quarta-feira, 20 de junho de 2012

Cinema irreal?



A obra cinematográfica de António de Macedo vai ser projectada na Cinemateca. Desde Sexta-Feira até Julho pode ser apreciada, em Lisboa, uma sétima arte (sobre o) invisível, longamente censurada, num ciclo que é uma homenagem ao realizador, mas também escritor e investigador, octogenário.

Texto Dina Cristo

“O princípio da sabedoria”, uma incursão nos domínios do sobrenatural, é a primeira película a ser exibida, na inauguração do ciclo, dia 25 às 21h 30m - repetida às 22h de Segunda-Feira - e que conta com a presença de António de Macedo nesta retrospectiva que lhe é dedicada. «Incluindo longas e curtas-metragens, obras conhecidas e títulos mais raros, os filmes serão em grande parte apresentados em novas cópias tiradas no laboratório da Cinemateca», lê-se no boletim de Junho da Cinemateca Portuguesa (CP).

Seguindo uma perspectiva cronológica, dia 25 será mostrado, às 19h, o filme “Domingo à tarde”, a sua primeira longa-metragem, produzida por António da Cunha Telles e realizada no contexto do Cinema Novo Português dos anos 60; o filme é baseado no romance de Fernando Namora e foi selecionado para a secção competitiva do Festival de Veneza de 1965, onde foi visto numa versão não censurada; pode ser revisto dia 28, Quinta-Feira às 19h 30m.

A segunda longa-metragem, “Sete balas para selma”, em que o autor assina não só a realização mas também os argumentos, diálogos, planificação e montagem, pode ser vista dia 26, Terça-Feira, às 21h 30m (e revista dia 29, Sexta-Feira, às 22h).

“Nojo aos cães”, o terceiro filme de longa duração, produzido pelo próprio realizador com base em premissas do cinema directo, segue uma manifestação de estudantes que termina com a intervenção da polícia política. Proibido em Portugal, é exibido em 1970 nos festivais de Bérgamo e de Benalmadena, onde recebe o prémio da Federação Internacional de Cineclubes.

O dia 28, Quinta-Feira, a partir das 21h 30m é dedicado às curtas e médias metragens: o “Cine-riso – Almanaque dos Parodiantes de Lisboa e “A revelação”, ambos de 1969, “A primeira mensagem”, a preto e branco e sem som, e “A bicha de sete cabeças”, uma variação de um conto tradicional português. São quatro fitas entre as cerca de 50 que o cineasta concretizou.

Sexta-Feira, dia 29, é a vez da exibição, às 19h, de “A promessa”, o primeiro filme português oficialmente selecionado para o Festival de Cannes; conta a história de «um jovem casal de uma aldeia de pescadores profundamente religiosos que não consuma a sua união em cumprimento de um voto de castidade», sintetiza a CP.

Obra fantástica

O ciclo coincide com a celebração dos 81 anos de um cineasta marcado pela criatividade: «Marca de água de toda a sua obra, cruzada por diversas influências e interesses, persistentemente apostada na experimentação das possibilidades visuais e sonoras no cinema (tanto nas curtas como nas longas-metragens, nas obras e ficção, documentais, institucionais e em filmes publicitários), essa originalidade revestiu-se, por outro lado, de uma dimensão polémica, em alguns casos feroz, que foi pontuando a receção dos seus filmes (…)» a partir de 1967, como explica a Cinemateca Portuguesa (CP).

A liberdade e a capacidade de materializar (o imperceptível) são também marcas da obra do autor: «A produtividade dos anos sessenta estendeu-se à década seguinte, que Macedo atravessou desafiando os imperativos da censura, antes de 1974 (depois de em 1970 ser um dos fundadores do Centro Português de Cinema, foi em 1974 que cofundou a cooperativa Cinequanon onde desenvolve a atividade de cineasta nos vinte anos seguintes), e dos cânones estabelecidos, estendendo as linhas mestras do seu cinema às questões sociais e políticas numa vertente documental. A dimensão fantástica, o imaginário popular e os elementos esotéricos dominam os filmes posteriores na convicção de que “a realidade é mais subtil do que aquilo que a gente vê. As incursões esotéricas que faço são tentativas de penetrar no universo real. Aliás pode dizer-se que o meu fantástico é mais real do que o real», refere (n)a brochura do Museu do Cinema.

A capacidade de adaptação à mudança está espelhada na sua caminhada ao longo da vida: «Arquiteto de formação, cineasta por vocação, mas também compositor, escritor e ensaísta, docente, António de Macedo é um protagonista singular do cinema português cujo panorama marcou entre os anos sessenta da sua estreia no contexto do Cinema Novo, época em que a sua obra é especialmente prolífera, e os anos noventa em que infletiu de percurso, passando a dedicar-se mais ativamente aos estudos e ensino universitário nas áreas das religiões comparadas, das tradições esotéricas, das formas literárias e fílmicas ou da sociologia da cultura, em que se doutorou em 2010» indica a mesma fonte do arquivo nacional de cinema.

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Preto e branco


Na próxima semana passam dois anos sobre a II Cimeira União Europeia-África, ensejo para fazermos um balanço do que então ficara acordado.


Texto e fotografia Pascoal Carvalho

Sob enorme expectativa multi-sectorial realizou-se na capital portuguesa uma cimeira entre a União Europeia e África em que estiveram juntas diferentes delegações euro-africanas proporcionando o nascer ou renascer a esperança moribunda de que seria desta que a África encontraria a paz, acabaria com a corrupção ou uma educação especializada chegaria aos mais desfavorecidos.
Tal facto não se viu nem tão pouco foi possível. A fome continua a fazer vítimas neste continente que parece ser pequeno demais para ter tantos problemas ou dificuldades a mais para um povo cuja admiração e aptidão física não alinham a capacidade intelectual desejada.
Tudo de mal que tem nome em África existe em demasia. Para os que dele beneficiam encantados estão, enquanto que para os que dele são vítimas ou com ele sofrem desesperados estão e, insistentes na esperança, concentram-se num cada vez mais distante horizonte de melhores dias.
No papel ficaram uma vez mais estampadas propostas e concordantes declarações de parcerias. Enfim, os africanos continuaram a comprar armas para matarem-se uns aos outros e a enviar seus frutos da corrupção para a Europa, enquanto que os emigrantes provenientes daquele desgastado continente continuaram a suportar trabalhos desqualificados nesta Europa de frio e cinismo. Para o velho continente fora continuam a perderem-se grandes cabeças de conhecimentos e saberes, simplesmente porque oferece condições básicas que qualquer ser humano quer neste século de tecnologias e avanços (uma alimentação saudável, cuidados com a saúde e medicamentos, água potável, energia), bens essenciais que todos na Europa têm sabendo que faz falta em África.

(Des)acordos
Politicamente foi um encontro proveitoso e consensual, bastando que para tal se veja os acordos ponderados e deliberados. Para trás ficaram coisas como o verdadeiro papel dos estudantes oriundos da África que por cá se perdem, os que regressam com novas perspectivas ou visões actualizadas de um mundo globalizado.
Contudo foram firmados alianças que interessavam a ambas as partes para o panorama de cooperação e um estender do mercado tanto de consumo como o de novas produções visando um maior combate à actual crise financeira mundial através de novas estratégias de investimentos.
Tem-se visto a África de hoje com uma prosperidade gigantesca, não digna para o próprio africano, mas sim de um novo e mais potencializado neocolonialismo de produção em alta escala informativa e anexações bilaterais.

Continua-se a acreditar que o belo africano se transforme um dia em coisas muito maiores e melhores para este povo sofredor que ainda acredita que esta atrapalhadora ajuda proveniente do continente acima situado e desenvolvido, de igual forma, inverta e passe a ser e fazer jus ao (genuíno) nome de forma desinteressada e fiel.

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quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Jornalistas pela paz


Próximo da comemoração do Dia Mundial dos Jornalistas pela Paz, este Sábado, dia 27, apresentamos um livro que nos fala de um novo paradigma (d)e agenda mediática. Organizado por José Manuel Pureza e editado pela Quarteto, a obra reúne comunicações apresentadas durante um curso realizado pela Comissão Nacional da Unesco, na Universidade de Verão, na Arrábida, em 2000, Ano Internacional da Cultura da Paz.

Texto Dina Cristo

É urgente implementar uma agenda de paz, que promova o diálogo intercultural, a protecção das minorias, a cidadania global, de solidariedade, integração, adopte uma perspectiva menos alinhada com a violência e valorize o grande desvio: as iniciativas, actores e métodos pacíficos. A própria sustentabilidade informativa depende de uma agenda reestruturada, que inclua não apenas o crescimento mas também o desenvolvimento económico, social e ambiental (“profit”, “people” e “planet”). A paz, condição para transformar os conflitos de forma criativa e construtiva, é também urgente nos “media”, porque corresponde a um interesse da comunidade, a uma necessidade verdadeiramente colectiva.
A guerra (substituída pelo eufemístico “intervenção militar”) é dispensável e politicamente irracional; ela desenrola-se hoje, sobretudo, no teatro... informativo – fluxos e conteúdos que a elite no poder controla, para preservar o “status quo” que tem dominado: uma cultura política conflitual, baseada numa ideologia conservadora que só admite o “preto” e o “branco”, quando a realidade é um espectro de várias cores.
A pós-nacionalidade implica um novo paradigma de comunicação, de respeito, conhecimento mútuo e solidariedade cosmopolita e, portanto, de superação das diferenças de forma a atingir uma visão global. A globalização é cada vez mais multicultural. A intolerância informativa será suicidária e desfocada em relação às novas propostas de construção social de um mundo matizado e, assim, rico, pacífico, partilhado e unido pelos interesses realmente comuns, redescobrindo uma identidade plural.
Um novo contrato social
Este novo contrato assenta na co-habitação, no pluralismo de culturas, no direito/dever de informação, participação e respeito mútuo para uma cultura de solidariedade e cooperação humana, transnacional e uma paz positiva, global, com uma comunidade humana integrada e harmónica. A cultura de paz implica não apenas a paz negativa (a ausência de violência directa/pessoal), mas também a inexistência de violência estrutural (repressão, exploração, imposição, segmentação e marginalização) como também a cultural - transmitida pelos “media” – substituída pela liberdade, equidade, diálogo, integração, solidariedade e participação.

A informação que (ainda) utiliza a dualidade e reproduz um discurso bipolar do mundo (o “Outro”, sobretudo o culturalmente diferente, visto com valor e intenção negativa, o “Mau”, e “Nós”, os “Bons”) não reproduzindo de forma séria e equilibrada o(s) argumento(s) do inimigo e transportando para os relatos políticos, sociais e desportivos uma linguagem bélica, tem dado mais importância à guerra do que à solução pacífica.
Mudança de paradigma
Com o nuclear, os custos da guerra, o “soft power”, a mediação internacional, surge uma deslegitimação quer da violência clássica quer da emancipadora. São então apontados factores como a sua ineficácia e ontologia, moralmente condenável e estrategicamente inadequada. Assim, as guerras entram em desuso nos anos 90, depois de inconclusivas nos anos 80. Hoje, as forças armadas têm mais missões humanitárias (e até ambientais), o pacifismo que é considerado eficaz, realista e racional, como escreve Luís Mota, professor catedrático de Sociologia das Relações internacionais.
Verifica-se actualmente uma mudança da natureza do Estado e uma nova lógica, pós-nacional – um modelo de cidadania internacional, um projecto de sociedade solidária, inclusiva, dialogante, participativa, tolerante e intercultural – o que implica um novo contrato social, no qual as fronteiras são vistas como práticas de exclusão de grupos. É um novo sistema pós-estatal da sociedade civil, de uma cidadania voluntária e responsável, baseada na informação a todos acessível - a sociedade de informação - tal como nos direitos de cidadania política (mesmo a nível externo), culturais, de identidade e participação de todos os membros da sociedade num debate aberto e numa pressão política ascendente, vinda da acção dos movimentos sociais, pela consciencialização dos riscos e interesses comuns.
A cultura conflitual, de divisão de Estados (fruto da herança positivista e realista - etnocêntrica, ideologicamente fundamentalista, estrategicamente redutora e que deu prioridade aos factos em detrimento dos valores) era baseada na territorialidade, na lealdade de proximidade e no sistema estatal. A guerra baseou-se numa legitimidade clássica, que mobilizava os cidadãos para dar a vida pela pátria, e emancipadora, como instrumento de libertação dos povos. Neste contexto, o pacifismo foi visto como ingénuo, irreal, ideal e utópico.
As tentativas de construção de uma Cultura para a Paz (tanto humanistas como socialistas) vêm desde o final do Séc.XIX (com a restauração dos Jogos Olímpicos, as Exposições Mundiais) e continuam com a criação da Cruz Vermelha, Prémio Nobel da Paz, Conselho Mundial da Paz, Sociedade das Nações Unidas, em 1919, ONU, Governo mundial para ser capaz de garantir a paz, passando por Gandhi, que provou a sua eficácia, até aos movimentos pacifistas dos anos 60 e 70.
Durante o Séc.XX houve uma investigação científica sistemática, sobretudo entre a I e a II Guerra Mundial e, depois da Guerra Fria, sobre o imperialismo e a relação entre os gastos militares e as necessidades sociais. A investigação alterna-se entre estudos de segurança e estudos de paz, pois a atenção desloca-se para a segurança ambiental (dada a crise) e humana (devidos aos desalojados e refugiados). A democracia e a liberdade passam a ser consideradas necessidades básicas fundamentais - é a emergência de um novo paradigma científico, em evolução, com uma marca mais holística e ética.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Cinema comunitário


Em plena edição do Festival de Cinema Documental de Lisboa, reportamos uma outra sétima arte, a ambulante, que leva até ao Portugal profundo histórias animadas.

Texto e fotografia Sara Fidalgo

Dia Mundial da Criança. Pequenos e graúdos de mãos dadas, seguem para a Biblioteca Municipal de Montealegre para assistirem a um teatro em celebração do dia. Os mais velhos deixam a criançada “bem sentadinha e sorridente”. A calmaria é levada segundos depois. A directora Gorete Afonso* chega ao pequeno auditório, onde a pequenagem pedia para que os personagens chegassem depressa.

Simpática, protagonista de uma recepção calorosa e atenciosa, apresenta-se como a responsável do subprojecto do programa Leader Adrat, em vigor na União Europeia. Este plano trabalha sobre propostas inovadoras em prol de melhorias de vida e costumes das regiões em que actua.
Gorete Afonso adiantou que o ciclo de cinema e teatro não é um acontecimento agendado com grande frequência, no entanto, é um êxito certo sempre que se realiza. O projecto caseiro da biblioteca promete levar “som e imagem” junto dos mais novos, chegando (também) a quem deles toma conta.
Cada sessão funciona como novidade para a população. Os mais idosos afirmam que raramente viu filmes em tela, ou que a última vez que foram ao local foi a primeira vez que viram uma projecção. Novas visões do mundo, diferentes costumes e etnias são apresentadas a pessoas que raramente saíram da terra natal.
A interacção mantém-se entre os habitantes: deixam o sofá de casa para as pequenas, mas confortáveis, cadeiras das salas de projecção. Novos hábitos criados! José Santos, vindo da toma diária do cafezinho, adianta: "Deixamos os jogos de futebol de parte, porque neste país já não têm futuro. O melhor de tudo é podermos sentarmo-nos com os nossos parceiros, beber um suminho e provar as pipocas com caramelo. Menos mal que a cervejinha foi substituída, com menos barriga ficamos."
Cinema itinerante
A prática de levar o cinema de terra em terra parece algo rudimentar mas, na realidade, é uma iniciativa com largos horizontes para o tempo futuro. O material disponível, os altos níveis de interesse e o amor à camisola são os principais factores que tornam a acção comunitária algo tão honesto.
Helena Marta, uma senhora que costuma passear com o neto, perto da Biblioteca Municipal, deu-nos o seu parecer: "É bom poder juntar uma vila inteira para assistir a um acontecimento. É fantástico haver alguém que se preocupe connosco. Uma pessoa que vem, com a casa e o filme às costas, merecia que fizessem um filme sobre ela. Talvez a malta jovem siga a ideia dos mais velhotes!"
Os lucros são mínimos, o contentamento é massivo. Das salas saem sorrisos e palavras de aprovação. Dos bastidores não saem actores, sai quem apresenta, a um dos pequenos mundos do planeta Terra, clássicos e dá provas de bem-estar a um público (quase) estreante.
"Gosto muito de poder ver os diferentes rostos, ouvir as diferentes vozes, saber os diversos pontos de vista. Dentro e fora do filme. A cara dos meus vizinhos, as expressões dos actores. As conversas dos personagens e a fofoca das senhoras do mercado. Os pontos de vista que o sábio protagonista mostra ao principiante e os comentários dos mais novos”, diz António Marques que, enquanto passava pelo local, decidiu comentar o que ouviu de uma reunião de grupo espontânea.
Os patrocínios são indispensáveis para garantir o bom funcionamento dos meios de difusão de imagem. O café local ou a Câmara Municipal podem sempre dar um pequeno contributo para o projeccionista profissionalmente amador.
Há 15 anos, a fita, levada às costas, era posta a trabalhar num simples projector direccionado a uma parede das maiores casas da vila. Hoje em dia, numa sala acolhedora e com um projector ligado directamente a um computador, a dinâmica é acrescida ao tempo do filme.
Técnica
Durante anos surgiram novas tecnologias que evoluíram com uma visão pedagógica para um romance, thriller, uma comédia ou mesmo um filme de drama. Valter Carvalho, um dos simpáticos senhores de Montealegre comenta o assunto: "No meu tempo tínhamos a preocupação de cuidar da família. Os momentos em família eram passados a trabalhar ou às refeições. Graças a Deus que os nossos netos estão livres desses encargos e podem aproveitar o conhecimento e a prática do bom que o cinema lhes apresenta."
A mutação do cinema é matéria dos nossos dias. A história conta o cinema mudo e o falado, o preto e branco e a mistura de cores, a antiga tela e a pano imenso.
Actualmente, a tecnologia é algo confusa, um tanto desordenada. Este facto deve-se à ligação sinérgica entre as telecomunicações, informática, modos de produção de imagem e a sua distribuição.
Esta arte, a mais tecnológica de todas, torna-se especial por conseguir transpor o mundo da magia e o impossível para a realidade.
Existe uma vasta gama de públicos. A multiplicidade de filmes vai ao encontro de ideais antigos e novos aspectos que se pretendem cristalizar. Aqui se enquadram os idosos. À terceira idade estão direccionadas várias actividades, pedagógicas e lúdicas, que lhes permite aprendizagens e interacção.
O cinema e a vida contribuem para a criação de emoções, numa sala escura, junto de desconhecidos, onde o que atrai é o imaginário e a promessa de novas sensações.
*Directora da biblioteca em discurso directo:
A que público se dirige esta iniciativa? O cinema é dirigido para todas as idades mas mais concretamente para os jovens que procuram o espaço.
Qual o impacto das tecnologias no público em geral? As tecnologias têm quase um poder misterioso para os mais velhos. A receptividade é algo bastante positivo.
O que pode ser alterado na maneira de estar das pessoas? Normalmente não há grandes alterações no comportamento a não ser a nível intelectual, pois ganham conhecimento do mundo e crescem em cultura.

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quarta-feira, 1 de julho de 2009

Suicídio juvenil


Numa altura em que grande parte dos alunos do ensino superior enfrenta uma época de exames, publicamos uma reportagem sobre o suicídio entre os estudantes daquele grau em Coimbra. Quando nada parece valer a pena.

Texto Elisabete Paulos Ribeiro

Falar desta “solução permanente para problemas temporários” ainda é tabu. O suicídio entre os jovens afecta quem não vislumbra alternativa para lidar com problemas emocionais, com o insucesso escolar e com as dificuldades económicas. O fenómeno é complexo e implica um trabalho conjunto de prevenção, envolvendo a escola, a comunidade, serviços de saúde e de apoio social.
“Cheguei a pôr várias vezes a hipótese do suicídio”. A expressão é partilhada por jovens que debatem o “suicídio sem dor”, num fórum na Internet. Pelos comentários, percebe-se que são cada vez mais os jovens que já estiveram de alguma maneira ligados a um dos mais sérios problemas de saúde pública: o suicídio.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) define suicídio como um “acto deliberado, iniciado e levado a cabo por um indivíduo com pleno conhecimento ou expectativa de um resultado final”. Carlos Braz Saraiva, psiquiatra responsável pela Consulta de Prevenção de Suicídio nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), estabelece as diferenças entre suicídio e para-suicídio: “O para-suicídio está mais ligado à sobrevivência, pois a pessoa em princípio não quer morrer” enquanto “um suicídio só é suicídio se ocorrer morte”.
O, também, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) esclarece que “uma coisa é a ideação de morte onde pode haver, inclusive, uma questão filosófica ou de inquietação própria da juventude sobre o que é viver e o que é morrer, e outra coisa é a ideação suicida onde existe um plano de auto-aniquilação”. Daniel Sampaio, médico e coordenador do Núcleo de Estudos do Suicídio (NES), refere no seu livro "Tudo o que temos cá dentro", que “o suicídio é uma estratégia, às vezes uma táctica de sobrevivência quando o gesto falha, tudo se modifica em redor após a tentativa” e de acordo com o especialista está “Maria”, nome fictício, que aos 17 anos tentou suicidar-se. Hoje, passados dois anos, está “a recuperar amigos que se afastaram porque ficaram em choque”.
Ajuda ao alcance de todos
Em Coimbra, não há dados estatísticos que permitam quantificar as tentativas de suicídios entre os jovens que estudam no Ensino Superior, embora sejam conhecidos diversos casos entre a comunidade universitária, diz Braz Saraiva. Para ajudar os estudantes que se encontram em situações de perturbação emocional e comportamental foram criados, há dez anos, o Gabinete de Aconselhamento Psicopedagógico dos Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra (GAP-SASUC) e o Gabinete de Psicologia dos Serviços de Acção Social do Instituto Politécnico de Coimbra (GP-SASIPC). Para além dos alunos, auxiliam também docentes e funcionários das respectivas instituições. A média de idades entre os dois gabinetes difere. No Gabinete de Aconselhamento Psicopedagógico dos SASUC a faixa etária situa-se nos 24 anos, já no Gabinete de Psicologia dos SASIPC são maioritariamente estudantes de 22 anos que recorrem aos serviços.
Quanto à afluência aos serviços do GP-SASIPC a psicóloga responsável pelo gabinete, Helena Moura, refere que “a lista de espera está sempre a aumentar”. Já a psicóloga do GAP-SASUC, Ana Carvalhal de Melo, revela que o gabinete tem “um número de consultas elevado, chegando quase às mil consultas por ano”. As duas médicas estão de acordo quanto à necessidade de acompanhar os estudantes desde o seu ingresso no Ensino Superior. “Muitos alunos sofrem com o processo de transição da escola secundária para o ensino superior, mas é curioso porque os alunos do primeiro ano não nos procuram, são mais alunos do segundo e do terceiro ano”, afirma Ana Carvalhal de Melo. Helena Moura acrescenta: “Infelizmente há situações que só apanhamos no segundo ano e que se tivéssemos apanhado logo no primeiro ano não teriam sido tão graves”.
Ao depararem-se com casos mais problemáticos, os dois gabinetes de psicologia das instituições de Ensino Superior de Coimbra, encaminham os jovens para os Serviços de Psiquiatria dos HUC, que dispõe de uma Consulta de Prevenção do Suicídio (CPS), que não tem lista de espera e que visa prioritariamente observar jovens que cometeram tentativas de suicídio e que foram observados primeiramente na urgência. Segundo Braz Saraiva quem frequenta mais a CPS são as pessoas entre os 15 e os 24 anos. A maior parte dos casos de tentativas de suicídio que dá entrada nas urgências dos HUC deve-se a cortes e à ingestão de medicamentos ou tóxicos.
Tanto nos gabinetes de psicologia da Universidade de Coimbra (UC), como do Instituto Politécnico de Coimbra (IPC) e na Consulta de Prevenção de Suicídio do Serviço de Psiquiatria dos HUC, são maioritariamente raparigas que pedem ajuda. Embora a psicóloga do GP-SASIPC mencione que “surgem cada vez mais rapazes”. De acordo está a Linha SOS-Estudante que recebe mais chamadas de pessoas do sexo masculino.
“A Linha SOS-Estudante foi criada em 1997 com o objectivo de combater algumas falhas que um dos estudantes de Coimbra notou”, conta a vice-presidente da linha, Ana Margarida Teixeira. É uma linha telefónica de apoio emocional e prevenção ao suicídio, sendo ao mesmo tempo uma Secção Cultural da Associação Académica de Coimbra (AAC). Este projecto é actualmente constituído por 22 estudantes voluntários que receberam formação “tendo em conta algumas temáticas principais nomeadamente a prevenção do suicídio e outros temas mais recorrentes como a solidão e a sexualidade” como explica a vice-presidente da linha.
O reduzido horário de funcionamento, das 20h às 01h, deve-se, principalmente, ao insuficiente número de voluntários. A SOS-Estudante recebe em média três a cinco telefonemas por dia de Portugal Continental e Ilhas. “Um pouco contra os nossos objectivos iniciais, actualmente, a faixa etária que liga é dos 40 anos para cima”, afirma Ana Margarida Teixeira. Também contrariando os objectivos primários deste projecto, a maioria das chamadas rondam os temas da solidão e da sexualidade. A vice-presidente da linha afirma que a SOS-Estudante “tem pouquíssimas chamadas de suicídio e a nível de estatística em apenas um por cento das chamadas são identificados alguns factores de risco e outras coisas que levem a pensar numa ideação suicida”.
Exceptuando o Instituto Superior de Educação de Coimbra (ISEC) que às quintas-feiras recebe a psicóloga responsável pelo GP-SASIPC, a Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC) é a única instituição do ensino superior da cidade que possui um espaço nas suas instalações para consultas de psicologia e que tem sempre uma psicóloga disponível para apoiar os seus estudantes. A responsável pelo serviço, Catarina Neves, revela que não existem muitos estudantes em risco de suicídio na escola e que “o facto do gabinete não estar num local muito movimentado ajuda a que os alunos venham conversar sobre os mais diversos temas principalmente entre os meses de Fevereiro e Julho”.
Problemas emocionais e escolares
As causas mais apontadas pelos jovens que recorrerem aos serviços de psico-terapia são, essencialmente, os problemas afectivos e escolares. Ana Carvalhal de Melo refere que os motivos que levam os estudantes a entrar em situações de risco são “problemas de ordem emocional (rupturas afectivas/depressão), insucesso escolar e suas consequências (a nível da auto-estima), problemas de autonomia e problemas económicos”.
O Gabinete de Psicologia dos SASIPC acompanha, actualmente “talvez uns três estudantes em risco de suicídio, embora com graus e riscos diferentes”. O Gabinete de Aconselhamento Psicopedagógico dos SASUC, segundo Ana Carvalhal de Melo, não tem estudantes em risco declarado de suicídio já que, nesses casos, “os jovens são encaminhados imediatamente ou para as urgências ou para a Consulta de Prevenção de Suicídio dos HUC”. “Aquilo que pode acontecer é algumas das pessoas que estão a ser seguidas em situação de crise tentarem o suicídio”, refere.
Quanto às épocas em que recebem mais pedidos de ajuda os dados divergem. “Apesar de haver algumas oscilações em determinados meses do ano não é estatisticamente significativo”, afirma Carlos Braz Saraiva. Helena Moura refere que “na altura da Queima das Fitas há sempre um ou outro caso mediático” e Ana Carvalhal Melo garante que “existem épocas do ano em que a procura é maior e situa-se à volta de Fevereiro, Março e também em Maio, Junho e Julho”.
Os estudantes suicidas “são normalmente pessoas impulsivas, com uma pobre auto-estima, que não conseguem visualizar ou pensar em alternativas para resolver os seus problemas e portanto o suicídio aparece como solução”, segundo a psicóloga do Gabinete de Aconselhamento Psicopedagógico dos SASUC. Esta técnica acrescenta ainda que “existem sempre factores de personalidade que estão por trás destas situações catastróficas”. “Maria”, explica que quando tentou pôr fim à vida, penso que “era uma opção que à partida ia resolver os meus problemas e me ajudava a parar de pensar em tudo”. Braz Saraiva adianta no seu mais recente livro Estudos sobre o para-suicído que o perfil é o de “uma jovem estudante, classe baixa ou média-baixa, problemas afectivos ou escolares, com mau relacionamento familiar, [...] história familiar de doenças psiquiátricas”. São também, em grande parte, estudantes deslocados que recorrem aos gabinetes de psicologia da UC e do IPC.
Estar alerta
Em 1999, Daniel Sampaio alertava na revista "Adolescentes" para a eventualidade do bem-estar de um jovem poder “esconder um grande sofrimento interior, que só uma relação de maior proximidade poderá detectar”. “Acima de tudo estar atento”, é assim que a vice-presidente da Linha SOS-Estudante define o que deve uma pessoa fazer quando repara que um amigo está a pensar em suicídio. Helena Moura realça a importância das amizades e adianta que “devemos recorrer aos amigos e aos familiares e se mesmo assim virmos que não conseguimos ultrapassar os problemas, devemos pedir ajuda a técnicos”. Já Ana Carvalhal de Melo aconselha a que se converse com o potencial suicida e a “nunca tratar o suicídio como tabu”. “Foram os meus amigos que me estenderam a mão e me arrancaram da angústia em que estava”, conta a estudante “Maria”. O responsável pela CPS dos HUC sintetiza: “No fundo, há duas regras básicas que são: criar proximidade e encontrar alternativas”.
No entanto, é importante realçar que os jovens têm mais à vontade para falar sobre os seus problemas com os psicólogos e/ou psiquiatras, que são pessoas que não conhecem do que com amigos, familiares ou namorados/as. A psicóloga do Gabinete de Aconselhamento Psicopedagógico dos SASUC realça a visão imparcial do psico-terapeuta e explica da seguinte maneira esta tendência: “Quando alguém recorre a um psiquiatra ou psicólogo é porque procura alguém que tem bases teóricas e conhecimentos que permitam compreender essa pessoa e que está disponível para ouvir sem fazer juízos de valor nem julgamentos.”
O Núcleo de Estudos do Suicídio (NES) defende que a eficácia dos serviços de apoio depende da facilidade de acesso, proximidade, disponibilidade, divulgação e difusão para as comunidades a que se destinam. A consciência das limitações por parte dos gabinetes de apoio e a sua articulação com serviços de saúde especializados também contribuem para uma maior eficácia na prevenção do suicídio.
Prevenir é essencial
Para um psico-terapeuta, perder um paciente devido a um suicídio é “a maior angústia”, como explica Ana Carvalhal de Melo: “Alguém que trabalhe nesta área tem que se arriscar a que isso aconteça”, mas “é sempre uma ferida que fica. Cura-se mas a marca está lá”. Carlos Braz Saraiva conta que se sente “desconfortável” e que se interroga: “Será que fiz tudo o que deveria ter feito?”.
Porém o psiquiatra, comparando o nosso país com outros países do Mundo, revela que “em Portugal o suicídio do adolescente ou do jovem não é um problema tão dramático como noutros países, como por exemplo em Inglaterra” e adianta que existe sim o problema do suicídio dos idosos, mencionando que “em 2002, pela primeira vez, suicidaram-se 60 adolescentes em Portugal. Mas suicidaram-se por exemplo mais de 500 ou 600 idosos. Portanto, dez vezes mais”.
A prevenção do suicídio é bastante importante e programas de prevenção que trabalhem várias dimensões como a assertividade, a autonomia e a confiança, vão fazer com que os jovens se tornem mais capacitados para lidarem com as várias situações e problemas que vão encontrar nos seus quotidianos. Braz Saraiva refere que o suicídio abrange “fenómenos que são complexos e multi-determinados: “Muitas vezes, aquilo que se verifica é que estes jovens, à semelhança da sociedade actual, lidam muito mal com três factores: o tempo, o poder e os afectos em geral”. Para o professor da FMUC, os jovens actualmente não estão “programados para perceber que há cinzentos entre o preto e o branco”. Também Helena Moura realça que deve existir “prevenção em todos os níveis” enumerados por Braz Saraiva, no seu livro Estudos sobre o para-suicídio: comunidade, saúde, escola e política social.
A psicóloga do GP-SASIPC defende o desenvolvimento de projectos nas residências e entre alunos: “Ainda há muito a fazer e nem é preciso dinheiro, é preciso é tempo e vontade”. Ana Carvalhal de Melo realça a importância do programa de apoio “pares por pares”. Este é um programa relativamente inovador que já foi experimentado noutros países e que para a psicóloga “faz muito sentido pois são alunos que recebem formação básica, que têm um acompanhamento especial por parte do Gabinete e que apoiam e orientam em particular outros colegas”. A psico-terapeuta do GAP-SASUC alerta para a necessidade de existirem programas de prevenção a nível do ensino superior e defende que para prevenir o suicídio deve-se “procurar fomentar as relações inter-pessoais dos alunos, ajudando-os a serem mais auto-afirmativos, mais assertivos, a comunicar com os outros quando têm problemas e a conseguirem reclamar pelos seus direitos sem serem agressivos. Isto a nível pessoal pode ajudá-los a sentirem-se mais fortes, a conseguirem resolver os seus problemas com mais facilidade e portanto o suicídio nem lhes passa pela cabeça como solução”.
Como comenta um jovem no fórum onde se debate o “suicídio sem dor”: “Há sempre uma solução, há sempre algo de belo pelo qual vale a pena viver”.

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sexta-feira, 20 de junho de 2008

Jornalismo (e) audiovisual V


Revisitamos hoje alguns dos principais "newspaper films" dos anos 60, 70, 80 e 90.

Texto Dina Cristo

The man who shot Liberty Valance” – um dos manifestos mais emotivos sobre a liberdade de imprensa – marca a década de 60. Com uma frase que ficou na história dos filmes de jornalismo (“Liberty Valance taking liberties with the liberty of the press), este wester de John Ford representa uma mensagem de resistência a todas as pressões, medos e acomodações da vida social a que pertence.
O jornalista é quem ousa enfrentar o tão temido Valance, publicando no jornal os assassinatos. Apesar de bebedor incurável, a regra que o orienta é o dever de informar e por ela sofre na pele as consequências: é espancado e vê o seu jornal destruído.
No final, após o assassinato de Liberty, o mito impõe-se sobre a verdade: o homem dado como assassino nada tinha feito além da tentativa; a concretização, essa, pertenceu a Tom. A verdade nunca foi reposta e a mentira sobreviveu; subsistiu a lenda baseada num facto nunca esclarecido.
“Cronaca familiare” dá um retrato incomum do jornalista: um homem pobre, triste, sofredor, mas que resiste à doença e à solidão; a redacção, desarrumada, suja e vazia, é desoladora. De facto – como escreve Cintra Ferreira – poderia falar-se de “radiografia” que revela a “complexidade política e cultural de um espaço de tempo e de um país”: a Itália, no tempo do fascismo. O filme é, aliás, uma adaptação de uma novela “mais ou menos autobiográfica” de Pratolini, onde a imagem do jornalista não vai para além de “uma pessoa que mete o nariz na vida das outras pessoas”.
Em “Schock corridor”, um jornalista enérgico entra num asilo de alienados com a finalidade de descobrir a identificação de um assassino. Acaba por conseguir e até obtém o prémio Pulitzer, como era seu objectivo, mas torna-se efectivamente louco e perde a voz. É a história do tudo por tudo por um furo jornalístico com a finalidade de autopromoção e de aquisição de prestígio, mais do que qualquer intenção eminentemente informativa.
Black like me” é uma variação de “Gentleman`s agreement” mas, neste caso, o objecto de investigação do repórter são os preconceitos raciais em relação aos negros. Disposto a fazer uma investigação profunda, o jornalista altera a pigmentação da pele, através de hormonas, e sai enfrentando todos os insultos, humilhações e desprezo. Desta forma, ele pode transmitir, com alguma fidelidade, o estado das relações entre os negros e os brancos nos Estados Unidos; ele vai relatar acontecimentos que não apenas testemunhou como participou, viveu e sentiu. “(…) Uma aposta num realismo “duro”, tanto mais gritante quanto é filmado a preto e branco (…) numa época em que o movimento dos direitos cívicos encabeçado pelo reverendo Martin Luther King estava a fazer História”
[1].
O fotógrafo de “Blow up” tem como meta atingir a verdade dos factos. Para tal, e de forma a dar um aspecto mais documental às fotos, percorre ruas, cafés, subúrbios e parques. Num destes, fotografa um casal que se beija – uma cena aparentemente anódina, que vem demonstrar-se repleta de violência, opressão e crime. Na ampliação que vai sendo feita, revela-se primeiro a presença de um homem nos arbustos, apontando uma pistola e, mais tarde, um corpo estendido. O que se vê, afinal, nem sempre é o que se passa; para perceber a realidade é necessário decifrá-la.
Anos 70
A sétima década tem como referência “All the president`s men”. Produzido quase em simultaneidade histórica, o filme aposta numa meticulosa reconstituição de factos e cenários como a redacção de “Washington Post”: “(…) resultou de centenas de fotografias (as secretárias dos jornalistas foram fotografas uma a uma), da recolha das papeladas que estavam por cima das mesas, seguida da sua expedição para Hollywood e da sua recolocação no cenário e da compra de todos os livros que estavam nas prateleiras da redacção. Foi tão fiel esta reprodução que quando o verdadeiro Bem Bradlee visitou a “set” foi capaz de saber a hora e o dia em que supostamente se passava a cena que estava a ser rodada: só às 10h30 de Sábado é que a redacção poderia ter aquela gente naqueles lugares (…)”
[2].
Focalizada no modo como foi realizada a investigação do caso Watergate pelos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, a fita trouxe para as redacções inúmeras vocações e transformou-se no filme por excelência do jornalismo de investigação. “(…) a queda de Richard Nixon e a retirada do Vietname reforçavam a ala liberal” no sector cinematográfico norte-americano, possibilitando o surgimento de uma fita como “All the president`s men” onde dois insignificantes jornalistas abalavam as estruturas do “establishment” político”
[3].
A década foi ainda preenchida com um filme italiano e outro alemão que, ao contrário, pintaram de negro a face do jornalista: “Sbatti il mostro in prima pagina” e “Die verlorene ehre der Katharina Blum”.
O filme italiano aborda a forma como um jornal manipula a realidade. “Il Giornale”, de direita, desvia a atenção das questões levantadas com a realização de eleições, explorando de forma sensacionalista um caso de “fait-divers” – um crime sexual. Constroem a história, fabricam os culpados (os comunistas) e Roveda, o jornalista que se recusa a especular, é despedido. No jornal “Die Zeitung”, é tanta a quantidade de notícias falsas publicadas que a visada, numa atitude de desespero, acaba por matar o jornalista.
Em meados da década concretiza-se a terceira versão de “The front page” – uma fita onde se pretende assegurar a exclusividade da reportagem do evadido que escapa à sentença de morte. Nesta película, Hildy Johnson faz uma alusão mordaz ao culto das notícias de sensação e à falta de respeito pela pessoa humana: «Jornalistas? Um bando de malucos, com caspa nos ombros e buracos nas calças, a espreitar por orifícios de fechaduras, a acordar pessoas a meio da noite para lhes perguntar o que pensam de Aimee Simple McPherson, a tirar fotografias de velhinhas que são violadas no parque. E para quê? Para entreterem empregadas de balcão. E, no dia seguinte, alguém enrolar a primeira página em volta de um peixe»
[4].
Un linceul n`a pas de poches” veicula as pressões políticas a que um jornalista, que se bate pela imprensa livre, fica sujeito. Permanentemente em serviço, o profissional resiste a tudo – ofensas corporais, apreensão das edições – menos à morte, única forma encontrada para fazer calar a sua voz.
Em “The parallax view” surge-nos um jornalista a investigar as reais causas do assassínio de um senador que, oficialmente, tinha sido atribuído a um atirador isolado. “A polémica sobre os homicídios dos irmãos Kennedy e de Martin Luther King nos anos 60 influenciava directamente este filme de cariz ‘liberal’
[5].
A trabalhar numa estação em que a banalidade e o vedetismo, que fazem subir as audiências, são o fundamental, a reportagem de uma jornalista sobre um incidente é relegada para segundo plano; é que, como lhe dizem, não está ali como investigadora. Em “The China syndrome”, a televisão é sujeita a pressões e vencida na sua relação com o poder “(…) já que entraves de toda a ordem bloquearam as pesquisas para uma reportagem sobre uma falha no equipamento de uma central nuclear que está a ser encoberta pelas autoridades. Mais tarde, quando o caso está aparentemente adormecido o desastre acontece
[6].
Anos 80
A oitava década, assinalada com a quarta versão do texto original de Hecht e MacArthur, adaptado agora ao contexto televisivo, é marcada por “Absense of malice” – um dos filmes mais críticos sobre os jornalistas.
Numa resposta à exaltação provocada pelo caso Watergate e numa década pouco amável para com os homens da imprensa, nomeadamente a nível judicial, “Absense of malice” desencadeou uma reacção de indignação por parte dos jornalistas perante a imagem que deles o cinema estava a construir.
A jornalista, ao seguir a pista errada (maliciosamente exposta), acaba por caluniar um homem que estava inocente. Ao acreditar nas fontes de informação a que teve acesso, e sem a preocupação de confirmar os dados com a pessoa objecto da investigação, é usada para dar dos factos uma visão distorcida, verdadeiramente manipulada. Por outro lado, a sua ingenuidade, irresponsabilidade e o desrespeito pela ética profissional acabam por originar um suicídio de uma pessoa indirectamente relacionada com o caso relatado. “(…) não parte de qualquer caso verídico (embora escrito por um ex-repórter, Kurt Luedtke), mas expõe uma das realidades mais preocupantes do ofício de jornalista: a difamação de cidadãos, que mesmo involuntária (como é o caso), nunca poderá ser inteiramente corrigida”
[7].
Os jornalistas protestaram dizendo que o filme os descrevia de uma forma grotescamente distorcida; a repórter Lucinda Franks (galardoada com o prémio Pulitzer) assinalou a Howard Good que, tanto quanto sabia, nenhum crítico se queixara pelo facto da recolha da lista no FBI ser irrealista; pelo contrário, muitos repórteres na vida real haviam feito o mesmo
[8].
“Reds” é o retrato do jornalista John Reed – testemunha da Revolução Soviética – e das suas experiências contadas no livro “Dez dias que abalaram o mundo”; o filme, nas palavras de Joaquim Vieira, “(…) é sobretudo um fresco sobre a geração de Reed e as suas expectativas com a “nova aurora” anunciada pelo assalto ao Palácio de Inverno”
[9].
Em “Ploughman`s lunch” é o jornalista que, cansado da monotonia do seu trabalho e céptico quanto à versão institucionalizada sobre a crise do Suez, inicia, em paralelo, uma investigação sobre aquele período. James acaba por descobrir a manipulação desenvolvida pelo poder, alterando por completo a memória dos factos ocorridos em 1956 e tornando nebulosa a visão da sociedade em relação aos tempos actuais. A guerra das Malvinas é o pano de fundo que atrai todos os interesses do jornalista, num filme que inclui imagens da conferência de 1982 do Partido Conservador.
Também britânico, “Defense of the realm”, destaca a influência e a cumplicidade entre o poder e os responsáveis máximos dos jornais, permitindo que os superiores interesses da Nação sejam confundidos com os do partido no poder. As tentativas isoladas para divulgar verdades de interesse público, como a probabilidade de um desastre nuclear, são apagados pelo fogo e os jornalistas assassinados. É o preço que paga quem não se cala, não cede a pressões, chantagens ou ameaças.
Considerado um filme modelo do cinema de jornalistas dos anos 80, “The killing fields” baseia-se nos relatos de um jornalista real: Sidney Schanberg que acompanhou, para o New York Times, a ocupação do Cambodja pelos Khmers vermelhos. A fita mostra como é fundamental, para o desenvolvimento de um trabalho em terras desconhecidas, a existência de um guia, neste caso indígena, fotógrafo e amigo fiel do jornalista. Uma película que “(…) envolve por completo o jornalista nas causas “pós-modernas”; denúncia dos novos totalitarismos, garantia da dignidade pessoal, respeito pelas minorias, defesa dos direitos humanos”
[10] - uma história autêntica, contada em estilo de “cinema-vérité”.
‘Amoral’, ‘mercenário’ e ‘badalhoco’ são os adjectivos que Frederico Lourenço utiliza para caracterizar o jornalista de “Salvador”. Com pouca decência e poucos escrúpulos, a Boyle resta-lhe o seu colega fotógrafo que pelo menos se arrisca, até à morte, por uma boa fotografia. O filme apoia-se directamente na experiência do jornalista norte-americano Richard Boyle durante o período de 1980-81 e veicula uma visão crítica em relação à política americana na América Central.
Em “The mean season”, o jornalista no seu último trabalho ultrapassa a função de relator dos factos e integra-se no desenrolar dos assassinatos. Torna-se, a princípio, o elo de ligação entre o criminoso e o público, terminando por matá-lo, em legítima defesa. Aqui “a imprensa põe a legalidade antes da justiça, e a economia antes da ética”
[11], pelo menos o director, já que Malcolm preocupa-se com a responsabilidade da profissão e procura ser comandado pela ética: não traz a foto da rapariga assassinada para publicar, nem paga para lhe darem informações.
Switching channels”, a mais moderna versão de “The front page”, adapta o contexto inicial (de imprensa) para televisão, introduzindo alguns elementos como a substituição da escrivaninha por uma fotocopiadora. É o cinema a acompanhar as mudanças sociais e, portanto, a crescente importância da TV, transporta com cada vez mais frequência para o grande ecrã. “Linhas trocadas” retrata a televisão como mecânica de constante descentramento da verdade, paisagem povoada por mais ou menos alucinados “talking heads”, onde o que mais conta é tão só a possibilidade de continuar-a-emitir”
O filme traz-nos uma jornalista de televisão, cuja perspicácia torna possível uma entrevista em exclusivo com o condenado. Este, ao explicar os motivos que o levaram a disparar sobre um polícia, faz mudar a opinião pública. Ao apanhar os malfeitores, que pretendiam explorar o caso para fins políticos, a entrevista repõe a justiça.
Em “Under fire” um fotojornalista e uma repórter vão cobrir a guerra da Nicarágua, pensando apenas veicular os factos, sem qualquer interferência. No final, contudo, reconhecem que se envolveram demais, mas sem culpabilidade. Reticente, a princípio, o repórter fotográfico chega mesmo a fotografar Rafael de forma que este, já morto, parece vivo – é a clara tomada de partido.
«Filmado “on location”, o filme tenta uma reconstrução realista das semanas que precederam a vitória dos guerrilheiros, referindo-se explicitamente ao incidente em que o repórter Bill Stewart, da cadeia norte-americana de TV NBC, foi morto a sangue-frio por um soldado da Guarda Nacional (…)”
Em “the thin blue line” é feito, a partir do assassinato de um polícia em Dallas, um verdadeiro cinema de investigação de carácter marcadamente factual. Através da reconstituição do crime, de acordo com as várias perspectivas de testemunhas e protagonistas entrevistados, fica, no final, a ideia de que o condenado, que se reclama inocente, está a dizer a verdade.
“Tinikling” aborda os últimos dias da presidência de Marcos, durante a campanha eleitoral que o opõe a Corazón Aquino. Para cobrir o acontecimento, lá estão dois repórteres fotográficos a presenciar assassinatos, bombas, mortos e feridos – situações face às quais são impotentes, mais não fazendo do que testemunhar e gravar na objectiva, até mesmo por pressão, como acontece no início.
Os anos 90
A personagem do jornalista mantém-se presente na nona e última década do século XX. Só em 1993, por exemplo, a indústria cinematográfica americana apresentou dois filmes: “Hero” e “The public eye”.
Bernzy, o fotógrafo que prometia limitar-se a tirar fotografias ao que observava e não interferir na luta entre “gangsters”, acaba por quebrar ambas as promessas. É um homem da noite, apaixonado pelo seu trabalho e que, para conseguir fotografias com mais impacto, não hesita em “trabalhá-las” um pouco mais, à maneira dos fotógrafos de “La dolce vita”.
Em “The bonfire of vanities” um jornalista em decadência encontra, na cobertura de um homicídio, matéria que o tornará uma verdadeira celebridade. O filme não é suave para com os jornalistas, aqui identificados como jornaleiros, subservientes em relação ao poder, mais dados ao espectáculo do que à honestidade ou à verdade.
Oliver Stone, ao realizar “J.F.K.”, concretiza um filme de tese que vem pôr em causa toda a versão oficial sobre o assassinato de Kennedy e a influenciar a própria realidade já que, posteriormente, se passaram a encontrar disponíveis mais documentos sobre o crime. Coloca-se ao lado de um “The thin blue line” – também ele a questionar frontalmente a sentença final.
Hero” mostra como se fabricam os acontecimentos, a forma como se exploram e a quantidade de mentiras que são divulgadas com a agravante de que quando se descobre a verdade esta é ocultada – tudo fica “off the record”. Uma fita que marca a insensibilidade perante uma tragédia e onde o que interessa é o ângulo, a exclusividade e a espectacularidade das imagens.
“Não se pode acreditar naquilo que se vê na televisão”: eis as palavras-chave a resumirem um filme que é um autêntico cartão vermelho ao jornalismo televisivo. A própria repórter diz, a propósito do suicídio, que ali não se trata de uma história jornalística, mas da vida real.
“Hero” é um dos filmes mais actuais a tratar a problemática da televisão na sua vertente jornalística. No próximo artigo, vamos recuar um pouco, até 1987, e ver como “Broadcast News” abordou algumas das questões mais prementes em televisão, como acontece com a tendência actual para acentuar a importância da forma em detrimento do conteúdo.

[1] ANDRADE, José Navarro – Black like me//1964. [2] Idem – All the president`s man/1976. [3] VIEIRA, Joaquim – Mr. Gutenberg goes to Hollywood, p.22. [4] Idem, p.24. [5] Idem, p.22. [6] Suplemento de “A Capital”, Dez.1987, p.78. [7] VIEIRA, Joaquim – Mr. Gutenberg goes to Hollywood, p.24. [8] GOOD, Howard - Op, Cit, p.83 [9] VIEIRA, Joaquim – Mr. Gutenberg goes to Hollywood, p.22. [10] Idem, ibidem. [11] GOOD, Howard - Op, Cit, p.90. [12] LOPES, João – Demasiado próximo do amor, p.56. [13] IRA, Joaquim – Mr. Gutenberg goes to Hollywood, p.23.

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quarta-feira, 17 de junho de 2009

"O Figueirense" faz 90 anos


Quase um ano depois de publicarmos um levantamento, realizado há cinco, das três primeiras fases de “O Figueirense” (1863-1919), concluíamo-lo agora que se comemoram 90 anos da última série deste jornal da Figueira da Foz.

Texto Luís Manuel Martins*

O primeiro número da quarta série do jornal “O Figueirense” publicou-se em 19 de Junho de 1919. Os seus fundadores foram o Dr. José Maria Cardoso, antigo advogado na Figueira da Foz, e José da Silva Fonseca, que assumiram os cargos de directores, juntamente com Joaquim Gomes de Almeida, o editor. Foi composto na Tipografia Peninsular de J. Gomes de Almeida e impresso na Tipografia Popular de Manuel Jorge Cruz, entre o período inaugural desta última série e o mês de Janeiro de 1920. A partir desta data passaria a ser publicado em exclusivo pela Tipografia Peninsular.
O jornal “O Figueirense”, que adoptara um formato in-fólio, com quatro páginas de seis colunas cada, manteve a sua periodicidade semanal até ao número 40, de 18 de Março de 1920. A partir do número 41 passou a ser bi-semanário, publicando-se às quintas-feiras e domingos e mantendo as mesmas características. Porém, chegaram a ser publicadas algumas edições de duas páginas apenas, devido à carestia do papel de impressão.
A ideologia dos seus fundadores era de tendência republicana. Por sua influência o jornal seguiu a nova orientação política, subjacente à fusão do Partido Evolucionista, chefiado pelo ex-presidente da República, Dr. António José de Almeida, com a União Republicana, que viria a dar origem ao Partido Liberal. Uma vez fundidos os Liberais com os Reconstituintes, o jornal foi acompanhando o Partido Nacionalista, no flanco direito da política republicana.
Em 25 de Março de 1920, “O Figueirense” passa a ter um novo proprietário e editor – o Dr. José Cardoso. Na véspera do São João desse ano, dia 23 de Junho, foi impresso uma edição especial do Jornal com seis páginas, o número 67, de carácter noticioso e literário, que foi ilustrado por António Piedade.
O dia 3 de Fevereiro de 1921 marcou a chegada de um novo director ao jornal “O Figueirense” – o Dr. Pedro António de Almeida, notário na Freguesia do Paião (Figueira da Foz) e o regresso de Joaquim Gomes de Almeida, desta vez aos cargos de redactor e administrador. O Dr. José Maria Cardoso mantinha-se como proprietário, embora deixasse de ter influência na sua linha editorial e deixando o cargo, em 23 de Fevereiro de 1922. Desta forma, Joaquim Gomes de Almeida, concentrou em si os cargos de proprietário, redactor e administrador deste periódico, ao passo que o Dr. Pedro António de Almeida, continuaria a assumir a direcção deste periódico figueirense.
O Dr. Pedro António de Almeida viria a abandonar a direcção do jornal em 1 de Fevereiro de 1923, quando já se havia publicado o número 314. Joaquim Gomes de Almeida reunira agora todos os cargos do jornal.
Ao longo dos anos de publicação, dando continuidade à ideologia patente no espírito de fundação desta quarta série, o jornal “O Figueirense” mostrou nas suas páginas os retratos de figuras proeminentes da vida política nacional, apoiantes da causa republicana, tais como Guerra Junqueiro, António José de Almeida, Canavarro de Valadares, José Cardoso, Raimundo Esteves, Manuel Teixeira Gomes, Ginestal Machado e Francisco Martins Cardoso, entre outros.
No período histórico que decorre entre o ano de 1919, aquando da fundação da quarta série, e o ano de 1926, no que é possível observar no livro "Jornalismo Figueirense", de Cardoso Martha, o jornal “O Figueirense” teve ao seu serviço alguns dos melhores colaboradores figueirenses. Dando alguns exemplos, dentro das várias áreas, temos D. Amélia Brás, D. Maria Feio, Raimundo Esteves, Ernesto Tomé, António Ruas, Tenente Fernandes de Carvalho, José Brandão, que publicou uma admirável bibliografia portuguesa da I Grande Guerra Mundial, Mário Reis, Edmundo Santos, Cardoso Sant’Iago, Luiz Carrisso, Santos Júnior, António Amargo, Canavarro de Valadares, Alberto Borges, Artur Bivar, Nicolau da Fonseca, João Gaspar Simões, Francisco Martins Cardoso, Joaquim Leite, o próprio Cardoso Martha, autor da obra citada, entre muitos outros. O colaborador artístico permanente era António Piedade.
Os cortes da censura A partir de 1926, com a instauração da Ditadura Militar, a partir da Revolução triunfante do Marechal Gomes da Costa, no 28 de Maio, verifica-se um recuo da liberdade de imprensa, que se reflecte em todos os periódicos nacionais e regionais. O jornal “O Figueirense” não foi excepção e, pelo que foi possível apurar junto do que viria a ser o futuro director, Aníbal Correia de Matos, a vida deste jornal não foi fácil. Houve números que nunca chegaram a sair, por falta de conteúdo relevante, já que eram completamente truncados pelas comissões de censura. A estratégia passava então por adoptar notícias de âmbito nacional, de feição ao regime político vigente, fazendo o paralelismo para a realidade local. Aí residiu o segredo de o jornal ter escapado muitas vezes à mão atroz dos censores. Temos como exemplo a elaboração de um suplemento ao número 657 do jornal dedicado à Revolução Militar de Gomes da Costa de 28 de Maio de 1926 e datado de 1 de Junho de 1926, ou o artigo de primeira página do dia 1 de Junho de 1940, do número 2076, com o título “A Festa de Portugal”, dedicado às comemorações dos Centenários, que pressupunha um ambiente de grande entusiasmo, em todo o país.
A censura atravessou transversalmente a Ditadura Militar desencadeada por Gomes da Costa (1926-1933), o «Estado Novo» e a IIª República Corporativa, legitimados pela Constituição de 1933, pelo que se pode falar claramente de 48 anos de repressão à imprensa, que só terminaram com o a Revolução do 25 de Abril de 1974. A liberdade estava ganha!
A caminho das Bodas de Ouro Na época balnear de 1936, o jornal “O Figueirense” tomou temporariamente o nome de Diário da Praia, o segundo deste nome, já que no ano anterior tinha existido um jornal com esta mesma designação, com orientação editorial diferente. Manteve-se com estes dois títulos e em formato pequeno a partir de 28 de Agosto de 1936, entre os seus números 1731 e 1768.
Em 19 de Dezembro de 1950, devido à morte de Joaquim Gomes de Almeida, quem ocupou o cargo de direcção, interinamente, foi Aníbal Correia de Matos. Viria a ser substituído pelo Dr. Alberto Borges, até ao número 3302, de 4 de Fevereiro de 1961. No número seguinte, o 3303, Aníbal Correia de Matos regressa definitivamente como director.
Em 1969, na comemoração dos 50 anos da quarta série, o jornal “O Figueirense” tem o prazer de noticiar a atribuição da Medalha de Mérito de Ouro da Cidade da Figueira da Foz, na sua edição de sábado, dia 19 de Julho de 1969 (edição número 3739), num artigo de primeira página, que diz: “A Câmara Municipal deliberou atribuir a Medalha de Mérito de Ouro e dar o nome deste jornal à antiga Rua do Curro.”
[1]
À data do seu quinquagésimo aniversário o jornal era propriedade de Matos & Irmão. A redacção, administração e oficinas funcionavam no número 212 da Rua da República, que hoje continua a ter esse nome e se estende desde a Estação de Caminhos de Ferro, até à Praça 8 de Maio e à zona adjacente da antiga doca.
Em 15 de Maio de 1981, no seu número 4296, o jornal anuncia uma interrupção temporária, vindo a aparecer posteriormente de forma interpolada, com o número 4297 em 20 de Janeiro de 1982 e com o número 4298 de 15 de Dezembro de 1982. “O Figueirense” vai retomar a sua publicação regular, a partir do número 4299, em 8 de Julho de 1983, até aos dias de hoje.

Um passo para o futuro

Em 1988 o jornal “O Figueirense” é adquirido pela Sociedade Figueira Praia S.A.. O grande dinamizador desta aquisição é Fernando Alves do Vale. A empresa Ralma Lda, (da qual fazia antes parte também o Dr. António Ramos), essa, continuou com a mesma designação.
Aníbal Correia de Matos continua por algum tempo a dirigir o jornal, sendo nomeado para director-adjunto o Dr. Jorge Babo, professor da Escola Secundária Bernardino Machado. Jorge Babo viria depois a abandonar o cargo. Ainda em 1988 surge então uma nova equipa: o Dr. Carlos Albarino Maia é convidado para director, em simultâneo com António Jorge Lé (chefe de redacção) e Jorge Reis (editor desportivo). Para gerente executivo é nomeado Jorge Galamba Marques.
Em 1990 o Grupo Amorim chega à Figueira da Foz, ao adquirir as participações da Sociedade Figueira Praia. No entanto, o Grupo Amorim acarinha a existência do jornal “O Figueirense” e, mais tarde, em 2002, cria a empresa Fozcom – Produção e Comunicação Multimédia, S.A., que sucede desta forma à Ralma Lda..
As antigas instalações do Jornal funcionavam na Rua de “O Figueirense”, uma perpendicular à Praça General Freire de Andrade (Praça Velha), tendo-se mudado para a Praça 8 de Maio (Praça Nova), em 1 de Abril de 2001, onde está em modernas instalações.
Durante os últimos anos foram colocados inúmeros desafios ao jornal “O Figueirense”, que passaram pela renovação do aspecto gráfico e pela criação de uma edição on-line actualizada permanentemente, projectos estes que pretendem captar novos públicos e assegurar o contacto permanente com os figueirenses que estão no estrangeiro ou não têm acesso directo à edição escrita deste jornal semanário.
O projecto de design gráfico foi elaborado por Pedro Pessoa, da empresa Pandemia, enquanto que a edição on-line é gerida pela empresa Octágono – Comunicação Digital, Lda..
O actual director do jornal, António Jorge Lé, foi o principal impulsionador de todas estas transformações que considera essenciais para a actualidade. O lema é apostar na modernidade, respeitando a linha editorial existente – servir a Figueira da Foz. O administrador executivo é João Leal Barreto e o director Comercial Ângelo Bragança Coelho.
Houve também uma preocupação em preservar a memória colectiva do jornal ao longo dos seus quase 85 anos de história. A imagem do fundador da quarta série do jornal foi perpetuada em fotografia e à redacção foi atribuído, simbolicamente, o nome de Aníbal Correia de Matos, o jornalista mais antigo da cidade da Figueira da Foz. Foi para esse efeito descerrada uma placa, ainda nas antigas instalações, por iniciativa do actual director em 12 de Junho de 2000. Este acto foi realizado em virtude de Aníbal de Matos, à data, escrever assiduamente, desde 1926. Nas instalações do jornal “O Figueirense” estão presentes igualmente fotografias de Albarino Maia e Jorge Reis, já falecidos, e documentação preciosa para o estudo do jornal, como sejam exemplares antigos e gravuras.
Hoje
“O Figueirense” é actualmente um jornal semanário que sai à sexta-feira. Tem um formato fixo de 32 páginas, com vários planos a cor, alternados com planos a preto e branco. A rotina produtiva do jornal realiza-se nas suas instalações, onde é efectuada a paginação e a maqueta final, que de seguida é enviada através de uma linha telefónica dedicada da Figueira da Foz para as instalações da Mirandela – Artes Gráficas, S.A., em Lisboa, onde é feita a impressão e o acabamento das edições. Uma vez concluído este processo, as encomendas com os jornais impressos são remetidas directamente para os assinantes, por via postal. A tiragem média mensal ronda os 18 mil exemplares.
A assinatura anual tem o custo de 15 euros. Existem muitos assinantes quer em Portugal, na cidade da Figueira da Foz e na região de Coimbra, quer no estrangeiro, especialmente em Espanha e nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.
A nível institucional, o jornal “O Figueirense” está inscrito no Instituto da Comunicação Social com o número 100543 e é membro da Associação Portuguesa da Imprensa (AIND), da Associação Portuguesa da Imprensa Regional (APIR) e da União Portuguesa da Imprensa Regional (UNIR).
O jornal “O Figueirense” conta, ao longo da sua existência, com inúmeras distinções e é Sócio Honorário da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Figueira da Foz e da Sociedade Filarmónica 10 de Agosto, uma das mais antigas e prestigiadas colectividades da Figueira da Foz. Ao fim de 85 anos de história da quarta série, o jornal “O Figueirense” é o jornal mais antigo da cidade da Figueira da Foz.
Edições especiais
Ao longo dos anos o jornal tem publicado inúmeras edições especiais e suplementos temáticos, que são fruto da vontade de dar a conhecer as personalidades históricas, os lugares e os recursos da Figueira da Foz e da região onde se insere. Tudo isto com um único ideal – o da aproximação do jornal aos seus leitores.
Em 6 de Abril de 1922, o jornal publicou uma edição especial de seis páginas, no seu número 228, dedicada ao lampadário da Batalha, onde devia estar bem presente a Chama da Pátria. Recorreu-se à utilização de uma gravura sugestiva deste símbolo e à colaboração especializada de diversos oficiais do exército português.
Catorze dias depois, no dia 20 de Abril de 1922, a “saga” dos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, que empreenderam fazer a travessia do Atlântico Sul, desde Lisboa até ao Rio de Janeiro, a bordo de um pequeno hidroavião – o «Lusitânia», motivou a publicação um número especial do jornal (número 232). A chegada dos dois aviadores aos Penedos de São Pedro e São Paulo, ao largo da costa brasileira, foi notícia de primeira página, onde sobressaía uma grande cruz de Cristo vermelha e as fotografias dos dois aviadores.
Em 18 de Junho de 1922, um dia depois da chegada de Gago Coutinho e Sacadura Cabral ao Brasil, ao fim de se cumprirem 8000 quilómetros e 60 horas e 14 minutos de voo, “O Figueirense” prestou homenagem aos dois aviadores, no seu número 249. A primeira página desta edição, totalmente a cores, incluía uma silhueta do hidroavião, as fotografias dos aviadores e o escudo nacional. Nas dez páginas de texto interiores dedicadas ao acontecimento, podiam observar-se pormenores diversos do hidroavião “Lusitânia II” nos Penedos de São Pedro e São Paulo, que após o acidente com a aeronave original, permitiu que os dois pilotos portugueses chegassem a Terras de Vera Cruz. O número 286 do jornal, de 26 de Outubro de 1922, relatava o regresso a Lisboa de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, recorrendo a muitas ilustrações.
Em 22 de Junho de 1924, após ter completado o seu quinto ano de vida e em plena época balnear, "O Figueirense” dedicou a sua primeira edição especial, totalmente a cores, à Figueira da Foz. Neste número foram incluídas 40 imagens da praia, da cidade e arredores, modelo que obteve grande sucesso. Apostando na sua continuidade, foram publicados vários exemplares bi-semanais, até dia 22 de Julho de 1924, data em que sairia a última edição, com o número 455, de uma série de números comemorativos, impressos a cores, ilustrados e acompanhados de textos inéditos.

Suplementos

No dia 4 de Março de 1939 foi publicado o primeiro número do suplemento “Filmagem”, dedicado à propaganda cinematográfica, edição esta que viria a não circular por falta de autorização dos Serviços de Censura. O projecto manteve-se e no dia 11 de Março foi distribuído um novo número inaugural deste suplemento, o primeiro de dez edições, publicadas sob a direcção de J. Oliveira Santos.
Também em 1939, é criado um novo suplemento, designado por “Tribuna Literária”. Teve como seus mentores Belarmino Pedro e Manuel Guimarães. Este suplemento publicou 296 números, que saíram semanalmente com o Jornal, ao longo de 11 anos, entre 10 de Abril de 1940 e 24 de Novembro de 1951.
Belarmino Pedro (1909-1990) nasceu em Almalaguês (Coimbra) e morreu em Tavarede (Figueira da Foz). Fez a sua formação escolar na Figueira da Foz e foi funcionário da Câmara Municipal desta cidade. Quando aposentado, dedicou-se de alma e coração ao jornalismo, tendo colaborado para além do jornal “O Figueirense”, em inúmeros periódicos do país, dos quais se podem citar como mais conhecidos os jornais “A Voz”, o “Diário da Manhã”, o “Jornal de Notícias”, o “Diário de Lisboa”, o “Comércio do Porto”, “O Século”, o “Diário de Coimbra”, o “Diário de Notícias”, “O Dia” e a revista “Renascença”. Foi redactor do Jornal “O Dever”, ainda hoje em publicação, propriedade da Paróquia de São Julião da Figueira da Foz. Viria a ser, em 1953, um dos fundadores do Jornal “A Voz da Figueira”, ainda existente, permanecendo aí como director a partir de Julho de 1969, até à sua morte. Belarmino Pedro, foi também escritor, tendo-nos deixado obras de grande valor crítico. Ingressou na Conferência Religiosa de São Vicente de Paulo, na qual foi um dos grandes mentores da construção do “Bairro Padre Américo” da Figueira da Foz, para alojamento de famílias pobres, projecto este que foi concretizado graças ao apoio do Jornal “A Voz da Figueira”, que então dirigia.
Em 1947 foi criada uma separata com o nome de “As Novas Indústrias do Cabo Mondego”, com o intuito de divulgar os recursos industriais existentes na faixa noroeste do concelho da Figueira da Foz, nomeadamente as minas de carvão e as fábricas de cimento e de cal hidráulica, das quais hoje ainda se mantém esta última em funcionamento.
Em 1956, Alberto de Monsaraz publica uma separata de homenagem a Joaquim António Simões (1817-1905). O homenageado, a título de curiosidade, nasceu na Abrunheira (Verride) e veio muito novo para a Figueira da Foz. Herdou uma vasta fortuna de seus pais e foi ao longo da sua vida um excelente investidor, tendo-se estabelecido nesta cidade com armazéns de vinhos, que ocupavam um lugar de destaque no panorama nacional de distribuidores. Ministro do Reino de D. Maria II, foi grande impulsionador da construção do Teatro Circo Saraiva de Carvalho, actual Casino da Figueira, constituindo-se como o principal accionista deste empreendimento cultural e artístico. Foi ainda responsável pela instalação da Linha Ferroviária da Beira Alta e pela construção da velha ponte sobre o Rio Mondego, entre outros equipamentos, na Figueira da Foz, que ainda hoje subsistem. Por curiosidade, pode referir-se ainda que foi graças a familiares de Joaquim António Simões que Ramalho Ortigão começou a frequentar a Figueira da Foz.


*Nota do autor: Todas as referências aos 85 Anos do Jornal “O Figueirense” são relativas a 2004, ano da realização e publicação deste trabalho. Importa referir que o Jornal “O Figueirense” continua a ser editado e publicado todas as semanas, às quartas-feiras. A História recente do jornal trouxe novos elementos a este trabalho que, contudo, não puderam ser ainda actualizados.

[1] Assinado pelo Sr. Eng. José Coelho Jordão, ilustre presidente da Câmara Municipal deste Concelho, recebemos com data de 11 do corrente (Julho de 1969), o ofício que a seguir transcrevemos:
“Sr. director de O Figueirense
Figueira da Foz
Tenho a honra de levar ao conhecimento de V. ... que esta Câmara, em reunião de 1 do corrente mês, congratulou-se pela elevação como decorreu o «II Encontro da Imprensa Regional das Beiras» e agradece todas as referências amáveis à nossa cidade e sente-se profundamente reconhecida pela defesa que, nas colunas dos jornais das Beiras, frequentemente se fez dos legítimos interesses da Figueira.
Levo ainda ao conhecimento de V. ... que, na mesma reunião, foi deliberado dar o nome de Rua de «O Figueirense” à actual Rua do Curro e atribuir ao Semanário a Medalha da Mérito de Ouro.
Apresento a V. ... os meus melhores cumprimentos.”
A Bem da Nação
O Presidente da Câmara
José Coelho Jordão (Eng.)

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