quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Individualismo


Hoje prefere chamar à sociedade actual hipermoderna. No ensaio de há vinte anos, este professor de filosofia já lhe diagnosticava os sinais da mudança. Nas vésperas do seu aniversário, vamos revê-los, através de um texto escrito em 1991.

Texto Dina Cristo


Numa primeira abordagem ao tema da obra – o individualismo contemporâneo – o autor caracteriza os conceitos fundamentais, presentes ao longo do livro. É o caso de hedonismo, o prazer como fim último da vida.
Gilles Lipovetsky mostra a diferença entre a sociedade moderna e pós-moderna. Na primeira crê-se no futuro, na ciência e na técnica, em nome do universal, da razão e da revolução. Na segunda, o importante é a realização pessoal imediata – “o que se quer é viver já, aqui e agora”; na informação é a expressão a todo o custo e a indiferença pelos conteúdos.
Na sociedade de consumo distingue duas fases: a primeira, correspondente a Hollywood, de consumo passivo, e a segunda – mais absorvida pela qualidade de vida – em que a paixão pela personalidade faz criar correntes ecologistas, criativas e revivalistas.
Lipovetsky define o narcisismo individual, um sobreinvestimento nas questões subjectivas, característica do individualismo total, e o narcisismo colectivo em que os indivíduos desejam encontrar-se com outros semelhantes, como no caso da vida associativa.
Por fim, uma ligeira caracterização da sociedade actual: o máximo de opções e o culto da libertação pessoal, a vontade de autonomia.
Sedução
Gilles Lipovetsky analisa as características da sedução e a sua influência na sociedade e na política.
Na sociedade é a cultura do “feeling”, do prazer e da realização de desejos – no neofeminismo a sexdução. Na política é a descentralização da democracia que humaniza a nação e aproxima o poder dos cidadãos; a autogestão em que cada indivíduo é considerado um sujeito político autónomo.
A sociedade, actualmente personalizada, deseja o contacto humano, é hostil ao anonimato e à linguagem estereotipada. É o predomínio da comunicação, da escolha livre, da diversidade e realização dos desejos em detrimento da coerção, da homogeneidade e austeridade.
Indiferença
Gilles Lipovetsky atribui à hipersolicitação a causa da indiferença pós-moderna; afirma que hoje os comportamentos coexistem sem se excluírem e lança a pergunta: “o que é que se mostra ainda capaz de espantar ou escandalizar?”
O autor apresenta como características desta indiferença a paixão pelo nada e pelo extermínio total (caso de Hiroxima), a apatia das massas, a descrença no esforço, na poupança e na consciência profissional.
A indiferença manifesta-se em diferentes domínios. A vida não tem finalidade nem sentido, “o futuro já não entusiasma ninguém”. Constata-se a dúvida perante o saber e a abstenção nas eleições. A moda, os tempos livres e a publicidade têm em comum a futilidade.
São indiferentes a solidão - o solipsismo – e a revolução, como o Maio de 68, considerada a primeira revolução do género pelo autor. O suicídio torna-se a patologia das massas: “(…) o indivíduo pede para ficar só, cada vez mais só e simultaneamente não se supunha a si próprio, a sós consigo. Aqui, o deserto já não tem começo nem fim”. Todos estes aspectos conduzem à alienação, ao tédio e à monotonia.
Vazio
O autor descreve em que domínio se manifesta o vazio e as suas consequências. Na política assiste-se a uma crise de confiança nos dirigentes, é o caso do Watergate e do terrorismo, daí a crescente despolitização e dessindicalização.
Enquanto isso aumenta o consumo de consciência, expresso através do yoga, da psicanálise, da expressão corporal e meditação transcendental. Há, também, uma grande necessidade de viver o presente, viver tudo imediatamente, por isso desaparecem as grandes iniciativas que merecem sacrifício ao longo da vida.
O fascínio pelo auto-conhecimento e auto-realização é uma das facetas do narcisismo. Esta era do “amor-próprio” caracteriza-se também pela libertação, autonomia e independência do eu. A necessidade permanente de valorização e de ser admirado está presente.
O corpo torna-se objecto de culto. É quase obrigatório continuar jovem e lutar contra o tempo. No que diz respeito à confraternização, ela faz-se numa base comum (o mesmo bairro, região ou sentimento) mas, embora haja autenticidade, os actos não são espontâneos, os indivíduos retraem-se e interiorizam-se.
O vazio, traduzido numa vida solitária, na incapacidade de sentir, revela-se como um mal-estar e uma vida absurda. Por detrás de uma aparência de carácter sociável está a exploração dos sentimentos do outro e a procura do interesse próprio. “As relações humanas são baseadas na dominação e intimidação”.
(Pós)modernismo
No período do modernismo há o culto da novidade e da mudança. Os principais valores são a imediatez, o impacto e a sensação. O hedonismo encoraja a gozar a vida, a obedecer aos impulsos. O culto do consumo uniformiza os comportamentos. Assim, predomina a homogeneidade, o ideológico e o universal.
A experiência pessoal torna-se, no modernismo, fonte de inspiração. A arte desliga-se do passado e torna-se mestra de si própria. Neste contexto, o indivíduo está propenso à angústia, ansiedade, stress e depressão.
O pós-modernismo consagra o novo, faz triunfar a anti-moral e o anti-institucionalismo. O natural, espontâneo e improvisado tornam-se os principais valores. Aumenta a reivindicação de liberdade na vida familiar, no vestuário e na comunicação.
No período pós-moderno predomina o desejo de ócio (de auto-realização e liberdade) em detrimento do trabalho, considerado monótono. O mesmo acontece com a imaginação em relação ao saber técnico. Dá-se a crise do Estado Providência.
Há, ainda, uma decadência estética: a arte torna-se híbrida, ao integrar todos os estilos, e esgota-se num arquétipo. Todos têm vontade de expressão artística, livre e aberta a qualquer indivíduo.
A coabitação dos contrários é uma realidade na sociedade pós-moderna: “(…) não há interesse pelos programas políticos, mas faz-se questão de existência de partidos; não se lêem jornais, mas defende-se a liberdade de expressão, quanto mais o diálogo se institucionaliza mais sós se sentem os indivíduos e quanto mais cresce o bem-estar, mais a depressão triunfa”.
Humor
Gilles Lipovetsky traça a evolução do cómico na sociedade. Até ao Renascimento o riso está ligado à profanação do sagrado e à violação das regras oficiais. O cómico medieval rebaixa e ridiculariza. A partir da idade clássica, o riso desenvolve formas modernas como o humor, a ironia e o sarcasmo.
Depois do séc.XVIII e até ao séc.XIX o riso livre é consideradobaixo de mau tom e como um comportamento a desprezar. Contudo, o sentido de humor difundido nestes dois séculos acentua o lado engraçado das coisas.
Ainda no séc.XIX e primeira parte do séc.XX, o outro era o alvo principal de humor. Hoje, ri-se muito menos dos vícios e defeitos dos outros e mais do próprio eu - é o caso de Woddy Allen. Actualmente rimo-nos mais com o outro e não do outro.
Hoje, o Homem tem cada vez mais dificuldade em sair de si e sentir entusiasmo. O riso e as gargalhadas espontâneas são cada vez menos. O tom humorístico é ligeiro; é feito de jogos de palavras e fórmulas indirectas. Contudo, hoje, ninguém é sedutor se não for simpático. O humor torna-se uma qualidade a exigir do outro.
Os valores da primeira metade do séc.XX, como a castidade, sacrifício, poupança, convidam mais ao sorriso do que ao respeito. Hoje em dia, as coisas mais sérias e formais assumem um tom cómico. A hipertrofia lúdica vai dissimulando a infelicidade quotidiana. O código humorístico veicula a linguagem das ruas, em tom familiar e despreocupado.
O humorístico introduziu-se as áreas mais diversas. A moda prima pelo desleixado e descontraído, “o novo deve parecer usado e o estudado espontâneo”, coexistem diversos estilos. Na arte vê-se de tudo e tudo é permitido. A publicidade explora os slogans mais descontraídos. Na tecnologia há já robôs que se destinam a rir e a fazer rir.
Violência
Durante milénios, a violência e a guerra foram valores dominantes. Numa época em que prevalecia o interesse do grupo, a crueldade estava legitimada: a violência tinha como objectivo o prestígio ou a vingança. Esta moral de honra podia mesmo levar à luta até à morte.
Com o advento do Estado, a guerra torna-se a missão honrosa do soberano, um meio de conquista e expansão. O excesso de represália deu origem a leis destinadas a moderá-la. Mais tarde, com a era individualista, desaparece a legitimidade de crueldade e retaliação. As sociedades tornam-se policiadas e a partir do séc.XVIII começam a diminuir os crimes.
No início do séc.XIX renuncia-se aos castigos corporais e, no séc.XX, diminuem o número de execuções, condenações à morte e violência privada. A vida torna-se, para o Homem individualista, o valor supremo e a sobrevivência a lei fundamental. Dá-se uma pacificação dos comportamentos, as discussões são cada vez menos.
Actualmente reina a indiferença: o outro passa a ser um estranho, um anónimo. Paradoxalmente, há cada vez maior sensibilidade à dor do outro e um desejo de comunicar e conhecê-lo.
Hoje, a violência de classe dá lugar a outra de jovens desqualificados, minorias raciais ou grupos periféricos – é o crime em pleno dia, por quase nada. Entre os mais jovens crescem as tentativas de suicídio, mas “o individuo pós-moderno tenta matar-se sem querer morrer (…)”.
Sedução, indiferença ou vazio são, pois, elementos da mesma realidade: o individualismo contemporâneo. Gilles Lipovetsky contrapõe à época moderna – da produção e revolução – a pós-moderna, da informação e expressão. Diz o autor que o narcisismo é a comunicação sem finalidade nem público, em que o destinador se torna o seu principal destinatário.

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quarta-feira, 17 de julho de 2013

Retribalizar


Cinquenta anos depois da publicação, pela primeira vez, de uma das obras mais importantes de Marshall McLhuhan, revemo-la, antes da celebração de mais de 80 anos do nascimento do autor.

Selecção Dina Cristo

«Para ter êxito comercial, um livro não pode arriscar mais do que dez por cento de novidade», pág.12
«Se o século XIX foi o tempo da cadeira do editorialista, o nosso [XX] é o século do divã do psiquiatra», pág.13
«Todas as culturas e tempos possuem um modelo preferido de percepção e de conhecimento, que procuram impor a tudo e a todos», pág.13
«A situação de abandono escolar nas nossas escolas ainda agora começou», pág.16
«O estudante de hoje vive de forma mítica e profunda», pág. 17
«(…) os homens nunca têm consciência das regras fundamentais da sua cultura (…)», pág.18
«(…) a compreensão paralisa a acção (…)», pág. 29
«(…) o ser humano transforma-se naquilo que contempla.», pág. 32
«Nós, por nossa parte, detectamosa vanguarda no frio e no primitivo (…)», pág.40  
«(…) uma situação de alto desenvolvimento oferece, por definição, baixos índices de participação (…)», pág.41
«O consumidor passivo deseja embalagens (…)», pág. 44
«À medida que começamos a reagir em profundidade à vida (…) tornamo-nos reaccionários», pág.48
«O jovem Narciso tomou o seu reflexo na água por outra pessoa», pág.55
«A auto-amputação impede o auto-reconhecimento», pág.56
«Na era da electricidade, nós usamos como nossa pele toda a humanidade», pág. 61
«Assim como a imprensa clamava pelo nacionalismo também a rádio clama pelo tribalismo», pág.63
«Nós podemos, se quisermos, planear as coisas antes de as criarmos», pág. 64
«(…) os meios linguísticos modelam  o desenvolvimento social tanto quanto os meios de produção», pág.64
«Hoje em dia possuímos anestésicos que nos permitem executar as mais aterradoras intervenções físicas», pág. 79
«O efeito da rádio é visual (..)», pág. 79
«(…) o contra-irritante costuma revelar-se mais incómodo do que o irritante inicial (..)», pág.81
«(…) a força de vontade é tão útil  para a sobrevivência como ainteligência», pág. 84
«A consciência não é um processo verbal», pá.98
«(…) cada ideograma é investido de uma intuição total do ser e da razão», pág.98
«(…) a mais banal das comodidades implica profundas mudanças culturais», pág. 100
«(..) em todos os sistemas há um ponto a partir do qual a aceleração redunda em ruptura e colapso», pág. 104
«(…) o número é a essência de  todas as coisas perceptíveis aos sentidos», pá. 124
«(…) o número contém todo o sentimento do mundo de uma alma apaixonadamente devotada ao “aqui” e ao“agora”», pág. 124
«A tecnologia da imprensa converteu o zero medieval no infinito renascentista», pág. 127
«(…) todos os meios são extensões do nosso corpo e dos nossos sentidos», pág.128
«Agindo como um órgão do cosmos, o homem tribal aceita as suas funções corporais como formas de participação na energia divina», pág. 135
«(…) a luz é um sistema de comunicação autónomo no qual o meio é a mensagem», pág.140
«Hoje em dia, na era da electrónica, o homem mais rico está reduzido a ter o mesmo tipo de diversões, e até o mesmo tipo de alimento e de veículos, que o homem comum.», pág. 145
«Uma actividade que envolva todo o ser do homem, não é trabalho», pág.149
«(…) a era mecânica é um interlúdio entre dois grandes períodos orgânicos de cultura», pág. 161
«A alfabetização é em si mesma uma forma de ascetismo abstracto (…)», pág. 162
«O visual dessacraliza o universo e origina “o homem não-religioso das sociedades modernas”», pág. 165
«O ouvido é hipersensível. O olho é frio e distanciado.», pág.165
«(…) o grande preceito da bibliografia: “quanto mais houve, menos há”», pág.169
«(…) o homem integral mostra-se sempre muito inepto numa situação de especialização», pág. 176
«(…) a imprensa desafiou os padrões corporativos da organização medieval tanto como a electricidade desafia agora o nosso individualismo fragmentado», pág.184
«Não existe ceteris paribus no mundo dos meios e da tecnologia», pág. 191
«Idealmente, a educação é uma forma de protecção colectiva contra as consequências negativas dos meios de comunicação», pág.201
«Hoje em dia, o viajante tornou-se passivo», pág.204
«Todos os meios existem para investir as nossas vidas com percepções artificiais e valores arbitrários», pág.205
«A antecipação dá-nos o poder de desviar o rumo e controlar a força», pág. 205
«Ocorrem menos crimes quando não existem jornais para os divulgar», pág. 211
«(…) no nosso mundo eléctrico, a informação é claramente o negócio principal e a maior fonte de riqueza», pág.212
«(…) a introdução duma nova tecnologia altera não apenas a imagem, mas o próprio quadro», pág.224
«O carro tornou-se na carapaça, a concha agressiva e protectora, do homem urbano e suburbano», pág.230
«Os anúncios elevam o princípio do ruído ao patamar da persuasão», pág.232
«Os recalcitrantes são os (…) melhores aclamadores e impulsionadores», pág.235
«Quando as culturas mudam, os jogos mudam também», pág.244
«Levar mortalmente a sério as coisas mundanas é sempre indício de uma lamentável falta de reflexão», pág.248
«Vivemos hoje na Era da Informação e da Comunicação porque os meios eléctricos criam instantânea e permanentemente um campo total de acontecimentos em interacção nos quais toda a humanidade participa», pág.253
«(…) a nossa co-presença em toda a parte ao mesmo tempo é uma experiência mais passiva do que activa», pág.253
«A electricidade confere aos fracos e aos sofredores uma poderosa voz, ao mesmo tempo que afasta a especialização burocrática», pág.258
«Um pouco por toda a parte, o orgânico tem vindo a suplantar o mecânico», pág.260
«A aceleração é uma fórmula para a dissolução e colapso de qualquer organização», pág.260
«(…) a máquina de escrever representa uma fusão da pena e da espada», pág.264
«(…) as guerras posicionais acabaram», pág.269
«Numa estrutura eléctrica não existem margens», pág. 278
«O homem como recolector de alimentos reaparece incongruentemente como recolector de informação», pág.288
«Há imensa subtileza e sinestesia na arte primitiva(…)», pág.292
«(…) qualquer tarefa especializada dispensa a maioria das nossas faculdades», pág.294
«(…) o sucesso é não apenas perverso mas também o caminho mais seguro para a infelicidade», pág.298
«Se a televisão já existisse em larga escala no tempo de Hitler, este teria desaparecido num instante», pág.302
«A rádio propiciou a primeira experiência massiva de implosão electrónica (…)», pág.303
«A ênfase na literacia é um sinal distintivo das regiões que se esforçam por iniciar esse processo de estandardização (…)», pág.304
«(…) os efeitos da rádio são em grande medida independentes da sua programação», pág.308
«Toda a gente vivencia muito mais do que compreende», pág.321
«Se o meio é de alta definição, a participação é baixa», pág.321
«A televisão é um meio que tem mais que ver com a reacção do que com a acção», pág.322
«O movimento ecuménico é sinónimo de tecnologia eléctrica», pág.323
«A América europeíza-se hoje tão rapidamente quanto a Europa se americaniza», pág.324
«(...) numa terra de cegos, quem tem um olho não é rei; pelo contrário é encarado como um lunático alucinado», pág.335
«De dia para dia, a pena torna-se mais forte do que a espada», pág.341
«(...) há uma relação entre a educação e a pontaria», pág.344
«Com a tecnologia eléctrica instantânea, o globo nunca será maior do que uma aldeia», pág.346
«Qualquer matéria, se estudada em profundidade, relaciona-se imediatamente com todas as outras», pág.350
«(...) descobrir o desconhecido no conhecido - tão necessário para a compreensão da vida das formas», pág.355.

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quarta-feira, 3 de julho de 2013

Co-operar


Antes do Dia Internacional das Cooperativas, perspectivamos a competitividade da cooperação, as vantagens de laborar com - e não contra - o(s) outro(s).

Texto e fotografia Dina Cristo

Uma das fontes mais profundas da competição é o pensamento de escassez. A sensação de insuficiência é um pressuposto que gera medo de não conseguir ter o que se necessita, o que conduz à luta pelo poder, para melhor controlar e dominar. A ideia de igualdade é outro importante factor que está na base do desejo de distinção, frequentemente de acordo com expectativas exteriores.
A consciência individual, o interesse pessoal, fazem do individualismo uma das causas mais influentes para relações competitivas, com ênfase na astúcia. «Competição ou espírito agonístico são, na nossa perspectiva, a mesma coisa. Resultam da incapacidade de sair de si próprio, no desejo de se sobrepor, ao invés de se identificar com o outro», elucida Clara Tavares[1].
Da comparação nasce uma sensação de privação relativa, o que provoca uma espécie de corrida social, para ver quem chega primeiro (ao ponto mais alto), à ostentação (de títulos e/ou de bens), como forma de sinalizar ascensão e posição social, na esperança de que esta traga algum respeito - uma ambição de diferenciação que incrementou a mobilidade social, sobretudo depois da Revolução Americana, como explica Abílio Oliveira[11].
Este foco egoísta e separatista expressa-se por uma atitude contra a Natureza, incluindo a Humana, cujo objectivo é tirar vantagens, explorar, lucrar, acumular, apropriar-se. Esta postura “anti”, meramente receptiva e coadjuvada por um estilo de vida rápida, vacilante e ensopada em quantidade, não vai, contudo, além da repetição, da homogeneidade e da uniformização.
Os seus pontos de partida reaparecem à chegada: isolamento, conflito, inimizade, agressividade, bloqueio, stress, vazio. No final, os frutos são idênticos à raiz desta “árvore”, enfraquecida em combate para ser alguém: violência, crueldade, aprisionamento, doença, indiferença e consumismo. Resulta desta relação incorrecta, após a eliminação, dominação, destruição e exaustão, ainda mais pobreza, separação, insegurança e uniformidade.
Carlos Cardoso Aveline refere, no entanto, como se trata de uma reacção em crise: «As ideologias da luta competitiva, baseadas na premissa de que o mundo é mau e o homem não presta, não sobreviverão à sociedade patriarcal que já está aos pedaços, como uma placenta que se rompe na hora do parto»[2]. «A maioria das espécies extintas ao longo do tempo» sustenta o autor no mesmo livro «não desapareceu pela competição entre si, mas por mudanças climáticasdrásticas ou doenças epidêmicas»[3]. A maior parte dos animais, argumenta ainda o autor - são sociais e dependem bastante da ajuda mútua para sobreviver.

Cooperar é natural

F.J.C. Jr. defende que a cooperação é a verdadeira essência da civilização. Ela está presente desde a célula, como esclarece Lynn Margulis, até à conversação, como argumenta Grice, constituindo a base da economia medieval, designadamente através das guildas ou do trabalho colaborativo e anónimo, de construção colectiva das Igrejas. Está actualmente presente em actos como, por exemplo, o Biogás ou o aperto de mão, uma troca entre o princípio activo (emissor) e o passivo (receptor).
Ao contrário da competição, parte do princípio de que existem recursos não só suficientes mas também abundantes, o que gera confiança, além de diversos e diferentes, o que predispõe ao desenvolvimento do potencial existente, mais interior, e à sua manifestação, através da doação e partilha, e ao reconhecimento, gerando satisfação, gratidão e cada vez mais riqueza, material e psicológica. É o caso de todo o ovo ou semente, testemunho da capacidade criadora e multiplicadora da Natureza, e do jogo win-win, aplicado no âmbito da comunicação não violenta, em que todos ganham.
Orientados por uma consciência mais social e colectiva, os cooperantes baseiam a sua actuação em harmonia com os outros (e não contra eles), numa atitude sã e amiga, em união livre, com ganhos mútuos e apoio recíproco sem esquecer os valores da solidariedade, fraternidade, camaradagem, comunhão e altruísmo. Nesta parceria horizontal e correcta, com o ponto Alfa e Òmega a coincidirem na pacificação, segurança e comunicação, tem lugar a gratuitidade, a compaixão, a inclusão, tal como a amizade ou o amor.
Os resultados de força, esperança e plenitude reflectem as intenções comunitárias, de troca, circulação, fluidez e comunicação, as finalidades de identificar, aproximar, associar, conciliar ou de tornar comum e mesmo como um. Em vez de se procurar ser alguém, destacado, é-se ninguém, nesta floresta sã, qual rede humana de interdependência, círculo que cuida, protege, apoia e convive em uni(ci)dade.
A atitude em que as acções são compartilhadas, os benefícios distribuídos e os objectivos comuns, em alinhamento com a intenção original, manifesta-se nas confrarias, cooperativas, misericórdias, casas mútuas e do povo. Com uma Aliança Internacional desde os anos 60, o espírito cooperativo renasce hoje nas mais diversas actividades, desde a pedagogia (colaborativa) à agricultura (permacultura), passando pela saúde (homeopatia).
«À medida que o tempo marcha, o clamor crescente será para mais e mais cooperação – porque, vivendo em cooperação num mundo global, nós encontraremos a paz e a abundância para todos os povos, indiferentemente da raça ou credo», assegura F.J.R. Jr. É a compreensão, aceitação e aplicação da predisposição natural colaborativa - do interesse mútuo e do trabalho em equipa, própria do dois - e complementar existente entre todos os pares de opostos, que se procuram, necessitam e completam para assim poderem criar.
Quando a Humanidade deixar de competir consigo, com os outros e com a Natureza, numa atitude hostil, e passar a cooperar com todos, poderá recuperar a graça e a alegria. Se, desde bebés, Homens e Mulheres deixarem de ter de concorrer pela atenção de um adulto e de uma relação duradoura e segura, poderão, religados, resgatar a sua vocação cooperativa. Nessa altura, sem motivo para guerras, os Seres Humanos terão espaço, tempo, dinheiro, tecnologia e criatividade suficientes para proteger as plantas e os animais, e se elevarem a planos mais subtis e refinados.


[1] TAVARES, Clara - in Biosofia, nº38, pág.43. [11] OLIVEIRA, Abílio; GRAÇA, João  - Privação relativa – porque não vivemos mais satisfeitos in Biosofia, nº38, pág.4-8. 2011.
[2] AVELINE, Carlos Cardoso -  Aqui e Agora, para viver até ao séc.XXI, Editora Sinodal, 1985, pág.39. [3] Idem, pág. 25.

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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Arrefecimento mediático?

Seis anos depois de realizarmos a Conferência sobre Informação Solidária(ante)vemos alguns sinais do (sobre)aquecimento mediático.

Texto Dina Cristo pintura Lídia Pinto

A exclusão do sujeito e o tomar a parte, assim, incompleta pelo todo transformou-se numa informação distanciada, objectiva e exclusiva de que resultou a crise de imprensa, em que de tanto afastamento os leitores a abandonaram tal como a atitude dos eleitores em relação aos políticos.
Agora, para recuperar da crise, o próprio jornalismo público defende o restabelecimento da ligação, do vínculo entre (e)leitores e agenda dos media e a agenda política, com envolvimento e participação.
Tal religação é também hoje defendida no âmbito do novo paradigma da ciência, holístico (quer o reaparecimento do sujeito enquanto tal quer no próprio objecto), na ética do cuidado (com a importância pública e profissional da atenção ao outro) – também aplicada aos jornalistas – e da informação social, com tripé mais equilibrado entre os líderes, acções, fontes e perspectivas não só política e económica mas também social.
Immanuel Kant chamava a atenção para o facto de o nível racional corresponder ao cumprimento da lei moral, sendo o amor aos outros a principal moralidade, que inclui não só o cumprimento da lei (mera legalidade) mas sobretudo o espírito da lei, por mor dela, ou seja, de forma desinteressada e impessoal.
Ora a informação irracional - que responde à satisfação das inclinações pessoais e dos interesses particulares, do mundo dos sentidos e dos fenómenos – e saturada, em alta definição e resolução de hoje, sem espaço para a reflexão, corresponde, em certa medida, à noção de colonização mediática, defendida por Adorno.
O sistema mediático, que apesar de ter como origem a lifeworld, autonomizou-se dela de tal forma que desenvolveu, dentro da complexidade das sociedades modernas, a especialidade e os códigos legais – que além de reduzir a necessidade de troca, entendimento partilhado e consenso, através da comunicação – delegando neles de tal forma o seu poder que passou a penetrar e até a determinar a própria vida de todos os dias. Os vários sistemas criados pelo ser humano, entre os quais o mediático, passaram não só a influenciar o quotidiano como a dominá-lo.
Numa acepção mcluhaniana, os meios verticais, unilaterais, fechados, agressivos e uniformes, já de si quentes, estão em sobreaquecimento, intensificando o seu carácter activo, distante, controlador, quantitativo e objectivo. Contudo, como nada está em expansão permanente, além de que o ponto de não retorno da sua ampliação conduzirá ao seu contrário, à contracção, é previsível (tal como ao nível climático) o arrefecimento.
Tal processo implica, ao nível mediático, uma maior aproximação à horizontalidade, bi e multeralidade, canais mais abertos, de baixa definição e espaço para a interpretação e participação do sujeito receptor, inclusão do feed-back, da subjectividade e da qualidade – dando valor não apenas ao rigor, aos números, aos factos e object(iv)os, mas também à compaixão, ao significado, às intenções, aos princípios e valores.
A deslocação para meios mais frios, passivos, receptivos, lentos e amplos, com efeitos ao nível da moderação e equilíbrio mediático, implica, ao nível informativo, também um jornalismo mais compreensivo, compassivo, democrático, integrando a diversidade, com implicações ao nível da unificação e da verdade dos relatos, representações e interpretações.
O arrefecimento mediático, mais soft e slow, verifica-se ao nível do maior envolvimento, quer do sujeito emissor, mais comprometido, quer do receptor, mais implicado na agency social. Tal significa menos informação e mais útil – capaz de se traduzir numa (mudança de) atitude efectiva.
Os media e a informação que produzem, neste âmbito, torna-se mais humilde, tolerante, diferente e sintética, com poder não ao nível do controlo informativo mas do desenvolvimento da comunicação. Enquanto se mantiverem ao nível de meios técnicos, extensões criadas pela humanidade, esta conserva-se enquanto fim, assegurando a sua dignidade e evitando que, em circunstância alguma, os humanos se tornem um meio sendo a técnica pervertida num fim em si mesma – a Humanidade como extensão tecnológica.
Esta moderação dos media traduz-se numa descolonização do sistema mediático: meios menos hierárquicos, ruidosos, analíticos, de alta definição também conceptual e resolução cultural, o que significa, segundo a escola crítica, menos dominadores e manipuladores. Diminuir a definição implica menos controlo na limitação do todo na parte (codificada) e uma alta informação, preservando a dialéctica, o conflito enriquecedor entre as partes, deixadas em aberto pelos criadores para que o receptor as possa recriar.
A valorização nomeadamente da rádio comunitária - indício de um maior equilíbrio entre a via pública, massiva, mais colectiva, e a via privada, de elite, mais individual, sinal não apenas de uma fase grupal, mais moderada, portanto, mas igualmente de uma efectiva religação, participação e envolvimento, tal como é pretendido pelos defensores do jornalismo público – é um reflexo da descolonização mediática.
Quando as preocupações dos cidadãos são relatadas, debatidas e procuradas soluções, como no caso do jornalismo social – onde o cuidado colocado nas várias relações e tarefas durante o processo de produção informativa, como as fontes e a linguagem usada – o público mostra interesse, interage, toma parte e envolve-se, num espaço auditivo apropriado, nem demasiado próximo nem excessivamente distante.
A acção concreta dos agentes mediáticos no âmbito social está a contribuir para a transformação do sistema, em algo mais harmonioso, contemplando não apenas a acção rápida, automática e interessada de qualquer dos seus agentes, mas atendendo igualmente à recepção, com mais baixa frequência e melhor processamento da informação, mais profundamente entendida e desinteressada – assente no princípio do bem comum, da comunicação e da comunidade – numa consciência e identidade já não líquida mas gasosa correspondente ao estágio pós-convencional de Kohlberg, indicativo de um círculo de cuidado e atenção de carácter universal.
É notória a tentativa actual para colocar o social no seio de grande parte do discurso e preocupações públicas, desde a teoria e pesquisa social até à comunicação social, passando pela semiótica social, função social, estrutura social, construção social da realidade, instituição social, relação social, agente social, estado social, segurança social, solidariedade social, justiça social ou, entre outras ainda, desenvolvimento social. Ao nível dos media, Ignatio Ramonet aponta a dimensão do quinto poder e Alicia Cytrynblum da informação social.
O decreto InterMirifica começa a produzir os seus efeitos, para além dos media sociais, nas redes sociais ou no jornalismo participativo - onde sob o argumento da interacçção e intervenção do receptor, se atinge a sua colaboração voluntária e graciosa na produção e reprodução de acontecimentos, transformando-o, na prática, em distribuidor gratuito de notícias, sendo explorado, muitas vezes sem tal consciência, dada o carácter sedutor, imediato e de aparente facilidade – numa real interdependência, integrando e ultrapassando a dicotomia entre a dependência, solidária e colectiva, e a independência, livre e individual.
Há, pois, sinais de arrefecimento mediático concretizando a designação “Meios de Comunicação Social” e de fortalecimento do meio sonoro, constantemente presente no audiovisual – omnipresente, subtil e invisivelmente, o que é fonte de poder e veículo de retribalização, à escala global, promovida pela actual digitalização que, por sinal, deixa mais espaço de transmissão disponível, capacitando-a para receber novos e diversos emissores.
Assiste-se, assim, à tentativa de religar e cuidar das partes excluídas, até aqui censuradas, por uma razão parcial, degenerada, distorcida e corrompida pelos mass media e a indústria cultural, como Adorno denunciou, rebaixada à impureza, à instrumentalidade e ao utilitarismo. A expressão da subjectividade, assim recuperada, será, pois, um reflexo da regeneração da razão, como Kant defendeu, o que significa o restabelecimento da centralidade do sujeito que, no âmbito do novo paradigma científico, se aprofunda mais pela colocação da Natureza no centro da própria pessoa, já de si nuclear nas formas pós-modernas de conhecimento.
Este reaparecimento do sujeito, da razão desembrutecida, da descolonização do sistema mediático na lifeworld - após a sua saturação, ao penetrar na própria vida social, indiferenciando a vida produtiva do espaço-tempo de lazer - implica a renovação da identidade e da consciência, com consequências ao nível da agency grupal, temperada, após o desequilíbrio entre o excesso e a falta de solidariedade, ambas inibidoras da acção social, da passagem da benevolência à beneficência, próxima e concreta.
Após a separação, o distanciamento, a exclusão, a razão enfraquecida, a colonização, o aquecimento, o domínio do sistema, em várias áreas sociais, da política ao jornalismo, há indícios (d)e vontade de (re)união das partes extirpadas, como a natureza mental, interior e subjectiva, de (re)aproximação, de (re)integração no todo original, de valorização da lifeworld, da purificação da razão, com um interesse cada vez mais impessoal e transpessoal, manifestada em novas disciplinas especializadas na área social, como a Semiótica social, a Jurisdição social ou também solidária, como a Economia ou o Turismo.
Num meio quente como a rádio, estimulante de um único sentido, a audição, tipicamente tribal, das sociedades arcaicas – prévias à complexidade e especialidade moderna – há sinais de arrefecimento depois da colonização informativa, como ocorreu no Rádio Clube de Moçambique, entre 1953 e 1973, com o aumento progressivo de horas de emissão de “A Voz de Moçambique” bem como a expansão, intensificada no período de Marcello Caetano, dos Emissores Regionais - uma forma mais agradável, subtil e próxima de a fazer infiltrar nos povos autóctones.
O (sobre)aquecimento mediático, a aceleração, a expansão, a saturação e a limitação máxima de espaço e tempo à participação terá, atingido o seu nível máximo, um efeito contrário, ou seja, de desaceleração, de (s)low information, mais ‘silenciosa’ e espaçosa, por forma a permitir o envolvimento democratizado, agora à escala digital e planetária e, portanto, uma maior aproximação, (re)ligação, comunicação e unidade social livre e com base na diversidade, o que, após os períodos de forte ênfase quer no comunitarismo, na ordem e na estabilidade social, quer no individualismo, na liberdade e na mudança social, acelerará o processo de retribalização universal e de fusão grupal.

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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Vida comum


No dia em que Dieter Duhm, fundador de Tamera, completa 70 anos de idade, analisamos duas necessidades humanas essenciais: a liberdade individual e a protecção social.

Texto e fotografia Dina Cristo


Uns procuram a expressão, o desenvolvimento, o aperfeiçoamento individual, outros a aceitação, a integração, o apoio e a ordem social. Será esta uma escolha inevitável ou duas forças possíveis de conciliar? Segundo José Flórido a individuação como a colectivização são duas leis possíveis de se compatibilizar e equilibrar. Tal é possível na última etapa de desenvolvimento humano. Até lá existem três fases prévias: a primeira é a de egoísmo e separatividade, correspondente à individuação em sentido negativo, quando o indivíduo quer conquistar sem esforço e sem aceitação das imposições sociais.

A segunda etapa, a da colectivização em sentido negativo, é quando a sociedade tenta absorver o indivíduo não deixando expressar livremente a sua criatividade, pelo que ele adopta os códigos, hábitos, usos e costumes sociais da maioria. Só depois, na terceira fase é possível a individuação positiva, quando o indivíduo, respeitando os outros, pretende expressar a sua individualidade e ser ele próprio. É na quarta fase, da colectivização positiva, que se atinge o altruísmo e a relação de amor com todos os seres, quando, ao desenvolver ao máximo as suas faculdades criadoras, o Ser Humano as utiliza em benefício da colectividade.

Evolução

Nas sociedades tradicionais e tribais as pessoas estavam unidas pela semelhança e conformavam-se devido à lei repressiva – a obrigação normativa e moral era sentido como natural tal como a solidariedade mecânica, com fortes laços sociais. Nas sociedades modernas os seus membros passaram a estar unidos pela diferença, regidos por uma lei restitutiva, que garante o direito à equidade, e pela solidariedade orgânica, assegurada ora pelo trabalho especializado ora pela cidadania democrática.

Com a industrialização, a massificação, o êxodo rural e os nacionalismos, as pessoas, em novo ambiente social, cultural e laboral, além de deslocalizadas, “exiladas”, atomizadas, no anonimato e desprezo das grande cidades, tornaram-se mais vulneráveis à cultura, dominação e manipulação mediática, controlo e vigilância social bem como a alienação pessoal.

Baseada na homogeneidade, no isolamento involuntário, as sociedades de massa transformaram-se em campos geradores de dependência (manifestados, por exemplo, em excessiva extroversão, para chamar a atenção, ou introversão, por receio de desaprovação) e propícios à exploração, à necessidade de cobiçar e extorquir no colectivo bens e pessoas, no máximo de quantidade e superficialidade, em benefício próprio, para satisfação dos seus interesses pessoais. Neste nível de desenvolvimento material, ainda infantil, faz-se sentir o narcisismo, a sociopatologia e a domesticação social - que condiciona, limita e aprisiona o indivíduo - a obediência, por um lado, por medo, e a necessidade de “protecção” e apoio, por outro. 
Não é, contudo, através do condicionamento, opressão, obstrução e castração do desenvolvimento individual, da exploração da vida social em prol dos interesses particulares e da satisfação instrumental que se pode fundamentar o desenvolvimento social saudável. Este implica o desabrochar mais livre das potencialidades e peculiaridades de cada ser humano, das diferentes formas de expressão (cultural) das necessidades e sonhos, esses sim, idênticos. O (re)conhecimento (e preservação) das particularidades de cada ser humano, da diversidade humana, é essencial pois são recursos que, mais tarde, serão postos em prática a favor da própria vida colectiva.

A fase de individualização, que pode implicar um afastamento da vida social intensa e fútil, é quantas vezes negativamente conotado como anti-social. Confunde-se a integração no sistema social (mediático, político, económico, etc.) com a integração social propriamente dita, na vida de todos os dias, do qual praticamente ninguém, na verdade, está excluído. Rubem Alves mostra, na crónica “solidão amiga”, os aspectos positivos do isolamento voluntário: tempo-espaço para a criação de obras de arte e a comunhão - consigo, com os outros, com a natureza – em que o “estar junto” é bem diferente do “estar próximo”.

Quando o individuo se afasta para ver melhor, para se conhecer e poder expressar e realizar a partir da sua identidade central, integral e profunda desencadeia o processo de individuação, um campo íntimo, de liberdade, autonomia e segurança. O séc. XIX e o romantismo foi fértil precisamente em dar espaço à Subjectividade, ao sentimento, ao Eu interior, pessoal e privado, que se auto-regula em detrimento do ser mais exterior, público, impessoal e objectivo, dos lugares e da hétero-regulação. Em vez da super-estrutura social, causal, teórica, ideal, colectiva e determinística, a infra-estrutura prática, material, individual, âmbito de acção de livre arbítrio, hoje exercido sobretudo ao nível do discurso.

Aceite a riqueza da diferença (posturas, valores, motivações e finalidades, por exemplo), inscrita num âmbito de (auto)conhecimento mais profundo, embora ainda separatista e discriminatório, eis um estado mais adulto de independência, liberdade, responsabilidade e realização. Um estágio cantado, como em “My way”, identificado, como nas deusas virgens – Artémis, Atena e Héstia – correspondentes a padrões de independência – e pensado, por exemplo, por Carlos Cardoso Aveline, que afirma: «Uma certa dose de condicionamento social é inevitável e positiva. Porém é indispensável respeitar, ao mesmo tempo, a necessidade de todo ser humano de estar consigo mesmo, ouvir a voz da sua própria consciência e ter vontade própria».

Comunidade

Só após a experiência da ordem social e da liberdade individual é possível atingir a sua conjugação e conciliação, equilibrando, nas unidades colectivas, as leis da colectivização, mais opressivas e de apego, focadas no todo e no intercâmbio, e da individuação, mais liberais e de desapego, focadas na parte e nas fronteiras. Tal é possível quando se prescinde da dependência social e da independência individual em prol da interdependência, numa visão mais moderada. Numa fase de maior maturidade é, assim, possível, após a falta de personalidade e o seu excesso, encetar uma etapa de despersonalização. É o que se denomina vulgarmente por cidadania, que tem em vista o Bem Comum, o Bem Geral.

Esta maior impessoalidade não significa a eliminação da individualidade mas pelo contrário o colocar as suas competências e talentos em prol da vida comunitária, reunindo a realização individual com a coesão social. Desta forma, quanto mais individual, profundo e original um ser for maior poderá ser a sua contribuição para o todo. Não se trata, pois, de submissão, uniformização ou de separatividade mas de unificação, harmonização e comunhão que hoje começa a ser expressa em comunidades em formação, num nível já não tribal antigo, sub-racional, mas em grupos supra-racionais.

Se na verdade há comunidades que vêm de séculos anteriores, como as religiosas, com as suas Ordens, Mosteiros e Conventos (sendo os Franciscanos um exemplo: os Menores restaurados em 1891, os Conventuais regressados em 1978 e os Capuchinhos entrados em 1939), no séc. XXI nascem e espalham-se pelo mundo cada vez mais comunidades, como os kibutz, ligadas à ecologia profunda, cultivando um estilo de vida simples, sagrado, vinculado, sustentável e com sentido. Já Thomas More, no final do séc.XIX havia imaginado uma sociedade onde o dinheiro era prescindível e ninguém possuía mais do que o necessário.

Em Portugal, Tamera, no Alentejo, é um dos exemplos. Formado como Centro de Pesquisa para a Paz e biótipo de cura, numa perspectiva de acupunctura planetária, ali se desenvolve uma comunidade de seres vivos, além dos humanos, com base na confiança e na cooperação mútua, fundamentada na satisfação das necessidades básicas, como água, alimentação e energia, e valores como a paz e o amor. Apoiada numa tecnologia descentralizada, assente na água (com paisagens de retenção) e no sol, a comunidade, constituída desde 1995, perto de Relíquias, tem por finalidade a (re)formação de uma nova cultura da Era da Deusa, humana, graciosa e harmoniosa.

Neste processo evolutivo da tribo à era grupal há que cuidar de evitar o pseudo-individualismo (diferenciação falsa, separatividade forçada e vi(vi)da em circuito fechado), o excesso de individualismo, motivo de mal-estar que Gilles Lipovetsky explicou, mais presente nos EUA, a sua indistinção da vida comunitária facilitada pela Web 2.0, bem como as tentativas para normalizar e aquietar os indivíduos em questionamento e crescimento, nomeadamente através de medicação.

Hoje, a ideia de que pela união se pode formar uma “constelação” avança e além das redes de Eco-aldeias, existem actualmente Comunidades de Comunidades. Na Europa, onde a ideia da vida colectiva é ainda mais forte, são recordadas quer os bens de uso comunitário, como o boi, o forno, o moinho, numa atitude de abertura, troca e solidariedade, quer os próprios animais com um forte espírito comunitário, como as abelhas, as formigas ou os gansos, que ao voarem em conjunto, em forma de V, reduzindo a resistência do ar, atingem um voo 70% mais longe do que o fariam sozinhos. O lado corporativo, pode representar igualmente um novo espírito grupal construtivo e mediador, entre o indivíduo particular e a sociedade no seu conjunto, nomeadamente as empresas sem fins lucrativos e/ou que actuam na área da responsabilidade social.

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quarta-feira, 21 de maio de 2008

Silenci(ament)o


No Dia Mundial da Comunicação, falamos de silêncio, a condição para a sua existência. Partimos de algumas ideias presentes em “Silêncio e Comunicação”, um livro de Tito Cardoso e Cunha editado, em 2005, pela Livros Horizonte.

Texto Dina Cristo

O silêncio é não só uma condição ao processo (e sua eficácia), como uma forma de comunicação, com sentido denso, relevante e interpretável. Sem este elemento paralinguístico não existiria o espaço de escuta, necessário à reciprocidade de uma verdadeira conversação, memória e interrogação acerca do que fora dito. É a mais sublime forma de organização sonora.

Há dois tipos de silêncio muito distintos: o silenciamento, o “tacere” (informativo), o calar-se, a privação súbita da fala, que se retém; o querer expressar-se mas não se poder ou dever por medo, obediência, submissão, censura, repressão, recalcamento, rigidez. Trata-se de uma opacidade, desde a ignorância (ditatorial) à superficialidade (democrática), que oculta a verdade dolorosa que, por isso, se pretende evitar, esconder, resistir, recusar, desprezar ou dissimular, numa atitude de hostilidade ou reforço do poder autoritário, como um instrumento de hierarquia, que nega o direito do outrem a saber, ou de ignorância do “outro”, a verdade pessoal ou social assim “esquecida”.

Bem diferente é o silêncio, o “scilere” (comunicativo), o estar silencioso, sem falar (porque nada há de relevante para dizer), o estar calado, ma(i)s disposto a ouvir, que indica sabedoria, profundidade, tranquilidade, paz, verdade. Trata-se de um silêncio ecológico: pode expressar-se, mas opta-se livremente pela contenção da palavra a fim de a poupar e proteger de um uso excessivo. É assim que na sociedade tradicional, onde o silêncio é de ouro, é tido como um bem escasso que urge reter e economizar, sobretudo ao nível dos nomes. Temos o caso dos Espartanos (na Grécia prestava-se culto a Muda, a deusa do silêncio), Apaches e Nórdicos.

O silêncio no sentido geral é uma espécie de ponto morto, um tempo de espera (para o qual é preciso ter prudência e paciência), uma pausa, suspensão, prelúdio, um espaço (de questionamento e escuta que permite a conversação e o aprofundamento da interacção) de autenticidade, verdade, não só inaudível mas também invisível, associado à leitura e ao olhar. É também o que escapa ao discurso, o que fica por dizer, devido às limitações das palavras, da linguagem verbal - o inefável, o que haveria para dizer mas não se consegue exprimir. O silêncio, ao contrário da fala, do som, da linguagem, da palavra, do logos, que indicam separação e diferenciação, permite-nos a fusão e indiferenciação, a união, o caos inicial que é a suprema harmonia; é eminentemente humano, implica consentimento, aceitação, respeito, solidão e neutralidade. É considerado uma actividade com diferentes gradações e funções (como a activa, afectiva, cognitiva e comunicativa).

Espiral de ruído

Nas sociedades contemporâneas, depois dos silenciamentos devidos às imposições, perseguições e manipulações políticas, religiosas e comerciais, há hoje uma tendência para à dor da censura contrapor o prazer da verborreia, incontinência verbal vivida com(o) um certo erotismo oral. Prolifera, assim, a tagarelice, insignificante, redundante, imoderada, inautêntica, monólogo imposto que diminui a possibilidade da troca, numa verbosidade facilitada pela individuação. «A tagarelice não é dita para ser ouvida, o que ela revela é o facto de poder dizer-se. Daí que tenda a ser acolhida, não pelo silêncio, mas por uma igual intensidade tagarela numa espiral de ruído por fim mutuamente ensurdecedora».

O discurso é inerente à natureza da relação social, que é ela própria uma violação do silêncio. Ora a sua obliteração é ainda mais favorecida pela vida democrática, que exige publicidade, transparência, sendo no contexto político, considerado o silêncio um luxo, ilegítimo e autoritário. «Para um político, o que hoje em dia se torna verdadeiramente difícil é permanecer em silêncio sobre o que quer que seja (…) o que se quer silenciar tem de se ocultar sob o manto discursivo desviante da atenção (…) Para que um silêncio seja, mesmo assim sustentável, haverá que invocar algum dos princípios inatingíveis e suficientemente intimidatórios como por exemplo o “segredo de justiça” ou então o “interesse nacional”».

Também o individualismo concorre para eliminar o silêncio. «Numa sociedade em que a tendência é a de todos falarem, e falarem obsessivamente de si, só o profissional tecnicamente treinado para a escuta consegue manter o silêncio (…)».

Há como que um esforço colectivo para anular o silêncio (considerando-o anti-natural), facilitado pela tecnologia e fomentado pela indústria dos “media”, consumida como ruído de fundo e mera companhia virtual. «Porque se tem intensificado tanto, nas nossas sociedades, essa angústia do silêncio, provavelmente ela foi gerada pela própria expansão e evolução dos media cuja natureza ou lógica ou economia é incompatível com o silêncio (…). A abolição do silêncio, o seu impedimento compulsivo, resulta da estridência que é a razão de ser dos media num contexto de concorrência e tem por consequência o imediatismo irreflectido e reduzido à sua pura dimensão instintual».

Comunicação empobrecida

Na agenda, mediática, política e pública, reina o ruído em que se perdem dados, acelera informação irrelevante, num fluxo redundante, que perturba, diminui, impede e enfraquece a comunicação. «Tal como o urânio empobrecido das armas as torna mais eficazes na sua acção mortífera, assim também uma comunicação empobrecida a torna mais eficaz como arma de dominação ou manipulação».

A alternativa passa pois por ultrapassar primeiro este ruído (o externo, de que a Lei do Ruído é um incentivo, e o interno, nomeadamente o mental), depois o silenciamento (da dor, deixando-a exprimir-se até se dissipar) até atingir primeiro o silêncio e a paz que vem da dissolução natural do sofrimento, originada pela aceitação em vez da sua ocultação, até ao Silêncio Divino, as Trevas e o Caos, que são o verdadeiro Discurso total, Luz, Ordem e Som porque o «(…) homem cala-se, mas o silêncio é de Deus».

Ao silêncio dedicou a revista Cais o seu número 100, em Julho/Agosto de 2005, onde é elogiado: «Há que redescobrir pois a subtil comunhão e eloquência do silêncio. Como terapia também dos tempos que correm, onde a invenção da solidão e da distância nunca originou tantos frustrados meios de a tentar vencer, aumentando-a afinal. Onde nunca se investiu tanto na comunicação por incapacidade de comungar (…) esse espaço interior do silêncio onde a verdadeira comunicação, que dispensa pensamentos e palavras, se processa naturalmente. Sem o estorvo do ruído mental, materializado na logorreia mediática. Porque, como disse Agostinho da Silva: “[…] o que se tem de importante a participar, ou a comunicar, sempre as duas palavras no seu significado etimológico de fazer do outro uma parte de nós ou um comungante do que somos, isso se faz chegar e a nós volta, mais rico, muito mais pelo silêncio do que pela palavra, escrita ou falada”».

[1]. Crêem nesta atitude, que reforça no entanto o vínculo social, os atenienses (daí o êxito da oratória), meridionais e europeus.[2].[3]. Actualmente, é mais o discurso que visa a todo o custo evitar o temido silêncio do que o inverso. Um investimento, individual e colectivo, na negação ou recusa do silenciamento. E quanto mais discurso existir mais conflito haverá, numa espiral de ruído, desentendimento, frustração e incompreensão.[4]. Sobretudo os “media” audiovisuais vêm o silêncio como uma falha técnica, por isso eliminam as pausas, aceleram o ritmo, aumentando o ruído até ser ensurdecedor e anestesiar as sensações, emoções, cognições e aspirações, não sem o conteúdo ser reduzido a um discurso inessencial.[5]. Profundamente anti-comunicativo, o ruído, que é hoje permanente devido aos “backups”, confunde a mente e atordoa os sentidos, numa tentativa desesperada de evitar a dor da verdade que, assim, se pretende ilusoriamente mascarar. É, pois, uma resistência, um “charivari” social, numa encenação do caos, enquanto desorganização sonora.[6].[7][1] CUNHA, Tito Cardoso – Silêncio e Comunicação. Livros Horizonte. 2005, pág. 35. [2] Idem, pág. 61. [3] Idem, pág. 32. [4] Idem, pág. 47/48. [5] Idem, pág. 44. [6] Idem, pág. 42. [7] BORGES, Paulo – O silêncio do despertar in CAIS, Julho/Agosto, 2005, pág. 90/91.


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