não tenham água
O burro só olha em frente apesar de não ter palas
É teimoso mesmo quando sabe que é errado o que fala
O porco sabe escolher o que come, mas é porcaria que escolhe comer
As serpentes cospem veneno só pelo prazer de ver sofrer
O papagaio só repete apesar de saber pensar
Os ursos caçam pelo prazer de matar, matam mas não comem.
Na verdade não há nenhum animal tão desumano, só o Homem
É por ter mente que se sente acima do resto dos animais
Mas é por causa dela que é o animal que desce mais baixo!
Na selva urbana impera a lei do mais fraco
É a única que é regida pela lei do mais cobarde:
Por quem não tem coragem de ser transparente nos seus actos
É o falso que domina os ignorantes fragilizados
Quem finge ter princípios para que o ingénuo acredite
Para atacar pelas costas sem qualquer risco
Quem rouba e diz ser seu, apesar de não ser, e saber
Independentemente de dar uso, apenas para ter...
O Homem é o mais camelo, o mais burro
O mais urso e o mais porco que a Natureza tem
É o único animal que vai contra a Natureza
É a única aberração que viola a própria mãe.
* Anos 80

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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Liberdade de imprensa?


Próximo do Dia Europeu dos Direitos dos Jornalistas, Sexta-Feira, enfrentamos a relação, longa e íntima, entre o bloqueio e o fluxo informativo, o como e o porquê da resistência geral à novidade.

Texto Elton Rodrigues Malta cartoon Zé Oliveira

A censura e a imprensa sempre estiveram ligadas, ainda que nuns momentos mais e noutros menos. Apesar de parecerem ser inseparáveis, dedicam-se à exterminação uma da outra.
É inegável que o controlo e repressão da literatura ao longo dos tempos contribuiu para o atrofio e atraso do jornalismo português relativamente ao estrangeiro. Tal como este, há muitos outros aspectos negativos, nomeadamente os massacres e até mortes. A censura também vem colocar a população num estado de ignorância perante o qual não consegue agir.
Mas num primeiro passo há questões sobre as quais devemos reflectir:
Até que ponto é que sabemos dar uso à liberdade que temos? Seremos suficientemente respeitadores para sabermos viver sem censura, sem um controlo e sem leis? Será que sabemos usar essa liberdade sem a tornar num poder com o qual combatemos a liberdade e espaço do outro?
Tal como o dia e a noite, sendo a liberdade e a censura opostos, são inseparáveis. Como afirma Platão “os opostos são dois corpos unidos por uma só cabeça”. Desta forma, pode haver muitas mudanças nas leis mas, sempre que houver uma tendência em excesso para um dos extremos, tem de haver uma regulação externa que equilibre e faça pender, com igual força, para o outro extremo de forma a encontrar o centro.
O ser humano naturalmente resiste à mudança, devido ao forte comodismo que o caracteriza, portanto é compreensível que desde sempre tenha havido censura às ideias que vinham abalar a estagnação das sociedades. A própria população se sente atacada quando surgem novas correntes ideológicas. É recíproca a influência que imprensa e sociedade exercem. Desta forma, e tendo em conta a pouca vontade de mudança, a censura passa a ser necessária. Não que seja o caminho do progresso. Mas é o caminho que a maioria, através dos seus comportamentos, decide seguir.
Hoje em dia a censura, entre outras, é conseguida através do agendamento, não havendo liberdade para o jornalista escolher temas nem para o público escolher o que consome. Numa sociedade dita democrática (num extremo, em que se reivindica direitos e menospreza os deveres, obediência e ordem), não será também uma das formas de censura mais evoluídas e bem sucedidas?
Falta referir ainda o outro método: a sobre-informação. Com ela não só se distrai as pessoas que não sabem o que querem saber como se despista quem sabe o que quer, mas que se perde no meio de tanto lixo.
Um terceiro processo é a auto-censura, dirigida ao pensamento próprio. Esta, no nosso meio, é promovida pela exclusão social. Censuramos a censura, contudo censuramo-nos a nós próprios. Já não precisamos que ninguém nos proíba, nós tratamos disso.
Até o jornalista está impedido de ser livre devido à sua intenção de ascensão social. Não podia deixar de lembrar do caso de Mário Crespo e Manuela Moura Guedes. Não se pode censurar temas de interesse do público, mas temas importantes que não dêem lucro e temas de interesse público sim. Mas felizmente vivemos numa democracia na qual há liberdade de pensamento e expressão. Só é pena sufocá-la com a distração.

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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Vida minúscula


Uma vida heterónoma e existência controlada - errónea, diria Wayne Dyer - são alguns efeitos da necessidade de ser aceite e motivo para reflexão antes do Dia Mundial da Saúde Mental, este Domingo.

Texto Elton Rodrigues Malta desenho* Dina Cristo

Não sei se já reparaste, mas as tuas acções e movimentos estão muito limitados. Às vezes até podes pensar que os fios não existem devido a não os veres, mas na verdade eles estão lá e bem firmes. Se estiveres atento vês que os fios são a opinião dos outros. Não te queria dizer que és uma marioneta, mas repara bem nos teus comportamentos, escolhas e pensamentos, ou melhor, na falta deles. Devido à tua ânsia de seres aceite, numa situação ou noutra, há sempre alguém que controla a tua vida. Agora foquemo-nos nesse domínio e vejamos se não és uma marioneta: se esse alguém te puxa para cima tu olhas para o céu, já te sentes num nível superior aos teus semelhantes. Se o teu dono brinca contigo, danças e dás pulos, alegre pelo destaque, e enérgico enquanto tens os teus momentos de protagonismo. Contudo, se o patrão te larga a mão bates em quem tens mais perto, ou não é verdade? Se cais, ficas à espera que te levantem e se não te conduzem ficas estático sem qualquer tipo de iniciativa.
Tu não te vestes, simplesmente vestem-te, eles determinam o teu estilo, e este depende do papel que querem que representes. Já reparaste que não tens voz? Mas eles podem emprestar-te… se estiveres disposto a propagandear as suas ideias. Tu estás dependente dum superior que te controla, superior esse que se encontra escondido, ninguém o vê. Não queria ser mau, mas no fundo vives uma vida em miniatura. Talvez seja por isso que tudo o que fazes na vida tem o objectivo de te tornar grande e vistoso.
Não é obrigatório que sejas uma marioneta. Também podes ser um fantoche. Reflecte no facto de bastar não seres novidade para já não servires. Se vêem que tens defeito, já cais na inutilidade, já não vais servir para ser o principal. Mas o problema é que te fizeram para o seres. Fazes a tua vida para um público, a tua vida é um teatro, é só representação e show off, no fundo vives para o espectáculo. Tu até sabes que o cenário é só aparente mas continuas a viver para ele. Inúmeros fantoches já representaram esse papel, mas tu repetes, pois os donos são os mesmos e os seus objectivos também… É por isso que tu ages tal e qual como querem, não passas de um boneco nas suas mãos, tratado como objecto, descartável. Acabas por ser um fantoche, vazio, que dá permissão que invadam o teu interior.
Será que tens vida própria? Achas que tens uma vontade e que conduzes a tua vida? Ou és apenas um boneco subjugado? A diferença entre ti e as marionetas e fantoches é que eles não escolhem ser manipulados.
* Anos 70

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quarta-feira, 22 de julho de 2009

Pódio do domínio


A dias de completarmos dois anos de publicação regular, reflectimos sobre a importância da transição da comunicação (social) instintiva, baseada na competição, para um novo padrão de comunicação e informação intuitiva, orientado para a cooperação.

Texto Elton Rodrigues Malta desenho* Dina Cristo


A competição é o grande motor da nossa sociedade. Ela é um dos instintos mais básicos do Homem. É o despique que surge quando o seu orgulho é ameaçado. Esta realidade retrata o comportamento animal que está em nós. Agimos tal e qual os cães quando são postos em confronto nas lutas clandestinas: picam-nos e viramo-nos contra os nossos semelhantes. Somos autênticos animais a viver na lei da sobrevivência, em que quem não come é comido. A disputa dá-se no sentido de cada um salvar-se. A TV serve-se disso e dirige-se à parte instintiva, alimentando-a, por ser a única em que este domínio fácil é possível. Ela manipula através da exploração do instinto.
É um dia de Primavera, apelativo à expansão. O Sol brilhante contagia com vida todos os seres e entre fauna e flora uma criança brinca alegremente, feliz pela liberdade de poder explorar e preenchida pelas novas aprendizagens. Eleva-se na generosidade tornando-se continuamente mais humana. Ela salta, ri e aprende. Canta, dança e celebra. Impulsionada pela luz, ela move-se no caminho da mudança, da realização e satisfação pessoal. Mas entretanto as nuvens começam a tapar o Sol à medida que ela questiona. Os pais prendem-na em casa, apenas podendo espreitar pela primeira janela que encarcerou o ser humano. Através desta janela consegue ver os seus pais. Imita-os por depositar inteira confiança neles, segue-lhes os exemplos sem hesitação. Tendo eles a noção de serem seguidos por alguém desamparado e desprotegido, têm a responsabilidade de educar, mas negligenciam-na. São eles os pais que dão à luz as trevas. Por quererem a criança obediente prendem-na na ignorância tirando as suas dúvidas com respostas como “Porque eu digo”. Dão-lhe uma aparente comodidade que lhe limita os horizontes. Ela perde a vontade própria e o desejo de questionar o mundo. Na idade dos porquês já ela diz “porque sim”. A vida tornou-se cinzenta, cada vez mais morta, e já só o desinteresse respira. O único estímulo capaz de mover a criança é a necessidade de mostrar não ser inferior.
Absorvida pela ruidosa e assustadora programação, foi-lhe sugada a autonomia. A violência da competição, oferecida de forma repetitiva, e criando um sentimento de culpa, condu-la ao escuro da prisão. Já não quer explorar, quer a garantia que tudo é estático e conhecido, recusando o mistério, optando pela frustração do “conforto” conformado. Como não sente satisfação pessoal entra na competição social devido à necessidade de aprovação que é inerente a qualquer ser desamparado. O sufoco mais intenso é sentido com o medo mais primitivo, o de ficar sozinho, e perante a ameaça constante - “assim o pai não gosta de ti” - a criança passa a ser como os pais querem que seja. Ser bom não chega, tem de ser melhor, porque os pais dizem que “a nota não está má mas a do filho do vizinho é melhor” e também dizem que “a prima é mais magra”. Criados os padrões de bom comportamento, só lhe resta segui-los e competir para se destacar. Rebaixa-se na competição tornando-se continuamente mais instintiva. Começa a nível pessoal e expande-se ao social. A criança é a massa e os pais são os meios de comunicação. Como são meios sem princípios só eles sabem quais os seus fins.
A disputa é uma forma de manipulação. Quem compete quer-se superiorizar para poder manipular o outro. No entanto quem tenta manipular está a ser manipulado por um conflito, está a reagir consoante o que o adversário faça deixando o seu centro de decisão para partir para o suposto que lhe é dito pelo exterior. Basicamente a pessoa sai de si, abandona-se para ser melhor que alguém. O que é estranho é que compete através da imitação e pouco a pouco a autenticidade e a diferença desaparecem, “aproximam os seus comportamentos aos dos outros” como diz Ana Flores. É sabido que quando adversários se confrontam durante muito tempo tornam-se cada vez mais iguais por se focarem demasiado no outro. Mas é ridículo tentar-se provar que se é melhor quando no fundo se imita. É contraditório. Mas a televisão promove o ataque a quem foge à regra, a quem não se mantém na linha da imitação.
A competição está enraizada de tal forma que por vezes nem é perceptível. Ela começa logo numa educação competitiva. Ensinam a criança, de forma subtil, que a forma de superar o desamparo é através da luta com os outros, ou seja, da busca da aprovação (oscilar consoante as opiniões) em vez da protecção das suas emoções, e “quem não segue o rebanho é banido” diz Ana Filipa Flores. O manipulador só se deixa dominar se vir que daí pode vir a exercer domínio. Como não sente que tem valor suficiente, precisa de algo que lhe diga que o tem. Esta disputa tem de ser alimentada porque se deixar de haver necessidade de competir, isto traduz-se numa estabilidade e resulta numa incapacidade de dominar.
Alimentar a cadeia A prisão da insegurança tem uma aparente saída que é a competição. Na verdade é uma extensão (infinita) dessa mesma prisão. Os media não são criadores desta concorrência, são um produto dela, contudo têm nas suas mãos a capacidade de a enfraquecer em vez de a cultivar. Quando criam padrões em que os pares são aprovados por certos comportamentos estão a incentivar a insegurança. Quando os jornalistas entram no conflito da venda, promovem a agitação e pressa e consequentemente as notícias saem copiadas impedindo a inovação. A competição é constante. Como ela só existe na necessidade de aprovação e esta só é possível na insegurança devido a cada pessoa não se conhecer a si própria, a TV impulsiona a ignorância. “A televisão é um meio de moldar mentes” diz Luís Mouzinho. O que quer que ela faça mexe com o auto-conceito das pessoas para que elas entrem novamente no despique. Alimenta este conflito ainda que de forma subtil.
A rivalidade na TV é perceptível tanto ao nível do conteúdo, nos programas escolhidos, como ao nível da forma, na linguagem usada. Ao nível do conteúdo ela existe no Top 10, mostrando que ser bom músico não chega, e vai influenciar o ouvinte a escolher as mais ouvidas para pertencer à maioria. Está presente em programas como “Quem quer ser milionário” tanto na competição pelo dinheiro como pelo saber. Ela é evidente aquando da publicação de escândalos de famosos de modo a diminuir o complexo de inferioridade das pessoas comuns perante essa figura pública. A publicidade faz apelo constante ao consumo daquele produto para que pareça o melhor, já que é o que mais se ouve falar.
Ao nível da forma basta ver a linguagem bélica presente no futebol quando os media se dirigem a este: “A selecção humilhou no jogo contra a Suíça”, “O Benfica está na luta pelo título”, “Ronaldo fuzilou o guarda-redes”. Há mais interesse na derrota do adversário do que na própria vitória. Sentir que deu o seu melhor não é suficiente, é necessário sentir que alguém é inferiorizado, porque o superior consegue manipular. Mas afinal quais destes desportos prendem os telespectadores? Não há uma cultura de contemplação e fusão. Há antes uma de distracção e alienação. “Temos uma televisão que atrofia a reflexão e a parte humana mais elevada”, segundo Luís Mouzinho.
O apelo constante à competição alimenta a agressão e o instinto. Leva a uma sociedade bruta, animal. O instinto é-nos inerente mas temos a liberdade de o alimentar ou não. Podemo-nos prender no instinto ou libertar na introspecção. Temos uma tendência, mas os media podem ser uma preciosa ajuda no combate a esse hábito.
Da pertença à partilha Baseado na divisão feita por Osho, filósofo indiano, acima do nível instintivo considerarei dois níveis: o racional e o introspectivo. No nível racional há uma reflexão que vai diferenciar as reacções das pessoas devido a terem diferentes conhecimentos e interpretações. No entanto o racional ainda compete, ainda que seja com saberes. Onde há competição há sede de poder. Esse poder implica domínio. O domínio mata a liberdade.
No nível intuitivo ou introspectivo, devido a conhecer-se a si mesmo, o sujeito conhece também a realidade e a natureza das coisas, vendo-a com nitidez. Não se deixa cegar pela areia mandada para os olhos através dos media. É livre. E quem é livre não pode ser dominado ou forçado a fazer algo, logo não compete, age por si. E mesmo que seja preso fisicamente continua a ser mais livre do que a nossa sociedade dita democrática, porque continua a ter vontade e pensamento próprios.
A libertação não reside em conhecimentos teóricos e exteriores, consiste em aplicar conhecimentos internamente, como se fosse uma semente que dará frutos para o mundo. Para isso é necessário serem transmitidos conhecimentos aplicáveis em cada pessoa. E a televisão como exemplo que é, deve transmitir histórias com sábios ensinamentos e com ânimo, que dêem força e promovam a diferença e autenticidade, que sejam uma ajuda a lidar com a vida e que ensinem as regras do jogo que ela é, em vez de ajudarem a abandonar o jogo pela incapacidade nascida da ignorância. Deve explicar leis universais, tais como a lei de causa-efeito, lei da atracção, ou até como usar o pensamento de forma a conduzir correctamente a vida. Pode também facultar técnicas de meditação e ir dando esse exemplo, estimulando a sua prática. Incentivar à expressão de cada pessoa através das várias formas de arte, pois estas ajudam a conhecermo-nos a nós próprios. Como diz Samael Aun Weor “Quando não há um auto-conhecimento, a auto-expressão dá-se pela auto-afirmação”. A difusão de conhecimentos da psicologia filosófica é essencial para que haja um conhecimento de si próprio, e posteriormente possa actuar cada um em si mesmo. Cultivar a capacidade de reflexão e a interpretação dos acontecimentos da vida são componentes da filosofia, que também deve ter o seu espaço. O desporto deve continuar sempre presente, mas o desporto de entrega e não o desporto de competição.
Devem ser divulgados os avanços científicos e tecnológicos de modo a impulsionar a sua contínua evolução, estabelecendo a ligação entre os interessados e estudiosos do assunto. A crise ecológica deve ser abordada através de medidas de preservação e recuperação do património, havendo um aprofundamento das perspectivas de ver a questão. Deve haver novos valores-notícia para a escolha e modo de abordagem dos acontecimentos, ajudando a elevar a frequência a que vibra o pensamento das massas. Dar na televisão o exemplo da leitura, contagiando. Todos os temas e problemas sociais devem ter espaço para debates, mas debates que têm como fim a verdade e não a razão. Esclarecer a sexualidade e educar as pessoas neste campo para que este tema não seja um tabu para fazer dinheiro. Em vez de estimular o atrito entre governantes e governados (por todos quererem o poder), incentivar a que cada um dê o seu melhor no seu lugar. Todos participarem na democracia, executando o seu trabalho com ética. Aqui está a verdadeira generosidade, partilha e solidariedade: dar a liberdade ao outro com todo o respeito.
A distracção deixa de ser necessária, simplesmente desliga-se a televisão e vai-se viver a vida fora da prisão das quatro paredes, já que as paredes da repressão já estão quebradas. O auto-conhecimento é fundamental, porque nenhuma revolução verdadeira ocorre do exterior. Para haver mudança é necessário operar no interior. Comunicar é descobrir e unir o que há de comum, e o comum a todos os seres humanos é o que têm de mais profundo. Assim se estimula a confiança e consequentemente surge a autonomia, estando de volta a vontade de explorar e aprender, de transformar e crescer. Tem-se de volta a vontade própria. Os media sozinhos não conseguem fazer toda esta mudança, mas conseguem influenciar na mudança do sentido para onde a nossa sociedade se dirige.
A partilha deve ser de todas as informações havendo livre acesso, e não uma selecção que permita manter o domínio. Partilhar é destituir poder. Partilhar postos, sem uma hierarquia fixa em que é preciso conflito para a mudar. Não criar posição dominante nem de dependência. Dar e receber. Libertar.

* Anos 70

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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Qual é o veículo mais cobiçado?


Texto Elton Rodrigues Malta fotografia Ana Filipa Flores

Existe um veículo que permite aceder facilmente a muitos fins, porém há outros aos quais não consegue chegar. Este traz vantagens, tal como facilitar transferências de mercadorias ou até mesmo levar pessoas aos seus destinos, mas se há algo que não consegue é mudar o interior de quem o conduz. Pode levar o condutor a outro lugar mas ainda assim o condutor será o mesmo. Tanto pode ser conduzido por caminhos agradáveis, tranquilos e seguros, como por caminhos obscuros, turbulentos e perigosos, dependendo tanto da intenção com que é usado como da forma como se conduz. Seja como for, como veículo que é, não tem qualquer utilidade estacionado nem se conduz sozinho, é sempre necessário uma pessoa que o guie, e por isso mesmo ele não é positivo nem negativo, mas sim depende do uso que lhe é dado.
Há muitos condutores que nunca foram peões, pois quando não conduziam eram penduras e devido a essa falta de experiência nem sequer respeitam os peões que circulam na passadeira. A muitos destes a carta foi oferecida e consequentemente não sabem o código da estrada, não respeitando nada nem ninguém. Como não houve esforço nem aprendizagem não controlam o veículo, antes são controlados por ele. Não só não o conseguem conduzir em condições como nem sequer sabem coisas básicas, tais como ligar as luzes, acabando por se mover sempre no escuro. Também não sabem ligar os limpa-pára-brisas e, por isso, em condições adversas, perdem a nitidez e vêem tudo desfocado e sujo, esperando o perigo em alerta constante com medo que lhes estraguem o seu veículo.
Há outros tantos que se habituam a ele de tal forma que dormem lá dentro recusando-se a sair! Passam a fazer a sua vida fechados sobre si mesmos, isolados de todo o mundo pelas fronteiras deste meio, trancados lá dentro com medo de assaltos. Nem reparam que abdicam da sua liberdade. Identificam-se a tal ponto que condutor e veículo já são um só, o indivíduo sozinho já não é nada. Então, para não se deparar com tal facto, começa a tentar ser o melhor e para isso investe cada vez mais num que ande muito, de maior valor, mais sofisticado, na ilusão de estas características lhe permitirem chegar onde os outros não permitiam. Também começa a acumular cada vez mais mas, na verdade, de que servem eles parados? Desta luta por ser o melhor surge um despique com outros que também o querem ser, atropelando milhares de peões nestas corridas clandestinas. Começam na auto-estrada da ambição e terminam nas pistas da ganância já em competições oficiais: o respeito do karting, o prestígio da fórmula 1 e o poder do rali. O perigo nasce quando ele é dado a quem não o sabe usar e ainda por cima sem lhe ensinar como isso se faz. Torna-se uma arma nas mãos duma criança.

Velocidade atropela reflex(ã)o

É um facto que grande parte dos condutores guia sob o efeito duma droga chamada inconsciência, encontrando-se num estado dormente, o que lhes reduz os reflexos em situações inesperadas e nunca antes vividas. Tais acções cometidas levam muitas vezes à morte da liberdade, uma vez que a liberdade não consiste em conduzir por onde apetece mas sim em conduzir por caminhos que desemboquem em mais estradas em condições propícias para serem percorridas. Muitas vezes é sem má intenção mas, após um atropelamento acidental, só se pensa em fugir sem saber sequer para onde, apenas ambicionando um sítio calmo e sossegado.
Tentam-se todos os caminhos possíveis para chegar à Paz, o lugar mais desejado, mas o que as pessoas não sabem é que este veículo não consegue transportar ninguém ate lá, já que não se conduz até à Paz, conduz-se em Paz. Mas toda aquela velocidade e agitação acabam por ser impedimento à percepção do verdadeiro caminho estando neste caso os peões em vantagem para o encontrar, pois procuram-no com os pés assentes na terra. Estes peões também têm a vantagem de valorizar a sua posição e deste modo cresce dentro de si o respeito que aplicarão quando alcançarem o seu veículo. Não é a única vantagem, pois também têm a oportunidade de confiar plenamente nas suas capacidades e contar apenas consigo para percorrer o seu caminho, vivendo livres de quaisquer apegos e tranquilos pela ausência da possibilidade de perda.
Contudo, há peões que mal têm um veículo conduzem-no com tão pouco cuidado que o estragam logo e há condutores experientes que conduzem sempre com o maior respeito pelo código da estrada e a segurança humana. Seja como for, tal como em todas as leis, não é por não se saber o código da estrada que se deixa de pagar multas.
Naturalmente, o veículo é o dinheiro.

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