quarta-feira, 24 de julho de 2013

Ilusões



A dias de se assinalar o seu nascimento, relemos uma das obras mais célebres de Jean Baudrillard.


Texto Myriam Mesquita Lopes

Actualmente a simulação ocorre em modelos de geração de um real sem origem, e como este real simulado não tem origem, não há exactamente uma realidade, o que há é o hiper-real. Segundo Baudrillard, o real é produzido a partir de memórias, matrizes e de modelos de comando, podendo ser reproduzido infinitamente.
O autor afirma, "Simular é fingir ter o que não se tem". No entanto, simular não é fingir. A simulação não pressupõe que se finja, apenas se passa a sentir os sintomas de uma doença real, ou seja, temos aí a doença simulada. A simulação não permite perceber o que é verdadeiro e o que é falso e o que é “real” e “imaginário”.
A imagem é o reflexo de uma realidade profunda/uma boa aparência, a imagem deforma uma realidade profunda, é uma má aparência. Por outro lado, a imagem disfarça a ausência de uma realidade profunda, isto é, finge ser uma aparência. A imagem não tem relação com qualquer realidade, é o seu próprio simulacro puro. A simulação atinge a sua fase máxima, o hiper-real, ou seja, diversas realidades coexistem como estratégia de dissuasão do real. Baudrillard sublinha que as imagens têm a propriedade de aniquilar o real e gerar o seu próprio real. Necessitamos de possuir um passado visível, um mito visível da origem para que possamos estar tranquilos em relação aos nossos fins. Afirma ainda que a Disneylândia não se trata de uma representação falsa da realidade mas sim de esconder que o real já não é o real, salvaguardando o princípio da realidade. O autor diz que o mundo se quer infantil para que os adultos pensem que estão no mundo “real”, e para esconder que “a verdadeira infantilidade está em toda a parte, é a dos próprios adultos que vêm fingir que são crianças para iludir a sua infantilidade real”.
Outrora tentava-se dissimular um escândalo, hoje em dia tenta-se esconder que ele não existe. Já não é possível a ilusão porque o real não é possível. Os acontecimentos hiper-reais já não contêm rigorosamente conteúdos ou fins próprios, mas estão indefinidamente refractados uns pelos outros. O que a sociedade procura ao produzir e reproduzir, é “ressuscitar o real que lhe escapa”. A produção material é ela própria hiper-real. Nenhuma sociedade sabe concretizar o seu trabalho de luto do real.
O poder à semelhança de uma outra mercadoria depende da produção e do consumo das massas. A análise ideológica tem como finalidade reconstituir o processo objectivo, pois é sempre um problema querer reinserir a verdade sob o simulacro. A filmagem exalta o insignificante: há um “gozo da visão microscópica que faz o real passar para o hiper-real”. Segundo Baudrillard esta é a fase futura da relação social, a nossa, a fase da dissuasão e não da percepção, na qual “Vocês são a informação, vocês são o social, vocês são o acontecimento, isto é convosco, vocês têm a palavra”.
Não há violência nem vigilância somente a informação, reacção em cadeia, uma implosão lenta e simulacros de espaços. O medium é inapreensível, difuso e difractado no real. É o fim do espaço perspectivo e panóptico. A televisão “olha-nos, manipula-nos, informa-nos…”. Quando a distinção entre os dois pólos tradicionais não é perceptível assiste-se à entrada na simulação, na “manipulação absoluta”, na indistinção do activo e do passivo”. Os pólos diferenciais implodem ou reciclam-se mutuamente.
A história que nos é contada hoje é uma neofiguração, isto é numa invocação da semelhança, mas ao mesmo tempo a prova de que os objectos desaparecem na “sua própria representação: hiper-real”. É o “brilho de uma hipersemelhança”, “figura vazia da semelhança, à forma vazia da representação”.
Jean Baudrillard invoca que não é coincidência que a televisão esteja justamente no local onde tudo acontece. A intrusão da televisão, faz surgir o incidente. Dá-se uma forma de catástrofe do sentido formal. A expectativa, a esperança é a implosão. A simulação é eficaz o real não. O suspense vence. A solução é: “(…) fazer acontecer a catástrofe”. A simulação “funciona como um incenerador que absorve toda a energia cultural devorando-a”. É uma máquina de produzir vazio. Materializa-se, absorve-se e aniquila-se. Tudo está em coma profundo. A cultura morreu. Foi elaborado um elogio à desconexão total, à hiper-realidade e à implosão da cultura. Quer-se animação, não reanimação. “São as próprias massas que põem fim à cultura de massas”. Tudo está previsto, já não existe alternativa, pois “o poder implode” e “é o seu modo actual de desaparecimento”. A violência implosiva “resulta já não da extensão de um sistema mas da sua saturação e da sua retracção”. Dá-se uma densificação desmedida do social. É-nos ininteligível, pois é indeterminada. Assim involuimos, regredimos. Procuram-se todas as respostas nos objectos. Eles interrogam-nos, testam-nos, intimidam-nos. Os Média funcionam da mesma maneira. É um universo de simulação, onde a limitação racional é contínua. Nasce uma nova morfogénese, a aglomeração face ao campo e à cidade. O hipermercado, como exemplo é um núcleo que gera uma órbita ao seu redor na qual se move a aglomeração. Estamos num universo em que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido. A informação é invadida por uma espécie de conteúdo fantasma, de transplantação homeopática, de sonho acordado da comunicação. É um processo circular entre a simulação e o hiper – real. Mais real do que o real. É assim que se anula o real. O autor sublinha que “Os Média são como instituição de um modelo irreversível de comunicação sem resposta”.
Defende que o “grau zero do sentido” acontece pela “absorção de todos os modos de expressão virtuais”, a razão é que a “publicidade é instantânea e instantaneamente esquecida”. É o triunfo da forma superficial. Não tem passado, nem futuro, por ser a última vence sobre todas as outras”. É uma linguagem de massas. Define a sociedade. Fala-nos de “uma cultura que se enterrou para escapar definitivamente à sua própria sombra”. Um holograma é a fantasia de captar a realidade ao vivo de forma contínua. É uma suspensão do real. Profundidade invertida, aura imaginária. Assim como o holograma, o clone é uma tentação inversa, fascínio inverso, fim da ilusão. É “imagem perfeita e fim imaginário”. Não existe real no fundo. A reprodução holográfica, já não é real, é hiper-real.
Baudrillard afirma existirem três categorias de simulacros: simulacros naturais, simulacros produtivos e simulacros de simulação. Já não podemos a partir do real construir o irreal, o imaginário a partir do real. O que tende a acontecer é exactamente o contrário: criam-se situações descentradas, modelos de simulação, reinventa-se o real como ficção, precisamente porque ele desapareceu da nossa vida. O que distingue Crash de toda a ficção científica, é que projecta no futuro as mesmas linhas de força e as mesmas finalidades do universo dito “normal”.
A ciência nunca está segura, por isso a experimentação não é “um meio para um fim, é um desafio e um suplício actuais”. O inconsciente “é o dispositivo logístico que permite pensar a loucura”. É o lugar da repetição indefinida do recalcamento e das fantasias do sujeito.
Nunca sabemos qual é o resto do outro. Podemos assim falar do resto como de um espelho, ou do espelho do resto. É que o sentido não existe. O resto é reversível e troca-se em si mesmo. Está em toda a parte e ao procurá-lo sem o encontrar, anula-se enquanto tal. Para o autor do livro, hoje faz-se do resto o problema crucial da humanidade.
Baudrillard conclui que “só uma patafísica dos simulacros pode fazer-nos sair da estratégia de simulação do sistema e do impasse de morte em que nos encerra”. “O universo da simulação é transreal e transfinito: já nenhuma prova de realidade lhe virá pôr fim – só o afundamento total e o deslizar do terreno, que continua a ser a nossa mais louca esperança”.

O sistema em que vivemos é niilista, no sentido em que tem o poder para reverter tudo, “inclusivamente o que nega, na indiferença”. O niilismo realizou-se inteiramente na simulação e na dissuasão. O fascínio é uma paixão niilista por excelência. A verdadeira revolução do século XIX é a “destruição radical das aparências, o desencantamento do mundo e o seu abandono à violência da interpretação e da história”. O autor do livro assume que já “não há esperança para o sentido”.

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quarta-feira, 17 de julho de 2013

Retribalizar


Cinquenta anos depois da publicação, pela primeira vez, de uma das obras mais importantes de Marshall McLhuhan, revemo-la, antes da celebração de mais de 80 anos do nascimento do autor.

Selecção Dina Cristo

«Para ter êxito comercial, um livro não pode arriscar mais do que dez por cento de novidade», pág.12
«Se o século XIX foi o tempo da cadeira do editorialista, o nosso [XX] é o século do divã do psiquiatra», pág.13
«Todas as culturas e tempos possuem um modelo preferido de percepção e de conhecimento, que procuram impor a tudo e a todos», pág.13
«A situação de abandono escolar nas nossas escolas ainda agora começou», pág.16
«O estudante de hoje vive de forma mítica e profunda», pág. 17
«(…) os homens nunca têm consciência das regras fundamentais da sua cultura (…)», pág.18
«(…) a compreensão paralisa a acção (…)», pág. 29
«(…) o ser humano transforma-se naquilo que contempla.», pág. 32
«Nós, por nossa parte, detectamosa vanguarda no frio e no primitivo (…)», pág.40  
«(…) uma situação de alto desenvolvimento oferece, por definição, baixos índices de participação (…)», pág.41
«O consumidor passivo deseja embalagens (…)», pág. 44
«À medida que começamos a reagir em profundidade à vida (…) tornamo-nos reaccionários», pág.48
«O jovem Narciso tomou o seu reflexo na água por outra pessoa», pág.55
«A auto-amputação impede o auto-reconhecimento», pág.56
«Na era da electricidade, nós usamos como nossa pele toda a humanidade», pág. 61
«Assim como a imprensa clamava pelo nacionalismo também a rádio clama pelo tribalismo», pág.63
«Nós podemos, se quisermos, planear as coisas antes de as criarmos», pág. 64
«(…) os meios linguísticos modelam  o desenvolvimento social tanto quanto os meios de produção», pág.64
«Hoje em dia possuímos anestésicos que nos permitem executar as mais aterradoras intervenções físicas», pág. 79
«O efeito da rádio é visual (..)», pág. 79
«(…) o contra-irritante costuma revelar-se mais incómodo do que o irritante inicial (..)», pág.81
«(…) a força de vontade é tão útil  para a sobrevivência como ainteligência», pág. 84
«A consciência não é um processo verbal», pá.98
«(…) cada ideograma é investido de uma intuição total do ser e da razão», pág.98
«(…) a mais banal das comodidades implica profundas mudanças culturais», pág. 100
«(..) em todos os sistemas há um ponto a partir do qual a aceleração redunda em ruptura e colapso», pág. 104
«(…) o número é a essência de  todas as coisas perceptíveis aos sentidos», pá. 124
«(…) o número contém todo o sentimento do mundo de uma alma apaixonadamente devotada ao “aqui” e ao“agora”», pág. 124
«A tecnologia da imprensa converteu o zero medieval no infinito renascentista», pág. 127
«(…) todos os meios são extensões do nosso corpo e dos nossos sentidos», pág.128
«Agindo como um órgão do cosmos, o homem tribal aceita as suas funções corporais como formas de participação na energia divina», pág. 135
«(…) a luz é um sistema de comunicação autónomo no qual o meio é a mensagem», pág.140
«Hoje em dia, na era da electrónica, o homem mais rico está reduzido a ter o mesmo tipo de diversões, e até o mesmo tipo de alimento e de veículos, que o homem comum.», pág. 145
«Uma actividade que envolva todo o ser do homem, não é trabalho», pág.149
«(…) a era mecânica é um interlúdio entre dois grandes períodos orgânicos de cultura», pág. 161
«A alfabetização é em si mesma uma forma de ascetismo abstracto (…)», pág. 162
«O visual dessacraliza o universo e origina “o homem não-religioso das sociedades modernas”», pág. 165
«O ouvido é hipersensível. O olho é frio e distanciado.», pág.165
«(…) o grande preceito da bibliografia: “quanto mais houve, menos há”», pág.169
«(…) o homem integral mostra-se sempre muito inepto numa situação de especialização», pág. 176
«(…) a imprensa desafiou os padrões corporativos da organização medieval tanto como a electricidade desafia agora o nosso individualismo fragmentado», pág.184
«Não existe ceteris paribus no mundo dos meios e da tecnologia», pág. 191
«Idealmente, a educação é uma forma de protecção colectiva contra as consequências negativas dos meios de comunicação», pág.201
«Hoje em dia, o viajante tornou-se passivo», pág.204
«Todos os meios existem para investir as nossas vidas com percepções artificiais e valores arbitrários», pág.205
«A antecipação dá-nos o poder de desviar o rumo e controlar a força», pág. 205
«Ocorrem menos crimes quando não existem jornais para os divulgar», pág. 211
«(…) no nosso mundo eléctrico, a informação é claramente o negócio principal e a maior fonte de riqueza», pág.212
«(…) a introdução duma nova tecnologia altera não apenas a imagem, mas o próprio quadro», pág.224
«O carro tornou-se na carapaça, a concha agressiva e protectora, do homem urbano e suburbano», pág.230
«Os anúncios elevam o princípio do ruído ao patamar da persuasão», pág.232
«Os recalcitrantes são os (…) melhores aclamadores e impulsionadores», pág.235
«Quando as culturas mudam, os jogos mudam também», pág.244
«Levar mortalmente a sério as coisas mundanas é sempre indício de uma lamentável falta de reflexão», pág.248
«Vivemos hoje na Era da Informação e da Comunicação porque os meios eléctricos criam instantânea e permanentemente um campo total de acontecimentos em interacção nos quais toda a humanidade participa», pág.253
«(…) a nossa co-presença em toda a parte ao mesmo tempo é uma experiência mais passiva do que activa», pág.253
«A electricidade confere aos fracos e aos sofredores uma poderosa voz, ao mesmo tempo que afasta a especialização burocrática», pág.258
«Um pouco por toda a parte, o orgânico tem vindo a suplantar o mecânico», pág.260
«A aceleração é uma fórmula para a dissolução e colapso de qualquer organização», pág.260
«(…) a máquina de escrever representa uma fusão da pena e da espada», pág.264
«(…) as guerras posicionais acabaram», pág.269
«Numa estrutura eléctrica não existem margens», pág. 278
«O homem como recolector de alimentos reaparece incongruentemente como recolector de informação», pág.288
«Há imensa subtileza e sinestesia na arte primitiva(…)», pág.292
«(…) qualquer tarefa especializada dispensa a maioria das nossas faculdades», pág.294
«(…) o sucesso é não apenas perverso mas também o caminho mais seguro para a infelicidade», pág.298
«Se a televisão já existisse em larga escala no tempo de Hitler, este teria desaparecido num instante», pág.302
«A rádio propiciou a primeira experiência massiva de implosão electrónica (…)», pág.303
«A ênfase na literacia é um sinal distintivo das regiões que se esforçam por iniciar esse processo de estandardização (…)», pág.304
«(…) os efeitos da rádio são em grande medida independentes da sua programação», pág.308
«Toda a gente vivencia muito mais do que compreende», pág.321
«Se o meio é de alta definição, a participação é baixa», pág.321
«A televisão é um meio que tem mais que ver com a reacção do que com a acção», pág.322
«O movimento ecuménico é sinónimo de tecnologia eléctrica», pág.323
«A América europeíza-se hoje tão rapidamente quanto a Europa se americaniza», pág.324
«(...) numa terra de cegos, quem tem um olho não é rei; pelo contrário é encarado como um lunático alucinado», pág.335
«De dia para dia, a pena torna-se mais forte do que a espada», pág.341
«(...) há uma relação entre a educação e a pontaria», pág.344
«Com a tecnologia eléctrica instantânea, o globo nunca será maior do que uma aldeia», pág.346
«Qualquer matéria, se estudada em profundidade, relaciona-se imediatamente com todas as outras», pág.350
«(...) descobrir o desconhecido no conhecido - tão necessário para a compreensão da vida das formas», pág.355.

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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Trindade


Num mês em que o Centro Lusitano de Unificação Cultural faz anos que pela primeira vez editou um livro (há 25), organizou um ritual (há 20) e publicou uma revista (há 14) - a “Biosofia”, vencedora do Prémio Informação Solidária este ano - relemos uma das suas obras.
Texto Dina Cristo

No livro, publicado em 2000 e assinado por Trasgo, pode ler-se: «O que vemos depende do olho, não do que há para ser visto, não da Luz; o que ouvimos depende do ouvido, não do que há para ser escutado, não do Som»[1]. «A Voz do Espaço-Tempo expressa muita coisa; porém o Silêncio permanece ainda além»[2]. Nele se aborda o pólo feminino, o masculino e a sua síntese.
O espaço corresponde à matéria, à mãe, ao Espírito Santo, à luz oculta. É o pólo material que se expressa através da criatividade. Está associado à forma e sons externos, à melodia, e à quarta dimensão, a percepção tetradimensional que inclui, além do nível tridimensional (altura, largura e comprimento), a capacidade de consciencializar vários espaços coincidentes ou sobrepostos.
O tempo corresponde ao espírito, à luz maior. É o pólo espiritual que se expressa através da síntese. Está associado ao silêncio, à vida, à vontade, ao impulso e à quinta dimensão, a percepção pentadimensional que inclui, além da tetradimensional, a possibilidade de consciencializar, em simultâneo, vários tempos; está igualmente relacionado com o karma, a ordem e o nome.
Desta relação, resulta o filho, o espaço-tempo, a luz da consciência exteriorizada, a alma mediadora e o ponto de unidade entre o padrão vibratório essencial e perene, o pólo masculino, e os sons externos de cada forma, o pólo feminino; corresponde ao verbo que permite a coesão e a animação da forma.

[1] CLUC – No domínio do espaço-tempo, 2000, pág. 104. [2] Idem, pág. 95.

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quarta-feira, 3 de abril de 2013

Medicina lenta

 

Antes do Dia Mundial da Saúde, seguimos Omraam Aivanhov, que defende a cura de forma orgânica. Um modo mais demorado, seguro e eficaz a longo prazo, de preservar e fortalecer o estado de um ser (humano), garante.
Texto Dina Cristo
É a vida que anima e alimenta o organismo. Ela é essencial. Para que se possa preservá-la há que a conservar na pureza, o que, para o autor, significa consagrá-la a um fim sublime, que transcenda o próprio indivíduo, como a família, a sociedade, a humanidade ou o universo. Uma atitude que equivale a colocar tal capital vital numa espécie de banco superior, que lhe permitirá retirar dividendos, enriquecendo-se, já que novos elementos vêm substituir os que se perdem, e obter, seguramente, juros e recompensas, como o amor, o equilíbrio, a estima, a paz ou o respeito.
A vida, que para Omraam Mikhael Aivanhov, emana e insufla alegria, beleza, conhecimento, glória, poder e riqueza, pode e deve ser, assim, canalizada, dirigida, distribuída e orientada para o Alto, sem a desperdiçar. Para realizar tal trabalho altruísta, melhorando essa quinta-essência que vem das regiões sublimes e ser um canal de vida abundante o primeiro passo é levar uma existência equilibrada, moderada, ordenada, prudente, sensata e de respeito pelas leis universais, um modo de vida (mais) lento, um estado e atitude interior de consciência.
Omraam Aivanhov destaca a importância de se restabelecer a harmonia primordial, em si próprio e à sua volta: a melhor terapia é pensar, sentir e agir em harmonia com as forças luminosas, entrar em comunicação e sintonizar-se com elas, estar em consonância com a vida, sincronizar-se com o cosmos, vibrar em uníssono com a criação. Tal estado de equilíbrio será propagado às células, pelo que a filosofia e modo de vida é o primeiro passo para uma existência sã, ensina o autor.
Alimento geral
Dormir e comer o suficiente são preliminares indispensáveis à boa saúde, preconizados por uma medicina lenta, para a qual uma nutrição demorada é essencial à boa assimilação da energia dos alimentos. Omraam recomenda que não se sacie completamente e se mastigue durante vários minutos os alimentos na boca para que o seu lado mais vivo e subtil possa ser melhor aproveitado sem que haja demasiado gasto de energia ou criação de resíduos.
Também os exercícios respiratórios, ao regular e ritmar a inspiração, retenção e expiração (respectivamente de quatro, dezasseis e oito tempos) de preferência em jejum, devem ser profundos para ajudar a substituir o ar viciado por ar puro e, assim, renovar as energias. Para Omraam, “Respirar profundamente é um poderoso remédio preventivo e curativo”[1]. A circulação do ar purificado ao longo dos nervos (que alimentam os órgãos e passam pela coluna vertebral, que se deve manter ereta) melhora o auto-domínio, a circulação, a vitalidade, ilumina o intelecto (pensamentos tornam-se mais claros), aquece o coração (sentimentos ficam mais calmos) e fortalece a vontade.
A necessidade de alimento e de trocas, a base da vida, é sentida não apenas a nível físico, com a terra, e mental, com o ar, mas também na região emocional, com a água, e anímica, com a luz, cuja inspiração, ao nascer do sol, e projecção para o mundo era, bem como o meio para se libertar das forças saturadas e distribuir as energias renovadas - o relaxamento - recomendada. Omraam aconselha também a, pelo menos, durante um minuto, várias vezes por dia, parar, fechar as “torneiras” de água (emocional) e do gás (mental), para que a energia não se esgote, e descansar, descontrair, de forma elevada e atenta.
Após a renovação da energia e o restabelecimento da força será possível, então, dedicar-se ao trabalho, com amor e contentamento - duas condições fundamentais à manutenção e melhoramento do estado de saúde. Só a seguir vem a indicação de métodos (mais) naturais, como a aromoterapia, fitoterapia, magnetismo, quiroprática, talassoterapia ou terapia do sol que, como o jejum (cuja época mais propícia é a Quaresma), ajudam o organismo, ao despertar poderes adormecidos, a defender-se, a neutralizar, a resistir aos agentes da doença e a reforçar-se naturalmente sem as “muitas anomalias [que] têm a sua origem no abuso dos produtos farmacêuticos”[2].

[1] AIVANHOV, Omraam – Harmonia e saúde, Edições Prosveta, Colecção Izvor, nº225, pág.128. [2] Idem, pág.78.

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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Arriscar


Às portas da comemoração dos 170 anos do nascimento de Teófilo Braga, presidente da República que se dedicou ao estudo da literatura, focamo-nos num livro* de contos.
Texto Dina Cristo
Era uma vez um mocho, que não conseguia dizer “who”, um pato que não sabia dizer “quac”, um pássaro que havia sempre tentado ser outro, uma borboleta e Dina, uma delicada cadela, habituada ao aconchego mas também às limitações da sua dona, preocupada e insegura.
Um certo dia a cadelinha sai do quarto, onde normalmente vivia, e, bem longe dali, depara-se com um mundo novo, pleno de novas experiências; a borboleta decide desfrutar da vida intensamente; o pássaro percebe o quanto era bonito, especial e único como cuco e o mocho e o pato, que haviam sido expulsos da sua comunidade, descobrem que não eram as palavras desejadas que os faziam ser quem eram.
Os contos sugerem a importância de ultrapassar o medo, a dúvida, a preocupação, a submissão ao julgamento (próprio e alheio) que dificulta a mudança em direcção à confiança, ao amor, à auto-estima e à liberdade de expressão. Para encetar este círculo virtuoso é necessário saber arriscar o suficiente e atrever a fazer ou dizer algo novo, inovador ou diferente do habitual.
O ser humano é como uma garrafa, que se enche de amor ou se preenche de medo. Quanto mais espaço ocupar a emoção receosa, o ter e fazer coisas, menos espaço sobra para o sentimento amoroso, menos disponível está para ser e amar-se a si mesmo e aos outros, já que “quando alguém se ama plenamente a si próprio, também pode amar toda a gente”.
Para cada um se encher de amor e gostar de si mesmo, começar a confiar no seu ser mais profundo e na sua grandeza interior, assimilar a realidade também com o coração e se realizar, pode começar por perguntar-se sobre o que é o pior que lhe pod(er)ia acontecer. Superar o medo aumenta a estima, a preciação e a valorização - é o esforço necessário para se vencer, conquistar a si mesmo e vislumbrar o reino amoroso.
Em vez de fugir, evadir-se ou escapar-se, através da inconsciência, por exemplo, é fundamental enfrentar e, assim, aprender com a experiência e crescer. A pessoa pode, então, acreditar que, se em alguma altura do percurso se perder, a voz interior indicará (um)a saída e, assim, começar a descobrir que, além do medo e da dúvida, a alegria também faz parte da vida; viver é, além de "fazer" e "ter", também "ser" e o medo é nada mais do que o avesso do amor.
* FISHER, Robert; KELLY, Beth – O mocho que não conseguia piar. Pergaminho. 2004.

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Ser rico


Num momento de insuficiência económica, lembramos as palavras de Neale Donald Walsch sobre como (re)criar prosperidade.
Texto Dina Cristo
Noventa por cento dos recursos estão nas mãos de dez por cento das pessoas. Se fossem partilhados, seriam suficientes. Por isso, o autor das "Conversas com Deus" propõe a criação de um fundo geral para os mais necessitados, através da contribuição voluntária de dez por cento dos rendimentos. O dinheiro faz parte de Deus e é ele que permite que as coisas aconteçam, através de cada um, lembra.
Contudo, a abundância não está em ter bens ou pessoas; no caso da Terra, a atenção deve estar na administração em vez da sua posse. A verdadeira riqueza está ao nível do ser, pelo que todos são… ricos e sendo-o podem e devem partilhar. Neale D. Walsch aconselha a d(o)á-lo àquilo que faz sentido para cada um, a contribuir: «O dinheiro tem mais valor quando sai das vossas mãos. Porque vos dá o poder para ser, fazer e ter algo que escolheram»[1].
Assim, há que procurar primeiro o campo do “ser”. Os afazeres devem decorrer dessa atitude, que (re)criará uma vida plena e próspera, o "ter". O segredo está em valorizar os recursos internos em vez de os procurar externamente. Desta forma, se acentua a riqueza interior, característica das Pessoas Altamente Sensíveis, desvalorizando a carência ou escassez exteriores.
O conselho do autor é para ser a origem de recursos em vez do seu destinatário: «Quando vocês se imaginam como a fonte daquilo que desejam poder receber, tornam-se muito ricos»[2]. O escritor norte-americano ensina que quando se quer algo mais na vida (alegria, amor, paz), em vez de o reter ou cobiçar, pois “aquilo a que se agarram, escapa-se por entre os dedos», o melhor é emiti-lo, já que “O que damos volta para nós”[3].

[1] WALSCH, Neale Donald – Conselhos de Vida sobre a Abundância. 2003, pág.85. [2] Idem, pág. 87. [3] Idem, pág. 84.

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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

P(r)o(f)eta

Domingo assinalam-se 130 anos sobre o nascimento de Kahlil Gibran, escritor e pintor libanês. É com um breve excerto[1] de uma das suas obras, publicada há 90 anos, que damos as boas vindas a 2013.

Selecção Dina Cristo

«Ora eu digo-vos que a vida
É, realmente, obscuridade,
menos onde há entusiasmo:

E todo o entusiasmo é cego,
menos onde há sabedoria;

E todo o saber é vão,
menos onde há trabalho;

E todo o trabalho é vazio,
menos onde há amor».

[1] GIBRAN, Kahlil – O Profeta. Ed. Pergaminho, 2004, pág. 58.

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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Ler para querer


Próximo da comemoração do nascimento de Jesus Cristo apresentamos, neste dia simbólico, alguns excertos de um dos evangelhos apócrifos, o de S. Tomé, cuja liturgia se comemorava nesta época.
Selecção Dina Cristo
«Nada existe de oculto que não venha a manifestar-se»
«Nunca digam mentiras»
«Nada há de escondido que fique sem ser descoberto»

«Se tiveres dinheiro não o empresteis a juros mas dai-o»

«O que entra na vossa boca não vos matará, mas o que sai da vossa boca isso sim, pode matar-vos»
«Onde estiver o princípio lá estará o fim»
«Quando fizerdes de dois um… então entrareis no Reino»
«Escolherei um de vós entre mil e dois entre dez mil»
«Quando tirares a trave do teu olho, então verás claro, para tirares a palha do olho do teu irmão»

«Depois de o esposo deixar o tálamo nupcial, então, que jejuem e rezem»

«Se um cego guiar outro cego cairão ambos no fundo de um barranco»
«Não vos inquieteis (…) com o que haveis de vestir»
«Quando vos despojardes da vossa vergonha (…) não tereis medo»
«Sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas»
«Estejam de passagem»
«Não se colhem (…) figos dos cargos»
«(…) Um homem mau apresenta o mal (…) e diz coisas más»
«Não se cose um remendo velho numa peça de roupa nova»
«Miserável é o corpo que depende de um corpo e miserável é a alma que depende dos dois»
«O que é vosso vos salvará (…) o que não tendes em vós vos matará»
«Não deiteis pérolas aos porcos para que as não transformem em imundice»
«Aquele que procura encontrará»
«Aquele que se encontra a si mesmo, o mundo não é digno dele».

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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Vida serrana



Para enfrentar os tempos difíceis que se avizinham, olhamos para trás e reaprendemos com a população na montanha que sobreviveu à miséria.



Texto e fotografia Dina Cristo



«A vida simples das gentes serranas encerra uma lição de harmonia, sóbria dignidade e utilização comedida dos recursos (…) os utensílios eram remendados, reaproveitados ou reutilizados em novos contextos; nada se desperdiçava ou tirava fora; não havia tanto lixo nem se acumulavam objectos supérfluos»(1), retrata Paulo Ramalho.



A cultura serrana era despojada. «O Serrano era parco na sua alimentação, simples na sua atitude e honesto na sua conduta» refere António de Jesus Fernando, numa crónica da Serra publicada na Comarca de Arganil em Janeiro de 1997, citado pelo autor no seu livro “Tempos difíceis. Tradição e mudança na Serra do Açor”, editado em 1999, pela Câmara e Museu Municipal de Arganil.



«Tudo se cruzava, tudo estava intimamente ligado na vida quotidiana”(2) e numa relação estreita com a Natureza. As luzes acesas nunca podiam ser pares e cada utensílio era um bem raro. Os objectos eram improvisados e tinham múltiplas utilizações; eram simples e rústicos, mas belos e harmoniosos.



A aldeia tinha beleza e unidade, era «(…) uma parte que se integra harmoniosamente no todo”(3). As casas, pobres e escuras em lugarejos abandonados, eram de linhas simples e sóbrias mas possuíam um oratório familiar. Os quartos eram cubículos, gelados e sem janelas e os filhos mais velhos dormiam nos palheiros. Em quadras festivas, as paredes eram forradas com jornais.



A vida era difícil, por vezes miserável, mas de grande honestidade: «Uma vida dura, de trabalho e isolamento, com descanso no “dia consagrado”»(4). Os mineiros (nas Minas da Panasqueira) tinham um ofício perigoso e mal pago. por seu lado, os artesãos, muitas vezes, faziam os consertos em casa dos clientes, onde passavam dias. Havia relações de troca e os serviços prestados eram pagos em géneros.



Cultura de subsistência



O milho era o principal sustento. Seco ao sol e moído nos moinhos, com ele se faziam os coscoréis e a broa, inacessível aos mais pobres, que era cozida em fornos comunitários, com água morna, sal, farinha – sempre a mais velha - de milho, de trigo e de centeio.



O porco era essencial e o rebanho proporcionava, além do estrume, queijo, leite, carne e lã. Os chouriços e os queijos conservavam-se com azeite, que se benzia: «Deus te acrescente agora e sempre pelas almas do Purgatório”. O acesso aos alimentos dependia da idade e do sexo, segundo um código hierarquizado. Havia pouco espaço e repasto - as duas refeições quentes eram o almoço e a ceia.



«Por polémica iniciativa do Estado Novo, os pinhais substituíram, quantas vezes à força, os montes baldios cobertos de mato onde as cabras pastavam livremente»(5), controlando a sua altura e minimizando os riscos de incêndio. Hoje, em lugar dos matos existem pinheiros, eucaliptos, ribeiras secas, erosão e… fogos, que vieram nos anos 70 e 80, com o crescimento dos matos.



A Serra foi o espelho onde se reflectiam, ampliadas, as agruras do mundo. A miséria e a fome levaram à emigração para África, Brasil, Europa e Lisboa. Mas antes da aventura para lá da curva da estrada, há, segundo o autor, que recordar as raízes sãs e (re)colher os últimos ensinamentos: «Olhemos bem para trás antes de transpormos as portas do futuro»(6), recomenda.



O futuro está no passado



«Profunda contradição, esta – cada porta abre para um mundo agonizante, exibe feridas fundas vindas do passado, é um testemunho de tempos difíceis. Mas, a mesma porta, empurrada na direcção oposta, abre para o futuro (...). Conseguiremos nós, peneirar o passado no crivo do presente até lhe retirar o joio espúrio da pobreza e da miséria?»(7), interroga o autor.



Paulo Ramalho está convicto de que os dias que estão para vir mergulham as suas raízes nos dias já idos; afinal, cada geração come o pão amassado pela anterior. «Talvez o futuro deva ser assim: algo de muito novo, feito com a pedra sólida do passado»(8), já que:

«A nossa vida é um longo corredor

Atrás de nós cada chave fecha uma porta.

Se não as deitarmos fora, à nossa frente

Outras portas do corredor elas podem abrir»(9)


«A nossa civilização chegou à sua última encruzilhada: agora, ou consumimos o que resta do planeta ou reciclamos quase todos os nossos hábitos e atitudes»(10), defende Paulo Ramalho.

(1) RAMALHO, Paulo – Tempos difíceis. Tradição e mudança na Serra do Açor. Câmara Municipal de Arganil/Museu Municipal, 1999, pág. 84. (2) Idem, pág. 38. (3) Idem, pág. 15 (4) Idem, pág. 56. (5) Idem, pág. 67. (6) Idem, pág. 88. (7) Idem, pág. 15. (8) Idem, pág. 88. (9) Idem, pág. 90. (10) Idem, pág. 82.

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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Saudades de Portugal




No dia da reeleição de Barack Obama, véspera dos 135 anos do nascimento de Teixeira de Pascoaes, relembramos, através da primeira obra de prosa do escritor português, o potencial da natureza saudosista da alma nacional.



Texto Dina Cristo



A pátria é um ser vivo, espiritual, superior às vidas individuais que o constituem e dependente, no seu progresso e liberdade, do sacrifício dos indivíduos que, para se guiarem no seu trabalho, amor e luta, devem conhecer a alma portuguesa, plena de lembrança e esperança.



É o sacrifício, o serviço do inferior ao superior, que permite a harmonia universal. No ser humano rudimentar ele manifesta-se através da vivência da vida da família, no ser mais elevado, da pátria e no ser sublime da Humanidade e, depois, do próprio Universo. Contudo, esta lei suprema deve ser cultivada sem destruir os interesses individuais, familiares e municipais.



Para Teixeira de Pascoaes, o indivíduo deve, em primeiro lugar, amar-se a si próprio, a sua alegria e beleza, cuidando da sua saúde. «Devemos, antes de tudo, amar a nossa pessoa individual, vendo já nela a sua descendência. O verdadeiro próximo somos nós. O outro próximo é uma ilusão, origem piedosa de muitos males»(1).



A recordação



Para além da paisagem (a terra) e da herança (o sangue), na origem primitiva da alma pátria esteve a fusão de dois ramos distintos: o ariano - do qual procedeu a civilização greco-romana, o Naturalismo, o Paganismo, o Panteismo, a Forma, a Sensualidade, o amor carnal, que mantém a vida - e o semita, do qual adveio a civilização judaica, a Bíblia, o Espiritualismo, o Cristianismo, o amor ideal, que purifica a vida.



Gregos, romanos, celtas, godos, por um lado, e judeus, árabes e fenícios, por outro, misturaram-se, casaram-se a tal ponto que a sua dualidade e contraste se uniu, dando origem à raça lusíada, com qualidades físicas, morais e electivas próprias de um povo, bem como a promessa de uma nova luz original, de que resultou o sentimento saudoso.



A saudade - memória amargurada e dolorosa do passado, de âmbito espiritual, e esperança alegre, gostosa em relação ao futuro, de âmbito material, o parentesco íntimo com as coisas - manifesta-se sobretudo ao nível da linguagem popular, de extrema sensibilidade ao Mistério, das palavras intraduzíveis, que emanam a essência espiritual de tal sentimento, das lendas, da arte como da religião.



Mas a área em que melhor se revela o misticismo e a sensibilidade panteísta da alma portuguesa é na literatura, na expressão vivente dos escritores portugueses, não apenas forma mas também essência, e sobretudo na poesia, no seu lirismo elegíaco, no amor saudoso e platónico, no sentido etérico, puro e imaterial.



A esta superioridade poética corresponde uma inferioridade filosófica, pois a personalidade portuguesa, mais sentimental, espontânea e emotiva, alumia mais do que vê, vive mais do que interpreta. Tal característica conduz à dispersão do ideal colectivo, que assim é ignorado e incompreendido, e, incapaz de construir novas verdades, leva Portugal a transviar-se, a hesitar e a não progredir.



Para avançar, a pátria necessita do sacrifício dos portugueses, guiados no seu amor, trabalho e luta pelo conhecimento da essência da alma pátria, a saudade, e da sua aspiração, a Renascença. «Desejaríamos tornar sentimental a VERDADE PORTUGUESA demonstrada neste livro, para que ela desse nova energia aos portugueses»(2), declara, no final da obra o seu autor.



(De)feitos



Do carácter saudoso, o desenho íntimo, o ser, resultam as qualidades, exteriorização em acção, o fazer, da alma nacional. Em primeiro lugar o sentimento de independência e de liberdade, de que deriva o génio aventureiro (que leva a arriscar a vida individual por um fim de utilidade colectiva), o poder de iniciativa, a faculdade inventiva.



Este espírito de originalidade, sob a dor (da derrota), como no sebastianismo, pode transformar-se na segunda derivação, o espírito messiânico, que é a espiritualização da aventura, a redenção e a sua missão. As três qualidades existem nas artes e nas letras, ao contrário dos defeitos, que vivem nos portugueses, assim que o carácter adoece, se dilui e decai.



«Que tragédia, a terrível ausência da nossa alma! O sonâmbulo automatismo em que vagueia a nossa Pátria sem destino, tão aleijada e apagada de feições que é difícil reconhecê-la! Será ela? Não será? O incolor, o insípido, o inodoro esfumam, em nódoa pálida e fria, seu vulto mortuário, errando ao sabor daqueles que exploram a sua morte…»(3).



Trata-se da vil tristeza que acompanha a falta de persistência, quando o espírito de aventura, impulsivo, não tem continuidade e é, muitas vezes, abortado. O lado negativo do pioneirismo surge, então, reforçado, degenerado e viciado, enquanto espírito de imitação, de vaidade susceptivel e de intolerância.



«É outro defeito muito vulgar num Povo que foi grande e decaiu. Inferior e pobre, considera-se ainda possuidor dos bens arruinados. Continua a viver, em sonho, o poderio perdido. Mas, como toda a vida fantástica pressente o próprio nada que a forma, torna-se, por isso mesmo, de uma susceptibilidade infinita, sangrando dolorosamente, ao contacto de qualquer coisa de real que, junto dela, se ponha em contraste revelador da sua ilusória aparência»(4).



A esperança



A alma pátria é a soma electiva dos indivíduos que trabalham aspirando a um fim comum. No caso do génio português, o sonho secular e profundo, a mais íntima e eterna aspiração do ser humano, não é individual mas colectiva, dinâmica e popular, instintivamente sentida pelos poetas e pelo povo, ao qual deve competir «(…) convertê-la em concreta realidade social ou nova Civilização»(5).



Trata-se da Renascença, a futura civilização de harmonia - entre Paganismo e Cristianismo, Lembrança e Esperança, Tradição e Revolução, Herança e Personalidade, Espírito e Matéria. Uma aspiração presente no idealismo religioso, popular e anti-intelectual, de transmutar a natureza inicial, material, imperfeita e demoníaca em espiritual, perfeita e divina – a obediência do condicional ao absoluto, a vida e a paz do céu.



A este idealismo saudosista se junta o culto da saudade (o saudosismo) e o próprio sebastianismo, quando a grandeza de Portugal morreu materialmente para renascer espiritualmente. Assim, além do mundo realista, com a presença do objecto, e do romântico, com a sua indeterminação, há um outro mundo, expressão de uma saudade, com ausência do objecto sobre o qual incide.



Eis a verdade portuguesa para a Renascença pátria, uma organização de ideias espalhadas através de “A Águia”, escrita com sensibilidade poética, segundo o próprio Teixeira de Pascoaes - um visionário e ouvinte, de coração aberto, segundo Miguel Esteves Cardoso – para o qual os portugueses estão destinados, por um lado, ao sacrifício, à lembrança e à determinação, por outro à redenção, à esperança e à libertação.



Foi objectivo do autor elevar os portugueses ao estado de alma heroica, de sacrifício pelo país. «Há momentos em que o sentimento de obediência à Lei suprema desfalece, pondo em perigo a independência de uma Raça, a qual se firma, a todo o instante, no esforço comum dos indivíduos que a compõem (…) É preciso, portanto, fortalecer e animar a alma dos portugueses, para que a Pátria, que deles depende, ganhe novas energias e virtudes»(6).




A pátria é constituída por uma raça que se organizou e se tornou independente politicamente. Por isso, querer destrui-la, afirma, Pascoaes, é um absurdo. «O Cancioneiro e a obra camoniana constituem os dois fundamentos indestrutíveis da nossa Raça. Logo que a Mocidade os compreenda, subordinando-lhes o seu espírito, e obrando a profunda reforma política, religiosa, económica e literária de que a Pátria necessita para se erguer, definida e viva, da nódoa estrangeirada em que a deliram e apagaram, então, sim, voltaremos, de novo, a ser Alguém…»(7).

(1) PASCOAES, Teixeira de – Arte de ser português, Assírio & Alvim, 3ª ed. 1998, pág.35. (2) Idem, pág.124. (3) Idem, pág.100 (4) Idem, pág.101 (5) Idem, pág.113. (6) Idem, pág. 29. (7) Idem, pág.71.

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