quarta-feira, 16 de março de 2011

Défice florestal

No Ano Internacional das Florestas e antes do Dia da Árvore, transcrevemos parte de um capítulo do livro “Aqui e Agora”*, esgotado, de Carlos Cardoso Aveline, autor e editor de livros e, hoje, websites sobre temas filosóficos e tesóficos**. Denominado "O dióxido de carbono" o texto explica como o nível de desmatamento leva à destruição do equilíbrio ambiental. Estávamos, então, em 1985.

Texto Carlos Cardoso Aveline fotografia Dina Cristo


«(...) Paralelamente ao problema da fome, Jimmy Carter fez uma séria tentativa de enfrentar a crise ecológica. Logo em 1977 pediu ao Congresso um “Informe Global sobre o Ano 2000”.
“Problemas ambientais”, afirmou ele na década, “não obedecem a fronteiras nacionais. Na década passada, nós e as outras nações tivemos que reconhecer a urgência de esforços internacionais para proteger o meio ambiente comum a todos nós”.
Quando o Informe ficou pronto, entre as suas conclusões, podiam ler-se duas especialmente graves:
- As grandes florestas estão desaparecendo no mundo todo à proporção de 18 a 20 milhões de hectares por ano, com a maior parte da perda ocorrendo na América Latina, África e Ásia. São 830 hectares por minuto e 50 mil hectares por dia de matas derrubadas.
- As concentrações atmosféricas de dióxido de carbono e substâncias químicas que eliminam o ozónio chegarão a um volume que pode alterar significativamente o clima do mundo e a temperatura atmosférica até ao ano 2050. A chuva ácida ameaça os lagos, os solos e as lavouras.
O Informe 2000 dizia, ainda, que “como o clima tem um profundo efeito sobre nossas vidas e nossa economia, não podemos ignorar estes problemas que fazem incerto o nosso futuro”. Mas foi exactamente isso que aconteceu. Jimmy Carter foi considerado um “fraco”, dentro da política norte-americana. A direita reaganiana conquistou a gerência da máquina do grande império. No resto do mundo, nenhuma outra potência quis ou pôde dar real importância ao assunto. O meio ambiente é de todos. O que é de todos não é de ninguém”.
Como consequência, a devastação – que é um bom negócio a curto prazo – prosseguiu como se não houvesse perigo. Um dos fenómenos que se alastraram foi o incêndio das florestas. As causas não são simples. Uma delas é que o solo do planeta está esgotado e fraco por falta de elementos minerais. A desmineralização, mais o excesso de dióxido de carbono (CO2) acaba enfraquecendo as árvores. Elas vão secando e ficam vulneráveis ao fogo. Uma faísca incendeia uma floresta, e o fogo se alastra, lançando mais dióxido de carbono no ar, o que aumentará o ritmo dos incêndios.(1)
A Austrália sofreu em 1980 o pior incêndio desde a Segunda Guerra, com a destruição de 40 mil hectares de florestas. Na Espanha, um incêndio de Barcelona a Alicante. Na mesma época doze mil acres ardendo no Arizona, e dez mil destruídos no Colorado, USA. John Hamaker cita dezenas de exemplos documentados no seu livro “A Sobrevivência da Civilização” (pág.90-91). Na Grécia, 90 mil soldados são mobilizados para o combate a um incêndio em centenas de milhares de acres de florestas. A notícia está no “San Francisco Examiner”, de 6/7/1981.
As advertências do Informe 2000, aparentemente, estavam esquecidas. Ninguém pensou no significado desta onda de incêndios. Quem gostaria de parar as fábricas e deixar de lado a sociedade industrial consumista para construir um modo de vida mais simples e mais durável? Mais fácil continuar como está para ver como fica. Eram todos individualmente demasiado vivos para que pudessem ser colectivamente inteligentes.
Em Novembro de 1982 a revista Time dedicou uma reportagem de capa ao problema da chuva ácida, “a praga silenciosa”. A devastação “é silenciosa, invisível, penetrante”, dizia o semanário norte-americano, no primeiro parágrafo da reportagem. Mas devia ter dito, em vez de silenciosa, silenciada. Silenciada pelos mesmos grandes grupos industriais que lançavam elementos tóxicos na atmosfera, causando a chuva ácida. Há mais de 200 lagos perto de Nova Iorque já sem qualquer forma de vida em si, dizia a Time. A opinião pública se mobilizava. Numa visita ao Canadá, Reagan foi recebido com vaias e protestos, devido à chuva ácida oriunda dos Estados Unidos que causava danos aos canadenses. Mas os protestos não foram levados em conta.
Em Fevereiro de 1984, um expert da ONU informou: “Os desertos estão avançando, a cobertura verde do planeta está desaparecendo, e no ano 2000 a terça parte das terras até aqui agricultáveis estarão reduzidas a pó e a deserto”.(2) Meses depois, um filme da BBC de Londres choca a Europa. Milhões de pessoas esperam a morte por fome no norte da África. Seus países viraram desertos. Ninguém é responsável pelo fato. A ajuda internacional é insignificante.

Um banho de ácido sulfúrico.

A expressão “chuva ácida” foi criada em 1872 pelo químico inglês Robert Angus Smith para descrever as precipitações cada vez mais ácidas em Manchester, um dos centros da revolução industrial da época.
O processo químico é simples. Quando combustíveis fósseis como carvão e petróleo são queimados, libertam grandes quantidades de dióxido de enxofre (SO2) e óxidos de nitrogénio. Uma vez na atmosfera, estes gases reactivos se combinam com a água e o oxigénio para formar os ácidos sulfúrico e nítrico, que caem sobre a terra, rios e lagos, como chuva ácida. É certo que estes ácidos podem também cair na sua forma gasosa original, - ou ainda como partículas muito finas. Os cientistas chamam o fenómeno em suas várias formas de “deposição ácida”. Mas a palavra chuva é mais expressiva e ficou conhecida popularmente.(3)
Em 1980, as emissões de dióxido de enxofre chegaram a 24,1 milhões de toneladas, só nos Estados Unidos. Dois terços vinham de centrais eléctricas e 22% de indústrias. As fusões de metais também emitem muito SO2.
Depois que a chuva ácida se mistura ao húmus no solo dos bosques, a morte das árvores é uma questão de tempo. A árvore retira sua nutrição básica de elementos como cálcio, magnésio e potássio, presentes entre os minerais do solo. A deposição ácida acrescenta ao solo íons de hidrogénio (ávidos de combinações) que retiram estes nutrientes.
O cálcio, por exemplo, é essencial para a vitalidade das árvores. Tem a ver com a formação das células e o transporte dos açucares, da água e de outros nutrientes – desde a raiz até as folhas.
Magnésio é um elemento vital na fotossíntese e um portador de fósforo para a produção do DNA, principal componente do material genético. Não é só decisivo na constituição das sementes, mas também na reprodução das células que ocorre continuamente em todo organismo vivo.
Esta retirada de elementos vitais ocorre ao mesmo tempo em que se acentua no solo e na atmosfera a presença de metais pesados como chumbo, zinco, cobre, cádmio, cromo, manganês e vanádio, todos, quando em excesso, adversários da vida.
O efeito da chuva ácida não é apenas devastar florestas e despovoar lagos. Ela afecta a saúde humana, através do ar e dos alimentos. Amostras dos cientistas norte-americanos indicam que a água, particularmente, está demasiado ácida.
“As florestas estão morrendo na Suíça”, dizia a Agência Associated Press num telegrama de Genebra em Abril de 1984. Dados oficiais mostravam que uma de cada cinco árvores da área florestal suíça estava doente devido à poluição. “As florestas estão morrendo devido ao ácido nítrico lançado pelos carros, tóxicos lançados pelas fábricas, e à conhecida chuva ácida”, diziam os jornais.
“As árvores mortas, morrendo, ou muito doentes se multiplicam na Europa e nos Estados Unidos devido à chuva ácida” diz o Instituto World watch. No leste norte-americano, a morte das florestas é uma das questões que mais preocupam a opinião pública. O governo da Alemanha Ocidental revelou que um terço das florestas do país está em sério perigo. Entre as mais atacadas está a área da famosa Floresta Negra. Na Tcheco-Eslováquia, 485 mil hectares de floresta estão doentes. Na Polônia, estima-se que até 1990 tenham desaparecido 2,83 milhões de hectares de florestas atualmente enfermas”.(4)
Na Europa, 56% a emanação de CO2, dióxido de carbono, vêm de centrais elétricas e térmicas movidas a carvão. Vinte e seis por cento são lançados por indústrias de produção, 13% por estufas e calefações privadas, 3% por ônibus e automóveis. O jornalista Joelmir Beting escreve sobre o problema:
“Na Tchecoslováquia, um programa de reflorestamento deu com as mudas no nada: as árvores negaram viço. Ou se vingaram, porque, como se descobre agora, a natureza não se defende, apenas se vinga…”
“Que tal uma chuvinha fina de ácido sulfúrico? Não é o caso de Los Angeles, mas é o caso de São Paulo: alto teor de enxofre no óleo diesel verde-amarelo provoca alterações químicas na massa poluente dos ônibus e caminhões, do que resulta, ao cair da primeira garoa, um banho de ácido sulfúrico na vida da gente?” (5)
Em 23 de Junho de 1985, a repórter Ivone Cassol pergunta na Zero Hora, de Porto Alegre: “Será chuva ácida?” Acontece que, em Canoas, as folhas das árvores estão pretas, e as abelhas não produzem mel. Há muito tempo os pássaros desapareceram dos céus da cidade. Ao invés deles, o que paira no ar são minúsculas e invisíveis partículas que lentamente se depositam principalmente sobre as árvores. “Canoas quer saber exatamente o que está respirando”, diz o jornal.

O Desmatamento.

Numa reunião do Banco Mundial nos Estados Unidos, em Setembro de 1984, o fundador da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, Agapan, José Lutzenberger, denunciou que são destruídos na Amazônia 100 mil quilómetros quadrados de mata virgem por ano – uma área igual à metade do Rio Grande do Sul. Até 1988, Lutzenberger prevê que as florestas de Rondônia terão desaparecido. “É uma destruição irreversível”, diz ele. Enquanto isso, os incêndios são frequentes. Um deles destruiu 10 quilômetros quadrados de reserva florestal no Parque Nacional de Itatiaia, estado de São Paulo.
Igualmente importante é a devastação da Mata Atlântica. Da exuberante mata que cobria a faixa litorânea, ocupando 2 milhões de quilómetros quadrados quando aqui chegou Pero Vaz de Caminha, restam apenas cerca de três por cento. O que avança hoje não são as matas, mas o território das secas e enchentes sucessivas. E a devastação por parte do homem continua numa proporção de 300 mil hectares por ano. O diretor do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro, Adelmar Coimbra, acrescenta a estes dados que a ilusão de usar a terra desmatada para a agricultura ou pecuária não dura mais que três anos. Quando se devasta a mata, nem a cinza das queimadas fica no solo desprotegido. A chuva a leva para os rios e a natureza fica sem o húmus que levou milhões de anos para produzir.
Isto constitui um suicídio ecológico. “Primeiro morrem as árvores, depois morremos nós”, advertiam os ecologistas anos atrás. As florestas tropicais da América do Sul estão desaparecendo ao ritmo de 40 mil quilómetros quadrados por ano, diz o relatório do Congresso para a Conservação da Natureza, em Madri. O dado é mais otimista que a cifra de Lutzenberger (100 mil quilómetros quadrados só na Amazônia), e mostra as dificuldades para fazer um cálculo exato. “As florestas tropicais ocupam 35% do território sul-americano e têm função determinante no clima mundial”, informa o congresso madrilenho. (6)
Há vários anos Lutzenberger vem atribuindo a sequência de enchentes que atinge o Sul e outras regiões do país à devastação das florestas. Lutzenberger não está só.
[Nota de 2011: Mais adiante, José Lutzenberger passou a trabalhar para os poluidores do meio ambiente, chegando ao ponto de entrar em choque frontal com os defensores da natureza]
“As repetidas enchentes no Sul têm como uma das suas causas principais o desmatamento, e o Governo Federal é responsável por isso, pois não estimula a preservação das matas, nem o reflorestamento”, disseram os líderes da Igreja Evangélica Luterana (IECLB), da Igreja Episcopal e da Igreja Metodista, em Porto Alegre, em Agosto de 1984. A notícia está na Zero Hora do dia 18. Os religiosos citaram dados concretos: há 150 anos atrás, havia 37% de matas nativas no território gaúcho. Hoje as matas são 1,8%. O número vale como alerta para o que está acontecendo no resto do país.
Apesar de já desmatado, o Rio Grande ainda continua perdendo 45 mil hectares de matas por ano, enquanto são replantados apenas 12.700 hectares. Em 1984 esperava-se que mediante um esforço especial fossem replantados cerca de 40 mil hectares, reduzindo o deficit anual para cinco mil hectares. No entanto, o Rio Grande do Sul, apesar de tudo, é um dos estados onde a consciência ecológica é mais forte. No resto do país o desmatamento está ocorrendo em maior velocidade.

Reverter a Contaminação

Paralelamente ao agravamento dos problemas ecológicos, surgem as primeiras respostas. Nem todo o mundo está paralisado diante do problema.
Os suecos conseguiram diminuir consideravelmente a poluição no ar e na água. Descobriram que a contaminação causava prejuízo de 5,5% do PIB. Com um terço destes recursos, reduziram em muito o envenenamento, com filtros e outras precauções. Já na Suíça, novas leis limitam o uso de carros e outras atividades poluidoras. Os suíços redescobriram recentemente os passeios a pé pelas montanhas. Organizam caminhadas individuais ou em grupos, longe dos ruídos das cidades. As rotas organizadas do excursionismo têm cerca de 50 mil quilómetros. (7) O novo hábito traduz uma volta à simplicidade que se encontra em todas as partes, sob mil diferentes formas.
Na Alemanha, o governo adota um programa radical de redução de gases sulfurosos da indústria, que serão reduzidos a 10% do volume anterior. Há um projeto parecido em relação às térmicas de carvão.
Na Austrália, anos atrás, jovens ecologistas passaram a fazer grandes mutirões de reflorestamento aos domingos. Quem conta é a ecologista Betsan Coats, de passagem pelo Brasil em 1984 para dar palestras sobre a desregulação climática como resultado do excesso de CO2.
Nos Estados Unidos há um movimento com o objectivo de criar “florestas urbanas”, e um milhão de árvores foram plantadas a partir de 1980 na cidade de Los Angeles. Este dado foi fornecido por dona Wanda Seibt, da Associação Democrática Feminina Gaúcha, ADFG, uma das principais entidades ecológicas do país.
O Departamento de Recursos Renováveis, da Secretaria da Agricultura do Estado gaúcho, criou em 1984 uma Bolsa de Sementes florestais que tem despertado enorme interesse por parte da população. Em poucos meses, centenas de pessoas haviam trocado ou ganhado mudas e sementes de árvores nativas e exóticas para plantar em grandes ou pequenas áreas e mesmo em seus quintais.
Entre as espécies preferidas estão araçá, butiá, gerivá, figueira e capororoca. O engenheiro agrónomo José Carlos Dias explicou que em 1985 a Secretaria da Agricultura mantinha convénio com mais de 80 municípios gaúchos, dando assistência técnica e treinando pessoal, para programas de reflorestamento surgidos nos últimos anos. Cerca de 500 milhões de mudas foram produzidas deste modo.
A EMATER, empresa de extensão rural, a Fundação Zoobotânica e a Prefeitura de Porto Alegre lançaram uma campanha para reflorestar a cidade (Zero Hora, 12 de Junho de 1985), com venda de mudas nativas a preço de custo e total assistência técnica aos plantadores.
O reflorestamento está sendo feito por escolas, pais e mães de família, crianças, prefeituras municipais, delegacias de educação do interior do Estado e amantes da natureza em geral. Sua importância não é apenas numérica. Está também no novo padrão cultural de relacionamento com a natureza que ele tende a estabelecer e que em breve se estenderá a toda a sociedade, impedindo a devastação.
O ritmo com que o governo federal toma medidas preservacionistas tem sido muitas vezes inferior ao que seria necessário para efetivamente garantir algum equilíbrio ambiental. Será preciso uma transformação radical na atitude frente ao problema durante o governo da Nova República. Esta transformação não pode ocorrer por decreto. Terá que dar-se simultaneamente em todos os níveis, e será consequência de uma nova maneira de ver (e de viver) a natureza».

* AVELINE, Carlos - Aqui e Agora - Para Viver até ao Século XXI. Editora Sinodal. Brasil. 1985. O capítulo, cinco, começa na página 51 e a transcrição na página 53. Ambos terminam na pág. 61.
** Atualmente Carlos Cardoso Aveline é o editor geral dos websites http://www.filosofiaesoterica.com/, http://www.teosofiaoriginal.com/, http://www.esoteric-philosophy.com/ e http://www.theosophyonline.com/.
(1) John Hamaker, "The Survival of Civillization", Hamaker-Weaver Publishers, Michingan, USA, 1982. "Solar Age or Ice Age?" bulletin, December 1983, 88 p.; "Solar Age or Ice Age?" bulletin, August 1984, 120 p., Revista "Time", 8/11/1982. (2) "Indian Express", India, 20/2/1984. (3) Science Digest, revista de Nova Iorque, USA, September 1984, vol.92, nº9, p.39 to 49. (4) Dados do Instituto Worldwatch, citados no jornal Zero Hora, de Porto alegre, dia 2/4/1984. Ver também Zero Hora, 6/5/1984. (5) Zero Hora, 5/5/1984. (6) Incêndio no Itatiaia: Zero Hora, 14/8/1984, Lutzenberger; Zero Hora 25/9/1984 e Zero Hora 3/6/1984. Mata atlântica; revista "Interior", do Ministério do Interior, Brasília, maio/junho/1984, p.31 a 47. florestas sul-americanas; Zero Hora, 8/11/1984. (7) "Jornal do País", Rio, 7 a 13/fevereiro/1985.

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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Transição mundial


Num momento de agitação social internacional, reproduzimos, na íntegra e autorizados, uma reportagem publicada há mais de 25 anos. Faz parte do livro “Aqui e Agora” de Carlos Cardoso Aveline, autor de, entre outras, a obra “A informação solidária”. No website que coordena, Filosofia Esotérica, o autor tem disponível um acervo actualizado sobre as transformações mundiais na secção Crise Ambiental e Civilização do Futuro.

Texto Carlos Cardoso Aveline fotografia Dina Cristo


«Toda a estratégia das políticas económicas das nações do Ocidente tem girado em torno do chamado crescimento económico. Mas os economistas e o povo da Europa já aceitam o fato de que a era do “pleno emprego” passou e não voltará. Com o capitalismo estancado e sem perspectivas de crescimento, o que se observa é a expansão da economia não monetária.
James Robertson, estudioso das alternativas para a economia mundial, pergunta se não devemos criar condições de trabalhar por nós próprios, em vez de procurar empregos. A era industrial intensiva que está terminando destruiu a indústria caseira e fez com que trabalho fosse inteiramente subordinado a emprego.
A alternativa que surge para os dilemas da sociedade industrial decadente está na volta às actividades simples do tipo “faça você mesmo” – com destaque para a auto-produção de alimentos e outros bens essenciais. Entre as vantagens da volta atual ao trabalho caseiro figura a revalorização do trabalho livre dos velhos, das mulheres e das crianças, totalmente ignorado no esquema massificante da economia monetária.(1)
Para Robertson, no livro “The Sane Alternative”, o conceito de riqueza pessoal mudou radicalmente. Já não é uma questão de conta bancária, estoque de mercadorias ou mansões e limusines. Rica, hoje, é a pessoa que depende menos do atual sistema económico-social, frágil e inseguro. “Trabalho” já não pode ser definido em termos de passar muitas horas longe de casa para receber um salário no final do mês. Trabalho está voltando a combinar-se com lazer, recreação e prazer, do mesmo modo como se combina auto-suficiência económica com realização pessoal. O principal é a busca de uma vida integral e a rejeição das existências fragmentadas que o capitalismo industrial cencentrador pode (podia) oferecer ao cidadão.
As pessoas desempregadas da Europa e dos Estados Unidos – afirma Robert Jungk em entrevista à revista Peace News, da Inglaterra(2) - estão de certo modo numa posição privilegiada, por não se acharem mais acorrentados à engrenagem mecânica da produção capitalista. Elas têm mais tempo, podem pensar e atuar de modo benéfico para a sociedade se tiverem suficiente motivação. Podem estabelecer e estão estabelecendo estilos de vida e de produção alternativos. Na entrevista de 1982, Jungk afirmava que esta movimentação estava acontecendo na Dinamarca. Hoje ocorre em toda a Europa.
As vantagens da produção caseira são expostas de modo claro por Erhard Eppler, um dos líderes do Partido Social Democrático (SPD) da Alemanha:
“A parte da Alemanha em que me criei, Wurttemberg, tem superado bem as crises dos últimos setenta anos, porque uma grande proporção dos trabalhadores sempre reteve um pequeno pedaço de terra para plantar. Desemprego para eles significava uma oportunidade para reparar o estábulo, semear a terra, engraxar e reparar o trator, pintar a cerca, etc. Isto durou muito tempo e suavizou o efeito do desemprego na Alemanha. Quando se promove o trabalho autónomo, grande parte do medo ao desemprego é afastado”.(3)
A economia feita em casa. O crescimento da economia invisível é um fenómeno mundial. Ocorre nos Estados Unidos, na Itália, na Hungria. A jornalista gaúcha Tânia Krutscka esteve em Budapeste em 1984 para cobrir um encontro da Federação Luterana Mundial. Na volta, contou-me que a estratégia económica húngara passa hoje pelo cooperativismo – onde tem destaque o cultivo de ervas medicinais – e a combinação do setor formal com o setor informal. A economia húngara é a de maior desempenho em todo o bloco socialista graças à ênfase que dá à empresa familiar. O cidadão médio trabalha meio turno para uma grande empresa ou o Estado e meio turno em casa, produzindo alimentos ou roupas que venderá sem pagar imposto algum. Um reflexo desta estratégia foi o grande superávit na produção húngara de alimentos em 1984: nada menos que 14 milhões de toneladas.
Mesmo crescendo com alguma lentidão, a consciência das alternativas para o estancamento capitalista adquiriu solidez por toda parte. Um sociólogo e um sindicalista alemães analisaram este fato de passagem pelo Brasil em 1984.(4) O desemprego atingia naquele ano 8,6% da força de trabalho alemã, cerca de 2,2 milhões de trabalhadores. No futuro, esperava-se quatro milhões de desempregados. O sociólogo Claus Offe acha que o jeito é reduzir o tempo necessário à aposentadoria e “organizar um novo tipo de economia” através do mercado informal de trabalho.
A descentralização é a marca registrada da economia da Iugoslávia e o que a distingue desde o pós-guerra do resto do bloco socialista. A ênfase central é dada à autogestão dos trabalhadores e ao cooperativismo. É certo que há um centralismo excessivo na política e na economia, mas a experiência, mesmo limitada, é fundamental para a discussão do socialismo no mundo de hoje. E aponta claramente para a necessidade do autogoverno da população nos diversos agrupamentos concretos em que ela se estrutura. Ora, este autogoverno não é possível senão parcialmente numa estrutura industrializada centralizada, e este foi precisamente o limite da experiência iugoslava, desenvolvida num mundo industrial que busca a padronização não só da produção, mas do consumo, das vontades, dos comportamentos, e das opiniões políticas.(5)
Optar entre a uniformização e padronização imitadora das pautas de desenvolvimento que já não servem aos países desenvolvidos, e a riqueza variada da criatividade local, é a tarefa dos países do Terceiro Mundo e da América Latina. O economista da CEPAL, Edgar Knebel, falando num simpósio sobre as metrópoles latino-americanas em crise, previu que até ao ano 2000 o desemprego na nossa região chegará a algum lugar entre 20% e 50%. E não falta quase nada para chegarmos a esta percentagem. Em 1984, depois de assumir o governo da Argentina, a equipe de Raul Alfonsin descobriu que só metade da população economicamente ativa está empregada formalmente. A outra metade vive de biscates e pequenos empreendimentos organizados à margem de toda legislação.
A parcela marginalizada da população não pode organizar-se em sindicatos nem em partidos políticos, que atuam em torno de questões nacionais. A alternativa para eles é a organização comunitária nos locais em que moram, através da economia não-formal. A solução está na estruturação de pequenas cooperativas onde estas pessoas moram. Assim se elimina, entre outros, os problemas de transporte, cada dia mais caro, poluente e demorado.(6)
Só recentemente estas soluções recebem uma relativa prioridade por parte dos governos. Isso é resultado do fato de que os setores dominantes da opinião pública e os meios de comunicação de massa acreditavam, até há bem pouco, que as políticas sociais devem ser feitas de cima para baixo e que o dinheiro é a única mola mestra.
No entanto, muito ao contrário das aparências, o dinheiro não é capaz de dar sentido à atividade económica ou social. Todo indivíduo humano precisa ver sua vida e o que ele faz ou produz como algo significativo, dentro de um todo maior. Quando uma pessoa não vê sentido na vida, é comum, por exemplo, surgirem fantasias de suicídio. Alguns efectivamente se matam – por falta de significado em suas vidas.

A civilização do absurdo.

De modo similar, a maior parte dos processos que ocorrem na vida diária da nossa sociedade perderam, absolutamente, o seu significado original de afirmação da vida.
Não há sentido algum em produzir milhares de bombas mortais quando pessoas passam fome. Não há sentido em trabalhar dentro das máquinas burocráticas que dificultam, com regulamentações e controles inúteis, a vida do cidadão comum de carne e osso. Não tem sentido manter uma civilização que engendra doenças degenerativas pela má alimentação sistemática da população e produz remédios químicos que tendem, a longo prazo, a piorar ainda mais a saúde do povo.
Não faz sentido produzir tantos automóveis particulares que, primeiro, desperdiçam o petróleo cada dia mais caro; segundo, poluem o ar lançando CO2 que nos ameaça; terceiro, criam crises de engarrafamento no trânsito; e quarto, matam milhares de pessoas em acidentes de tráfego. Uma média de 300 mil acidentes mata 21 mil brasileiros por ano em ruas e estradas. Poucas guerras civis são tão sangrentas como a nossa tentativa de reproduzir no Brasil o padrão de consumo dos países ricos.
Cansados de tudo isso, estamos optando pela simplicidade e pela relação imediata entre produtor e meios de produção. Sempre que o trabalhador controla o processo produtivo ele trabalha pela afirmação da vida. Então produzimos coisas realmente úteis e sentimos que o nosso trabalho faz sentido dentro de um todo maior. Um aspecto central de todas as manifestações do surgimento do homem novo neste final de século é a identificação cada vez maior entre o produtor e o que ele faz. Através da generalização do cooperativismo, da produção doméstica, da cogestão e o socialismo autogestionário, a loucura vai sendo deixada de lado gradual mas definitivamente. Perdem sua razão de ser o egocentrismo e a agressividade exagerada do homem das nossas cidades.
O contraste entre a democracia política formal e o autoritarismo concreto que se vive na maior parte dos locais de trabalho é uma das questões que se debatem amplamente nesta fase da transição. A Harvard Business Review publicou um artigo do editor David Ewing a respeito: “Cruzando a porta da fábrica ou do escritório, às nove da manhã, o norte-americano médio fica quase sem direitos até às cinco da tarde, de segunda a sexta. Os empregados cedem frequentemente direitos como a liberdade de pensamento e de expressão”.
Isto se percebe muito claro no Brasil. O empregado deve pensar aquilo que acha que será agradável ao patrão saber que ele pensa. O fenómeno tupi-guarani do puxa-saquismo não é outra coisa. O pensar dos puxa-sacos é também o “duplipensar” (doublethink) que George Orwell denunciou no famoso livro “1984”. Ali, o personagem Winston pagou caro por não pensar aquilo que o estado gostaria que ele pensasse.
Estes mecanismos psicológicos sutilmente opressivos é que estão sendo deixados de lado pela democratização dos locais de trabalho da sociedade industrial.
O caso de Lucas. A luta por controlar o resultado do trabalho tem importância, pela necessidade do indivíduo perceber um significado naquilo que faz. A experiência dos operários da Corporação Lucas Aeroespacial ilustra esta afirmativa. A Corporação emprega 75 mil pessoas no Reino Unido e 35 mil no exterior. Foi na Inglaterra que surgiu um movimento operárioinicialmente de resistência contra planos da direção de racionalizar a produção mandando embora milhares de empregados. Na primeira etapa os operários foram derrotados. Mas depois detonaram um movimento cultural com debates para definir o que poderiam produzir de útil à sociedade na Corporação Lucas. Por que motivo estavam produzindo armamentos, e não bens necessários à vida?
Um dos líderes do movimento, Mike Cooley, recebeu o prêmio internacional conhecido como “Nobel Alternativo” em 1981. Para Mike, o grau de depravação a que chegou a sociedade atual é indicado pelo fato de que cinquenta por cento dos cientistas e tecnólogos de países como a Inglaterra passam todo o tempo da sua vida trabalhando na pesquisa e produção de armamentos que eles sabem, no fundo dos seus corações, que se fossem usados um dia provocariam o fim da humanidade.(7)
“Fizemos o que deveríamos ter feito desde o começo”, escreve Mike Cooley. “Perguntamos à nossa força de trabalho o que ela pensava que poderia produzir, e que deveria estar produzindo. Organizamos reuniões em todas as fábricas, e depois fizemos um questionário para cada trabalhador”.
No questionário, era pedido aos empregados que pensassem no seu papel duplo de produtores e consumidores. O que fizessem durante o dia, nas empresas, deveria ser útil para que pudessem viver da melhor maneira possível o resto das suas vidas.
Centenas de propostas apareceram e foram seleccionadas. Entre as 150 idéias aprovadas no final, figuravam marca-passos para cardíacos e máquinas de hemodiálise para doentes dos rins. Na preparação de todos os projectos foi utilizada, ao máximo, a criatividade dos homens das linhas de produção, cujo conhecimento prático foi reconhecido como valioso.
Mike Cooley foi demitido do grupo Lucas “por estar trabalhando em problemas cuja solução cabe mais à população em seu conjunto”, segundo seus patrões. Quando isto ocorreu, a mobilização participativa já havia atingido os trabalhadores de todos os níveis e todos os setores da corporação.

A co-gestão na Europa.

A participação operária na administração da empresa está institucionalizada em grande número de países europeus. Na Alemanha há co-gestão paritária em todas as empresas de mineração e metalurgia com mais de 1000 empregados. Aqui o conselho de direção da empresa é formado por 50% de representantes do capital e 50% de representantes dos trabalhadores. Já nas empresas industriais e comerciais com mais de 500 funcionários, a co-gestão alemã estabelece uma participação operária inferior a 50%.
De acordo com um documento da Confederação Sindical, há duas condições para o êxito da co-gestão na empresa alemã: o treinamento contínuo dos representantes dos trabalhadores em questões económicas e industriais, e o perfeito entrosamento entre eles e os seus sindicatos. A extensão real da presença do trabalhador na direção da empresa depende da energia, e das aptidões, dos seus representantes.
Os trabalhadores da Noruega preenchem um terço das vagas dos conselhos de administração das empresas com mais de 200 funcionários. Na Suécia, estabelecimentos com mais de 50 pessoas têm conselhos administrativos aproximadamente paritários. Isto não ocorre por força de alguma lei formal, mas por convenção direta entre empregados e empregadores.
Na França, toda empresa com mais de 50 empregados é obrigada a ter um comitê de empresa que consulta os operários – na maior parte das vezes sobre questões de recursos humanos. Na Dinamarca, os conselhos de trabalho – Samarbejdsuvalg – discutem a organização do trabalho, sua segurança e bem-estar, acompanham a situação financeira da empresa e discutem os planos para o futuro. Na Holanda, há uma co-gestão inspirada na experiência alemã (a mais intensa da Europa) nas empresas com mais de 100 pessoas. O Conselho Paritário é que elege os diretores.(8)
Experiências brasileiras. Estão surgindo as primeiras comissões de fábricas brasileiras. O Ministério de Trabalho já as estimulava durante o governo Figueiredo. Mas muitos empresários resistem ao que sentem como “uma interferência indesejável na gestão dos seus negócios”. Também alguns sindicalistas apresentam resistências à ideia. Têm medo de uma manobra maquiavélica para marginalizar os sindicatos.
A comissão de fábrica da indústria metalúrgica Vogg S.A. de Canoas, com 270 empregados, era uma das pioneiras no rio Grande em 1984. Mas, mais antigas que ela, são as comissões da fábrica Taurus, que funciona desde 1967, e do Estaleiro Só, desde 1979. As duas últimas funcionam estreitamente vinculadas ao Sindicato dos Metalúrgicos.
Há experiências mais avançadas no Rio Grande. Depois das falências do grupo Wallig, os antigos empregados receberam o apoio do governo do estado para reerguê-las em 1984 na forma de cooperativas. Com os prédios e máquinas arrendados, 340 trabalhadores e os antigos diretores se reuniram para tocar a produção para diante, e em pouco tempo estavam produzindo 500 fogões por mês, organizados em duas cooperativas: uma de fundição, outra de mecânica.
A experiência da Wallig foi baseada, em parte, na história de outra falência com final feliz, ocorrida em 1983, em Teutônia. Quando faliu a fábrica de calçados Schaeffer, os operários conseguiram do juiz e do prefeito local o arrendamento das máquinas e do local, constituíram com êxito a Cooperativa dos Calçadistas Autônomos de Teutônia, Cocate.(9)
Rápido ou gradualmente, desta ou daquela forma, a democracia vai chagando aos locais de trabalho. Está mudando a maneira das pessoas se relacionarem. A democracia brota de dentro para fora das pessoas, de baixo para cima da sociedade. “O que é democracia industrial?” pergunta, num ensaio, o economista norte-americano Herbert Simon.(10) “Os empregados são apenas um dos grupos cujos interesses são afectados pelas decisões. Há também os executivos e os proprietários do capital, que frequentemente têm interesses bastante diferentes. E há o público consumidor dos produtos da organização, assim como os seus supridores. Devemos levantar a questão da democracia industrial para todos estes grupos”, escreve Simon, antes de admitir que os empregados têm um papel central neste processo, porque estão vinculados por uma relação imediata com o processo produtivo.
O cidadão deseja participar das decisões económicas da sociedade, e isso se reflecte no crescimento das organizações de consumidores. Hoje cerca de 120 organizações de consumidores de 50 países estão associadas numa Organização Internacional de Consumidores, com sede na Malásia.
O avanço da democracia participativa acelera-se sob as mais diferentes formas. “As companhias norte-americanas estão revendo o valor da participação do trabalhador – isso fica evidenciado no crescimento recente dos Círculos de Controle de qualidade (CCQ) ao estilo japonês”, escreve John Naisbitt.
Grupos de até 15 pessoas ganham horas-extras para reunir-se depois do expediente, discutindo e resolvendo questões como condições de trabalho, produtividade, relações entre setores e racionalização do trabalho. A ideia surgiu nos Estados Unidos várias décadas atrás, mas inicialmente não mereceu atenção. Foi no Japão que a proposta de CCQs causou rebuliço e alastrou-se. Trinta anos mais tarde, anota Naisbitt, o movimento chega de volta aos Estados Unidos como uma moda japonesa, um instrumento capaz de reerguer a decadente produtividade da economia norte-americana.
Foi através da Volkswagen (1971) e da Johnson & Johnson (1972) que os primeiros Círculos de Controle de Qualidade chegaram ao Brasil. Mais tarde foram adotados n Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), General Electric, Cia. Hering, Fundição Tupy, Geladeiras Cônsul e General Motors. Hoje há 500 empresas brasileiras lançando mão da criatividade e da participação dos trabalhadores. Foram criadas oito associações de CCQ, e para o primeiro semestre de 1985, na Colômbia, estava previsto o primeiro congresso latino-americano de CCQs.
Na indústria de calçados Ohlweiler (Taquara, RS), cerca de 30% dos empregados eram membros de CCQs nos primeiros meses de 1985. A opção é bastante clara, no entender do engenheiro João Diniz, que coordenou o começo da experiência: “Uma empresa pode contratar firmas de consultoria, que vão cobrar Cr$20 milhões por mês, e que fazem um trabalho de cima para baixo, ou a empresa pode implantar CCQs, que custam no máximo Cr$ 500 mil mensais e têm ótimos resultados a médio e longo prazo”. A segunda hipótese significa uma mudança de mentalidade para democratizar o local de trabalho, enquanto se racionaliza a produção e melhora o relacionamento humano.
Na fábrica de geladeiras Cônsul, a experiência começou há três anos e envolve 26% da mão-de-obra. Foram recolhidas 2.850 sugestões, 43% das quais em melhoria ambiental, 39% sobre mudanças de métodos de trabalho, e o resto sobre relacionamento no trabalho ou segurança. Já a fábrica Volkswagen tinha, em 1984, 137 grupos de CCQ funcionando em todos os seus setores. Mas apesar do seu progresso rápido, os CCQs brasileiros estão longe do nível de aproveitamento dos CCQs no Japão. Lá, a Toyota recolheu 1,7 milhões de sugestões de 59 mil empregados, com um índice de aproveitamento de 97%.(11)».

(1)IFDA dossier 35, May/June 1983, p.65. Ver também “Revival of Nonmonetary economy makes economic growth unnecessary in the small industrialized countires”, idem, p.68. E ainda IFDA dossier 34, March/April 1983, p.45; (2)“Peace news for non-violent revolution”, Nott hingham, England, September 1982, nº 21 77, reproduzido em IFDA dossier 34, March/April 1983, p.75; (3)Ensaio Erthard Eppler sobre políticas alternativas, em IFDA dossier 33, Jan./Feb 1983, p.56; (4)Zero Hora, 18/9/1983; (5)Palmyos Paixão Carneiro, “Iugoslávia, cooperativismo e autogestão”, Veja Novom Espaço, Belo Horizonte, MG, 1983. Bertino Nóbrega de Queiroz, “A Autogestão Iugoslava”, Brasiliense, 1982. Edward Kardelj y otros, “Nuevas Respuestas para un Mundo en Crisis, la verdad sobre Iugoslavia”, Ed. Sophos, Buenos Aires, 1960; (6)Sobre as metrópoles: Zero Hora, 13/9/1984. Sobre a argentina: “Veja”, 18/7/1984; (7)Sobre a Harvard Business Review : “Megatrends/Megatendências”, de John Naisbitt, Livros Abril/Círculo do Livro, SP, 1983, p.179-180. Sobre a Corporação Lucas: IFDA dossier, nº 35, May/June 1983, p.53; (8)Fernando Prestes Motta, “Participação e Co-Gestão”, Brasiliense, 1982; (9)Sobre as comissões de fábrica: Zero Hora 31/7/84. Sobre a Wallig, Zero Hora, dias 19/9/84, 18/9/84 e 23/10/84. Sobre Teutônia: Carlos aveline “De Baixo para Cima”, Vozes, 1984, p.27-29; (10)Revista “Economic Impact, a quarterly review of world economics”, 1983, p.76; (11)Jornal “Panorama”, Taquara, RS, 21/12/84, e contatos com a Ohlweiller. “Gazeta Mercantil”, 30/10/84.

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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Como fazer IS


Em Junho de 2007, na preparação do A&A, realizámos uma (tele)conferência sobre Informação Solidária (IS). De Brasília, Carlos Cardoso Aveline orienta sobre que temas tratar e que meios usar. Conselhos sistematizados para todos aqueles que queiram seguir esta corrente, recuperados num mês em que se assinala o nosso terceiro ano de publicação regular.



Texto Carlos Cardoso Aveline fotografia Débora Cunha



Áreas temáticas típicas:

Notícias do dia, contextualizadas e vistas do ponto de vista de uma nova ética;
Auto-conhecimento e como chegar a ele;
O desdobramento diário e mensal da crise ecológica;
Ações práticas de economia solidária e a proposta solidária em seu conjunto;
Vida simples, simplicidade voluntária;
Ações de reflorestamento e preservação;
Mudança climática em escala global e local;
Ética em cada aspecto da vida diária;
Alimentação natural;

Cooperativismo;
Ética na política e na administração pública;
Democracia participativa;
Outros campos temáticos que reforcem o mesmo compromisso solidário.


Instrumentos e modos de ação:


Pequenos jornais e revistas, em papel;
Revistas eletrônicas;
Websites combinando temas cotidianos e notícias do dia, com questões perenes, com linha editorial aberta às questões planetárias;
Os websites podem ter apoio de boletins impressos e de boletins eletrônicos cuja função é levar seus temas de destaque para um universo significativo de pessoas, a que se pode chamar de “área de expansão da influência”.
Uma vez reconhecidos pela comunidade, os websites podem obter o patrocínio de empresas não poluentes e com um compromisso de ética social. Além disso, podem vender ou conceder espaços de anúncios e propaganda, especialmente para empresas e ações de economia solidária.
Na sequência de uma experiência em pequena escala, não é impossível organizar uma cooperativa de jornalistas e estudantes de comunicação social. Essa cooperativa pode reunir tanto produtores como consumidores de informação.
Nos meios convencionais de comunicação social, pode-se estimular políticas participativas como conselhos de redação - reunindo os jornalistas – e conselhos de leitores/ouvintes/telespectadores. Os conselhos de consumidores de informação podem opinar e discutir o rumo dos meios de comunicação.


Segredo da ação durável:


Desde o início, é preciso lembrar, ao organizar-se uma iniciativa prática de comunicação social solidária, que as relações solidárias de produção não significam necessariamente uma ausência de liderança. Ao contrário. Deve haver lideranças claras; mas elas devem responder pelo que fazem; devem atuar com transparência; devem saber ouvir; devem dar um exemplo de ética e de motivação nobre. Caso contrário, lutas psicológicas pelo poder criarão “relações neuróticas de produção”. Nessa situação, a competição destrutiva interna transforma a solidariedade em um mero jogo de aparências, em uma fachada para enganar o público e obter prestígio imerecido.
A qualidade interior da motivação das pessoas é, pois, um tema gerador que necessita ser observado e trabalhado individualmente, mas também pode ser estimulado e discutido (impessoalmente) em grupo. Cada um sabe de si. Ninguém é juiz dos outros. Mas ações erradas devem ser discutidas e avaliadas do ponto de vista ético.
O processo de motivação e a sua clareza e eficácia interior é determinante do êxito ou fracasso no mundo. Não basta uma motivação forte: ela deve ser elevada e legítima. Não basta uma motivação elevada: ela deve ser intensa, e capaz de contagiar no tempo adequado mais pessoas ― talvez em grande parte pelo exemplo.
É preciso plantar a boa semente e perseverar no plantio até que as sementes germinem em seu próprio ritmo. Não há germinação saudável que ocorra instantaneamente. O que está destinado a durar surge sem qualquer noção de pressa de curto prazo, embora possa ter grande intensidade, em algumas ocasiões.

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quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Informação solidária


Carlos Cardoso Aveline participou do Brasil, via internet, na conferência sobre “Informação Solidária”, de que é especialista. Eis o essencial da sua intervenção.

Texto Carlos Cardoso Aveline fotografia Dina Cristo

Meus Amigos,
Obrigado pelo convite para estar aqui em Coimbra entre vocês.
De fato, a internet tem coisas estranhas. Eu hoje posso dizer que estou mais aqui, em Coimbra, do que lá no Brasil onde meu corpo físico está a falar sozinho com algum computador.
Não há coisa mais bela do que a oportunidade de tornar alguém feliz, e assim também a missão mais nobre da comunicação social é identificar e eliminar as fontes de sofrimento da comunidade humana. Daí surge a idéia de uma informação solidária.
“Informação solidária” é aquele processo de produção e circulação de informações em que predomina a ética, a solidariedade e o bom senso.
O resultado natural disso é um compromisso dos editores com uma linha de respeito profundo pela vida, nos seus diferentes aspectos.
É preciso dizer que o processo da informação solidária não depende de estruturas externas. Pode haver Informação Solidária em empresas e instituições convencionais. Neste momento, por exemplo, em Junho de 2007, grandes grupos editoriais fazem informação solidária, no Brasil. É o caso da Editora Abril, com dezenas de revistas e websites, que acaba de assumir um compromisso explícito com o futuro do planeta. Por outro lado, também pode haver uma ausência de real solidariedade em qualquer pequeno jornal comunitário, se não houver clareza de metas e transparência nas decisões.
A vanguarda da informação solidária coloca o dinheiro ao serviço da vida, e não a vida ao serviço do dinheiro.
As grandes instituições (políticas, econômicas, sociais) devem ter a coragem e o talento necessários para perceber o ponto de vista do cidadão consciente; e também para obedecer a este ponto de vista.
A informação solidária eleva o estado de espírito da comunidade. Ela investiga e desenvolve o seu potencial positivo, mas também sabe ser crítica sempre que for necessário.
A solidariedade nas relações sociais é um resultado natural do uso do bom senso.
A falta de solidariedade é sintoma certo de falta de atividade cerebral.
Por isso pode-se falar realmente de um “despertar para a solidariedade”.
Porque na ausência de solidariedade há sempre um estado de sono, de adormecimento da consciência humana.
Normalmente é necessária alguma crise para que haja o despertar. Não podemos reclamar por falta de crises, no mundo hoje, e isso quer dizer que o despertador está tocando.
Vamos agora mencionar alguns exemplos do despertar, do que está a acontecer no Brasil, dentro do conceito amplo de Informação Solidária.
O jornalismo alternativo surge mais claramente na época da resistência à ditadura militar, nos anos 1970 e 1980. Eram pequenos jornais mensais, chamados de “nanicos”, isto é, “miúdos”. Hoje ainda temos pequenos jornais de partidos de esquerda radical, mas a grande novidade são os jornais alternativos que expressam ideais ecológicos e espirituais. Além disso, a comunicação social alternativa se transferiu em grande parte para a internet, com websites e revistas eletrônicas. Há experiências numerosas de rádios e TV comunitárias. E a grande imprensa também expressa essa renovação da comunicação social a partir da participação democrática.
Há pouco saiu publicada uma propaganda de página inteira na revista “Vida Simples”. A propaganda anunciava algo que o grande grupo editorial Abril, com suas 55 revistas e 33 sites, está a tratar em profundidade o tema do desenvolvimento sustentável, desde o início de Junho. As prioridades são soluções nas áreas do meio ambiente, energia, urbanismo, consumo, lixo, saúde, educação. O anúncio dizia: "Veja o que está acontecendo e o que você pode fazer em www.planetasustentavel.com.br".
Nessa ação, a Editora Abril tem o apoio de várias outras grandes empresas. Uma campanha como esta, por parte de um grande grupo editorial, pode ser vista como um sinal dos tempos, e um bom sinal dos tempos. Um sinal de despertar.
Um segundo exemplo de informação solidária é a própria revista
Vida Simples, do grupo Abril. Mensal, ela tem tiragem relativamente grande em termos brasileiros, e circula há vários anos. A temática da revista está toda ela voltada para o ato de viver com simplicidade, livre do consumismo, fora do processo de ansiedade, de frustração e de corrida neurótica atrás do dinheiro. O lema da revista é: “Para quem quer viver mais e melhor”.
Um terceiro exemplo é a coluna quinzenal da monja iogue Susan Andrews na revista Época, da Editora Globo. A revista Época é a segunda maior revista semanal de informação do país. É uma revista de grande porte. As suas matérias repercutem frequentemente nos jornais diários. Susan Andrews é uma mística e dirige uma comunidade de meditatores dedicados à economia solidária. Nesta edição de 28 de Maio de 2007, da Época, Susan Andrews discute como se pode escutar o som do silêncio. Ela diz: “Não fazer nada pode, algumas vezes, ser mais importante do que fazer algo”.
O quarto exemplo é o site da comunidade coordenada por Susan Andrews, o
Há também o
nosso website sobre ética, filosofia, teosofia, meio ambiente e cidadania planetária, que alguns amigos e eu criámos há poucos meses atrás. Nosso website é uma ferramenta de um e-grupo chamado Ser Atento, que se dedica à prática da arte de viver corretamente. Há também um boletim eletrônico. O site está em fase de crescimento: dentro de alguns dias vocês poderão ver nele um artigo da professora Dina Cristo, precisamente sobre informação solidária.
Para concluir, quero citar apenas dois exemplos portugueses de informação solidária.
O primeiro deles demonstra que partidos políticos também podem estar a abrir espaço alternativo em termos de comunicação social. Vejam o site do
Partido da Terra.
Um segundo exemplo português de informação solidária é a revista impressa trimestral
Biosofia, do Centro Lusitano de Unificação Cultural. Publicada em Lisboa, a Biosofia é uma revista interdisciplinar sobre teosofia, filosofia e a arte de viver. Ela aborda todas as áreas do conhecimento humano, dando um certo destaque para as obras de Helena Blavatsky. A Biosofia é editada pelo escritor José Manuel Anacleto.
Além desses exemplos, sabemos que há várias outras experiências importantes em Portugal, e elas estão sendo debatidas por vocês hoje.
Era basicamente isso o que eu tinha a dizer sobre informação solidária. Agradeço a oportunidade de fazer essa visita eletrônica a Coimbra, e fico à disposição para responder algumas perguntas, se houver.
Obrigado a todos.

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