quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Ter razão?


Figuras humanas

Ao aproximar-se o Dia Internacional para a Tolerância, “eis” quem tem “A razão” - um poema de Carlos Paião, editado em 1984.

Pintura Alexa

«Algures na tarde
Há um fumo que arde
No sangue de dois faladores.
Discutem, agitam,
E, com o que gritam,
Atraem mais espectadores.
Têm a raiva nos dentes
E fogo no olhar,
Atiram serpentes
De fúria, ao falar!
Perguntam à toa,
Respondem que não
E, mesmo que doa,
Hão-de ter
A Razão, a Razão!
Com frases alheias
Defendem ideias
Que ouviram alguém defender.
Arriscam a fé
E enganam até,
Se sentirem que podem vencer.
E não buscam Verdade,
Que é isso, afinal?
Viva a tempestade,
Mentir não faz mal!
Avançam nos gritos
(Talvez frustração)
E por ditos não ditos
Lá têm
Razão, a Razão, a Razão!
E uma criança sem tempo
Aproximou-se, atrevida...
E tem na frente o exemplo
Do que é ser gente crescida!
Afasta-te já,
Não demores por cá,
Tu não ouves, não olhas, não vês!
Tu és simples e justa
Ai eu sei quanto custa
Tentar aprender os porquês...
Tu és vida e bonança
Depois do furor,
És sol de esperança
Dalgum sonhador.
Sorris na beleza
Da tua ilusão,
Tu tens a pureza
De não
Ter Razão, ter Razão...
Eu invejo o sorriso
Que agora te vi,
Criança, eu preciso
Lembrar-me de ti!
Na vida tão escura
Tens luzes na mão:
O sonho, a Ternura,
O Amor,
A Razão, a Razão,
A Razão! ...»

Etiquetas: , ,

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Moralidade



Antes da Páscoa, em tempo de morte e renascimento, falamos da proposta de Immanuel Kant: a renúncia às inclinações e disposições sensíveis a favor de algo mais elevado e fonte de vero auto-contentamento.

Texto Dina Cristo

O tratado de Immanuel Kant, “Crítica da Razão Prática”*, foi publicado pela primeira vez em 1788. Não tem uma única referência bibliográfica mas é até hoje uma obra fundamental do pensamento humano. Nela o autor explica, por exemplo, a relação fundamental entre a lei (moral) e a liberdade.

A primeira parte, que ocupa 167 das 195 páginas da investigação densa e rigorosa, embora traduzida em palavras simples1, contém a Doutrina Elementar da Razão Pura Prática; divide-se entre um primeiro livro sobre a analítica, crítica, e um segundo sobre a dialéctica, argumentativa.

Com o objectivo de um dia se chegar a discernir a unidade de todo o poder da Razão Pura, por um lado, e de evitar a ilusão de tomar o condicionado pelo incondicionado, por outro, Kant incide, antes de mais, na lógica analítica dos princípios “a priori” e dos conceitos dos objectos. Apesar de todo o seu trabalho2, termina-o da forma mais modesta possível3.

Kant pretende ao longo do tratado comprovar não só como há uma razão pura prática, como só ela o pode ser e é – incondicionalmente – prática. No capítulo III da Dialéctica, Kant explica como na ligação da razão pura especulativa com a razão pura prática, uma união necessária fundada “a priori” na própria razão e que permite às Ideias realizarem-se objectivamente, o interesse da razão pura prática, que é a determinação da vontade, o uso prático, é superior ao interesse da razão pura especulativa, que é o conceito do objecto “a priori”.

É fundamental no seu estudo a distinção entre o racionalismo, fundado numa necessidade discernida, do empirismo, pobre e superficial, que toma os objectos da experiência por coisas em si, e que trouxe rigidez e cepticismo. Uma separação, exortada no final, quando quase em tom poético o filósofo escreve: «Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e com maior assiduidade delas se ocupa a reflexão: O céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim»4.

A primeira refere-se ao lugar ocupado no mundo exterior dos sentidos, uma conexão contingente (até ao imensamente grande em tempos ilimitados) que aniquila a importância de um ser humano a um simples ponto no universo. A segunda começa na personalidade, o eu invisível independente de todo o mundo sensível, que o expõe a um mundo, só revelado ao entendimento, numa conexão universal e necessária e que o eleva como inteligência. Dois mundos, o sensível e supra-sensível, a que se ocupa sobretudo aquando da dedução dos princípios da razão pura prática.

Estes são proposições que contêm uma vontade que inclui regras práticas. Podem ser princípios subjectivos, máximas válidas apenas para a vontade do sujeito, numa “legislação” interior, ou leis objectivas, válidas para todo o ser racional, independentemente das suas inclinações, que fazem das acções práticas um dever, um imperativo categórico e necessário, numa legislação exterior e universal; exprime uma obrigação para quem a razão não é o único princípio determinante da vontade.

Assim, temos uma vontade livre, independente do mundo sensível, quando a máxima serve de lei, e outra afectada, em que existe um antagonismo entre a máxima e a lei, ou patológica, quando a submissão à lei implica desprazer para o indivíduo. As representações ligadas ao prazer podem ter origem nos sentidos, sentimentos ou inclinações e ser mais grosseiras e embrutecida, como o deleite na acumulação de dinheiro, na sensibilidade brutal ou no uso da força, ou pode ter origem no entendimento e serem mais delicadas e refinadas, como o agrado em se cultivar, ampliar os conhecimentos ou na beneficiência aos mais pobres. Embora sejam manifestações da mesma energia vital, uma representa uma faculdade de desejar anímica inferior, outra superior, em que a vontade é determinada pela razão. Ao contrário da sensibilidade, que exprime uma relação da representação segundo os sentidos a um sujeito, o entendimento exprime uma relação da representação segundo conceitos a um objecto.

A vontade, que causa (des)prazer é, pois, a capacidade de agir segundo princípios, ou seja, a faculdade de determinar a sua causalidade pela representação de regras. Estas podem ser gerais, quando em média são correctas a maior parte das vezes, ou universais, quando são sempre válidas. Uma das regras para julgar as acções é a seguinte: «Interroga-te a ti mesmo se a acção que projectas, no caso de ela ter de acontecer segundo uma lei da natureza de que tu próprio farias parte, a poderias ainda considerar como possível mediante a tua vontade»5. Uma regra pretende evitar misticismos, imaginações ou empirismos, princípio prático que pressupõe um objecto.

A razão pura, que tem o poder de determinar a vontade, pode julgar pois não tem qualquer interesse sensível, e julga segundo princípios “a piori”, racionais, incondicionados, o que lhe dá a faculdade de conhecimento e de determinação de máximas da vontade livre através destas intuições que conhecem sinteticamente. A razão, ao discernir a relação entre os meios e fins desejados e reflectir sobre o que é, em si, bom ou mau, tem o poder de mover uma acção. É a voz celeste, que ajuíza de forma livre e independentemente das condições sensíveis.

A razão representa, assim, a lei moral, lei fundamental de uma natureza supra-sensível, de um mundo puro inteligível, de natureza arquetípica, cujo equivalente deve existir no mundo sensível, em reprodução. Uma vontade santa é incapaz de máximas opostas à lei moral. Porém, numa vontade humana, com uma natureza sensível, a lei é um imperativo, ordena a acção devida, que é precisa ser feita, ou seja, manda cumprir os deveres humanos, com autoridade, dada pela sua autonomia e liberdade, não apenas em sentido negativo, a independência, mas também em sentido positivo, a legislação. A lei fundamental da razão pura prática é: «Age de tal modo que a máxima da tua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal»6.

Esta lei moral que determina não só a acção, como o seu móbil e objectos, não apenas danifica a benevolência, o amor próprio natural, como aniquila a complacência, a condescendência de si próprio, enfraquecendo a arrogância e a presunção. Contudo, esta humilhação das suas tendências e disposições sensíveis em detrimento de um objecto de maior respeito, significa uma elevação, um domínio das inclinações, assim restritas, que acaba por conduzir, apesar do sofrimento inicial, pela resistência e conflito, a um sentimento posterior de auto-aprovação, ordenado pela razão. Um exemplo de constrangimento, que enfraquece as necessidades sensíveis é a obrigação de estender a máxima do amor de si, que aconselha prudência, à felicidade dos outros.

A lei moral determina não só o conceito de bem (a acção conforme à lei é boa em si mesma; uma vontade sempre conforme à lei é absolutamente boa) como as suas quatro categorias: Da quantidade (máximas, princípios e leis), da qualidade (regras práticas da acção, omissão ou excepção), da relação (personalidade, estado e reciprocidade) e da modalidade ([i]lícito, [contrário ao] dever e dever [im]perfeito). A perfeição pode ser integral (transcendental), geral (metafísica), suprema (externa) ou humana (interna – no talento e habilidade).

O valor moral das acções reside sobretudo na sua intenção. A legalidade é a consciência de ter agido em conformidade com o dever, em que o que é relevante são as acções de acordo com a letra da lei, movidas pelos fins que podem produzir, como sentimentos agradáveis, ou pelo mérito. Já a moralidade é a consciência de ter agido por dever, por mor da lei, em que o importante são os princípios, as intenções, as (pre)disposições anímicas em virtude do espírito da lei. É este o alto valor que a humanidade pode adquirir através deste princípio de causalidade, desde há muito, na razão de todos os homens.

«Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo» é a lei das leis. Um arquétipo ao qual o ser humano se deve esforçar por aproximar e assemelhar progressivamente. Embora cada acção esteja submetida às condições do tempo passado, têm havido acções nobres e sublimes, que tiveram lugar, não sem sacrifício, só por causa do dever. Seres que merecem respeito, pois o espírito se inclina perante a rectidão do seu carácter, pela lei que encarnam, pela sua maneira de pensar prática consequente, pela estima pela lei, destituída de toda a vantagem ou interesse que não seja o da observância da própria lei ou respeito, o que se traduz pelo sentimento moral. O dever, que dá a ordem e põe ordem, fortalece a alma e eleva o homem acima de si mesmo, submetendo o mundo sensível.

Por dedução dos princípios da razão pura prática, as leis que regem a natureza humana são as de dois mundos, aos quais o ser racional pertence, pela personalidade. O mundo inteligível, da razão pura, entendimento e vontade, a natureza das causas, Ideias e arquétipos; o reino da liberdade, do incondicionado, da autonomia; das leis e princípios, das coisas em si mesmas; do númeno, inteligência pura, não determinável segundo o tempo, o mundo da existência segundo leis independentes de todas as condições empíricas. Por seu lado, o mundo sensível, dos fenómenos, acções, experiências, objectos (que determinam a vontade) e da diversidade (de sensações, sentidos, sensibilidades e necessidades); o mundo dos efeitos, consequências, do condicionado e da reprodução; da experiência espaço-temporal em que a vontade está submetida às leis, condicionadas empiricamente, logo segundo uma heteronomia para a razão.

A lei moral, que implica auto-coerção, dos desejos, necessidades e egoísmo, permite reconhecer a infâmia da mentira e o respeito em relação à verdade, a pacificação interior, não recear o auto-exame, não se auto-censurar ou arrepender, não se envergonhar de si mesmo e ser aos seus olhos digno de viver, o que não se coaduna com a satisfação de viver. Quando se fala de dever, a razão pura prática não quer que se tome em consideração a felicidade, embora tal não implique a sua renúncia, já que contém meios para o cumprimento do dever, como a habilidade, saúde ou riqueza, e a sua carência a tentação de violar o cumprimento dos mandamentos.

A moralidade é condição racional (conditio sine qua non) indispensável para atingir a felicidade mas não um meio de a adquirir, pois não a garante. É expectável que decorra da predisposição moral, o respeito desinteressado pela lei, e não da legalidade, a acção interessada. A moralidade é a doutrina de como nos devemos tornar dignos da felicidade. Moralidade e felicidade são, respectivamente, o primeiro e segundo elementos do soberano bem, a virtude. Embora sendo totalmente heterogéneos, factor não reconhecido pelos estóicos e sobretudo pelos epicuristas, os dois elementos estão conectados através de uma unidade sintética, isto é, em que a ligação é real segundo a lei da causalidade que produz um efeito.

Felicidade é a consciência do agrado da vida ao longo de toda a existência humana, quando a sua natureza está em harmonia com os costumes e a sua vontade. Quando a conformidade da vontade à lei moral é plena atinge-se a perfeição. A felicidade da santidade, a beatitude, apenas é atingível numa eternidade ou existência “mesmo para lá desta vida”7, num esforço progressivo, perseverante e persistente, o que só é possível sob o pressuposto da imortalidade da alma, um dos principais postulados8 da razão pura prática. Se a extensão temporal dá esperança de atingir a perfeição moral, que “não pode ser alcançada neste mundo”9 também aumenta os deveres.

Da lei moral decorre outro dos pressupostos que dão às Ideias da razão especulativa realidade objectiva, dada a sua relação ao prático: a existência de Deus, o princípio primordial e infinito, e autor do mundo de suprema perfeição, causa da ordem e finalidade da natureza, Ser supremo, auto-suficiente e bem incondicionado e total.

Por outro lado, se a lei moral é a condição sob a qual um ser racional se pode primeiramente tornar consciente da “ratio cognoscendi” da liberdade, o terceiro princípio deduzido da razão pura prática, esta também é a condição, a “ratio essendi”, da lei moral já que se não houvesse nenhuma liberdade de modo algum se encontraria em nós a lei moral. A liberdade é a faculdade de determinar a vontade segundo a lei do mundo inteligível e a independência em relação ao mundo sensível e às suas inclinações (mesmo a compaixão ou simpatia), onerosas para um ser racional. O sujeito da lei moral é o homem, um ser sagrado, que também pertence, como vimos, ao mundo inteligível e ao qual se deve respeito «Em toda a criação, tudo o que se quiser e sobre que se tem algum poder pode também utilizar-se simplesmente como meio; unicamente o homem e, com ele, toda a criatura racional é fim em si mesmo»10.

Em suma, é a lei moral que determina a vontade de acção do soberano bem, a virtude, sob os pressupostos da imortalidade da alma, da existência de Deus e da liberdade. É direito e dever de todo o ser racional fomentar o soberano bem, a acção virtuosa e moral desinteressada (sem temor ou esperança), o respeito à lei por mor dela, reveladora do carácter e sabedoria que permite vislumbres do reino supra-sensível e proporciona auto-contentamento.

A razão prática, que existe “a priori", submete a diversidade dos desejos à unidade da consciência, procurando conhecimentos supra-sensíveis até onde são necessários ao fim prático. Para tal temos não só as regras imperativas como as Ideias categóricas, usadas para prevenir o antropomorfismo e o fanatismo, princípios transcendentes tornados imanentes para realização do soberano bem, fim último da razão pura prática e doutrina filosófica por excelência. As predisposições morais da natureza humana devem ser buscadas criticamente e introduzidas metodicamente ao nível da ciência tendo a filosofia como fiel depositária.

Ao nível pedagógico, Immanuel Kant sugere o uso de biografias para estimular os princípios, a pureza, o desinteresse, a honra e a auto-confiança. Algo que distinga os direitos humanos, que regulam os deveres, das necessidades humanas, não essenciais e que só provocam descontentamento. Que entre os estudantes seja louvado o valor do dever e da virtude. «Dever! Nome grande e sublime, que nada em ti incluis de deleitável, trazendo em si a adulação, mas exiges a submissão; no entanto, nada ameaças que excite no ânimo uma aversão natural e cause temor, mas, para mover a vontade, propões simplesmente uma lei que por si mesma encontra acesso na alma e obtém para si, ainda que contra a vontade, veneração (embora nem sempre obediência), lei perante a qual emudecem todas as inclinações, se bem que secretamente contra ela actuem: que origem é digna de ti e onde se encontra a raiz da tua nobre linhagem que recusa nobremente todo o parentesco com as inclinações, raiz essa da qual descender é a condição indispensável daquele valor que os homens unicamente a si mesmos podem dar»11.

* Foi usada a edição das Edições 70, publicada em 1985. (1)«Forjar palavras novas, quando a língua de nenhum modo carece de expressões para conceitos dados, é um esforço pueril para se distinguir entre os demais, se não por ideias novas e verdadeiras, ao menos por um remendo novo num vestido velho», pág. 18/19. (2)«Se um sistematal como o da razão pura prática, desenvolvido aqui a partir da crítica desta última, deu muito ou pouco trabalho (…) é uma questão que devo deixar ao juízo dos conhecedores de um trabalho deste género.», pág. 16. 3«(…) desculpar-se-me-á se eu, num escrito como este, que é apenas um exercício preliminar, me atrenho a estas linhas fundamentais», pág.182. (4) Pág. 183. (5) Pág. 83 (6) Pág. 42. (7) Pág. 142. (8) Enquanto a hipótese é fundada numa necessidade da razão pura, no uso especulativo, princípio de explicação considerado em relação à razão teorética, o postulado decorre da necessidade da razão pura, no seu uso prático, como «É um dever realizar o soberano bem segundo a nossa máxima capacidade», pág. 163. (9) Pág. 148.  (10) Pág. 103. (11)Pág. 102

Etiquetas: , ,

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A Comunicação (Ir)racional




Texto e fotografia Dina Cristo

O sujeito iluminista possuía uma identidade baseada na razão. Um núcleo interno, inato, central, que lhe permitia conhecer a sua essência, sintetizando, assim, de forma coerente, as suas várias características. Era, por isso, uma identidade una, completa, segura, estável, fixa e auto-suficiente.

O auto-conhecimento, através da razão, permitia a este sujeito, com um sentido de si mesmo e do seu lugar no mundo, ser autónomo e soberano. Uma personalidade, assim fundada na mente, era, pois, real, individual - única, singular, distinta – imprevisível e, contudo, univeral. Uma absolutização cultural, para Stuart Hall, ligada à trans-historiedade.

A Razão Pura, esclarecida e genuína, conduzia à autonomia, à liberdade, à verdade e ao desenvolvimento humano. Por isso Immanuel Kant defendia o racionalismo, o universo da razão, do entendimento e das Ideias, dos conceitos “a priori”, do ser em si - o númeno, a unidade e a essência dos objectos.

Este mundo inteligível, livre das inclinações, e, deste modo, desinteressado dos fenómenos, permitia a ordenação (dá ordem e hierarquiza), a elevação e, apesar do inicial sofrimento (para além do conflito com as paixões, a razão pura danifica o amor de si, a benevolência, e aniquila a auto-complacência), depois o vero auto-contentamento e mesmo felicidade (a harmonia da sua natureza com a sua vontade).

O Supra-sensível é, pois, a voz celeste, intuitiva e sintética, do mundo interior, simples e pura, que julga de forma livre, independente e autónoma. O reino dos princípios e predisposições, do arquétipo – divino - onde reside a lei, a moral (e a lei moral), o dever, a virtude e o bem, que o ser humano deve (per)seguir.

Tal dimensão da vontade, necessária e causal, é fonte central e unificadora, o todo que inclui efectivamente todas as partes. Um plano de consciência, geral e mesmo universal, sem fronteiras, incondicionado e real, onde se manifesta não apenas a comunhão e a compreensão mas uma comunicação com livre arbítrio e racional.

Ora um dos principais cuidados de Kant, no seu livro “Critica da Razão Prática”, sublinhados no prefácio e na conclusão, é precisamente a distinção entre o racionalismo e o empirismo e a atenção para que não se tome o condicionado, o mundo sensível, pelo incondicionado, o mundo supra-sensível.

Ao contrário do mundo da razão, o dos sentidos - da sensibilidade, das sensações, dos impulsos, das inclinações, das paixões – é aparente, ilusório e enganador. É o plano do ser para nós, dos fenómenos, das acções, dos objectos e das experiências. Não já o mundo da essência, dos arquétipos e das causas, mas da existência, das cópias e dos efeitos.

Trata-se, pois, da voz terrestre, das disposições, humores e desejos, que rebaixa o sujeito e o mantém dependente e constrangido pelas necessidades de prazer imediato, a princípio cativante, mas trará, contudo, auto-censura, culpa, arrependimento e sofrimento, em especial nos prazeres inferiores e tratando-se de um sujeito com sentimento moral.

Um universo degradante, caótico, irracional, periférico, fonte de exigências dos direitos, da formulação de máximas, onde o sujeito se desorienta com os seus interesses, fins e objectivos, submetido à percepção, limitada, do plano empírico – exterior, diverso, contingente e condicionado - que embrutece e ensombra o seu entendimento e acção.

Com a modernidade, a razão - antes pura, genuína e virtuosa, do iluminismo – degenerou, desvirtuou-se e, degradando-se numa razão impura, instrumental, calculista, obscurecida e embrutecida, perverteu-se num meio para atingir os interesses, particulares e egotistas. A complexificação das sociedades, o êxodo rural para as cidades, a industrialização, nomeadamente ao nível cultural, o capitalismo e as nacionalizações foram algumas das contribuidoras para que a razão impessoal e livre do mundo inteligível fosse distorcida, enfraquecesse e recuasse.

O sujeito moderno, ao emigrar para a cidade, afasta-se da sua cultura tradicional, ligada à região e ao local, à religião e ao sagrado, ao passado e à memória, à co-presença e ao simbólico. Deslocado, nas cidades desconhecidas, ali se exila e isola, transforma-se em mais um sujeito anónimo e atomizado na massa citadina.

Analogamente, a identidade, antes interna, una e auto-suficiente, se exterioriza, descentraliza e desagrega. Com uma ênfase cada vez mais colocada na relação social - reflectida ao nível de vários ramos científicos - o indivíduo vai-se alienando, afastando cada vez mais não só de si mesmo e da vida, mas também, paradoxalmente, dos outros e dos objectos, numa relação crescentemente mediada.

Desvinculado e vulnerável, progressivamente exposto ao mundo social, público, técnico e mediático, o indivíduo substitui a tensão própria da tese e antítese identitárias, que permite a síntese integradora, por propostas vindas do exterior, já pré-fabricadas e padronizadas, prontas a adquirir imediatamente.

A sua identidade, distante do seu núcleo interno, de onde é progressivamente desalojada, enfraquece e torna-se cada vez mais dependente dos vários modelos difundidos, tornando-se cada vez definida social, historica e heteronomamente, mais nacionalizada, submetida à influência de padrões estranhos que se vão entranhando, infiltrando e penetrando.

Trata-se de um relativismo cultural, de indivíduos que se vão traduzindo, assimilando e homogeneizando, tornando-se mais permeáveis a um poder de influência que vai suprimindo as suas diferenças - de forma regressiva, agressiva e coersiva – dissipando e convertendo-as em características mais estáveis, previsíveis e, assim, manipuláveis.

O seu ser real e coerente vai-se desmoronando, substituindo por múltiplas possibilidades de ser, descontínuas e variáveis, às vezes contraditórias e mesmo inconciliáveis – que o dividem. Ao mesmo tempo que se vai afastando da sua natureza humana e racional, o indivíduo vai-se aproximando, seduzido, do alheio e objectivo, que vai integrando e (re)conhecendo.

A indústria cultural, através da informação, entretenimento e publicidade, vai regulando e “disciplinando” o sujeito, amputando dele certos traços, através da crítica, ridicularização ou invisibilidade, e ampliando outros - modelos pré-determinados, uniformizados e ilusórios de parecer - que vão sendo repetidamente representados.

Esta forma mediatizada de contacto com outras formas de “dever” ser, que rebaixa o sujeito, o estigmatiza, deprecia sua auto-imagem e instala nele complexos (ao contrário do psicanalista que os tenta retirar), estimula o sensacional e a infantilidade, e excita a tal ponto as motivações utilitaristas e empíricas que o indivíduo se torna incapaz de compreender as racionais.

Um sub-sistema que captura e transforma a consciência do indivíduo - submetendo-o ao consumo de signos, seduzindo-o pela imagem, fascinando-o com (as enganosas facilidades de) a técnica – e o vai envolvendo, dominando e controlando, transformando-o num ser adormecido, passivo e prisioneiro - numa escravização ‘desejada’ pelo sujeito e planeada pela indústria.

A indústria cultural, sub-sistema do Sistema Capitalista, não apenas fabrica produtos como também produz audiências e é ela que(m) dirige, define e delibera personalidades, desejos e objectos; opiniões e decisões assim induzidas que são, na verdade, falsas escolhas, além de irracionais e previsíveis, como vimos.

Esta baixa cultura industrial, que oferece satisfação sensorial imediata, concretizada na televisão banal, por exemplo, é a manifestação de uma razão embrutecida e estratégica que, obscurecida pelos interesses, neste caso comerciais, assim conquista as audiências massivas, às quais submete uma falsa homogeneidade, consonância e abstracção.

Na verdade é uma uniformização, conseguida pela extirpação das partes, diferenciadas, específicas, que assim se vão ocultando, silenciando e discriminando. Uma marginalização, separatista e anti-comunicativa, que, tal como na personalidade do indivíduo, ocorre igualmente entre os próprios sub-sistemas - Governo, Mercado e “Media”, burocracia, capital e técnica - que se distinguem e valorizam, nomeadamente através dos seus líderes e especialistas, e da lifeworld, a vida de todos os dias, onde ocorre a interacção social e se movem os generalistas.

A razão, assim distorcida, em vez de integrar e sintetizar, unindo, analisa, desintegrando e separando. Evidencia e salienta umas partes, que a reproduzem, e abafa e desautoriza outras, que a criticam, ou ameaçam, pela alternativa que constituem. É, pois, uma razão totalitária, hegemónica, que coloniza, hoje, corporativamente.

Com origem na vida orgânica, da qual se destacaram, as partes sub-sistémicas “autonomizaram-se” de tal forma que passaram a ser confundidas com o próprio todo, que copiavam, representavam e duplicavam, primeiro e depois passaram a impor a sua supremacia, redefinindo o dia-a-dia, sem consentimento, embora de forma condescendente, consequência das suas estratégias de propaganda e manipulação. Eis a razão sensível a agir, como criticava Kant, tomando o falso pelo verdadeiro, o aparente pelo real, a parte pelo todo.

A princípio a ambição de se distinguir e sobrepor, de se diferenciar, levou os sub-sistemas a criarem palavras, signos, códigos, canais, linguagem, discursos e representantes – cada vez mais técnicos, especializados e complexos – promovendo a graduação, a estratificação e a desigualdade e, simultaneamente, rejeitando largas camadas da população que os ignoravam.

Trata-se das maiorias, sub-representadas nos sub-sistemas, incluindo o mediático, mal ‘traduzidas’, assim, em minorias. Uma perversão proporcionada por uma mente astuta, mas não inteligente, que, além da falsa equivalência, porque redutora, e da invasão da vida doméstica, familiar e social, sobrepôs códigos e regulamentações com soluções estandardizadas à livre troca de argumentos, própria da negociação linguística, para partilha, entendimento e consenso, dada a real diferenciação especificamente humana.

Uma vez mais, a razão sensível age condicionada pelas condições e ambições empíricas e, seduzida pela facilidade e falsidade (nomeadamente técnica e comunicativa), prende-se nela, comprometendo o seu desenvolvimento, superação e elevação humanas. Em vez do conceito, das categorias apriorísticas de Kant, a razão concreta baseia-se em preconceitos, algo que parece ordenar, estabilizar e dar segurança perante o desconhecido mas que constitui uma forma de conhecimento redutora, superficial, que priva da verdadeira compreensão do mundo, das coisas e do seres.

O sub-sistema cultural, ao mesmo tempo que reduz, nega e despreza o verdadeiro - seja em relação à identidade, à vida quotidiana, às maiorias sociais ou mesmo à razão discernida – expande o falso ou falsificado, a hiper ou pseudo-realidade, abusando da eficácia sub-consciente da imagem, tornando o espectáculo, antes próprio do entretenimento, cada vez mais disperso e difuso, injectado na informação e derramando-se pela vida de todos os dias.

A personalidade do indivíduo está tão enfraquecida e a simulação é de tal forma preparada e planeada que a cópia, a parte, não só se parece cada vez mais com o original, o todo, como corre o perigo não apenas de se lhe sobrepor mas mesmo de o destruir, o que significa deixar de haver simulações para passar a existir simulacros, signos já sem referentes, imagens às quais já não corresponde qualquer objecto, sujeito ou acontecimento.

Na formação das nações, as diferenças tribais, linguísticas e culturais foram suprimidas pelo uso da força, violência e barbárie, que impôs o predomínio de uma língua vernácula sobre todas as outras, de um destino comum aos demais, de uma falsa narrativa unitária sobre as divergências. O sistema nacionalista e capitalista, com a sua super-estrutura ideológica ubíqua e panóptica, passou a oprimir, a vigiar e a policiar.

As expressões assim bloqueadas, forçadas para um pressuposto consensual de fundo, constituíram uma repressão ocultada que destruiu o processo de comunicação. A comunicação democrática, baseada na simetria, na igualdade de oportunidades de expressão e na reciprocidade, na livre troca de argumentos, com base em informação genuína, não deturpada e sem coação, é eclipsada sobretudo quando a imprensa privilegia determinados indivíduos, líderes e especialistas, em detrimento da audição dos directamente afectados.

Autores como Habermas, Adorno ou Lincoln Dahlberg asseveram a existência de uma desigualdade estrutural, de uma violência sistémica – um problema criado pela arrogante razão sensacionalista, má juíza em causa própria, que esconde a lógica conservadora, reprodutora, brutal, opressora, exclusiva, parcial e desigual através de um discurso retórico onde propaga ser o oposto: inovadora, criativa, prazerosa, livre, inclusiva, plural e igualitária.

Os sub-sistemas propagandísticos disseminam de forma tão permanente, cruzada e continuada a ideia de que o Sistema encarna a liberdade de expressão e de que não pode ser alterado sem a sua perda que faz as alternativas e dissonâncias parecerem vagas, irrealistas, indesejáveis, impossíveis ou impensáveis, depreciando-as em programas de humor, autêntico alívio pré-determinado para a sua própria violência.

Embora funcione num registo individualista, consumista e capitalista, difundindo tais significados e discursos, a sua auto-propaganda dissemina a ideia de que é altruísta e se move ao serviço da audiência e não dos seus interesses mercantilistas. Uma razão poluída que se afirma central e geral, um “nós”, sendo, na verdade, periférica e particular, um “eles”, como lhe chamam as pessoas comuns no seu dia-a-dia.

Tal designação demonstra a separatividade, o distanciamento, o fosso que os sub-sistemas, produtos da razão distorcida, provocaram no indivíduo - cada vez mais excêntrico, escravizado e dominado pelos meios técnicos, que se tornaram um fim, e pela mente objectiva, que se converteu num meio - cada vez mais carente, incompleto e alheado, numa perseguição astuta, impulsiva e narcísica de conquista dos seus desejos, como sensação compensadora.

Contudo, das largas maiorias reais, assim oprimidas e reprimidas, barradas na sua entrada no discurso mediático, nem todas foram assimiladas, destruídas e eliminadas. Algumas, em transição, desapegadas das raízes culturais mas também resistentes à assimilação, mas sobretudo as tradicionais, irrompem através dos movimentos sociais dos anos 60, da globalização e da Web.

No pós-modernismo, as identidades ocultadas e abafadas das vozes, grupos, géneros ou etnias, até então ignoradas, reivindicam doravante representação adequada e justa no espaço público e mediático. Um anseio de reconhecimento por parte do todo, preservando as suas diferenças, reclamando a reconstituição, reunificação e recuperação da essência, do fechamento e da coesão originais.

Uma resposta, a ocidente e a oriente, dos mais puristas, tradicionalistas e fundamentalistas, à segregação como reacção às vagas migratórias, fascinadas pelo estilo de vida e produtos ocidentais publicitados por uma indústria cultural, cada vez mais internacional, e pela maior interdependência cultural.

Agora sem fronteiras, a indústria cultural global, aumentou a sua capacidade de penetração, elevou ainda mais a oferta de múltiplas identidades possíveis, incrementando, paralelamente, identidades cada vez mais fragmentadas, descentralizadas, desagregadas e isoladas.

O mesmo sistema, ao criar novos meios, digitais, reforça os efeitos anteriores de supremacia e imposição, por um lado, e de despersonalização e menoridade, por outro, acentuando a desvinculação do lugar e da co-presença e intensificando a abertura ao estranho e cada vez mais distante, o “ausente”, confundindo o indivíduo, uma vez mais, a interacção comunitária virtual com a experiência de comunicação e solidariedade que almeja.

A Web, particularmente a Web 2.0, que para os entusiastas, serviria de oportunidade para reequilibrar o desnível existente entre o sistema, o on line, e o mundo da vida, o off line, segundo Lincoln Dahlberg não só não diminuiu como, além de se manter, se agravou. Numa nova economia da atenção, onde a (in)visibilidade é determinante, os que já eram bem vistos passaram a sê-lo ainda mais, quer no sentido literal quer simbólico.

O novo sistema passou a ser, assim, uma oportunidade para aqueles que já (pre)dominavam - social, económica e educativamente - aumentarem as suas vantagens competitivas e oportunidade nenhuma, nem mesmo de melhorar as condições de vida, como defende o autor, das largas camadas de população que nem sequer têm as condições mínimas para lhe aceder, como infra-estruturas, equipamento, electricidade, competência ou tempo.

A nova geração Web aprofunda ainda mais o fosso não só em termos de acesso mas também de participação, uma vez que a actividade na Web, para os que têm acesso, se limita maioritariamente à reprodução, à retransmissão ou imitação dos principais “mass media”, revalorizando, assim, as ideias já bem notadas. Mesmo no campo da blogosfera são residuais os «vloggers», “bloggers” que conseguem ter uma audiência relevante, enquanto os «floggers», pagos por corporações para publicitarem os seus produtos ou serviços sem o conhecimento do público, pululam.

Acentua-se o desequilíbrio entre os que têm condições, competência e poder, nomeadamente económico, e criam, produzem, actuam, decidem se e quando querem ser vistos, e os que não o tendo se limitam a copiar, a disseminar, a consumir passivamente e a ser monotorizados, vigiados e controlados nas suas pesquisas, compras e perfis, agora reconstruídos pelas grupos empresariais de “media” e telecomunicações e vendidos às empresas de publicidade.

De forma acentuadamente refinada e cada vez mais sofisticada, as corporações dominam, controlam e manipulam os cidadãos, seduzidos com as aparentes facilidades, vantagens imediatas e prazeres instantâneos, quer ao nível dos conteúdos, licenciados, quer da forma, através de códigos ou termos de uso, e também dos dados pessoais armazenados, obtidos através dos registos obrigatórios dos “cadastrados” para acesso aos “domínios”.

As diferenças também se salientam entre os proprietários, grupos que não têm em conta o interesse público, o Bem Comum, e os que são abusados, explorados e expropriados, nomeadamente quando fazem trabalho voluntário que, em última instância, não lhes pertence e, anonimamente, contribuem para fomentar grandes audiências, baseadas num número restrito de fontes, com a supremacia de conteúdos comerciais e profissionais, ainda que presentes em menor quantidade, como é o caso do You Tube.

O sub-sistema técnico e cultural actual, digital, é pois mais um meio do mesmo Sistema se impor, dominar e discriminar os indivíduos, fascinados, dependentes e isolados. O hiato entre os que integram ou se adaptam aos sub-sistemas e os que deles permanecem distantes, ignorados, desprezados, abusados ou rejeitados reflecte-se na vida orgânica, agravando o seu desfavorecimento e empobrecimento, designadamente em capital social, económico ou digital.

As ferramentas e plataformas que a Web 2.0. traz consigo, além da referência, exemplo e esperança da Wikipédia - como comunicação significativamente mais livre, voluntária, autónoma, cooperativa, colaborativa, produtiva, aberta, disponível e, portanto, mais justa - não estão a ser suficientemente usadas e ocupadas, pelo que as promessas dos cyber-libertários, como lhes chama Dahlberg, de ultrapassar as desigualdades, estão ainda por cumprir.

Lincoln Dahlberg confia que, ao contrário das outras diferenças, as de poder, ligado ao discurso, são reversíveis. O mesmo signo, linguagem, logos, “medium”, representação que até aqui serviu, mal usado ou interpretado, para obstruir, barrar, separar servirá, bem usado e compreendido, para fluir, ligar e reunir as partes cindidas, num todo coeso, completo e integral.

De igual modo, Habermas defende que a via, o caminho seguro para a emancipação social é a comunicação racional. Ultrapassar a escravidão de extensas massas de população e atingir a libertação, a expressão de uma subjectividade, personalidade e identidade até aqui sufocadas, abafadas e censuradas, será possível se a razão impura - deturpada pelos sentidos, sensações e ambições, zeladora dos seus interesses particulares em detrimento do conjunto – se submeter a uma razão superior, mais pura, unificadora e universal, que efectivamente religue e integre todas e cada uma das partes no mesmo centro, sintetizador e não discriminativo.

Até aqui, a mente esperta mas não desperta, calculista e interesseira, desvirtuada e descuidada manifestou-se em diferentes áreas. Ao nível da imprensa, esta degeneração concretizou-se na maximização da presença do objecto e na minimização da marca do sujeito, reflectindo, também aqui, a sujeição do profissional aos factos, às coisas, aos acontecimentos empíricos.

O jornalismo industrial adoptou, por auto-defesa, uma falsa imparcialidade, fragmentando, descontextualizando, desideologizando e desidentificando, motivado por finalidades comerciais de aumentar as tiragens, expandir as vendas e aumentar significativamente as audiências. Chamou-se-lhe objectividade.

A repressão dos sujeitos, abafados e ocultados, na sua personalidade, identidade e expressão, ocorreu não apenas com a audiência e as fontes – foram privilegiadas as que possuíam um discurso ofensivo, agressivo, competitivo, militar e oficial, em detrimento dos actores sociais, com um discurso e uma prática mais inofensivos, cooperativos e pacifistas - mas igualmente com os profissionais que passaram, nas fábricas de notícias, a assumir parâmetros de neutralidade.

Em resultado dos critérios definidos também o jornalista se foi alheando, distanciando e tornando-se cada vez mais indiferente aos outros sujeitos, quer fossem fontes, temas das suas narrativas ou leitores, não sem gerar, contudo, um conflito de identidades, entre a profissional, desautorizada e reprimida, e a pessoal, cada vez mais ansiosa por conhecer, aproximar-se e relacionar-se com o outro, como mostram Linda Steiner e Chad Okrusch.

Desde há quase 20 anos que os efeitos foram detectados: uma crise de imprensa equivalente à da vida política, com o público, no primeiro caso, e os eleitores, no segundo, a afastarem-se, a desligarem-se e a ficarem também eles indiferentes às respectivas agendas, mediática e política. Encetaram-se, então, com o jornalismo público, esforços no sentido de recuperar a ligação, a conexão e a atenção perdidas.

Estas são três características fundamentais da ética do cuidado, que propõe precisamente a expressão da subjectividade aprisionada, agora livre para publicar a sua posição. Como afirma Martin Bell, o jornalismo de religação é “um jornalismo que cuida tanto quanto relata; que está consciente das suas responsabilidades; que não se manterá neutral perante o bem e o mal, o certo e o errado, a vitima e o opressor”(1).

Não se trata, contudo, de uma reafirmação de ainda mais parcialidade mas, pelo contrário, da verdadeira imparcialidade, desinteresse ou interesse colectivo – a defesa do Bem Comum. Uma Subjectividade inerente ao campo privado, da autonomia e da auto-regulação, correspondente a uma razão mais despoluída e discernida, que possibilitará a transição da opressão para a expressão, da exclusão para a vera inclusão e da diferenciação para a igualdade perante a lei moral.

Segundo o tratado “Crítica da Razão Prática”, de Immanuel Kant, a lei moral, universo do racionalismo, ordena o cumprimento dos deveres, do soberano bem, a moralidade - a predisposição de ânimo de acordo com o espírito da lei, por amor dela - e não a mera legalidade - a acção de acordo com a letra da lei, tendo em vista compensações, gratificações ou satisfações, como o mérito.

A primeira condição para o soberano bem é a virtude, a intenção pura - desinteressada, livre e independente de quaisquer apegos, inclinações ou vantagens sensacionais, próprios de uma razão afectada ou patológica – um espírito que julga segundo princípios racionais, universais, “a priori”, as leis, e não segundo finalidades empíricas, particulares, “a posteriori”, as máximas.

Além da ética da justiça (que enfatiza os direitos) e dos valores de religação e reconexão, do jornalismo público, que assume, a ética do cuidado propõe-se integrar também a ética da virtude, não como algo que se deva ocultar a nível público mas, antes, como uma qualidade cognitiva a aplicar e a desenvolver, mesmo a nível profissional.

No caso do jornalismo, uma profissão moralmente séria - com valores de justiça, verdade e democracia – a virtude cognitiva traduz-se numa epistemologia moral, uma forma de conhecimento e modos de produção noticiosa moralmente orientados, o que implica recolher, seleccionar, tratar e publicar informação de uma forma atenta, cuidada e correcta, com dedicação, envolvimento e carinho, não só em relação às pessoas mas também aos factos, aos documentos e às palavras usadas(2).

Numa profissão assim, com agentes e modos de produção morais, as respostas tendem a sê-lo também e crescentemente conscientes. Num jornalismo cuidadoso, a preocupação em relação aos efeitos sobre o público operacionaliza-se através do princípio da precaução, que integra a responsabilidade social – de acordo com uma das principais leis morais, conforme tratadas por Kant, que é a extensão da prudência, o amor de si, à felicidade dos outros.

Mas a principal lei moral, a lei das leis, é «Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo»(3). Ora este amor humano relativo à segunda parte do mandamento está em sintonia com as necessidades de reaproximação, religação e reconexão, reconhecidas pelo jornalismo público, ou de reintegração, identificadas por Habermas, Adorno ou Dahlberg.

De igual modo, as propostas de compreensão, caridade ou compaixão assumidas pela ética do cuidado - embora esta última, na perspectiva kantiana, esteja sob o domínio dos afectos, das inclinações e não da razão – vão no mesmo sentido de restabelecer os vínculos, as relações. Segundo os investigadores Steiner e Okrusch, o jornalismo cuidadoso não só deve ter e manter ligações, pessoais e profissionais, como as deve esclarecer no seu trabalho.

Está, pois, (em) aberto o caminho para que as partes até aqui excluídas do discurso mediático – os pobres, as mulheres, os cuidadores, por exemplo – possam doravante ser nele incluídos, com atenção e com amor. Quem cuida de outros em sofrimento são, de entre os seres humanos, os mais sofredores e a escolha de os colocar na agenda mediática, enquanto tema público, é também ela uma decisão moral – de quem mais precisa e merece atenção pública.

Em vez de ignorar estas camadas da população – habitualmente num trabalho mais privado, voluntário ou mal remunerado, mas mais exigente, em tempo e dedicação, generoso e amoroso – a proposta é passar a ouvi-las com atenção e escutá-las. Tal não só permitirá aliviar a sua sensação de isolamento como incentivar quem assiste a passar da mera benevolência (“care about”), a preocupação com o outro, a bondade, para a beneficiência (“care for”), a acção concreta de cuidar do outro.

Numa altura em que se eleva a consciência da audiência relativamente ao sofrimento humano em todo o mundo e também aumenta a sua vontade de ajudar a minorá-lo, tal como sucede com os próprios jornalistas, possibilitar a acção de serviço social, generosa e desinteressada, o voluntariado, permite não só a expressão saudável de uma subjectividade até aqui contida, como vislumbrar a tal acção virtuosa e caritativa apenas e só por respeito pela lei, tal como colocada por Kant.

Uma atitude, que além de possibilitar a reunificação das partes diferentes, divergentes, alternativas, habitualmente desprezadas, reflecte uma mudança profissional – da clássica exploração do sofrimento alheio para benefício económico das corporações mediáticas, através do estímulo intenso dos instintos humanos – para a elaboração de novas e mais perguntas sobre os agentes e acções que, no terreno, aliviam esse sofrimento, e, mesmo nos gabinetes, estudam propostas de (re)soluções mais institucionais, como defende o jornalismo de paz(4), contribuindo, assim, para o desenvolvimento da intuição humana.

O ser humano, pela sua personalidade, pertence aos dos mundos, o sensível e o supra-sensível. É, portanto um ser sagrado, digno de respeito – sentimento exclusivamente dirigido a pessoas, ao contrário da admiração também dirigível a objectos ou o amor, a animais -, sobretudo em presença da rectidão de carácter, uma maneira de pensar prática consequente e reveladora do soberano bem no homem.

Assim, «Que, na ordem dos fins, o homem (e com ele todo o ser racional) seja fim em si mesmo, isto é, que não possa jamais ser utilizado por alguém (nem sequer por Deus) simplesmente como meio, sem ao mesmo tempo ser ele próprio um fim; que, por conseguinte, a humanidade deva ser para nós próprios sagrada na nossa pessoa, eis o que decorre de si mesmo, porque o homem é o sujeito da lei moral, por conseguinte, daquilo que é santo em si»(5).

A beneficiência aos pobres é um dos exemplos, apontados por Kant, de prazer superior da faculdade de desejar em que a vontade é determinada pela razão. O resgate da subjectividade, da sua auto-expressão, constitui a emancipação através da razão transmutada, purificada e regenerada, ultrapassando a análise tradicional, positivista e objectiva, analítica e uniformizad(or)a, e aproximando-se do conhecimento sintético, unificador e autónomo.

A proposta de uma informação produzida atentamente e de forma cuidadosa, expressão do dever moral do amor a si mesmo e ao próximo, representa uma vontade determinada pela razão, segundo princípios universais, uma (re)aproximação ao próprio núcleo interno e inato, central e uno, do entendimento humano, “a priori”, e do julgamento livre e independente das prisões e ilusões dos sentidos, interesses, conveniências ou vantagens particulares.

Segundo Kohlberg, os jornalísticas cívicos e de investigação atingem o máximo na sua escala de desenvolvimento moral correspondente ao estádio pós-convencional em que a (pre)ocupação com o outro não se limita à família e ao círculo de amigos mas se estende a toda a humanidade – uma nova consciência e responsabilidade à escala universal, resultado de uma comunicação (mais) racional que poderá transmutar o isolamento em solidariedade globalizada.

(1) Bell, Martin. The journalism of attachement in M. Kieran (ed). Media ethics, pág.19, London: Routledge – citado por Linda Steiner e Chad Okrusch, Care as a virtue for journalists in Journal of Mass Media Ethics, 2006, 21, pág. 116. (2) Cf. CYTRYNBLUM, Alicia – Periodismo social – una nueva disciplina, La Crujía ed. 2004, pág. 83-89. (3) KANT, Immanuel – Critica da Razão Prática, Edições 70, 1985, pág. 98/99. (4) LYNCH, Jake – Peace journalism in ALLAN, Stuart (editor) - The Routledge Companion to News and Journalism. London and New York, 2010, p.541, p.543-553. (5) KANT, Immanuel – Critica da Razão Prática, Edições 70, 1985, pág. 151. Bibliografia: DAHLBERG, Lincoln – Web 2.0 divides: A critical political economy. University of Queensland. s/d. HALL, Stuart – A identidade cultural na pós-modernidade. D&A Ed. Pág. 7-97. KANT, Immanuel – Critica da Razão Prática, Edições 70, 1985. LAYDER, Derek (1994) – “Habermas`s Lifeworld and System” in Understanding social theory. Sage. 2005. Pág. 213-238. STEINER, Linda; OKRUSCH, Chad – Care as a virtue for journalists in Journal of Mass Media Ethics, 2006, 21, pág. 102-122. TAYLOR, Paul; HARRIS, Jan – Critical theories of Mass Media: Then en Now Maidenhed. Open University Press. 2008. Pág. 62-84.

Etiquetas: , ,

quarta-feira, 5 de março de 2008

Terra fria


Próximo do Dia Internacional da Mulher, este Sábado, evocamo-la através de um filme, que estreou em Portugal há dois anos: "North Country” - um ponto de vista feminino da realizadora Niki Caro sobre o assédio sexual.

Texto Dina Cristo

A película conta-nos a história de uma adolescente que depois de violada pelo professor aceita ter o filho. Mais tarde, decide recomeçar a vida, longe do companheiro que a violentava, junto com a sua filha. Pega nas duas crianças e ruma à casa dos pais, no Minnesota. O objectivo é sobreviver. Por isso, vai trabalhar para uma empresa que explora minas de ferro. O trabalho é pesado, mas bem pago, o que permite aos pequenos ensaiarem as alegrias de uma nova vida.
Contudo, tal conforto proporcionado aos filhos resulta num imenso sacrifício para si própria. Além de ter encarado a crueldade dos pais dos seus filhos, a difamação social e a rejeição familiar, enfrenta, naquele trabalho tradicionalmente ocupado por homens, uma humilhação permanente, uma violência - verbal, psíquica, física e mesmo sexual. Enquanto as portas de apoio se parecem fechar cada vez mais, o sofrimento só a fortalece: aumenta a consciência do seu direito a ser mulher e respeitada na sua dignidade, a poder viver e trabalhar sem ser agredida.
Perante a precipitação das acusações sociais de que é alvo, da frieza da família, a principal personagem de "Terra fria" aumenta o sua determinação interior, e com clareza, a força da sua razão. A perversão laboral permitida pela razão da força do dinheiro e do estatuto social sedimenta-se… até à resolução de colocar a empresa em tribunal.
Força ou razão
A princípio, o medo de perder o emprego e a necessidade de garantir o sustento familiar, levam as mulheres a consentirem o constante assédio sexual e humilhação. Desprotegidas pelos homens e pela sociedade, contam apenas com o seu coração que, apesar de tanto abuso e obscenidade, permanece puro e cheio de amor pelas crianças que deram ao mundo. Ainda que lhes atirem pedras, que as insultem e difamem, elas persistem em sacrificar-se. A sua coragem supera qualquer razão que a força possa parecer ter.
Bastou um coração de mãe a desenterrar uma alma de pai (lembrando-o de que a filha não cometeu qualquer crime, apenas deu à luz um bebé) para que, como num castelo de cartas, as pessoas se tocassem quanto à verdade da vitimação em vez de cristalizarem no estereótipo falso. Bastou a sua amiga quase moribunda expressar que estava a favor de Josey (a mulher que levou, através de um advogado, os homens a tribunal, defendidos por uma advogada) para que a minoria silenciosa começasse a manifestar-se. Muito mais do que três (mulheres), puderam assim dar início ao julgamento de classe contra uma empresa por assédio sexual.
O filme, produzido pela Participant, com música de Bob Dylan, foi inspirado em factos reais, relatados no livro “Class Action: The Landmark Case That Changed Sexual Harassment Law”, escrito por Clara Bingham e Laura Leedy Gansler sobre o caso de Eveleth Mines. Eis um produto da sétima arte que nos fala da incompreensão, da ligeireza da crítica social, dos maus tratos, da desumanidade, mas também de como apesar de tudo se preserva a sensibilidade, a honradez, o amor, a esperança, a força de vontade, a aspiração de verdade e de como partindo de um sentimento de impotência, inicial, se pode, afinal, mudar o mundo.

Etiquetas: ,

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Défice emocional



Próximo do Carnaval, momento de maior liberdade de expressão, dançamos ao ritmo das emoções, cujo corte se faz sentir no resto do ano.

Texto e desenho* Dina Cristo


Todo o ser humano tem um corpo emocional. Este seu lado psicológico, intermediário entre o mundo físico, das acções e decisões, e o mundo mental, das ideias e pensamentos, permite-lhe ter sentimentos e emocionar-se. É algo inato que serve, aliás, como forma de adaptação e de regulação do estado interno do organismo, como no caso do derramamento de lágrimas.

Apesar de ser algo natural, humano e universal, cada cultura tem não só as suas especificidades como as suas próprias formas de controlo, de definição das tipologias aceitáveis e formas de manifestação legítimas. Desta forma, o âmbito psicológico é não só reprimido como reaprendido. A finalidade pode ser evitar ou negar as emoções instintivas, consideradas socialmente incómodas, ameaçadoras ou vergonhosas, mas o resultado é a desadaptação, a estagnação, a auto-desorganização, o caos.

Ao definir quais as emoções admissíveis e convenientes, a vida sócio-cultural censura o lado emotivo dos indivíduos e estes, para se protegerem, acabam por reprimir-se, culpar-se, fingir (sentir o que não sentem e não sentir o que sentem) e fugir das suas próprias emoções. Por forma a melhor serem aceites em sociedade, as pessoas escondem aquilo que sentem, por vezes não só dos outros como também de si próprias – quando tentam suprimir o lado mais afectuoso ou combate-lo, seja pela negação ou mesmo rejeição do que sentem.

Homens e mulheres procuram eliminar momentos mais intensos recorrendo a dependências, que geram um prazer imediato mas falsificado, e ao consumo excessivo que levam ao ciclo vicioso, seja ele o alcoolismo ou o consumismo, por exemplo. Tentam dessa forma evasiva alienar-se e afastar-se daquilo que o seu próprio corpo revela, ao nível da respiração, circulação ou secreção.

Esta luta pela exclusão das emoções, este combate pelo corte emotivo, na verdade, só o reforça e nem mesmo a falsa frieza ou a aparente indiferença conseguem vencer. Pelo contrário, as emoções, assim barradas, encontrarão outras saídas, mais agressivas. Como explica Lise Bourbeau, no seu livro “O teu corpo diz ama-te”, o bloqueio emocional acaba por desencadear outros a nível físico, manifestados em doenças, então, somatizadas. Outras vezes aquilo que vai sendo implodido chega a uma altura em que rebenta – são as revoltas colectivas ou individuais, em que as ondas emotivas se propagam. O excesso de energia emocional, até ali contida, explode e é derramada de forma descontrolada, violenta ou destrutiva.

Desertificação emotiva

A vivência emocional é uma fonte natural de energia. Como a água, se ela se infiltrar no solo vai nutrindo os campos e quando em excesso gerará uma fonte, da qual nascerá um rio que alimentará vastos terrenos até desaguar no mar. Pelo contrário, se não houver um contentor para a reter ela rolará apressadamente até aos vales deixando os terrenos secos e em tempos de maior abundância de chuva arrastará muita vida ao longo do seu percurso. Também nos humanos, se a emoção não for aceite e fluir livremente acabará por se manifestar raivosamente – qual mola que motiva a agir é assim desperdiçada em vez de ser aproveitada como bússola orientadora.

Querer descartar as emoções é como tentar eliminar os sinais de um automóvel ou das próprias vias de circulação – um perigo. Meio de expressão das necessidades humanas, elas estão presentes para informar e ajudar a pensar e a agir, a decidir de forma mais correcta, não apenas por interesse ou com indiferença, mas por dever, como explica Abílio Oliveira, psicólogo social, no seu artigo “Entender as emoções” (publicado na revista "Biosofia", vencedora do IV Prémio de Informação Solidária). Uma sensação de dor, por exemplo, é um claro sinal de que o caminho que se está a seguir não é o mais correcto, indicado ou o melhor.

Se Kant considera as inclinações como patológicas, Omraam vê-as como um meio de acesso a uma via mais elevada: a Intuição. Se o ser humano quer transcender as emoções e, assim, atingir o Graal, tal não poderá suceder sem antes as atravessar. Não se chega ao Cabo da Boa Esperança sem antes ter vivenciado o Cabo das Tormentas. Os santos, antes de o serem, experienciaram toda a gama de emoções pelo que limitar as diversas frequências emotivas às culturalmente toleráveis é, na verdade, restringir o desenvolvimento humano.

Ao se separarem de si próprios, os indivíduos afastaram-se dos outros também. Com o coração fechado, a distância entre todos aumentou. Algumas pessoas, de tanto se querer convencer a si próprias de que não sentiam nada, acabaram, à força de tanta insistência, por secar. De tão camuflados muitos campos emocionais tornaram-se quase desérticos ao ponto das pessoas, tão adormecidas e anestesiadas, se sentirem mortas, pois eram as emoções que lhes davam vida. Depois são precisas campanhas de sensibilização e para que voltem a sentir algo são necessárias grandes quantidades de quase tudo, desde a alimentação à sexualidade.

Vida emocional

António Damásio lembra que o cérebro emocional é bem mais lento do que o cognitivo. Desta forma, as montagens, técnica muito usada para criar e aumentar tensão emocional desde Eisenstein, impede o desenvolvimento emocional. Com um consumo informativo cada vez mais acelerado e baseado em imagens, vê-se (quase) tudo e não se sente (quase) nada. Assim, além de ampliar a intolerância, aumenta a impotência emocional - a incapacidade para lidar e gerir as emoções.

Prescindir delas, como se tal fosse sintoma de progresso civilizacional, é próprio de uma sociedade patriarcal, regida pelo medo, poder e competição, em que os homens, pouco presentes fisicamente, estão ausentes emocionalmente. Neste tipo de organização social, dispensa-se a vinculação – aos sentimentos, a si próprio e aos outros (a solidariedade) e desvalorizam-se as Pessoas Altamente Sensíveis, profundamente emotivas.

Contudo, mesmo após a devastação a vida irrompe, nem que seja sob a forma de dor. Mesmo com altas doses de analgésicos ela lá está a dar sinal de existência. Ainda que escondido, o lado emotivo não desapareceu e agora, ao iniciar-se um período de transição, as emoções e os sentimentos recomeçam a ser apreciados. Há quem nunca os deixasse de assumir, mesmo publicamente. Roberto Carlos, o rei das emoções, é um exemplo; numa das suas mais célebres canções, entre centenas, canta: «se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu senti». 

Em Portugal - que Teixeira de Pascoais afirma ter uma alma mais emotiva do que racional, com mais tendência à poesia do que à filosofia – no fado, agora reconhecido internacionalmente, se expressa o sentimento saudoso, a tristeza própria da memória do sofrimento passado como também a alegria da esperança no futuro. Dando voz ao sentir do coração, fadistas animados, no máximo silêncio, comunicam com o público, em idênticos estados de alma.

Alguns sentimentos - mais estáveis, extensos, estruturais, duradouros e íntimos, como a amizade ou o amor – e várias emoções - mais instáveis, intensas, conjunturais, momentâneas e públicas, autênticos sentimentos em movimento, como a paixão, o medo (sinal de risco ou perigo que pode ajudar a vigiar, desacelerar e a proteger) ou a raiva (por vezes traduzida em silenciamento, revela um défice de expressão e estimula a auto-afirmação). Associadas a impulsos nervosos que induzem a libertação de neurotransmissores e se traduzem em sensações e alterações físicas, as emoções mudam com frequência: chora-se “hoje” por coisas que haviam encantado “ontem” e alegra-se agora com algo pelo qual antes se tinha entristecido.

Integração emocional

Mas observar, dar atenção, conhecer e saber reconhecer as emoções não significa deixá-las expressar-se como um autêntico cavalo à rédea solta. Saber lidar com a vida sentimental implica preservar a via racional, controlar as emoções mais grosseiras, em vez de ser consumido por elas em tempestades emotivas, preservar as mais finas, como o altruísmo, a compaixão, e de uma forma geral dispor o âmbito psicológico ao serviço do mental, ou seja, treinar a conciliação, a conjugação, a cooperação de ambos em vez da competição.

Como explica Omraam Aivanhov, razão e emoção são como duas pernas, ambas necessárias para se avançar em segurança. Como ensinou o autor, civilizações mais evoluídas do que a nossa desapareceram pela preponderância dada ao intelecto em detrimento do coração, que deve ocupar o seu lugar pois, como disse, só este pode remediar os efeitos malfazejos daquele[1].

Por sua vez, Kahlil Gibran instruiu que em vez da competição, concorrência ou combate entre a razão e a paixão, estas devem ser unificadas e compatibilizadas aproveitando para descansar no juízo, que sozinho restringe, e actuar no apetite, que só consome. O conselho é para exaltar a razão até ao cume da paixão e dirigir a paixão com a razão.

Substituir o conflito emocional (entre por exemplo um desejo íntimo e uma vontade pública) pela compatibilização entre os pensamentos e os sentimentos, usando-os de harmonia com a razão e não contra ela, é, pois, uma das formas mais úteis e construtivas de aproveitar beneficamente as emoções, muitas delas expressas em palavras.

Em vez de se desgastar tentando, em vão, combater as emoções, o que não raras vezes conduz à perdição, elas podem ser aproveitadas antes de tudo para o conhecimento da própria Identidade e ajudar a promover as mudanças necessárias, escolhendo o caminho e o veículo mais apropriado (seja uma auto-estrada, uma via nacional, uma rua regional ou mesmo um estrada alternativa, um percurso pedestre, enquanto outros irão de alta-velocidade ou de avião) para uma direcção decidida racionalmente, atingindo assim não só a salvação como a realização.

Dieta emocional

Para os casos de “inflamação” emocional, por irritação, exaltação ou excitação, em situações mais agudas, é recomendado fazer dieta emocional, o que significa alimentar-se menos mas de melhores e mais adequadas emoções, devidamente processadas e digeridas conscientemente, caminhar, tomar florais, recentrar em Si próprio, amar, trabalhar, escrever, ouvir ou ser ouvido reflexivamente, comunicar empaticamente, o que significa pedir a satisfação das necessidades em vez de as exigir ao outro, e contactar com o sol e a água corrente, observando-a ou banhando-se nela. A febre emocional, pela concentração de energia, acaba, em cerca de dois dias, por queimar, purificar e curar, ao libertar os resíduos inúteis, nocivos e venenosos das máculas emocionais.

Se em vez de mastigar se for engolindo e em doses excessivas, os detritos emocionais acumulam-se, envenenando o organismo. Para que, em alternativa, as cinzas não sejam lançadas a despropósito e abruptamente sobre o primeiro indivíduo mais receptivo que aparecer, é preciso filtrar de forma a que os sentimentos mais refinados possam ser assimilados e libertados convenientemente os mais grosseiros – o baixo astral de que falam os brasileiros.

Supressão emocional

Para processar as emoções, observar e geri-las é preciso tempo, para as enfrentar e manifestar é necessária coragem tal como para abrir o coração é fundamental aceitar e perdoar. Algo difícil no actual sistema social que conota a experiência emocional, mais subjectiva e pessoal, como uma ilusão, um devaneio ou uma fraqueza – uma fragilidade. Como a Teoria Crítica vem denunciando, a violência estrutural do sistema é tal que leva o indivíduo acreditar que aquilo que o seu coração sente, e o torna verdadeiramente humano, é um engano, uma mentira – o que se traduz, segundo a Escola de Frankfurt, numa brutalidade, crueldade e desumanidade.

No caso dos homens, onde a repressão é maior e os limites ainda mais estreitos (crescendo sob a ameaça de que um homem não chora), a emoção acaba por ser extravasada através da arte, nomeadamente da música, do desporto ou mesmo do trabalho – às vezes vividos excessivamente como forma de compensação. Também há tantos homens como mulheres altamente sensíveis, como revelou Elaine N. Aron, tal como existem homens marcados pela personalidade, motivação ou destino “dois”, uma vibração de extrema emoção e receptividade. Alguns, superdotados adultos, por exemplo, afogam as suas mágoas, incompreendidas pela sociedade, em dependências variadas – virando a agressividade que sofreram contra si próprios. Outros, mais integrados, ao adaptar-se à secura emocional, sem tempo nem espaço para deixar fluir as emoções, tornam-se carentes e (co)dependentes: naturalmente ricos e abundantes transformam-se em vampiros afectivos ao apropriarem-se, sem querer, de sentimentos alheios.

Capital emocional

As emoções traduzem uma forma de inteligência própria - são um capital altamente desvalorizado mas com uma riqueza que pode ser extraída pelo intelecto, como aconselhou Omraam. Para que a falta de autonomia se transforme em responsabilidade emocional, para que haja higiene emocional, através da expressão moderada que dissolva as emoções mais densas e as transmute em sentimentos positivos, para que as feridas e traumas emocionais se curem e os abusos emocionais se dissipem, para que se promova o bem-estar e a disponibilidade emocional, se satisfaçam as necessidades afectivas e a vida emocional deixe de ser tabu, para que a vida não seja apenas preenchida com cifrões mas também com significados, para que haja serenidade emocional, em equilíbrio dinâmico, para que a chantagem e a hipocrisia emocional diminuam é preciso que o pudor sentimental, como identificado por Gilles Lipovetsky, acabe e dê lugar à integração emocional.

Abílio Oliveira indica que há que, sem as banalizar ou exagerar, as entender, saber adequá-las e dirigi-las pois dado o seu potencial para refinar a mente e despertar o pensamento abstracto contêm a força de levar a agir para e pelo bem. Como se sabe um ser um humano emocionalmente adormecido é capaz de cometer as maiores atrocidades, daí a importância que António Damásio lhes dá ao nível do desenvolvimento moral.

Inteligência emocional

As emoções estão ligadas à memória implícita. A sua génese está no cérebro límbico, responsável pela aprendizagem e memória. Como Lucienne Cornu demonstrou a percepção é subjectiva, é um conhecimento que reflecte o estado emocional e depende dos filtros internos, e a interpretação não é mais do que o tratamento da informação segundo a memória, habitualmente baseada nas sensações de medo/desejo.

Reflectidas nas águas dos sonhos e ligadas ao corpo electromagnético, conotadas, nas antigas sociedades matriarcais, com as plantas e a adolescência, entre os sete e catorze anos, as emoções são habitualmente mais profundas do que as ideias e mais fortes e poderosas do que os factos, influenciando ambos – o nível mental e comportamental. Também os (pre)sentimentos costumam ser mais reais e poderosos do que aquilo que se está a fazer, as acções visíveis.

Abrir o coração

Hoje, é possível inaugurar um tempo de novas descobertas marítimas, não já ao nível do mar exterior mas das águas internas, até aqui encobertas. Como vimos, ignorar as emoções além de não conduzir ao seu desaparecimento só as vira, quais águas revoltas, contra a própria pessoa, traduzindo-se quantas vezes em “stress” e até a exaustão emocional. Se em vez de insistir em obliterá-las - por medo de se magoar, o que só conduz ao enfraquecimento e a doenças coronárias, através das quais o coração dá sinais de existência – os seres humanos se se empenharem em conhecê-las, pelo exame introspectivo e concentração, elas irão reforça-los e devolver-lhes a felicidade e a verdadeira segurança

Com moderação, sem mastigar de menos ou triturar demais, o ressentimento dará lugar à compreensão, à aceitação, ao perdão e à libertação. Poupando-a e aproveitando-a, os seres humanos podem, assim, usar a energia emocional, disponível gratuitamente, não só a seu favor como também em benefício dos outros, já que ficam mais enriquecidos para também os nutrir com sentimentos positivos.

Com a consciência de que as emoções ajudam não só a comunicar, a (sobre)viver, a aprender e a mudar, mas também alertam para as necessidades humanas, permitem avaliar os estímulos aos quais respondem, assinalando os acontecimentos significativos e apoiando a tomada de decisões, pode-se mudar o paradigma do medo de sentir para a confiança naquilo que se sente; pode-se ir além do envolvimento emocional e promover o seu progresso, aumentar a competência e habilidade emocional, reconhecer as emoções em si próprio e nos outros, possibilitar a telepatia, permiti-las na vida pública, como defende a Ética do Cuidado, e tornar a sua expressão receosa e indirecta algo (ultra)passado.

* Anos 70 [1] AIVANHOV, Omraam – Pensamentos quotidianos, Publicações Maytreia, 2012 – 16/11/2012.

Etiquetas: , ,