quarta-feira, 29 de abril de 2009

Terra de revoluções


Próximo dos 220 anos da Revolução Francesa, revemos dois séculos de espírito revolucionário. Serão as manifestações hoje indícios de uma nova rebelião?


Texto e fotografia Susana Nunes

Ao longo dos últimos meses, a imprensa revelou que Nicolas Sarkozy, o Presidente da República francês, exprimiu por várias vezes o mesmo receio: nem mais nem menos do que ter o “mesmo” destino que o rei destronado pela Revolução Francesa de 1789, Luís XVI. Pelos vistos, Nicolas Sarkozy considera ter vários pontos em comum com um dos poucos monarcas do mundo a ter sido decapitado. Primeiro e antes de mais, a bela esposa, com “Carlita” como uma versão moderna de Maria Antonieta, segundo, os conselheiros incompetentes, “pois nada é bem feito se não for feito por ele mesmo” e, por último, mas bem mais importante, estes franceses ingratos, sempre prontos para a rebelião, completamente ingovernáveis…
Numa altura em que a polícia teme a falta de efectivos para lidar com as várias manifestações que surgem espontaneamente um pouco por todo o lado na cidade de Paris, será que está para breve uma nova Revolução francesa? O espírito “sans-culotte”, literalmente “sem-calções”, (que nada tem de exibicionista: apenas faz referência ao hábito do povo que não usava calções como os nobres da altura), vive este ainda entre os franceses?
Durante muito tempo, mesmo após o Império de Napoleão ter sucedido à República revolucionária, os franceses continuaram a alimentar a chama da Revolução, e não apenas por ocasião da habitual degustação de uma cabeça de novilho no dia do aniversário da decapitação de Luís XVI: de facto, todo o século XIX foi ritmado por espasmos revolucionários, que frequentemente se propagaram por a toda a Europa, em 1830, 1848 e em 1870. Durante esta época, os tumultos que se fizeram sentir na política francesa determinaram uma boa parte do destino dos povos da Europa. Bastava um mínimo sinal de vida por parte do povo francês para que os restantes soberanos do continente tremessem (excepto, talvez, a rainha de Inglaterra). E, no século XX, se foram as guerras que ritmaram a História, a França não deixou de viver ao ritmo das lutas sociais: movimentos insurrectos antes da I Guerra Mundial, Frente Popular nos anos 30, greves gerais do após guerra... até ao Maio de 68.
Sentido revolucionário
Esta não foi apenas mais uma revolta estudantil, mas também, e sobretudo, uma enorme greve geral (três semanas de greve, nove milhões de grevistas) e um movimento internacional que agitou diferentes povos, desde os Estados Unidos às democracias populares. Novamente, a França parecia revelar o caminho… Mas, curiosamente, é em 68 que a França parece perder aquilo que a tornava tão particular: a capacidade de colocar o sistema em questão para fazer nascer uma sociedade e instituições melhores, mais justas. Maio de 68 foi uma revolução que ficou a meio e que deixou profundas sequelas na mentalidade colectiva dos franceses. Os seus intelectuais, que, de Voltaire a Sartre e Camus, estiveram sempre na frente de combate pela defesa da herança das Luzes, perderam quase todos a credibilidade, tendo sido “substituídos” pelos intelectuais liberais. A Revolução francesa tornou-se numa referência cada vez mais desacreditada.[1] Os marxistas vêem nela principalmente o triunfo da burguesia. Os liberais vêem a génese dos totalitarismos do século XX e, hoje em dia, do terrorismo. Alguns radicais vêem a origem de uma sociedade que defende a dominação branca em nome do universal, incapaz de ter em conta a diversidade humana. A República, neste contexto passou a ser considerada como um regime não revolucionário, um emblema da pacificação social, da ordem. Poderá a República ainda ser revolucionária?
Desde a ascensão da República que as querelas sobre o sentido da Revolução se tinham atenuado. Para a cultura republicana, e como afirmava Clemenceau, “a minha revolução é um bloco”. Foi precisamente para se apagar a chama revolucionária, que se atacou a sua fundação, em 1789. Os liberais dos anos 1970, e especialmente um certo François Furet, destruíram este consenso republicano para desacreditar definitivamente o gosto francês pelas revoluções. “Na véspera de uma data potencialmente perigosa, o bicentenário da Revolução, foi publicado um enorme “Dicionário Crítico da Revolução Francesa” (1200 páginas), abordando eventos, actores, instituições e ideias. As suas centenas de entradas, escritas por cerca de 20 contribuidores escolhidos a dedo, proporcionaram uma base de refutação de algumas lendas de esquerda e de equívocos tradicionais do episódio fundador da democracia moderna. O grandioso impacto deste compêndio de conhecimento moderado, criado e executado de forma impressionante, acabou com qualquer perigo de festejos dos neo-jacobinos em 1989. Quando o bicentenário chegou, Furet foi o incontestável mestre intelectual de cerimónias, enquanto a França prestou homenagem aos princípios fundadores – devidamente clarificados – de 1789, e voltou as costas às últimas atrocidades de 1794. Eliminar o passado errado, e recuperar o certo, foi essencial e inevitável para a chegada atrasada do país ao porto seguro da democracia moderna”. Esquecendo que o período do “Terror” salvou a Revolução face aos exércitos dos soberanos europeus e às insurreições camponesas manipuladas pelos monarquistas, e que a Revolução “deu à França um corpo sólido de camponeses proprietários, ainda hoje considerado como um factor essencial de estabilidade política”
[2], a realidade social foi “transfigurada pelas palavras dos ‘representantes do povo’”[3] e o regime tornou-se numa República burguesa respeitante do direito, e, portanto, da propriedade dos ricos, e protegida das “mudanças de humor” do povo por um sistema representativo. A maneira como se chegou a esta fase não é um mistério: o patronato agiu sorrateiramente, a liberalização liquidou os sindicatos, a queda da URSS liquidou os comunistas, a esquerda desapontou no poder, a direita soube aproveitar-se da revolução conservadora liberal e do populismo e a televisão, privatizada, lavou os espíritos e promoveu líderes de opinião e intelectuais medíocres.Debate público
Algo que é realmente característico ao povo francês é a discussão interminável sobre os princípios e os significados de qualquer acção ou acontecimento. Num artigo publicado na revista Multitudes sobre François Furet, Berger e Riot-Sarcey mencionam o facto de o circuito semiótico ser “o mestre absoluto da política”
[4]. A Revolução Francesa não poderia ser um melhor exemplo: “Trata-se de se saber quem representa o povo, a igualdade, ou a nação: é a capacidade de se ocupar esta posição simbólica, e de a conservar, que define a vitória”[5]. Como refere Jacques Guilhaumou, no artigo “La haine de la Révolution française, une forme de haine de la démocratie”, basta uma denunciação de uma revolução individualista e insistir-se no preço desta revolução[6] para que a revolução social passe para segundo plano e o discurso sobre a democracia se inverta[7]. Neste mesmo artigo, Guilhaumou relembra as palavras de Rancière: “o termo democracia, visto pelo lado negativo, torna-se indistinto do de totalitarismo, substitui-o”. Segundo Hobsbawm[8], verificou-se assim uma marginalização da revolução, e, para se recuperar o seu verdadeiro significado, será necessário discuti-la tendo-se em conta o seu contexto histórico e não o dos dias de hoje, sem se estar ao serviço da política actual. O livro deste autor britânico, “Às armas historiadores. Dois séculos da história da Revolução francesa”, publicado na altura do bicentenário da Revolução, foi imediatamente traduzido pelos editores italianos e espanhóis. No entanto, nenhum editor do próprio país da Revolução decidiu adquirir os direitos de reprodução e publicar a obra em francês, mesmo se bastantes outras obras sobre este acontecimento, mesmo estrangeiras, foram publicadas na altura e nos anos que se seguiram. Na verdade, verificou-se uma grande relutância por parte dos grandes editores franceses face aos autores e trabalhos abertamente contra a ideologia dominante. A sua publicação em 2007 talvez indique que a situação esteja a começar a mudar…
Como comenta Perry Anderson, “A França é, de todos os países europeus, o mais difícil para qualquer estrangeiro de descrever. A sua irascibilidade é o resultado, em primeiro lugar, de tudo o que os franceses produzem sobre eles mesmos, numa dimensão inimaginável em nenhum outro país. Setenta títulos apenas sobre a campanha eleitoral de 2002. Dois mil livros sobre Mitterand. Três mil sobre De Gaulle.”
[9]. Como o próprio De Gaulle afirmou, “A França é inconcebível sem grandiosidade”. Mesmo a língua francesa, outrora a língua do Iluminismo e durante muito tempo o idioma utilizado nas relações diplomáticas mundiais, é sentida como uma língua universal e associada à ideia de civilização francesa (mais do que apenas cultura).Resistência
Se existe um país que tem a revolução na alma, este país é a França. Mesmo hoje, em que o conformismo e o politicamente correcto parecem estar bem presentes e que “a ideia de revolução está em crise”
[10], as ruas desafiam repetidamente o governo: em 1984, em 1986 e, mais recentemente, em 1995, seis semanas de greve consecutivas que bloquearam qualquer tipo de serviço público e uma desordem a nível nacional, que levou à vitória do movimento. Não há, portanto, dúvidas de que a “inflamabilidade popular” é algo inerente ao povo francês. Desde que estou em Paris que já assisti a duas grandes greves gerais. A última, a 19 de Março, reuniu entre 3,23 milhões e um milhão e meio de manifestantes (número oficial), em todo o país. As universidades já estão em greve há mais de um mês, ocasionalmente com direito a portas bloqueadas pelo batalhão de choque. A polícia não sabe como lidar com as manifestações que cada vez se tornam mais espontâneas e imprevisíveis. Há duas semanas que, todos os dias, continuamente, oiço os jambés dos trabalhadores do KFC da esquina (restaurante da cadeia de fast-food Kentucky Fried Chicken). Tomaram o restaurante e estão em greve, exigem que o KFC assine as suas carteiras de trabalho (alguns já estão a trabalhar ilegalmente nestas condições há 10 anos e correm agora o risco de serem expulsos do país). Decididamente, existe um paralelo entre a França pré-revolucionária e a França actual: a ignorância por parte da elite da realidade do povo (“la France d’en bas”). Existe mesmo uma espécie de piada (ou história verídica?) que ilustra perfeitamente esta situação: antes da Revolução de 1789, Maria Antonieta ouve a população que se manifesta e pergunta qual é a razão de tanta algazarra. Esta não percebe o porquê do descontentamento: se eles não têm pão, porque não comem brioche? (É importante salientar que brioche é uma espécie de pão-de-leite, um pão doce, o qual, obviamente, não fazia parte do regime alimentar do povo.)Vocação
Para se encontrar a verdadeira França, aquela que resiste e que se revolta, não se pode procurar nos lugares míticos da Revolução, as Tulherias ou a Bastilha. A prisão já não existe, foi imediatamente demolida após o 14 de Julho por um empresário da construção e pelos seus empregados. Esta não abrigava na véspera do 14 de Julho mais do que uma dezena de prisioneiros – a maior parte filhos de boas famílias em prisão temporária por embriaguez, e, pelos vistos, existiu mesmo uma conspiração que dirigiu astuciosamente a cólera do povo para esta velha prisão, por pura especulação imobiliária! É também inútil procurar-se esta França na universidade Sorbonne ou no bairro de “Germain des Prés”, que outrora abrigaram a contestação e os intelectuais, mas onde actualmente nos cruzamos com mais polícias do que estudantes. Para se encontrar a França de amanhã, aquela que, talvez em breve, voltará a fazer História, é preciso apanhar-se o metro e afastar-se do centro de Paris. É preciso olhar-se para esta juventude urbana mestiça que se revoltou violentamente em 2005, suscitando a atenção de todo o mundo. É preciso olhar-se para a França “média” da província que teme que os seus filhos não consigam, pelo menos, alcançar o mesmo estilo de vida que os pais, perdendo o conforto conquistado arduamente pelas gerações anteriores. São estes quem fará a próxima revolução.

[1] ANDERSON, Perry (2004), "Dégringolade”, in London Review of Books; [2] HOBSBAWM, Eric (2007), Aux armes, historiens. Deux siècles d’histoire de la Révolution française. La Découverte; [3] BERGER, Denis, RIOT-SARCEY, Michèle (2005), “Francois Furet : l’histoire comme idéologie”, Multitudes; [4] Ibidem; [5] Ibidem; [6] HOBSBAWM, Eric, “Aux armes, historiens !”, programa especial da emissão radiofónica “Là-bas si j'y suis”, de Daniel Mermet, difundida pela rádio France Inter, a 8 de Janeiro de 2008; [7] GUILHAUMOU, Jacques (2006), “La haine de la Révolution française, une forme de haine de la démocratie”, in Révolution Française.net; [8] HOBSBAWM, Eric, “Aux armes, historiens !”, programa especial da emissão radiofónica “Là-bas si j'y suis”, de Daniel Mermet, difundida pela rádio France Inter, a 8 de Janeiro de 2008; [9] ANDERSON, Perry (2004), "Dégringolade”, in London Review of Books; [10] BERGER, Denis, RIOT-SARCEY, Michèle (2005), “Francois Furet : l’histoire comme idéologie”, Multitudes.

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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Culpados?

Sábado é Dia Internacional de solidariedade para com o povo palestiniano. Transcrevemos da introdução do livro “Palestina – a saga de um povo”[1], de Tariq Al-Khudayri, uma parábola de Adalberto Alves.

«Como é sabido, na Península ibérica, antes da chegada dos Árabes, em inícios do século VIII, reinava um povo godo, de origem germânica, os Visigodos. O território do que é hoje Portugal fez, também, durante cerca de três séculos, parte desse Império Visigótico. Os Godos consideravam a Hispânia como a sua pátria indisputada, situação que se manteve até virem a ser obliterados pelo domínio muçulmano.
Suponha-se agora que, num país qualquer do centro da Europa, tinha subsistido, até hoje, uma minoria identificável como goda e que, objecto de discriminação e repressão nesse tal país, tinha, em parte, optado pela diáspora.
Como os Godos ansiavam pela criação de um lar comum, constituíram um lobby de pressão em todo o mundo, no sentido de a O.N.U. decidir arranjar-lhes um território para a constituição de um Estado Godo.
Discutido o assunto e olhando à relevância, no passado, do Império Visigótico na Península Ibérica, a O.N.U. decidiu que seria nela o local correcto para a instalação da Godolândia.
A Espanha opôs-se tenazmente desde logo e, como Portugal era a parte mais fraca em questão e tinha escassa população, foi-lhe imposta a abdicação de uma parte do seu território para a instalação da Godolândia: 50% do mesmo, ou seja, todo o território a norte do Tejo. O sul ficaria para Portugal, sendo Lisboa Oriental goda e Lisboa Ocidental portuguesa.
Com o apoio de diversos países e num curto prazo, começou imediatamente o êxodo de godos em direcção ao território que lhes fora atribuído, apesar dos protestos e da oposição generalizada dos Portugueses.
Os invasores, mediante a força e a intimidação, não tardaram em ocupar cidades e campos, colonizando mediante expulsão as melhores zonas: Porto, Braga, Coimbra, Leiria, Santarém e outras foram, assim, parar às suas mãos. E à menor resistência à ocupação, as casas dos portugueses eram arrasadas para a instalação dos colonatos. Deste modo, a soberania de metade do território português passou para a mão dos Godos que impuseram, aos portugueses do norte, uma nova bandeira e uma nova língua. Em suma, haviam perdido a sua pátria.
A brutalidade da repressão goda causou numerosas mortes e, em breve, mais de dois milhões de portugueses foram deslocados das suas terras e muitos deles forçados a fugir para Espanha, Marrocos e outros países onde passaram a vegetar em miseráveis campos de refugiados.
Portugal, virtualmente, viria a desaparecer do mapa, já que o sul do território, encabeçando a resistência contra a usurpação goda, rapidamente foi invadido pelos novos senhores, que apenas deixaram nas mãos dos Portugueses a parte do Alentejo e uma faixa de terreno junto ao mar, que passou a chamar-se a Faixa de Palmela.
Por outro lado, os portugueses que ficariam a viver ou a trabalhar na Godolândia não passavam de cidadãos de 2ª categoria, ou de mão-de-obra barata para os Godos.
Os Portugueses, quase abandonados pela comunidade internacional, haviam sido forçados a reconhecer o novo Estado, passando a bater-se, ao menos, pelo reconhecimento da sua soberania total no território alentejano oriental e na Faixa de Palmela. Porém, a Godolândia nem isso aceitava, argumentando que tal iria ameaçar a sua segurança.
A O.N.U., através da Assembleia-geral, emitia resoluções atrás de resoluções, condenando o expansionismo godo, mas nenhuma acção era levada a cabo pelo Conselho de Segurança, uma vez que os E.U.A., tendo apoiado e armado a Godolândia até aos dentes, vetavam todas as tomadas de decisão favoráveis a Portugal.
E foi assim que os Portugueses, despojados das suas terras, casas e pátria, se viram condenados ao desespero num exíguo território, onde viviam em condições infra-humanas e de onde toda a esperança parecia ter fugido. No exílio, os que haviam partido sonhavam com um longínquo regresso e, como símbolo desse sonho, guardavam a chave da casa que há muito haviam deixado para trás: quem sabe, um dia voltariam ao lar…
Os Portugueses iniciavam uma longa e dolorosa luta pela sua dignidade, apesar da desproporção de meios perante o poderoso inimigo. Tinham quase só, como armas, a revolta e a dádiva da própria vida, pois, tendo perdido tudo, já nada tinham a perder.
Passaram a ser chamados de terroristas»

[1] 
Editado em 2002, pela Hugin

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quarta-feira, 9 de julho de 2008

Leve-leve

S. Tomé e Príncipe comemora este fim-de-semana 33 anos de independência. Altura para passarmos em revista a situação política, social e económica do país.

Texto e fotografia Pascoal Carvalho

De um encanto, que se esperava sustentável e duradouro, a uma progressiva destruição, oportunismo, crucial e inevitável, dos mais dotados e bem situados.
Bem conhecido por um ditado popular, “leve-leve”, como que se dissesse (sem pressa, stress, grandes correrias), São Tomé e Príncipe (STP) tem vindo a deixar-se ir abaixo por um mundo ilusório, descansado, despreocupado, mas também muito burlão, porque assim nada vai adiante e, sem exigências de parte a parte, o país fica sem produção nem produtividade.
De Caué a Paquê
[1], do interior ao litoral, abandonando as águas tépidas do mar que banha toda a costa destas lindas ilhas de nomes santos, até ao interior das agradáveis, desfrutáveis e relaxantes cataratas que jorram das infindáveis capas verdes e naturais dividindo zonas e caracterizando-as até às cerradas matas muitas vezes montanhosas do ôbô[2].
Bem conhecida pelas maravilhosas praias requintadas com sombras que a natureza não se minora em presentear com os mais variados aforros, desde a terra fértil até à passividade populacional, São Tomé e Príncipe é um oásis situado no golfo da Guiné, que já teve em outros tempos bons momentos para satisfações saudáveis. Após a independência, em 12 de Julho de 1975, a qual muitos defendiam que não fosse total, como acabou por se concretizar, que até hoje este pequeno Estado nunca encontrou um válido. oriundo e genuíno filho seu que fosse capaz de levar este aconchegante canto do mundo para um desenvolvimento sustentável, estável e sólido que desse realmente gosto e gozo de (e para) viver.
Há quem diga que STP não encontrou a plataforma necessária que impulsionasse para uma futuro risonho pelo facto de se ter tornado independente num dia aziago. Por coincidência ou não, a verdade é que nesta data regista-se sempre inúmeros acidentes de viação, e não só, o que faz acentuar ainda mais este facto de grande valor para o senso comum.
Contradições sociais

Depois de ter grandes esperanças na classe empresarial, o chefe de Estado, pensando que muito facilmente STP e os são-tomenses teriam e estariam em condições de saírem desta crise, os mesmos vivem agora uma fugaz dinamização jovem que o chefe do Governo quer implementar para já com certas agilidades, que focam bem estas intenções.
Vive-se em STP uma coligação quase impensável há pouco tempo atrás. Julga-se que a vontade de fazer crescer um país mais forte e desenvolvido, capaz de proporcionar aos seus filhos uma regular e saudável distribuição de riquezas e oportunidades, foi mais intensa e ultrapassou as barreiras e divergências político-partidárias trazendo ao de cima a vontade e consciência humana.
Inicialmente reconhecido por uma existência acentuada de indivíduos formados ainda na época do colonialismo, em que muito se falava da independência, a união São Tomé e Príncipe nunca esteve em causa, mas dado o progressivo e acelerado ritmo a que particularmente o Príncipe se encontra mergulhado eis que as contradições entre os oriundos tanto de uma ilha como da outra têm vindo a fazer-se sentir em diferentes frentes e grupos sociais, fruto das excessivas centralizações dos serviços e bens. Muitos são os quadros genuínos da ilha do Príncipe que se encontram em São Tomé por aqui encontrarem o que tarda a chegar à irmã, o que a tem deixado cada vez mais para trás no que toca ao desenvolvimento local.
Sociedade
Constituída por várias raças que estão distribuídas por diferentes regiões do país, de norte a sul, São Tomé e Príncipe ainda tem alimentado os seus filhos com a fertilidade do solo, ignorando o seu pouco empenho e dedicação. Desde os tempos mais remotos que se sabe que os foros nunca tiveram o gosto pelo trabalho das roças onde estão e das quais necessitam para a sua própria sobrevivência. Com isso, os colonizadores tiveram que importar gente de outras paragens luso colonizadas (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau), para dar corpo ao cultivo das férteis terras. Entretanto, não obstante, este arquipélago foi em tempos dos maiores produtores de cacau e café.
Depois de tanto tempo de certas dependências desses produtos (que saibamos dizer nunca deixou ficar mal os seus filhos), eis que surge o petróleo que para muitos é, ou veio, amaldiçoado pelo facto de trazer consigo inúmeros problemas sociais, acordos e suas anulações, equipas e comissões, empresas e leis que fazem de STP hoje em dia um país que vive com imensos sobressaltos e inquietações do que por aí há-de vir com o refugiar esperançado na solução petrolífera milagrosa.
Actualmente, a sociedade são-tomense vive desfasada pelas irregulares faixas sociais. Para já ressaltemos os candongueiros que outrora algo afastados ou encostados pela sociedade mais intelectual ou académica, vieram a provar o seu valor pela inteligência e queda para o comércio, inicialmente informal e ambulante mas agora mais estável e concentrado; eles hoje tornaram-se numa classe económica que tem muito a dizer sobre o país e em prol do mesmo. Não obstante a este inclinar para os negócios, também têm vindo a conseguir concluir com êxito os seus estudos secundários, 11º ano, que é actualmente o máximo para quem não quer levar adiante o seu conhecimento académico, seguindo depois para o ensino superior ou curso médio.
É de salientar, ainda no campo da educação, que as gerações de 80 e mais acentuadamente de 90, actualmente detêm um certo comportamento de descrença total no país e seus governantes, em particular transportando consigo um pensar sólido de não ter esperanças nenhumas de ver melhorar o país, nem mesmo daqui a algum tempo. Tal contradiz com a maneira de ver e pensar dos que já têm mais tempo de vida: a de que ainda é possível mas que para isso os são-Tomenses teriam que tomar consciência e dar ao país aquilo que ele realmente quer e precisa (boa gente, com garra, vontade, fé e inovação); contudo, individualmente preferem estar no exterior, ignorando desta forma a realidade central da pátria.
Culturalmente, STP é um país rico e diversificado, muito por responsabilidade das influências coloniais. Cada cidade e região tem as suas manifestações culturais identificando-se assim por essas tradições e crenças o que vem encontrar depois no exterior uma espécie de fusão inovadora e algo defeituosa pelo querer representativo contrastando com o saber originário, o qual a mesma invoca.
Economia

Apesar de bom produtor agrícola, S. Tomé e Príncipe nunca foi capaz de se manter na vanguarda da produção ou conquistar um mercado sustentável para o escoamento. O comércio até hoje é baseado em vendas de artigos hortícolas, ainda frescos do dia, peixe pescado a poucas horas no mar, pão do dia e também guardado de dias anteriores (o pão comercializado pode ser acompanhado de outros condimentos como manteiga, marmelada, açucarinha, aranha, etc.), podendo ser encontrado no mercado formal, nas padarias, ou informal, no comércio ambulante, porta a porta, ou nos mercados.
Outros artigos, do tipo de géneros de primeira necessidade, são igualmente comercializados pelos bem conhecidos candongueiros, que por sua vez fazem sociedades com imigrantes, pequenos e grandes comerciantes que escolheram este pequeno país para viverem. As vendas a retalho se por um lado ajudam, e de que maneira, os que menos têm, prejudica e condiciona muito esta mesma gente quando casados.
Educação e saúde

A educação parece ficar para trás no que toca à prioridade dos sucessivos elencos governamentais que têm passado por estas terras. Outrora a educação, a par da saúde, estava no topo das atenções dos programas do Governo que hoje em dia parecem perder lugar para o tão anunciado petróleo que todos sonham poder ser a fórmula milagrosa para tirar este arquipélago da precária situação em que mergulhou.
Com uma população bastante jovem, os são-tomenses têm por hábito sempre se preocupar com a educação dos seus filhos. Mesmo aqueles que não têm uma condição financeira desejável nunca aceitam que os seus descendentes venham a ter uma vida sequer parecida com a deles, descarregando sobre os mesmos algum desabafo do querer e não poder proporcionar algo melhor que lhes pudesse garantir um futuro mais risonho e arrojado.
Para os que vivem mais distantes da capital é sempre um sofrimento poder dar continuidade aos seus estudos por causa das despesas relacionadas com as deslocações, primeiro, e depois com outros encargos.
A saúde é dos sectores mais afectados e preenchido de infelicidades pelo facto do mesmo não encontrar formas nem plataformas de sustentabilidade capaz de dar algum salto, nem ao menos passos. Bastaria olhar para o quadro numérico dos hospitais que havia aquando da colonização e actualizá-lo e veríamos a progressiva deterioração acentuada a que os mesmos foram sujeitos até ao seu desaparecimento, o que contrasta com o continuado crescimento da população. O Centro Hospitalar de S. Tomé é hoje o único hospital que ainda presta serviços gerais de saúde, ainda assim com enormes dificuldades multi-sectoriais e funcionais. Apesar de apoios e acordos constantes, apenas este centro tem conseguido à distância minimizar as necessidades da população que dia-a-dia vai sofrendo com este défice.

[1] De ponta a ponta Caué, distrito de S. Tomé, e Pague, Distrito do Príncipe. [2] Mata serrada, revestida de forte densidade de arbusto e insectos, muitas vezes montanhosas e com chuvas abundantes.

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Economia ou humanidade?



Quem recusa enriquecer uma comunidade com a sua específica maneira de ser, de estar ou de fazer? Globalização: uns estão a favor, outros nem tanto. Vamos espreitar um pouco o Fórum Mundial Social a decorrer neste planeta. Sábado é Dia de Acção Global, também em Portugal.

Texto Dina Cristo fotografia Victor Hugo Cristo

Na mesma altura em que na Suiça se reúne o Fórum Económico Mundial (FEM) por todo o mundo se comemora a oitava edição do Fórum Social Mundial (FSM). De um lado os países do Norte, materialmente mais ricos, a economia, o mercado, os lucros, do outro, os países do Sul, materialmente mais pobres, a sociedade civil, a ética, a humanidade. Será que podemos dividir, com tanta simplicidade, os que estão a favor e os que estão contra a globalização?
A "aldeia global" é um processo de unificação, integração, livre e voluntário, com vista à construção de um mundo a várias vozes, rostos e cores. Um só globo, com toda a diversidade, natural, humana, cultural, política, religiosa, social, que decorre da elevação da consciência humana. Na verdade, já estamos a ser "processados" e é natural, como escreve José Manuel Anacleto, que até mesmo os manifestantes anti-globalização ouçam música inglesa, vejam filmes americanos, telenovelas brasileiras, utilizem aparelhagens japonesas, calcem sapatos italianos, usem perfumes franceses, conduzam carros alemães, entrancem os cabelos de forma africana, se colorem com roupas orientais.
A globalização nada mais é do que a pertença a um todo maior, como antes representava a Nação em relação aos conflitos regionais. A oposição a ela é, na verdade, mais uma resistência à integração forçada, imposta - e que elimina identidades, oblitera património cultural, história, artes, letras, tradições e imaginários tradicionais - do que à pureza da sua formulação teórica. Afinal, quem não quer pertencer a um colectivo maior, preservando a sua peculiaridade?
FSM
Nasceu há sete anos, no Brasil. Começou por juntar 20 mil pessoas à volta do lema “Um outro mundo é possível”. Pretendeu ser uma alternativa, em alguns casos mesmo uma oposição, ao Fórum Económico Mundial, que ocorre no primeiro mês de cada ano, em Davos, na Suiça. Ao contrário deste, é organizado pelas ONG e movimentos sociais.
Depois dos primeiros três anos (de 2001 a 2003) sedeado em Porto Alegre, realizou-se em 2004 na Índia, em 2006 teve dois centros, um em África (Mali) e outro na América Latina (Venezuela) e em 2007 voltou ao continente africano, mais propriamente ao Quénia. O próximo encontro mundial de povos será daqui a um ano, também no Brasil.
O quarto realizado no Brasil foi em 2005, quando foi subscrito o Consenso de Porto Alegre, com doze propostas (assinado entre outros pelos portugueses José Saramago e Boaventura de Sousa Santos) entre as quais a promoção da economia solidária e da autonomia dos “media” alternativos. Nesse ano, o Fórum Social Mundial reuniu mais de 150 mil participantes, entre os quais cerca de 2500 relacionados com a economia solidária e quase 2800 voluntários; houve cerca de uma centena de espectáculos, filmes e exposições.
Dia global
A proposta deste ano é de uma Semana - de Mobilização Global - com a participação de múltiplos agentes sociais cuja acção culminará este Sábado, num Dia de Acção Global. O objectivo, a essência do FSM, é celebrar a diversidade e procurar alternativas sociais para os problemas do mundo.
Os eventos serão acompanhados numa comunhão de esforços mediáticos da imprensa alternativa através da Ciranda Internacional da Informação Independente, organismo criado no primeiro FSM, em 2001, cujo objectivo é compartilhar informação multimédia, através de plataformas livres que permitam uma comunicação horizontal.
Fruto do II FSM, o Observatório Global de “Media” (criado em Porto Alegre e formalizado um ano depois em França), pela mão do jornal “Le Monde Diplomatique” e da Agência Internacional de Imprensa, IPS, tem como finalidade a constituição de um quinto poder e a promoção do direito de qualquer cidadão deste mundo a ser bem informado. Tenta reunir jornalistas, consumidores e académicos a fim de denunciar o poder dos grandes meios de informação e identificar incumprimentos em relação à imparcialidade e ao rigor.

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quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Darfur independente?

Não sabemos ao certo quantos, mas são milhares as pessoas que morre(ra)m e milhões as deslocadas. No terreno, há várias centenas de militares africanos cujo reforço está a ser preparado. O conflito, além das reportagens na comunicação social, tem dado origem a manifestações, campanhas, petições, filmes, documentários, discos, e até a uma televisão. Portugal pode ter, entretanto, uma palavra a dizer ao receber, em Dezembro, a II Cimeira Europa-África, pela mão da União Europeia e União Africana.

Texto Dina Cristo 

Desde há mais de cinquenta anos que o Sudão vive em conflito, entre o norte e o sul. Depois da primeira guerra civil entre 1955 e 1972, a segunda, a partir de 1983, não tem visto o seu fim. Apesar dos Acordos de Paz, assinados no Quénia, em 2005, e na Nigéria, em 2006, no terreno o desacordo impõe-se. Apesar das assinaturas no papel, as organizações humanitárias internacionais na região denunciam crimes contra a Humanidade como, por exemplo, o comércio de escravos ou genocídio.
Os conflitos étnicos sudaneses têm repercussões no Darfur, a terceira província, Ocidental, do Sudão, com meia dúzia de milhões de habitantes. Vive em guerra há quatro anos, quando o Movimento de Justiça e Igualdade e o Exército de Libertação Sudanesa, motivados pelo exemplo do Sul (cuja independência será decidida por referendo em 2011) pegaram em armas contra o Governo sudanês, acusando-o de privilegiar os pastores árabes em detrimento dos agricultores negros e de negligenciar a região da Casa dos Fur.
Por sua vez, Omar el Bashir respondeu com as milícias Janjawid, árabes aliados do Governo que tem massacrado a população Darfurense. Os ataques armados às comunidades já mataram milhares de pessoas, sobretudo civis, mulheres e crianças, destruíram centenas de aldeias, fizeram milhões de deslocados e mais seres humanos ainda a necessitar de ajuda para sobreviver. Segundo Desmond Tutu, Darfur regista hoje a maior concentração mundial de sofrimento humano.
Vítimas
Segundo o relato do jornalista da revista “Além-Mar”, Franco Moretti, o campo de refugiados de Kalma tem cerca de 170 mil pessoas, já pegado a Bileil, onde «os pobres, chegam em bicicleta, para adquirir a baixo preço óleo vegetal, algumas rações de cereais e pacotes de leite em pó fornecidos pelas ONG e pelo Programa Alimentar Mundial; os ricos, com carroças e camiões, sobre os quais carregam sacos, caixotes, fardos de roupa… para vender na cidade». Para proteger-se, nestes duas enormes fossas, os refugiados criam povoados de milhares de pessoas, que então enfrentam a falta de água e comida.
As mulheres, por exemplo, são várias vezes vítimas: são elas que vão buscar lenha e água para a família, são elas que são violadas e violentadas física e sexualmente e são ainda elas que depois são estigmatizadas socialmente e abandonadas pela família, vêem inviabilizada a sua futura realização. Por isso, os Médicos Sem Fronteiras apelam para que as vítimas sejam devidamente tratadas em vez de rejeitadas.
No Darfur está montada uma operação humanitária, com milhares de funcionários das Nações Unidas e da União Africana, cerca de cem ONG e missionários. O que sobra em assaltos e doenças falta em alimentos e medicamentos. Segundo o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, há apoio humanitário ao nível da alimentação, saúde e até educação, mas falta a segurança e a protecção. Em entrevista à Missão Press, em Junho de 2007, António Guterres explicou as dificuldades na aplicação do acordo da “responsabilidade de proteger” os cidadãos, por parte do Estado ou da comunidade internacional, cujo segundo aniversário se comemorou no dia 16 de Setembro, Dia Mundial por Darfur, celebrando o momento em que vários Governos se comprometeram a acabar com os genocídios e massacres em massa.
Causas
Para a Secção portuguesa da Amnistia Internacional «A escassez de terras leva a uma partilha, muitas vezes forçada, das propriedades dos agricultores com os nómadas». Segundo Duarte Ivo Cruz, a guerra surge “na sequência de uma alteração das fronteiras internas do Sudão, que retirou ao Sul a parte das jazidas de petróleo descobertas em 1980. Ora hoje o Darfur é atravessado pelo chamado Bloco 6 de exploração de petróleo, administrado pela China National Petroleum (…)”, escreve na “Tempo livre”. Para António Guterres, uma das principais razões é a falta de outro recurso natural: água: «No Darfur nós temos árabes e africanos, nómadas e sedentários, pastores e agricultores. Estas comunidades viveram durante séculos em harmonia, mas é também verdade que, quando os recursos diminuem, nomeadamente quando a água diminui — e, porventura, aqui as alterações climáticas virão a ser um factor agravante deste problema —, há uma tendência para o conflito. É evidente que, quando essa tendência é manipulada politicamente, pode conduzir àquilo a que estamos a assistir — os Janjauid, os grupos armados que, simultaneamente, conduziam em vez do exército o confronto com os movimentos rebeldes e atacavam aldeias de populações agrícolas para poderem aproveitar os recursos, nomeadamente o acesso aos pontos de água».
Há especialistas que defendem o congelamento das contas sudanesas no estrangeiro, a interdição do espaço áereo do Darfur ou a limitação das viagens dos líderes sudaneses ao exterior. A Rolls Royce, por exemplo, que fornecia motores à indústria petrolífera sudanesa, suspendeu todas as actividades no país como forma de protesto pelo que se passa na região, cujos planaltos superam os três mil metros.
Sudão
A República do Sudão é o maior país de África; ocupa a bacia do Alto Nilo. A mais usual das 115 línguas é o árabe e a população é maioritariamente islamita. Contudo, os conflitos entre duas das três províncias, a do Norte, tradicionalmente constituída por pastores nómadas, árabes e muçulmanos, e a do Sul, por população sedentária, tribal, africana, pagã e cristã, são antigos.
No Sudão, floresceram na Antiguidade, as civilizações Núbia e Kush. Aquando da expansão islâmica do séc.VII foi integrado no mundo árabe, com excepção do sul. Em 1821, grande parte da região norte foi ocupada pelo Egipto. Logo depois entra na influência do Reino Unido e em 1898 fica sob o domínio Egípcio-Britânico. Em 1953 obtém uma autonomia limitada e em 1956 a independência total, mas com ela chega também a instabilidade política.
Depois de uma democracia multipartidária segue-se, em 1958, um golpe militar, e em 1964 um regime civil. Em 1969, Jaafar Nimeiri toma o poder pela força e sobrevive a 12 tentativas de golpe de Estado. Em 1973, depois da autonomia do sul, proclama o Sudão um Estado de partido único. A partir de 1977, procura auxílio, no Ocidente.
O Sudão é rico em petróleo, gás natural, algodão, açúcar e produz sésamo e amendoim. Chegou a ter um plano para o transformar no celeiro do Médio Oriente, mas falhou por falta de apoio. Na década de oitenta, à beira da bancarrota, recebe a segunda maior ajuda a um país africano. Depois, é a seca, na terra e nos rios. Desde a década de setenta que a precipitação diminui e a população afectada, com falta de alimentos, refugia-se nos limites de Cartum, a capital. Junta-se, assim, ao cerca de um milhão de refugiados, que ali fogem da fome e da guerra no Egipto e no Chade, dois países vizinhos.
Em 1983, Nimeiri introduz a Shariri, a Lei islâmica que determina, entre outras medidas, a proibição de bebidas alcoólicas e punições por enforcamento ou mutilação. Acaba por ser derrubado, em 1985, por um golpe militar. A Sul causa a fuga de mais de 350 mil sudaneses para países vizinhos.
Por isso, um dos deslocados sul-sudaneses nas periferias das três cidades que formam a capital disse a Franco Moretti: «Durante vinte anos, Cartum fez-nos a guerra. E os soldados que nos massacraram eram na maioria provenientes do Darfur. Chegou a sua vez de experimentar a política do governo central.»
Em 1986 realizam-se as primeiras eleições democráticas que colocam no poder uma coligação de partidos do Norte cujo líder, Mahdi, enceta conversações com os revoltosos, mas sem êxito, já que o Governo é abortado devido ao falecimento, num acidente aéreo, do Vice-Primeiro Ministro, designado pela oposição.

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