quarta-feira, 29 de abril de 2009

Terra de revoluções


Próximo dos 220 anos da Revolução Francesa, revemos dois séculos de espírito revolucionário. Serão as manifestações hoje indícios de uma nova rebelião?


Texto e fotografia Susana Nunes

Ao longo dos últimos meses, a imprensa revelou que Nicolas Sarkozy, o Presidente da República francês, exprimiu por várias vezes o mesmo receio: nem mais nem menos do que ter o “mesmo” destino que o rei destronado pela Revolução Francesa de 1789, Luís XVI. Pelos vistos, Nicolas Sarkozy considera ter vários pontos em comum com um dos poucos monarcas do mundo a ter sido decapitado. Primeiro e antes de mais, a bela esposa, com “Carlita” como uma versão moderna de Maria Antonieta, segundo, os conselheiros incompetentes, “pois nada é bem feito se não for feito por ele mesmo” e, por último, mas bem mais importante, estes franceses ingratos, sempre prontos para a rebelião, completamente ingovernáveis…
Numa altura em que a polícia teme a falta de efectivos para lidar com as várias manifestações que surgem espontaneamente um pouco por todo o lado na cidade de Paris, será que está para breve uma nova Revolução francesa? O espírito “sans-culotte”, literalmente “sem-calções”, (que nada tem de exibicionista: apenas faz referência ao hábito do povo que não usava calções como os nobres da altura), vive este ainda entre os franceses?
Durante muito tempo, mesmo após o Império de Napoleão ter sucedido à República revolucionária, os franceses continuaram a alimentar a chama da Revolução, e não apenas por ocasião da habitual degustação de uma cabeça de novilho no dia do aniversário da decapitação de Luís XVI: de facto, todo o século XIX foi ritmado por espasmos revolucionários, que frequentemente se propagaram por a toda a Europa, em 1830, 1848 e em 1870. Durante esta época, os tumultos que se fizeram sentir na política francesa determinaram uma boa parte do destino dos povos da Europa. Bastava um mínimo sinal de vida por parte do povo francês para que os restantes soberanos do continente tremessem (excepto, talvez, a rainha de Inglaterra). E, no século XX, se foram as guerras que ritmaram a História, a França não deixou de viver ao ritmo das lutas sociais: movimentos insurrectos antes da I Guerra Mundial, Frente Popular nos anos 30, greves gerais do após guerra... até ao Maio de 68.
Sentido revolucionário
Esta não foi apenas mais uma revolta estudantil, mas também, e sobretudo, uma enorme greve geral (três semanas de greve, nove milhões de grevistas) e um movimento internacional que agitou diferentes povos, desde os Estados Unidos às democracias populares. Novamente, a França parecia revelar o caminho… Mas, curiosamente, é em 68 que a França parece perder aquilo que a tornava tão particular: a capacidade de colocar o sistema em questão para fazer nascer uma sociedade e instituições melhores, mais justas. Maio de 68 foi uma revolução que ficou a meio e que deixou profundas sequelas na mentalidade colectiva dos franceses. Os seus intelectuais, que, de Voltaire a Sartre e Camus, estiveram sempre na frente de combate pela defesa da herança das Luzes, perderam quase todos a credibilidade, tendo sido “substituídos” pelos intelectuais liberais. A Revolução francesa tornou-se numa referência cada vez mais desacreditada.[1] Os marxistas vêem nela principalmente o triunfo da burguesia. Os liberais vêem a génese dos totalitarismos do século XX e, hoje em dia, do terrorismo. Alguns radicais vêem a origem de uma sociedade que defende a dominação branca em nome do universal, incapaz de ter em conta a diversidade humana. A República, neste contexto passou a ser considerada como um regime não revolucionário, um emblema da pacificação social, da ordem. Poderá a República ainda ser revolucionária?
Desde a ascensão da República que as querelas sobre o sentido da Revolução se tinham atenuado. Para a cultura republicana, e como afirmava Clemenceau, “a minha revolução é um bloco”. Foi precisamente para se apagar a chama revolucionária, que se atacou a sua fundação, em 1789. Os liberais dos anos 1970, e especialmente um certo François Furet, destruíram este consenso republicano para desacreditar definitivamente o gosto francês pelas revoluções. “Na véspera de uma data potencialmente perigosa, o bicentenário da Revolução, foi publicado um enorme “Dicionário Crítico da Revolução Francesa” (1200 páginas), abordando eventos, actores, instituições e ideias. As suas centenas de entradas, escritas por cerca de 20 contribuidores escolhidos a dedo, proporcionaram uma base de refutação de algumas lendas de esquerda e de equívocos tradicionais do episódio fundador da democracia moderna. O grandioso impacto deste compêndio de conhecimento moderado, criado e executado de forma impressionante, acabou com qualquer perigo de festejos dos neo-jacobinos em 1989. Quando o bicentenário chegou, Furet foi o incontestável mestre intelectual de cerimónias, enquanto a França prestou homenagem aos princípios fundadores – devidamente clarificados – de 1789, e voltou as costas às últimas atrocidades de 1794. Eliminar o passado errado, e recuperar o certo, foi essencial e inevitável para a chegada atrasada do país ao porto seguro da democracia moderna”. Esquecendo que o período do “Terror” salvou a Revolução face aos exércitos dos soberanos europeus e às insurreições camponesas manipuladas pelos monarquistas, e que a Revolução “deu à França um corpo sólido de camponeses proprietários, ainda hoje considerado como um factor essencial de estabilidade política”
[2], a realidade social foi “transfigurada pelas palavras dos ‘representantes do povo’”[3] e o regime tornou-se numa República burguesa respeitante do direito, e, portanto, da propriedade dos ricos, e protegida das “mudanças de humor” do povo por um sistema representativo. A maneira como se chegou a esta fase não é um mistério: o patronato agiu sorrateiramente, a liberalização liquidou os sindicatos, a queda da URSS liquidou os comunistas, a esquerda desapontou no poder, a direita soube aproveitar-se da revolução conservadora liberal e do populismo e a televisão, privatizada, lavou os espíritos e promoveu líderes de opinião e intelectuais medíocres.Debate público
Algo que é realmente característico ao povo francês é a discussão interminável sobre os princípios e os significados de qualquer acção ou acontecimento. Num artigo publicado na revista Multitudes sobre François Furet, Berger e Riot-Sarcey mencionam o facto de o circuito semiótico ser “o mestre absoluto da política”
[4]. A Revolução Francesa não poderia ser um melhor exemplo: “Trata-se de se saber quem representa o povo, a igualdade, ou a nação: é a capacidade de se ocupar esta posição simbólica, e de a conservar, que define a vitória”[5]. Como refere Jacques Guilhaumou, no artigo “La haine de la Révolution française, une forme de haine de la démocratie”, basta uma denunciação de uma revolução individualista e insistir-se no preço desta revolução[6] para que a revolução social passe para segundo plano e o discurso sobre a democracia se inverta[7]. Neste mesmo artigo, Guilhaumou relembra as palavras de Rancière: “o termo democracia, visto pelo lado negativo, torna-se indistinto do de totalitarismo, substitui-o”. Segundo Hobsbawm[8], verificou-se assim uma marginalização da revolução, e, para se recuperar o seu verdadeiro significado, será necessário discuti-la tendo-se em conta o seu contexto histórico e não o dos dias de hoje, sem se estar ao serviço da política actual. O livro deste autor britânico, “Às armas historiadores. Dois séculos da história da Revolução francesa”, publicado na altura do bicentenário da Revolução, foi imediatamente traduzido pelos editores italianos e espanhóis. No entanto, nenhum editor do próprio país da Revolução decidiu adquirir os direitos de reprodução e publicar a obra em francês, mesmo se bastantes outras obras sobre este acontecimento, mesmo estrangeiras, foram publicadas na altura e nos anos que se seguiram. Na verdade, verificou-se uma grande relutância por parte dos grandes editores franceses face aos autores e trabalhos abertamente contra a ideologia dominante. A sua publicação em 2007 talvez indique que a situação esteja a começar a mudar…
Como comenta Perry Anderson, “A França é, de todos os países europeus, o mais difícil para qualquer estrangeiro de descrever. A sua irascibilidade é o resultado, em primeiro lugar, de tudo o que os franceses produzem sobre eles mesmos, numa dimensão inimaginável em nenhum outro país. Setenta títulos apenas sobre a campanha eleitoral de 2002. Dois mil livros sobre Mitterand. Três mil sobre De Gaulle.”
[9]. Como o próprio De Gaulle afirmou, “A França é inconcebível sem grandiosidade”. Mesmo a língua francesa, outrora a língua do Iluminismo e durante muito tempo o idioma utilizado nas relações diplomáticas mundiais, é sentida como uma língua universal e associada à ideia de civilização francesa (mais do que apenas cultura).Resistência
Se existe um país que tem a revolução na alma, este país é a França. Mesmo hoje, em que o conformismo e o politicamente correcto parecem estar bem presentes e que “a ideia de revolução está em crise”
[10], as ruas desafiam repetidamente o governo: em 1984, em 1986 e, mais recentemente, em 1995, seis semanas de greve consecutivas que bloquearam qualquer tipo de serviço público e uma desordem a nível nacional, que levou à vitória do movimento. Não há, portanto, dúvidas de que a “inflamabilidade popular” é algo inerente ao povo francês. Desde que estou em Paris que já assisti a duas grandes greves gerais. A última, a 19 de Março, reuniu entre 3,23 milhões e um milhão e meio de manifestantes (número oficial), em todo o país. As universidades já estão em greve há mais de um mês, ocasionalmente com direito a portas bloqueadas pelo batalhão de choque. A polícia não sabe como lidar com as manifestações que cada vez se tornam mais espontâneas e imprevisíveis. Há duas semanas que, todos os dias, continuamente, oiço os jambés dos trabalhadores do KFC da esquina (restaurante da cadeia de fast-food Kentucky Fried Chicken). Tomaram o restaurante e estão em greve, exigem que o KFC assine as suas carteiras de trabalho (alguns já estão a trabalhar ilegalmente nestas condições há 10 anos e correm agora o risco de serem expulsos do país). Decididamente, existe um paralelo entre a França pré-revolucionária e a França actual: a ignorância por parte da elite da realidade do povo (“la France d’en bas”). Existe mesmo uma espécie de piada (ou história verídica?) que ilustra perfeitamente esta situação: antes da Revolução de 1789, Maria Antonieta ouve a população que se manifesta e pergunta qual é a razão de tanta algazarra. Esta não percebe o porquê do descontentamento: se eles não têm pão, porque não comem brioche? (É importante salientar que brioche é uma espécie de pão-de-leite, um pão doce, o qual, obviamente, não fazia parte do regime alimentar do povo.)Vocação
Para se encontrar a verdadeira França, aquela que resiste e que se revolta, não se pode procurar nos lugares míticos da Revolução, as Tulherias ou a Bastilha. A prisão já não existe, foi imediatamente demolida após o 14 de Julho por um empresário da construção e pelos seus empregados. Esta não abrigava na véspera do 14 de Julho mais do que uma dezena de prisioneiros – a maior parte filhos de boas famílias em prisão temporária por embriaguez, e, pelos vistos, existiu mesmo uma conspiração que dirigiu astuciosamente a cólera do povo para esta velha prisão, por pura especulação imobiliária! É também inútil procurar-se esta França na universidade Sorbonne ou no bairro de “Germain des Prés”, que outrora abrigaram a contestação e os intelectuais, mas onde actualmente nos cruzamos com mais polícias do que estudantes. Para se encontrar a França de amanhã, aquela que, talvez em breve, voltará a fazer História, é preciso apanhar-se o metro e afastar-se do centro de Paris. É preciso olhar-se para esta juventude urbana mestiça que se revoltou violentamente em 2005, suscitando a atenção de todo o mundo. É preciso olhar-se para a França “média” da província que teme que os seus filhos não consigam, pelo menos, alcançar o mesmo estilo de vida que os pais, perdendo o conforto conquistado arduamente pelas gerações anteriores. São estes quem fará a próxima revolução.

[1] ANDERSON, Perry (2004), "Dégringolade”, in London Review of Books; [2] HOBSBAWM, Eric (2007), Aux armes, historiens. Deux siècles d’histoire de la Révolution française. La Découverte; [3] BERGER, Denis, RIOT-SARCEY, Michèle (2005), “Francois Furet : l’histoire comme idéologie”, Multitudes; [4] Ibidem; [5] Ibidem; [6] HOBSBAWM, Eric, “Aux armes, historiens !”, programa especial da emissão radiofónica “Là-bas si j'y suis”, de Daniel Mermet, difundida pela rádio France Inter, a 8 de Janeiro de 2008; [7] GUILHAUMOU, Jacques (2006), “La haine de la Révolution française, une forme de haine de la démocratie”, in Révolution Française.net; [8] HOBSBAWM, Eric, “Aux armes, historiens !”, programa especial da emissão radiofónica “Là-bas si j'y suis”, de Daniel Mermet, difundida pela rádio France Inter, a 8 de Janeiro de 2008; [9] ANDERSON, Perry (2004), "Dégringolade”, in London Review of Books; [10] BERGER, Denis, RIOT-SARCEY, Michèle (2005), “Francois Furet : l’histoire comme idéologie”, Multitudes.

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quarta-feira, 25 de abril de 2012

(Des)ordem social


Qual a liberdade de acção individual dentro de uma estrutura sócio-política, como a do Estado democrático? Respondemos, em pleno 25 de Abril, recorrendo ao pensamento clássico*.

Texto e fotografia Dina Cristo

A Teoria Social Clássica é um comentário crítico e pós-renascentista ao mundo moderno, às tendências sociais de longa duração do séc.XIX, altura em que se formou, após as novas condições, de expansão económica e liberdade política, decorrentes da Revolução Francesa e da Revolução Industrial.
A mudança social ocorrida com a modernidade deu-lhe, agora autonomizada da Filosofia (política e social) e diferenciada das Ciências Naturais, temas como o capitalismo, o mercado, a industrialização, a urbanização, a divisão do trabalho, a racionalização, a burocracia, a democratização, a individualização, a secularização ou a imigração. Vários destes e de outros assuntos, como a família, o sistema educativo, a linguagem ou a etnicidade, são investigados enquanto instituições sociais.
Entre os principais problemas estudados estão a “estrutura” - força externa que determina a vida dos indivíduos, correspondente aos constrangimentos, económicos, segundo Marx, morais, segundo Durkheim, e políticos, segundo Tocqueville - e a “acção” - esfera de actuação dos actores sociais, onde fazem as suas escolhas, de forma mais livre e autónoma.
Karl Marx, ao criticar o idealismo alemão, enfatiza a importância da infra-estrutura, a base material, económica, prática, a acção, onde teria lugar a luta de classes por forma a atingir a harmonia social e ultrapassar o conflito, proveniente dos direitos de propriedade privada, próprios do modo de produção capitalista, com interesses oponentes entre capitalistas e assalariados, que incluía meios de produção concentrados e relações sociais de produção (de exploração).
Por seu lado, Émile Durkheim enfatiza a super-estrutura, normativa, das ideias e ideais – facto social capaz de exercer constrangimento externo sobre o indivíduo. É o caso da solidariedade social, que implica um sentido de obrigação moral, reflectido na lei, dominante embora apetecida, que regula e molda a acção social.
Quer seja mecânica - como nas sociedades mais tradicionais, unidas pela semelhança, laços de parentesco e vizinhança, com um nível mais intenso e “natural” de relação social, tendo em vista o conformismo gerado pela organização legal repressiva – quer seja orgânica – com nas sociedades mais modernas, unidas pela diferença e pela interdependência gerada pela divisão do trabalho social, a especialização, com uma organização legal restitutiva, reconhecendo o direito à equidade – a solidariedade social possibilita o terceiro problema mais estudado: a ordem, a estabilidade social.
Enquanto que para Durkheim, a diferenciação individual, própria da modernidade, mantém a sociedade unificada, através da divisão do trabalho, que liga e entrelaça os diversos indivíduos, para Max Weber responsabiliza o actor individual, o sujeito cognoscente, pelas suas escolhas, já que o sentido da sua acção é, agora, construído segundo diferentes percepções subjectivas, pontos de vista, valores e interesses, quer ideias quer materiais, pessoais, embora cada vez mais dominados pela burocracia, racionalização e calculismo, criando um mundo, autêntica “gaiola de ferro”, gerador de desencantamento.
Ao contrário da acção utilitarista e estratégica, com objectivos planeados, em que os meios (nomeadamente técnicos) substituem os fins humanos, Max Weber observou como a actuação humana tem consequências involuntárias e dela resultam instituições e uma estrutura, como foi o caso da auto-disciplina e responsabilidade moral protestante que, sem intenção, deu lugar à vocação empresarial e ao capitalismo. O autor, combinou, assim, a consciência subjectiva e o interesse material, reintegrando a estrutura e a acção na vida social, através, não do poder, coercivo, mas, da dominação legítima, com acordo voluntário.
Já anteriormente Alexis de Tocqueville havia notado que a liberdade individual fora ameaçada pelo Estado democrático moderno, totalizador e centralizador, com poder, extremo, total, monopolizador, ubíquo e omnipotente, sobre o território nacional, garantido na lei, regra que limita a vida. Um poder despótico, absolutizante, baseado na massificação e na racionalização, eliminador dos vestígios das soberanias fragmentadas do feudalismo e da aristocracia, autoridade tradicional dispersa, durante o Antigo Regime, pré-revolucionário. O impacto da centralização governamental e da dominação burocrática pode, no entanto, segundo Tocqueville, ser controlado e limitado através da participação política, associativismo e independência do sistema judicial.
Georg Simmel, ao colocar a ênfase no consumo, como expressão da sensibilidade individual, faz a ponte entre a Teoria Social do Velho Continente, focada nas macro-estruturas, como a classe e o estatuto, e a do Novo Continente, que privilegia o Eu secularizado, construído e desenvolvido no âmbito das expectativas e enquadramento social, tal como estudado por Herbert Mead.
Uma sociedade civil, cada vez mais plural e complexa, onde o indivíduo socializado é capaz, mesmo numa economia monetária e na vida urbana atomizadora e impessoal, de criar espaços de relacionamento social e de lazer, com interacção social, (in)visível e (in)formal, reciprocidade e (sub)culturas urbanas, estudadas por Robert Park da Escola de Chicago é, pois, o contributo da Teoria Social americana - surgida no final do séc.XIX, para inovar a agenda da Teoria Social clássica – sem, contudo, as suas investigações, mais empíricas, terem conseguido, ao contrário das europeias, articular a estrutura colectiva, de base política, cultural, legal e religiosa, com a acção pessoal.
Robert Holton defende que a vida social é baseada em causas múltiplas (como afirmava Weber), constitui uma estrutura organizada (a entidade supra-orgânica, de que falava Durkheim) simultaneamente aberta à acção dos agentes sociais, que a reconstroem e restruturam.
Apesar de analisar os méritos e limitações de vários autores, Holton defende que há, ainda por superar, um défice de investigação dos principais problemas sociais, a um nível que vá além da visão europeia e americana, do género masculino e do âmbito racional.


* HOLTON, Robert – Teoria Social Clássica, Cap. 1, in TURNER, Bryan - Teoria Social, Difel, pág. 23-50.

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quarta-feira, 16 de julho de 2008

Informação sustentável

Quase a completar um ano, publicamos a primeira parte de um artigo sobre a fonte inspiradora deste projecto: a informação solidária.

Texto e fotografia Dina Cristo

Ao encetar o terceiro milénio, eis uma nova proposta de concepção e prática informativa: solidária, profunda, cooperativa, diversificada, sintética, lenta e humana. Uma alternativa à dominação das técnicas de manipulação e propaganda, que poluem a imprensa e intoxicam os cidadãos; uma resposta ao nível da comunicação social da mudança para um paradigma pacífico, ecológico e responsável.
Numa sociedade de consumo, onde quase tudo está à venda, com um preço de acordo com o nível de procura, e num sistema capitalista, que privilegia o capital económico-financeiro em detrimento de valores de honradez ou nobreza de carácter, o público está facilmente exposto aos riscos da comunicação hiper-industrializada, fértil em manipulação, em doses massivas de propaganda, de terror informativo, de incitamento ao medo, à dependência, ao isolamento e à inacção, apesar de todos os discursos em prol da cidadania activa e participativa visando o aprofundamento de uma sociedade democrática.
A informação solidária (IS) pretende dar instrumentos e condições para libertar o ser humano, seja ele produtor ou consumidor de informação, da dependência de quem o manipula, abusando da sua boa-fé, da sua confiança e ingenuidade para, através do estimulo de desejos, o conduzir a adoptar os comportamentos estrategicamente previstos.
O seu meio privilegiado é o webjornalismo, campo mais propício ao desenvolvimento deste movimento informativo, onde a par de uma nova agenda para a paz, com todas as suas repercussões, ganham importância novas áreas como a da responsabilidade social e a defesa de um quinto poder.
Quando o argumento mais comum para o terror informativo é o de que o mundo precisa de saber o que se passa, e, na sociedade da imagem, mostrar é uma forma de esconder aquilo que não se pretende que se saiba, o jornalismo tradicional está ainda na razão inversa da “informação”.
Património informativo


O século XX foi uma centúria de opressão, censura, manipulação, propaganda, distracção, entretenimento, “infotainment”, de adormecimento, alienação, dependência, inconsciência, irresponsabilidade e impotência, como mostra o documentário “Zeitgeist”. A propaganda manipula o cidadão e controla-o através do medo e das emoções, mantendo-o quieto, como se faz às crianças quando se tira da cartola o “bicho papão”.
No início do século XX um elemento de uma tribo desenhava-nos o perfil de ocidentais no que têm de pior ao nível da comunicação em sociedade: a prisão - dos apartamentos, das salas de cinema, dos próprios jornais -, a falta de contacto com a realidade. A necessidade de mediação, a leitura e interpretação da realidade em substituição da experiência directa e a homogeneidade. “Papalagui” mostra como a superioridade das culturas se reduz a uma questão de perspectiva e mais ainda de etnocentrismo, egoísmo em termos colectivos, arrogância em alguns casos e incompreensão em muitos deles. Fala-nos do excesso de informação e da “indigestão” que tal causa; o princípio de que nem tudo o que ingerimos é assimilado, neste caso pelo organismo mental.
A evolução da consciência humana quanto à manipulação (dos “media”), por um lado, e à necessidade de auto-realização, por outro, através de uma vida pacífica e harmoniosa, interna e externamente, a nível individual e colectivo, repercutiu-se num novo paradigma civilizacional e mediático, representado pela informação solidária.
Este novo modelo de comunicação social valoriza a força da união e da liberdade em detrimento da fraqueza do isolamento, permeável ao abuso e à opressão. A proposta é de uma maior consciência, autonomia e responsabilidade do Emerec, que ofereça protecção ao cárcere da segregação, competição, egotismo e isolamento, condições propícias a que a indústria cultural manipule o público, fragilizado.
O “segredo” de gerar consenso social para que as entidades empresariais possam ter o apoio dos próprios cidadãos, frágeis, isolados e crédulos, aos interesses daqueles, de colocar a maioria da população ao lado, de acordo, ou pelo menos não se mostrar contra, e silenciá-la, sem proibi-la de falar, está na indústria das relações públicas, que convence o público a acreditar nas mensagens falsas ou ideias distorcidas. A massa, como uma criança, confia e acredita em quem tem legalmente o poder de a informar.
Perante este voto de confiança, por vezes às cegas, a indústria das relações públicas persuade o público acerca de quase tudo, necessidades, veracidade das informações, e transforma as suas crenças e convicções em equívocos mal compreendidos, numa dependência, vitimação e necessidade de aprovação que só aumenta em ciclo a sua falta de confiança. Um ciclo vicioso difícil de sair – um cativeiro, local óptimo para a escravização, onde os senhores da indústria da comunicação o dom(in)am.
Novo paradigma social
Após a destruição provocada pelas guerras mundiais, emerge um novo paradigma de paz e cooperação. Surge por um lado a revolta contra o autoritarismo e por outro o desejo da devolução do poder ao povo, a democracia, o respeito pelas minorias; desponta um paradigma ecologista, uma visão de solidariedade ao nível planetário. No fundo, os ideais da Revolução Francesa começam a expressar-se de forma notória.
Há mais de duzentos anos que foi necessária uma revolução para terminar o autoritarismo e o absolutismo. Aos poucos instituem-se, primeiro nos ideais depois na prática, os valores da liberdade, da igualdade perante a lei e em dignidade humana, a fraternidade, a solidariedade, a união que reforça o poder de cidadania. Numa visão mais ampla, cada parte integra um todo, ao qual pertence, e no âmbito do qual está inevitavelmente ligada às outras: a comunidade em rede, reticular de que nós hoje experimentamos; um modelo horizontal de comunicação, descentralizado e democratizado.
Desde a sequela da I e II Guerra Mundial, quer ao nível diplomático quer ao nível do direito internacional, os valores da cooperação e da paz têm estado na agenda política. O respeito pelos direitos humanos e a importância da pacificação dos territórios, evitando as mortes, atrocidades e crueldades, têm sido uma preocupação. Desde há décadas que os homens se juntam em conversações e diálogos para tentarem pela via verbal aquilo que anteriormente era resolvido militarmente.
Ao nível nacional e internacional foram criados vários organismos e instituições com estas preocupações (como a UNESCO, a Comissão Justiça e Paz, a Universidade da Paz). Na prática, há uma parte da comunidade que se agita face aos novos valores. Exige-se uma agenda para a paz, comemora-se o Dia dos Jornalistas pela Paz, há institutos que formam os jornalistas neste sentido (caso da Agência internacional pela Paz) e novos projectos no âmbito do jornalismo alternativo vão surgindo. Entretanto, o paradigma tem tido alguma expressão ao nível social, económico e científico.
Ao nível social, a globalização, processo de conhecimento, troca, partilha, integração e fusão cultural que vem, pelo menos, da era dos Descobrimentos, em cuja promoção o comércio tem sido pioneiro, tem provocado, juntamente com a venda de bens e serviços, o contacto humano e a troca de ideias, crenças, valores, formas de estar e conceber o universo. O processo de construção de um planeta numa aldeia global, antecipado por vários homens da ciência, é visivelmente sentido nos dias actuais. Ele visa, em última instância, a promoção da partilha humana, ao nível cultura e tem derrubado, por isso, várias fronteiras mentais, psicológicas e físicas, como foi o caso do muro de Berlim ou o fim do “apartheid”.
Ao nível económico, a economia e comércio solidários são hoje, perante a globalização económica internacional, uma alternativa humana, que tem em consideração a vida das pessoas, de quem trabalha, de quem consome, de quem vende e respeito por um padrão ético.
Ao nível científico, surge a teoria de Gaia, de James E. Lovelock, os campos mórficos de Rupert Sheldrake, a física quântica e a teoria das cordas, o paradigma holístico.
É, assim, na transição do século XX para o século XXI que mais se fazem sentir os efeitos da mudança de paradigma: ecológico, solidário, democrático que, ao influenciar vários sectores, não pôde deixar de ter efeito sobre os “media” e o jornalismo.
Nova concepção informativa
Os Estudos Culturais vêem os “media” como opressores mas também com a potencialidade de se transformarem em instituições de libertação. Se derem voz às minorias (étnicas, culturais, religiosas, políticas, sociais, económicas, sexuais entre outras) estarão a equilibrar a sua representação mediática com a sua existência efectiva. Ao variar as fontes a que recorrem, os “media” estarão a relatar a realidade sob diferentes ângulos contribuindo assim para o enriquecimento de olhares e um conhecimento mais completo. É a valorização das várias culturas, modos de fazer dissemelhantes, que podem ser úteis ao desenvolvimento humano em detrimento de predomínio de um só ponto, uniforme, politicamente correcto, convencional, de uma legitimidade construída.
O relatório McBride, escrito há cinco décadas, está ainda por cumprir, mas foi um marco desta nova etapa. O documento apontou as fragilidades de uma informação internacional desequilibrante, com o predomínio das fontes e relatos dos países do norte em relação aos do sul, e salientou a importância de reequilibrar o fluxo informativo para o progresso e desenvolvimento político e social dos países e continentes. Para que o retrocesso não suceda e o sistema social não bloqueie era - e é - urgente o livre fluxo de informação, o seu livre curso.
Estamos, pois, a usufruir dos primeiros resultados das alterações havidas no último quartel do século XX. Após a “era” do jornalismo de opinião, no séc. XIX, e do jornalismo industrial, no séc. XX, eis que emergiram no seu final novos meios, técnicas, ideias e condições de produção informativa. Depois dos “media” tradicionais, surge um novo, multimédia, que os converge.
A web permitiu nos últimos anos do século XX conjugar e conciliar a forma e a técnica. Além da passagem a um nível de informação virtual, numa dimensão desmaterializada, permitiu a integração dos meios de comunicação até então separados em imprensa, rádio e televisão, na sua dimensão escrita, oral e (audi)visual. A Internet possibilitou o multimédia, a síntese mediática, que no caso do webjornalismo conjuga todas as linguagens anteriores, promovendo a evolução da linguagem jornalística a um nível de hipertextualidade, "multimedialidade" e interactividade inovadoras.
A história da comunicação e do jornalismo tem sido um acumular de técnicas que têm permitido ultrapassar ou eliminar barreiras de tempo e de espaço. Por outro lado, a informação tem-se orientado, com alguns momentos históricos de censura e inquisição, para a descentralização, com tendência a ser democrática, de acesso cada menos restrito ao poder de saber. A web, flexível, ubíqua, é um instrumento técnico que tem permitido, desde a viragem do século, um impulso a esse desafio que é formar uma comunidade cada vez mais internacional, com uma opinião pública, e concretizar a utopia da comunicação, tornar como um, numa unidade o globo terrestre.

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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Razão adormecida



Sessenta e cinco anos após a publicação, revisitamos a "Dialéctica do Esclarecimento", conduzidos por dois autores* que retomam a tese defendida pelos teóricos da Escola de Frankfurt: a distinção entre alta e baixa cultura e a televisão banal como um exemplo dos efeitos negativos da cultura de massa sobre os espectadores.


Texto Dina Cristo

Theodor Adorno parte do Marxismo e do Iluminismo. O primeiro útil mas insuficiente para explicar a super-estrutura cultural, o segundo degenerado numa razão instrumental (distante da Razão Pura de Kant) tão totalitária como o mito anterior, já que a linguagem, geral, não integra, na verdade, todas as particularidades, que assim ficam extirpadas. O conceito geral ao (re)definir, ao nomear, está a (re)ordenar, a regular, a controlar, a dominar – a manipular a realidade dos objectos referidos. Eis identificada uma das presciências de Adorno: o consumo de signos no lugar dos referentes (a hiper-realidade de Baudrillard) e a sua falsa identidade.

Desenvolvida no capitalismo industrial e aplicada nos “mass media”, a razão distorcida manifesta-se na baixa cultura da indústria cultural – rádio, televisão, cinema e desporto – caracterizada pela redução da tensão (entre forma e conteúdo) em detrimento de uma linguagem fácil, leve, superficial, previsível, submetida aos formatos comerciais pré-determinados, heterónoma, portanto, e homogénea. Vicária, na substituição artificial e incompleta entre o todo (canção) e a parte (o refrão, por exemplo) e vice-versa, harmoniosamente resolvida.

Diferentemente, na arte, a alta cultura, inacessível às massas, que não a (re)conhece, há espaço, tempo e liberdade para a criatividade, o ângulo particular, a dissonância, o conflito não resolvido. Complexa, autónoma e heterogénea, tem “aura” e autor(idade).

Ao contrário de Walter Benjamin, para quem a reprodução técnica permitiria a educação das massas e uma verdadeira cultura de massa – feita para si e por si, expressando os seus anseios e sonhos, Adorno defende que esta cultura industrializada não só produz o produto cultural como fabrica a própria audiência - a natureza dos seus desejos, a sua resposta afectiva e (in)sensibilidade estética.

Adorno defende que os “mass media”, com a sua tecnologia e faculdade de duplicação, cópia, imagem, a parte, se tornaram equivalentes ao todo, a realidade da vida orgânica e original, de tal forma eficaz que se transformaram eles próprios numa realidade - virtual. Com a sua centralidade e penetração na vida doméstica, capacidade de invasão e infiltração na vida familiar, é um sub-sistema, cúmplice do sistema capitalista, que ingressa, domina e coloniza a vida do dia-a-dia.

Com o fetichismo cultural por um lado, e a naturalização tecnológica, por outro, a indústria cultural impõe-se modelizando, estandardizando, padronizando, homogeneizando, coerciva e deliberadamente. Com a informação, entretenimento e publicidade diluídas, ela vigia, policia, controla e promove, ao mesmo tempo, alívio – para a própria violência estrutural sistemática das partes não identificadas e integradas no todo, assim, restrito e limitado.

Theodor Adorno sustenta que a cultura que privilegia a gratificação sensorial imediata, mercantilizada, provoca “cegueira”, adormecimento, resignação, condescendência, infantilização, regressão instintiva e dependência irracional, como se de uma chupeta electrónica se tratasse. Alienado, de si próprio, dos outros seres e da vida, o consumidor abusa dos novos meios electrónicos, cujo véu não se apercebe, removendo a vida - o todo, a realidade, a “lifeworld” - fazendo-a substituir-se por pseudo-acontecimentos (uma antecipação da proposta de Boorstin) - a parte, a cópia, o sistema mediatizado e planeado, que confunde com a expressão, comunicação e solidariedade que efectivamente almeja.

No caso da televisão, para a qual a indústria concorreu, os efeitos são ainda mais sofisticados. Com a imagem a actuar directamente sobre o espectador, a televisão banal – materialização do calculismo racional - é capaz de instalar complexos no inconsciente da audiência, ao contrário do psicanalista, para degradar a sua auto-imagem, iludi-lo e torná-lo mais condescendente. Os meios de comunicação de massa têm a capacidade de estimular traços da personalidade (o homem viril, a mulher submissa) e amputar outros (a representação de intelectuais de forma enfeminada, a estigmatização da mulher assertiva).

Através das séries, Adorno notou que é difundida a ideia de que é inútil, indesejável, impensável, irreal ou impossível desafiar o “status quo” e é nesse contexto que o riso das “sitcoms” aparece como alívio para a violência estrutural do sistema, que oprime e escraviza, ao contrário da auto-propaganda que difunde a ideia de liberdade, democraticidade e tolerância.

É a indústria que delibera as “escolhas” e “decisões” dos espectadores e trata de eliminar qualquer ameaça ao estabelecido através de doses homeopáticas que, assim, a absorvem e neutralizam, expondo e escondendo, ao mesmo tempo, a lógica conservadora, violenta e mercantilista capitalista, bem diferente da novidade, também ela falsa e aparente que publicita repetidamente.

Parte de toda uma estrutura que é ela própria ideológica, a dominação cultural provocada pela indústria que organiza os tempos livres, consolidada através da razão impura, faz-se sentir no âmbito da auto-identidade, do trabalho e da Natureza, incluindo a humana, nomeadamente através da ciência e tecnologia. Um falso abstracto e consonância, caso do “frinchising” ou “fast food”, de nível incomparável às sociedade pré-tecn(ológ)icas, em que, desde o Tempo Primordial, o mito respondia ao desconhecido, numa dialéctica que envolvia objecto e sujeito.

A disseminação da faculdade intelectual da mente humana, como meio, dissolveu o potencial Iluminista de uma Razão genuína que permita a autonomia, liberdade, verdade e desenvolvimento humano. A perseguição do lucro capitalista e o calculismo mediático restringiram a independência do indivíduo e retiraram o pensamento e a cultura da sua livre expressão, bloqueando-a.

A televisão banal e reprodutiva, tem servido os interesses capitalistas, que preserva através do abuso da razão embrutecida. A colonização da vida pelo sub-sistema mediático tem vindo a oprimir ao contrário da libertação defendida pelo Iluminismo, manifestada através da Revolução Francesa, da Constituição Americana e da Revolução Industrial. Por isso Adorno afirma que a evolução tem sido mais através da dialéctica do que de forma linear, da barbaridade para a humanidade.

A indústria cultural mediática identificou e homogeneizou o pensamento. O sistema de signos fornece segurança e estabilidade ao Ser Humano mas priva-o da verdadeira experiência, essência e compreensão da vida, onde se move, conduzindo-o para um universo sedutor mas perigoso da simulação se transformar em simulacro, multiplicando-se em curto-circuito e já sem sentido algum.

O espectáculo deixou de estar definido (na distracção e divertimento) para se tornar difuso – um conceito que antecipou a “sociedade de espectáculo” de Debord -, um sistema panóptico agressivo e regressivo, facilitado pelo excessivo poder, fascinação e crença na tecnologia. Eis o risco dos meios tecnológicos se tornarem fins e se dissolverem no capital de uma sociedade de controlo ubíquo caso se percam os princípios apriorísticos da Razão Pura.

* TAYLOR, Paul; HARRIS, Jan – Critical Theories of Mass Media: Then en Now Maidenhead. Open University Press. 2008. P.62-84.

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quarta-feira, 24 de abril de 2013

Somos livres?

 


Na véspera da celebração da Revolução do 25 de Abril e a dias da de inauguração, há 45 anos, na Broadway, do musical “Hair”, vamos saber o que é e até que ponto se consegue ser livre.
  
Texto e fotografia Dina Cristo

Alguém é livre quando age de acordo com a própria natureza, vontade, verdade e consciência. Tal pressupõe o auto-conhecimento, fundamental para que se possa actuar de acordo com quem se é. Ser livre é ter o poder e a capacidade de decidir o melhor para si, fazer a escolha mais acertada tendo em conta a sua essência, quem já se sabe que é e não para se vir a ser alguém; é ter capacidade de saber de que se ocupar, ao que dar atenção, a quem se ligar, como indica Omraam Aivanhov.
“(…) a verdadeira liberdade consiste em obrarmos em nosso próprio nome, em sermos nós em nossas obras e pensamentos”, escreveu Teixeira de Pascoaes. Esta capacidade de auto-determinação, do livre arbítrio da acção individual visível, o “agency”, é hoje enfatizada pela ciência pós-moderna em detrimento do determinismo externo, do constrangimento da estrutura colectiva invisível. No caso da pragmática acional, para a qual falar é agir, essa actuação é de âmbito discursivo.
Viver de acordo com a sua questão particular implica escolher o seu caminho, saber selecionar o mais adequado para si e não o mais atraente ou sedutor. Para Platão, a liberdade está em ser-se senhor de si mesmo, o que acontece quando a sua melhor parte, a mais virtuosa, embora menos desenvolvida, domina a pior, a mais viciosa e abundante. Como alguém escreveu, a liberdade atinge-se quando o intelecto compreende o que é o bem, o belo e o bom, o coração o deseja e a vontade vai atrás.
Quando está ao serviço das paixões o ser humano enceta uma falsa libertação que o mantém dependente dos apelos instintivos e expande as suas amarras. Dar vasão aos gostos, apetites e inclinações, como diria Immanuel Kant, apenas o amarrará aos seus interesses limitados, ao condicionado, à região abaixo do diafragma. Já Antero de Quental havia ensinado que “só é verdadeiramente livre aquele que sabe limitar voluntariamente a própria liberdade”.

Desprendimento

A verdadeira libertação está no auto-domínio, em saber integrar apegos, desejos e medos, para depois os direcionar e ultrapassar. Primeiro a aceitação já que, como lembra Carlos Cardoso Aveline, “ficamos presos a tudo aquilo que rejeitamos”. Há que aprender a harmonizar, a reequilibrar, a reunir o pólo da liberdade e da ordem, com moderação, para evitar que o investimento excessivo num conduza ao aprisionamento no outro, oposto e oculto.
«Sereis livres de facto não quando os vossos dias decorrerem sem cuidados e as vossas noites sem desejos e sem fadigas mas antes quando todas estas coisas cercarem a vossa vida e vos elevardes acima delas, nus e libertos”, ensinou Kahlil Gibran(1). Esta superação e subida às alturas acontecem quando se age sem esperar nada em troca, desinteressadamente, através do desapego, sobretudo quando se libertam as (outras) pessoas, se prescinde de objectos e actividades inúteis ou se livram de preocupações mentais ou emoções destrutivas, como a culpa, a raiva ou o medo, nomeadamente através do canto.
A libertação real advém do perdão, uma desculpa pelos erros, próprios e alheios, cometidos no passado, a cuja memória se associam emoções, como a tristeza, que precisam de ser enfrentadas, expressas, processadas e compreendidas. Muitas vezes o que resulta em termos de significado e sentido atribuído à experiência é a consciência de uma ilusão, o que normalmente origina um sofrimento duplo, tendo em conta a decisão de separação, uma grande perda e mudança que implica. “Você não encontrará a liberdade”, disse António L. Santos, “até ser capaz de enfrentar a mudança e a incerteza”.
A verdade é a via da autêntica libertação. Dependente do estado ou foco de consciência, do nível evolutivo, própria do mundo inteligível, incondicionado, da Razão Pura kantiana, ela dissipa as ilusões e desapossa de pessoas, ideias, lugares e ocupações, que ora o medo ora o desejo tentavam, pelo controlo, manipulação e mentira, suster, fixar e agarrar. Libertar é deixar fluir, circular e movimentar, é ser um sistema aberto, dinâmico e renovador. Estagnar, amarrar, prender ou parar, como diz o provérbio popular, é morrer.
Dependendo do estado de consciência, assim o ser humano se vai desembaraçando de ilusões em direcção a focos de luz maiores e melhores, num processo continuo que o leva a deixar para trás as percepções mais deturpadas ou distorcidas pelo egotismo, com gratidão pelo grau de evolução que a experiência anterior lhe permitiu alcançar. Como no Outono, em que as folhas caem da árvore, a efectiva libertação ocorre aquando da maturidade, quando há sabedoria suficiente para orientar e salvar.

Livramento

A verdadeira autonomia e independência são interiores. Corresponde à vibração anímica do amor, reino da abundância e da doação, da altivez, acima do diafragma, ao reino da Graça e da abundância, a Providência divina, repleta de luz e de leveza. Liberta dos p(r)esos materiais, mesmo sem nada, a pessoa é, como interpretou Nina Simone e é sentindo quem é, ao abrir o coração, viver cada emoção e ouvir a intuição que o indivíduo pode, doravante, viver em conformidade com esse conhecimento, fiel à sua própria natureza.
Contudo, o mais vulgar é a ampliação, amputação ou ajustamento das características e peculiaridades para uma rápida e conveniente adaptação à cultura vigente, aos papéis sociais, às expectativas alheias, se necessário recorrendo a comprimidos… para normalizar, ‘adormecer’ ou anestesiar, incluindo os sentimentos. Quer esta implosão psicológica interna quer a rejeição externa, que se crê ser causa de limitação e, por isso, se pretende desembaraçar, mesmo que abruptamente, são falsas libertações.
Ser livre é diferente de se ter a sensação de o ser. Embora o controlo seja cada vez mais remoto, tecnológico e indirecto, ele está omnipresente e tornou-se, no actual sistema, não apenas consentido mas também, devido aos sentimentos de insegurança fabricados e publicitados, desejado pelos próprios indivíduos. Enquanto domina, como denuncia a Teoria Crítica, o sistema difunde a auto-propaganda através do consumo, trabalho, “media”, educação e cultura em vigor como meio de libertação.
Contudo, como explicitou a 10/10/2011 Óscar Quiroga, o que impera é a opressão. Mesmo nos relacionamentos humanos, quando não se atinge a frequência amorosa, (ab)usa-se da ameaça, culpa, chantagem, julgamento, manipulação ou mentira que elimina o espaço, que não se tem e por isso não se dá, e, assim, sufocada, vicia-se a ligação num curto circuito fechado de dependência, medo ou subordinação. As Pessoas Altamente Sensíveis, como esclarece Elaine Aron, deixam-se aprisionar pelas exigências dos outros, por exemplo.
Sem amor e sem verdade, a escassa liberdade - de pensamento, expressão, opinião, circulação ou acção - reflecte-se numa atitude de bloqueio face ao meio ambiente: a ocupação do tempo, o condicionamento do ar como o barramento da água, aprisionada por estruturas equivalentes às que restringem o livre fluxo venusiano. Trata-se de um espelho de toda a estratégia mental que, por insegurança e falta de auto-conhecimento, a leva a investir na manutenção de algo que é, por natureza, constantemente transformado e alter(n)ado.
Contudo, florescem os mais diversos movimentos a favor da liberdade, desde o software ao amor, dois séculos após a independência americana e a Revolução francesa e meio após o movimento de contracultura hippie, nascido em S. Francisco e retratada no musical e filme “Hair”, contra a guerra, o consumismo e as restrições sociais, com o seu “flower power”, “make love, not war”, o desnudamento, os cabelos cumpridos, o valor da amizade, simplicidade e festividade e de vanguarda a favor dos movimentos ecologistas, sociais, pacifistas, comunitários e esotéricos, que entretanto se desenvolveram.

A peça, estreada desde então um pouco por todo o mundo, com as mais diversas traduções e versões, contou nos seus elencos com nomes como Sérgio Godinho (em França), Donna Summer (Alemanha) ou Sónia Braga (no Brasil) e as suas músicas ficaram para a História bem como a sua influência nas artes e nos costumes. A criação retrata uma tribo urbana liderada por Berger, um homem extrovertido e amigo de Claude, um romântico pensativo apaixonado por Sheila, uma mulher com destacado estatuto social. Embora contra a guerra no Vietname, o líder acaba, no filme, ao contrário do musical original, por embarcar, por engano, no lugar do seu amigo recrutado e morre não sem deixar o seu exemplo de combate a favor da paz, que passa a ser seguido.


(1) GIBRAN, Kahlil - O profeta, Pergaminho, 2004, pág.103.

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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Informação áurea


Antes de comemorarmos o quarto aniversário, fazemos o balanço de actividade inspirada na Informação Solidária (IS), corrente que abraçámos desde o início. Filha de um quinto poder, a IS orienta-se pelos princípios da qualidade, diversidade, profundidade e sensibilidade, do Bem, do Belo, do Bom e do Verdadeiro. É hoje, mediante a crise, uma oportunidade urgente que importa (re)conhecer.

Texto Dina Cristo desenho Zita Leonardo


Há dez anos, Carlos Cardoso Aveline, autor brasileiro, escreveu um livro que se intitulava “Informação solidária”. A obra serviu-nos de inspiração para a realização da conferência sobre Informação Solidária em Portugal. Em Coimbra, estiveram presentes Henrique Pinto e Gabriela Oliveira, e, via tecnológica, o autor. No seguimento, encetámos, em Julho de 2007, este projecto. Os primeiros artigos foram sobre o tema.

Quatro anos depois, temos mais de duas centenas e meia de textos, de mais de 50 autores, sobre vários assuntos e em diversos géneros jornalísticos. Além dos artigos semanais, à Quarta-Feira, e as rubricas, trimestrais - em cada nova estação -, temos tornado públicos, mensalmente, vários ensaios, desde a literatura à política. Todas as produções são inéditas, salvo uma ou outra excepção devidamente referida.

Ao longo destes anos, apresentámos o conceito de Informação Solidária nas Jornadas Internacionais de Jornalismo, no Porto, promovemos um workshop e entregámos dois Prémios IS, o primeiro à revista “Biosofia”, em 2009, e o segundo ao blogue “Vislumbres da Outra Margem”, em 2010. Temos dado a conhecer novos autores, como Elton Rodrigues Malta, e novas ideias, como a simplicidade voluntária. Tivemos mais de 35 mil páginas consultadas por mais de 17 mil visitantes, dos quais 12% durante mais de 20 minutos.

Quando começámos, a palavra “solidária” era vista com desconfiança e apenas no aspecto moral. Hoje, ela é visível, na publicidade, audível, em programa de rádio, e está presente em secções próprias de jornais. Um pouco como a sustentabilidade, primeiro, e a responsabilidade social, depois, torna-se mais habitual. Na economia, na política, na justiça, no turismo, na inovação, na informação o sector social ressurge.

Transformações
Actualização do espírito fraternal da Revolução Francesa, hoje é mais perceptível a sua necessidade, existência e importância. Com o colapso do sistema industrial, financeiro e social as propostas alternativas, até aqui desprezadas, são revalorizadas. Neste início do terceiro milénio, a consciência planetária acelera e as práticas mais altruístas ganham dimensão.
Desde as áreas científicas, como a física quântica ou a psicologia transpessoal, teorias de vanguarda, como os campos mórficos de Rupert Sheldrake ou a ordem implícita de David Bohm, alargam horizontes. O digital, com os blogues, redes sociais e o wiki, expande-se e há todo um terceiro sector que se fortalece.

A informação é aquilo que dá forma a algo; como explica Lucienne Cornu, é aquilo que permite estruturar. O acesso a uma nova informação trará novas formas individuais, colectivas e planetárias, como ensina Dieter Duhm. Na perspectiva de Carlos Cardoso Aveline, uma verdadeira informação dará lugar a decisões mais correctas.

Enquanto super-estrutura influenciará a infra-estrutura material, mas esta também não a prescinde. É assim que realidades como a economia solidária, a inovação social, as ONG, as IPSS e os mais diversos movimentos, desde a ecologia à saúde, do sincretismo religioso à protecção às crianças e animais, precisam de se fazer ver e ouvir enquanto partes legítimas do grande todo colectivo.

Fora dos grandes “media” conservadores, há um país a desabrochar. Para além da crise objectivada em sons e imagens, há todo um outro Portugal que se dinamiza: agentes, fontes e acontecimentos que retratam o lado mais nobre e digno. Com ensejos filantrópicos, os acontecimentos multiplicam-se pelo território nacional. Os pequenos, mais atentos e com novos critérios, dão-lhes expressão.

Os cidadãos, implodidos com a propaganda do crescimento económico contínuo, explodem no sentido do desenvolvimento interior. Agonizados pelo curto-circuito, fechado, dos “mass media”, sentem novos ventos de liberdade de expressão, de livre fluxo informativo. Dão, recebem, partilham.

Apesar da insistência na brutalidade, nos acontecimentos egocêntricos e nos actos de selvajaria, há novos ares que sopram no sentido da elevação da consciência: mais generosa e holística. Seja por um livro, um filme, uma terapia, um blogue, a nova informação já circula, também na internet.

É neste contexto que a Informação Solidária se evidencia. Desde logo parte de um novo pressuposto - o de que os recursos são suficientes: matéria-prima, tempo, espaço, técnica, homens e mulheres chegam para fazer uma informação melhor, mais útil e humana. Confiante nos meios, assente em princípios (éticos) e desapegada dos fins, está segura de que, mais cedo ou mais tarde, estes surgirão, para bem de todos.

(Des)créditos informativos

Alternativa, a IS é uma informação ecológica e dourada. Sem se arrogar de independente, muito menos dependente do receptor, a Informação Solidária afirma-se e (a)firma a interdependência, não só na sua relação interlocutiva mas entre todo o universo. Necessariamente reticular, pura, saudável, natural e estética, ela é benfazeja, terapêutica, regenerativa e sustentável.

Sinal dos novos tempos de descoberta espiritual, a IS é uma informação solar, amorosa, intuitiva, por vezes abstracta. Inspiradora, ela é criativa, profunda, livre, essencial e transpessoal. Estrutural e íntegra(l), é simples e significativa. Corajosa, diferente e coerente com os seus valores, por vezes inconveniente, é interventiva.

Ocupada com questões de médio-longo prazo, desacelerada, lenta e extensiva, próprio do “slow journalism”, é autónoma, realista e pauta-se pela inovação e correcção. Caracterizada pelo equilíbrio e a moderação, usa a média tecnologia. Democrática, ela é uma espécie de informação branca, no sentido de reflectir as demais cores (políticas, religiosas, sociais ...).

De origem aquariana, ela é vincadamente feminina e grupal. Descentralizada, local, voluntária, informal e doméstica. Inofensiva e construtiva, prudente e discreta, ela é escrupulosa, animada, alegre e entusiasmada. Serena, graciosa, confiante, desperta, consistente e respeitosa, ela concilia a autonomia com a responsabilidade.

Aos poucos, vai desactualizando a informação interessada, grosseira e agressiva. Para trás vai ficando uma comunicação social carente, desnutrida, insaciável e hipnotizadora. Relatos violentos, repetitivos, fragmentados, formais, superficiais e irrelevantes tornar-se-ão inaceitáveis. Informação rápida, imediata, intoxicante, indiferente, negativa, conveniente, fútil e contraditória será abandonada. Notícias exageradas, tendenciosas, à base de cosmética e de alta tecnologia, baseadas no valor comercial, opacas, demasiado masculinas, crueis, em quantidades astronómicas, impulsivas, assustadoras, indiscretas e desgraçadas desvanecerão.
Espiral informativa

Mais de 30 anos depois do relatório Macbride, a IS reequilibra os fluxos de informação e enceta uma economia não monetária, onde todos colaboram com todos. Depressiva - no sentido em que honra a diferença e promove a unidade, possui bons sentimentos e partilha o poder (de saber) com os outros cidadãos - é talvez motivo para se dizer: “silêncio que se vai ler, ouvir ou ver Informação Solidária”.

Mais (além) e melhor do que a informação alternativa, social, de paz, de cidadania ou responsabilidade social que integra, a Informação Solidária comprometida com a Paz, o Amor e a Vida, ultrapassa o impasse das mais diversas dicotomias e transcende-as, sintética e harmoniosamente. Ela é o ponto de partida, em expansão, para um novo portal comunicacional, transformador e curador das feridas deixadas pela guerra, intolerância e incompreensão.

Pólo activo e passivo, romântico e industrial, racional e emocional, direito e dever, onda e partícula, optimismo e pessimismo, quantidade e qualidade, substância e forma, tempo e espaço, idealismo e positivismo, política e economia, autor e leitor, hemisfério direito e esquerdo, meios quentes e frios, objectividade e subjectividade, global e local, ética e mercado s(er)ão vistos como duas expressões da mesma realidade. Ao conciliá-los e ordená-los, a IS supera os conflitos separatistas e actua(rá) como consoladora na Nova Era de Liberdade, de Ser e de Comunicar.

Como escreveu Carlos Cardoso Aveline, jornalista, ecologista e teosofista: «Na nova era, a conduta do cidadão não será comandada por programas de auditório de televisão ou necessidades comerciais de grandes empresas. Informações inúteis não serão vendidas com tanto zelo como hoje, e a novidade deixará de ser vista como mais importante que a verdade. Velhas tradições ressurgirão. A arte e ciência de viver correctamente ocupará lugar de destaque em escolas, locais de trabalho e meios de comunicação social.».

(1) AVELINE, Carlos Cardoso - A informação Solidária - A Comunicação Social como prática de uma nova ética. Edifurb, Brasil, 2001.

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