quarta-feira, 25 de abril de 2012

(Des)ordem social


Qual a liberdade de acção individual dentro de uma estrutura sócio-política, como a do Estado democrático? Respondemos, em pleno 25 de Abril, recorrendo ao pensamento clássico*.

Texto e fotografia Dina Cristo

A Teoria Social Clássica é um comentário crítico e pós-renascentista ao mundo moderno, às tendências sociais de longa duração do séc.XIX, altura em que se formou, após as novas condições, de expansão económica e liberdade política, decorrentes da Revolução Francesa e da Revolução Industrial.
A mudança social ocorrida com a modernidade deu-lhe, agora autonomizada da Filosofia (política e social) e diferenciada das Ciências Naturais, temas como o capitalismo, o mercado, a industrialização, a urbanização, a divisão do trabalho, a racionalização, a burocracia, a democratização, a individualização, a secularização ou a imigração. Vários destes e de outros assuntos, como a família, o sistema educativo, a linguagem ou a etnicidade, são investigados enquanto instituições sociais.
Entre os principais problemas estudados estão a “estrutura” - força externa que determina a vida dos indivíduos, correspondente aos constrangimentos, económicos, segundo Marx, morais, segundo Durkheim, e políticos, segundo Tocqueville - e a “acção” - esfera de actuação dos actores sociais, onde fazem as suas escolhas, de forma mais livre e autónoma.
Karl Marx, ao criticar o idealismo alemão, enfatiza a importância da infra-estrutura, a base material, económica, prática, a acção, onde teria lugar a luta de classes por forma a atingir a harmonia social e ultrapassar o conflito, proveniente dos direitos de propriedade privada, próprios do modo de produção capitalista, com interesses oponentes entre capitalistas e assalariados, que incluía meios de produção concentrados e relações sociais de produção (de exploração).
Por seu lado, Émile Durkheim enfatiza a super-estrutura, normativa, das ideias e ideais – facto social capaz de exercer constrangimento externo sobre o indivíduo. É o caso da solidariedade social, que implica um sentido de obrigação moral, reflectido na lei, dominante embora apetecida, que regula e molda a acção social.
Quer seja mecânica - como nas sociedades mais tradicionais, unidas pela semelhança, laços de parentesco e vizinhança, com um nível mais intenso e “natural” de relação social, tendo em vista o conformismo gerado pela organização legal repressiva – quer seja orgânica – com nas sociedades mais modernas, unidas pela diferença e pela interdependência gerada pela divisão do trabalho social, a especialização, com uma organização legal restitutiva, reconhecendo o direito à equidade – a solidariedade social possibilita o terceiro problema mais estudado: a ordem, a estabilidade social.
Enquanto que para Durkheim, a diferenciação individual, própria da modernidade, mantém a sociedade unificada, através da divisão do trabalho, que liga e entrelaça os diversos indivíduos, para Max Weber responsabiliza o actor individual, o sujeito cognoscente, pelas suas escolhas, já que o sentido da sua acção é, agora, construído segundo diferentes percepções subjectivas, pontos de vista, valores e interesses, quer ideias quer materiais, pessoais, embora cada vez mais dominados pela burocracia, racionalização e calculismo, criando um mundo, autêntica “gaiola de ferro”, gerador de desencantamento.
Ao contrário da acção utilitarista e estratégica, com objectivos planeados, em que os meios (nomeadamente técnicos) substituem os fins humanos, Max Weber observou como a actuação humana tem consequências involuntárias e dela resultam instituições e uma estrutura, como foi o caso da auto-disciplina e responsabilidade moral protestante que, sem intenção, deu lugar à vocação empresarial e ao capitalismo. O autor, combinou, assim, a consciência subjectiva e o interesse material, reintegrando a estrutura e a acção na vida social, através, não do poder, coercivo, mas, da dominação legítima, com acordo voluntário.
Já anteriormente Alexis de Tocqueville havia notado que a liberdade individual fora ameaçada pelo Estado democrático moderno, totalizador e centralizador, com poder, extremo, total, monopolizador, ubíquo e omnipotente, sobre o território nacional, garantido na lei, regra que limita a vida. Um poder despótico, absolutizante, baseado na massificação e na racionalização, eliminador dos vestígios das soberanias fragmentadas do feudalismo e da aristocracia, autoridade tradicional dispersa, durante o Antigo Regime, pré-revolucionário. O impacto da centralização governamental e da dominação burocrática pode, no entanto, segundo Tocqueville, ser controlado e limitado através da participação política, associativismo e independência do sistema judicial.
Georg Simmel, ao colocar a ênfase no consumo, como expressão da sensibilidade individual, faz a ponte entre a Teoria Social do Velho Continente, focada nas macro-estruturas, como a classe e o estatuto, e a do Novo Continente, que privilegia o Eu secularizado, construído e desenvolvido no âmbito das expectativas e enquadramento social, tal como estudado por Herbert Mead.
Uma sociedade civil, cada vez mais plural e complexa, onde o indivíduo socializado é capaz, mesmo numa economia monetária e na vida urbana atomizadora e impessoal, de criar espaços de relacionamento social e de lazer, com interacção social, (in)visível e (in)formal, reciprocidade e (sub)culturas urbanas, estudadas por Robert Park da Escola de Chicago é, pois, o contributo da Teoria Social americana - surgida no final do séc.XIX, para inovar a agenda da Teoria Social clássica – sem, contudo, as suas investigações, mais empíricas, terem conseguido, ao contrário das europeias, articular a estrutura colectiva, de base política, cultural, legal e religiosa, com a acção pessoal.
Robert Holton defende que a vida social é baseada em causas múltiplas (como afirmava Weber), constitui uma estrutura organizada (a entidade supra-orgânica, de que falava Durkheim) simultaneamente aberta à acção dos agentes sociais, que a reconstroem e restruturam.
Apesar de analisar os méritos e limitações de vários autores, Holton defende que há, ainda por superar, um défice de investigação dos principais problemas sociais, a um nível que vá além da visão europeia e americana, do género masculino e do âmbito racional.


* HOLTON, Robert – Teoria Social Clássica, Cap. 1, in TURNER, Bryan - Teoria Social, Difel, pág. 23-50.

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quarta-feira, 29 de abril de 2009

Terra de revoluções


Próximo dos 220 anos da Revolução Francesa, revemos dois séculos de espírito revolucionário. Serão as manifestações hoje indícios de uma nova rebelião?


Texto e fotografia Susana Nunes

Ao longo dos últimos meses, a imprensa revelou que Nicolas Sarkozy, o Presidente da República francês, exprimiu por várias vezes o mesmo receio: nem mais nem menos do que ter o “mesmo” destino que o rei destronado pela Revolução Francesa de 1789, Luís XVI. Pelos vistos, Nicolas Sarkozy considera ter vários pontos em comum com um dos poucos monarcas do mundo a ter sido decapitado. Primeiro e antes de mais, a bela esposa, com “Carlita” como uma versão moderna de Maria Antonieta, segundo, os conselheiros incompetentes, “pois nada é bem feito se não for feito por ele mesmo” e, por último, mas bem mais importante, estes franceses ingratos, sempre prontos para a rebelião, completamente ingovernáveis…
Numa altura em que a polícia teme a falta de efectivos para lidar com as várias manifestações que surgem espontaneamente um pouco por todo o lado na cidade de Paris, será que está para breve uma nova Revolução francesa? O espírito “sans-culotte”, literalmente “sem-calções”, (que nada tem de exibicionista: apenas faz referência ao hábito do povo que não usava calções como os nobres da altura), vive este ainda entre os franceses?
Durante muito tempo, mesmo após o Império de Napoleão ter sucedido à República revolucionária, os franceses continuaram a alimentar a chama da Revolução, e não apenas por ocasião da habitual degustação de uma cabeça de novilho no dia do aniversário da decapitação de Luís XVI: de facto, todo o século XIX foi ritmado por espasmos revolucionários, que frequentemente se propagaram por a toda a Europa, em 1830, 1848 e em 1870. Durante esta época, os tumultos que se fizeram sentir na política francesa determinaram uma boa parte do destino dos povos da Europa. Bastava um mínimo sinal de vida por parte do povo francês para que os restantes soberanos do continente tremessem (excepto, talvez, a rainha de Inglaterra). E, no século XX, se foram as guerras que ritmaram a História, a França não deixou de viver ao ritmo das lutas sociais: movimentos insurrectos antes da I Guerra Mundial, Frente Popular nos anos 30, greves gerais do após guerra... até ao Maio de 68.
Sentido revolucionário
Esta não foi apenas mais uma revolta estudantil, mas também, e sobretudo, uma enorme greve geral (três semanas de greve, nove milhões de grevistas) e um movimento internacional que agitou diferentes povos, desde os Estados Unidos às democracias populares. Novamente, a França parecia revelar o caminho… Mas, curiosamente, é em 68 que a França parece perder aquilo que a tornava tão particular: a capacidade de colocar o sistema em questão para fazer nascer uma sociedade e instituições melhores, mais justas. Maio de 68 foi uma revolução que ficou a meio e que deixou profundas sequelas na mentalidade colectiva dos franceses. Os seus intelectuais, que, de Voltaire a Sartre e Camus, estiveram sempre na frente de combate pela defesa da herança das Luzes, perderam quase todos a credibilidade, tendo sido “substituídos” pelos intelectuais liberais. A Revolução francesa tornou-se numa referência cada vez mais desacreditada.[1] Os marxistas vêem nela principalmente o triunfo da burguesia. Os liberais vêem a génese dos totalitarismos do século XX e, hoje em dia, do terrorismo. Alguns radicais vêem a origem de uma sociedade que defende a dominação branca em nome do universal, incapaz de ter em conta a diversidade humana. A República, neste contexto passou a ser considerada como um regime não revolucionário, um emblema da pacificação social, da ordem. Poderá a República ainda ser revolucionária?
Desde a ascensão da República que as querelas sobre o sentido da Revolução se tinham atenuado. Para a cultura republicana, e como afirmava Clemenceau, “a minha revolução é um bloco”. Foi precisamente para se apagar a chama revolucionária, que se atacou a sua fundação, em 1789. Os liberais dos anos 1970, e especialmente um certo François Furet, destruíram este consenso republicano para desacreditar definitivamente o gosto francês pelas revoluções. “Na véspera de uma data potencialmente perigosa, o bicentenário da Revolução, foi publicado um enorme “Dicionário Crítico da Revolução Francesa” (1200 páginas), abordando eventos, actores, instituições e ideias. As suas centenas de entradas, escritas por cerca de 20 contribuidores escolhidos a dedo, proporcionaram uma base de refutação de algumas lendas de esquerda e de equívocos tradicionais do episódio fundador da democracia moderna. O grandioso impacto deste compêndio de conhecimento moderado, criado e executado de forma impressionante, acabou com qualquer perigo de festejos dos neo-jacobinos em 1989. Quando o bicentenário chegou, Furet foi o incontestável mestre intelectual de cerimónias, enquanto a França prestou homenagem aos princípios fundadores – devidamente clarificados – de 1789, e voltou as costas às últimas atrocidades de 1794. Eliminar o passado errado, e recuperar o certo, foi essencial e inevitável para a chegada atrasada do país ao porto seguro da democracia moderna”. Esquecendo que o período do “Terror” salvou a Revolução face aos exércitos dos soberanos europeus e às insurreições camponesas manipuladas pelos monarquistas, e que a Revolução “deu à França um corpo sólido de camponeses proprietários, ainda hoje considerado como um factor essencial de estabilidade política”
[2], a realidade social foi “transfigurada pelas palavras dos ‘representantes do povo’”[3] e o regime tornou-se numa República burguesa respeitante do direito, e, portanto, da propriedade dos ricos, e protegida das “mudanças de humor” do povo por um sistema representativo. A maneira como se chegou a esta fase não é um mistério: o patronato agiu sorrateiramente, a liberalização liquidou os sindicatos, a queda da URSS liquidou os comunistas, a esquerda desapontou no poder, a direita soube aproveitar-se da revolução conservadora liberal e do populismo e a televisão, privatizada, lavou os espíritos e promoveu líderes de opinião e intelectuais medíocres.Debate público
Algo que é realmente característico ao povo francês é a discussão interminável sobre os princípios e os significados de qualquer acção ou acontecimento. Num artigo publicado na revista Multitudes sobre François Furet, Berger e Riot-Sarcey mencionam o facto de o circuito semiótico ser “o mestre absoluto da política”
[4]. A Revolução Francesa não poderia ser um melhor exemplo: “Trata-se de se saber quem representa o povo, a igualdade, ou a nação: é a capacidade de se ocupar esta posição simbólica, e de a conservar, que define a vitória”[5]. Como refere Jacques Guilhaumou, no artigo “La haine de la Révolution française, une forme de haine de la démocratie”, basta uma denunciação de uma revolução individualista e insistir-se no preço desta revolução[6] para que a revolução social passe para segundo plano e o discurso sobre a democracia se inverta[7]. Neste mesmo artigo, Guilhaumou relembra as palavras de Rancière: “o termo democracia, visto pelo lado negativo, torna-se indistinto do de totalitarismo, substitui-o”. Segundo Hobsbawm[8], verificou-se assim uma marginalização da revolução, e, para se recuperar o seu verdadeiro significado, será necessário discuti-la tendo-se em conta o seu contexto histórico e não o dos dias de hoje, sem se estar ao serviço da política actual. O livro deste autor britânico, “Às armas historiadores. Dois séculos da história da Revolução francesa”, publicado na altura do bicentenário da Revolução, foi imediatamente traduzido pelos editores italianos e espanhóis. No entanto, nenhum editor do próprio país da Revolução decidiu adquirir os direitos de reprodução e publicar a obra em francês, mesmo se bastantes outras obras sobre este acontecimento, mesmo estrangeiras, foram publicadas na altura e nos anos que se seguiram. Na verdade, verificou-se uma grande relutância por parte dos grandes editores franceses face aos autores e trabalhos abertamente contra a ideologia dominante. A sua publicação em 2007 talvez indique que a situação esteja a começar a mudar…
Como comenta Perry Anderson, “A França é, de todos os países europeus, o mais difícil para qualquer estrangeiro de descrever. A sua irascibilidade é o resultado, em primeiro lugar, de tudo o que os franceses produzem sobre eles mesmos, numa dimensão inimaginável em nenhum outro país. Setenta títulos apenas sobre a campanha eleitoral de 2002. Dois mil livros sobre Mitterand. Três mil sobre De Gaulle.”
[9]. Como o próprio De Gaulle afirmou, “A França é inconcebível sem grandiosidade”. Mesmo a língua francesa, outrora a língua do Iluminismo e durante muito tempo o idioma utilizado nas relações diplomáticas mundiais, é sentida como uma língua universal e associada à ideia de civilização francesa (mais do que apenas cultura).Resistência
Se existe um país que tem a revolução na alma, este país é a França. Mesmo hoje, em que o conformismo e o politicamente correcto parecem estar bem presentes e que “a ideia de revolução está em crise”
[10], as ruas desafiam repetidamente o governo: em 1984, em 1986 e, mais recentemente, em 1995, seis semanas de greve consecutivas que bloquearam qualquer tipo de serviço público e uma desordem a nível nacional, que levou à vitória do movimento. Não há, portanto, dúvidas de que a “inflamabilidade popular” é algo inerente ao povo francês. Desde que estou em Paris que já assisti a duas grandes greves gerais. A última, a 19 de Março, reuniu entre 3,23 milhões e um milhão e meio de manifestantes (número oficial), em todo o país. As universidades já estão em greve há mais de um mês, ocasionalmente com direito a portas bloqueadas pelo batalhão de choque. A polícia não sabe como lidar com as manifestações que cada vez se tornam mais espontâneas e imprevisíveis. Há duas semanas que, todos os dias, continuamente, oiço os jambés dos trabalhadores do KFC da esquina (restaurante da cadeia de fast-food Kentucky Fried Chicken). Tomaram o restaurante e estão em greve, exigem que o KFC assine as suas carteiras de trabalho (alguns já estão a trabalhar ilegalmente nestas condições há 10 anos e correm agora o risco de serem expulsos do país). Decididamente, existe um paralelo entre a França pré-revolucionária e a França actual: a ignorância por parte da elite da realidade do povo (“la France d’en bas”). Existe mesmo uma espécie de piada (ou história verídica?) que ilustra perfeitamente esta situação: antes da Revolução de 1789, Maria Antonieta ouve a população que se manifesta e pergunta qual é a razão de tanta algazarra. Esta não percebe o porquê do descontentamento: se eles não têm pão, porque não comem brioche? (É importante salientar que brioche é uma espécie de pão-de-leite, um pão doce, o qual, obviamente, não fazia parte do regime alimentar do povo.)Vocação
Para se encontrar a verdadeira França, aquela que resiste e que se revolta, não se pode procurar nos lugares míticos da Revolução, as Tulherias ou a Bastilha. A prisão já não existe, foi imediatamente demolida após o 14 de Julho por um empresário da construção e pelos seus empregados. Esta não abrigava na véspera do 14 de Julho mais do que uma dezena de prisioneiros – a maior parte filhos de boas famílias em prisão temporária por embriaguez, e, pelos vistos, existiu mesmo uma conspiração que dirigiu astuciosamente a cólera do povo para esta velha prisão, por pura especulação imobiliária! É também inútil procurar-se esta França na universidade Sorbonne ou no bairro de “Germain des Prés”, que outrora abrigaram a contestação e os intelectuais, mas onde actualmente nos cruzamos com mais polícias do que estudantes. Para se encontrar a França de amanhã, aquela que, talvez em breve, voltará a fazer História, é preciso apanhar-se o metro e afastar-se do centro de Paris. É preciso olhar-se para esta juventude urbana mestiça que se revoltou violentamente em 2005, suscitando a atenção de todo o mundo. É preciso olhar-se para a França “média” da província que teme que os seus filhos não consigam, pelo menos, alcançar o mesmo estilo de vida que os pais, perdendo o conforto conquistado arduamente pelas gerações anteriores. São estes quem fará a próxima revolução.

[1] ANDERSON, Perry (2004), "Dégringolade”, in London Review of Books; [2] HOBSBAWM, Eric (2007), Aux armes, historiens. Deux siècles d’histoire de la Révolution française. La Découverte; [3] BERGER, Denis, RIOT-SARCEY, Michèle (2005), “Francois Furet : l’histoire comme idéologie”, Multitudes; [4] Ibidem; [5] Ibidem; [6] HOBSBAWM, Eric, “Aux armes, historiens !”, programa especial da emissão radiofónica “Là-bas si j'y suis”, de Daniel Mermet, difundida pela rádio France Inter, a 8 de Janeiro de 2008; [7] GUILHAUMOU, Jacques (2006), “La haine de la Révolution française, une forme de haine de la démocratie”, in Révolution Française.net; [8] HOBSBAWM, Eric, “Aux armes, historiens !”, programa especial da emissão radiofónica “Là-bas si j'y suis”, de Daniel Mermet, difundida pela rádio France Inter, a 8 de Janeiro de 2008; [9] ANDERSON, Perry (2004), "Dégringolade”, in London Review of Books; [10] BERGER, Denis, RIOT-SARCEY, Michèle (2005), “Francois Furet : l’histoire comme idéologie”, Multitudes.

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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Informação áurea


Antes de comemorarmos o quarto aniversário, fazemos o balanço de actividade inspirada na Informação Solidária (IS), corrente que abraçámos desde o início. Filha de um quinto poder, a IS orienta-se pelos princípios da qualidade, diversidade, profundidade e sensibilidade, do Bem, do Belo, do Bom e do Verdadeiro. É hoje, mediante a crise, uma oportunidade urgente que importa (re)conhecer.

Texto Dina Cristo desenho Zita Leonardo


Há dez anos, Carlos Cardoso Aveline, autor brasileiro, escreveu um livro que se intitulava “Informação solidária”. A obra serviu-nos de inspiração para a realização da conferência sobre Informação Solidária em Portugal. Em Coimbra, estiveram presentes Henrique Pinto e Gabriela Oliveira, e, via tecnológica, o autor. No seguimento, encetámos, em Julho de 2007, este projecto. Os primeiros artigos foram sobre o tema.

Quatro anos depois, temos mais de duas centenas e meia de textos, de mais de 50 autores, sobre vários assuntos e em diversos géneros jornalísticos. Além dos artigos semanais, à Quarta-Feira, e as rubricas, trimestrais - em cada nova estação -, temos tornado públicos, mensalmente, vários ensaios, desde a literatura à política. Todas as produções são inéditas, salvo uma ou outra excepção devidamente referida.

Ao longo destes anos, apresentámos o conceito de Informação Solidária nas Jornadas Internacionais de Jornalismo, no Porto, promovemos um workshop e entregámos dois Prémios IS, o primeiro à revista “Biosofia”, em 2009, e o segundo ao blogue “Vislumbres da Outra Margem”, em 2010. Temos dado a conhecer novos autores, como Elton Rodrigues Malta, e novas ideias, como a simplicidade voluntária. Tivemos mais de 35 mil páginas consultadas por mais de 17 mil visitantes, dos quais 12% durante mais de 20 minutos.

Quando começámos, a palavra “solidária” era vista com desconfiança e apenas no aspecto moral. Hoje, ela é visível, na publicidade, audível, em programa de rádio, e está presente em secções próprias de jornais. Um pouco como a sustentabilidade, primeiro, e a responsabilidade social, depois, torna-se mais habitual. Na economia, na política, na justiça, no turismo, na inovação, na informação o sector social ressurge.

Transformações
Actualização do espírito fraternal da Revolução Francesa, hoje é mais perceptível a sua necessidade, existência e importância. Com o colapso do sistema industrial, financeiro e social as propostas alternativas, até aqui desprezadas, são revalorizadas. Neste início do terceiro milénio, a consciência planetária acelera e as práticas mais altruístas ganham dimensão.
Desde as áreas científicas, como a física quântica ou a psicologia transpessoal, teorias de vanguarda, como os campos mórficos de Rupert Sheldrake ou a ordem implícita de David Bohm, alargam horizontes. O digital, com os blogues, redes sociais e o wiki, expande-se e há todo um terceiro sector que se fortalece.

A informação é aquilo que dá forma a algo; como explica Lucienne Cornu, é aquilo que permite estruturar. O acesso a uma nova informação trará novas formas individuais, colectivas e planetárias, como ensina Dieter Duhm. Na perspectiva de Carlos Cardoso Aveline, uma verdadeira informação dará lugar a decisões mais correctas.

Enquanto super-estrutura influenciará a infra-estrutura material, mas esta também não a prescinde. É assim que realidades como a economia solidária, a inovação social, as ONG, as IPSS e os mais diversos movimentos, desde a ecologia à saúde, do sincretismo religioso à protecção às crianças e animais, precisam de se fazer ver e ouvir enquanto partes legítimas do grande todo colectivo.

Fora dos grandes “media” conservadores, há um país a desabrochar. Para além da crise objectivada em sons e imagens, há todo um outro Portugal que se dinamiza: agentes, fontes e acontecimentos que retratam o lado mais nobre e digno. Com ensejos filantrópicos, os acontecimentos multiplicam-se pelo território nacional. Os pequenos, mais atentos e com novos critérios, dão-lhes expressão.

Os cidadãos, implodidos com a propaganda do crescimento económico contínuo, explodem no sentido do desenvolvimento interior. Agonizados pelo curto-circuito, fechado, dos “mass media”, sentem novos ventos de liberdade de expressão, de livre fluxo informativo. Dão, recebem, partilham.

Apesar da insistência na brutalidade, nos acontecimentos egocêntricos e nos actos de selvajaria, há novos ares que sopram no sentido da elevação da consciência: mais generosa e holística. Seja por um livro, um filme, uma terapia, um blogue, a nova informação já circula, também na internet.

É neste contexto que a Informação Solidária se evidencia. Desde logo parte de um novo pressuposto - o de que os recursos são suficientes: matéria-prima, tempo, espaço, técnica, homens e mulheres chegam para fazer uma informação melhor, mais útil e humana. Confiante nos meios, assente em princípios (éticos) e desapegada dos fins, está segura de que, mais cedo ou mais tarde, estes surgirão, para bem de todos.

(Des)créditos informativos

Alternativa, a IS é uma informação ecológica e dourada. Sem se arrogar de independente, muito menos dependente do receptor, a Informação Solidária afirma-se e (a)firma a interdependência, não só na sua relação interlocutiva mas entre todo o universo. Necessariamente reticular, pura, saudável, natural e estética, ela é benfazeja, terapêutica, regenerativa e sustentável.

Sinal dos novos tempos de descoberta espiritual, a IS é uma informação solar, amorosa, intuitiva, por vezes abstracta. Inspiradora, ela é criativa, profunda, livre, essencial e transpessoal. Estrutural e íntegra(l), é simples e significativa. Corajosa, diferente e coerente com os seus valores, por vezes inconveniente, é interventiva.

Ocupada com questões de médio-longo prazo, desacelerada, lenta e extensiva, próprio do “slow journalism”, é autónoma, realista e pauta-se pela inovação e correcção. Caracterizada pelo equilíbrio e a moderação, usa a média tecnologia. Democrática, ela é uma espécie de informação branca, no sentido de reflectir as demais cores (políticas, religiosas, sociais ...).

De origem aquariana, ela é vincadamente feminina e grupal. Descentralizada, local, voluntária, informal e doméstica. Inofensiva e construtiva, prudente e discreta, ela é escrupulosa, animada, alegre e entusiasmada. Serena, graciosa, confiante, desperta, consistente e respeitosa, ela concilia a autonomia com a responsabilidade.

Aos poucos, vai desactualizando a informação interessada, grosseira e agressiva. Para trás vai ficando uma comunicação social carente, desnutrida, insaciável e hipnotizadora. Relatos violentos, repetitivos, fragmentados, formais, superficiais e irrelevantes tornar-se-ão inaceitáveis. Informação rápida, imediata, intoxicante, indiferente, negativa, conveniente, fútil e contraditória será abandonada. Notícias exageradas, tendenciosas, à base de cosmética e de alta tecnologia, baseadas no valor comercial, opacas, demasiado masculinas, crueis, em quantidades astronómicas, impulsivas, assustadoras, indiscretas e desgraçadas desvanecerão.
Espiral informativa

Mais de 30 anos depois do relatório Macbride, a IS reequilibra os fluxos de informação e enceta uma economia não monetária, onde todos colaboram com todos. Depressiva - no sentido em que honra a diferença e promove a unidade, possui bons sentimentos e partilha o poder (de saber) com os outros cidadãos - é talvez motivo para se dizer: “silêncio que se vai ler, ouvir ou ver Informação Solidária”.

Mais (além) e melhor do que a informação alternativa, social, de paz, de cidadania ou responsabilidade social que integra, a Informação Solidária comprometida com a Paz, o Amor e a Vida, ultrapassa o impasse das mais diversas dicotomias e transcende-as, sintética e harmoniosamente. Ela é o ponto de partida, em expansão, para um novo portal comunicacional, transformador e curador das feridas deixadas pela guerra, intolerância e incompreensão.

Pólo activo e passivo, romântico e industrial, racional e emocional, direito e dever, onda e partícula, optimismo e pessimismo, quantidade e qualidade, substância e forma, tempo e espaço, idealismo e positivismo, política e economia, autor e leitor, hemisfério direito e esquerdo, meios quentes e frios, objectividade e subjectividade, global e local, ética e mercado s(er)ão vistos como duas expressões da mesma realidade. Ao conciliá-los e ordená-los, a IS supera os conflitos separatistas e actua(rá) como consoladora na Nova Era de Liberdade, de Ser e de Comunicar.

Como escreveu Carlos Cardoso Aveline, jornalista, ecologista e teosofista: «Na nova era, a conduta do cidadão não será comandada por programas de auditório de televisão ou necessidades comerciais de grandes empresas. Informações inúteis não serão vendidas com tanto zelo como hoje, e a novidade deixará de ser vista como mais importante que a verdade. Velhas tradições ressurgirão. A arte e ciência de viver correctamente ocupará lugar de destaque em escolas, locais de trabalho e meios de comunicação social.».

(1) AVELINE, Carlos Cardoso - A informação Solidária - A Comunicação Social como prática de uma nova ética. Edifurb, Brasil, 2001.

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quarta-feira, 16 de julho de 2008

Informação sustentável

Quase a completar um ano, publicamos a primeira parte de um artigo sobre a fonte inspiradora deste projecto: a informação solidária.

Texto e fotografia Dina Cristo

Ao encetar o terceiro milénio, eis uma nova proposta de concepção e prática informativa: solidária, profunda, cooperativa, diversificada, sintética, lenta e humana. Uma alternativa à dominação das técnicas de manipulação e propaganda, que poluem a imprensa e intoxicam os cidadãos; uma resposta ao nível da comunicação social da mudança para um paradigma pacífico, ecológico e responsável.
Numa sociedade de consumo, onde quase tudo está à venda, com um preço de acordo com o nível de procura, e num sistema capitalista, que privilegia o capital económico-financeiro em detrimento de valores de honradez ou nobreza de carácter, o público está facilmente exposto aos riscos da comunicação hiper-industrializada, fértil em manipulação, em doses massivas de propaganda, de terror informativo, de incitamento ao medo, à dependência, ao isolamento e à inacção, apesar de todos os discursos em prol da cidadania activa e participativa visando o aprofundamento de uma sociedade democrática.
A informação solidária (IS) pretende dar instrumentos e condições para libertar o ser humano, seja ele produtor ou consumidor de informação, da dependência de quem o manipula, abusando da sua boa-fé, da sua confiança e ingenuidade para, através do estimulo de desejos, o conduzir a adoptar os comportamentos estrategicamente previstos.
O seu meio privilegiado é o webjornalismo, campo mais propício ao desenvolvimento deste movimento informativo, onde a par de uma nova agenda para a paz, com todas as suas repercussões, ganham importância novas áreas como a da responsabilidade social e a defesa de um quinto poder.
Quando o argumento mais comum para o terror informativo é o de que o mundo precisa de saber o que se passa, e, na sociedade da imagem, mostrar é uma forma de esconder aquilo que não se pretende que se saiba, o jornalismo tradicional está ainda na razão inversa da “informação”.
Património informativo


O século XX foi uma centúria de opressão, censura, manipulação, propaganda, distracção, entretenimento, “infotainment”, de adormecimento, alienação, dependência, inconsciência, irresponsabilidade e impotência, como mostra o documentário “Zeitgeist”. A propaganda manipula o cidadão e controla-o através do medo e das emoções, mantendo-o quieto, como se faz às crianças quando se tira da cartola o “bicho papão”.
No início do século XX um elemento de uma tribo desenhava-nos o perfil de ocidentais no que têm de pior ao nível da comunicação em sociedade: a prisão - dos apartamentos, das salas de cinema, dos próprios jornais -, a falta de contacto com a realidade. A necessidade de mediação, a leitura e interpretação da realidade em substituição da experiência directa e a homogeneidade. “Papalagui” mostra como a superioridade das culturas se reduz a uma questão de perspectiva e mais ainda de etnocentrismo, egoísmo em termos colectivos, arrogância em alguns casos e incompreensão em muitos deles. Fala-nos do excesso de informação e da “indigestão” que tal causa; o princípio de que nem tudo o que ingerimos é assimilado, neste caso pelo organismo mental.
A evolução da consciência humana quanto à manipulação (dos “media”), por um lado, e à necessidade de auto-realização, por outro, através de uma vida pacífica e harmoniosa, interna e externamente, a nível individual e colectivo, repercutiu-se num novo paradigma civilizacional e mediático, representado pela informação solidária.
Este novo modelo de comunicação social valoriza a força da união e da liberdade em detrimento da fraqueza do isolamento, permeável ao abuso e à opressão. A proposta é de uma maior consciência, autonomia e responsabilidade do Emerec, que ofereça protecção ao cárcere da segregação, competição, egotismo e isolamento, condições propícias a que a indústria cultural manipule o público, fragilizado.
O “segredo” de gerar consenso social para que as entidades empresariais possam ter o apoio dos próprios cidadãos, frágeis, isolados e crédulos, aos interesses daqueles, de colocar a maioria da população ao lado, de acordo, ou pelo menos não se mostrar contra, e silenciá-la, sem proibi-la de falar, está na indústria das relações públicas, que convence o público a acreditar nas mensagens falsas ou ideias distorcidas. A massa, como uma criança, confia e acredita em quem tem legalmente o poder de a informar.
Perante este voto de confiança, por vezes às cegas, a indústria das relações públicas persuade o público acerca de quase tudo, necessidades, veracidade das informações, e transforma as suas crenças e convicções em equívocos mal compreendidos, numa dependência, vitimação e necessidade de aprovação que só aumenta em ciclo a sua falta de confiança. Um ciclo vicioso difícil de sair – um cativeiro, local óptimo para a escravização, onde os senhores da indústria da comunicação o dom(in)am.
Novo paradigma social
Após a destruição provocada pelas guerras mundiais, emerge um novo paradigma de paz e cooperação. Surge por um lado a revolta contra o autoritarismo e por outro o desejo da devolução do poder ao povo, a democracia, o respeito pelas minorias; desponta um paradigma ecologista, uma visão de solidariedade ao nível planetário. No fundo, os ideais da Revolução Francesa começam a expressar-se de forma notória.
Há mais de duzentos anos que foi necessária uma revolução para terminar o autoritarismo e o absolutismo. Aos poucos instituem-se, primeiro nos ideais depois na prática, os valores da liberdade, da igualdade perante a lei e em dignidade humana, a fraternidade, a solidariedade, a união que reforça o poder de cidadania. Numa visão mais ampla, cada parte integra um todo, ao qual pertence, e no âmbito do qual está inevitavelmente ligada às outras: a comunidade em rede, reticular de que nós hoje experimentamos; um modelo horizontal de comunicação, descentralizado e democratizado.
Desde a sequela da I e II Guerra Mundial, quer ao nível diplomático quer ao nível do direito internacional, os valores da cooperação e da paz têm estado na agenda política. O respeito pelos direitos humanos e a importância da pacificação dos territórios, evitando as mortes, atrocidades e crueldades, têm sido uma preocupação. Desde há décadas que os homens se juntam em conversações e diálogos para tentarem pela via verbal aquilo que anteriormente era resolvido militarmente.
Ao nível nacional e internacional foram criados vários organismos e instituições com estas preocupações (como a UNESCO, a Comissão Justiça e Paz, a Universidade da Paz). Na prática, há uma parte da comunidade que se agita face aos novos valores. Exige-se uma agenda para a paz, comemora-se o Dia dos Jornalistas pela Paz, há institutos que formam os jornalistas neste sentido (caso da Agência internacional pela Paz) e novos projectos no âmbito do jornalismo alternativo vão surgindo. Entretanto, o paradigma tem tido alguma expressão ao nível social, económico e científico.
Ao nível social, a globalização, processo de conhecimento, troca, partilha, integração e fusão cultural que vem, pelo menos, da era dos Descobrimentos, em cuja promoção o comércio tem sido pioneiro, tem provocado, juntamente com a venda de bens e serviços, o contacto humano e a troca de ideias, crenças, valores, formas de estar e conceber o universo. O processo de construção de um planeta numa aldeia global, antecipado por vários homens da ciência, é visivelmente sentido nos dias actuais. Ele visa, em última instância, a promoção da partilha humana, ao nível cultura e tem derrubado, por isso, várias fronteiras mentais, psicológicas e físicas, como foi o caso do muro de Berlim ou o fim do “apartheid”.
Ao nível económico, a economia e comércio solidários são hoje, perante a globalização económica internacional, uma alternativa humana, que tem em consideração a vida das pessoas, de quem trabalha, de quem consome, de quem vende e respeito por um padrão ético.
Ao nível científico, surge a teoria de Gaia, de James E. Lovelock, os campos mórficos de Rupert Sheldrake, a física quântica e a teoria das cordas, o paradigma holístico.
É, assim, na transição do século XX para o século XXI que mais se fazem sentir os efeitos da mudança de paradigma: ecológico, solidário, democrático que, ao influenciar vários sectores, não pôde deixar de ter efeito sobre os “media” e o jornalismo.
Nova concepção informativa
Os Estudos Culturais vêem os “media” como opressores mas também com a potencialidade de se transformarem em instituições de libertação. Se derem voz às minorias (étnicas, culturais, religiosas, políticas, sociais, económicas, sexuais entre outras) estarão a equilibrar a sua representação mediática com a sua existência efectiva. Ao variar as fontes a que recorrem, os “media” estarão a relatar a realidade sob diferentes ângulos contribuindo assim para o enriquecimento de olhares e um conhecimento mais completo. É a valorização das várias culturas, modos de fazer dissemelhantes, que podem ser úteis ao desenvolvimento humano em detrimento de predomínio de um só ponto, uniforme, politicamente correcto, convencional, de uma legitimidade construída.
O relatório McBride, escrito há cinco décadas, está ainda por cumprir, mas foi um marco desta nova etapa. O documento apontou as fragilidades de uma informação internacional desequilibrante, com o predomínio das fontes e relatos dos países do norte em relação aos do sul, e salientou a importância de reequilibrar o fluxo informativo para o progresso e desenvolvimento político e social dos países e continentes. Para que o retrocesso não suceda e o sistema social não bloqueie era - e é - urgente o livre fluxo de informação, o seu livre curso.
Estamos, pois, a usufruir dos primeiros resultados das alterações havidas no último quartel do século XX. Após a “era” do jornalismo de opinião, no séc. XIX, e do jornalismo industrial, no séc. XX, eis que emergiram no seu final novos meios, técnicas, ideias e condições de produção informativa. Depois dos “media” tradicionais, surge um novo, multimédia, que os converge.
A web permitiu nos últimos anos do século XX conjugar e conciliar a forma e a técnica. Além da passagem a um nível de informação virtual, numa dimensão desmaterializada, permitiu a integração dos meios de comunicação até então separados em imprensa, rádio e televisão, na sua dimensão escrita, oral e (audi)visual. A Internet possibilitou o multimédia, a síntese mediática, que no caso do webjornalismo conjuga todas as linguagens anteriores, promovendo a evolução da linguagem jornalística a um nível de hipertextualidade, "multimedialidade" e interactividade inovadoras.
A história da comunicação e do jornalismo tem sido um acumular de técnicas que têm permitido ultrapassar ou eliminar barreiras de tempo e de espaço. Por outro lado, a informação tem-se orientado, com alguns momentos históricos de censura e inquisição, para a descentralização, com tendência a ser democrática, de acesso cada menos restrito ao poder de saber. A web, flexível, ubíqua, é um instrumento técnico que tem permitido, desde a viragem do século, um impulso a esse desafio que é formar uma comunidade cada vez mais internacional, com uma opinião pública, e concretizar a utopia da comunicação, tornar como um, numa unidade o globo terrestre.

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terça-feira, 20 de maio de 2008

Jornalismo (e) audiovisual IV


Após uma abordagem geral da imagem que o cinema projectou do jornalista, apresentamos hoje alguns dos exemplos mais ilustrativos de “newspaper films” das décadas de 30, 40 e 50.

Texto Dina Cristo

Umas vezes fria e distante com um ar crítico, outras amável e até condescendente, a imagem que o cinema projectou dos jornalistas resulta do modo como estes foram considerados pelos próprios cineastas, público e políticos, bem como do contexto social e económico de cada época: a grande depressão na presidência de Hoover, o programa de New Deal na de Roosevelt, a guerra fria nos anos de Truman, a caça às bruxas com MacArthur (que também afectou Hollywood), o assassinato de Kennedy, a guerra do Vietname, os casos Watergate e Gary Hart.
Mais feroz na década de 30/40 e 80 (a sua dependência em relação ao poder e o pouco respeito pela verdade) devido aos excessos dos jornalistas na vida privada, o cinema fez destes, contudo, alguns retratos elogiosos, dos quais o mais fiel representante será “All the president`s men”.
Primeiros passos
Desde o início da sétima arte, quando esta dava ainda os seus primeiros passos, que o jornalista foi ‘agarrado’ para personagem. Em 1903, “Delivering Newspapers” mostra um grupo de jornalistas aguardando a chegada de um camião com a última edição de um jornal. Na primeira década do século XX, eram habituais temas como a corrida ao furo jornalístico e a cobertura de casos relacionados com instituições de poder.
A década de 20 fica marcada pelo primeiro dos vários filmes de Capra que têm por tema o jornalismo. “The power of the press”, realizado em 1928, no final do cinema mudo, dá-nos uma visão clássica do personagem como herói de aventuras – no caso, um jovem repórter que se lança em busca de criminosos.
É durante a segunda década que são reconhecidas as possibilidades de história que a corrida contra a concorrência e o permanente interesse pelos factos oferece. Os filmes de jornalistas tornam-se um género apelativo; qualquer repórter, nomeadamente no seu carácter flexível, pode ser figura central de um filme e constituir o seu principal assunto. O estilo, esse, era neutro. Como escreveu Deac Rossel, o cinema dos anos 20 dá-nos a imagem de um jornalista íntegro, há uma certa ingenuidade ou até má vontade em conhecer os abusos do privilégio redactorial – exactamente o que vem a suceder nos anos seguintes.
Anos 30
O cinema da terceira década prima pelo social, um cinema de denúncia dos preconceitos do “yellow journalism” que então se praticava.
Segundo Howard Good, a década de 30 foi o período dos mais memoráveis “newspaper films”. “The front page” e “The five star final” traçaram dos profissionais da imprensa uma das visões mais cruéis. A esta perspectiva não será alheio o facto de ambos terem por base peças teatrais cujos autores haviam sido jornalistas. Hecht tomou como modelo inspirador para o jornalista Walter Burns, o seu antigo director de jornal Walter Howie, para quem recusou trabalhar uma vez. Louis Weitzenkorn baseia, de igual modo, a peça “The star final” na sua própria experiência no “York Graphic”.
A imagem mais clássica do jornalismo na ficção, uma das mais cáusticas que até hoje o cinema nos deu, uma das mais famosas e recordadas de todos os que retrataram o jornalista, “The front page”, é também um modelo dos “anti-press film”. Repórteres que não sabem o que se passa, inventam notícias e agem como crianças, personagens que são, na opinião de Joaquim Vieira, “(…) funcionários acomodados em troca de pequenos favores, ignorantes incapazes de um esforço intelectual, tarimbeiros prontos a distorcer a objectividade para rastejar a concorrência (…)”
[1].
Um filme em que, segundo João Bénard da Costa “(…) avulta o tratamento realista dado às telefonistas e às suas vozes perfazendo o “realismo social” tão ao gosto de Zanuck e da Warner de então”
[2].
“The five star final” transmite-nos uma mensagem de desconfiança nas altas esferas do jornalismo, obcecadas pelas tiragens do jornal e pouco profissionais na sua irresponsabilidade perante o público. É a denúncia de uma imprensa que desenterra um caso com 20 anos, no intuito de aumentar as vendas, provocando dois suicídios de pessoas cuja vida já estava naturalmente refeita. Implacável com os homens da imprensa, “The five star final” «retrata jornalistas viciosos e avarentos – como gangsters armados de máquinas de escrever»
[3].
Do mesmo ano, e sob a influência do “The front page”, Frank Capra realiza “Platinum blonde” – um filme onde ressalta a tentativa de moralização da sociedade e uma certa acusação da vida dos poderosos. Repleto de energia e vitalidade, Stew Smith, o jornalista pertencente à classe média, contrasta com o retrato snobe e caricato da família Schuyler, à qual chega a pertencer, mas que o vazio leva-o a abandoná-la. Na verdade, Stew, enquanto casado com a herdeira, nunca se rende às mordomias, escreve energicamente a sua história e mantém-se fiel às suas amizades. É o primeiro filme de Capra a tratar da crise social e da depressão. Para a história ficam também os diálogos de Robert Riskin – um dos vários dramaturgos e jornalistas que Hollywood foi buscar à Broadway no início do sonoro.
It happened onde night” é uma história em que o jornalista, “o melhor repórter da cidade”, se envolve com o objecto da sua reportagem, a desaparecida Andrews, e a protege (no início com o objectivo de realizar o grande furo jornalístico). Na redacção, a pressão, o stress e a rapidez com que as coisas se passam são uma boa aula de jornalismo.
They won`t forget”, na cumplicidade entre imprensa/poder político e denúncia do racismo, é um dos filmes mais característicos do cinema social americano dos anos 30. Brock, o jornalista, e Griffin, o promotor público, exploram o clima de histeria (provocado pelo linchamento que se seguiu ao assassinato de uma jovem na região sul) de forma a lançar a candidatura do segundo a senador. É um retrato da manipulação da opinião pública e de violação do direito à vida privada. O filme inspira-se num caso de discriminação racial ocorrido em 1913, relatado do livro “Death in the deep south”, de Ward Greene, e inscreve-se também dentro do cinema social da década de 30, de denúncia dos preconceitos e do jornalismo sensacionalista.
A imprensa, em “Mr. Deed goes to Washington”, de um homem simples, honesto, bom e solidário transmite a ideia de que se trata de um “cinderela man”, estúpido, anti-social e demente. Esta última acusação leva-o a tribunal, onde é julgado por tocar trombone, distribuir a fortuna que tivera ganho pelos pobres e dar “donuts” a cavalos. Exagerou-se, reconhece mais tarde a jornalista: “era tudo distorcido para parecer imbecil”.
Em “Peço a palavra” também marca presença a manipulação da opinião pública através do controlo de uma série de jornais que distorciam por completo a informação. Neste caso, os corruptos acabam por ceder à extrema perseverança de um homem que toma a palavra até não aguentar mais e cair estarrecido no chão.
Each dawn I die” (de 1939) mostra, como nenhum outro, os riscos da profissão. Um jornalista é encerrado numa penitenciária por ter descoberto o carácter corrupto de um candidato ao governador. Profissional em todas as circunstâncias, Cagney, mesmo preso, consegue conter-se, possibilitar a evasão e trazer o “scoop” para o seu jornal. Uma película que é uma mistura do filme de “gangsters” com o de prisões e de denúncia social, que aparece numa altura em que “(…) a economia já vê a saída do túnel da crise (embora outra se avizinhe)”
[4].

Anos 40
“Citizen Kane” e a segunda versão de “The front page” marcam a quarta década, preenchida com uma filmografia profusa.
Em 1940, Howard Hawks substitui o jornalista por uma mulher, imprime maior velocidade aos diálogos e faz “His girl Friday” uma das mais fabulosas comédias de toda a história do cinema. Caracterizada como muito humana no “Monthly Film Bulletim”, Hildy, a jornalista, é, no olhar crítico de João Bénard da Costa, um “animal perigoso” decidido a tirar da presa (o condenado à cadeira eléctrica) todos os proventos”
[5].
Conhecido pela revolução que provocou na linguagem cinematográfica, sobejamente discutido, e apreciado, “Citizen Kane” é provavelmente o filme de jornalistas mais famoso e o que melhor terá colocado a noção de manipulação da informação. Charles Foster Kane – um magnata, por puro capricho e depois de ter mandado construir um teatro, pressiona a sua mulher a cantar ópera, quando todos eram unânimes em relação à sua falta de dotes vocais. Kane não hesita um minuto em utilizar o seu monopólio de comunicação social para transformar as críticas iniciais – que diagnosticavam “incompetente amadora” – em grandes sucessos.
«A polémica nasceu do facto de ter constado que o “Cidadão Kane” era um retrato, em corpo inteiro, do famoso William Randoph Hearst, o “dono” de metade dos jornais da América. Welles defendeu-se: “O filme não se baseia nem na vida de Mr. Hearst, nem na vida de qualquer outra pessoa. No entanto, se Mr. Hearst e outros “tubarões” não tivessem vivido durante o período em causa CITIZEN KANE nunca podia ter sido feito”
[6].
A confirmação do correspondente de guerra como herói acontece com “Foreign correspondent” – um filme que é também uma história de espionagem durante a II Guerra Mundial. Jonnie Jones, um repórter de crimes e assassinatos, vai para a Europa, sob pseudónimo. No final, reporta, com vivacidade e sob a escuridão da rádio londrina, os factos mais importantes e dos quais foi testemunha: o assassinato do sósia, a prisão de Van Meer e o ataque aéreo ao qual sobreviveu.
O filme encontra-se entre as películas de “(…) propaganda antinazi que, por esses anos, com algumas precauções (a América ainda não tinha entrado na guerra) Hollywood fazia”
[7]. Diz-nos ainda João Bénard da Costa que a produção, efectuada no início da guerra, implicou a deslocação de duas equipas de filmagem à Europa para rodar exteriores na Holanda e na Inglaterra.
Em “Arise my love”, é uma jornalista, também correspondente de guerra, que sobrevive ao afundamento de um transatlântico. Testemunha do ataque alemão e perseguição aérea, ela está numa posição estratégica para reportar os acontecimentos. Nash, sempre determinada em nunca largar a “typewriter”, hesita na escrita, devido à paixão. O pano de fundo é a guerra civil de Espanha: «(…) estamos em Junho de 1939, na consolidação da vitória franquista e ao tempo dos “ajustes de contas” onde um pelotão procede a um fuzilamento»
[8], eis a cena inicial do filme narrada por Cintra Ferreira.
Reportagens de um correspondente de guerra, mas desta vez real – o lendário Ernie Pyle, cujas reportagens eram sobre as condições de vida dos soldados, mais do que as chefias políticas e militares – inspiraram “The story of G.I.Joe”, um filme próximo do documentário captado durante as operações. Por um lado, as imagens são dadas ainda durante o conflito, sem ser uma retrospectiva e sem qualquer romantismo, por outro lado, os figurantes eram homens do Quinto Exército: “O Departamento de Guerra cedeu 150 veteranos da campanha de Itália para o filme, antes de embarcarem para o Pacífico. Quantos deles não terão lá encontrado destino semelhante ao do filme em que participaram? (…)”
[9], questiona Cintra Ferreira.
“A dispatch from Reuter`s”, também sobre um jornalista com existência concreta (o fundador da agência de notícias e uma das primeiras personalidades dedicadas à causa informativa), enceta a fórmula da realização de biografias. Da infância ao trabalho nos correios até à sua primeira agência em 1849, o filme sintetiza em poucos minutos uma longa investigação sobre a vida do homem que, na Europa, foi o primeiro a noticiar o assassinato do presidente Lincoln.
Com toda a verdade nas mãos, o jornalista tem por dever transmiti-la, mas será que o poder e crise social o irão permitir? É esta a questão que fica no ar em “The keeper of the flame”; nesta película o repórter investiga a vida de um ídolo, descobrindo que não passava de um líder fascista disfarçado. “Houve ainda quem fosse mais longe e considerasse que se podia estabelecer um paralelo entre Robert V. Forrest, o herói morto, e o general MacArthur, então “alarmantemente popular”
[10].
Procurar a verdade além de divulgar notícias é a principal mensagem que nos deixa “Call northside 777”, um filme clássico de investigação jornalística, que é ao mesmo tempo uma síntese da imagem da tradição liberal em que o jornalista luta contra a injustiça e a corrupção. Graças ao carácter exaustivo da reportagem, o jornalista consegue, ao provar a inocência de um homem, libertá-lo da prisão onde permanecia há onze anos.
Ao apresentar uma investigação profunda sobre o sentimento anti-semita no “Deep South” americano, “Gentleman`s agreement” faz uma antecipação do novo jornalismo. Phil Green, o repórter, escurece a sua pele de forma a ser identificado como judeu e parte em viagem, onde é humilhado e alvo de indignidades e insultos. Na volta, está devidamente capacitado para explicar que significado tem a palavra ‘intolerância’ e ‘discriminação’. O filme, ao atacar frontalmente a questão do anti-semitismo na América, originou que “(…) muitos dos participantes nesta obra (Kazan, Hart, Garfield, Revere) foram “blacklisted” por McCarthy e tiveram as carreiras arruinadas ou ameaçadas (…)”
[11].
Em “It happened tomorrow”, o jornalista tem acesso hoje ao que vai acontecer amanhã. A sua fonte de informação, um velho arquivista, concede-lhe o jornal que vai sair nas bancas no dia seguinte. Incrédulo de início, o jornalista torna-se uma vedeta do “soop”, pois apenas tem de se antecipar aos factos e comprovar com os próprios olhos.
Grandview, uma cidade representativa da média comportamental dos cidadãos americanos, é alvo da cobiça de um jornalista, Rip Smith, que ali projecta fazer fortuna. Este “mathematical miracle” apresentado em “Magic town” vai adquirir interesse nacional e transformar-se num mar de gente.
No último ano da década, “All the king`s men” expõe uma imprensa que se deixa arrastar pelas aparências, perdendo a objectividade. Barden, o jornalista a quem coube a cobertura das eleições, torna-se demasiado próximo de um candidato. Stark, ao contrário do seu lema (honestidade, integridade e verdade), revela-se um político desonesto, corrupto e sem escrúpulos.
A personagem principal é inspirada na vida de Huey Long, governador do estado da Loisiana, que ganhou fama nacional pela sua demagogia. Stark – escreve João Bénard – é a encarnação duma certa imagem da América no fim dos “fourthies”, quando a propaganda contrária começou a pôr em causa o reino de bons sentimentos e boas vontades que fora a imagem do país projectada entre 1935-1945. «(…) em anos Truman, de “desrroseveltianização”, podia convir mostrar que nem tudo nesses anos fora tão idílico como se proclamava»
[12].
Anos 50
“Raras vezes o cinema encontrou olhar tão desapiedado e tão abissal, raras vezes a humanidade (…) foi olhada de forma tão rasteira e tão esmagadora”
[13]. São as palavras de João Bénard da Costa sobre o filme que, sem dúvida, marca os anos 50: “The big carnival” – uma das visões mais cruéis do profissional de informação, veiculando a ideia de que este vai a todo lado e faz qualquer coisa por uma história.
O jornalista, ao ver num “scoop” a oportunidade de fazer reviver uma carreira em curva descendente, oculta aos bombeiros o acesso directo a um homem soterrado numa fenda de uma caverna. O objectivo, ao prolongar deliberadamente o trabalho de salvamento, é aumentar o número de dias durante os quais podia reportar, em exclusivo, o estado da vítima que acaba por falecer.
Numa visão diametralmente oposta, “Deadline USA” leva a acreditar que o jornalismo é a melhor profissão do mundo, com Ed Hutcheson – o responsável pelo “The Day” – a lutar por uma imprensa livre. Naquela casa, preserva-se até à última edição o jornalismo de qualidade que, após dados comprovados por uma investigação, publica o caso de corrupção política na cidade. É uma história «(…) baseada no caso concreto da morte do jornal “New York World” exactamente pelos mesmos motivos que afligem o “The Day” do filme»
[14], ou seja, escassez de meios financeiros e uma crescente importância do papel da televisão.
Em “La dolce vita” sobressai, para além do jornalista, que participa mais na sociedade do que a divulga, o conjunto de repórteres fotográficos que se acumulam, atropelam e correm atrás das vedetas e protagonistas dos acontecimentos. Estão em todo o instante, em qualquer sítio, prontos a disparar a objectiva, das mais diversas formas e pontos de vista. Para além de incitarem à pancadaria (prato forte para fotos escaldantes), não hesitam em encenar: colocam os fotografados nas posições mais ridículas, pedem-lhes para voltar e repetir passos.
Há depois um conjunto de filmes: “Park Row”, um hino à liberdade de imprensa, mostra um pequeno jornal que defende, num meio dominado pelo sensacionalismo, princípios deontológicos; “Beyond a reasonable doubt” , que nos dá matéria para uma reflexão sobre a realidade e a aparência; “While the city sleeps”, a luta pelo poder num jornal; “Je plaide non coupable”, em que um jornalista faz a sua investigação inocentando uma jovem acusada de assassinato ou “The lawless”, onde a redacção de um jornal é completamente destruída e pilhada após a defesa nas suas páginas de um jovem perseguido.

[1] VIEIRA, Joaquim – Mr. Gutemberg goês to Hollywood, p.24. [2] COSTA, João Bénerd – The front page/1974. [3] GOOD, Howard, Op. Cit, p.70. [4] FERREIRA, Manuel Cintra – Each down I die/1939, p.1. [5] COSTA, João Bénard - His girl Friday/1940, p.2. [6] Idem – Citizen Kane/1941, p.2 [7] Idem - Foreign correspondent/1940. [8] FERREIRA, Manuel Cintra – Arise my love/1940, p.2 [9] Idem. - The story of G.I.Joe/1945, p.2. [10] COSTA, João Bénard – Keeper of the flame/1942. [11] Idem - Gentleman`s agreement/1947, p.2. [12] Idem – All the King`s men, 1949. [13] Idem – The big carnival/1951. [14] ANDRADE, José Navarro – Deadline USA/1952.

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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Prémio Informação Solidária


No início do terceiro ano de actividade, abrimos as votações aos nomeados para o primeiro Prémio Informação Solidária (PIS) em Portugal.

Texto Dina Cristo fotografia e escultura Cristina Lourenço

São sete os (programas de) órgãos de comunicação social portugueses nomeados para o 1º PIS 2009 que criamos: Imprensa - "Biosofia", "Cais" e "Tempo livre"; Internet - "IM Magazine"; Rádio - "Mais cedo ou mais tarde" (TSF); Televisão - "Aqui & Agora" (SIC) e "Sociedade civil" (RTP2). A partir de agora, e durante exactamente três meses, os internautas podem votar na sondagem. A entrega do prémio, simbólico, uma estatueta - na fotografia - da autoria de Cristina Lourenço será entregue em Dezembro. Dar a conhecer a IS praticada em Portugal, reconhecer o seu trabalho, valorizar a inovação e incentivar a sua prática são os principais objectivos da distinção.
Como referiu Carlos Cardoso Aveline, pensador desta escola, no seu livro editado em 2001, “A informação solidária – a comunicação social como prática de uma nova ética”, a Comunicação Social da Nova Era possui sete características essenciais: «1)- Ensina como o cidadão pode assumir mais responsabilidade sobre sua vida, mostrando hábitos saudáveis e dando conhecimentos que permitem viver com sabedoria. 2)- Aponta soluções e alternativas para os problemas que aborda. Descreve atos generosos, destaca pessoas que agem com altruísmo. Inspira sentimentos positivos. 3)- Descreve o ser humano com suas crises e contradições, mas mostra que ele está voltado para o bem e que busca a felicidade. 4)- Obedece ao poder da verdade. Põe limites ao jogo de conveniências, abre espaço para leitores e espectadores, e ganha prestígio seguindo um bom padrão ético. Conquista espaço por sua coragem editorial. 5)- Dá destaque a causas nobres e projectos sociais altruístas. 6)- Fala a partir dos dois hemisférios cerebrais, especialmente o direito, que é positivo, intuitivo, criador e voltado para o futuro. 7)- Não tem medo de enfrentar as questões cruciais, porque confia no ser humano e no futuro.»
Como declarei à ESEC TV, em 2007, aquando da Conferência que antecedeu a criação deste projecto informativo, a IS apresenta uma nova forma de fazer informação, com critérios inovadores. Depois do conflito, da guerra, do ódio, do crime e da superficialidade, os novos valores-notícia da harmonia, da paz, do amor, da generosidade e da consistência começam a ser recuperados. Esta corrente defende igualmente a mudança de fontes philodoxas, amigas da opinião, para outras, philosophas, amigas do saber, privilegiando novos actores sociais mais altruístas.
Inovação informativaAtravés da IS mudam os objectivos, que deixam de ser apenas e desmedidamente os lucros, mas também os modos de produção, distribuição e recepção da informação. Doravante, com o esgotamento do sistema industrial, por um lado, e a expansão da rede digital, por outro, estão criadas as condições para se investir numa informação correcta, orientada pela ética, por dever, assente no paradigma do belo, bom e bem.
Deixa de estar apenas baseada nos fenómenos de efeitos pontuais para passar a estar ancorada num tripé em que se ocupa, para além do contexto dos acontecimentos, também das suas causas e consequências. Mais do que triangular, trata-se de uma informação que “vai mais fundo”, nas palavras de Gabriela Oliveira, jornalista freelancer, vocacionada para a integralidade da vida, dos seres ou da actualidade.
Sem se centrar, forçar ou explorar a subjectividade e a emoção, a IS não as esconde. Mais feminina, intuicional, a Informação Solidária faz uso do 6º sentido, latente, prescindindo da prioridade à informação política (partidária), económica, desportiva (futebol) ou internacional (conflitos). É uma informação especialmente vocacionada para pessoas (hiper)sensíveis, cuja natureza é ferida pelo excesso de estimulação, sobretudo visual e/ou sonora.
Mais humana, natural, simples e extensiva, é também mais artesanal, lenta e com alma. Adequada ao movimento de transição, com aposta na escala local, mas sem esquecer a dimensão planetária, é uma informação com preocupações ecológicas, sustentáveis, alternativas, comprometida, interventiva, independente e participativa. De carácter eminentemente voluntário, criteriosa e cooperativa, dirige-se a um público mais consciente e responsável que pretende desenvolver.
Mais de dois anos após termos dado início a este projecto informativo, inspirado na IS, a palavra "solidário", sobretudo depois da explosão da crise, deixou de parecer tão estranha. Se a expressão "fraternidade", ideal promovido pela Revolução Francesa, parece ter caído em desuso, com o crescimento do digital aumentam as oportunidades colaborativas, em rede, também ao nível jornalístico. Hoje, as questões da solidariedade social começam a integrar a agenda mediática, evocam-se os órgãos de comunicação social cooperativos, criam-se regiões solidárias, organizam-se festivais solidários e até o Google se tornou solidário.
Como escreveu Oscar Quiroga no seu "Diário de bordo" de 2 de Julho deste ano «(..) as coisas estão mudando, e para melhor. Por todo lado há humanos cheios de espírito e boa vontade que fazem o necessário para servir seus semelhantes, mas com certeza não merecem uma nota de rodapé nos jornais, porque a horda de seres estimulados pela crítica agressiva são os consumidores de notícias e não lhes interessa constatar que há espírito e boa vontade no seio humano. Porém, o número de pessoas de bem cresce diariamente e logo chegará o dia em que se tornará maioria e, pela magia das leis do mercado, provocará a mudança de tom das notícias veiculadas diariamente».

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