quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Batalha do Buçaco


A alguns dias dos 200 anos da última ofensiva no âmbito das invasões napoleónicas, revivemos o como e o porquê dos ataques franceses e das defesas anglo-portuguesas, vencedoras.

Texto Susana Nunes fotografia Dina Cristo

Em 1807, Napoleão é o grande senhor do continente europeu, após ter saído vencedor dos confrontos com as grandes potências continentais. A supremacia francesa parece solidamente instalada na Europa Ocidental, mas a construção é muito menos sólida do que aparenta: como todos os gigantes, Napoleão também tem o seu calcanhar de Aquiles.
Embora o imperador tenha conseguido impor a sua lei ao continente europeu, não venceu o seu adversário mais inabalável, a Inglaterra, que continua a dominar os mares sem quem lhe faça concorrência. Em 1806, Napoleão tinha optado por uma guerra económica, “ao exumar uma lei que proclamava: ‘A importação de mercadorias manufacturadas provenientes de fábricas ou de comércios ingleses é proibida, tanto por mar como por terra, em todo o alcance da República francesa’. De acordo com a visão do imperador, o campo de aplicação deste texto cobria a totalidade da Europa, incluindo os países não ocupados com os quais tivessem sido estabelecidos tratados (e em particular a Espanha)”1.
No entanto, para ser eficaz, era necessário que este dispositivo fosse globalmente aplicado, o que nunca chegará a acontecer, apesar de todos os meios que lhe serão consagrados. Portugal, que vivia exclusivamente do comércio britânico, não tinha em conta esta interdição, tal como a Espanha, que aplicava o bloqueio de forma muito ligeira. Portugal não podia, nem tinha qualquer vontade em aplicá-lo, pois colocaria em perigo a sua actividade económica. Para além disso, o país contava com o apoio generalizado da sua população, fundamentalmente em desacordo com as exigências francesas.
Dá-se então uma operação armada, pela conquista de Portugal. O que Napoleão não previa é que este movimento, “a seus olhos um simples passeio militar”2, teria resultados completamente opostos ao esperado. O general Junot, que parte em direcção à capital portuguesa, atinge o seu objectivo sem dificuldade e destrona a casa de Bragança. No entanto, este acto terá como consequência directa a intervenção de um corpo expedicionário inglês que eliminará os franceses de Lisboa e que, solidamente instalado neste país de difícil acesso, resistirá a duas voltas ofensivas cada vez mais potentes, sob Soult em 1809 e Masséna em 1810. Ambas terminar-se-ão lamentavelmente para o exército francês, a primeira no Porto e a segunda em Torres Vedras. “As forças portuguesas estavam pouco preparadas para agir em batalha, mas, animadas por um verdadeiro patriotismo, dedicavam-se sem descanso a tudo o que pudesse servir à sua instrução”3.
Um erro

Napoleão não abandonava a intenção de submeter Portugal e em Agosto de 1810 decide enviar mais de 60 mil homens comandados pelo marechal Masséna, apoiado pelo marechal Ney e o general Junot. Uma terceira campanha que durará até Março de 1811, sem alcançar o principal objectivo, a tomada de Lisboa.
Perante os movimentos das tropas francesas, Wellington, general inglês enviado para defender Portugal, decidiu-se finalmente a aceitar uma batalha na serra de Alcoba, actual Buçaco. Mas à sua maneira. Num terreno por si escolhido, particularmente favorável, reforçado por algumas obras defensivas, e onde estimava ter todas as hipóteses do seu lado para barrar a estrada aos franceses. Afirma-o num comunicado escrito na altura: "Ocupámos uma excelente posição, é bastante difícil atacar-se de frente e, se o inimigo esperar mais um ou dois dias, apenas poderá atacar por um único ponto vulnerável. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para o conter neste local. Se não o conseguir, tentarei novamente em Coimbra”4.
Esta zona, a pouca distância de Coimbra, é formada pelas gargantas do Mondego e montanhas pouco penetráveis. “Difícil de se fazer o reconhecimento, ela é eminentemente propícia à defensiva. Estas ‘montanhas malditas’, como lhes chamou um oficial britânico, são perpendiculares ao longo do Mondego, pouco elevadas (entre 200 e 400 metros) e, no entanto, de um acesso difícil pois são bastante íngremes e cobertas de urze. Fora da estrada de Coimbra, apenas raros atalhos abrem caminho, dos quais um, importante, que atravessa por detrás de toda a linha aliada. A norte, encontra-se o convento do Buçaco, rodeado de árvores que o escondem da vista dos franceses. De facto, apenas existem dois pontos a defender pelos anglo-portugueses: à esquerda inglesa a estrada do Buçaco que atravessa o convento, e à direita o caminho que parte de Santo António de Cântaro”5. Estes caminhos difíceis, cujos arredores eram impraticáveis, foram cortados e barricados e estavam defendidos por artilharia.
É neste terreno que o general inglês decidiu concentrar as suas forças para receber os franceses, esgotados de uma dezena de dias de um caminho bastante árduo: “a cavalaria e as divisões Hill e Leith atravessam o Mondego através da Ponte Murcelha e chegam pela estrada do Espinhal ao planalto do Buçaco no dia 26. Juntam-se a Wellington, que dispõe os 50 mil soldados (dos quais 27 mil ingleses) e as 40 peças de artilharia no planalto, a esquerda a cavalo sobre a estrada de Mortágua a Coimbra, a direita sobre a de Santo António de Cântaro. A cavalaria é disposta no campo entre Mortágua e o Mondego. Assim organizado, o inimigo [o exército anglo-português] é capaz de neutralizar a acção da cavalaria e da artilharia francesas. O cume da montanha ocupado tem uma largura inferior a 3 quilómetros”6. As tropas portuguesas podiam, assim, observar todos os movimentos dos franceses, que precisavam de mais de uma hora de um trajecto exposto ao fogo para chegar aos postos avançados.
Para os franceses, a decisão foi difícil. Alguns preferiam a ofensiva imediata. Outros defendiam uma mudança de posição. A esta proposta, que o futuro acabará por provar a melhor, Masséna responde que é impossível. O marechal Ney menciona a possibilidade de se atacar o Porto em vez de Lisboa e chega mesmo a propor o regresso a Almeida, para se esperar por reforços. “Seria efectivamente necessário atacar-se imediatamente, ou mudar-se de posição, como propunha o duque que Elchingen? O adversário, mesmo se não tinha ainda tomado as suas posições de combate definitivas, era largamente superior em número. Atacar sem esperar, seria lançar as divisões à medida que estas chegassem ao campo de batalha, em ordem dispersa, e, certamente, fazê-las combater isoladas. Mudar-se esta posição inatacável de frente para se apanhar o adversário pelas costas, ou levá-lo a separar-se, obrigaria a efectuar-se um deslocamento em presença do inimigo, manobra sempre delicada e perigosa. Masséna rejeita estas soluções, a primeira pois conduziria a uma derrota certa e sangrenta, a segunda porque tem a certeza de que é impossível, tal como Wellington.”7
A batalha
É assim iniciado o ataque armado. O assalto começa de manhã cedo, às apalpadelas num espesso nevoeiro. “Precedida pela brigada Foy e vários pelotões do 31º Ligeiro, a divisão Merle começa a subir a encosta em coluna apertada, abrindo caminho com dificuldade através da urze, sob fogo intenso. Os elementos avançados inimigos começam a recuar. Mas as colunas francesas perdem aos poucos a orientação e afastam-se do seu objectivo. A brigada Foy sai finalmente da bruma pelo caminho que conduz a Santo António e ataca a brigada portuguesa de Chaplemond. Dizimados pelas rajadas do 21º Foot, os franceses tentam reorganizar-se, mas o 74º regimento britânico e uma bateria aliada abrem igualmente o fogo e, após causarem enormes perdas aos franceses, obrigam-nos a parar”8.
Entretanto, a divisão francesa Merle chega por sua vez ao cume e organiza-se à esquerda de Chaplemond. Não existem unidades aliadas nesta parte da encosta, mas a reacção do general inglês Picton é rápida: reúne os fugitivos das unidades avançadas aliadas e, reforçado por regimentos de Leith, contra-ataca pela esquerda. As perdas são grandes do lado francês. Merle é atingido, tal como muitos dos seus oficiais, e é obrigado a retirar as suas tropas pelo flanco direito da montanha, perseguido pelos aliados, que algumas rajadas da artilharia de Masséna obrigam à retirada.
Apesar do fracasso deste primeiro assalto, Reynier persevera na sua tentativa e lança ao ataque os dois regimentos do general Foy conduzidos por Heudelet. Bastante desencorajados pela derrota da coluna de Merle, escalam a encosta num combate desigual contra a brigada Chaplemond. Leith, acudido por tropas frescas, ataca as tropas francesas. O general Foy é ferido e os seus homens, esgotados e dizimados, retiram-se rapidamente. É assim que termina a luta neste sector. A linha aliada não é alcançada.
À direita, o marechal Ney avança para Buçaco. Ordena ao general Loison um ataque em massa por brigadas. Os 12 batalhões de Loison avançam através da mata até à aldeia de Sula. Sobem uma encosta bastante íngreme até ao cume onde, escondidas, se encontram as 1800 baionetas dos 43º e 52º regimentos de infantaria. Convencidos de que apenas terão de enfrentar artilharia, os homens de Loison continuam a avançar. De repente, Crawford faz com que os soldados aliados saiam do seu esconderijo e enviem uma rajada a apenas 10 passos. As primeiras filas da formação francesa são totalmente destruídas. Mais de mil homens, oficiais e soldados, caem, e o resto recua na maior das confusões sem ter causado grandes perdas ao inimigo.
Todos os batalhões de Loison são dizimados, excepto um. Os aliados apenas têm de enfrentar este último, que se separou do corpo principal e aparece face aos regimentos de Coleman. Bastante inferiores em número relativamente ao seu adversário e desconcertados pela debandada dos seus camaradas, os soldados desta formação são facilmente despistados pelo 18º regimento português e retiram-se para Sula. À chegada, reúnem-se ao resto da divisão que se contenta em lutar contra a linha avançada de Crowford, pois Loison não se pode arriscar a lançar um novo ataque.
Ao mesmo tempo, o general Marchand avança em direcção ao convento por uma encosta mais suave que conduz à divisão de Spencer e faz um desvio pela esquerda para apoiar Loison. Rapidamente, se depara com uma grande linha da infantaria ligeira na mata ao sul de Sula e inicia um violento combate. Completamente desorganizados, os franceses conseguem no entanto lançar-se sobre esta formação e sair da mata, mas são recebidos por uma rajada de mosquetes da brigada Pack e, pouco a pouco, recuam até ao sopé das colinas com grandes perdas. Os regimentos de Maucune tentam por sua vez alcançar por um caminho que parte de Sula, mas o fogo das três baterias e o ferimento do seu líder fá-los hesitar. Ney abandona o ataque. Esta retirada marca o fim da batalha do Buçaco. Os anglo-portugueses perderam cerca de dois mil homens, os franceses 4 486, dos quais 275 oficiais.
A derrota francesa
O próprio Napoleão afirmava: “Uma máxima de guerra bem provada é não se fazer aquilo que o inimigo quer, pela simples razão de que ele o deseja: assim, devemos evitar o campo de batalha que ele reconheceu e estudou; é preciso ter-se ainda mais cuidado em evitar aquele que ele fortificou e onde ele se enclausurou. Uma consequência deste princípio é de nunca atacar a frente de uma posição que podemos obter em a rodeando”9. E os factos deram-lhe razão. A responsabilidade desta derrota foi em parte atribuída ao ataque frontal imediato, pois os franceses não souberam encontrar a passagem existente, que permitiria uma mudança de posição e atacar-se os anglo-portugueses em melhores condições, ou forçá-los à derrota sem combate.
Felizmente, para os franceses, como já tinha acontecido no Vimeiro, Wellington não se movimentou após esta vitória e não procurou tornar mais pesada a derrota de Masséna através de uma contra-ofensiva imediata. Contentou-se, como anteriormente, em permanecer numa prudente expectativa.
Após esta derrota, os franceses dirigem-se a Lisboa mas são obrigados a parar nas linhas de defesa de Torres Vedras, construídas no maior dos segredos para proteger a capital, pela iniciativa de Wellesley, na altura comandante-chefe do exército português. Os franceses acamparão perante estas linhas durante seis meses, onde viverão condições difíceis em consequência da “estratégia da terra queimada” de Wellington. Este tinha ordenado à população que escondesse ou queimasse todo o meio de subsistência, antes de partirem em busca de protecção, ou no interior das linhas ou em locais fora do alcance dos franceses. “Neste país deserto, os soldados de Masséna procuravam alimentar-se de qualquer forma, utilizando por vezes métodos pouco louváveis. A retirada, dirigida eficazmente pelo marechal Ney, traduziu-se igualmente por actos de violência ainda hoje na memória dos Portugueses”10.
O apagão
Portugal, um país com dimensões reduzidas e um governo fraco, representou, mais do que qualquer outro Estado da Europa, um obstáculo à vontade imperial, “que se sentia ainda mais invencível pela simplicidade aparente da neutralização [de Portugal]. Esta foi a grande e triste ilusão de Napoleão. A sua ignorância da geografia e da história de Portugal leva-o a projectos irrealistas, cujo falhanço era previsível"11.
Os meios mobilizados por Napoleão foram consideráveis, mas a designação do marechal Ney e do general Junot, sob comando do marechal Masséna, foram um erro: no ano precedente, Ney tinha recusado servir sob as ordens de um outro marechal, desestabilizando os planos da campanha do Tejo. Quanto a Junot, que tinha sido governador-geral de Portugal, considerava-se humilhado. Para além disso, as tropas francesas não estavam completamente preparadas: meios de transporte inexistentes ou insignificantes, desconhecimento dos itinerários, falta de informações, inexactidões na execução do plano de invasão… “Não sabíamos quase nada sobre as fortificações em Torres Vedras, que protegiam Lisboa, quando Masséna estava apenas a 6 posições da capital! Digo mais: se o príncipe de Essling [Masséna] falha militarmente em Buçaco, falha sobretudo perante a política sistemática da terra queimada imposta pelos ingleses às populações portuguesas sob pena de morte. O Imperador não tinha previsto dar aos seus exércitos meios de subsistência para um deserto”12.
As consequências destas três campanhas foram consideráveis para Portugal: “foi necessário voltar a meter-se os campos em cultura para se alimentar a população, reconstruir aldeias inteiras, reencontrar a sua autonomia, o que não era simples com a ingerência dos ingleses nos assuntos do Estado, na ausência dos monarcas pouco apressados em regressar à metrópole”13.
Imparável, Wellington, o futuro vencedor de Napoleão em Waterloo, apoiará a rebelião espanhola. E, no momento certo, saberá aproveitar-se de circunstâncias favoráveis para, após algumas tentativas infrutuosas, lançar uma grande ofensiva que criará uma segunda frente no sudoeste da França em 1814 e que apenas parará com a queda do Império.
É na Península Ibérica que desaparece o mito de invencibilidade das tropas napoleónicas. Após Baylen, Talavera, Vimeiro, Porto, Buçaco e Torres Vedras, nada será como antes: “a partir desta época, o próprio Imperador vai ver a sua estrela empalidecer, a mesma estrela que um dia mostrou ao cardinal Fesh em pleno dia e que afirmava ser o único a ver”14.

1 MOLIERES, Michel – Les expédtitions françaises en Portugal de 1807 à 1811, Editions Publibook, 2007. 2 Ibidem. 3 La Compagne de Portugal en 1810 et 1811. Éditeur A. Eymery, 1814. MOLIERES, Michel - Les expédtitions françaises en Portugal de 1807 à 1811, Editions Publibook, 2007. 4 Idem. 5 Idem. 6 Idem. 7 Idem. 8 Idem. 9 Idem 10 CAILLAUX DE ALMEIDA, Tereza – La mémoire dês campagnes napoléoniennes au Portugal (1807-1811). Au croisement dês sources orales, écrites et iconographiques, Actes du colloque interdisciplinaire: Nouvelles perspectives de la recherche française sur l aculture portugaise (5-6 février 2007). 11 Napoléon et le Portugal, Conferência pronunciada por Nicole Gotterri a 6 de Abril de 2002 no Institut Napoléon (Paris, La Sorbonne). 12 Idem. 13 Idem. 14 MOLIERES, Michel - Les expédtitions françaises en Portugal de 1807 à 1811, Editions Publibook, 2007
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quarta-feira, 29 de abril de 2009

Terra de revoluções


Próximo dos 220 anos da Revolução Francesa, revemos dois séculos de espírito revolucionário. Serão as manifestações hoje indícios de uma nova rebelião?


Texto e fotografia Susana Nunes

Ao longo dos últimos meses, a imprensa revelou que Nicolas Sarkozy, o Presidente da República francês, exprimiu por várias vezes o mesmo receio: nem mais nem menos do que ter o “mesmo” destino que o rei destronado pela Revolução Francesa de 1789, Luís XVI. Pelos vistos, Nicolas Sarkozy considera ter vários pontos em comum com um dos poucos monarcas do mundo a ter sido decapitado. Primeiro e antes de mais, a bela esposa, com “Carlita” como uma versão moderna de Maria Antonieta, segundo, os conselheiros incompetentes, “pois nada é bem feito se não for feito por ele mesmo” e, por último, mas bem mais importante, estes franceses ingratos, sempre prontos para a rebelião, completamente ingovernáveis…
Numa altura em que a polícia teme a falta de efectivos para lidar com as várias manifestações que surgem espontaneamente um pouco por todo o lado na cidade de Paris, será que está para breve uma nova Revolução francesa? O espírito “sans-culotte”, literalmente “sem-calções”, (que nada tem de exibicionista: apenas faz referência ao hábito do povo que não usava calções como os nobres da altura), vive este ainda entre os franceses?
Durante muito tempo, mesmo após o Império de Napoleão ter sucedido à República revolucionária, os franceses continuaram a alimentar a chama da Revolução, e não apenas por ocasião da habitual degustação de uma cabeça de novilho no dia do aniversário da decapitação de Luís XVI: de facto, todo o século XIX foi ritmado por espasmos revolucionários, que frequentemente se propagaram por a toda a Europa, em 1830, 1848 e em 1870. Durante esta época, os tumultos que se fizeram sentir na política francesa determinaram uma boa parte do destino dos povos da Europa. Bastava um mínimo sinal de vida por parte do povo francês para que os restantes soberanos do continente tremessem (excepto, talvez, a rainha de Inglaterra). E, no século XX, se foram as guerras que ritmaram a História, a França não deixou de viver ao ritmo das lutas sociais: movimentos insurrectos antes da I Guerra Mundial, Frente Popular nos anos 30, greves gerais do após guerra... até ao Maio de 68.
Sentido revolucionário
Esta não foi apenas mais uma revolta estudantil, mas também, e sobretudo, uma enorme greve geral (três semanas de greve, nove milhões de grevistas) e um movimento internacional que agitou diferentes povos, desde os Estados Unidos às democracias populares. Novamente, a França parecia revelar o caminho… Mas, curiosamente, é em 68 que a França parece perder aquilo que a tornava tão particular: a capacidade de colocar o sistema em questão para fazer nascer uma sociedade e instituições melhores, mais justas. Maio de 68 foi uma revolução que ficou a meio e que deixou profundas sequelas na mentalidade colectiva dos franceses. Os seus intelectuais, que, de Voltaire a Sartre e Camus, estiveram sempre na frente de combate pela defesa da herança das Luzes, perderam quase todos a credibilidade, tendo sido “substituídos” pelos intelectuais liberais. A Revolução francesa tornou-se numa referência cada vez mais desacreditada.[1] Os marxistas vêem nela principalmente o triunfo da burguesia. Os liberais vêem a génese dos totalitarismos do século XX e, hoje em dia, do terrorismo. Alguns radicais vêem a origem de uma sociedade que defende a dominação branca em nome do universal, incapaz de ter em conta a diversidade humana. A República, neste contexto passou a ser considerada como um regime não revolucionário, um emblema da pacificação social, da ordem. Poderá a República ainda ser revolucionária?
Desde a ascensão da República que as querelas sobre o sentido da Revolução se tinham atenuado. Para a cultura republicana, e como afirmava Clemenceau, “a minha revolução é um bloco”. Foi precisamente para se apagar a chama revolucionária, que se atacou a sua fundação, em 1789. Os liberais dos anos 1970, e especialmente um certo François Furet, destruíram este consenso republicano para desacreditar definitivamente o gosto francês pelas revoluções. “Na véspera de uma data potencialmente perigosa, o bicentenário da Revolução, foi publicado um enorme “Dicionário Crítico da Revolução Francesa” (1200 páginas), abordando eventos, actores, instituições e ideias. As suas centenas de entradas, escritas por cerca de 20 contribuidores escolhidos a dedo, proporcionaram uma base de refutação de algumas lendas de esquerda e de equívocos tradicionais do episódio fundador da democracia moderna. O grandioso impacto deste compêndio de conhecimento moderado, criado e executado de forma impressionante, acabou com qualquer perigo de festejos dos neo-jacobinos em 1989. Quando o bicentenário chegou, Furet foi o incontestável mestre intelectual de cerimónias, enquanto a França prestou homenagem aos princípios fundadores – devidamente clarificados – de 1789, e voltou as costas às últimas atrocidades de 1794. Eliminar o passado errado, e recuperar o certo, foi essencial e inevitável para a chegada atrasada do país ao porto seguro da democracia moderna”. Esquecendo que o período do “Terror” salvou a Revolução face aos exércitos dos soberanos europeus e às insurreições camponesas manipuladas pelos monarquistas, e que a Revolução “deu à França um corpo sólido de camponeses proprietários, ainda hoje considerado como um factor essencial de estabilidade política”
[2], a realidade social foi “transfigurada pelas palavras dos ‘representantes do povo’”[3] e o regime tornou-se numa República burguesa respeitante do direito, e, portanto, da propriedade dos ricos, e protegida das “mudanças de humor” do povo por um sistema representativo. A maneira como se chegou a esta fase não é um mistério: o patronato agiu sorrateiramente, a liberalização liquidou os sindicatos, a queda da URSS liquidou os comunistas, a esquerda desapontou no poder, a direita soube aproveitar-se da revolução conservadora liberal e do populismo e a televisão, privatizada, lavou os espíritos e promoveu líderes de opinião e intelectuais medíocres.Debate público
Algo que é realmente característico ao povo francês é a discussão interminável sobre os princípios e os significados de qualquer acção ou acontecimento. Num artigo publicado na revista Multitudes sobre François Furet, Berger e Riot-Sarcey mencionam o facto de o circuito semiótico ser “o mestre absoluto da política”
[4]. A Revolução Francesa não poderia ser um melhor exemplo: “Trata-se de se saber quem representa o povo, a igualdade, ou a nação: é a capacidade de se ocupar esta posição simbólica, e de a conservar, que define a vitória”[5]. Como refere Jacques Guilhaumou, no artigo “La haine de la Révolution française, une forme de haine de la démocratie”, basta uma denunciação de uma revolução individualista e insistir-se no preço desta revolução[6] para que a revolução social passe para segundo plano e o discurso sobre a democracia se inverta[7]. Neste mesmo artigo, Guilhaumou relembra as palavras de Rancière: “o termo democracia, visto pelo lado negativo, torna-se indistinto do de totalitarismo, substitui-o”. Segundo Hobsbawm[8], verificou-se assim uma marginalização da revolução, e, para se recuperar o seu verdadeiro significado, será necessário discuti-la tendo-se em conta o seu contexto histórico e não o dos dias de hoje, sem se estar ao serviço da política actual. O livro deste autor britânico, “Às armas historiadores. Dois séculos da história da Revolução francesa”, publicado na altura do bicentenário da Revolução, foi imediatamente traduzido pelos editores italianos e espanhóis. No entanto, nenhum editor do próprio país da Revolução decidiu adquirir os direitos de reprodução e publicar a obra em francês, mesmo se bastantes outras obras sobre este acontecimento, mesmo estrangeiras, foram publicadas na altura e nos anos que se seguiram. Na verdade, verificou-se uma grande relutância por parte dos grandes editores franceses face aos autores e trabalhos abertamente contra a ideologia dominante. A sua publicação em 2007 talvez indique que a situação esteja a começar a mudar…
Como comenta Perry Anderson, “A França é, de todos os países europeus, o mais difícil para qualquer estrangeiro de descrever. A sua irascibilidade é o resultado, em primeiro lugar, de tudo o que os franceses produzem sobre eles mesmos, numa dimensão inimaginável em nenhum outro país. Setenta títulos apenas sobre a campanha eleitoral de 2002. Dois mil livros sobre Mitterand. Três mil sobre De Gaulle.”
[9]. Como o próprio De Gaulle afirmou, “A França é inconcebível sem grandiosidade”. Mesmo a língua francesa, outrora a língua do Iluminismo e durante muito tempo o idioma utilizado nas relações diplomáticas mundiais, é sentida como uma língua universal e associada à ideia de civilização francesa (mais do que apenas cultura).Resistência
Se existe um país que tem a revolução na alma, este país é a França. Mesmo hoje, em que o conformismo e o politicamente correcto parecem estar bem presentes e que “a ideia de revolução está em crise”
[10], as ruas desafiam repetidamente o governo: em 1984, em 1986 e, mais recentemente, em 1995, seis semanas de greve consecutivas que bloquearam qualquer tipo de serviço público e uma desordem a nível nacional, que levou à vitória do movimento. Não há, portanto, dúvidas de que a “inflamabilidade popular” é algo inerente ao povo francês. Desde que estou em Paris que já assisti a duas grandes greves gerais. A última, a 19 de Março, reuniu entre 3,23 milhões e um milhão e meio de manifestantes (número oficial), em todo o país. As universidades já estão em greve há mais de um mês, ocasionalmente com direito a portas bloqueadas pelo batalhão de choque. A polícia não sabe como lidar com as manifestações que cada vez se tornam mais espontâneas e imprevisíveis. Há duas semanas que, todos os dias, continuamente, oiço os jambés dos trabalhadores do KFC da esquina (restaurante da cadeia de fast-food Kentucky Fried Chicken). Tomaram o restaurante e estão em greve, exigem que o KFC assine as suas carteiras de trabalho (alguns já estão a trabalhar ilegalmente nestas condições há 10 anos e correm agora o risco de serem expulsos do país). Decididamente, existe um paralelo entre a França pré-revolucionária e a França actual: a ignorância por parte da elite da realidade do povo (“la France d’en bas”). Existe mesmo uma espécie de piada (ou história verídica?) que ilustra perfeitamente esta situação: antes da Revolução de 1789, Maria Antonieta ouve a população que se manifesta e pergunta qual é a razão de tanta algazarra. Esta não percebe o porquê do descontentamento: se eles não têm pão, porque não comem brioche? (É importante salientar que brioche é uma espécie de pão-de-leite, um pão doce, o qual, obviamente, não fazia parte do regime alimentar do povo.)Vocação
Para se encontrar a verdadeira França, aquela que resiste e que se revolta, não se pode procurar nos lugares míticos da Revolução, as Tulherias ou a Bastilha. A prisão já não existe, foi imediatamente demolida após o 14 de Julho por um empresário da construção e pelos seus empregados. Esta não abrigava na véspera do 14 de Julho mais do que uma dezena de prisioneiros – a maior parte filhos de boas famílias em prisão temporária por embriaguez, e, pelos vistos, existiu mesmo uma conspiração que dirigiu astuciosamente a cólera do povo para esta velha prisão, por pura especulação imobiliária! É também inútil procurar-se esta França na universidade Sorbonne ou no bairro de “Germain des Prés”, que outrora abrigaram a contestação e os intelectuais, mas onde actualmente nos cruzamos com mais polícias do que estudantes. Para se encontrar a França de amanhã, aquela que, talvez em breve, voltará a fazer História, é preciso apanhar-se o metro e afastar-se do centro de Paris. É preciso olhar-se para esta juventude urbana mestiça que se revoltou violentamente em 2005, suscitando a atenção de todo o mundo. É preciso olhar-se para a França “média” da província que teme que os seus filhos não consigam, pelo menos, alcançar o mesmo estilo de vida que os pais, perdendo o conforto conquistado arduamente pelas gerações anteriores. São estes quem fará a próxima revolução.

[1] ANDERSON, Perry (2004), "Dégringolade”, in London Review of Books; [2] HOBSBAWM, Eric (2007), Aux armes, historiens. Deux siècles d’histoire de la Révolution française. La Découverte; [3] BERGER, Denis, RIOT-SARCEY, Michèle (2005), “Francois Furet : l’histoire comme idéologie”, Multitudes; [4] Ibidem; [5] Ibidem; [6] HOBSBAWM, Eric, “Aux armes, historiens !”, programa especial da emissão radiofónica “Là-bas si j'y suis”, de Daniel Mermet, difundida pela rádio France Inter, a 8 de Janeiro de 2008; [7] GUILHAUMOU, Jacques (2006), “La haine de la Révolution française, une forme de haine de la démocratie”, in Révolution Française.net; [8] HOBSBAWM, Eric, “Aux armes, historiens !”, programa especial da emissão radiofónica “Là-bas si j'y suis”, de Daniel Mermet, difundida pela rádio France Inter, a 8 de Janeiro de 2008; [9] ANDERSON, Perry (2004), "Dégringolade”, in London Review of Books; [10] BERGER, Denis, RIOT-SARCEY, Michèle (2005), “Francois Furet : l’histoire comme idéologie”, Multitudes.

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quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Borderline


Mercado Sali Pazaar
Num momento de férias para muitos, propomos a segunda parte de uma crónica sobre um bairro turco, Tarlabasi, com a sua riqueza cultural, tradições, estigmas, rotinas, problemas e novos desafios. Um contributo para uma aproximação ao mundo islâmico, objectivo da Aliança das Civilizações, criada há três anos.

Texto e fotografia Susana Nunes

Istambul é, sem qualquer dúvida, uma cidade profundamente marcada pela multiculturalidade. Não, mais do que isso. Istambul é mais do que uma simples mistura de culturas. Basta percorrermos as suas ruas para a vivermos, para a sentirmos. Istambul é uma cidade que invade e se entranha na alma das pessoas, sem pedir licença e sem aviso prévio, transformando esta “multiculturalidade” num aglomerado único, em que a individualidade da cidade se impõe à individualidade de cada um.
Mas Istambul é também uma cidade que vive a dois ritmos completamente distintos, onde coabitam diferentes realidades. Apesar de a alma de Istambul ser omnipresente, existem várias comunidades e bairros quase fechados, que chegam mesmo a ser hostis a estranhos. O mais extraordinário é quando todas estas definições se aplicam a um único bairro. Apesar de Tarlabasi ser uma comunidade extremamente fechada, estranhamente, é também um bairro repleto de diferentes culturas que aprenderam ou que são obrigadas a partilhar o mesmo espaço.
Uma vez mais, o meu prédio não poderia ser melhor exemplo deste peculiar fenómeno: para além da excepcional família curda, vivíamos ainda com uma família de japoneses, Julie, uma empresária francesa, e Michael, um professor britânico homossexual. Obviamente, nenhum destes vivia em Tarlabasi com o mesmo à vontade que os nossos vizinhos curdos. Da família de japoneses, só o pai saía de casa para ir trabalhar (nunca cheguei a ver a mãe, pois nunca saía nem abria a porta a estranhos sem o marido estar presente). Julie, a empresária francesa, nunca passava muito tempo em Istambul por causa dos negócios, mas visitava-nos após cada regresso. Penso que nunca se chegou a sentir completamente em casa nesta cidade e que falar um pouco connosco tornava a situação mais fácil. Partiu no primeiro dia do ano, deixando-nos uma garrafa de champanhe, e nunca mais regressou. Michael é o típico britânico, extremamente educado e organizado e que se enquadra no contexto turco, claramente, como um peixe fora de água. Nunca conseguimos perceber porque escolheu um país tão conservador para ensinar. Renovou de tal forma o seu apartamento que ninguém conseguiria encontrar uma única semelhança com o nosso e, muito menos, com o da família curda. Não, estou uma vez mais enganada. Houve algo que Michael não pôde mudar, mesmo não combinando em nada com o novo estilo e com a decoração moderna do seu apartamento, e que continua e continuará a ser igual para todos os habitantes deste prédio em Tarlabasi e de muitos outros prédios de Istambul: o “buraco”.

Enclaves

Em Istambul, "o buraco” é um fenómeno tão significativo que Orhan Pamuk, em O Livro Negro, lhe dedica um capítulo inteiro
[1]: “Les jours où toute la famille allait dîner à l’étage du grand-père, la bonne utilisait le puits d’aération pour annoncer, en criant de tout sa voix, à ceux de l’étage d’en bas et aussi à tous les locataires de l’immeuble voisin, que le dîner était prêt. Les soirs où ils n’y avaient pas été conviés, la mère et le fils, relégués au dernier étage, lançaient de temps à temps un regard par la fenêtre, qu’ils tenaient ouverte, de leur cuisine, pour épier les plats du menu et les intrigues d’en bas.", p. 332.
De facto, ainda não sei ao certo com que finalidade, talvez para depósito do lixo, mas, nesta cidade, muitos prédios foram construídos com um buraco quadrangular no centro. Um buraco vertical, de cerca de três m2 de largura, cuja única abertura para o exterior se situa no topo do prédio, e para o qual todos os apartamentos dispõem de duas ou mais janelas. Apesar de actualmente não ter qualquer função específica, a quantidade de janelas concentradas num espaço tão fechado (no nosso apartamento, por exemplo, tanto a cozinha, como a sala e um dos quartos só tinham vista para “o buraco”) leva a que este, necessariamente, faça parte do dia-a-dia e da vida de cada apartamento e de toda a comunidade do prédio. É através do buraco que as mães gritam pelos filhos para que venham almoçar ou jantar, é para o buraco que inexplicavelmente alguém atira água de vez em quando. É no buraco que vive uma larga família de ratazanas, que passamos horas a observar, num misto de terror e de fascinação.
Para além do “buraco”, este prédio possui ainda outros dois espaços comuns: a cave, onde penso que, exceptuando todos os gatos da vizinhança, ninguém entra há anos, dado o odor pútrido e nauseabundo que daí provem, e o local onde passei várias tardes encantadoras, o terraço. Embora seja um local praticamente esquecido, bastante sujo e a precisar urgentemente de obras, a velha cadeira de baloiço e a impressionante vista, de um lado o aqueduto e o Bósforo, do outro Tarlabasi, fazem com que este terraço se torne num local mágico, onde, perante a dimensão da cidade, qualquer pessoa se sente tão pequena como uma formiga, mas extremamente privilegiada, simplesmente por ter a oportunidade de observar Istambul.
Obviamente, não sei o que o futuro me reserva, mas penso que o dia-a-dia no nosso pequeno apartamento em Tarlabasi foi e continuará a ser um dos períodos mais marcantes da minha vida. Viver em Tarlabasi é viver em constante estado de alerta, sem deixar de se ser surpreendido todos os dias. É estar-se sempre prevenido, sem deixar de se ser apanhado desprevenido.
Ainda hoje penso nos pobres homens que trabalham dia e noite num buraco (um outro tipo de buraco) do apartamento da frente, onde acumulam todo o tipo de sucata, móveis e velharias. Uma cave escura e muito suja, na qual, por vezes, só se vêem os seus pequenos olhos a brilhar. É impossível ficar-se indiferente a estas pobres vidas que se esgotam ao ritmo do vai e vem de objectos alheios. Todos os dias, a chegada e a partida de mercadorias provoca alguma azáfama no bairro, sobretudo quando se descobrem pequenas relíquias, como uma antiga máquina de escrever, que tanto apaixonou um dos meus colegas de casa, um jornalista espanhol.
Esta cave, “o buraco da frente”, como lhe chamávamos, é um local misterioso e difícil de compreender, como muitos outros em Istambul. Pela nossa observação diária, os objectos e materiais que chegam são muito mais do que os que partem. Todos os dias, os “homens da cave” carregam tudo e mais alguma coisa para este local. Para mim e para muitos outros habitantes do bairro, esta cave é como um buraco sem fim, labiríntico, constituído por diversas galerias, repletas de relíquias e tesouros antigos. Curiosamente, esta ideia é um pensamento comum relativamente a Istambul. Dada a sua riqueza histórica, muitos são os mistérios que assombram esta cidade e várias são as lendas e histórias sobre túneis e catacumbas que percorrem e interligam o coração desta cidade. Apesar de tudo, não é difícil de se acreditar nesta possibilidade, sobretudo quando é do conhecimento geral que sempre que se abre um buraco na zona histórica da cidade se encontram novos artefactos e relíquias de diferentes períodos. Tendo em conta que Istambul é uma cidade conhecida pela sua colossal riqueza histórica, é perturbante imaginar tudo o que se pode encontrar soterrado sob as suas ruas, os seus monumentos, as casas, os mercados… Como exemplifica a edição de 27 de Maio de 2008 do jornal Le Monde (p. 3), “o túnel ferroviário que ligará daqui a uns anos as duas margens de Istambul, passando por debaixo do Bósforo, permitiu a descoberta de centenas de objectos datando da época bizantina, mas também da época otomana, e de diversos pontos históricos de grande importância. Vestígios do neolítico, um porto bizantino, um pedaço de 50 metros das muralhas de Constantinopla, nunca antes encontradas nesta área, já emergiram no local. Desde há quatro anos que mais de 70 arqueólogos e de 700 trabalhadores estão em actividade dia e noite.”. E, tudo isto, no centro de Istambul.

Divisão

No entanto, não é com o curioso agregado de roedores que habita o buraco que termino a lista de moradores do nosso prédio. Embora tenha sido a família curda quem mais me marcou, deixei para o fim um grupo que é, sem dúvida, o mais relevante: no primeiro andar do prédio encontra-se situada a sede do DTP, o Partido Sociedade Democrática, um partido de esquerda, pró-curdo, isto é, que defende a criação de um Estado curdo, independente, no Curdistão (região dividida nas fronteiras da Turquia, do Irão, do Iraque e da Síria).
Apesar de todos termos bem noção que qualquer movimento pró-curdo é regularmente alvo de represálias e de atentados, nunca tive grandes preocupações a nível de segurança, até ao dia em que acordei às quatro horas da madrugada com um grande estrondo. Ainda tive tempo para pensar na possibilidade de estar a sonhar, mas imediatamente comecei a ouvir vidros a partir e vozes perturbadas. Apesar de Istambul não ser uma cidade nada silenciosa, não tive dúvidas de que algo grave se tinha passado e decidi acordar toda a gente, just in case. Saía fumo pelas janelas do primeiro andar e a rua estava repleta de pessoas assustadas. Os bombeiros não tardaram a chegar e o rumor de que o escritório do DTP tinha sido alvo de um atentado com um cocktail molotov espalhou-se por todo o bairro ainda mais rapidamente.
Evidentemente, ninguém pregou olho nessa noite e a possibilidade de novos atentados assombrou muita gente. Fui trabalhar na manhã seguinte e mal pude acreditar no que vi quando regressei a casa. Em vez de começarem a actuar de forma mais discreta ou de planearem retaliações, os membros do DTP decidiram responder ao atentado da maneira mais aterrorizadora que poderiam ter encontrado: organizando uma enorme festa e convidando todos os curdos do bairro.
No nosso apartamento, a semana seguinte foi de pânico constante. O estado de alerta geral traduziu-se pelo silêncio e, ao mínimo barulho, os nossos corações disparavam e o sobressalto invadia-nos. Para piorar a situação, o prédio não tinha caixas de correio e os envelopes ou encomendas eram deixados no rés-do-chão até que o destinatário os visse. Durante várias semanas não nos saiu do pensamento que, qualquer que fosse a resposta à provocação, seria certamente mais grave que um cocktail molotov. Ainda hoje me custa a acreditar que a festa não provocou retaliações. Ainda hoje não sei como é que os opositores engoliram a afronta e a ousadia mas sinto-me profundamente agradecida por tal ter acontecido.
É importante lembrar que esta é uma questão extremamente sensível para a Turquia, país onde existe uma comunidade de 11 a 15 milhões de curdos, considerada pelo governo como uma ameaça à segurança nacional do país. A palavra “genocídio” é tabu e completamente condenada pelo governo, mas não é difícil de a encontrar no olhar de cada turco. Aziz, um colega de faculdade, nunca conseguiu deixar de se sentir assombrado por este fantasma e contou-me que planeava fugir para a América do Sul, para escapar ao serviço militar. Sinan, um outro colega e uma pessoa extremamente simpática e trabalhadora, esteve preso durante algum tempo. Nunca me contou porquê, mas corria o rumor de que foi condenado por participar numa manifestação pró-curda. Desde sempre que os curdos têm resistido às tentativas de assimilação forçada por parte do governo turco. Mesmo após a supressão da sua língua e a abolição das palavras “curdo” e “Curdistão” dos dicionários e décadas de incentivo ao uso do turco, a maior parte continua a falar a língua curda. E este é um facto que em Tarlabasi não passa despercebido.

Cidade karisik

Para além do vaivém das mercadorias do “buraco da frente” e dos casamentos ciganos, eventos que provocam o caos durante quatro dias no mínimo, a azáfama é uma constante na nossa rua: os miúdos que jogam à bola e sonham em vir a ser grandes estrelas do futebol turco, as miúdas que jogam à macaca e que olham com curiosidade os estrangeiros, as mulheres que passam a tarde sentadas nas escadas dos prédios, a conversar e a observar a vizinhança, ao mesmo tempo que preparam os vegetais para o jantar… E que, pelo menos uma vez por mês, trazem as suas belas carpetes para a rua, onde as lavam e esfregam, sem se preocuparem com o trânsito ou com quem passa.
Neste mesmo espaço, é impossível não se reparar também na enorme quantidade de gatos que vagueiam pelas ruas, desfrutando do sol e da simpatia de quem passa. Apesar de não existir qualquer explicação lógica, os turcos têm uma relação bastante próxima com os gatos vadios, permitindo que estes ocupem qualquer espaço inabitado e alimentando-os regularmente. Na rua, várias vezes me deparei com taças de ração para gato e, surpreendentemente, sobretudo nos bairros mais pobres. Para além disso, numa cidade onde a circulação rodoviária é gerida pela lei do mais forte e onde é extremamente difícil ser-se um peão ou ir-se a algum lado de bicicleta, cheguei a ver o trânsito parar por completo apenas para que um gato pudesse atravessar a rua. Ninguém sabe explicar este fenómeno, e há mesmo quem o negue, mas a verdade é que, na Turquia, os gatos beneficiam de um estatuto bastante privilegiado.
Apesar de Istambul se “modernizar” e “ocidentalizar” um pouco mais a cada dia que passa, a vida na maior parte dos bairros ainda gira exclusivamente em torno do comércio local e dos vendedores ambulantes. Na minha rua, por exemplo, todos os dias por volta da hora em que terminam as aulas, ouve-se apregoar ao longe “SAHLEP, SAHLEP, SAHLEP!!!” (uma bebida quente feita à base de raízes de orquídeas). A voz vai-se aproximando, percorrendo cada viela, repetindo o pregão incansavelmente, até se afastar e deixar de se ouvir por completo.
Para além do “negócio do buraco da frente”, existe também um vendedor de frutos ambulante (que raramente sai do mesmo sítio) e um outro local bizarro, uma loja inicialmente repleta de ovos praticamente até ao tecto, actualmente transformada num atelier de exposição de fotografias. No entanto, o coração do comércio local encontra-se numa pequena loja típica, onde, como na maior parte das lojas turcas, se pode encontrar e comprar de tudo. O mais curioso é que esta loja está aberta 24 horas por dia e é gerida apenas por dois irmãos curdos, que se revezam, dormindo no camião estacionado do outro lado da rua. Neste tipo de lojas, algo que imediatamente se descobre é que a palavra é mais importante do que o dinheiro. Por exemplo, apesar de cada fruto ter um preço diferente, ao quilo, na altura de pagar, todos os sacos são pesados ao mesmo tempo e o preço total é calculado de forma quase aleatória, sem recurso a qualquer instrumento de cálculo. Embora difícil de se compreender e de se aceitar, o comércio turco baseia-se sobretudo na interacção imediata entre o vendedor e o cliente. O vendedor pode estipular um preço com uma margem de mais de 70% de lucro ou de apenas 5%, por exemplo. Sinceramente, à excepção de quando se espera que o cliente regateie o preço, nunca consegui decifrar os critérios que levam a um preço ou ao outro.
No entanto, apesar de todas as dificuldades de comunicação, acabei por chegar à conclusão de que, para mim, um dos maiores problemas de viver em Tarlabasi, não foi o convívio com a população local, mas sim os preconceitos existentes em relação a este bairro. Por exemplo, Istambul é uma cidade cujas reservas de água potável são insuficientes, por isso, verificam-se frequentemente cortes temporários no abastecimento de alguns bairros, sobretudo no Verão. Tendo em conta a reputação de Tarlabasi, obviamente, este é o primeiro bairro a sofrer com este problema. Há bens essenciais que tomamos como adquiridos e cujo valor só descobrimos em caso de verdadeira necessidade. Após três dias sem uma única gota de água a correr pelos canos, a meio de um Verão abrasador e extremamente seco, saí de casa pela manhãzinha, entrei num dos melhores e mais modernos cafés da Istiklal, Mado, pedi um pequeno-almoço e ocupei a casa de banho durante meia hora. Nem senti a falta de um chuveiro, o lavatório chegou perfeitamente para me voltar a sentir uma pessoa de novo. Normalmente, quando pensamos em falta de água, a primeira ideia que nos passa pela cabeça é sede. Neste caso, dispondo de água engarrafada para beber e cozinhar, o grande problema foi viver com mais cinco pessoas e partilharmos todas a mesma casa de banho.

Todas as minorias

Não posso concluir este modesto retrato do bairro turco onde vivi durante cerca de um ano, sem fazer referência a um outro fenómeno que bastante me intriga, ainda hoje, sobre uma outra comunidade que procurou abrigo em Tarlabasi. À noite, quando já não se vêem mulheres de véu nem crianças, as ruas deste bairro invadem-se de travestis. Estes constituem, sem qualquer dúvida, uma grande comunidade e muitos turcos e mesmo estrangeiros consideram Tarlabasi como o centro da procura/venda de sexo em Istambul, cidade onde existem cerca de 20 mil travestis. Como refere Deniz Kandiyoti no artigo “Transsexuals and the Urban Landscape in Istanbul”
[3], em Tarlabasi, os transexuais são membros de uma cultura local com consciência própria, que desenvolveu o seu próprio vocabulário. Até 1996, os travestis constituíam uma comunidade relativamente estável, baseada numa rotina bem estabelecida de protecção e subornos. No entanto, nesse ano, Istambul recebeu a conferência Nações Unidas Habitat II, "A Cimeira da Cidade", o que levou a uma massiva operação de limpeza de vários bairros, atingindo profundamente a comunidade transexual.
Ainda segundo Kandiyoti, poucos grupos sociais receberam tanta visibilidade e atenção mediática como os transexuais (de homem para mulher) receberam na Turquia nestes últimos anos: “parte da fascinação em torno dos transexuais está, sem dúvida, relacionada com o desconforto que causam na moralidade e nos conceitos dominantes sobre sexo e identidade. Numa sociedade que preza a masculinidade e que possui diversos tabus em relação à expressão da sexualidade feminina, os travestis ostentam com uma vaidade agressiva o estilo feminino e habitam geralmente um submundo sombrio de diversão e de prostituição”.
É de salientar que, contrariamente à maior parte dos países islâmicos, a Turquia é um país cuja legislação permite cirurgias de mudança de sexo e relações homossexuais. Em 1988, foi promulgada uma lei que legaliza a mudança de sexo através de cirurgia, baseada no precedente de Bülen Ersoy, curiosamente uma das cantoras mais adoradas da Turquia, que apelou em tribunal o reconhecimento da sua identidade como mulher, após uma operação de mudança de sexo, em Londres.
Apesar de Tarlabasi continuar a ser o bairro das minorias e dos indesejáveis, as frequentes perseguições e a pressão constante por parte das autoridades, fazem-me pensar que estes dias podem estar a chegar ao fim. Existe uma nova elite que está a redescobrir a antiga beleza de Istambul e o seu legado histórico, do qual faz parte Tarlabasi. No passado, as antigas casas de madeira, do estilo otomano, foram negligenciadas e, por vezes, demolidas ou queimadas (o que é excepcionalmente descrito por Orhan Pamuk em Istanbul: Memórias de uma cidade), para darem lugar a estradas ou blocos de apartamentos “rentáveis mas sem alma”. Actualmente, o boom do aumento do valor das propriedades já se começou a sentir até neste bairro (o que provavelmente levou a que fosse lembrado pelo governo), o que acabará por levar a um novo êxodo, provavelmente para os subúrbios da cidade. No fundo, o verdadeiro problema apenas será geograficamente afastado.

[1] Éditions Gallimard, 1995. [2] Karisik (karışık): mista, misturada. [3] Edição 206 do Middle East Report.

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quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Cidade-limite



Vista do Palácio Dolmabace, a partir de Bósforo



A Turquia é, a par de Espanha, o país promotor do Fórum Anual para a Aliança entre Civilizações, que tem lugar nos dias 15 e 16, em Madrid, e cujo alto comissário é Jorge Sampaio. Uma oportunidade para conhecermos melhor uma nação que (pretende passar de país associado da UE, desde os anos 60, a membro de pleno direito e) foi o berço de várias civilizações e impérios que fizeram a ponte entre o Ocidente e Oriente. Istambul (anterior Constantinopla e antiga Bizâncio), principal cidade do país, por exemplo, está dividida entre dois continentes, Europa e Ásia, através do estreito do Bósforo (na fotografia). Uma riqueza histórica que se reflecte na diversidade cultural actual, de que esta crónica testemunha.

Texto e fotografia Susana Nunes*

Por vezes, odeio esta cidade. Percorro o meu caminho o mais depressa possível, fugindo de qualquer troca de olhares. E a minha raiva aumenta a cada passo. Apetece-me esmurrar o próximo homem que olhe para o meu corpo e revelar toda a hipocrisia desta sociedade à primeira mulher que olhe com reprovação os meus tornozelos descobertos. Desejo que um novo dilúvio leve para longe toda a sujidade e este calor húmido que se entranha na pele e me consome. Esgotada, imploro por dois minutos de silêncio nesta cidade que não dorme nunca. Dois minutos apenas. Mas confesso que nunca me passou pela cabeça a ideia de desistir. Se após um ano aqui estou de novo é porque Istambul é realmente a cidade-limite: até mesmo o ódio e o amor se confundem facilmente. Toda esta raiva que sinto por momentos não é mais do que uma intensa forma de paixão.
Não percebi à primeira o que ela me tentava dizer. Devia ter pouco mais de 40 anos e, pelo lenço na cabeça e pelas suas roupas conservadoras, facilmente se percebia que aquele não era o seu lugar. Àquela hora da madrugada, não havia mais ninguém para além de nós no café da estação de serviço, numa cidade-fantasma, algures na Turquia. Foram várias as horas que ali passámos enquanto esperávamos pelo nosso autocarro. Ela parecia não ter destino. Acabei por perceber que estava em fuga, mas que tinha deixado muita coisa importante para trás. Apesar das evidentes dificuldades de comunicação e de um sorriso amargo nos lábios, tentava explicar-me que com a minha idade já tinha mais de três filhos. Muitas vezes penso no que teria acontecido para ela ali estar e em qual terá sido o seu caminho.
Embora este encontro não tenha ocorrido em Istambul, não poderia ser mais esclarecedor sobre o espírito desta cidade. Istambul pode ter um passado extremamente rico – foi a capital de três impérios – o Romano, o Bizantino e o Otomano – mas a maior parte dos seus habitantes chegou a este local há relativamente pouco tempo. No fundo, Istambul é um amontoado de diferentes histórias pessoais, de passados de diversas minorias, que tentam sobreviver juntas sem perder aquilo que as distingue umas das outras. Para além disso, Istambul é uma das maiores áreas metropolitanas do mundo, com mais de 12 milhões de habitantes (existem estatísticas que chegam a referir 18 milhões), isto é, mais habitantes do que em todo o território português. Estes ingredientes são a principal base para uma cidade que fervilha sem cessar, onde o próprio ritmo de vida chega a ser difícil de acompanhar.
Em Istambul é impossível pensar-se a longo-prazo. Tudo muda de um dia para o outro. O bairro onde estou a viver actualmente é um exemplo perfeito da cidade-limite que é Istambul. Embora o meu apartamento esteja numa zona relativamente segura, este é um bairro considerado por muitos turcos como um local a evitar. Até mesmo os taxistas revelam alguma hesitação quando refiro “Tarlabasi”. O mais curioso, e inacreditável, é que, apesar disso, está localizado mesmo ao lado do coração comercial e cultural da cidade. Na verdade, não preciso de andar nem cinco minutos para estar na avenida mais conhecida de Istambul: a Istiklal. A linha divisória entre estes dois espaços é tão ténue que, muitas vezes, me sinto a viver na borderline, em todos os aspectos. De um lado, uma das zonas mais ricas da cidade, do outro o bairro de todos os “indesejáveis”.
Duas velocidades
Ninguém consegue ficar indiferente a esta cidade. Nunca senti tanta fluidez de pensamento como ao percorrer as suas ruas. O ritmo é alucinante e as coisas só param quando menos se espera, ou quando há futebol, claro. Uma das ruas em que este fenómeno é evidente é a já referida Istiklal. Muitas vezes me senti levada pela multidão, sem possibilidade de recuar ou abrandar. Muitas vezes entrei numa livraria ou num café, só para ficar a observar o fluir da multidão a partir de um dos andares superiores. É como se existissem duas comunidades que andam a ritmos diferentes. Uns permanecem diariamente no mesmo local e por ali andam, faça chuva ou faça sol. As únicas faces que reconheço são as dos mendigos e as dos vendedores ambulantes. As restantes perdem-se na multidão em movimento.
É curioso como esta rua está em constante mutação, seja de pessoas ou de locais. Durante a minha primeira estadia, todo o pavimento foi substituído por duas vezes (a primeira por necessidade, a segunda por alguém não ter ficado muito satisfeito com o resultado). Tenho ainda a sensação de que praticamente todas as vezes que a percorri descobri algo diferente, ou uma loja nova ou um pormenor que me tinha passado despercebido. Mesmo ao regressar a casa, de madrugada, já muitas são as pessoas que se preparam para a agitação de um novo dia.
Uma das profissões que mais se enquadra nesta peculiaridade é a de carregador ou transportador. Apesar de Istambul ser uma cidade cada vez mais moderna, estes não parecem estar em extinção, muito pelo contrário. É impressionante observar o trabalho dos carregadores de mercadorias pesadas, indivíduos que carregam quilos seja do que for às costas, literalmente. Lembro-me especialmente de uma mulher de bastante idade andar sempre para cima e para baixo com uma enorme carga de papelão (bem maior do que ela própria). Um dia, num artigo, acabei por descobrir que já tinha mais de 90 anos, que era reformada, e que só continuava a trabalhar por querer continuar a ajudar a neta a pagar os seus estudos.
Apesar de esta ser uma actividade cada vez menos frequente, existe um outro fenómeno bastante curioso, que se deve ao sucesso das entregas ao domicílio. Já era habitual observar a rotina dos vendedores de chá, que andam de loja em loja, de escritório em escritório, rua acima, rua abaixo a distribuir e a recolher copos com uma bandeja redonda. No entanto, a opção da entrega ao domicílio teve tanto sucesso entre a população, que actualmente pode-se encomendar quase qualquer tipo de produto por telefone, seja da farmácia, do supermercado, da tabacaria ou de um restaurante, praticante 24 horas por dia! Existe mesmo um website que engloba centenas de restaurantes e cafés, onde se pode encomendar qualquer tipo de comida (incluindo gelados!). Por isso, não é difícil imaginar a quantidade de estafetas que anda pelas ruas diariamente…
Tarlabasi
Por incrível que pareça, este bairro, Tarlabasi, considerado actualmente o mais problemático de Istambul, também teve os seus tempos de glória. Se tentarmos ver para além da sujidade e da deterioração, ainda encontramos muitos indícios da sua antiga magnificência. A rua onde vivo, por exemplo, pertencia a um antigo bairro grego, uma minoria que outrora teve um período de considerável riqueza. Os prédios, embora em decadência, ainda mantêm a sua arquitectura característica. Alguns ainda possuem estátuas na sua fachada. No meu prédio as escadas ainda são as originais, de autêntico mármore branco, com um corrimão de madeira de visível qualidade, trabalhada à mão (apesar de grande parte ter desaparecido, aproveitada provavelmente para aquecimento no Inverno).
Até à década de 50, este era um bairro próspero habitado por Gregos e por Arménios abastados. No entanto, após a fundação da República Turca, em 1923, a exigência de uma homogeneidade étnica e religiosa veio contrastar com esta comunidade não muçulmana, por isso, uma série de medidas governamentais discriminatórias levaram à partida forçada da maior parte dos residentes cristãos. Uma das medidas que mais impacto teve foi a do “Imposto de Riqueza” (1942-44), colocada em prática durante a II Guerra Mundial. Esta medida, implantada para a rectificação da economia, foi aplicada apenas em minorias, sobretudo gregas, judaicas e arménias, de forma a enfraquecer a dominação destes grupos étnicos na economia. Este sentimento de descriminação chegou ao seu auge quando, a seis e sete de Setembro de 1955, a população turca se juntou em revolta, em Istambul e em Izmir, contra estas minorias, pilhando os seus bens e as suas propriedades, entrando nas suas casas, espancando-as e ameaçando-as.
Muitos dos edifícios foram abandonados e, com o passar do tempo, Tarlabasi tornou-se o destino dos sem-abrigo e da população sem raízes, vinda de áreas rurais, sobretudo do Este da Turquia. A habitação barata atraiu imigrantes pobres de todo o mundo, incluindo refugiados do actual conflito iraquiano. Tarlabasi tornou-se num denso e caótico aglomerado de pessoas, num local deteriorado e com poucas condições de vida. Em 2000, estimava-se que cerca de 31 mil pessoas vivessem neste bairro, 78% das quais imigrantes. Estes habitualmente planeiam uma estadia curta, olhando para Istambul apenas como uma entrada fácil para a Europa, mas acabam por ir ficando. Na década de 90, o desejo de tornar Istambul “uma cidade do mundo” levou a que o espaço urbano fosse violentamente redesenhado. Durante esta operação de limpeza, 368 edifícios em Tarlabasi foram demolidos, muitos deles históricos. Beyoglu, do outro lado da Avenida Tarlabasi, foi alvo de um processo de gentrificação e tornou-se no centro de cultura e de entretenimento de Istambul. Tarlabasi simplesmente permaneceu do lado errado da avenida, o lado para onde foram varridos todos os indesejáveis, que sendo-o noutros locais aprendem a acolherem-se uns aos outros, à sua maneira. Enquanto, para muitos dos habitantes de Istambul, esta longa avenida apenas serve de ligação entre os diversos centros da cidade, para os residentes de Tarlabasi, esta é a “borderline”, a fronteira onde o trânsito se torna uma barreira, para que Tarlabasi permaneça isolado do resto da cidade e do mundo. Existe mesmo quem refira que Tarlabasi, sendo um bairro com um fluxo permanente de migrações, provavelmente está mais próximo de outras cidades com as quais tem relações espirituais do que aquela em que se encontra.
São habituais as disputas entre famílias e entre minorias num local em que o espaço público, se existe, está confinado às conversas em frente às suas portas, abertas para ruas-corredor. Recentemente, houve uma grande disputa entre curdos e ciganos, que obrigou à intervenção da polícia. Entre estes dois grupos a situação é algo frágil pois tendem a ver-se como rivais: ambos sabem que não são bem vistos pela sociedade turca em geral, por isso, acabam por competir pela posição menos inferior. Os curdos referem-se aos ciganos como infiéis e ladrões, os ciganos penduram bandeiras turcas nas janelas para lembrar que os curdos é que são perigosos para o país (dado que lutam por um estado independente).
Nem sempre a polícia se envolve nos conflitos em Tarlabasi. Num artigo intitulado “Tarlabasi: 'Another World' in the City”, por exemplo, Nermin Saybasili recorre a um conceito de Georgio Agamben para caracterizar este bairro: um “local deslocado”. Segundo Saybasili, enquanto a altamente visível presença das forças policiais exerce uma violência aberta sobre este espaço, também indica uma violência encoberta que constitui o espaço, pois os eventos que nele têm lugar muitas vezes não são vistos e são deixados por investigar.
É óbvio que os conflitos já fazem parte da rotina neste bairro. Sempre que vou trabalhar tenho de percorrer a Tarlabasi Boulevard, embora já só me atreva a fazê-lo do lado “certo”, e é impossível não reparar no carro de combate militar, um tanque, que já há anos se encontra em frente da sede da polícia do outro lado da avenida. Mas, muitas vezes, cheguei a atravessar este bairro, do lado “errado”, para ir para a universidade. Muitas vezes, até ao dia em que assisti a uma cena de espancamento colectivo de um único indivíduo. Não sei se foi do susto ou se realmente aconteceu, mas, a dada altura, pareceu-me ter ouvido os ossos do rapaz a partir com a força da paulada que levou nas pernas. Pareceu-me que todos os restantes sons e barulhos pararam e que ouvi cada estalido, como se assistisse a esta cena em câmara lenta. Ainda hoje me recordo perfeitamente do som. Encurralado numa esquina, rodeado por uma dezena de homens, não consigo, nem quero, imaginar o seu estado final. Em choque, desviei o olhar assim que me apercebi que um dos agressores olhava para mim, acelerei o passo sem correr, não olhei para trás quando me apercebi que me chamava e, apesar de não acreditar em religiões, rezei como uma crente fervorosa para que não me seguisse. Só parei quando a porta de casa se fechou atrás de mim e pude finalmente descarregar toda a tensão num ataque de choro incontrolável. Este foi um dos momentos em que não tive dúvidas de que odiava Istambul. Não repeti sozinha o mesmo percurso, mas também não me passou pela cabeça em desistir desta cidade.
Os vizinhos curdos
A primeira vez que entrei no prédio onde estou a viver actualmente pensei que não seria capaz de viver num lugar assim. Realmente, de noite, ninguém pode ter uma boa impressão deste local. As ruelas estreitas e escuras, o cheiro intenso vindo dos caixotes do lixo, o barulho dos gatos que fizeram da cave o seu local de refúgio… Mas, apesar de ser evidente que já há muito que precisa de obras de recuperação, acabei por ficar surpreendida com o estado do apartamento, bem mais “normal” do que esperava. As circunstâncias acabaram por determinar que esta fosse a minha morada fixa em Istambul no meu ano de estudante e que o voltasse a ser, nesta minha segunda estadia.
A multiculturalidade existente neste prédio foi o que mais me fascinou. A família mais marcante é, sem dúvida, a família curda que vive no apartamento imediatamente abaixo do nosso. Todos tivemos algumas dificuldades em perceber quantas pessoas moravam ao certo naquele apartamento e em compreender como seria a divisão do espaço. Nós éramos apenas cinco e nem sempre foi fácil a gestão do uso dos espaços comuns, principalmente o da única casa de banho. Naquele apartamento viviam três casais, cada um deles com os seus filhos. Considerando, que quatro filhos é o mínimo para uma família curda, bem… Talvez seja por isso que quase todos os dias nos apercebíamos de uma criança nova a entrar naquela casa e nunca tenhamos conseguido identificá-las todas. Também talvez seja por isso que, bem antes dos nossos despertadores tocarem de manhã, já os gritos ecoavam pelo prédio. As discussões e as crises são constantes e não têm qualquer problema em expressá-las verbalmente. Tudo termina uma meia hora depois, com um dos miúdos a chorar desalmadamente ou com alguém a sair de rompante e a porta a bater.
Acabei por me aperceber de que, embora provavelmente os homens tivessem a última palavra, o chefe de família naquela casa era a mulher mais velha. Entre os vários trabalhos que tinha, costumava ser ela a limpar as escadas do prédio, pedindo em troca 15 liras a cada família (e não havia quem lhe conseguisse fazer frente, por cobrar por algo que ninguém lhe tinha pedido, mesmo sendo o preço invulgarmente elevado). Lembro-me de um dia acordar com uma gritaria assustadora, desta vez mesmo à porta do nosso apartamento. Levantei-me a correr para me aperceber de que era a mulher, a reclamar pelo atraso do pagamento. Sem dúvida, descobriu um método eficaz e usa-o em todos os casos, seja qual for o problema: ninguém aguenta muito tempo os seus gritos estridentes.
Lembro-me também do dia em que toda a família pegou nas malas e se foi embora, orgulhosa por sair “de vez daquele buraco”. Um mês depois, para surpresa de todos os vizinhos, estavam de volta com as mesmas malas. Ninguém soube o que se passou durante aquele período nem onde estiveram. O mais engraçado foi a reacção da matriarca, assim que descobriu que já tinham arranjado outra pessoa para a substituir na limpeza das escadas. Começou pela táctica habitual, cansando toda a vizinhança com os seus gritos mas, como viu que o efeito desejado estava a tardar, pareceu desistir… No dia seguinte, cruzei-me com ela quando entrei no prédio. Sorriu para mim, abraçou-me e chamou-me de filha. Depois, apesar de habitualmente não fazer qualquer esforço para falar mais devagar, para que eu pudesse entender, disse-me calmamente, e ainda a sorrir, para eu não pagar à outra mulher porque estava a pensar em diminuir o preço habitual. No dia seguinte, e apesar das escadas terem sido limpas no dia anterior, acordámos com ela a lavar as escadas. E pronto. Tinha recuperado aquilo que era seu.
Quanto aos jovens da família, a situação também era algo peculiar. Muitas vezes vi as duas raparigas mais velhas a fumar às escondidas nas escadas (não imagino as consequências caso venham a ser apanhadas um dia por um dos membros da família). Não sei ao certo as suas idades, mas deviam ser bem jovens para ainda não estarem casadas. Apesar das diferenças religiosas (já usavam véu), olham para nós e para as nossas roupas modernas com risinhos infantis e envergonhados, como se as cobiçassem, apesar de terem consciência do pecado. Mais curioso ainda é a forma como desviam o olhar ao cruzarem-se com rapazes estrangeiros, com sorrisos sussurrados e faces rosadas.
Outra das invulgares personagens desta família é um dos rapazes mais velhos. Durante um jantar de amigos, bateu-nos à porta e entrou de rompante, ameaçando-nos com uma garrafa partida a servir de punhal. Logo de seguida, entraram outros dois irmãos, levaram-no dali e pediram-nos desculpa. Disseram que o rapaz tinha um parafuso a menos e para não nos metermos com ele. Uns tempos depois, descobrimos que era conhecido por ter
furado a mão do patrão com um espeto de kebab, num ataque de fúria. Como é que toda esta gente consegue conviver no mesmo apartamento? Ainda hoje não faço a mínima ideiaia.

* Apesar das diferenças mais evidentes entre Portugal e a Turquia, e embora quase tudo em Istambul ainda me pareça algo “estranho”, sinto que descobri algo mais sobre o meu próprio país durante a minha ausência. Estando actualmente a morar em Lisboa, todos os dias me das semelhanças profundas que existem entre estas duas cidades e entre estes dois povos. Em Istambul o Bósforo é uma parte viva da cidade, com os seus barcos a vapor e os seus pescadores. É nas ruas de calçada, estreitas e labirínticas, e nos seus pequenos mercados populares que encontramos a sua essência. As mesquitas, as vozes dos muezins a ecoarem por toda a cidade ao fazerem o chamamento para as cinco preces diárias. A música turca, o cheiro a peixe grelhado, futebol, futebol, futebol. Lisboa, o Tejo, os mercados, as igrejas, o fado, a sardinha assada, futebol. Mesmo aquilo que mais identifica o povo português deixa de parecer tão único em Istambul: a saudade. Segundo Orhan Pamuk, o Nobel turco da literatura, também Istambul e o povo turco vivem num permanente estado de saudade, “hüzün”, em relação aos seus tempos de glória. De acordo com Pamuk, “hüzün” não é a melancolia de uma única pessoa, mas sim algo sentido por milhões. Uma perda espiritual profunda ligada a uma certa esperança em relação ao futuro. Pelo que Pamuk sugere e pelo que tive oportunidade de experienciar em Istambul, também os seus habitantes esperam passivamente pelo retorno dos tempos de glória.
Todas as personagens incluídas nesta crónica são indivíduos que observei ou com os quais convivi. Não pretendo, de forma alguma, criar ou fomentar estereótipos de qualquer tipo. Tal como em qualquer outro país, na Turquia, e especialmente em Istambul, há que se ter em conta a multiculturalidade e a diversidade da população, não sendo possível qualquer generalização.

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quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Suástica: o lado desconhecido

Perto do fim do ano e começo de um novo, eis um dos signos tradicionais de boa sorte: a cruz suástica (no cimo deste símbolo da Sociedade Teosófica).

Texto Susana Nunes

Quando a maioria das pessoas olha para uma suástica, a primeira coisa em que pensa é na Segunda Guerra Mundial, no Nazismo e no Holocausto. Em perseguição, tortura, sofrimento e morte. No entanto, este símbolo é considerado uma das mais remotas formas da Cruz, já que as mais antigas suásticas datam de 2500 ou 3000 a.C. (Índia e Ásia Central). Assim, para além de ser dos mais encontrados, considera-se que é um dos mais antigos símbolos místicos da Humanidade. A palavra “suástica” vem do sânscrito e significa “aquilo que traz boa sorte”. A sua raiz, “Svas”, quer dizer bondade.
Universalidade
Seria de estranhar o facto de este símbolo ser encontrado em diferentes culturas sem contacto entre elas, mas, na verdade, existe uma explicação muito simples: desenhar duas linhas rectas perpendiculares sobrepostas no seu centro, com um braço em cada extremo, é básico. Então, tal como o círculo, por exemplo, é de se esperar ver-se este símbolo repetidamente, em diferentes lugares e épocas, devido à sua simplicidade.
Assim, se explica também a enorme variedade de suásticas que existem e a sua diversidade a nível de simbologias. A nazi, por exemplo, tem os braços voltados para a direita, sendo que um deles fica no topo. Várias suásticas são constituídas por três linhas e outras nem sequer têm braços, consistem em cruzes com linhas curvas. Portanto, os símbolos designados por suásticas são, muitas vezes, bastante distintos. A chamada suástica celta, por exemplo, dificilmente se assemelha a uma.
A suástica ou cruz gamada, como também é conhecida, é usada há milénios por diferentes povos. Faz parte da cultura dos budistas, dos hindus, dos aztecas, dos celtas, dos japoneses, dos chineses, dos gregos, dos dinamarqueses, dos escandinavos, dos saxónicos, dos nativo-americanos e até mesmo, quase ironicamente, dos judeus.
Simbologia
Na China, este símbolo místico representa a orientação quádrupla que segue os pontos cardeais, o infinito, a saúde, a felicidade e a perfeição cósmica.
No Tibete, é um talismã, signo da fortuna.
Na Índia, é um dos símbolos mais sagrados místicos e tem exactamente o mesmo valor que o “sinal da salvação” tem para os cristãos. Para os hindus, é símbolo do poder fertilizante da natureza, da sua regeneração característica, e os seus quatro braços representam os diversos planos de existência (o mundo dos Deuses, o dos Homens, o dos animais e o Mundo Inferior).
No Budismo, a cruz suástica é o selo sobre o coração de Buda e é um símbolo tão importante que ainda hoje é usado com frequência.
Para os escandinavos, é designada de “o martelo de Thor” e era usada como protecção contra as forças maléficas por guerreiros ou heróis que lutavam até à morte por justiça, pelo seu próprio povo.
A mais conhecida suástica, que também pode ser chamada de Roda Solar, porque simboliza o ano solar, com as suas quatro estações, representa a energia do cosmos em movimento, o que lhe confere dois sentidos distintos, consoante o lado para qual estão os braços: o horário, com os braços voltados para a direita (tal como o símbolo nazi), e o anti-horário, com os braços voltados para a esquerda.
A suástica em sentido horário representa o movimento evolutivo do Universo, as forças da criação. A cruz em sentido anti-horário remete para uma dinâmica involutiva, significa Entropia (as forças naturais que trabalham para o fim do Universo, para a destruição). Numa análise superficial, poderiam ser entendidas como a representação do Bem e do Mal, no entanto, considera-se que os dois lados da suástica têm o seu lado bom e o seu lado mau, tal como tudo na Natureza. Assim, os dois lados não se opõem, mas complementam-se, num equilíbrio dinâmico, sem tendências para a criação nem para a destruição.
“Omnipresença” no pré-nazismo
Antes de ter adquirido uma extrema conotação negativa no período do Nazismo, a suástica “estava em todo o lado”, tanto no sentido horário, quanto no sentido anti-horário, até nos EUA: a conhecida Coca-Cola lançou um pingente com este símbolo e a cerveja Carlsberg tinha-o gravado nas suas garrafas. Durante a Primeira Guerra Mundial, a 45ª Divisão da Infantaria americana usava a suástica laranja como emblema no ombro. Até mesmo os escuteiros distribuíam este símbolo como distintivo.
Até 1939, a Força Aérea Finlandesa tinha suásticas nas asas dos seus aviões. Mesmo as medalhas militares e civis emitidas pelo governo finlandês nessa época tinham a suásticas na sua concepção gráfica.
No entanto, desde que o exército alemão invadiu a França, em 1940, a suástica deixou de ter este carácter tão omnipresente e “desapareceu”, com a óbvia excepção das bandeiras Nazis.
“Usurpação” por parte dos Nazis

Ao contrário do que se possa pensar, a onda racista e xenófoba já era bem patente na Alemanha, mesmo antes de se consolidarem os ideais nacional-socialistas. Em 1897, por exemplo, Karl Lueger foi eleito em Viena por voto directo, apesar da sua campanha política se centrar na “libertação do povo cristão da opressão judaica”.
Foi, no entanto, com o Nacional-Socialismo (Nazismo), em 1920, que se veio consolidar a adopção da suástica por parte dos alemães, pois era um símbolo que tinha um significado muito importante para a “raça ariana”, o povo proto-indo-europeu.
Segundo os livros "Raízes Ocultas do Nazismo" de Nicholas Goodrick-Clarke e Hitler e as Religiões da Suástica de JeanMichel Angebert, é inegável o misticismo que envolvia o Partido Nacional-Socialista, para além do seu carácter político. De acordo com a ideologia deste partido, um ariano era qualquer pessoa não-judaica, cujos ancestrais fossem nórdicos. A palavra “ariano” vem do sânscrito “arya” e quer dizer “nobre”.
Refere-se a um povo de guerreiros e está associada a um estereótipo físico: os olhos azuis, o cabelo loiro, a pele clara e a robustez. Estes guerreiros julgavam que a suástica era o talismã que os ajudava garantir as suas vitórias nas batalhas. Foi devido a esses grandes triunfos que este povo se tornou ancestral da população que formou a base do que hoje são os diversos tipos étnicos da família europeia.
Muitos comparam toda esta grandiosidade aos nazis, que, em pouco tempo, conquistaram quase toda a Europa, apesar de não terem o exército mais poderoso, e que só perderam a guerra devido a um erro táctico de Hitler, na invasão da Rússia.
Aparente “queda” da suástica nazi
p>A queda da suástica nazi foi, aparentemente, tão rápida quanto a sua ascensão: em 1946, a sua exibição pública foi proibida constitucionalmente na Alemanha. No entanto, verifica-se actualmente que novas ondas de racismo e xenofobia, designadas de neonazis, por ressuscitarem esses mesmos ideais, têm vindo a surgir um pouco por todo o mundo.
No Brasil, por exemplo, em 1994, o presidente Itamar Franco proibiu o uso da suástica em todo o território, com o propósito de desencorajar o crescente neonazismo brasileiro. Nos EUA, tem-se verificado um aumento da divulgação da suástica, como símbolo do regime Nazi. Na Grã-Bretanha, em Maio de 2001, foram detidos cerca de 20 jovens, depois de várias manifestações de violência racista. Em Portugal segundo a revista Visão, também nesse ano se assistiu a uma concentração de skinheads (cabeças-rapadas) na Amadora e, em 2004, a uma grande polémica devido a um site português nazi ter divulgado uma lista de alvos “a abater”, com fotografias, moradas e números de telefone de mais de 20 pessoas.
Incerteza do futuro
A grande questão, actualmente, para aqueles que pretendem ver a simbologia original deste símbolo universal restaurada é se, algum dia, esta deixará de representar todos os crimes perpetrados pelo Regime Nazi. Esta é uma questão complicada, pois, em diversas partes da Ásia, a suástica não possui nenhuma das conotações que contém no Ocidente. Na Índia, por exemplo, existe uma marca de sabão Suástica, na Malásia, um estúdio fotográfico Suástica, e no Japão há cartões dos famosos Pokémon que possuem o “manji”, a suástica no sentido anti-horário.
Mesmo nos EUA, apesar das vagas neonazis, existe quem pretenda restaurar a simbologia original da suástica: a organização Friends of the Swastika (Amigos da Suástica), um grupo bem coordenado, formado em 1985.
No entanto, o futuro é incerto. Ao mesmo tempo que se verifica o ressurgimento de ideais nazis, também se verifica uma maior vontade em restaurar a essência da simbologia suástica, o que não tem sido fácil. Em 2003, por exemplo, a Coca-Cola teve de retirar do mercado um brinde promocional em forma de robot, por ter gravadas no peito duas suásticas, o que originou a revolta por parte da comunidade judaica. Esta não conseguiu compreender que esses símbolos não tinham qualquer ligação com a suástica nazi.
Provavelmente, vai existir sempre este “estigma” em relação à cruz suástica, pois, por mais que se tente explicar que existem duas faces neste símbolo, existe sempre quem não consiga esquecer os horrores que a ela estiveram associados, num dos períodos mais negros da nossa História Universal. Por mais nobre que a herança seja, o símbolo da suástica foi, provavelmente
para sempre, manchado pela associação aos Nazis, no mundo Ocidental.

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