quarta-feira, 31 de março de 2010

Estrela



Na véspera do dia das mentiras abordamos o sonho e a imaginação, a ilusão e a fantasia, o fascínio e o devaneio amorosos.


Texto e desenho Dina Cristo

«Estrela - afável e carinhosa
Estrela tu que foste um brinquedo
Tu que estiveste em mim
Que viveste e sentiste
As mesmas emoções
Porquê me deixas nas trevas
Tu estrela – que me iluminaste
Tu guiaste já minha vida
Estrela
Que bom era se me conduzisses
E um pouco só me iluminasses
Ai! E se desses vida a um sonho
Me cobrisses com teus pedaços
Estrela
Não fiques mais no céu
Desce à terra onde te conheci
Deixa, pára
Fica só comigo
Num dia de Domingo
Estrela, minha estrela
Que és tão bem formada
De uma cor simples, transparente
Singela e tão complicada
Estrela
Estiveste tão perto… e não acreditava
Agora distante digo que és real
Que és formosa e só minha
Estrela
Por quem eu passei
A paz de pôr-do-sol
O namorado ao pé do mar
Tu foste a única a presentear
Diz-me estrela
Porque tudo mudou
Cresceste, em mim aumentaste
E ao teu reino enfim voltaste?»
S/d

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quarta-feira, 28 de maio de 2008

Ver rádio

Nas vésperas de mais um aniversário de “A menina da rádio”, olhamos para a imagem da telefonia neste filme.

Texto Luís Manuel Martins

O filme “A menina da rádio”[1], um dos clássicos do cinema português, foi realizado em 1944, por Arthur Duarte, sob a chancela da Companhia Portuguesa de Filmes. Esta produção cinematográfica trouxe pela primeira vez a rádio para o grande ecrã, consagrando-a como um meio de comunicação cada vez mais importante. A Emissora Nacional (EN), estação pública de radiodifusão, havia nascido em 1 de Agosto de 1935 e começava agora a criar um público cada vez mais fiel, que ouvia com agrado as emissões. A envolvência e a familiaridade que os locutores despertavam junto dos rádio-ouvintes eram tão grandes que, por vezes, havia quem se deparasse a criar imagens mentais da fisionomia das grandes vedetas que falavam “ao microfone”. A “Menina da rádio” vem desfazer os equívocos e as imagens estereotipadas que os portugueses haviam criado sobre o novo meio radiofónico.
Os anos 40 constituíram o maior período de expansão da rádio em Portugal. Os seus receptores ocuparam um verdadeiro lugar de honra nos lares dos portugueses, servindo de companhia e de fonte de entretenimento. A rádio tornou-se um elemento aglutinador para as famílias, que passaram a estar mais vezes reunidas a escutar as suas estações preferidas. Foi também na década de 40 que os comerciantes atraídos pela potencialidade que a rádio tinha para oferecer, a nível da publicidade, começaram a anunciar os seus produtos.
Os conteúdos radiofónicos eram muito variados e incluíam espaços de informação de carácter geral, noticiários, programas políticos e música. A programação musical ocupava um lugar de grande destaque. O filme “A menina da rádio” dá a conhecer o advento das grandes orquestras radiofónicas, que actuavam nos estúdios das emissoras, em directo e ao vivo. Os anos 50 viriam a dar lugar ao espectáculo radiofónico, realizado por gente do teatro, do cinema e das artes em geral, onde se destacavam jornalistas habituados a escrever peças para o teatro de revista, argumentos de cinema e textos publicitários para os jornais e para a rádio.
“O chefe de casa, que geralmente está ausente, passando o tempo por locais nem todos recomendáveis, descuidando o lar monótono, atraído pelo ruído e pelo movimento que encontra fora dele, começa a fazer nova vida. Quando não põe o aparelho a funcionar enquanto janta, fá-lo depois, deixando-se ficar em casa”, referiam Fausto Gonçalves e Pereira Machado em 1939. “A menina da rádio” mostrou ao país um fragmento real das actividades radiofónicas, preconizadas por conhecidíssimos colaboradores da Emissora Nacional, estação que surge no filme com o nome fictício de Rádio Lisboa. Assim, Jorge Alves, distinto locutor da EN, dá-se a conhecer ao grande público, agora não só pela sua voz firme e colocada, como também pela sua estatura alta e elegante.
No sentido da representatividade do locutor, enquanto profissão equiparada ao jornalismo, Isabel Travancas escreveu no seu artigo “O Jornalista Como Personagem de Cinema” que “a indústria cultural e particularmente o cinema são um campo privilegiado de produções simbólicas e mitos modernos”, considerando que a chamada sétima arte tem “lugar de destaque na modernidade”. A autora defende que “a linguagem cinematográfica transmitiu o impacto das transformações sofridas neste século [Século XX]” e refere que “o cinema com o seu enorme poder de penetração nos mais diversos grupos sociais ajudou a construir mitos, a divulgar saberes novos, como a psicanálise e a popularizar actividades e profissionais, como foi o caso da imprensa e dos jornalistas”.
Isabel Travancas deixa no ar uma interessante afirmação, seguida de uma pergunta: “É possível afirmar que o cinema colaborou com a construção de uma imagem, ou melhor, de algumas imagens do jornalista; representações que certamente influenciaram na escolha profissional de futuros repórteres. Quantas carreiras jornalísticas não devem ter nascido no «escurinho» de uma sala de cinema?”
“A menina da rádio” permite entender esta reflexão de Isabel Travancas no seu sentido mais lato, uma vez que foi muito bem aceite pelo grande público, não tanto pela crítica. Podemos mesmo falar de um fenómeno mediático, nunca antes visto em Portugal, que se prendeu com o facto de, na fase de pré-produção do filme, não se ter encontrado rapidamente uma protagonista para o papel principal. Depois de uma longa espera, alimentada por rasgos de algum sensacionalismo da imprensa da época, a escolha acabou por recair sobre Maria Eugénia, uma jovem talento, com apenas 16 anos de idade. Este foi um factor que acabou por pesar no retumbante sucesso de bilheteira, proporcionado por um público ávido de contactar com algumas das suas maiores estrelas do teatro e da rádio.
Imagem ou realidade?
Uma análise de imagem mais pormenorizada de certas cenas isoladas deixa igualmente uma dúvida. Será que o filme pode ser considerado um documentário? Manuela Penafria, no seu artigo “O documentarismo no cinema”, considera que a base de um filme documentário é “o registo in loco dos acontecimentos do mundo e da vida das pessoas”. Neste sentido, este filme adquire em certas cenas um certo pendor documentarista, que favorece a percepção da imagem, devido à contextualização, que apresenta, a nível do texto narrativo.
Michel Tardy considera que “a pedagogia das mensagens visuais não pode deixar de ser, primeiro, uma reflexão sobre a verdadeira natureza da imagem e sobre as suas coordenadas ontológicas. Discute-se interminavelmente sobre os seus conteúdos e a sua beleza eventual; mas o essencial que é examinar o seu próprio ser, fica esquecido. Ora, a imagem não coincide com a realidade que ela representa. A sua transparência não passa de uma opacidade camuflada: ela tem a inocência dos hipócritas. Entre o elemento indutor, a realidade, e o elemento induzido, a imagem, interpõe-se toda uma série de mediações que fazem com que a imagem não seja restituição, mas reconstrução da realidade”.
O autor, na sua obra “O professor e as imagens”, afirma que estas não constituem um mundo paralelo, mas um segundo mundo, com suas características próprias e suas leis específicas. A imagem é sempre alteração, voluntária ou involuntária, da realidade. A alteração voluntária não é, aliás, a mais significativa, porque resulta numa falsificação e remete para a suposição implícita de que se trata apenas de uma questão de honestidade; restaurada esta, o problema desapareceria. Ora, faça-se o que se fizer, a imagem sempre coloca em jogo processos de derivação; ela é, por natureza, e não de modo contigente, deformante”.
O filme, apesar do seu carácter eminentemente cómico de situação, proporcionado por actores emblemáticos como António Silva, Maria Matos e Ribeirinho, adquire em certos momentos a visão aproximada de um documentário. Isto porque demonstra a preocupação de veicular uma imagem positiva do potencial que a rádio tem para oferecer. É este, sem dúvida, o vector da narrativa, omnipresente ao longo de todo o filme. Igrejas Caeiro considera mesmo que a película “consegue retratar” a imagem das grandes estações de rádio nacionais, tal como a Emissora Nacional, em contraste com as pequenas rádios de bairro, das quais fazia parte o projecto de Cipriano Lopes (António Silva), com a criação do Rádio Clube da Estrela.
Segundo o antigo locutor da Emissora Nacional, «Havia exactamente várias rádios. As rádios formais, mais completas, e outras pequeninas. É esse trabalho que aparece no filme. É a rádio da rua, do sítio. Havia várias, não só em Lisboa, mas também no Porto. Havia rádiozinhas dessas. Rádios pequenas. Antes ia tudo à censura. Não passava nada. E coisas com que nós ríamos, porque não tinham pés, nem cabeça. Bem... Aí havia uma possibilidade de comunicar de outra maneira. Aquilo era uma piada, era uma graça. E há certas graças que convinham ao movimento de então. Há coisas que lhes davam jeito. Parecendo que estavam a dizer, agradava-lhes que isso fosse dito. De uma maneira geral, esse tipo de filmes não tinham assim grande forma de... [ser censurados]. Eram aceites”.
Em comentário no DVD, Igrejas Caeiro declara: “Aquilo era muito fácil para as pessoas, era muito agradável e deixavam que as coisas passassem. Foi muito interessante. As pessoas gostaram de ver. Porque já havia aí o interesse pelos artistas. Aqueles de que se gostava mais. E vê-las num filme assim foi agradável. Agora, a propósito dos filmes portugueses, embora muito bons do ponto de vista fácil, de agradável, de comunicante, os críticos davam cabo desses filmes. [Diziam que] aquilo não era cinema, que não era isto, que não era aquilo... Agora, passados tempos, passam-se esses filmes e toda a gente fica... Mas que cinema extraordinário que havia nessa altura!”.
“Alô, alô! Confeitaria Bijou da Estrela. Especialidade em doce de ginja, merengues, pudins e compotas. É aqui que se fabricam as afamadas broas de noz e os célebres rebuçados para a voz (tussindo). Serviços para casamentos e baptizados. Copos de água aos domicílios”. Assim começa Ribeirinho, empregado da Confeitaria do Sr. Lopes, a “ladainha” publicitária, que ganhava agora notoriedade no espaço radiofónico e induzia no público-alvo o desejo de comprar os mais variados produtos.
Neste aspecto, o filme é absolutamente fantástico. Ele retrata fielmente, a necessidade sentida pelo Sr. Lopes de mobilizar a vontade de um grupo de notáveis comerciantes do Bairro da Estrela, em Lisboa, para o seu novo e visionário projecto radiofónico, onde todos haviam de lucrar, uma vez conseguido o retorno dos investimentos em publicidade. Rosa Gonçalves (Maria Matos) encabeçava o rol de incrédulos e eternos rivais de Cipriano Lopes. Ela era na verdade uma personagem detestável, que Cipriano acusava de “querer calar a boca ao progresso”.
Na verdade, António Silva, quer no cinema, quer na sua vida do quotidiano, era um grande entusiasta da rádio. Uma das suas grandes preocupações era a necessidade desta constituir um meio de formação eficaz para as pessoas. O rádio-receptor, a torneira que, segundo ele, se abria e “jorrava música”, devia informar, mas também formar. Já agora porque não... divertir? Sem rodeios, preconizava que os que não tivessem aproximação às emissões se tornariam verdadeiros “analfarádios”.
A fita teve um grande sucesso na sua estreia, contudo a imagem que os críticos de cinema retiveram foi a de um filme insípido, demasiado fácil de ver. Ora, por vezes, o segredo do sucesso está na simplicidade. Dava-se ao público o que ele gostava, atendendo obviamente às especificidades e exigências das comissões de censura, que não perdoavam o mínimo deslize aos propósitos originais de “Servir a Pátria”, exigidos aos realizadores de cinema portugueses. Tudo tinha de ser feito “A Bem de Portugal” - a velha máxima do Estado Novo. Face à necessidade de captar um vasto auditório de ouvintes para a Emissora Nacional, ter-se-á servido o Estado deste filme, como estratégia de propaganda? É uma pergunta que fica no ar, com pertinência, creio.
Imagem ou imaginação
O sentimento de pertença e a familiaridade dos ouvintes com as emissões era muito grande, na década de 40. Há uma passagem maravilhosa ao nível da compreensão deste fenómeno, que é aquela em que Maria Eugénia se encontra a ouvir rádio com a mãe, escutando Fernando Verdial (Fernando Ribeiro) a cantar na Rádio Lisboa. Nesta cena, a menina da rádio, embebida pela envolvência do som, imagina-o como um televisor. A suspirar, afirma que a imagem mental que tinha daquele cantor da moda “parece um sonho”. A mãe (Maria Olguim), logo de seguida, retorquiu dizendo: “parece mas é bruxedo. Some-te!” [Benzendo-se]. Por aqui é fácil observar que certas pessoas ainda não estavam habituadas nem aos novos avanços tecnológicos, nem à nova forma de fazer rádio, já longe das primeiras experiências radiofónicas amadoras portuguesas dos princípios do século XX.
A filosofia de trabalho, baseada na persistência e na auto-formação, era praticamente a mesma. No entanto, investia-se crescentemente em bases mais sólidas de formação técnica e tecnológica dos colaboradores do meio radiofónico. Afinal eram estes que permitiam a transmissão de uma mensagem perceptiva e cultural, tal qual o modelo preconizado por Roland Barthes. A rádio povoava o imaginário colectivo. A própria palavra “imaginário” está relacionada com as imagens mentais que se criam por indução. A manipulação da realidade, ou a manutenção dos seus pressupostos, vai levar a que se gerem, ou não, imagens mentais fidedignas ou adulteradas do seu sentido original.
Para Martine Joly, o binómio Imagem/imaginário gera relações de complementaridade entre imagens e palavras, que reside no facto de “elas se alimentarem umas às outras”. Segundo a autora, “não existe qualquer necessidade de uma co-presença da imagem e do texto para que este fenómeno se verifique”, já que “as imagens engendram palavras que engendram imagens, num movimento sem fim”. Esta visão de Martine Joly está bem patente no filme “A menina da rádio”, já que o seu visionamento remete sempre para uma relação analógica e multiforme, de reconhecimento da realidade representada.
Voz e palavras
Manuela Penafria presta igualmente um contributo valioso para a compreensão deste filme, através do seu artigo “Ouvir imagens e ver sons”, apresentado nos VII Encontros de Cinema Música(s), realizado em Dezembro de 2003, no Cine Clube de Faro. A autora considera, antes de mais, que “a teoria cinematográfica tem estado algo arredada em estudar o som como elemento expressivo e fundamental dos filmes”.
A autora refere que o som pode ser de diferentes tipos, citando o de ambiente, os diálogos, a música, a locução (voz off) e os ruídos. Assim, falar de som em cinema implica “afastarmo-nos de um discurso que considera que o mesmo se dirige ao ouvido (assim como considerarmos apenas que a imagem se dirige ao olho)”. Imagem e som exercem assim uma acção complementar que favorece, ou não, a criação de ideias, crenças e valores, acerca da realidade que está a ser representada por via da transposição para o cinema.
Manuela Penafria menciona ainda no seu artigo que “com a introdução do som directo foi possível dizer-se que havia uma relação directa e linear entre a realidade e a sua representação. Entrevistas de rua e som ambiente enquanto parte integrante da realidade foram incluídas nos filmes. Mas, como sabemos, esse projecto de representação fiel da realidade foi mais um projecto de entusiasmo que efectivo”. Ainda segundo a autora, “quando a matéria da representação são imagens, estamos afastados do objecto representado, em especial, por questões estéticas (escolha de ângulos, enquadramentos, etc.), o que não permite essa relação linear com a realidade.
Através desta primeira abordagem, facilmente se perceberá a sua aplicação ao caso d’ “A menina da rádio”. Na verdade, em muitas cenas do filme são precisamente os momentos sonoros, que permitem que a sua visualização se torne inteligível, favorecendo a criação de uma imagem uniforme do meio radiofónico retratado. A imagem perceptiva que se tira de um filme fica muito a dever ao som, mais do que à imagem, em certas situações.
Arlindo Machado, no artigo “O fonógrafo visual”, afirma que há uma terminologia bastante desenvolvida na área da imagem, a nível, por exemplo, da profundidade de campo e enquadramentos, enquanto que para o som não se passa o mesmo. O autor considera ainda que quase sempre as discussões sobre o cinema partem do princípio que este é apenas um fenómeno visual, deixando de parte a componente sonora que, ou não é referida, ou é tratada marginalmente.
Importa citar as palavras reveladoras do realizador Pedro Sena Nunes, incluídas na sua retrospectiva, numa Edição do V Festival Nacional de Vídeo de Ovar: “Eu não consigo imaginar ou suportar um documentário em que não se sinta a escuta. Se quem fica do outro lado não está a ouvir, o objecto já não é um documentário. Se há definição possível de documentário será porventura essa: saber ouvir. E não é ouvir para registar. É saber que, para registares um bocadinho, muita coisa tem de ser ouvida”.
A nível de som e de escuta, não nos podemos alhear da grande popularidade das várias canções lançadas no filme “A menina da rádio” como, por exemplo, a canção “Sonho de amor”, da autoria de Silva Tavares. A música povoou assim o imaginário dos ouvintes e espectadores de cinema, muito para além do momento em que contactaram com o grande ecrã, o que contribui para a compreensão do fenómeno de proximidade que o filme “A Menina da Rádio” desencadeou.
Conceito
“Uma representação da realidade (física, como uma fotografia, ou imaginária, como uma música). Elemento essencial da comunicação de massa, desde que a fotografia entrou na imprensa e sobretudo desde que a televisão a aliou ao som e ao movimento. Sendo polissémica (passível de ter vários significados) necessita do texto (escrito ou verbal) para esclarecer o seu sentido. Mantém uma relação analógica com a realidade e, como sublinharam os semiólogos, tem duas leituras, uma denotada (o que representa de facto) e outra conotada (o seu valor simbólico, o que evoca além do que representa e depende do leitor). «O espectador da imagem recebe ao mesmo tempo a mensagem perceptiva e a mensagem cultural», afirmou Roland Barthes”
[2].
Martine Joly considera que “o termo imagem é tão utilizado, com todos os tipos de significados sem ligação aparente, que parece muito difícil apresentar uma definição simples e que abarque todas as maneiras de a empregar”
[3]. A autora reconhece que nós “compreendemos que ela [a imagem] designa algo que, embora não remetendo sempre para o visível, toma de empréstimo alguns traços ao visual e, em todo o caso, depende da produção de um sujeito: imaginária ou concreta, a imagem passa por alguém, que a produz ou a reconhece”.
A imagem “longe de ser um flagelo contemporâneo ameaçador, é um meio de expressão e de comunicação que nos liga às tradições mais antigas e mais ricas da nossa cultura”, explica Martine Joly. Para a autora, a sua leitura, mesmo a mais ingénua e quotidiana, mantém em nós uma memória que apenas exige ser um pouco estimulada para se tornar num utensílio mais de autonomia do que passividade”. Neste sentido, a compreensão de imagens necessita do recurso ao contexto da comunicação, à historicidade da sua interpretação e às especificidades culturais.
O cinema, como processo de sequencialização fotográfica, torna inteligíveis as palavras de Roland Barthes a propósito da fotografia. Barthes considera que o que faz da fotografia “uma imagem fundamentalmente diferente das outras imagens: é a dupla conjunção de realidade e de passado que ela propõe – aquilo que ela representa esteve ali. É aquilo a que Barthes chamou «isto foi». Será que: “Uma imagem vale mais do que mil palavras”? Arriscaria dizer que sim.
Independentemente de qualquer abordagem a nível de análise da imagem cinematográfica e da estruturação de uma imagem mental uniforme do meio radiofónico, o filme “A menina da rádio” é um excelente ponto de partida para a afirmação de um progressivo interesse pelos artistas, por parte do público, o que demonstra a instituição de valores culturais e de culto pelos personagens mediáticos da época. Para além disso, a vertente didáctica de construção da linguagem radiofónica e da estruturação programática dos novos conteúdos, próxima do grande público rádio-ouvinte e cinéfilo, cruza-se com a popularidade de locutores consagrados, equiparados a jornalistas, cantores, actores e colaboradores da rádio que, no seu tempo, souberam engrandecer a profissão que abraçaram. A todos eles se deve o sucesso do filme, a eles se deve a inspiração do meu trabalho.

[2] CASCAIS, Fernando - Dicionário de Jornalismo – as palavras dos media. [3] JOLY, Martine - Introdução à Análise de Imagem.

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

João 3-16


Nesta quadra de Natal, eis um conto original sobre a importância... do essencial.

Texto José Maria Alves fotografia Dina Cristo

Foi na cidade de São Paulo. Na avenida Brigadeiro Faria Lima. A noite de Inverno estava escura e triste, com os fumos da poluição a envolverem os candeeiros de iluminação pública. O frio inusitado circundava objectos e seres. A pobreza era mais pobre, e o sofrimento mais sofrido. A miséria dos desfavorecidos golpeada pela opulência dos edifícios e pela quentura da riqueza.

Junto a uma loja, na calçada, um rapazinho de 11 anos, sujo, vestido de indigência, trémulo, de uma magreza desconfortante a exibir uns belos olhos negros, vendia os doces que não se aventurava a comer.
O pai morrera num assalto, quando tinha dois anos. Não nascera salteador, assim como a sua desventurada mãe, perdida nos subúrbios, não nascera prostituta. Só ele nascera desafortunado.
Quando o frio o não acossava tanto, interpelava-se quanto à justiça do mundo. “Não lhe daria Deus uma fogueira, e quem sabe um pedaço de pão com manteiga? Ele que enchia de afagos e carícias os passantes de viaturas aquecidas e dos condomínios luxuosos. Ouvia gente rica e poderosa falar dos pobres, mas tinham a barriga inchada de tanto comerem e roupas caras para se aquecerem.”
Os pensamentos desvaneciam-se na bruma e no gélido bafo da noite. A melancolia dos seus olhos, mais parecia clamar pela morte em segredo, de modo lento, para não doer.
Os transeuntes apressavam-se, não reparavam nele, nem acudiam aos seus apelos de compra, transformados em invocações de misericórdia. Ninguém comprava, apenas passavam por si, alheios ao padecimento e ao desabrigo, presos ao seu próprio ego e mesquinhas ambições.
Renunciou. Por que havia de insistir?! De que lhe serviriam mais uns magros reais?! Sentou-se nos degraus de um prédio de escritórios, e olhou para o céu. “Nem uma estrela”, pensou. “Gostava ao menos de poder olhar uma estrela a luzir no firmamento.” “Teriam os ricos um céu só para eles?; provavelmente têm, com muito pão, doces, e lume para se aquecerem quando faz frio e limonadas geladas para quando o calor comprime o peito e não nos deixa respirar.”
Tinha saudades da mãe que o abandonara e do pai que não se lembrava de ter conhecido. E tinha frio, e fome, e uma tristeza que só os pobres sabem reter. Não pedira para nascer. Deus bem podia ter-se esquecido dele e dar a sua alma a outro menino que não tivesse de dormir num vão de escadas. Até o Menino Jesus dos presépios, que vira no último Natal, tinha palha, uns panos e animais para o aquecer, uma mãe para o alimentar e um pai que o escudava do mal, da agonia e do pesar. Também ele queria uma cama, um gato que se enroscasse na sua barriga e um pão recheado que a enchesse.
Nisto, um polícia aproximou-se, visivelmente cansado, com as faces enrugadas por não saber sorrir, e perguntou: - Estás perdido? - Não, não estou senhor. Apenas queria um lugar quente para dormir – respondeu o rapaz com a indiferença e naturalidade de quem nada pode perder, por nada ter. - Onde é que tu dormes? – volveu o agente, que parecia ausente na dureza viciada do seu modo de falar.
- Na Paulista, numa caixa de cartão. Mas hoje tenho muito frio. Talvez não seja o frio, talvez seja eu. Quem sabe se não tenho febre?! Dói-me o corpo. Só queria um lugar quente. Dizem que no Norte faz sempre calor e que as praias estão sempre cheias; aí venderia água de coco, gelados e não teria frio. Mas não sei como ir, não tenho reais que cheguem para comer um pão, quanto mais para viajar. E como deve ser longe; nunca saí desta cidade. Gostava de ver o mar e os barcos com as velas ao vento, como nos postais; e de ir no comboio ao Rio para olhar os turistas que vivem em lugares onde não lhes falta nada e por isso têm dó dos mendigos. Se calhar só dão para poderem ir para o céu, ou para se verem livres de nós, mas pelo menos dão; quem me disse foi o “Caipira” da Rua Augusta.
O polícia apesar de exausto, olhou a criança, demoradamente, como quem chora ou como quem quer chorar e não sabe. Ficou em silêncio por alguns segundos, deslocou o boné para o lado e coçou a cabeça luzente, já quase sem cabelos.
Apontando para uma transversal, disse: - Bem, menino, desces esta rua e mais ou menos ao meio, vais encontrar uma casa grande, pintada de branco, com um jardim e com portões verdes. Quando chegares, toca na sineta. Alguém te irá abrir a porta, abrem sempre. - E o que é que eu faço? – questionou o rapaz um tanto confundido. - Nada. Diz apenas: João 3-16.
Estranho. João 3-16... João 3-16. Nunca ouvira tal coisa. Quem seria o João? O dono da casa? Um amigo do dono? E 3-16? Estranho. João 3-16. Ninguém se chama assim, com números e tudo, pensava, só os que estão presos com tabuletas no peito, como nos filmes que correm nas televisões das montras.
O frio aumentava enquanto a noite crescia. Desceu a rua, tocou a sineta. Ninguém vai aparecer, pensou. Não deve estar ninguém. História de polícia; se calhar estava bêbado. Toco outra vez? É melhor não. Ainda me maltratam.
Enquanto absorto nessa torrente de pensamentos, acendeu-se a luz da ombreira e abriu-se a porta de madeira talhada. Uma senhora idosa poisou nele o seu olhar meigo e caridoso, como quem acaricia com a vista uma flor, ou envolve uma criança num pano de linho, o que lhe fez perder o receio que o afligia. - João 3-16 - disse baixinho. - Não te oiço menino. - João 3-16 – volveu o rapazinho. - Entra meu filho.
A casa era bonita demais. Cheirava a lenha queimada e a comida. Tinha cadeiras, mesas, panos nas janelas, jarras, quadros nas paredes. E não parecia ter mais gente.
- Vem, aproxima-te do fogão de lenha – disse-lhe afectuosamente. Senta-te neste banco e aquece-te, estás branco, enregelado. Deves ter fome; aguarda um momento.
Enquanto o corpo recuperava o calor perdido, pensou consigo: - João 3-16, quem será? Não sei, mas aquece-me. É bom, deve ser bom, só pode ser, senão não me aquecia.
A Senhora retornou com um prato cheio de comida. Nunca havia comido nada assim. Há dois dias que nada comia. Nem os doces que vendia. Se os vendesse como poderia comprar pão? João 3-16. Nada sabia dele, apenas que aquecia e matava a fome. Não sei o que é, nem quem, mas cuida de mim, pensou. - Come o que quiseres filho. Há mais na cozinha.
Quando terminou a refeição, a benévola Senhora levou-o por umas escadas circulares ao andar cimeiro e deu-lhe um banho de água bem quente que cheirava ao perfume que as senhoras ricas deixavam na calçada quando entravam nas lojas do centro. Não sabia que a água tinha cheiro. Será que também se podia beber?!
- Posso ficar sozinho? – perguntou. Tenho vergonha que me veja assim. - Claro, criança. Mas não podes demorar. Terminaste agora a refeição. Não sabia quem era João 3-16, ou o que era João 3-16, mas tinha a certeza que o limpava de tanta sujeira.
Ao fim de algum tempo, a Senhora disse-lhe que tinha de sair da água. Que pena, estava tão quente, tão confortável, que o esforço para não adormecer era enorme. Segurou a sua mãozita, e conduziu-o a um quarto com uma cama de ferro, lençóis brancos e almofada de penas.
Não sabia quem era João 3-16, mas sabia que lhe estava a dar uma cama macia num quarto quente, e que dormiria como nunca havia dormido em toda a sua vida.
A Senhora abraçou-o, beijou-o na testa, deitou-o e apagou as luzes, dizendo: - Durma em paz criança de Deus.
No escuro, com uma ténue luminosidade que entrava pela janela, pensou: “Não sei quem é João 3-16, mas aquece, alimenta, limpa, e dá repouso, e dá carinho. Talvez seja rico, mas não como os outros ricos da Paulista.” E duas grossas e límpidas lágrimas escorreram no rosto inocente.

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Menino Jesus


Apresentamos, antes do Natal,  versos escritos e recitados por Frei Morgado, no Convento do Varatojo, como há 55 anos quando era noviço.

Texto Frei Morgado

«Ó meu Menino Jesus
Deus de infinita beleza
Vinde nascer na minha alma
Abrandar a sua dureza

Desceste do céu à terra
Rei dos anjos adorado
Nove meses habitaste
A virgem no ventre sagrado

Escolheste para mãe uma virgem
Pai adoptivo São José
Com eles 30 anos viveste
Oculto em Nazaré

Quiseste nascer num presépio
Ó meu Deus que humildade
E, por fim, morrer na cruz
E salvar a humanidade

Entre animais sois adorado
Por Reis Magos e pastores
Eles vos oferecem prendas
A vós, Senhor dos Senhores

Vão guiados por uma estrela
À grutinha de Bélem
Conduzi sempre meus passos
Pelo caminho do bem

Fugiste para o Egipto
Para não seres emulado
Pelo cruel Rei Herodes
Esse coração malvado

Aí estiveste até que a morte
Te levasse, afinal
Mas depois, por fim, voltaste
À vossa terra Natal

E vós, ainda ficaste,
Cá na Terra a habitar
Até que por fim vos deram a morte
A que ninguém pode escapar».

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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Os dias da rádio



No dia do III Congresso da Rádio evocamo-la através do filme que Woody Allen realizou há 25 anos, num momento em que se exibe nas salas de cinema a última película do cineasta.

Texto Tiago Mota fotografia Dina Cristo


Se, hoje, ao entrarmos no nosso veículo, automaticamente ligamos a rádio e sintonizamos numa estação que habitualmente transmite música agradável ao nosso refinado ouvido, apenas como forma de falsa companhia e distracção, outrora a coisa foi diferente, note-se, bastante diferente.


Imaginemo-nos nascidos há mais de meio século atrás, numa era em que possuir algo que hoje nos é tão banal como um rádio – aqueles aparelhozinhos que, por vezes, acompanham os produtos alimentares em forma de brinde – era, então, um luxo. As donas de casa, essas, tinham o privilégio de poder ouvir, durante todo o dia, as galanteadoras vozes que apresentavam as canções românticas e que as deixavam suspirantes e apaixonadas, seguidas das dramáticas novelas, que julgavam prováveis de elas próprias vivenciar. Os homens, pilares da família que diziam trabalhar que nem cães, ansiavam por chegar a casa e sentar-se no seu viril cadeirão, pegar no tardio jornal do dia e escutar a telefonia. Já os catraios, depois de um contrariado dia de aulas, não podiam ver a hora de largar a mochila no tapete da sala de jantar e ajoelhar-se frente ao grande e requintado aparelho, ouvindo serem relatadas as mais recentes aventuras dos bravos super-heróis e dos cowboys do oeste, nas suas épicas cavalgadas recreadas com cocos num estúdio de rádio.


A música sempre foi uma das componentes mais poderosas da rádio, se não a mais. Tudo nos conquistava, fossem as agradáveis baladas de fácil audição, fossem os orelhudos jingles. E a fórmula era tão eficaz que ainda hoje se repete e repete e repete. Mas tínhamos de ser selectivos, não nos chegasse aos ouvidos aquela música do demónio, recheada de mensagens subliminares, que os estrangeiros para cá trouxeram em jeito de rebelião.

Éramos gente ingénua e facilmente impressionável. Não sentíamos a necessidade de confirmar a veracidade do que se dizia e era dito, do que se escondia por detrás de tais amigáveis vozes. Conhecer uma destas grandes estrelas da rádio era quase como conhecer uma alma pura e divina, por mais ridícula que fosse, por menos cintilante que uma estrela devesse, de facto, ser. E o mais estranho é que, apesar de tudo, ainda hoje assim somos, por muito que o tentemos negar. Mas sabíamos também que ouvir a telefonia era quase como ouvir o que o demónio tinha para falar, e esse sentimento de culpa tornava o desafio ainda mais aliciante. Ouvir a rádio nessa época era um pouco como fumar e beber nos nossos dias, sabemos que nos faz mal, por isso consumimo-lo só de vez em quando.


É fácil apelidar a rádio como a banda sonora das nossas vidas, mas o certo é que outrora assim foi. E porque o Homem de extremos se faz, houve um tempo em que nos reuníamos em família para o ritual de ouvir a telefonia, enquanto que, hoje, apenas recorremos à rádio quando a solidão nos assombra, lembrando-nos que há quem esteja lá por nós, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, à distância de uma simples vontade.

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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Educação lenta


Um novo ano lectivo bate à porta. Como uma corrida para ver quem chega ao pódio, a ordem é “mais informação e cada vez mais depressa”. Quase todos aceleram, à pressa e sob pressão, excepto os que - lentamente - desafiam o sistema. Talvez tenham tido tempo suficiente para recordar que os últimos… são os primeiros.

Texto e desenho* Dina Cristo

Obcecado por exames e objectivos, com horários sobrecarregados, o estudante do séc. XXI tornou-se um discípulo apressado. Num contexto de educação intensa e abreviada, de luta para cumprir os programas, acelerados, a pressão, como para cumprir prazos e ser cada vez mais rápido, é constante. O estilo, de disciplina marcial, competição desenfreada e atmosfera sufocante, é de “treina e mata” e “estudar-até-cair”, observava Carl Honoré no seu livro “Movimento slow”.

O jornalista canadiano notou, contudo, que as crianças aprendem melhor quando o ritmo é mais lento e que um ambiente mais descontraído favorece o desenvolvimento de uma personalidade mais completa. Cita exemplos como a academia japonesa Macieira, fundada em 1988, em que os alunos vêm e vão, estudam o que e quando querem. Uma investigação que desenvolveu no seu livro mais recente “Sob pressão: como salvar as crianças da cultura dos hiper-pais”.

Na vontade de empurrar os seus filhos, os pais super-estimulam-nos. Os tempos livres… são ocupados em actividades extra-curriculares. Harry Lewis, ouvido pelo autor, nota: «O tempo livre não é um vácuo que se tenha de preencher (…). É aquilo que permite que outras coisas no vosso cérebro sejam recordadas de forma criativa (…)». Por isso, defende, há que limitar as actividades e reservar algum tempo para o lazer, divertimento, descontracção, solidão e imaginação.

É o reflexo do medo de ficar para trás, num mundo “turbo-alimentado”. A escola é vista como um campo de batalha em que o que interessa é ser o primeiro, o melhor. A hiperpaternidade, na vontade compulsiva de aperfeiçoar os filhos, agarra-se ao resultado dos exames e empurra-os tanto que os deixa exaustos; há crianças a dormir insuficientemente e a sofrer de stress. Maurice Holt, escutado por Carl Honoré, lembra que «(..) atulhar as crianças de informação o mais depressa possível é tão alimentício como devorar um Big Mac”(1).

Além do mais, a especialização desde tenra idade pode causar danos. José Luís Maio deu grande relevância à educação no ensaio “A Ciência da Polis”, nomeadamente à maximização da pluralidade de informação, com campos pedagógicos, integrados na Natureza e na comunidade. O autor destacou a importância de, até aos três anos, a criança estar próximo da mãe, cuja vitalidade o nutre, de entre os três a seis anos, brincar e jogar naturalmente e depois dos seis atender às necessidades do corpo, pela ginástica, e da alma, através da música.

Educação lenta

No sistema finlandês e sueco, por exemplo, o jardim-de-infância devolve aos pequenos o tempo para brincarem e a liberdade de serem crianças. Pais e professores estão mais motivados para que adquiram auto-estima e auto-confiança. Mais tarde, na fase de aprendizagem verbal, o entusiasmo e dedicação multiplicam-se. Já Omraam Aivanhov lembrava a importância da preparação para a aprendizagem para que o discípulo possa apreciar e aplicar o que é ensinado (2).

Há quase dez anos Maurice Holt publicou um manifesto pela “Escolaridade lenta” – a defesa do alívio da carga de actividades e de um ritmo mais adequado à velocidade de cada um; a importância de um espaço-tempo para a procura e compreensão do conhecimento por si próprio. Ninguém consegue ensinar aquilo que só se pode aprender, referia há décadas Khalil Gibran. Talvez por isso, os autodidactas ao longo da história não têm deixado que a escola atrapalhe os seus estudos.

Em Ridgewood, New Jersey, realiza-se em Março o “Preparar, estão prontos, relaxar!”, um dia em que não são marcados trabalhos para casa e são cancelados treinos, explicações e reuniões: “Os pais tratam de virem para casa mais cedo, a tempo de jantarem com os filhos e passarem algum tempo com eles à noite”(3).

Em Portugal, a Escola da Ponte, em Vila das Aves (Santo Tirso), inserida no sistema de ensino público vem, desde há décadas, ensaiando um novo modelo de educação mais motivante, participativo e democrático. Espelho da atenção a uma educação mais extensiva, informal, descentralizada e, ao mesmo tempo, livre e profunda.

Esta tendência para desacelerar e procurar um ritmo mais suave, mais natural, reflecte-se no interesse pelo ensino doméstico, em que Roland Meigham é perito. Na América há mais de um milhão de jovens que estão a ser ensinados em casa. São educados numa determinada tradição, têm mais protecção e mais liberdade de escolher os seus próprios horários; a aprendizagem torna-se mais produtiva e equilibrada, combinando curiosidade, criatividade e imaginação, além de que sobra mais tempo livre para o divertimento.

Carl Honoré tem mostrado a futilidade e os perigos de uma aceleração constante. «O segredo está no equilíbrio: em vez de fazer tudo mais depressa, faça-se tudo à velocidade certa. Por vezes, depressa. Outras vezes, lentamente. Outras, algures no meio»(4). Abrandar e escolher o ritmo que o faz mais feliz, usar o tempo de forma mais sensata, traz benefícios. Apreciar a vida, fazer as coisas como deve ser, com significado e prazer, eis a proposta do movimento slow aplicado à educação.

Uma educação mais lenta, livre, corajosa e humana que tenta satisfazer o amargo de boca de um modelo institucional, imposto e rápido, sob pressão para ser o melhor, e superar o vírus da pressa que, num sistema industrial, tem contagiado alunos, pais e professores, velocificados numa espécie de regime militar, esgotante.

• Anos 70

(1) HONORÉ, Carl – O movimento slow – A corrida contra o tempo afecta o trabalho, a saúde, as relações e o sexo. É possível desacelerar e recuperar a qualidade de vida?, Estrela Polar, 2006, p.224.(2) Caso contrário «(…) só irá entrar em choque com ele, ver-se-á em toda a espécie de contradições e continuará tão fraco e ignorante como antes». AIVANHOV, Omraam -pensamentos quotidianos, Edições Prosveta,2010: 22/7/2011. (3) HONORÉ, Carl – O movimento slow – A corrida contra o tempo afecta o trabalho, a saúde, as relações e o sexo. É possível desacelerar e recuperar a qualidade de vida?, Estrela Polar, 2006, p.233. (4) Idem, p.240.

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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Destinados


À beira do Dia de Portugal, desbravamos o seu destino, para além do seu declínio - crise financeira, corrupção, desbragamento, desmoralização, esbanjamento e desordem – que, segundo Victor Mendanha, o autor, começou no séc. XIX.


Texto Dina Cristo

Portugal é o rosto da Europa. A sua função será integrar o culto do Espírito Santo na vida diárias das pessoas, guiá-las para este reino, galgar agora os mares psíquicos e ascender à comunhão com os Mestres e A(rca)njos. O seu primeiro dia de manifestação, na adolescência, foi constituído pelos Descobrimentos, a aventura material. O segundo dia de manifestação será a aventura supra-religiosa. Para tal, é preciso que haja um grupo significativo de portugueses expurgado. Já há indícios do apodrecimento necessário: corrupção, dinheiro, agressividade, mentira.
A alma portuguesa, que descende da helénica e tem uma profunda ligação à hindu, divide-se em três tipologias. À primeira correspondem os portugueses nascidos com o país, com o início da nacionalidade. Está no fundo de cada português típico e verdadeiro, que trabalha obscura e modestamente em Portugal. Corresponde a uma economia de fraternidade, com pendor comunitário, cooperativo e fraternal. À segunda, a II Dinastia, com D. João II (desde o séc.XIV), quando a Nação se começou a tornar Império, com D. Dinis até 1578, à Batalha de Alcácer-Quibir. Corresponde a uma economia capitalista, de concorrência, com juros. À terceira a superfície dos portugueses visíveis, de espírito moderno, em hipnose, e com aparência de contacto com o mundo. Portugueses que não o são. Começou com a invasão mental estrangeira, a partir do Marquês de Pombal (o séc.XVIII e a invasão dos estrangeirados), agravada pelo Constitucionalismo e completada com a República – é a que governa o país estando completamente divorciada dele.
Também os paises são regidos por ciclos, ligados aos quatro elementos. Portugal não é excepção. A Terra corresponde à construção da Nação, com base etnicamente nos povos arianos, vindos do Norte da Índia, em vagas sucessivas: Oriente-Norte-Ocidente. A Água - desde o reinado de D. Dinis e os Descobrimentos, que nos levaram de regresso à Índia: Ocidente-Sul-Oriente. O Ar com o enriquecimento mental, pela troca de conhecimentos, corresponde à descolonização, com o regresso dos portugueses: Oriente-Sul-Ocidente. Actual caldeamento de culturas, do qual sairá uma nova cultura e um português novo. O Fogo, a partir dos Açores, será Ocidente-Norte-Oriente.

Ordens santas

Para além da Ordem de Avis, com o seu Grão-Mestre D. João I e o seu símbolo flor-de-lis, a Ordem de Cristo, com sede em Tomar, a Ordem de Cister, com o seu milagreiro S. Bernardo e que aumentou o seu prestígio com Bernard de Fontaine, destaca-se, entre 1118 e o séc.XIV, a Ordem dos Templários. Trata-se da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão. É um ramo administrativo e militar de uma outra Ordem Secreta (a actuar por trás deles): a Ordem do Monastério do Sinai (que funciona ainda) e pretende restaurar a linhagem sagrada merovíngia (dinastia Carolíngia), crística – entroncada em figuras do cristianismo primitivo e no cristianismo nestoriano, de S. Tomé; o seu principal objectivo é patrulhar as estradas da palestina e reconstruir o Templo de Salomão.

Os Templários estabelecem uma ligação profunda aos sacerdotes coptas de Jerusalém. Depois, os seus cavaleiros voltam à Europa e muitos dos conhecimentos do cristianismo copta (ligado à gnose e metafísica egípcia) foram transportados para a Ordem de Cristo, no reinado de D. Dinis. O projecto universal dos templários de construção de uma Teocracia Mundial, União do Oriente e Ocidente, foi incrementado em Portugal por D. Dinis e a Rainha Santa Isabel, através da instituição do culto do Espírito Santo. Em Portugal, tornam-se banqueiros e com grandes privilégios. É dissolvida no início do séc.XIV, e a sua missão entregue, com o encargo de a prosseguir, à Ordem de Cristo, patrocinadora dos Descobrimentos.
Na Idade do Espírito Santo o lema será a Sabedoria da Beleza na Arte. O seu fogo, energia primordial, é Kundalini. Haverá a supremacia do Ser, do interesse colectivo, do desapego, partilha, pureza, fraternidade, amor ao planeta - a Terceira Idade, a Era de Aquário, de solidariedade, o V Império, o Império do Espírito, com o regresso de D. Sebastião, da Ilha Branca, em 2.118.
Esta ilha Encoberta corresponde à ilha de Avalon, Atlântidas, Afortunadas. Situada no meio do mar de Gobi, onde os Senhores da Chama (vindos de Vénus – Estrela Vespertina), nos avivaram o germe da mente. Também chamadas Hespérides, ninfas filhas de Hespero. Corresponderá à Atlântida, continente que existia há 11 mil anos, no Estreito de Gibraltar e que se afundou e cujo primeiro cataclismo se deu há 800 mil anos. Os seus habitantes praticavam o culto solar: tinham torres para adorar o Sol. A edificação da sua última cidade deu-se quando o continente já era uma ilha, Poseidonis (Deus grego do Mar). Tinha uma montanha, Templo de Neptuno. Outra, submarina, “Ampere”, uma ilha que também se afundou, foi descoberta a 500 Km a Oeste de Lisboa.

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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Santo ofício?

A Inquisição foi instituída em Portugal faz, Segunda-Feira, 475 anos. Oportunidade para revermos um pouco da sua história a ver se aprendemos a lição.

Texto Sara Coimbra

O flagelo da Inquisição proliferou-se por mais de dois séculos e, os arquivos deste terrível tribunal ainda existem quase intactos (perto de quarenta mil processos restam (ainda) para darem testemunho de cenas medonhas, de inúmeras atrocidades, de longas agonias).
Durante os primeiros doze séculos da Igreja foi aos bispos que (exclusivamente) pertenceu vigiar pela “pureza” das doutrinas religiosas dos fiéis (ninguém podia interceder nesta parte do ofício pastoral).
Um tribunal especial incumbido em descobrir e condenar as here-sias, nos séculos primitivos, seria “uma instituição intolerável e moralmente impossível”(1). Todavia, surgiu durante o século XIII, no seio do catolicismo, um tribunal, mais conhecido por Santo Ofício ou Inquisição, que espalhou o terror e cobriu de luto quase todos os países da Europa Meridional (atravessando os mares, oprimindo regiões do Oriente e da América). Criada de repente, esta organização nasceu fraca e desenvolveu-se gradual e lentamente.
Já mesmo antes do século XIII, as comissões denominadas sínodos, constituíam nos distintos distritos de cada diocese, uma espécie de tribunais dependentes do bispo, com a finalidade de proceder contra os hereges.
Após a queda do Império Romano e até aos finais do século XI, as heresias foram raras e nesses casos, a Igreja “cingiu-se” aos castigos espirituais (muitas vezes os castigos eram pagos por delitos civis.) Contudo, em 1179, no Terceiro Concílio Geral de Latrão determinaram-se severas providências contra as heresias, que pela violência dos seus sectários, tornaram-se mais perigosas.
Após cinco anos desse mesmo Concílio, Lúcio III promulga uma constituição que, segundo vários autores, é a origem e gérmen da Inquisição. Nessa constituição já apareciam designações de suspeitos, penitentes e convencidos, referindo os diferentes graus de culpabilidade religiosa, com as várias sanções penais.

As perseguições

Porém, foi verdadeiramente no século XIII que começou a aparecer a Inquisição (como entidade) e até certo ponto independente (como instituição alheia à diocese). A função dos “inquisidores da fé” era o de descobrir os albigenses, “nome com que se designavam, sem suficiente distinção, todas as seitas que naquelas províncias se afastavam mais ou menos da doutrina católica” (2), e nesse campo, o trabalho não era grande, em combatê-los pela palavra e inflamar o povo contra eles. De certo modo, a acção dos inquisidores vinha a ser moral e indirectos os resultados materiais dela.
O ano de 1229 é a verdadeira data do estabelecimento da Inquisição. Os albigenses (hereges) tinham sido esmagados e a combate fora longo e violento para deverem contar com o extermínio. No mesmo ano, Luís IX promulgou um decreto que ordenava o suplício imediato dos hereges sentenciados, e se condenavam as penas de confisco e “infâmia contra os seus fautores e protectores (3).” (A legislação que já dominava a Alemanha e uma parte da Itália, prolongava-se agora a França.)
Ao longo dos tempos, com a publicação de determinadas bulas e de diplomas pontifícios relativos aos precedentes factos, sentia-se que a Inquisição (como instituição distinta), tendia rapidamente a constituir-se.
Em 1245, celebrou-se um concílio provincial em Béziers (França), no qual se redigiu, por ordem de Inocêncio IV, um regulamento sobre o modo de proceder contra os hereges. Esta escritura, que reproduz algumas normas anteriores, acrescentando-lhes outras novas, serviu de base a todos os posteriores regulamentos da Inquisição.
À medida que os tribunais do Santo Ofício se reproduziam, as reacções contra o seu cruel procedimento multiplicavam-se. Por toda a parte faziam-se insultos, que consequentemente geravam vinganças e as vinganças aumentavam a irritação, de onde resultavam novas crueldades. “A tolerância e a resignação evangélicas tinham sido completamente banidas. A Inquisição, que era forte, tinha o cadafalso e a fogueira; a heresia, que era fraca, tinha o punhal (4).”
Foi entre 1255/56 que pelas rogativas de Luís IX, o papa Alexandre IV, propagou a Inquisição em França. Por sua vez, a república de Veneza só aceitou o tribunal do Santo Ofício em 1289, com bastantes restrições e pondo-a debaixo do poder civil. (Nesta época, a Inquisição atingira o seu apogeu em França, para, declinar em pouco tempo. Já em Portugal não se mostravam indícios da eleição de um único inquisidor para exercer as funções, em parte alguma.)
Em 1376, após uma bula de Gregório XI a Agapito Colonna (bispo de Lisboa), se suspeitou de que em Portugal se tinham introduzido alguns erros de doutrina. Nesse documento, o papa incumbia o bispo de Lisboa, “visto não haver inquisidores neste país (5)”, de eleger um franciscano, dotado dos requisitos necessários para inquisidor, de modo a apurar a existência das heresias e discretamente as perseguisse e extinguisse. (Frei Martim Vasques foi o eleito.)
No século XIV, a Inquisição era nula em Portugal, mas no resto da Península Ibérica não se sucedia o mesmo: os autos-de-fé eram constantes e efectuados em curtos intervalos. (Em 1479, Fernando V funda a (moderna) Inquisição espanhola O primeiro código inquisitorial em Espanha é promulgado em Outubro de 1484.) Desde modo, o tribunal do Santo Ofício era um meio de aniquilamento, como outro qualquer que se aplicava na época. “As suas sentenças de morte não eram, não podiam ser, na maior parte dos casos, senão assassínios jurídicos” (6).
A 31 de Março de 1492 é publicada uma lei em Espanha para que todos os judeus não convertidos saíssem do país até 31 de Julho desse mesmo ano, sob pena de morte e apreensão para os que desobedecessem. O terror fazia com que abandonassem Espanha e uns embarcam para África, enquanto outros obtiveram licença para entrar em Portugal (pela extensão da fronteira e facilidade do trânsito).
Por sua vez, a partir do último quartel do século XV, os hebreus portugueses eram regidos por um direito público e por um direito civil especiais. As leis que os protegiam eram a expressão de ampla tolerância. Tinham a liberdade de seguirem a sua religião e de usarem os ritos dela na sinagoga. Porém, não podiam ter criadas ou criados cristãos; eram obrigados a trazer nas roupas uma estrela vermelha de seis pontas cosida e eram-lhes vedado o uso de armas. Muitos dos judeus que se refugiaram em Portugal, achariam socorro numa poderosa população, a quem o poder público concedia (ainda), apesar dos ódios gerais, protecção religiosa e civil.

Papel manuelino

Em 1495, D.Manuel sobe ao trono, após a morte de D.João II e um dos seus primeiros actos foi dar liberdade ao grande número de judeus que tinham sido reduzidos à condição de servos (durante bastantes meses houve confrontos entre a população e os judeus, pois muitos dos habitantes não viam com agrado a sua permanência em Portugal.)
No contrato de casamento entre D.Manuel e D.Isabel (de Castela), assinado em 1497, estipulou-se a expressão dentro de um mês dos indivíduos de raça hebreia, que estavam refugiados em Portugal. Findo esse mês, muitos judeus ainda continuavam no país e expediram-se ordens para que em todo o reino se tirassem aos judeus (que tinham preferido o desterro ao baptismo) os filhos menores de catorze anos, para que se distribuíssem por todas as cidades, entregando-os a família que os educassem na crença cristã. As principais famílias hebreias (que ainda não tinham abandonado Portugal) tinham sido convocadas pelo Governo a estarem presentes em Lisboa: foram baptizados violentamente e os homens e os mais idosos que resistiam eram arrastados pelos cabelos à pia baptismal.
D.Manuel, membro de uma família perseguida e talvez arrependido, procurou suavizar o seu erro: a 30 de Maio de 1497 redigiu um documento no qual instituía importantes providências a favor dos convertidos, nomeadamente o uso de livros hebraicos ficava permitido aos médicos convertidos. Contudo, o fanatismo e os rancores populares não paravam. Os sintomas de uma futura erupção começavam a nascer aos poucos.
Na Primavera de 1506, o tormento da peste chega a Portugal e um motim popular contra os cristãos-novos rebentará em Lisboa. Os cristãos-novos que circulavam pelas ruas desprevenidos eram mortos e arrastados, às vezes semivivos, para as fogueiras que se tinham preparado no Rossio e nas ribeiras do Tejo. As casas dos cristãos-novos eram assaltadas.”Metiam a ferro homens, mulheres e velhos: as crianças arrancam-nas dos peitos das mães e, pegando-lhes pelos pés, esmagavam-lhe o crânio nas paredes dos aposentos. Depois saqueavam tudo (7).” Marinheiros e mais de mil homens andavam obcecados pelo mal. Perante estes crimes, o monarca D.Manuel ordenou graves punições para estes assassinatos. Estas demonstrações de benevolência e de arrependimento criavam esperanças enganosas aos cristãos-novos “fazendo-lhes crer que a intolerância e os ódios brutais do povo obrigariam o poder público a protegê-los (8).” Porém, os indícios da malevolência do povo começaram a surgir de novo em tentativas isoladas.

Comentário

É lamentável descobrir determinadas atrocidades que a Igreja cometeu por toda a Europa, ao longo dos séculos. Descobri determinadas coisas que pensei que seriam impensáveis mas, não é só de coisas boas que a História é feita e, como tal, também é importante saber isso. Apesar de o tribunal do Santo Ofício já estar extinto, a sociedade de hoje comete crimes como os da Inquisição. É com os erros que aprendemos, e quiçá, daqui a uns anos o mundo pare para pensar nas barbaridades cometidas, tal como eu parei para reflectir com a leitura deste livro.
A Inquisição, a meu ver, é um conjunto actos maliciosos, com a mistura de muita hipocrisia (por parte da Igreja e do Governo) e de bastante fanatismo (por parte de determinados indivíduos da população que não aceitam a diferença, tal como a Igreja). Se um dos objectivos da Igreja é a reprodução, porque razão é que em tempos assassinava seres humanos?.

(1)HERCULANO, Alexandre - História da origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal, pág.19. (2) Idem, pág.29. (3) Idem, pág. 32. (4) Idem, pág. 45. (5) Idem, pág. 50. (6) Idem pág. 63. (7) Idem, pág. 142/143. (8) Idem, pág. 148.

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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Batalha do Buçaco


A alguns dias dos 200 anos da última ofensiva no âmbito das invasões napoleónicas, revivemos o como e o porquê dos ataques franceses e das defesas anglo-portuguesas, vencedoras.

Texto Susana Nunes fotografia Dina Cristo

Em 1807, Napoleão é o grande senhor do continente europeu, após ter saído vencedor dos confrontos com as grandes potências continentais. A supremacia francesa parece solidamente instalada na Europa Ocidental, mas a construção é muito menos sólida do que aparenta: como todos os gigantes, Napoleão também tem o seu calcanhar de Aquiles.
Embora o imperador tenha conseguido impor a sua lei ao continente europeu, não venceu o seu adversário mais inabalável, a Inglaterra, que continua a dominar os mares sem quem lhe faça concorrência. Em 1806, Napoleão tinha optado por uma guerra económica, “ao exumar uma lei que proclamava: ‘A importação de mercadorias manufacturadas provenientes de fábricas ou de comércios ingleses é proibida, tanto por mar como por terra, em todo o alcance da República francesa’. De acordo com a visão do imperador, o campo de aplicação deste texto cobria a totalidade da Europa, incluindo os países não ocupados com os quais tivessem sido estabelecidos tratados (e em particular a Espanha)”1.
No entanto, para ser eficaz, era necessário que este dispositivo fosse globalmente aplicado, o que nunca chegará a acontecer, apesar de todos os meios que lhe serão consagrados. Portugal, que vivia exclusivamente do comércio britânico, não tinha em conta esta interdição, tal como a Espanha, que aplicava o bloqueio de forma muito ligeira. Portugal não podia, nem tinha qualquer vontade em aplicá-lo, pois colocaria em perigo a sua actividade económica. Para além disso, o país contava com o apoio generalizado da sua população, fundamentalmente em desacordo com as exigências francesas.
Dá-se então uma operação armada, pela conquista de Portugal. O que Napoleão não previa é que este movimento, “a seus olhos um simples passeio militar”2, teria resultados completamente opostos ao esperado. O general Junot, que parte em direcção à capital portuguesa, atinge o seu objectivo sem dificuldade e destrona a casa de Bragança. No entanto, este acto terá como consequência directa a intervenção de um corpo expedicionário inglês que eliminará os franceses de Lisboa e que, solidamente instalado neste país de difícil acesso, resistirá a duas voltas ofensivas cada vez mais potentes, sob Soult em 1809 e Masséna em 1810. Ambas terminar-se-ão lamentavelmente para o exército francês, a primeira no Porto e a segunda em Torres Vedras. “As forças portuguesas estavam pouco preparadas para agir em batalha, mas, animadas por um verdadeiro patriotismo, dedicavam-se sem descanso a tudo o que pudesse servir à sua instrução”3.
Um erro

Napoleão não abandonava a intenção de submeter Portugal e em Agosto de 1810 decide enviar mais de 60 mil homens comandados pelo marechal Masséna, apoiado pelo marechal Ney e o general Junot. Uma terceira campanha que durará até Março de 1811, sem alcançar o principal objectivo, a tomada de Lisboa.
Perante os movimentos das tropas francesas, Wellington, general inglês enviado para defender Portugal, decidiu-se finalmente a aceitar uma batalha na serra de Alcoba, actual Buçaco. Mas à sua maneira. Num terreno por si escolhido, particularmente favorável, reforçado por algumas obras defensivas, e onde estimava ter todas as hipóteses do seu lado para barrar a estrada aos franceses. Afirma-o num comunicado escrito na altura: "Ocupámos uma excelente posição, é bastante difícil atacar-se de frente e, se o inimigo esperar mais um ou dois dias, apenas poderá atacar por um único ponto vulnerável. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para o conter neste local. Se não o conseguir, tentarei novamente em Coimbra”4.
Esta zona, a pouca distância de Coimbra, é formada pelas gargantas do Mondego e montanhas pouco penetráveis. “Difícil de se fazer o reconhecimento, ela é eminentemente propícia à defensiva. Estas ‘montanhas malditas’, como lhes chamou um oficial britânico, são perpendiculares ao longo do Mondego, pouco elevadas (entre 200 e 400 metros) e, no entanto, de um acesso difícil pois são bastante íngremes e cobertas de urze. Fora da estrada de Coimbra, apenas raros atalhos abrem caminho, dos quais um, importante, que atravessa por detrás de toda a linha aliada. A norte, encontra-se o convento do Buçaco, rodeado de árvores que o escondem da vista dos franceses. De facto, apenas existem dois pontos a defender pelos anglo-portugueses: à esquerda inglesa a estrada do Buçaco que atravessa o convento, e à direita o caminho que parte de Santo António de Cântaro”5. Estes caminhos difíceis, cujos arredores eram impraticáveis, foram cortados e barricados e estavam defendidos por artilharia.
É neste terreno que o general inglês decidiu concentrar as suas forças para receber os franceses, esgotados de uma dezena de dias de um caminho bastante árduo: “a cavalaria e as divisões Hill e Leith atravessam o Mondego através da Ponte Murcelha e chegam pela estrada do Espinhal ao planalto do Buçaco no dia 26. Juntam-se a Wellington, que dispõe os 50 mil soldados (dos quais 27 mil ingleses) e as 40 peças de artilharia no planalto, a esquerda a cavalo sobre a estrada de Mortágua a Coimbra, a direita sobre a de Santo António de Cântaro. A cavalaria é disposta no campo entre Mortágua e o Mondego. Assim organizado, o inimigo [o exército anglo-português] é capaz de neutralizar a acção da cavalaria e da artilharia francesas. O cume da montanha ocupado tem uma largura inferior a 3 quilómetros”6. As tropas portuguesas podiam, assim, observar todos os movimentos dos franceses, que precisavam de mais de uma hora de um trajecto exposto ao fogo para chegar aos postos avançados.
Para os franceses, a decisão foi difícil. Alguns preferiam a ofensiva imediata. Outros defendiam uma mudança de posição. A esta proposta, que o futuro acabará por provar a melhor, Masséna responde que é impossível. O marechal Ney menciona a possibilidade de se atacar o Porto em vez de Lisboa e chega mesmo a propor o regresso a Almeida, para se esperar por reforços. “Seria efectivamente necessário atacar-se imediatamente, ou mudar-se de posição, como propunha o duque que Elchingen? O adversário, mesmo se não tinha ainda tomado as suas posições de combate definitivas, era largamente superior em número. Atacar sem esperar, seria lançar as divisões à medida que estas chegassem ao campo de batalha, em ordem dispersa, e, certamente, fazê-las combater isoladas. Mudar-se esta posição inatacável de frente para se apanhar o adversário pelas costas, ou levá-lo a separar-se, obrigaria a efectuar-se um deslocamento em presença do inimigo, manobra sempre delicada e perigosa. Masséna rejeita estas soluções, a primeira pois conduziria a uma derrota certa e sangrenta, a segunda porque tem a certeza de que é impossível, tal como Wellington.”7
A batalha
É assim iniciado o ataque armado. O assalto começa de manhã cedo, às apalpadelas num espesso nevoeiro. “Precedida pela brigada Foy e vários pelotões do 31º Ligeiro, a divisão Merle começa a subir a encosta em coluna apertada, abrindo caminho com dificuldade através da urze, sob fogo intenso. Os elementos avançados inimigos começam a recuar. Mas as colunas francesas perdem aos poucos a orientação e afastam-se do seu objectivo. A brigada Foy sai finalmente da bruma pelo caminho que conduz a Santo António e ataca a brigada portuguesa de Chaplemond. Dizimados pelas rajadas do 21º Foot, os franceses tentam reorganizar-se, mas o 74º regimento britânico e uma bateria aliada abrem igualmente o fogo e, após causarem enormes perdas aos franceses, obrigam-nos a parar”8.
Entretanto, a divisão francesa Merle chega por sua vez ao cume e organiza-se à esquerda de Chaplemond. Não existem unidades aliadas nesta parte da encosta, mas a reacção do general inglês Picton é rápida: reúne os fugitivos das unidades avançadas aliadas e, reforçado por regimentos de Leith, contra-ataca pela esquerda. As perdas são grandes do lado francês. Merle é atingido, tal como muitos dos seus oficiais, e é obrigado a retirar as suas tropas pelo flanco direito da montanha, perseguido pelos aliados, que algumas rajadas da artilharia de Masséna obrigam à retirada.
Apesar do fracasso deste primeiro assalto, Reynier persevera na sua tentativa e lança ao ataque os dois regimentos do general Foy conduzidos por Heudelet. Bastante desencorajados pela derrota da coluna de Merle, escalam a encosta num combate desigual contra a brigada Chaplemond. Leith, acudido por tropas frescas, ataca as tropas francesas. O general Foy é ferido e os seus homens, esgotados e dizimados, retiram-se rapidamente. É assim que termina a luta neste sector. A linha aliada não é alcançada.
À direita, o marechal Ney avança para Buçaco. Ordena ao general Loison um ataque em massa por brigadas. Os 12 batalhões de Loison avançam através da mata até à aldeia de Sula. Sobem uma encosta bastante íngreme até ao cume onde, escondidas, se encontram as 1800 baionetas dos 43º e 52º regimentos de infantaria. Convencidos de que apenas terão de enfrentar artilharia, os homens de Loison continuam a avançar. De repente, Crawford faz com que os soldados aliados saiam do seu esconderijo e enviem uma rajada a apenas 10 passos. As primeiras filas da formação francesa são totalmente destruídas. Mais de mil homens, oficiais e soldados, caem, e o resto recua na maior das confusões sem ter causado grandes perdas ao inimigo.
Todos os batalhões de Loison são dizimados, excepto um. Os aliados apenas têm de enfrentar este último, que se separou do corpo principal e aparece face aos regimentos de Coleman. Bastante inferiores em número relativamente ao seu adversário e desconcertados pela debandada dos seus camaradas, os soldados desta formação são facilmente despistados pelo 18º regimento português e retiram-se para Sula. À chegada, reúnem-se ao resto da divisão que se contenta em lutar contra a linha avançada de Crowford, pois Loison não se pode arriscar a lançar um novo ataque.
Ao mesmo tempo, o general Marchand avança em direcção ao convento por uma encosta mais suave que conduz à divisão de Spencer e faz um desvio pela esquerda para apoiar Loison. Rapidamente, se depara com uma grande linha da infantaria ligeira na mata ao sul de Sula e inicia um violento combate. Completamente desorganizados, os franceses conseguem no entanto lançar-se sobre esta formação e sair da mata, mas são recebidos por uma rajada de mosquetes da brigada Pack e, pouco a pouco, recuam até ao sopé das colinas com grandes perdas. Os regimentos de Maucune tentam por sua vez alcançar por um caminho que parte de Sula, mas o fogo das três baterias e o ferimento do seu líder fá-los hesitar. Ney abandona o ataque. Esta retirada marca o fim da batalha do Buçaco. Os anglo-portugueses perderam cerca de dois mil homens, os franceses 4 486, dos quais 275 oficiais.
A derrota francesa
O próprio Napoleão afirmava: “Uma máxima de guerra bem provada é não se fazer aquilo que o inimigo quer, pela simples razão de que ele o deseja: assim, devemos evitar o campo de batalha que ele reconheceu e estudou; é preciso ter-se ainda mais cuidado em evitar aquele que ele fortificou e onde ele se enclausurou. Uma consequência deste princípio é de nunca atacar a frente de uma posição que podemos obter em a rodeando”9. E os factos deram-lhe razão. A responsabilidade desta derrota foi em parte atribuída ao ataque frontal imediato, pois os franceses não souberam encontrar a passagem existente, que permitiria uma mudança de posição e atacar-se os anglo-portugueses em melhores condições, ou forçá-los à derrota sem combate.
Felizmente, para os franceses, como já tinha acontecido no Vimeiro, Wellington não se movimentou após esta vitória e não procurou tornar mais pesada a derrota de Masséna através de uma contra-ofensiva imediata. Contentou-se, como anteriormente, em permanecer numa prudente expectativa.
Após esta derrota, os franceses dirigem-se a Lisboa mas são obrigados a parar nas linhas de defesa de Torres Vedras, construídas no maior dos segredos para proteger a capital, pela iniciativa de Wellesley, na altura comandante-chefe do exército português. Os franceses acamparão perante estas linhas durante seis meses, onde viverão condições difíceis em consequência da “estratégia da terra queimada” de Wellington. Este tinha ordenado à população que escondesse ou queimasse todo o meio de subsistência, antes de partirem em busca de protecção, ou no interior das linhas ou em locais fora do alcance dos franceses. “Neste país deserto, os soldados de Masséna procuravam alimentar-se de qualquer forma, utilizando por vezes métodos pouco louváveis. A retirada, dirigida eficazmente pelo marechal Ney, traduziu-se igualmente por actos de violência ainda hoje na memória dos Portugueses”10.
O apagão
Portugal, um país com dimensões reduzidas e um governo fraco, representou, mais do que qualquer outro Estado da Europa, um obstáculo à vontade imperial, “que se sentia ainda mais invencível pela simplicidade aparente da neutralização [de Portugal]. Esta foi a grande e triste ilusão de Napoleão. A sua ignorância da geografia e da história de Portugal leva-o a projectos irrealistas, cujo falhanço era previsível"11.
Os meios mobilizados por Napoleão foram consideráveis, mas a designação do marechal Ney e do general Junot, sob comando do marechal Masséna, foram um erro: no ano precedente, Ney tinha recusado servir sob as ordens de um outro marechal, desestabilizando os planos da campanha do Tejo. Quanto a Junot, que tinha sido governador-geral de Portugal, considerava-se humilhado. Para além disso, as tropas francesas não estavam completamente preparadas: meios de transporte inexistentes ou insignificantes, desconhecimento dos itinerários, falta de informações, inexactidões na execução do plano de invasão… “Não sabíamos quase nada sobre as fortificações em Torres Vedras, que protegiam Lisboa, quando Masséna estava apenas a 6 posições da capital! Digo mais: se o príncipe de Essling [Masséna] falha militarmente em Buçaco, falha sobretudo perante a política sistemática da terra queimada imposta pelos ingleses às populações portuguesas sob pena de morte. O Imperador não tinha previsto dar aos seus exércitos meios de subsistência para um deserto”12.
As consequências destas três campanhas foram consideráveis para Portugal: “foi necessário voltar a meter-se os campos em cultura para se alimentar a população, reconstruir aldeias inteiras, reencontrar a sua autonomia, o que não era simples com a ingerência dos ingleses nos assuntos do Estado, na ausência dos monarcas pouco apressados em regressar à metrópole”13.
Imparável, Wellington, o futuro vencedor de Napoleão em Waterloo, apoiará a rebelião espanhola. E, no momento certo, saberá aproveitar-se de circunstâncias favoráveis para, após algumas tentativas infrutuosas, lançar uma grande ofensiva que criará uma segunda frente no sudoeste da França em 1814 e que apenas parará com a queda do Império.
É na Península Ibérica que desaparece o mito de invencibilidade das tropas napoleónicas. Após Baylen, Talavera, Vimeiro, Porto, Buçaco e Torres Vedras, nada será como antes: “a partir desta época, o próprio Imperador vai ver a sua estrela empalidecer, a mesma estrela que um dia mostrou ao cardinal Fesh em pleno dia e que afirmava ser o único a ver”14.

1 MOLIERES, Michel – Les expédtitions françaises en Portugal de 1807 à 1811, Editions Publibook, 2007. 2 Ibidem. 3 La Compagne de Portugal en 1810 et 1811. Éditeur A. Eymery, 1814. MOLIERES, Michel - Les expédtitions françaises en Portugal de 1807 à 1811, Editions Publibook, 2007. 4 Idem. 5 Idem. 6 Idem. 7 Idem. 8 Idem. 9 Idem 10 CAILLAUX DE ALMEIDA, Tereza – La mémoire dês campagnes napoléoniennes au Portugal (1807-1811). Au croisement dês sources orales, écrites et iconographiques, Actes du colloque interdisciplinaire: Nouvelles perspectives de la recherche française sur l aculture portugaise (5-6 février 2007). 11 Napoléon et le Portugal, Conferência pronunciada por Nicole Gotterri a 6 de Abril de 2002 no Institut Napoléon (Paris, La Sorbonne). 12 Idem. 13 Idem. 14 MOLIERES, Michel - Les expédtitions françaises en Portugal de 1807 à 1811, Editions Publibook, 2007
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