quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Oitava humana

Segunda-Feira é Dia Mundial do Homem. Altura para ler um livro[1], que nos devolve a identidade masculina: predisposições internas, padrões inatos, revelados na mitologia. Confira as diferenças arquetípicas[2] e descubra quem é.

Texto Dina Cristo

Zeus é o deus do céu, da vontade, autoridade, poder (considera que este lhe dá o direito a mal tratar), aparência (a imagem) e conveniência (por exemplo, ao nível de bens). Corresponde a Júpiter. Ele constrói o reino, seja a casa, família ou empresa, a que preside, e procria. Actua rapidamente e à distância, com capacidade de decisão; controla e impõe a sua vontade; é um líder natural, ordena com frieza. Forte, impiedoso, arrogante, extrovertido, confiante, ambicioso, vaidoso, positivo, realista e prático, persegue tenazmente o que quer, incluindo as mulheres, com quem é um estratego – não aguarda que ela o ame pelo que é, só quer que a mulher faça o que ele espera e não o incomode; não lhe interessa uma relação igualitária nem discutir sentimentos; para ele, a sexualidade é uma expressão de poder, ele é sexualmente agressivo e emocionalmente distante. Teme ser derrubado. Deve descer da montanha e apaixonar-se, aproximar-se.
Posídon é o deus do mar, da emoção e do instinto. É o mais primitivo de todos. Corresponde a Neptuno. Deseja ser alguém e respeitado. Tem emoções profundas e intensas, expressas imediata, directa e espontaneamente – impõe o seu desejo. Quando o ressentimento, o rancor, a amargura, a frustração, a cólera reprimidas, no fundo do “mar”, vêm ao de cima pode tornar-se violento, reagir desproporcionalmente e ser vingativo. É ávido, imaturo, desordenado, conquistador. É um garanhão que não se relaciona psicologicamente, ele domina as mulheres, viola-as, força-as a ter relações sexuais e considera que o sexo no casamento é um direito. Deve desenvolver a sua capacidade mental e objectiva e aprender a canalizar o seu potencial inato de expressão emocional.
Hades é o deus dos infernos, o reino das almas e do inconsciente. Corresponde a Plutão. É sério, reservado, isolado, introvertido, invisível, calado, sem confiança ou aptidão social e não tem filhos. Refugia-se na sua vida íntima, nas suas percepções subjectivas e vive só no mundo da sombra, subterrâneo, inconsciente, da depressão, morte (perda), fechando-se sobre si mesmo e afastando-se dos outros. Tem falta de experiência e viola porque pensa que a mulher se quer relacionar sexualmente com ele. Quer uma família, ordem e estabilidade, mas é celibatário. Deve desenvolver uma personalidade (uma forma de se apresentar) e sair para o mundo, tornar-se visível e acessível.
Apolo é o deus do sol, arqueiro, legislador (é o pai que estabelece normas) e o filho preferido também. Quer o domínio das técnicas e o reconhecimento, o destaque. Está bem no mundo, é visível, objectivo, moderado, legal, cauteloso, extrovertido, cooperante, intelectual, esforçado, íntegro, lúcido, observador e responsável. Gosta de ordem e de beleza. É emocionalmente distante, exprime os seus sentimentos de forma indirecta. Pode ter falta de paixão; é atraído por uma mulher emotiva, sem espírito prático, que seja independente e competente, e tenta-a controlar; conquista e depois vai-se embora; não se apaixona. Deve aprender a ser humilde, pois tende ao narcisismo, e a viver os sentimentos e as sensações corporais.
Hermes é o deus mensageiro e guia das almas, o comunicador, o malandro e o viajante. Corresponde a Mercúrio. É o mais amigo dos homens. Quer a liberdade de ir e vir, aventuras e variedade. É eloquente, sabe falar e escrever, improvisa. É o “entre”, a ponte, o espaço de transição; assinala fronteiras e atravessa-as facilmente; viaja muito e move-se rapidamente, explora e descobre novos territórios, pessoas, ideias e lugares, está sempre em movimento, pensa e actua rapidamente. É apressado, impulsivo, inconsequente, oportunista, fugidio, inconstante, superficial, camaleão, enganador, imprevisível; rouba, mente, é astuto, burlão, um sociopata encantador, ambicioso, confiante, inovador, à vontade, amistoso, com grande círculo de amigos, vagabundo, vive em ziguezague, testa os limites e começa facilmente. É solteiro, com muitos filhos; salva a criança no adulto também, podendo revelar aos outros o caminho. É infiel, quer sempre novas aventuras; pode seduzir, manipular, mentir para conquistar durante a perseguição; se se sente preso vai-se embora. Precisa de controlar-se, respeitar as pessoas, a autoridade, e esforçar-se por acabar.
Ares é o deus da guerra, o guerreiro, quer conflitos, combates, batalhas, lutas, discórdias, destruição, acção, matança – é o típico agressor familiar. Corresponde a Marte. É violento, irracional, instintivo, impulsivo, sensual, reage espontânea e fisicamente, com o corpo, o qual habita, descontrolando-se; é dançarino, amante, ávido, rude, individuado, temido, vive no presente, sem estratégia, tem muitos filhos ilegítimos e amantes; é empenhado, gosta de camaradagem e procura a ascensão social. É apanhado em adultério, faz amor pelo prazer físico de forma exuberante; pode ser pai sem querer. Deve desenterrar as mágoas e dominar-se.
Hefesto é o deus da forja, artesão, inventor, solitário. Corresponde a Vulcano. É artista, deformado, aleijado, física e psiquicamente, rejeitado e deseja aceitação e beleza. É trabalhador, produtivo, criativo – produz objectos perfeitos, belos e funcionais – concentra-se e dedica-se ao trabalho manual, seja na oficina, no estúdio ou no laboratório. É vulnerável, sente muito profundamente, calado, reservado – não fala sobre os seus sentimentos, evita o diálogo, o namoro, é introvertido e cisma; é teimoso e não se associa. É o bobo, dissonante, o palhaço que faz rir, ansioso, sem confiança. É também o guardião da paz, conciliador, apaziguador. É fiel, monógamo e enganado, tem poucas relações significativas e espaçadas; precisa de uma mulher que o inspire criativamente; apesar dela ser um tesouro pode negligenciá-la e dispensar as relações sexuais; não tem filhos. Deve fazer uma catarse emocional e encontrar pais adoptivos que o valorizem.
Dionís(i)o é o deus do vinho e do êxtase, desejando-o; místico, amante, vagabundo. É desmembrado, dualista, em conflito íntimo (da sensualidade ao misticismo), tem humor variável. Fervoroso, exuberante, com instinto muito intenso, consciência corporal, sensual, inconformista, feminino, tem uma contracultura, sonhador, apaixonado. Identifica-se com Hades. Gosta da beleza e das mulheres. Está cercado delas e procura o êxtase sexual – a sexualidade é uma preocupação fundamental; é o playboy sensual e não assume as responsabilidades tradicionais. Deve aceitar-se.
Aterragem divina

Segundo Jean Shinoda Bolen
, a memória genética do nosso património psicológico está a mudar: dos deuses-Céu - poder-medo-coação-competição - para os deuses-Terra - amor-coragem-liberdade-solidariedade.
A sociedade e cultura patriarcal (deuses-Céu) – extrovertida (orientada para o mundo exterior, para a objectividade e informação) e competitiva - estão baseadas no poder, no medo; valorizam o controlo, o pensamento racional, a distância e frieza emocional; oprimem o corpo, o instinto e desvalorizam o manual. Os pais reinam de cima e à distância, consomem a autonomia e o crescimento dos filhos (temem que os possam derrubar), tratam-nos mal e dominam as mulheres; têm poucas oportunidades para criarem vínculos afectivos – são emocionalmente ausentes e fisicamente pouco presentes.
Pelo contrário, a sociedade e cultura matriarcal (deuses-Terra) – introvertidas (concentram-se nas reacções internas, na subjectividade e nos sentimentos) e solidárias - baseiam-se no amor, na liberdade. Os pais amam profundamente os descendentes, interagem diariamente com a família, que é o seu principal foco, são a segurança e permitem o crescimento e independência dos filhos. A mulher, fortalecida, verbaliza os seus valores e percepções, é uma mãe sábia e forte, capaz de intervir para proteger os filhos. Este modelo civilizacional privilegia as pessoas e as relações.
Métis, a deusa da sabedoria, Sofia, a Mãe Natureza, é recuperada e com ela emerge a ecologia, a consciência global, a vinculação aos outros, à terra, à vida, à celebração dos ciclos e estações. É o ressurgimento de um progenitor, a mãe, a deusa, que havia sido engolida por Zeus e esquecida, e que permitirá que o filho de ambos nasça e suplante o pai. Esta mudança de modelo civilizacional pode ser representada no Deus ciumento e vingativo do Velho Testamento para o Deus afectuoso e clemente do Novo.

[1] BOLEN, Jean Shinoda - Os deuses em cada homem, Planeta Editora, 2000.[2] Quando os arquétipos se tornam carregados de emoção são chamados de “complexos”.

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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A Ciência da Polis VIII


Nesta oitava parte desenvolvemos a importância da verdadeira educação, em detrimento do mero adestramento.

Texto José Luís Maio fotografia Dina Cristo


“…A educação não pode continuar a ser entendida em termos de uma correria desenfreada para alcançar um emprego, como se (usando propositadamente uma rudeza de expressão) os seres humanos fossem animais de carga que se devam atrelar a uma carroça, ainda que dourada, tão logo seja possível. Deve, sim, começar a ser encarada como um processo de emersão de valores sólidos e de capacidades intelectuais e afectivas que permitam a cada indivíduo tornar-se mestre (ou seja, conquistar a capacidade de lidar correctamente) face às diferentes circunstâncias que a vida lhe irá apresentando… A máxima pluralidade de informação possível – sobre os mais diversos âmbitos da actividade e do conhecimento humanos e não, apenas, sobre o âmbito restrito de uma profissão, quase sempre aleatória ou superficialmente escolhida – deve ser propiciada a todos; pelo contrário, o mínimo de imposição deve ser praticado. Não tendes o direito de impor uma educação de escravos. Tendes, sim, o dever de assegurar uma educação de liberdade – de liberdade interior, de liberdade de autoconstrução, de liberdade de autodescoberta… A Nova Educação constituirá, em grande medida, o processo pelo qual se concede a cada indivíduo a oportunidade de descobrir por si mesmo – e, assim, enraizar profundamente – os princípios éticos que haverão de nortear a sua conduta social. Agindo de acordo com a sua própria convicção, com o seu livre auto-condicionamento, todo o indivíduo tenderá a encontrar a alegria ao contribuir para o bem comum…”(1).
Já foi dito algo acerca das naturezas essenciais dos animais e dos homens. O que é partilhado pelos elementos de ambos os reinos da natureza é “a mesma natureza física fundamental, bem como muitos instintos (que formam o seu subconsciente)”. Porém, o ser humano é “auto-consciente, o que decorre de ter o Princípio Mental activado (embora muito pouco, nas primeiras etapas) e, assim, um corpo mental definidamente constituído e formalmente organizado, o que lhe permite ter uma ligação individualizada entre o Espírito (que é pura unidade) e as formas materiais (diferenciadas e separadas) e, assim ter uma Alma individual, enquanto que a evolução animal se processa através das chamadas Almas-Grupo (ou melhor, das Almas colectivas, visto que se trata de uma consciência colectiva e não de uma consciência grupal, no seu sentido superior, própria da evolução super-humana”(2).
Para um melhor esclarecimento acerca do conceito “Alma-Grupo”, acrescenta-se, da mesma obra: “A Alma-Grupo de cada espécie animal preside aos seus mecanismos e determina a actuação do instinto. Como que pairando sobre cada unidade de vida, a Alma Grupal (ou Alma Colectiva) providencia os impulsos migratórios, os mecanismos de defesa, a aprendizagem da adaptação ao meio natural, a colaboração organicista (por exemplo, nas colmeias das abelhas), etc… Imagine-se os dedos de uma mão que, em simultâneo, estivessem enfiados numa placa de cartão perfurado (que impede de ver a mão como um todo). Aparentemente, no lado mais externo, eles não teriam nenhuma especial relação entre si; apesar de pertencentes a uma mesma espécie, aparentariam diferenças e seriam absolutamente independentes. Na realidade, porém, a sua verdadeira raiz e impulsos para a manifestação subjazeriam, ocultamente, do outro lado do cartão. De qualquer modo, nesse mundo aparente e dissociado da raiz que os une, cada informação é processada e transmitida para o outro lado – uma picada, por exemplo, ou qualquer outra sensação táctil. E a todo o momento o conjunto beneficia-se das informações colectadas e reencaminhadas para cada unidade. Assim acontece com a Alma Colectiva animal. A Alma Grupal pode ser comparada a uma enorme tina de água incolor (no Mundo Anímico), de que se retiram pequenas porções individuais que vêm procurar experiência no mundo externo (os animais englobados na Alma-Grupo); quando cada porção regressa ao manancial colectivo, vai-lhe introduzindo cor e substância, para ele contribuindo com a sua própria tonalidade e com os seus próprios ingredientes, conseguidos através da experiência particularizada. Da progressão dessas simbioses e combinações vão sempre surgindo (vindo à encarnação) seres detentores do produto das novas ou últimas experiências adquiridas”.
A entidade humana – por possuir “auto-consciência” e “individualidade” (única e intransmissível em relação aos demais seres humanos), isto é, por pertencer de facto ao primeiro reino da natureza em que a “unidade mental” que o completa adquire foros de “cidadania” real e plena (e só assim é que pode ser responsabilizado pelos seus próprios actos, sentimentos e pensamentos, o que não sucede nos animais) – distingue-se do ente animal e não pode ser sujeita ao adestramento que os humanos realizam neste. No animal, através da domesticação, são fortemente estimulados o veículo “kámico” (ou emocional) – por natureza inconsciente das consequências da sua acção no mundo que o envolve – e a rudimentar inteligência, subjacente a todas as manifestações de vida sub-humanas.
O total condicionamento [externo (e não auto-condicionamento, que é interno e uma expressão da vontade superior, espiritual, do ser humano – atman)] a que submetemos os animais só é “bem sucedido” porque, nestes, a inteligência (capacidade de resposta) é exclusivamente passiva e reactiva, e não activa e criadora, atributos da alma espiritual existente no indivíduo. Este, ao despertar (na personalidade) a sua consciência para patamares mais elevados – os níveis espirituais (“buddhi-manásicos”, próprios do eu superior, ou da mente superior e intuição) –, por meio da educação, da instrução e por um esforço de aprimoramento ético/moral, ficará capacitado a levar a cabo um conjunto de actividades e realizações geradoras não só de bem-estar e saúde pessoais, mas principalmente nos mundos físico, psíquico, mental e espiritual dos seres que delas beneficiem. As actividades e realizações de especial e elevada qualidade, inquestionável nobreza e vastíssimo alcance serão “imortalizadas”, ou seja, apesar de serem geradas na (e pela) personalidade (condicionalmente mortal) dos indivíduos, cobrirão o abismo que separa os níveis mentais inferiores (inerentes ao quaternário inferior) dos superiores e passarão a integrar a sua tríade espiritual (imortal), constituindo aquilo que na terminologia religiosa é conhecido por “tesouros que acumulamos no céu” (3).
Mais uma vez verificamos aqui como uma teoria científica (neste caso psicológica) é transformada em norma religiosa. De facto, “Não dissocieis a Sabedoria do Amor nem a Religião da Filosofia. A Religião deverá ser a Filosofia do Amor; a Filosofia deverá ser a Religião da Sabedoria. Unicamente assim podereis aceder à Sabedoria Divina. Se não amardes o Universo, jamais o havereis de compreender, jamais vos havereis de tornar sábios de verdade – da mesma forma como, se não amardes o vosso semelhante, nunca o podereis entender e ajudar, por mais teorias psicológicas que conheçais. Só pelo Amor a Razão de Ser que está dentro de vós pode compreender a Razão de Ser de todas as coisas… No entanto, se não dirigirdes sabiamente o amor, ele acabará por degenerar num sentimento caótico, inútil e cego, nada mais gerando senão ansiedade e bloqueios. Por isso, não estagneis num amor fraco e superficial que, tantas vezes, serve de desculpa e de pretexto para quem se recusa a fazer o esforço de aprender mais…” (4).
Para a egrégia e profunda sabedoria hindu, “velha” de muitas centenas de milhar de anos e berço de posteriores civilizações ocidentais, desde a persa à grega, uma das cinco causas da miséria humana é a ignorância – avidya em sânscrito [a (não, ausência de) + vidya (sabedoria)] –, não uma ignorância qualquer, mas a ignorância fundamental, isto é, a ignorância acerca da verdadeira natureza de todos os seres humanos.
A resposta da esmagadora maioria das nossas crianças e jovens às imposições brutais do caos social e da ignorância fundamental e congénita desta civilização – seja o desrespeito e desprezo aos pais nos lares, seja a rejeição e insurreição contra o sistema escolar – demonstra inquestionavelmente que a política de educação vigente é obsoleta e incapaz de motivar e entusiasmar, quer educadores, quer educandos, o que acaba por os tornar rebeldes, agressivos, anti-sociáveis, marginais e dependentes de todo o género de vícios.
Enquanto, por um lado, os pais não têm outra solução que não a de abandonar os seus filhos prematuramente – antes dos três anos – em instituições/depósitos apenas excepcionalmente competentes, para poder “ganhar a vida” – ou antes, na maioria dos casos, para “sobreviver” fisicamente e sem acesso aos bens realmente espirituais, os “bens divinos” de Platão –, por outro, o “habitat” escolar conserva os mesmos equipamentos cinzentos, desinteressantes e medievais, comparativamente à inebriante e tentadora tecnologia lúdica exterior das grandes catedrais de consumo, mantém os estudantes simbólica e literalmente imobilizados nos coletes de força que são os programas curriculares impostos de “cima”. É caso para perguntarmos: onde, quando e como é que as crianças podem aprender a utilizar sua própria criatividade, a desenvolver a sua individualidade, única no universo, em vez de jazer um autómato programado pela tirania alheia (por muita simpatia, revestida de “caridade esmoler”, que aparente)?
Como dizia o eminente investigador João dos Santos, a criança, no seu sentido etimológico, é alguém que não só é criado (bem-criado ou malcriado, bem-educado ou mal-educado), mas principalmente alguém “capaz de criar”.

A ciência da educação
A suprema importância da educação na vida de qualquer país tem de estar na proporcionalidade directa da envergadura ética e profissional daqueles que devem levá-la a cabo, sejam os ideólogos (legisladores e governantes), sejam os executores (pais e professores).
Contrariamente à usualmente conhecida por Sabedoria das Idades, Eterna Sabedoria, ou Ciência Espiritual, que aguarda paciente e misericordiosamente o momento em que, assim o queiramos, galvanizará todo o formidável potencial que caracteriza o Ser Humano no seu mais excelso esplendor e na sua mais magnífica estatura, no seio sabiamente hierarquizado do Todo Universal – precisamente no centro da Cruz Cósmica da plenitude da Vida, entre os reinos sub-humanos (adormecidos para a Unidade Divina) e supra-humanos (despertos e activos nessa Unidade) –, impera ainda no mundo e nas nossas vidas o pretenso, vulgar, limitado e constrangedor saber humano (a “sabença” no dizer de António Sérgio), cujos frágeis e cada vez mais obsoletos pilares teimam em perpetuar a fraqueza (física), o medo (emocional) e a inépcia (mental) na comunidade das crianças, adolescentes, jovens, pais, educadores, professores e cidadãos em geral.
É óbvio que a repressão da energia de todo o potencial que caracteriza os seres humanos – desde o nível físico até ao nível espiritual – só poderá dar maus resultados, pois é impossível reprimir seja quem for indefinida e impunemente, até ao momento da sua morte, como nos demonstra uma vulgar panela cheia de água hermeticamente fechada, ao lume.
Aprendamos novamente com Platão: “…São leis justas porquanto produzem o bem-estar daqueles que as utilizam proporcionando todas as coisas que são boas. Ora, os bens são de duas espécies, a saber, humanos e divinos; os bens humanos dependem dos divinos e aquele que recebe o maior bem adquire igualmente o menor, caso contrário é privado de ambos”.
“Entre os bens menores a saúde vem em primeiro lugar, a beleza em segundo, o vigor em terceiro, necessário à corrida e todos os demais exercícios corporais; segue-se o quarto bem, a riqueza, não a riqueza cega, mas a de visão aguda, que tem a sabedoria por companheira”.
“A sabedoria, a propósito, ocupa o primeiro lugar entre os bens que são divinos, vindo a racional moderação da alma [disposição moderadora da alma associada à inteligência; numa palavra, a temperança” (sobriedade)] “em segundo lugar; da união destas duas com a coragem nasce a justiça, ou seja, o terceiro bem divino, seguido pelo quarto, que é a coragem”.
De posse do conhecimento do que é nefasto e benéfico para as crianças, importa agora atentar para o facto de que se, conforme nos ensina Platão, “devido à força do hábito é na infância que todo o carácter é mais efectivamente determinado”, é mister estabelecer-se uma sinopse de prioridades a instituir, de modo a que os “bens” gerais – “humanos e divinos” – floresçam naturalmente em todas as crianças, passando de “potenciais” (possíveis e invisíveis) a “actuais” (efectivos e visíveis).
Também na ciência da educação é a lei hermética e universal da analogia ou da correspondência tão bem aplicada, como, aliás, não podia deixar de ser, pois, a não ser assim, isto é, se não incluísse toda a realidade, tal lei jamais poderia ser tida por “universal”.
Basta um pouco de atenção (ou, mais exactamente, de interiorização ou aprofundamento do pensamento – coisa a que, infelizmente, não estamos muito habituados, dado o ritmo frenético de vida quotidiana que decidimos adoptar, e não só…) e, de acordo com essa lei, transpormos os fenómenos básicos e elementares de manifestações da vida – neste caso, o da gravidez da futura mãe, quando o nascituro carregado de vitalidade se agita e movimenta no ventre, e o início da existência fisicamente autónoma dos recém-nascidos, quando chora poderosamente – para a instituição generalizada de um conjunto de normas educativas correctas, neste caso referentes à ginástica e dança para o corpo e à música (que inclui o canto) para a alma.
Para tal, recorramos novamente a Platão e às suas Leis: “ –…A nutrição correcta tem de ser decididamente capaz de tornar tanto corpos quanto almas em todos os aspectos os mais belos e melhores possíveis… E suponho que, tomando o mais elementar dos aspectos, os corpos mais belos devem, já da mais tenra infância, desenvolver-se com a maior normalidade possível… Acontece observarmos que, no que diz respeito a qualquer ser vivo, o primeiro impulso representa de muito o crescimento mais intenso e mais longo, a ponto de muitas pessoas afirmarem convictamente que, quanto à altura, os indivíduos crescem mais nos primeiros cinco anos de vida do que nos vinte seguintes. Mas nós sabemos que, quando o crescimento ocorre rapidamente desacompanhado de muito exercício adequado, produz no corpo males incontáveis. E que corpos que recebem o máximo de alimento requerem o máximo de exercício…
– O que queres dizer? Será que pretendemos prescrever o máximo de exercício para os recém-nascidos e as criancinhas?
– Não. Na verdade, bem antes disso. Nós prescrevê-lo-emos para aqueles que são nutridos nos corpos das suas mães… Uma tal prática é mais fácil de ser compreendida no meu Estado, porque lá há pessoas que praticam os jogos até ao excesso. Ali encontramos não apenas meninos mas por vezes mesmo homens velhos criando pequenas aves… Mas essas pessoas estão longe de crer que o adestramento que lhes proporcionam excitando a sua pugnacidade produz exercício suficiente; além disso, cada uma delas apanha a sua ave e com ela no punho, se for menor, ou no braço, se for maior, caminha muitos estádios a fim de melhorar a condição não dos seus próprios corpos, mas sim a desses animais. Assim se mostra claramente a qualquer observador que todos os corpos são beneficiados, como se por um tónico, quando são deslocados mediante qualquer tipo de movimento, seja quando são movidos por acção própria – como num balanço ou num barco a remo –, seja quando são transportados no dorso de um cavalo ou por quaisquer outros corpos de movimento célere; e também mostra que é esta a razão por que os corpos podem assimilar eficientemente os seus suprimentos alimentares e bebida e proporcionar-nos saúde, beleza e vigor… Tanto para o corpo quanto para as almas dos bebés um processo de nutrição infantil e movimentação, que seja o mais ininterrupto possível…, é sempre salutar e especialmente no caso dos bebés mais novos, que deveriam, se possível, ser balançados como se estivessem num navio; com os recém-nascidos dever-se-ia reproduzir esta condição com a máxima proximidade da condição original. Uma evidência suplementar a favor disto pode ser constatada no facto desse procedimento ser adoptado e a sua utilidade ser reconhecida tanto por quem alimenta os bebés, quanto por quem administra medicamentos. Assim, quando as mães têm filhos que padecem de insónia e desejam acalmá-los para que adormeçam, o tratamento que lhes dão não é imobilizá-los mas sim movê-los, pois embalam-nos nos seus braços constantemente; e em lugar de silêncio fazem uso de uma espécie de cantarolar e assim literalmente fascinam os seus bebés…, por meio do emprego do movimento combinado da dança e da canção como medicamento…”. Tal doença é uma forma de “medo e os medos devem-se a uma condição precária da alma. Assim, sempre que se aplica um sacudir externo a males desse tipo, este movimento externo aplicado domina o movimento (a perturbação) interno de medo e, ao dominá-lo produz uma visível tranquilidade na alma…”.

(1) In As Novas Escrituras, Vol. IV, A Educação, do Centro Lusitano de Unificação Cultural (CLUC), 1996. (2) In Luzes do Oculto, do CLUC, 1998. (3) Evangelho de Mateus, XIII. (4) In As Novas Escrituras, Vol. IV, A Filosofia do Amor, do CLUC, 1996.

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Economia ou humanidade?



Quem recusa enriquecer uma comunidade com a sua específica maneira de ser, de estar ou de fazer? Globalização: uns estão a favor, outros nem tanto. Vamos espreitar um pouco o Fórum Mundial Social a decorrer neste planeta. Sábado é Dia de Acção Global, também em Portugal.

Texto Dina Cristo fotografia Victor Hugo Cristo

Na mesma altura em que na Suiça se reúne o Fórum Económico Mundial (FEM) por todo o mundo se comemora a oitava edição do Fórum Social Mundial (FSM). De um lado os países do Norte, materialmente mais ricos, a economia, o mercado, os lucros, do outro, os países do Sul, materialmente mais pobres, a sociedade civil, a ética, a humanidade. Será que podemos dividir, com tanta simplicidade, os que estão a favor e os que estão contra a globalização?
A "aldeia global" é um processo de unificação, integração, livre e voluntário, com vista à construção de um mundo a várias vozes, rostos e cores. Um só globo, com toda a diversidade, natural, humana, cultural, política, religiosa, social, que decorre da elevação da consciência humana. Na verdade, já estamos a ser "processados" e é natural, como escreve José Manuel Anacleto, que até mesmo os manifestantes anti-globalização ouçam música inglesa, vejam filmes americanos, telenovelas brasileiras, utilizem aparelhagens japonesas, calcem sapatos italianos, usem perfumes franceses, conduzam carros alemães, entrancem os cabelos de forma africana, se colorem com roupas orientais.
A globalização nada mais é do que a pertença a um todo maior, como antes representava a Nação em relação aos conflitos regionais. A oposição a ela é, na verdade, mais uma resistência à integração forçada, imposta - e que elimina identidades, oblitera património cultural, história, artes, letras, tradições e imaginários tradicionais - do que à pureza da sua formulação teórica. Afinal, quem não quer pertencer a um colectivo maior, preservando a sua peculiaridade?
FSM
Nasceu há sete anos, no Brasil. Começou por juntar 20 mil pessoas à volta do lema “Um outro mundo é possível”. Pretendeu ser uma alternativa, em alguns casos mesmo uma oposição, ao Fórum Económico Mundial, que ocorre no primeiro mês de cada ano, em Davos, na Suiça. Ao contrário deste, é organizado pelas ONG e movimentos sociais.
Depois dos primeiros três anos (de 2001 a 2003) sedeado em Porto Alegre, realizou-se em 2004 na Índia, em 2006 teve dois centros, um em África (Mali) e outro na América Latina (Venezuela) e em 2007 voltou ao continente africano, mais propriamente ao Quénia. O próximo encontro mundial de povos será daqui a um ano, também no Brasil.
O quarto realizado no Brasil foi em 2005, quando foi subscrito o Consenso de Porto Alegre, com doze propostas (assinado entre outros pelos portugueses José Saramago e Boaventura de Sousa Santos) entre as quais a promoção da economia solidária e da autonomia dos “media” alternativos. Nesse ano, o Fórum Social Mundial reuniu mais de 150 mil participantes, entre os quais cerca de 2500 relacionados com a economia solidária e quase 2800 voluntários; houve cerca de uma centena de espectáculos, filmes e exposições.
Dia global
A proposta deste ano é de uma Semana - de Mobilização Global - com a participação de múltiplos agentes sociais cuja acção culminará este Sábado, num Dia de Acção Global. O objectivo, a essência do FSM, é celebrar a diversidade e procurar alternativas sociais para os problemas do mundo.
Os eventos serão acompanhados numa comunhão de esforços mediáticos da imprensa alternativa através da Ciranda Internacional da Informação Independente, organismo criado no primeiro FSM, em 2001, cujo objectivo é compartilhar informação multimédia, através de plataformas livres que permitam uma comunicação horizontal.
Fruto do II FSM, o Observatório Global de “Media” (criado em Porto Alegre e formalizado um ano depois em França), pela mão do jornal “Le Monde Diplomatique” e da Agência Internacional de Imprensa, IPS, tem como finalidade a constituição de um quinto poder e a promoção do direito de qualquer cidadão deste mundo a ser bem informado. Tenta reunir jornalistas, consumidores e académicos a fim de denunciar o poder dos grandes meios de informação e identificar incumprimentos em relação à imparcialidade e ao rigor.

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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Vida mutante



Para além de ir ou vir de férias, como a época que atravessamos, das mudanças profundas, ao nível climático, e superficiais, ao nível do penteado - expressão dessa força de vontade – há várias outras que abordamos a seguir.

Texto e fotografia Dina Cristo

Uns temem-na, outros desejam-na. Os pessimistas porque se fixam nos perigos, os optimistas porque acreditam nos benefícios. Como contou Spencer Johnson, no seu livro, os “pigarras” agarram-se ao medo, os “gaguinhos” à esperança.

Na vida, há os que tentam resistir à mudança e os que a tentam provocar, quer do ponto de vista individual quer colectivo. Os conservadores bloqueiam-na, os activistas incitam-na. Uns a favor da estabilidade, outros do dinamismo.

A mudança faz parte da vida. Tudo o que é vivo se movimenta, balança entre um pólo e o seu contrário. Uma acção que ou se faz em equilíbrio, moderadamente, quando se aceita a alternância, tão naturalmente como o dia e a noite, ou, sendo evitada, ocorrerá de forma abrupta, dada a necessidade de compensação. Sempre que se pende para um lado, mais cedo ou mais tarde, irá tender-se para outro; e não é pouco comum transformar-se mesmo no seu oposto, afinal duas faces da mesma moeda.
Tudo muda continuamente. A única constante na vida (relativa) é precisamente a mudança e a melhor forma de a enfrentar é preparar-se para ela, como se conclui do conto de “Quem mudou o meu queijo?”, e aceitá-la, sem a evitar ou antecipar. Os próprios padrões humanos (masculinos e femininos) também se vão alterando ao longo da vida, como explicou Jean Shinoda Bolen.
Sem obstrução, esta força limpará tudo o que já não serve e é, portanto, inútil à evolução pessoal e colectiva, abrindo espaço para o novo, a inovação e a criatividade. Do ponto de vista positivo pode ser experienciada, assim, com(o) entusiasmo, liberdade e alegria. Pelo contrário, se a ênfase é colocada no que se perde, na inércia, na resistência, no apego ao velho traz consigo sofrimento e, depois, doença.

Em termos verbais implica uma doação (mudar) e enquanto processo uma oscilação (mudança). Em ambos os casos, do ponto de vista numerológicos, representa o 21: o saber viver, o melhor possível, com o que se tem disponível, conforme a atitude de fluidez ou não o fazê-lo numa postura de resistência(1).

As diferentes perspectivas podem constatar-se desde quem prefere (in)conscientemente morrer a mudar às que mantêm, dentro do possível, um estilo de vida nómada, como os ciganos. Também ao nível sanguíneo, grupos como o tipo O têm maior facilidade de adaptação. Em termos numerológicos, o mesmo se pode dizer dos "nove", por conterem características de todos os outros números, e os que se encontram num ciclo "cinco", um dos mais propícios a mudanças relevantes.

A vida é dinamismo constante entre forças que se atraem e se repelam, entre fluxos e refluxos, inspirações e expirações. Desse balancear, o velho é “convidado” a sair para que o novo possa entrar. Em cada segundo. A toda a hora. É esta mudança contínua que permite a preservação do sistema, mais tarde visível em destruição (fim de ciclo), que dará lugar à (re)novação e à (re)recriação (em nova etapa).

Apesar de omnipresente, e fundamental nas passagens das diferentes fases da vida, do nascimento à morte, hoje quase sem rituais, este processo, que também é de desapego em relação ao passado, por vezes é difícil, ou porque foi bom – e se deseja reter – ou porque foi mau – e se culpa ou se sente culpado. Será mais fácil se houver não só preparação mas também precaução, para que não se elimine ou prescinda de tudo só porque é passado, como acontece nas revoluções, e se for enfrentado conscientemente e por vontade da própria pessoa, sem imposição, pressão ou manipulação exterior.

A mudança foi cantada por José Mário Branco e, mais recentemente, pelos “Humanos”. É hoje foco e nome de “medium”. Foi reflectida por autores como Gandhi – sê a mudança que queres ver no mundo -, Heráclito - ninguém se banha duas vezes na água do mesmo rio – ou, por exemplo, Lavoisier, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Em Portugal, ficou célebre o manifesto anti-Dantas de Almada Negreiros.

O processo de mudança pode ser despoletado não só pela perda, ao nível da saúde, do trabalho, da família, por exemplo (caso em que a terapia floral aconselha o remédio Walnut), mas também pela insatisfação ou pelo erro. Nesta ocasião, é preciso tempo para reflectir e corrigir, alterar a direcção e, como nas curvas da vida, mesmo as físicas (umas mais apertadas, outras mais inclinadas), a visibilidade diminui. Aumenta o desconhecido e, por consequência, o medo e a angústia.

É preciso, pois, uma certa dose de coragem e confiança para o desafio que constitui enfrentar o incógnito, o diferente. Contudo, o risco está em não mudar, pois tal implica estagnar e, na prática, andar para trás. Como disse Omraam Aivanhov, “aqueles que se deixam ir atrás da facilidade, da preguiça, da estagnação, aproximam-se da vida instintiva, vegetativa, mineral, e petrificam-se”(2).

Como diz o provérbio português, “parar é morrer”, mas também “quem está mal, muda-se”. Se por um lado há tendência, pela lei da inércia, a prosseguir (n)o estado em que se está, para a contração, por outro também há um impulso evolutivo, para a expansão, e sem se descartar da pele velha, como acontece com os animais na muda, não haveria lugar à regeneração, ao renascimento.

Tolstoi chamava a atenção para a importância da mudança interior: “Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si próprio”, afirmou. Ora esta transformação pessoal é condição para que a mudança no mundo exterior aconteça. Foi a conclusão no movimento hippie, nos anos 60, e é hoje explicada pelas novas teorias. Trata-se de uma decisão individual, confirmada a cada instante, que começa, antes de mais no pensamento.

Para que o comportamento se altere, de forma que não seja meramente superficial, artificial, momentânea e inconsciente, mas antes constituia uma atitude sustentável, mais profunda e construtiva é necessário começar pela transmutação mental própria, em detrimento da expectativa em relação às modificações físicas e exteriores. Como escreveu Johannes F. Hasenack, “a soma de muitas iniciativas, a partir de baixo, e de novas atitudes a partir de dentro, bem pode desencadear um processo de mudança no todo ao qual pertencemos”.

Novo paradigma

Tendo em conta o papel vital da informação no sentido de dar forma, estrutura, como explicou Lucienne Cornu, e a existência de novos dados processados e acessíveis através da internet é, hoje, mais facilmente possível e provável, como defende Dieter Duhm, a alteração da organização nos organismos individuais e colectivos. Uma transformação global, impulsionada também ao nível cósmico, com a entrada na Nova Era de Aquário, com o trânsito de Plutão até 2023 e a própria alteração do campo magnético da Terra e da actividade solar com consequências ao nível do campo cerebral, genético e de frequência humano.

Esta elevação de consciência, do ponto de vista mitológico traduz-se na passagem dos deuses-céu para os deuses-terra, como explicou Jean Shinoda Bolen: de um contexto sócio-cultural patriarcal padronizado pelo medo, poder, opressão, domínio, objectividade e competitividade, modelo representado no Velho Testamento pelo Deus ciumento e vingativo, para outro matriarcal, baseado no amor, liberdade, subjectividade e solidariedade, representado no Novo Testamento pelo Deus afectuoso e clemente.

Para a autora americana, é o ressurgimento de Métis - a deusa da sabedoria, Sofia, a Mãe Natureza, que havia sido engolida por Zeus e esquecida - e com ela a emergência da ecologia, a vinculação entre e a todos os seres, desde o próprio à Terra. Sabina Lichtenfelds chama, e põe em prática em Portugal, esta Era da Deusa, da Graça, onde o poder-saber feminino é expresso, fortalecido e correspondido. Um retorno que Maria Flávia já o havia antecipado também.

Entretanto, pelo mundo prepara-se, cada vez mais ampla e intensamente, a transição para o novo modelo de tendência mais local, descentralizada, comunitária, simples e humana. Carlos Cardoso Avelino já o escreveu há mais de um quarto de século, mas, desde os últimos anos, com o problema do petróleo, as iniciativas, a nível internacional e mesmo nacional, têm sido mais determinadas, como as experiências de formação de comunidades, ou até hortas comunitárias.

O novo modelo dirige-se, entre outros, para a alegria, o amor, a coragem, a confiança, a comunhão, a compaixão, a cooperação, a cura, e também a ética, a lentidão, a memória, a paz, a protecção, a sensibilidade, a união. Tudo parte de um novo pensamento criativo de abundância, com repercussões nas mais diversas áreas, desde as ciências socias à economia. Neste campo desenvolvem-se conceitos como a Economia baseada em Recursos, Economia da Dádiva, Economia Sagrada ou Economia Social e Solidária.

Qualquer crise é uma oportunidade de mudança, de limpeza, de arrumação, de actualização, processando, compreendendo e perdoando o passado – um momento para expressar e ultrapassar tensões, libertando espaço e tempo disponível para viver o presente, aceitando os factos e reconhecendo a realidade do aqui e agora. A actual crise, potenciada pelas condições comunicacionais e sociais presentes, a nível mundial, é uma ocasião favorável a descartar de velhos pensamentos e hábitos, repetitivos e reproduzidos, como o pressuposto da escassez de recursos, em função de uma nova criatividade digna da Humanidade.

Novos começos são propícios em ciclos “um” (e nós estamos precisamente na primeira década do século XXI) mas para tal é preciso, antes, que exista um ciclo destruidor, renovador, alimentado, segundo a tradição religiosa, pelo Espírito Santo, o transformador, capaz de dinamizar mesmo o ponto máximo de estabilidade, a Terra e o corpo físico, correspondente, do ponto de vista cabalístico, à sephiroth Malkuth.

Segundo Stuart Hall, as séries da indústria cultural veiculam a ideia de que a mudança é impossível, de que é inútil desafiar o sistema e o melhor é rir. Mas, hoje, um pouco por todos os cantos do mundo há apelos à mudança. Dentro e fora do sistema, que se distanciou cada vez mais da vida (social), há pessoas e grupos envolvidos na mudança, para além dos que têm estado nas ruas, em diversos movimentos pacíficos. Como referiu Spencer Johnson “(…) quando se muda aquilo em que se acredita, muda-se igualmente a forma de actuar”.

Já a Teoria Social clássica havia notado que se o sistema é a estrutura condicionante, restritiva, ao nível individual, a agency, constitui um espaço de acção de maior liberdade. No caso do autor jamaicano este atenta que as práticas sociais são hoje constantemente reflectidas, examinadas e reformuladas à luz das informações recebidas, com inúmeras possibilidades de mudança de identidades, reforçadas pelo aumento das migrações, da globalização e das indústrias culturais.

Mudar é não só dar, “dançar”, balancear, variar, mas também alquimizar, transmutar – fazer, como diz a sabedoria popular, das tripas coração. É um processo de alternar que inclui a alteração, a transformação, mas compreende, além dela, a renovação, a recriação – uma espécie de reciclagem, numa oitava acima. Mudar implica, pois, não só ser capaz de se adaptar e flexibilizar mas igualmente de evoluir, melhorar, avançar e elevar. Envolve movimento capaz de reequilibrar, reorganizar e reformar qualquer sistema, organismo ou estrutura.

(1) RESINA, Luís – Tarot e numerologia. Pergaminho, 1998, pág.136. (2) AIVANHOV, Omraam – Pensamentos quotidianos, Publicações Maitreya, 2010 (14/2/2010).

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sexta-feira, 20 de junho de 2008

Jornalismo (e) audiovisual V


Revisitamos hoje alguns dos principais "newspaper films" dos anos 60, 70, 80 e 90.

Texto Dina Cristo

The man who shot Liberty Valance” – um dos manifestos mais emotivos sobre a liberdade de imprensa – marca a década de 60. Com uma frase que ficou na história dos filmes de jornalismo (“Liberty Valance taking liberties with the liberty of the press), este wester de John Ford representa uma mensagem de resistência a todas as pressões, medos e acomodações da vida social a que pertence.
O jornalista é quem ousa enfrentar o tão temido Valance, publicando no jornal os assassinatos. Apesar de bebedor incurável, a regra que o orienta é o dever de informar e por ela sofre na pele as consequências: é espancado e vê o seu jornal destruído.
No final, após o assassinato de Liberty, o mito impõe-se sobre a verdade: o homem dado como assassino nada tinha feito além da tentativa; a concretização, essa, pertenceu a Tom. A verdade nunca foi reposta e a mentira sobreviveu; subsistiu a lenda baseada num facto nunca esclarecido.
“Cronaca familiare” dá um retrato incomum do jornalista: um homem pobre, triste, sofredor, mas que resiste à doença e à solidão; a redacção, desarrumada, suja e vazia, é desoladora. De facto – como escreve Cintra Ferreira – poderia falar-se de “radiografia” que revela a “complexidade política e cultural de um espaço de tempo e de um país”: a Itália, no tempo do fascismo. O filme é, aliás, uma adaptação de uma novela “mais ou menos autobiográfica” de Pratolini, onde a imagem do jornalista não vai para além de “uma pessoa que mete o nariz na vida das outras pessoas”.
Em “Schock corridor”, um jornalista enérgico entra num asilo de alienados com a finalidade de descobrir a identificação de um assassino. Acaba por conseguir e até obtém o prémio Pulitzer, como era seu objectivo, mas torna-se efectivamente louco e perde a voz. É a história do tudo por tudo por um furo jornalístico com a finalidade de autopromoção e de aquisição de prestígio, mais do que qualquer intenção eminentemente informativa.
Black like me” é uma variação de “Gentleman`s agreement” mas, neste caso, o objecto de investigação do repórter são os preconceitos raciais em relação aos negros. Disposto a fazer uma investigação profunda, o jornalista altera a pigmentação da pele, através de hormonas, e sai enfrentando todos os insultos, humilhações e desprezo. Desta forma, ele pode transmitir, com alguma fidelidade, o estado das relações entre os negros e os brancos nos Estados Unidos; ele vai relatar acontecimentos que não apenas testemunhou como participou, viveu e sentiu. “(…) Uma aposta num realismo “duro”, tanto mais gritante quanto é filmado a preto e branco (…) numa época em que o movimento dos direitos cívicos encabeçado pelo reverendo Martin Luther King estava a fazer História”
[1].
O fotógrafo de “Blow up” tem como meta atingir a verdade dos factos. Para tal, e de forma a dar um aspecto mais documental às fotos, percorre ruas, cafés, subúrbios e parques. Num destes, fotografa um casal que se beija – uma cena aparentemente anódina, que vem demonstrar-se repleta de violência, opressão e crime. Na ampliação que vai sendo feita, revela-se primeiro a presença de um homem nos arbustos, apontando uma pistola e, mais tarde, um corpo estendido. O que se vê, afinal, nem sempre é o que se passa; para perceber a realidade é necessário decifrá-la.
Anos 70
A sétima década tem como referência “All the president`s men”. Produzido quase em simultaneidade histórica, o filme aposta numa meticulosa reconstituição de factos e cenários como a redacção de “Washington Post”: “(…) resultou de centenas de fotografias (as secretárias dos jornalistas foram fotografas uma a uma), da recolha das papeladas que estavam por cima das mesas, seguida da sua expedição para Hollywood e da sua recolocação no cenário e da compra de todos os livros que estavam nas prateleiras da redacção. Foi tão fiel esta reprodução que quando o verdadeiro Bem Bradlee visitou a “set” foi capaz de saber a hora e o dia em que supostamente se passava a cena que estava a ser rodada: só às 10h30 de Sábado é que a redacção poderia ter aquela gente naqueles lugares (…)”
[2].
Focalizada no modo como foi realizada a investigação do caso Watergate pelos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, a fita trouxe para as redacções inúmeras vocações e transformou-se no filme por excelência do jornalismo de investigação. “(…) a queda de Richard Nixon e a retirada do Vietname reforçavam a ala liberal” no sector cinematográfico norte-americano, possibilitando o surgimento de uma fita como “All the president`s men” onde dois insignificantes jornalistas abalavam as estruturas do “establishment” político”
[3].
A década foi ainda preenchida com um filme italiano e outro alemão que, ao contrário, pintaram de negro a face do jornalista: “Sbatti il mostro in prima pagina” e “Die verlorene ehre der Katharina Blum”.
O filme italiano aborda a forma como um jornal manipula a realidade. “Il Giornale”, de direita, desvia a atenção das questões levantadas com a realização de eleições, explorando de forma sensacionalista um caso de “fait-divers” – um crime sexual. Constroem a história, fabricam os culpados (os comunistas) e Roveda, o jornalista que se recusa a especular, é despedido. No jornal “Die Zeitung”, é tanta a quantidade de notícias falsas publicadas que a visada, numa atitude de desespero, acaba por matar o jornalista.
Em meados da década concretiza-se a terceira versão de “The front page” – uma fita onde se pretende assegurar a exclusividade da reportagem do evadido que escapa à sentença de morte. Nesta película, Hildy Johnson faz uma alusão mordaz ao culto das notícias de sensação e à falta de respeito pela pessoa humana: «Jornalistas? Um bando de malucos, com caspa nos ombros e buracos nas calças, a espreitar por orifícios de fechaduras, a acordar pessoas a meio da noite para lhes perguntar o que pensam de Aimee Simple McPherson, a tirar fotografias de velhinhas que são violadas no parque. E para quê? Para entreterem empregadas de balcão. E, no dia seguinte, alguém enrolar a primeira página em volta de um peixe»
[4].
Un linceul n`a pas de poches” veicula as pressões políticas a que um jornalista, que se bate pela imprensa livre, fica sujeito. Permanentemente em serviço, o profissional resiste a tudo – ofensas corporais, apreensão das edições – menos à morte, única forma encontrada para fazer calar a sua voz.
Em “The parallax view” surge-nos um jornalista a investigar as reais causas do assassínio de um senador que, oficialmente, tinha sido atribuído a um atirador isolado. “A polémica sobre os homicídios dos irmãos Kennedy e de Martin Luther King nos anos 60 influenciava directamente este filme de cariz ‘liberal’
[5].
A trabalhar numa estação em que a banalidade e o vedetismo, que fazem subir as audiências, são o fundamental, a reportagem de uma jornalista sobre um incidente é relegada para segundo plano; é que, como lhe dizem, não está ali como investigadora. Em “The China syndrome”, a televisão é sujeita a pressões e vencida na sua relação com o poder “(…) já que entraves de toda a ordem bloquearam as pesquisas para uma reportagem sobre uma falha no equipamento de uma central nuclear que está a ser encoberta pelas autoridades. Mais tarde, quando o caso está aparentemente adormecido o desastre acontece
[6].
Anos 80
A oitava década, assinalada com a quarta versão do texto original de Hecht e MacArthur, adaptado agora ao contexto televisivo, é marcada por “Absense of malice” – um dos filmes mais críticos sobre os jornalistas.
Numa resposta à exaltação provocada pelo caso Watergate e numa década pouco amável para com os homens da imprensa, nomeadamente a nível judicial, “Absense of malice” desencadeou uma reacção de indignação por parte dos jornalistas perante a imagem que deles o cinema estava a construir.
A jornalista, ao seguir a pista errada (maliciosamente exposta), acaba por caluniar um homem que estava inocente. Ao acreditar nas fontes de informação a que teve acesso, e sem a preocupação de confirmar os dados com a pessoa objecto da investigação, é usada para dar dos factos uma visão distorcida, verdadeiramente manipulada. Por outro lado, a sua ingenuidade, irresponsabilidade e o desrespeito pela ética profissional acabam por originar um suicídio de uma pessoa indirectamente relacionada com o caso relatado. “(…) não parte de qualquer caso verídico (embora escrito por um ex-repórter, Kurt Luedtke), mas expõe uma das realidades mais preocupantes do ofício de jornalista: a difamação de cidadãos, que mesmo involuntária (como é o caso), nunca poderá ser inteiramente corrigida”
[7].
Os jornalistas protestaram dizendo que o filme os descrevia de uma forma grotescamente distorcida; a repórter Lucinda Franks (galardoada com o prémio Pulitzer) assinalou a Howard Good que, tanto quanto sabia, nenhum crítico se queixara pelo facto da recolha da lista no FBI ser irrealista; pelo contrário, muitos repórteres na vida real haviam feito o mesmo
[8].
“Reds” é o retrato do jornalista John Reed – testemunha da Revolução Soviética – e das suas experiências contadas no livro “Dez dias que abalaram o mundo”; o filme, nas palavras de Joaquim Vieira, “(…) é sobretudo um fresco sobre a geração de Reed e as suas expectativas com a “nova aurora” anunciada pelo assalto ao Palácio de Inverno”
[9].
Em “Ploughman`s lunch” é o jornalista que, cansado da monotonia do seu trabalho e céptico quanto à versão institucionalizada sobre a crise do Suez, inicia, em paralelo, uma investigação sobre aquele período. James acaba por descobrir a manipulação desenvolvida pelo poder, alterando por completo a memória dos factos ocorridos em 1956 e tornando nebulosa a visão da sociedade em relação aos tempos actuais. A guerra das Malvinas é o pano de fundo que atrai todos os interesses do jornalista, num filme que inclui imagens da conferência de 1982 do Partido Conservador.
Também britânico, “Defense of the realm”, destaca a influência e a cumplicidade entre o poder e os responsáveis máximos dos jornais, permitindo que os superiores interesses da Nação sejam confundidos com os do partido no poder. As tentativas isoladas para divulgar verdades de interesse público, como a probabilidade de um desastre nuclear, são apagados pelo fogo e os jornalistas assassinados. É o preço que paga quem não se cala, não cede a pressões, chantagens ou ameaças.
Considerado um filme modelo do cinema de jornalistas dos anos 80, “The killing fields” baseia-se nos relatos de um jornalista real: Sidney Schanberg que acompanhou, para o New York Times, a ocupação do Cambodja pelos Khmers vermelhos. A fita mostra como é fundamental, para o desenvolvimento de um trabalho em terras desconhecidas, a existência de um guia, neste caso indígena, fotógrafo e amigo fiel do jornalista. Uma película que “(…) envolve por completo o jornalista nas causas “pós-modernas”; denúncia dos novos totalitarismos, garantia da dignidade pessoal, respeito pelas minorias, defesa dos direitos humanos”
[10] - uma história autêntica, contada em estilo de “cinema-vérité”.
‘Amoral’, ‘mercenário’ e ‘badalhoco’ são os adjectivos que Frederico Lourenço utiliza para caracterizar o jornalista de “Salvador”. Com pouca decência e poucos escrúpulos, a Boyle resta-lhe o seu colega fotógrafo que pelo menos se arrisca, até à morte, por uma boa fotografia. O filme apoia-se directamente na experiência do jornalista norte-americano Richard Boyle durante o período de 1980-81 e veicula uma visão crítica em relação à política americana na América Central.
Em “The mean season”, o jornalista no seu último trabalho ultrapassa a função de relator dos factos e integra-se no desenrolar dos assassinatos. Torna-se, a princípio, o elo de ligação entre o criminoso e o público, terminando por matá-lo, em legítima defesa. Aqui “a imprensa põe a legalidade antes da justiça, e a economia antes da ética”
[11], pelo menos o director, já que Malcolm preocupa-se com a responsabilidade da profissão e procura ser comandado pela ética: não traz a foto da rapariga assassinada para publicar, nem paga para lhe darem informações.
Switching channels”, a mais moderna versão de “The front page”, adapta o contexto inicial (de imprensa) para televisão, introduzindo alguns elementos como a substituição da escrivaninha por uma fotocopiadora. É o cinema a acompanhar as mudanças sociais e, portanto, a crescente importância da TV, transporta com cada vez mais frequência para o grande ecrã. “Linhas trocadas” retrata a televisão como mecânica de constante descentramento da verdade, paisagem povoada por mais ou menos alucinados “talking heads”, onde o que mais conta é tão só a possibilidade de continuar-a-emitir”
O filme traz-nos uma jornalista de televisão, cuja perspicácia torna possível uma entrevista em exclusivo com o condenado. Este, ao explicar os motivos que o levaram a disparar sobre um polícia, faz mudar a opinião pública. Ao apanhar os malfeitores, que pretendiam explorar o caso para fins políticos, a entrevista repõe a justiça.
Em “Under fire” um fotojornalista e uma repórter vão cobrir a guerra da Nicarágua, pensando apenas veicular os factos, sem qualquer interferência. No final, contudo, reconhecem que se envolveram demais, mas sem culpabilidade. Reticente, a princípio, o repórter fotográfico chega mesmo a fotografar Rafael de forma que este, já morto, parece vivo – é a clara tomada de partido.
«Filmado “on location”, o filme tenta uma reconstrução realista das semanas que precederam a vitória dos guerrilheiros, referindo-se explicitamente ao incidente em que o repórter Bill Stewart, da cadeia norte-americana de TV NBC, foi morto a sangue-frio por um soldado da Guarda Nacional (…)”
Em “the thin blue line” é feito, a partir do assassinato de um polícia em Dallas, um verdadeiro cinema de investigação de carácter marcadamente factual. Através da reconstituição do crime, de acordo com as várias perspectivas de testemunhas e protagonistas entrevistados, fica, no final, a ideia de que o condenado, que se reclama inocente, está a dizer a verdade.
“Tinikling” aborda os últimos dias da presidência de Marcos, durante a campanha eleitoral que o opõe a Corazón Aquino. Para cobrir o acontecimento, lá estão dois repórteres fotográficos a presenciar assassinatos, bombas, mortos e feridos – situações face às quais são impotentes, mais não fazendo do que testemunhar e gravar na objectiva, até mesmo por pressão, como acontece no início.
Os anos 90
A personagem do jornalista mantém-se presente na nona e última década do século XX. Só em 1993, por exemplo, a indústria cinematográfica americana apresentou dois filmes: “Hero” e “The public eye”.
Bernzy, o fotógrafo que prometia limitar-se a tirar fotografias ao que observava e não interferir na luta entre “gangsters”, acaba por quebrar ambas as promessas. É um homem da noite, apaixonado pelo seu trabalho e que, para conseguir fotografias com mais impacto, não hesita em “trabalhá-las” um pouco mais, à maneira dos fotógrafos de “La dolce vita”.
Em “The bonfire of vanities” um jornalista em decadência encontra, na cobertura de um homicídio, matéria que o tornará uma verdadeira celebridade. O filme não é suave para com os jornalistas, aqui identificados como jornaleiros, subservientes em relação ao poder, mais dados ao espectáculo do que à honestidade ou à verdade.
Oliver Stone, ao realizar “J.F.K.”, concretiza um filme de tese que vem pôr em causa toda a versão oficial sobre o assassinato de Kennedy e a influenciar a própria realidade já que, posteriormente, se passaram a encontrar disponíveis mais documentos sobre o crime. Coloca-se ao lado de um “The thin blue line” – também ele a questionar frontalmente a sentença final.
Hero” mostra como se fabricam os acontecimentos, a forma como se exploram e a quantidade de mentiras que são divulgadas com a agravante de que quando se descobre a verdade esta é ocultada – tudo fica “off the record”. Uma fita que marca a insensibilidade perante uma tragédia e onde o que interessa é o ângulo, a exclusividade e a espectacularidade das imagens.
“Não se pode acreditar naquilo que se vê na televisão”: eis as palavras-chave a resumirem um filme que é um autêntico cartão vermelho ao jornalismo televisivo. A própria repórter diz, a propósito do suicídio, que ali não se trata de uma história jornalística, mas da vida real.
“Hero” é um dos filmes mais actuais a tratar a problemática da televisão na sua vertente jornalística. No próximo artigo, vamos recuar um pouco, até 1987, e ver como “Broadcast News” abordou algumas das questões mais prementes em televisão, como acontece com a tendência actual para acentuar a importância da forma em detrimento do conteúdo.

[1] ANDRADE, José Navarro – Black like me//1964. [2] Idem – All the president`s man/1976. [3] VIEIRA, Joaquim – Mr. Gutenberg goes to Hollywood, p.22. [4] Idem, p.24. [5] Idem, p.22. [6] Suplemento de “A Capital”, Dez.1987, p.78. [7] VIEIRA, Joaquim – Mr. Gutenberg goes to Hollywood, p.24. [8] GOOD, Howard - Op, Cit, p.83 [9] VIEIRA, Joaquim – Mr. Gutenberg goes to Hollywood, p.22. [10] Idem, ibidem. [11] GOOD, Howard - Op, Cit, p.90. [12] LOPES, João – Demasiado próximo do amor, p.56. [13] IRA, Joaquim – Mr. Gutenberg goes to Hollywood, p.23.

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