quarta-feira, 19 de junho de 2013

O Caminho do Yoga

Wikipédia
Antes do Dia Mundial do Yoga, publicamos um artigo originalmente editado na revista "Biosofia", no ano 2000[1]. Nele o autor, diácono da Igreja Católica Liberal, explica quais são os principais tipos e princípios do Yoga.

Texto João Gomes 

Olhamos à nossa volta, e sentimo-nos insatisfeitos com as respostas que encontramos nas várias áreas do conhecimento e da chamada fé. Percebemos, no âmago do nosso ser, que chegou a altura de desvendarmos os mistérios e os véus que cobrem a vida. É ai, num pedaço de milagre, surge o início da resposta, vinda muitas vezes por “acaso”, numa conversa, num livro ou num filme.
Para muita gente, o yoga é a resposta para essas quatro questões fundamentais. [Quem sou eu? O que faço aqui? Donde venho? Para onde vou?]. Infelizmente, também para alguns, ele é a teia que os sufoca e os ilude.

O que é o yoga?

Uns dirão que é uma espécie de ginástica, de acrobacia oriental; outros, mais perto da verdade, afirmarão que é uma filosofia de vida; outros ainda, que é uma forma de atingir a paz e a libertação da roda dos nascimentos. A resposta a esta questão, encontra-se na raiz etimológica do termo. O vocábulo yoga é uma palavra do sânscrito e deriva do termo yug, que quer dizer união, unir. No yoga, o aspirante pretende unir o seu eu inferior (a personalidade, o anjo lunar, o quaternário, o subconsciente e o consciente) ao seu Eu Superior (o Cristo Interno, a alma espiritual, o Ego, a tríade, o anjo solar, atma, purusha, o supraconsciente). Assim, o yoga faculta-nos os meios, as técnicas e os instrumentos, para chegarmos a este fim.
Será interessante fazermos aqui um pequeno parêntesis e compararmos a psicanálise ao yoga. Na primeira, temos uma metodologia que nos permite “descer” ao subconsciente e analisar e conhecer o seu conteúdo; no segundo, apresenta-nos uma técnica que nos permite “subir” ao supraconsciente e contactar com o seu mundo.

O folclore da pseudo-espiritualidade

São muitos, infelizmente, os falsos gurus, os falsos mestres, que pululam por aí. Com um ar mais ou menos oriental, com os olhos mais ou menos em bico, com uma conta mais ou menos choruda, estes vendedores de sonhos apresentam-se como salvadores, avatares encarnados, que apenas com um olhar, são capazes de ministrar as mais altas iniciações. E o ocidental, guloso por algo diferente, ansioso por poderes psíquicos e sensações místicas e ocultas, aspirando à paz enlatada do pseudo-nirvana, corre, com o olhar húmido e a bolsa aberta, para os braços do seu exótico e sorridente guruzinho, o papá espiritual.
Poucos são os Instrutores que, com a humildade da experiência e do conhecimento, sabem que eles não são mais do que alunos no meio de alunos; auxiliares no processo de descoberta, que o estudante fará no seu percurso espiritual, do seu Mestre Interno (o Cristo Interno). É precisamente esse mestre interno, que apresentará o discípulo ao seu (verdadeiro) Mestre, esse Ser Excepcional, flor rara das altas montanhas, que obviamente, não frequenta ginásios da Nova Era, grupos “esotéricos e iniciáticos” (que, de esotérico só têm o chapéu e, de iniciático, o avental) e ashrams poeirentos e anandicos.
Desculpem os leitores, se causticamente desanco certo folclore ligado ao yoga e a movimentos afins. Estar calado é ser cúmplice. Amo demasiado o yoga e a filosofia oculta, para suportar, sem gritar e sem protestar contra, o modo como certos gurupitecos usam e abusam da Doutrina Sagrada. Nada tenho contra aqueles que, competente e honestamente, vivem em exclusivo para o ocultismo, cobrando o seu justo salário. Lá porque se é espiritualista, não quer dizer que o indivíduo não tem o direito, e o dever mesmo, de viver com dignidade. Todavia, o que eu não posso de modo nenhum concordar e entender são: os luxos, a baba vaidosa e matreira; os excessos; o culto das personalidades; os “segredos de Polichinelo”; a ignorância primária; a exaltação do vulgar e da ocultite; a exploração da aspiração sincera e legítima; o fanatismo sectário – e os negócios chorudos que florescem à volta do sagrado. Quem o faz desconhece a regra, quem o faz “marimba-se” para o espiritual.
Quando despertamos para a espiritualidade, uma das primeiras questões que se coloca na nossa mente, é a de sabermos qual o tipo de yoga que devemos seguir. A resposta a esta dúvida encontra-se na auto-análise prévia, que devemos efectuar. O tipo de yoga a escolher vai depender de três ou quatro factores essenciais: a idade; a raça (no sentido oculto); as polarizações; e o temperamento do praticante ou raio predominante.

Os sete sistemas de yoga

De um modo geral, consideram-se sete grandes yogas:

O Hatha Yoga, método indicado para adultos polarizados no seu corpo físico (tipo lemuriano) e nos chakras inferiores (raiz ou sacro), imaturos emocional, mental e animicamente; crianças (quando devidamente adaptado); e, predominantemente, pessoas de temperamento do 1º raio (tipo voluntarioso e determinado), 4º raio (tipo artístico, com grande sensibilidade para a estética, beleza e harmonia) e 7º raio (organizado fisicamente, valorizando os detalhes e os pormenores). O praticante deste sistema utiliza os exercícios físicos (asanas) e os exercícios respiratórios (pranayama) para atingir os seus fins. Segundo esta metodologia, a mente (vritti) é governada e dirigida pelo prana (energia vital), ou seja, o princípio inferior governa o superior. Este yoga é o mais antigo de todos, e tem as suas raízes na Lemuria e na 3ª raça, quando a humanidade atravessava o estágio infantil. Acrescente-se ainda que os Mestres e os grandes iniciados desaprovam a prática deste sistema, argumentando que: o nível evolutivo actual e médio da raça; os excessos circenses e acrobáticos desta disciplina, e algumas práticas de recuperação do controlo consciente de certos órgãos internos, que naturalmente, ao longo do processo evolutivo, passaram para a direcção do inconsciente – são tudo razões que desaconselham, claramente, a prática deste marga. Acrescentamos por fim, que a espiritualidade não é, nem pode ser, um circo, um espectáculo!
O Karma Yoga, metodologia de tipo generalista recomendado a todos os tipos de yoguis. Este sistema é um dos mais seguros e eficientes, exigindo do praticante uma personalidade (corpos mental, emocional e físico) equilibrada e bem desenvolvida, alinhada com a alma ou o Eu Superior. Os Chakras inferiores (raiz, sacro e solar) direcionam-se para o chakra cardíaco, e funcionam em sintonia com ele. Este é o yoga da acção inspirada, do serviço, da entrega. Se tivermos em conta que iniciamos um ciclo regido pelo 7º raio (vector que governa o plano físico) e que, encarnados, temos o dever de utilizar o corpo mais denso no serviço ao plano divino, então percebemos a afirmação inicial de que este yoga é do tipo generalista. Os discípulos do 3º raio (inteligentemente activos e adaptáveis), do 7º raio e do 1º, sentem-se especialmente atraídos por este caminho. O Senhor Cristo Maitreya, Gandhi, Annie Besant e Madre Teresa de Calcutá podem ser considerados exemplos superiores deste tipo de percurso.
O Laya Yoga é um sistema utilizado pelos iniciados (do 2º grau, preparando-se para a 3ª iniciação) sob a direcção do seu Mestre. Neste sistema, o discípulo medita e reflecte nas características e natureza dos chakras elevando, nas últimas etapas, a energia de Kundalini até ao último centro, o chakra coronal. Num breve parêntesis, esclareço aqui que esta metodologia não tem nada a ver com qualquer tipo de exercício tântrico ou sexual. Se assim fosse, não faltaria por aí grandes iluminados. Esta prática exige que o iniciado tenha já algum desenvolvimento do princípio atmico ou espiritual e um certo alinhamento, ainda que mínimo, com a mónada. Este é um dos yogas mais perigosos, e que provoca um grande fascínio nos aspirantes. Contudo, nunca é demais repetir que são a consciência, a meditação, autodisciplina, o serviço e a maturação espiritual que devem levar ao despertar dos chakras e não o contrário.
O Bhakti Yoga é o marga do devoto, o caminho do coração, a via do místico, recomendado a todos aqueles que estão polarizados no seu corpo emotivo e no chakra do plexo solar (tipo atlante). É também o método indicado para os adolescentes e jovens quando devidamente adaptado na sua linguagem e técnica. O devoto, através de cânticos, mantras, orações e cultos, dedica todo o seu amor à sua divindade tutelar, ao seu Mestre, procurando unir-se misticamente ao seu objecto de adoração. É minha opinião que este yoga deveria ser adaptado para servir o homem de hoje. Provavelmente deveria incluir-se nele o amor à natureza, o amor ao próximo e o amor às hierarquias espirituais e angélicas. Isto permitiria ao grosso da humanidade direcionar as suas energias emotivas e afectivas, que predominam na estrutura psico-espiritual da maior parte de género humano, para fins e causas superiores. A médio e longo prazo, permitiria a solução do problema ecológico (a questão ambiental é não apenas uma problemática da informação e de vontades política e económica mas, sobretudo, o resultado da falta de amor, da falta de integração do homem nos reinos naturais, da perda do sentido da sacralidade da vida e da reverência pela Terra). Daí a urgência de um yoga verde, agente integrador do homem e da natureza, de um yoga humanista, que permita a fusão do ser humano no corpo maior da humanidade; e de um yoga angélico (não quero com este conceito alimentar certas práticas tão habituais nos tempos de hoje, que mais parecem negócios com o céu) que facilite o contacto do homem com os reinos angélicos e dévicos. Importa esclarecer que não se tratariam de três yogas diferentes mas de três ramos do mesmo sistema, o yoga do amor, o bhakti marga. Os temperamentos do 6º raio (tipo devoto, dedicado e idealista) e do 2º raio (características amorosas e sábias) sentem-se profundamente tocados por este yoga. Exemplos superiores deste caminho terão sido S. Francisco de Assis, S. João Apóstolo e Ramakrishna.
O Jnana Yoga ou o marga do conhecimento, da sabedoria e da iluminação. Nele, o discípulo procura unir-se à divindade através do conhecimento espiritual. As suas disciplinas compreendem o domínio dos sentidos, o controlo da mente, o estudo e a meditação no Espírito Omnisciente (a Mente Universal), de modo a que, com a prática, o yogui atinja a iluminação, transformando o conhecimento em sabedoria. Este é o caminho adequado a todos aqueles que estejam polarizados no corpo mental e no chakra laríngeo (tipo da 5ª Raça-Raíz): os intelectuais e os estudiosos. Os discípulos do 2º, 3º e 5º (tipo científico) raios sentem-se especialmente atraídos por este sistema. Exemplos típicos e elevados deste yoga terão sido o Senhor Buda Gautama, Helena Blavatsky, Teilhard de Chardin, Alice Bailey, Pietro Ubaldi e I.K. Taimni.
O Raja. Este é o caminho real (raja). É o marga que sintetiza todos os outros – não nas práticas, mas nos resultados. A prática essencial deste caminho baseia-se na meditação. O discípulo, ao longo de oito passos, vai aprimorando o seu carácter; rectificando a sua postura; dirigindo a sua energia vital; controlando os seus sentidos, aprendendo a pensar e a meditar; e, por fim, no último estágio, mergulha no seu Eu Superior, identificando-se gradualmente com a sua essência espiritual. Recomenda-se este yoga a todos os discípulos que têm já o seu quaternário inferior (a personalidade) razoavelmente coordenados e estão polarizados no chakra frontal (tipo superior da 5ª Raça-Raíz). Os estudantes dos 5º e 1º raios sentem-se sintonizados com este método.
O Agni Yoga. Muito pouco se sabe deste percurso espiritual. Conhece-se apenas que ele será o yoga da próxima raça, a Sexta. O discípulo deste yoga tem já o seu corpo búdico e intuitivo razoavelmente desenvolvido e encontra-se polarizado no chakra cardíaco e no centro correspondente da cabeça. Este é a via dos discípulos avançados e dos iniciados. Muito sinteticamente, poder-se-á dizer que ele é o caminho da vida, da síntese espiritual, do fogo, da intuição e do sacrifício. O 2º e o 4º raios regem este percurso.

Os primeiros passos

Entende-se no sistema preconizado por Pantajali, o sistematizador da Filosofia Yoga, que este caminho espiritual deva ser percorrido ao longo de oito passos, ramos, partes ou angas. Não deixa de ser curioso que, também o sistema budista de libertação ou emancipação espiritual – O Nobre Caminho Óctuplo – seja composto por oito passos, e que, os raios que governam a 5ª Raça-raiz, o actual tipo evolutivo liderante, sejam o 3º e o 5º, que somados perfazem oito. Aliás, os oito passos do yoga estão divididos em dois grupos: o yoga externo, que constitui os cinco primeiros passos, e o yoga interno, os três últimos. Coincidências?
Os primeiros dois passos, yama e niyama, consistem numa série de disciplinas ou valores de carácter moral, que perfazem o total de dez, tal como acontece nos mandamentos da tradição judaico-cristã. Os objectivos destes princípios são o de preparar o yogui para, de uma forma bem estruturada eticamente, poder enfrentar os desafios que a prática mais profunda da meditação lhe vai colocar no seu caminho. Para além disso, estes valores promovem: o desenvolvimento das correctas relações com o homem, com a natureza e com Deus; a cristificação da aura; a purificação dos chakras inferiores e dos corpos da personalidade; a elevação das forças dos centros inferiores, para os chakras superiores.

Os cinco Mandamentos

Yama«Há apenas um caminho para a senda, e só bem no seu final se pode ouvir a “A Voz do Silêncio”. A escada pela qual ascende o candidato é formada de degraus de sofrimento e de dor, que só podem ser aplacados pela voz da virtude. Ai de ti, discípulo, se restar um só vício que não tenhas deixado para trás. Pois então a escada cederá e deitar-te-á abaixo; as suas pernas estão apoiadas no profundo lodo dos teus pecados e falhas e antes que possas tentar atravessar este largo abismo de matéria, tens de lavar os teus pés nas “águas da renúncia”»[2].
Ahimsa – Inofensividade ou Não Violência. Todo o yoga se fundamenta, se enraíza no valor, no voto da Inofensividade. O yogui deverá praticar a não violência em todos os pensamentos, palavras e actos. Este é o mandamento básico do Yoga. Ahimsa baseia-se no conhecimento, que o yogui tem, da unidade essencial, da sacralidade de toda a vida e de todo o Cosmos. Para o yogui, todo o Universo é o corpo, é o organismo da divindade, de Ishvara.[3] Por isso, ele deve pôr em todos os seus gestos, em todas as suas acções, o amor que lhe vai na alma e reparti-lo por toda a criação. Amando o Criador ele ama as criaturas. Esta é a Lei máxima de todo o yoga.
Disse Gandhi: «A não violência é uma força da Ordem Superior. É a força espiritual, o poder de Deus em nós. Participamos da divindade na medida em que manifestamos a não violência».
Brahmacarya – Controlo Sexual, Criatividade Mental. Este, devido à nossa incapacidade de perceber o lado interno da vida, é talvez um dos votos mais difíceis de entender. Brahmacarya não nos pede exactamente, como tradicionalmente se afirma, que deixemos de ter actividade sexual mas que apliquemos principalmente a energia reprodutiva, em acções de criatividade mental. Quando o yogui é criativo no modo como se veste, no modo como cozinha, na maneira como fala e se expressa, na sua profissão, enfim, no modo como vive e se manifesta, a sua actividade e necessidade sexual diminuem naturalmente. A energia criativa, que até aí se expressava essencialmente ao nível da libido, ao nível sexual (chakra sacro), passa de modo gradual a expressar-se ao nível mental (centro laríngeo).
Asteya – Honestidade, não roubar. A honestidade não significa, apenas, não roubar (no sentido legal do termo); quer dizer, sobretudo, não nos apropriarmos daquilo que não nos pertence. O discípulo não afirma ter escrito, dito ou feito aquilo que não realizou; não aceita uma recompensa por ter cumprido o seu dever; não aceita privilégios que não lhe são devidos.
Deixo aqui uma afirmação de Gandhi para meditação: «Todo aquele que possui coisas de que não precisa é um ladrão».
Aparigraha – Desapego. Ausência de Desejos. Sobriedade, Simplicidade. Todos os grandes yoguis, iniciados e iluminados, foram simples. Foram simples na forma como viveram, foram simples na forma como transmitiram os seus ensinamentos (o que não quer dizer que as suas doutrinas fossem simplistas!). Foram sóbrios nas suas posses, foram sóbrios nos seus desejos pessoais. Este mandamento, aparigraha, continua o anterior. O yogui não só é honesto, como também é sóbrio. Deseja ele apenas o necessário para a sua sobrevivência e dos seus, e o estritamente indispensável para o cumprimento da sua missão.
Satya – Veracidade, Sinceridade. Também aqui deverá entender este mandamento de uma forma mais abrangente do que o simples não mentir. Satya implica a abstenção de exageros e equívocos no pensamento, palavra e acção; o yogui deverá, consequentemente, ser verdadeiro e rigoroso nestas três áreas. Ele não deve pretender ser aquilo que não é; não deve pretender fazer aquilo que não pode ou não deve realizar.

As cinco regras; Niyama

TapasAutodisciplina. Quando abordamos esta regra e meditamos nela, percebemos que tem pelo menos três níveis de interpretação. A primeira, tradicional, resume-se à prática de austeridades, tão em voga nos regimes monásticos da Idade Média no Ocidente e nos Sinyasins da Índia durante a Idade de Peixes. Vemos assim grandes figuras do Oriente e do Ocidente dedicarem-se a este tipo de práticas, que tinham como objectivo o desenvolvimento da vontade e que, porém, levavam muitas vezes ao prejuízo do corpo físico. Trata-se de um tipo de disciplina pisciana, com raízes na Lemúria, e que já não tem nenhum sentido no tipo médio do yogui actual.
O segundo nível manifesta-se como autodisciplina(s) que, normalmente, são aquelas de que gostamos menos. É nestes sectores que o yogui deve autodisciplinar-se e desenvolver a sua vontade. Passarei a dar alguns exemplos: se o yogui tem dificuldades em se levantar da cama pela manhã, deverá desenvolver a sua vontade ou, dito de outro modo, deverá assumir como tapas erguer-se da cama ao primeiro toque do despertador; de uma tarefa doméstica lhe é extremamente desagradável, como tapas deverá efectuá-la com afinco e brio, se tem uma dificuldade enorme em chegar a tempo aos seus compromissos, como tapa fará um esforço para chegar 15 minutos antes. O “truque” de tapas está na concentração ou focalização da mente na tarefa disciplinadora. Se a mente focalizada ocupar todo o espaço da nossa consciência, não daremos espaço ao nosso corpo emocional para interferir e dizer: “Que seca! Que tarefa mais maçadora” Se, pelo contrário, deixarmos a mente solta, permitiremos ao nosso “amigo” emocional interferir na actividade, protestando constantemente, até nos convencer que, de facto, a tarefa em mãos é uma “chatice” e que o melhor é adiá-la para depois. Voltamos a repetir: a chave de tapas reside na concentração da mente. Se habituarmos a mente a identificar-se com uma determinada actividade, chegará o tempo em que a tarefa, que era absolutamente “intragável”, passará a ter o seu quê de interessante.
A forma superior de tapas denomina-se vontade para ou do bem. Esta energia poderosíssima tem a sua raiz na mónada ou Eu Divino e no corpo átmico ou espiritual, seguidamente, expressa-se no lótus egóico, ao nível das pétalas do sacrifício; e finalmente ancora no duplo etérico através do chakra coronal, via corpo mental. Só um iluminado com a terceira ou mais iniciações tem a capacidade de expressar a verdadeira vontade do bem. Talvez uma das fórmulas espirituais que mais revelem o mistério desta força esteja contida numa oração que se encontra no livro "Folhas do Jardim de Morya I” e que reza assim: «Ó Senhor, dá força ao meu coração, e poder ao meu braço, porque sou Teu servo. Nos Teus raios, aprenderei a verdade eterna do Ser. Na Tua voz, escutarei a harmonia do Mundo. Entrego-Te, ó Senhor, o meu coração, sacrifica-o em favor do Mundo».[4]
Svadhyaya – Estudo. Também esta regra espiritual tem vários aspectos. Tradicionalmente, considera-se que uma das regras a observar pelo yogui consiste no estudo das obras que abordam o tema do yoga e da espiritualidade. E assim é. Se, de facto, o yogui não estudar os grandes autores e Instrutores da espiritualidade, como poderá ele querer fazer um trabalho sério nesta área? É como pretender tocar superiormente piano, sem estudar os grandes compositores; ou pintar para a posteridade, sem se embrenhar nos grandes criadores; ou querer exercer medicina, sem frequentar uma boa Universidade e estudar Anatomia, Fisiologia ou Patologia. Não obstante, há alguns aspirantes que pensam que podem praticar yoga ou tornarem-se ocultistas ou esoteristas sem meditarem nas grandes obras da espiritualidade. Dizem eles, ocamente, sem qualquer tipo de consciência do que estão a dizer, que a sabedoria tem de vir de dentro. De duas uma: ou deveras vem de dentro, e então pergunta-se “onde é que ela está?”; ou, então, se não vem de dentro, como realmente acontece, que humildemente se pegue nos livros e se estude! Não nos coloquemos em bicos de pés; só os Grandes Iniciados podem afirmar que a sabedoria lhes vem de dentro. E tal apenas é possível porque durante muitas vidas passaram muito tempo aprendendo directamente com os Mestres da Sabedoria e da Compaixão e os seus discípulos, ou investigando e reflectindo nas grandes obras da espiritualidade.
Outro aspecto de svadhyaya consiste no estudo e na análise da sabedoria e da cultura do tempo onde o yogui está inserido. O yogui é um discípulo que se está a treinar para vir a ser um Mestre da Sabedoria e da Compaixão, um Jivanmukta. Para isso, ele precisará de ter uma cultura superior, devendo conhecer com algum pormenor todas as grandes correntes de pensamento do seu tempo e da história. Como poderá ele ser um posto avançado dos Grandes Mestres e da Doutrina Sagrada, se não conseguir conversar e comunicar, pelo menos ao mesmo nível, com os grandes intelectuais e líderes do seu tempo? É por isso que todos os Iniciados e iluminados foram homens e mulheres de superior cultura. Assim aconteceu com Blavatsky, Annie Besant, Steiner, Alice Bailey, Pietro Ubaldi e tantos outros.
O terceiro aspecto tem a ver com o estudo e a meditação nos símbolos. Para o yogui, o mundo e os acontecimentos da vida são os efeitos de um mundo interior, são símbolos dos mundos superiores. Interessa-lhe sobretudo perceber as forças e as energias que estão por trás de um acontecimento – mais do que, propriamente o acontecimento em si. Ele procura diariamente penetrar, cada vez mais, no mundo das causas, nos planos dos arquétipos.
Por fim, svadhyaya também se expressa como auto-estudo, autoconhecimento, análise das motivações, impulsos, forças e energias que nos fazem mover. Esse autoconhecimento manifesta-se essencialmente pela auto-observação que realizamos no dia-a-dia, e em especial à noite, no exame de consciência.
Isvara-pranidhana – Amor Crístico. Este amor, ao contrário do desejo e do amor pessoal, não está condicionado, sendo absolutamente altruísta e fraternal. O expoente máximo deste amor na história foi o Cristo, o Avatar ou o Senhor do Amor. Na sua vida, Ele expressou de uma forma única o sentido, a grandeza e a entrega do amor espiritual.
Isvara-pranidhana não é apenas um sentimento; ele é também serviço, acção e auto-sacrifício. É serviço prestado altruisticamente à humanidade, é serviço sacrificial prestado ao planeta, é serviço manifestado incondicionalmente ao próximo, é serviço doado impessoalmente ao Plano Divino e é serviço entregue abnegadamente à Hierarquia Oculta, aos Mestres.
Sauca – Pureza. A propósito de sauca passo a citar Taimni. «Antes que sejamos capazes de compreender como podemos purificar a nossa natureza devemos clarificar as nossas ideias acerca da pureza. O que é a pureza? De acordo com a filosofia do yoga todo o Universo, visível e invisível, é uma manifestação da Vida Divina e é impregnado pela Consciência Logóica. Para o sábio iluminado ou santo, que desenvolveu a sua visão espiritual, tudo, desde o átomo até a Ishvara de Brahmanda (O Logos Cósmico ou Solar), é um veículo da Vida Divina e, por isso, puro e sagrado. Assim, em termos absolutos, nada pode ser considerado impuro… Deste modo, purificação quer dizer a eliminação de todos aqueles elementos e condições que impedem os veículos de exercer as suas funções e atingir os seus objectivos. Para o yogui, o propósito é a autorrealização através da união da sua consciência individual com a consciência do Supremo ou a realização de Kaivalya (Libertação, Unificação), tal como a apresenta os Yoga Sutras. Para o yogui, Purificação significa assim, especificamente, a transformação de veículo, de modo a que ele possa servir crescentemente como instrumento para esta unificação…
Todos os veículos inferiores de Jivatma estão constantemente a mudar e a purificação consiste na substituição gradual e sistemática do material comparativamente grosseiro por um tipo mais refinado de matéria. No caso do corpo físico, é comparativamente simples e pode ser efectuada fornecendo ao corpo a matéria adequada na forma de comida e bebida… A carne, o álcool e muitos outros acessórios da dieta moderna tornam o corpo físico completamente inútil para a vida yóguica e, se o aspirante embruteceu o seu corpo através do uso destes alimentos e bebidas, deve sujeitar-se a um período prolongado de uma dieta cuidadosa, para se ver livre do material indesejável e tornar o seu corpo suficientemente refinado.
A purificação dos veículos subtis, que servem de instrumentos para a expressão dos pensamentos e emoções, é conseguida através de um processo diferente e mais complicado. Neste caso, as tendências vibratórias (inferiores) são gradualmente modificadas pela exclusão de pensamentos e emoções indesejáveis substituindo-os constantemente e persistentemente por pensamentos e emoções de natureza superior. À medida que as tendências vibratórias destes veículos mudam, a matéria dos corpos também muda “pari passu” e, depois de algum tempo, se o esforço é continuado, os veículos estão adequadamente purificados. O teste de uma purificação real é fornecido pela tendência vibratória normal que encontramos no veículo. Fácil e naturalmente uma mente pura reflecte pensamentos puros e sente emoções puras, e torna-se difícil para ela entreter-se com pensamentos e emoções indesejáveis; tal como, do mesmo modo, para uma mente impura é difícil produzir pensamentos e emoções superiores e nobres»[5].
A purificação espiritual envolve, assim, três tipos de disciplinas: uma, material, que implica uma dieta tendencialmente vegetariana, a supressão de tóxicos (tabaco, álcool, drogas) e um contacto íntimo com os elementos[6]; outra, psíquica, envolve todo um trabalho de vigilância dos pensamentos e das emoções, de modo a que o yogui não deixe penetrar e habitar na sua mente qualquer sentimento indigno do seu “Cristo Interno”.
Samtosa – Alegria. Como já deve ter percebido, a verdadeira alegria não tem a ver com as condições que nos rodeiam: ela desenvolve-se e cresce apesar das circunstâncias e dos condicionamentos que nos envolvem. Contrariamente, a felicidade depende das circunstâncias exteriores, sobretudo da satisafação ou não dos nossos desejos. Memorize esta chave da alegria, apesar de… Alice Bailey escreveu, a propósito de samtosa, o seguinte: «O contentamento produz uma condição psíquica que promove a paz mental, é baseado no reconhecimento das leis que governam a vida e fundamentalmente na Lei do Karma. Ele produz um estado mental onde todas as condições são aceites como correctas e justas, e como aquelas nas quais o aspirante pode melhor realizar e alcançar o propósito (superior) da sua vida. Isto não implica qualquer tipo de acomodação ou submissão mas, sim, o reconhecimento das condições do momento, uma avaliação das oportunidades, de modo a que formem a fundação e a base de todo o progresso futuro»[7]
*Diácono da Igreja Católica Liberal; Coordenador da Unidade de Serviço Aquarius, inspirada predominantemente na Boa Vontade Mundial.
Bibliografia:
BAILEY, Alice – The light of the soul. Lucis Press Ltd.
BLAVATSKY, Helena – Glossário Teosófico. Ed. Ground.
CLUC – O Tempo das Multidões. Centro Lusitano de Unificação Cultural.
GOMES, João – Curso de Raja Yoga – 1º Grau. Policopiado.




[1] . GOMES, João – Yoga – O Caminho Sagrado da Vida in Biosofia, nº5, Primavera de 2000, pág. 57-59  e nº6,Verão de 2000, pág.31-34. [2] BLAVATSKY, Helena – A Voz do Silêncio. Editora Pensamento, pág.69. [3] Helena Blavatsky escreveu o seguinte no Proémio da Doutrina Secreta: «A Doutrina Secreta ensina a identidade fundamental de todas as almas com a Alma Suprema Universal, sendo esta última em aspecto da Raiz Desconhecida… Por isso dizem os hindus que o Universo é Brahman e Brahmâ; porque Brahman está em todo o átomo do Universo, sendo os seis princípios da natureza a expressão ou os aspectos vários e diferenciados do Sétimo e Uno, a Realidade única do Universo, seja (ele) cósmico ou micrcósmico…» [4] Convido os leitores, com um conhecimento mais profundo do ocultismo, a fazerem o seguinte exercício: substituam na fórmula o termo Senhor por mónada, coração por lótus egóico; braço por personalidade; raios por antahkarana; e voz por corpo búdico ou intuitivo – e uma nova luz poderá brotar sobre este assunto. [5] TAIMNI, I.K. – The Science of Yoga, Quest Book, pág. 221-224. [6] Para alguns ocidentais, poderá parecer algo radical e tipicamente oriental este tipo de visão a propósito das disciplinas de purificação. Devo dizer contudo, que estas disciplinas eram e são tão comuns quer no Oriente, quer no Ocidente. Jesus, no «Evangelho da Paz» (Texto Apócrifo do Séc.I da nossa era) apresenta o mesmo tipo de soluções. [7] BAILEY, Alice – The Light of The Soul, Lucis Press Ltd. , pág. 189.

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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

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Próximo do Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, ponderamos, neste texto escrito há mais de dois anos, a necessidade de redefinir prioridades e encetar a partilha de recursos.

Texto Isabel Mota
A partir de agora não vai dar mais para continuar com base no argumento de que somos pobres a fechar os olhos à realidade e a não ajudar os outros. Uma parte significativa das pessoas dos países desenvolvidos vão ter dois caminhos: ou voluntariamente vão partilhar o que têm com os outros, de preferência o seu próprio tempo, elas próprias, ou involuntariamente serão roubadas ou irão à falência. Muitas pessoas só acordarão para a importância da solidariedade quando dela necessitarem: os novos pobres de gravata, por exemplo, que agora têm de recorrer à sopa dos pobres.

Convencemo-nos, durante muito tempo, de que o que tínhamos era pouco (haveria sempre alguém que tinha mais), de que éramos pobres. Essa insuficiência vem de dentro, de uma falta de amor próprio, de falta de (se) amar (falo de amor, não de posse ou desejo). Esse sentimento jamais será eliminado através de uma recompensa externa – muito dinheiro, muito prestígio ou poder. E dada a carência será sempre aquém tudo o que se tiver acumulado. Não haverá euros, milhões de euros que nos livrem do sentimento de insegurança; pelo contrário: crescerá, até pelo sentimento de o perder, o medo de o perder.

 
Por isso as pessoas foram acumulando créditos para adquirirem carros, vivendas, férias, tecnologia... Não se limitaram ao tradicional, “quem não tem dinheiro não tem vícios”. Quiseram ter mais, muito mais do que podiam para se compensar (do desamor) e para obterem o reconhecimento dos outros. Criámos uma sociedade em que só é relevante quem tem um montante de dinheiro significativo, não interessando muito como foi adquirido, à custa da exploração de quem, ou mesmo de roubo, nomeadamente do erário público. Deixámos de acreditar na dignidade de todos os seres, deixámos de respeitar o pobre, ainda que seja uma pessoa sábia, honesta e trabalhadora. Pobre talvez porque com valores, porque nunca quis nada que não fosse seu. Como salientava S. Paulo, devíamo-nos contentar com aquilo que temos e não cobiçar o que os outros têm.

O Estado terá de regular os negócios. Tudo tem de ter um limite razoável, até os lucros, a partir dos quais terão necessariamente de ser distribuídos pela população mais carenciada. Estabelecer um tecto onde a partir do qual tal reverta para o apoio a pessoas, famílias e instituições úteis em dificuldades. Um jogador que ganhe mais do que x, uma empresa que facture lucros superiores a y terá de reverter para o Estado. Este terá de ter como prioridade as pessoas e não as finanças. A economia ao serviço das pessoas e não as pessoas (como máquinas) ao serviço da economia.

Será intolerável a crueldade dos lucros astronómicos de empresas com exércitos de desempregados e pessoas em desespero para tentar sobreviver. Sempre houve ricos e pobres. Estamos no século XXI e agora não podemos deixar mais que pessoas morram em sequência de falta do básico: alimentação. Não podemos permitir que “grandes” empresários continuem a facturar, sem respeito, de facto pelas repercussões ambientais, danificando os recursos humanos à custa da exploração ambiental e da escravização humana, da desgraça dos outros. Esses empresários criminosos ou se suicidarão ou serão presos. A alternativa é voluntariamente partilharem os seus recursos com os mais necessitados. Temos tido, mesmo em Portugal, já alguns exemplos de solidariedade. Todos sentindo mais dificuldades vão valorizar as mãos que os ajudem.

Em tempo de recessão, vamos ter de redefinir o que é básico, essencial, e o que é um luxo, dispensável. Todos os agentes. O Estado também. Este pode não ter dinheiro para os luxos, mas para o essencial terá de ter: a educação (informação), a saúde pública, a alimentação. Terá de regular. Há muito distribuidor a enriquecer à custa do produtor e do consumidor. Tudo terá que ser reequacionado em termos de escala. Continuará a haver o muito grande, a grande escala, mas terá de haver espaço para a pequena escala: a pequena empresa, o pequeno produtor, o pequeno comércio.

O próprio Estado chegará à conclusão que tem recursos mais do que suficientes, tem é as prioridades trocadas. Tem de se investir no desenvolvimento humano e não no crescimento económico. Além de que toda a crise económica não passa de um reflexo de uma crise ideológica. O que as pessoas querem e precisam é serem tratadas como tal e não como cifrões ou parafusos. Para ajudar às vezes basta simplesmente olhar e dar uns segundos de atenção: cumplicidade muito mais do que financiamento. Parar de correr atrás de mais dinheiro e admirar uma paisagem natural ou a uma face humana. Tudo o que temos a fazer é partilhar os recursos que já temos. Só assim seremos mais ricos e mais felizes. De outra forma, por mais e mais rápido que acumulemos, será apenas uma via para o insucesso, frustração e decadência.

Somos ricos quando temos o suficiente para viver com alguma dignidade – alimentação, habitação e amor. Tudo o que nos conduz à opulência, vaidade e arrogância é uma riqueza mais do que dispensável e que, por isso, a crise se encarregará de levar com o vento da mudança.

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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Prostituição mental

Antes do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa publicamos um artigo de opinião sobre a relação entre jornalistas, patronato e público.

Texto Elton Rodrigues Malta fotografia Dina Cristo


Desde há muito que a prostituição, escondida atrás da desculpa de ser um modo de sobrevivência, ganha a legitimidade de ser praticada sem ser punida. Talvez por ser uma troca de interesses entre chulo, prostituta e clientes. Ou talvez porque quem tem a função de regular esta situação, também se serve dela, não tendo portanto qualquer interesse na sua eliminação ou mudança. Agora pergunto: será que há ocupação mais antiga do que divulgar os segredos da vida dos outros? Será que há ocupação mais antiga do que espalhar boatos para denegrir a imagem?
No fundo talvez seja o jornalismo a profissão que é considerada a mais antiga do mundo. Quero com isto dizer que a grande maioria das pessoas pertencentes a este grupo profissional são prostitutas. Ora vejamos. Estas pessoas não só utilizam técnicas de sedução com o intuito de aumentar os seus lucros, como outro dos seus propósitos é dar prazer ao cliente, com a intenção de o agradar para que este volte. E uma das bases do exercício da sua profissão é supostamente a imparcialidade, sem que a emoção tome espaço. Além de tudo isto, é um facto inegável que passam vírus aos clientes.
Muitas vezes, estes só têm interesse por ser uma forma de contorno à marginalização e isolamento. À parte disso, é sabido que eles procuram algo fugaz, rápido e fácil, sem ser necessário um esforço para conquistar, então logicamente o contacto entre eles e elas nunca é feito com o intuito de gerar um fruto, apenas satisfazer um interesse. Esta profissão é exercida no sentido de saciar um capricho a curto prazo. É algo momentâneo e feito à pressa, sem tempo para uma entrega e dedicação. É algo que o mantém submisso através de promessas de mais prazer. Logicamente ele acaba por sentir uma instisfação constante, e se não lhe dá um prazer imeadiato então não vale a pena. Apenas lhe interessa receber passivamente, no fundo só quer que o sirvam. E verdade seja dita: é o cliente que escolhe como o trabalho vai ser feito.
Já os chulos, com os seus interesses económicos, são responsáveis por destruições de lares, uma vez que roubam os clientes do convívio familiar. As pessoas que trabalham para eles são pressionadas no sentido de um trabalho sujo, com duas caras, forçadas a agir sem escrúpulos apesar destas saberem as consequências dos seus actos. Na verdade elas vendem a sua dignidade a um patrão que as chula. Eles escolhem as que têm melhor aparência, tentanto acima de tudo mostrar o jovem e belo, independentemente do trabalho realizado. Pode ver-se então uma sobrevalorização da forma, enquanto o conteúdo é repetido. Os mesmos actos, as mesmas palavras, sem entusiasmo devido a fazer por obrigação. Eles estão também a investir cada vez mais na importação. Gradualmente estão a ser eliminadas as que trabalham na rua, e agora fazem um trabalho com base em boates, ou boatos, como preferirem.
Este é um meio de degredo, degenerado, onde cada um saca o que pode, serve-se do outro como um meio para alcançar os seus fins, não passando de um mero objecto. É um meio onde as doenças se propagam, onde a morte se alastra, onde a hipocrisia prolifera. Onde o natural é condicionado por regras, por obrigações e exigências. Onde um dos pilares da possibilidade de vida humana que é a informação, é violado, e é utilizado não para gerar vida ou crescimento, mas sim como meio de prender.
É um facto que não existe apenas este jornalismo. Mas é este jornalismo que “educa” as massas.

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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Em quem votar?


Em final de campanha para a eleição do Presidente da República, este Domingo, publicamos um artigo de opinião do autor de um ensaio que editamos regularmente, no âmbito do qual foi proposto um Código Deontológico do Político.

Texto José Luís Maio fotografia Dina Cristo


Arredado que tem sido o povo do exercício – inequivocamente não pleno, mas um pouco mais real, ou antes, um pouco menos ilusório – da soberania, universal e constitucionalmente consagrada, nestes últimos 25/30 anos, isto é, desde que ao primeiro Presidente da República democraticamente eleito do pós-25 de Abril foi concedido um (infelizmente fugacíssimo) lampejo de lucidez e coragem ao ousar dar posse a governos da sua iniciativa, parece adequado o momento para uma breve reflexão acerca da importância e pertinência da eleição presidencial, com uma particular incidência sobre duas perspectivas, mas tendo como pano de fundo o aspecto crucial desse mesmo acto – o Bem dos cidadãos.

A questão constitucional


Mas, antes disso, e para uma melhor compreensão do objectivo aqui proposto, merece questionamento a nossa própria lei constitucional, tanto na sua literalidade, como na interpretação psicológica, axiológica e/ou teleológica, dada a sua falta de clareza, ou mesmo – e seja-me perdoada a impertinência – puerilidade (pelo menos no aspecto meramente gramatical), no que toca a princípios fundamentais relativos ao único legítimo detentor do poder, o Povo Português, e não a uma sua e ínfima componente, nem muito menos a uma sua “não expressão” imposta por uma tendência pseudo-globalizante – e não se veja nisto uma posição xenófoba, esta sim, anti-portuguesa.
A soberania popular parece estar, inquestionável e indelevelmente, consagrada logo nos seus três primeiros artigos: “Art.º 1.º – Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa… e na vontade popular… Art.º 2.º – A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular… Art.º 3.º – A soberania, una e indivisível, reside no povo…”
Não julgo exagerada a menção ao sofisma im/explícito na letra destes artigos. De facto, a soberania popular vê-se, em primeiro lugar, afunilada, depois, coarctada e, finalmente, eliminada com a imposição (ilegítima, pois ninguém decide contra os seus próprios Bem, expectativas, direitos e deveres) nuclear, com emanações exponenciais deletérias, de ser exercida “…segundo as formas previstas na Constituição”, isto é, através dos partidos políticos, obviamente!
Ou seja, a ninguém envolvido na preparação e elaboração da Carta Magna portuguesa, como constitucionalistas ilustres e quejandos, dirigentes partidários e demais representantes da (agora conhecida por) “sociedade civil” – outra extensão burocrática do poder instituído que só serve para alargar o fosso que separa o Povo do efectivo exercício da sua cada vez mais inalcançável soberania –, ocorreu outra “forma” de poder que não esta, a sectária, cega, informe, sombria e que nos meteu “…no gosto da cobiça e na rudeza/Duma austera, apagada e vil tristeza.”(1)
Isto será caso, por um lado, para fundadamente se concluir que nada se aprendeu com os erros do passado, tenha este sido usurpado tanto por via eleitoral, seja unipessoal, seja partidária, como pela força bruta da tirania, e, por outro, para a oportunidade da emergência do que há tantos séculos tem faltado, qual seja um modelo de revigoramento ético que erradique as iniquidades das principais instituições contra os Portugueses, mas anunciadas como se fossem em seu nome – na esteira, aliás, da prática teológica (contra os seus cânones) em relação a Deus –, se necessário substituindo-as ou eliminando-as pelos crimes de lesa-pátria e, concomitantemente, responsabilizando, no mínimo com a sanção de total impedimento futuro, os autores desses atentados à soberania nacional, que é como quem diz, utilizando uma terminologia político-constitucional, soberania popular.

A adiada e dupla legitimidade do Presidente da República

Não fora a origem partidária de todos os Presidentes pós-Ramalho Eanes, ligações e cumplicidades essas perfeita e indelevelmente sanáveis por demonstrações e atitudes inequívocas de distanciamento e independência, tais como a rejeição nas suas campanhas eleitorais não só de militantes de segunda e terceira linha, como o apoio declarado e oficial dos próprios partidos anunciado pelos seus dirigentes máximos aos candidatos, e bem assim a sua exclusão das respectivas comissões de honra – como se os reais dignitários nacionais fora das lides partidárias inexistissem em número suficiente que justificasse o recurso a essas forças –, como dizia, não fora tudo isso e teríamos certamente Presidentes muito mais activos, exigentes, entusiasmantes e realmente representativos da natureza universalista dos Portugueses “d’Aquém e d’Além-mar”.
Se da escolha de um cidadão que nos represente e seja o porta-voz e símbolo do que de essencial ou profundo somos enquanto povo e enquanto República [no sentido de que o prefixo “res” que forma o nome “república” significa “realidade”] não resultar um efectivo desenvolvimento e aperfeiçoamento de toda a comunidade nacional e de cada um dos seus elementos constituintes – mais, muito mais, do que uma figura apoucada e meramente legitimadora de decisões governamentais e de deliberações dos deputados (banais correias de transmissão dos chefes partidários), mesmo que ocasionalmente delas discordante –, parece evidente que essa eleição será (mais) um acto popular inócuo e pueril. Um Presidente da República realmente (e não apenas auto-proclamado) “de todos os Portugueses”, legitimado pelos cidadãos em pé de igualdade, e não por uma particular prerrogativa ou uma pretensa representatividade, estaria numa situação ímpar para exigir dos titulares dos órgãos do poder político a aceitação de um Código Deontológico, em cuja redacção participariam todos os cidadãos com propostas válidas e pertinentes, exigente o bastante para afastar dos elevados cargos públicos os indignos, inescrupulosos e ignorantes no fundamental acerca da imensa e formidável aventura humana.

A urgência da educação

A outra área decisiva na acção presidencial, o primeiro (tenhamo-lo bem presente) representante da vontade do Povo, é a educação. O passado tem sido pródigo em ensinar às civilizações que lhe sucederam que a principal causa da decadência dos povos foi o desprezo a que ela foi votada, tendo a sua última vítima – a vetusta e paradigmática cultura e civilização grega – enfatizado, através de Platão, o papel essencial da Paideia (conceito que significa formação integral) no desenvolvimento e aperfeiçoamento da verdadeira Democracia e dos seus efeitos benéficos nos cidadãos.
Somos mesmo levados a crer que o principal factor de incompreensão e até rejeição do pensamento platónico por parte da actual pseudo-elite reside na sua incapacidade de interiorizar o simples facto de que os melhores governantes são aqueles que melhor se auto-governam, ou foram capazes de conquistar o domínio sobre si mesmos, isto é, o domínio do Eu inferior pelo Eu Superior constituintes da nossa natureza. Sem essa consciencialização, fruto de toda uma prática difícil, continuada e persistente em torno de um novo relacionamento humano, todos continuaremos a jazer inanes e embrutecidos física, mental e espiritualmente, pesem embora o avanço e a proliferação dos formidáveis recursos científicos e tecnológicos que possam rodear-nos e ocupar-nos.
Uma geração inteira foi enformada pelo sistema educativo saído da Revolução dos Cravos. Concedendo aos responsáveis políticos o benefício da dúvida pelo atraso de todas as reformas necessárias à extinção da educação repressiva do Estado Novo e de outras tentativas totalitárias de tomada do poder, o certo é que a essa geração ninguém retira o ónus da indefinição – para não dizer incompetência – dos governos “democráticos” deste último quarto de século nesta área vital e decisiva para todos nós e para o futuro de Portugal.
E quem, senão alguém com a legitimidade advinda do sufrágio popular directo, estaria na melhor posição para – também aqui – exigir aos (outros) responsáveis o desencadeamento de uma verdadeira regeneração da nossa natureza autêntica e imorredoura só possível através da educação correcta e libertadora?
A continuar nesta esteira, jamais será dada aos portugueses a oportunidade de crescer e desenvolver-se em inteligência, sensatez, bom senso, integridade, real competência técnica e científica, maturidade e cultura, a exemplo da Grande Civilização Helénica, e assim permanecerão, eternamente infantis, idiotas, egoístas e escravizados por tiranos disfarçados de democratas – pois as máscaras caem a cada dia que passa para cada vez mais cidadãos oferecidos no holocausto das “escolhas democráticas” por demais evidentes na divisão para reinar.
Eis expostas – esperamos que com não muita opacidade e o mínimo de clareza – as razões que considero fundamentais para legitimar a candidatura de um Presidente da República verdadeiramente digno de um “nobre Povo e de uma Nação valente”, ansiando pelo surgimento de alguém com provas inequívocas de serviço aos demais.

(1) CAMÕES, Luís - Os Lusíadas, X, 145

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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Liberdade de imprensa?


Próximo do Dia Europeu dos Direitos dos Jornalistas, Sexta-Feira, enfrentamos a relação, longa e íntima, entre o bloqueio e o fluxo informativo, o como e o porquê da resistência geral à novidade.

Texto Elton Rodrigues Malta cartoon Zé Oliveira

A censura e a imprensa sempre estiveram ligadas, ainda que nuns momentos mais e noutros menos. Apesar de parecerem ser inseparáveis, dedicam-se à exterminação uma da outra.
É inegável que o controlo e repressão da literatura ao longo dos tempos contribuiu para o atrofio e atraso do jornalismo português relativamente ao estrangeiro. Tal como este, há muitos outros aspectos negativos, nomeadamente os massacres e até mortes. A censura também vem colocar a população num estado de ignorância perante o qual não consegue agir.
Mas num primeiro passo há questões sobre as quais devemos reflectir:
Até que ponto é que sabemos dar uso à liberdade que temos? Seremos suficientemente respeitadores para sabermos viver sem censura, sem um controlo e sem leis? Será que sabemos usar essa liberdade sem a tornar num poder com o qual combatemos a liberdade e espaço do outro?
Tal como o dia e a noite, sendo a liberdade e a censura opostos, são inseparáveis. Como afirma Platão “os opostos são dois corpos unidos por uma só cabeça”. Desta forma, pode haver muitas mudanças nas leis mas, sempre que houver uma tendência em excesso para um dos extremos, tem de haver uma regulação externa que equilibre e faça pender, com igual força, para o outro extremo de forma a encontrar o centro.
O ser humano naturalmente resiste à mudança, devido ao forte comodismo que o caracteriza, portanto é compreensível que desde sempre tenha havido censura às ideias que vinham abalar a estagnação das sociedades. A própria população se sente atacada quando surgem novas correntes ideológicas. É recíproca a influência que imprensa e sociedade exercem. Desta forma, e tendo em conta a pouca vontade de mudança, a censura passa a ser necessária. Não que seja o caminho do progresso. Mas é o caminho que a maioria, através dos seus comportamentos, decide seguir.
Hoje em dia a censura, entre outras, é conseguida através do agendamento, não havendo liberdade para o jornalista escolher temas nem para o público escolher o que consome. Numa sociedade dita democrática (num extremo, em que se reivindica direitos e menospreza os deveres, obediência e ordem), não será também uma das formas de censura mais evoluídas e bem sucedidas?
Falta referir ainda o outro método: a sobre-informação. Com ela não só se distrai as pessoas que não sabem o que querem saber como se despista quem sabe o que quer, mas que se perde no meio de tanto lixo.
Um terceiro processo é a auto-censura, dirigida ao pensamento próprio. Esta, no nosso meio, é promovida pela exclusão social. Censuramos a censura, contudo censuramo-nos a nós próprios. Já não precisamos que ninguém nos proíba, nós tratamos disso.
Até o jornalista está impedido de ser livre devido à sua intenção de ascensão social. Não podia deixar de lembrar do caso de Mário Crespo e Manuela Moura Guedes. Não se pode censurar temas de interesse do público, mas temas importantes que não dêem lucro e temas de interesse público sim. Mas felizmente vivemos numa democracia na qual há liberdade de pensamento e expressão. Só é pena sufocá-la com a distração.

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terça-feira, 25 de maio de 2010

A Ciência da Polis II


Em reflexão, nesta segunda parte do ensaio político, iniciado no mês anterior, está a governabilidade de um país ou a legitimidade democrática.

Texto José Luís Maio fotografia Dina Cristo

De acordo com um sábio aforismo “o melhor sistema de governo é, na realidade, a democracia unânime: o governo dos melhores cientificamente escolhido por todos. Antes da perfeição, porém, uma sábia ordem (e não uma “lei de acaso”) impõe múltiplas experimentações” (semente 158 do livro do Centro Lusitano de Unificação Cultural, "Sementes do Jardim de Morya" e "Pérolas de Luz").
Na introdução deste trabalho está dito que o ordenamento – ou hierarquia – é fundamental para o êxito de qualquer objectivo que se tenha em vista e que a estrutura piramidal corresponde em absoluto a essa ideia de ordem, sem a qual viveríamos num autêntico caos.
A unidade de objectivos essenciais e comuns, que subjazem à ideia de existência de qualquer nação, é simbolizada pelo vértice da pirâmide, sendo a diversidade de caracteres, idiossincrasias e qualidades de todos os cidadãos simbolizada pela sua base. Ou seja, a unidade está em cima e a diversidade está em baixo. Não que a diversidade deva ser reprimida, atrofiada ou extinta pela unidade, mas, sim, que ela seja o modo de expressão daquela unidade, através do universo dos cidadãos que a compõem, tal como a luz branca una se manifesta através das sete cores do prisma. Trata-se, no fundo, da hoje tão falada “unidade na diversidade”.
Mas não é a isso que assistimos na nossa vida “política”, no seu sentido mais restrito, isto é, na gestão da república (res publica, “coisa do povo”) e ocupação dos cargos dirigentes da “polis”, ou país. Não existe nenhum ideal ou espírito de unidade que presida às concepções, decisões, planos de acção nas mais variadas áreas de actividade que vinculem os cidadãos e, simultaneamente, os façam sentir-se realizados na construção de um mundo melhor, de acordo com as suas mais íntimas e reais vocações, virtuosismos, esforços, temperamentos, etc. Mais: esses mesmos dirigentes não sabem sequer o que os condiciona ou determina, nem o que implica receber, da parte dos cidadãos, a confiança e a responsabilidade de os representar dignamente.
Dirão os demagogos, por certo, que em democracia vence quem tem mais votos. Mas será essa a essência da democracia? Se sim, bastar-lhes-á (aos demagogos, ditadores, sofistas) lançar – ou manter – o povo nos antros da ignorância (que, para Platão – no Timeu –, é, a par da insânia ou demência, a outra doença da alma), do egoísmo, da maledicência, do oportunismo, da exclusão, do adestramento, etc., etc., etc., e quadrienalmente instigá-lo a escolher o seu salvador/governante, que lhe dará a felicidade na terra, que a do céu lha garantirá o salvador/sacerdote.
Por outras palavras, no nível superior da estrutura, onde devia estar o vértice da pirâmide (que representa a unidade na acção consciente e responsável), está a base, ou a diversidade das opiniões (maioritariamente inconsistentes, contraditórias e pueris), dos meros interesses pessoais, das ambições egoístas e conflituantes, dos desejos inconfessados, das paixões exacerbadas, em suma, das ilusões e crendices só comparavéis às difundidas pelas fraudes teológicas; e no nível inferior da estrutura, onde deveria estar a base, está a vontade de bem (a unidade espiritual dinâmica), reprimida pela insuportável pressão dessa promiscuidade de egoísmos. Enquanto persistir este quadro, a vontade de bem ver-se-á impedida de surgir à luz do dia e de servir o Bem Comum, a Justiça, a Verdade e a Beleza.
Temos portanto a pirâmide invertida, símbolo do caos e da permanente instabilidade, pelo que facilmente concluiremos (dando assim a machadada final nas pretensões dos demagogos, medíocres e ignorantes) que jamais será possível erigir-se uma construção num terreno acidentado (que é esta espécie de democracia) sobre uma estrutura sem a mínima possibilidade de se manter firmemente erguida.


Equívocos democráticos

A vida democrática por nós inconscientemente aceite enferma de equívocos insanáveis, que urge eliminar para bem da verdadeira Democracia, que é o poder do Povo, pelo Povo, para o Povo (isto é, dos cidadãos, pelos cidadãos e para os cidadãos, sem a exclusão de ninguém).
1. O primeiro equívoco é sobre o poder. Para que servirá o poder? Será para condicionar, sujeitar, excluir ou aviltar, a maioria, alguns, ou até um único cidadão? O estado geral do mundo mostra-nos ao que esse equívoco nos levou. Definitivamente, não! O poder existe para servir e a única legitimidade que deve ser reconhecida aos que o exercem é a de contribuir para a realização plena do conjunto dos cidadãos que formam a nação. Caso contrário, tais representantes serão tidos pela história verdadeira (não pela truncada e deturpada) como usurpadores, pois, na verdade, como se lê em qualquer dicionário, “apoderam-se astuciosa” (nas democracias) “ou violentamente” (nas ditaduras) “de uma coisa de que alguém legitimamente usufruiu ou que lhe pertence”. E que coisa é essa de que eles se apoderam? É “só” a dignidade, universalmente reconhecida, de todo e qualquer ser humano, dignidade inerente ao direito de participar na obra de construção de um mundo melhor, mais justo, mais belo, mais verdadeiro (numa perspectiva política), ou na Mente Universal, ou Pensamento Divino (numa perspectiva filosófico-religiosa), enquanto agente criador das mais sublimes e indeléveis expressões da Arte, da Ciência, da Filosofia e da Cultura. Para compreender melhor este conceito – “dignidade” – socorramo-nos de Kant: "No reino dos fins, tudo tem um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem um preço, pode pôr-se, em vez dela, qualquer outra coisa como equivalente; mas quando uma coisa está acima de todo o preço, e portanto não permite equivalente, então ela tem dignidade" (In "Fundamentação da Metafísica dos Costumes").
Por analogia, o serviço que os pais prestam aos filhos, ao longo do seu processo de educação, socialização e autonomia, tem como fonte o poder paternal consagrado e reconhecido por todos. Mas quando tal dever (mais do que direito) é violenta e abusivamente exercido, as vítimas indefesas são retiradas da sua alçada por um poder maior que tem em vista o seu verdadeiro bem. Ora, será isso que sucede nas relações do poder com os cidadãos, os reais destinatários da acção legislativa, executiva, judicial?
2. O segundo equívoco com que a demagogia [“o governo ou actuação política pautada pelo interesse imediato de agradar às massas populares, com o fim de alcançar o poder ou de o manter; situação política em que o poder é abandonado às multidões”, conforme consta dos dicionários] continua a iludir os cidadãos e é deveras espantoso.
Senão vejamos: como qualificaríamos um conjunto de associados que escolhesse um grupo de pessoas desconhecidas para dirigir a sua instituição cultural, sem saber se, no seio desse grupo, havia alguém desonesto? Mais: esse mesmo grupo tinha como foco central da sua campanha o auto-elogio e considerava-se ser o único capaz de dirigir a associação, apesar de nunca ter dado provas da sua competência ético-profissional em nenhum momento anterior, fazendo assim tábua rasa das virtudes da humildade, da discrição e da verdadeira sabedoria, que nunca é vaidosa, presunçosa, nem vexatória. No mínimo consideraríamos tais associados imprudentes e insensatos, para não dizer insanos ou dementes. E o mesmo diríamos não só de um cidadão que, numa acção judicial contra terceiros, contratasse um advogado totalmente estranho, ou sem sequer saber se este tinha sido escolhido pela parte contrária, como também de quem, de modo geral, se entregasse cegamente nas mãos de quem quer que fosse sem as mínimas garantias de segurança e idoneidade.
Ora, não é precisamente isso que sucede na relação entre eleitores e eleitos? Os candidatos aos cargos políticos são absolutamente desconhecidos dos eleitores para justificar a confiança que neles é cegamente depositada. Fará isto algum sentido? E que provas de competência e idoneidade possuem para merecer a nossa escolha livre e responsável, ou, por outras palavras, a nossa escolha verdadeiramente democrática?
Mas não é só isso que acontece. Os partidos políticos “legalmente” constituídos, em vez de preencher os seus núcleos e quadros especializados nas mais diversas áreas em que têm de intervir – quando, um dia, para tal forem “convocados” pelos cidadãos – com cidadãos solidamente dotados de uma ética irrepreensível, uma competência profissional inequívoca e com sólidas raízes no meio a que pertencem, apressam-se a aceitar todos os que decidem inscrever-se como militantes, sem qualquer preocupação em saber se vêm ou não imbuídos de espírito de servir o país e a comunidade. Pois se nem os próprios dirigentes partidários conhecem verdadeiramente os seus correligionários, como é que os eleitores os poderão conhecer? E, alargando o raciocínio, como é que poderão esses mesmos líderes conhecer a real natureza dos seus concidadãos eleitores e saber das suas reais aspirações, expectativas, vocações e potencialidades, para que, através da sua acção governativa lúcida e verdadeiramente educativa, possam estimular a sua exteriorização?
3. O terceiro equívoco – que nos escravizará enquanto persistir este género de democracia – pode ser resumido no velho sofisma com que o hábito, os séculos, a hipocrisia teológica e o correspondente cinismo político petrificaram as consciências dos governados: “Olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”. Basta-nos um único exemplo: a legislação imposta pelos partidos aos cidadãos sobre matéria tributária, fiscal e contabilística. De facto, está absolutamente vedada aos contribuintes a possibilidade de infringir a legislação aprovada pelos legisladores (isto é, por terceiros), sob pena de pesadas e graves sanções, por vezes desproporcionadas e precursoras de verdadeiras calamidades sociais. Ora, como se comportam os próprios mentores e autores dessa legislação quando se trata das contas e dos financiamentos partidários, isto é, quando actuam em causa própria? Vejam-se, a este propósito, os gastos com as campanhas eleitorais, o financiamento dos partidos políticos, etc. E quais são as consequências reais para os que infringem as leis que eles próprios aprovam?
Mas isto não nos faz recordar nada? Voltemos à velha dupla, à “eterna aliança”, poder clerical/poder temporal. A apologia da pobreza – de corpo e espírito (ou mente) –, como “via verde” segura para o reino do céu feita pela igreja, destina-se somente aos “fiéis”, mas não aos seus proclamadores, cuja ostentação e prodigalidade excessivas só são dignas de um “deus” feito à sua imagem e semelhança! A desmoralização, o desânimo e a submissão dos cidadãos por parte da conspiração teológico/política são os reais objectivos da sua acção insidiosa e nefasta, através da sua redução a acéfalos consumidores de bens perecíveis: da moeda, que lhes garante o paraíso na terra, e das missas por alma (mesmo antes da morte), que lhes asseguram o paraíso no céu. E o lema com que os atemorizam e iludem está bem sintetizado nas expressões: cada um por si; salve-se quem puder; olho por olho, dente por dente; homem/mulher de sucesso e quejandos.
Se legislar em causa própria é outro equívoco insanável – e por aqui ficaremos –, é apenas porque a maturidade e a sabedoria encontram-se apartadas dos seus indignos ideólogos e executores.
E assim, todo o governante ou agente político age de má-fé, exorbita de forma vergonhosamente inconcebível as suas funções, avilta e destrói a sua própria autoridade moral, sempre que, em nome do “Bem Comum” (e não é para esse fim que se candidata?), atribui a si mesmo e seus pares privilégios, sinecuras e prebendas (“empregos rendosos e que não obrigam a trabalho”, “rendas eclesiásticas”) que jamais ousaria submeter aos cidadãos em campanha eleitoral ou por referendo.
Aliás, a acumulação de funções que prolifera nos meios frequentados por dirigentes partidários, responsáveis políticos, gestores públicos e respectivo séquito, em especial nos nossos dias, quando cresce vertiginosamente o desemprego até no grupo dos recém-licenciados, são a melhor prova da insensibilidade, desrespeito e abuso de poder da (in)consciência dos seus detentores. Será assim tão difícil de perceber que uma remuneração mensal (das várias que aufere) de apenas um desses “gestores” tiraria da dependência (angustiante e sombria) dos progenitores pelo menos um ou até dois desses jovens licenciados?.

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quarta-feira, 28 de abril de 2010

Objectividade?


Antes do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, reflectimos sobre uma das principais obrigações dos seus profissionais.

Texto Vânia Furet fotografia Dina Cristo

"O jornalista deve", de acordo com o 1º artigo do Código Deontológico da profissão, "relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade".
Para a produção de um jornalismo de qualidade é necessário que as informações difundidas sejam sérias e rigorosas, de forma a proporcionar ao público dados importantes para que este possa formar correctamente os seus juízos e opiniões.
Para isso é necessário, acima de tudo, que se seja imparcial, respeitando a veracidade dos factos e não devendo nunca tomar partido, manifestando opiniões ou juízos de valor. Um acontecimento deve ser transmitido ao público tal como ele é e tal como se manifestou. E para uma aproximação efectiva à objectividade é indispensável uma comprovação dos factos, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A objectividade engloba ainda outros factores como, por exemplo, a aposta na identificação das fontes de informação.
Estes são alguns aspectos inerentes à prática de uma objectividade jornalística e que são maioritariamente aceites por todos. No entanto, a questão da objectividade é bem mais complexa e já muito foi discutida, sendo que se defendem, dentro dela, outras tendências e condutas que deveriam (ou não) também ser seguidas para uma prática efectiva deste critério.
Na minha opinião, é muito difícil, ou quase impossível mesmo, um jornalista se abster completamente dos temas que noticia. Um jornalista não é, nem deve ser a meu ver, um mero observador moralmente descomprometido. Esta para mim não deve ser a base do critério da objectividade. No máximo, um jornalista deve ser um intérprete moralmente descomprometido.
Subjectividade na procura Todas as pessoas têm os seus valores, opiniões, juízos, interesses e preferências. E isso certamente não fica simplesmente em casa quando se vai trabalhar. É impossível um jornalista não questionar e avaliar, ainda que inconscientemente, uma situação com a qual se depara. E não penso que isso seja negativo. Afinal, se nós não avaliarmos uma situação, se não nos interessarmos por ela, se não nos questionarmos sobre ela, conseguiremos colocar as melhores e mais pertinentes perguntas? Estaremos aptos a incutir no nosso trabalho uma maior qualidade? Sinceramente acho que não. Acabaríamos sempre por colocar as mesmas questões básicas, nas mais variadas situações e aos mais diversos intervenientes.
Na minha perspectiva, um jornalista não deve envolver-se demais emocionalmente com os assuntos, mas também não deve, nem consegue, desinteressar-se deles por completo. É precisamente esse envolvimento e esse interesse que, a meu ver, acabam por distinguir os jornalistas e os seus trabalhos, pela positiva. Um jornalista que questione, que avalie e que se interesse, consegue olhar muito mais além dos assuntos, existem mais coisas que ele quer saber, questões, mais pormenorizadas e profundas, que ele quer ver respondidas. Não concordo com quem diga que se passa exactamente o contrário. Que um jornalista interessado e comprometido com a situação, se torna “cego”, parcial e tendencioso, só vendo o que quer ver e o que mais lhe agrada ver. Isso pode acontecer sim, como é óbvio, mas julgo que a um mau jornalista.
Além do mais, as notícias, encaradas como construção social da realidade, rejeitam a ideia de que a produção jornalística é um retrato fiel e objectivo da realidade. As notícias, de acordo com Nelson Traquina, são vistas como o resultado "da interacção entre agentes sociais: os jornalistas e as fontes de informação, os jornalistas e a sociedade, os membros da comunidade profissional, dentro e fora da sua organização". Assim, os jornalistas cobrem, seleccionam e divulgam notícias sobre temas considerados relevantes e de interesse para os indivíduos de uma estrutura social, o que faz com que, segundo Gay Tuchman, as notícias se apresentem à sociedade como um “espelho” dos seus interesses.
Objectividade na produção Na hora de produzir os trabalhos, aí sim, o jornalista tem de conseguir deixar de lado todas as suas opiniões e juízos, o seu lado emocional, e limitar-se a uma interpretação correcta, séria e rigorosa dos factos, com a maior imparcialidade e isenção possíveis. Mas factos esses aos quais ele chegou, em grande parte, devido ao seu interesse e envolvimento, nos quais sempre estiveram também presentes, ainda que inconscientemente, os seus juízos, os seus valores, as suas opiniões, a sua forma pessoal de ver as coisas. A própria abordagem escolhida acaba por resultar de toda essa desconstrução e reconstrução dos acontecimentos, defendida pela perspectiva da notícia enquanto construção social da realidade, e onde existe sempre uma visão e um cunho pessoal do jornalista.
Logo, um jornalista não deve ser um observador moralmente descomprometido. Deve ser um bom observador, que se compromete moral e emocionalmente consigo e essencialmente com o seu trabalho. Se o jornalista for comprometido com o seu trabalho, o interesse pelos assuntos, a avaliação dos mesmos, o envolvimento moral e sentimental vão sempre acabar por existir. E eu acho que isso funciona como um benefício na execução do trabalho, se for bem canalizado e se existir consciência e ponderação por parte de cada um. Agora, obviamente, cada um dos profissionais tem de saber encontrar o equilíbrio correcto neste envolvimento e comprometimento, para que ao invés de um benefício, não se transforme numa situação prejudicial, na qual o jornalista não saiba ter o controlo das situações e que possa fazer com que ele seja encarado como tendencioso e pouco sério, rigoroso e objectivo no trabalho que produz.
Assim, encaro o descomprometimento moral e emocional como algo que deve existir sim, mas na hora de produzir e redigir os trabalhos. Uma imparcialidade ao noticiar os acontecimentos e uma aposta na simples veracidade dos factos. Se assim for, o jornalista é objectivo.
Para além do mais, um jornalista também tem sempre uma tendência para se identificar mais ou menos com determinados assuntos. E quando existe essa identificação, que é normal e natural, existe sempre algum tipo de envolvimento e compromisso com os mesmos. Isso põe em causa a objectividade dos seus trabalhos? Por si só, claro que não. E, provavelmente, esses seus trabalhos serão muito melhores e com mais qualidade do que aqueles que realiza sem qualquer tipo de identificação.
Jornalismo (des)envolvido Por isso, este conceito de objectividade, tão discutido e sem consenso geral, acaba, a meu ver, por muitas vezes limitar os jornalistas e contribuir para a produção de trabalhos de menor qualidade. A pressão desta necessidade de objectividade é tanta, que os jornalistas acabam por ser uns meros transmissores de notícias, não se preocupando em aprofundar ou interpretar os factos. E por isso mesmo critico a objectividade e aqueles que a defendem como tal, encarada como um dever dos jornalistas se transformarem, no exercício da profissão, em pessoas apáticas, sem moral nem emoções, uns simples robôs que visualizam, e produzem notícias.
Para mais, quando não mostramos interesse pelos assuntos, quando não provamos que sabemos e conhecemos e queremos saber e conhecer mais, quando não estabelecemos algum tipo de envolvimento, normalmente as pessoas dizem-nos o básico, o que diriam a todos, ou somente aquilo que querem ou lhes interessa dizer. Mas quando nós mostramos envolvimento e interesse, as pessoas notam e sentem isso, e há mais tendência e uma maior oportunidade de que nos contem mais, porque também têm mais prazer em falar com alguém que elas sentem que se interessa, que conhece, que está minimamente envolvido.
É diferente se nós perguntarmos somente a uma pessoa a sua opinião sobre um dado assunto ou, ao conversar, tentarmos deixar transparecer que sabemos sobre aquele assunto, que nos interessamos, que também temos umas certas opiniões pessoais, independentemente das exigências ali marcadas pela profissão. A pessoa vai-nos certamente transmitir a sua opinião de uma forma totalmente diferente. E nada disto, a meu ver, prejudica uma objectividade indispensável ao jornalismo… creio que a contribuição deste tipo de postura vai ao encontro de um jornalismo de maior qualidade.

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