quarta-feira, 31 de março de 2010

Estrela



Na véspera do dia das mentiras abordamos o sonho e a imaginação, a ilusão e a fantasia, o fascínio e o devaneio amorosos.


Texto e desenho Dina Cristo

«Estrela - afável e carinhosa
Estrela tu que foste um brinquedo
Tu que estiveste em mim
Que viveste e sentiste
As mesmas emoções
Porquê me deixas nas trevas
Tu estrela – que me iluminaste
Tu guiaste já minha vida
Estrela
Que bom era se me conduzisses
E um pouco só me iluminasses
Ai! E se desses vida a um sonho
Me cobrisses com teus pedaços
Estrela
Não fiques mais no céu
Desce à terra onde te conheci
Deixa, pára
Fica só comigo
Num dia de Domingo
Estrela, minha estrela
Que és tão bem formada
De uma cor simples, transparente
Singela e tão complicada
Estrela
Estiveste tão perto… e não acreditava
Agora distante digo que és real
Que és formosa e só minha
Estrela
Por quem eu passei
A paz de pôr-do-sol
O namorado ao pé do mar
Tu foste a única a presentear
Diz-me estrela
Porque tudo mudou
Cresceste, em mim aumentaste
E ao teu reino enfim voltaste?»
S/d

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quarta-feira, 28 de maio de 2008

Ver rádio

Nas vésperas de mais um aniversário de “A menina da rádio”, olhamos para a imagem da telefonia neste filme.

Texto Luís Manuel Martins

O filme “A menina da rádio”[1], um dos clássicos do cinema português, foi realizado em 1944, por Arthur Duarte, sob a chancela da Companhia Portuguesa de Filmes. Esta produção cinematográfica trouxe pela primeira vez a rádio para o grande ecrã, consagrando-a como um meio de comunicação cada vez mais importante. A Emissora Nacional (EN), estação pública de radiodifusão, havia nascido em 1 de Agosto de 1935 e começava agora a criar um público cada vez mais fiel, que ouvia com agrado as emissões. A envolvência e a familiaridade que os locutores despertavam junto dos rádio-ouvintes eram tão grandes que, por vezes, havia quem se deparasse a criar imagens mentais da fisionomia das grandes vedetas que falavam “ao microfone”. A “Menina da rádio” vem desfazer os equívocos e as imagens estereotipadas que os portugueses haviam criado sobre o novo meio radiofónico.
Os anos 40 constituíram o maior período de expansão da rádio em Portugal. Os seus receptores ocuparam um verdadeiro lugar de honra nos lares dos portugueses, servindo de companhia e de fonte de entretenimento. A rádio tornou-se um elemento aglutinador para as famílias, que passaram a estar mais vezes reunidas a escutar as suas estações preferidas. Foi também na década de 40 que os comerciantes atraídos pela potencialidade que a rádio tinha para oferecer, a nível da publicidade, começaram a anunciar os seus produtos.
Os conteúdos radiofónicos eram muito variados e incluíam espaços de informação de carácter geral, noticiários, programas políticos e música. A programação musical ocupava um lugar de grande destaque. O filme “A menina da rádio” dá a conhecer o advento das grandes orquestras radiofónicas, que actuavam nos estúdios das emissoras, em directo e ao vivo. Os anos 50 viriam a dar lugar ao espectáculo radiofónico, realizado por gente do teatro, do cinema e das artes em geral, onde se destacavam jornalistas habituados a escrever peças para o teatro de revista, argumentos de cinema e textos publicitários para os jornais e para a rádio.
“O chefe de casa, que geralmente está ausente, passando o tempo por locais nem todos recomendáveis, descuidando o lar monótono, atraído pelo ruído e pelo movimento que encontra fora dele, começa a fazer nova vida. Quando não põe o aparelho a funcionar enquanto janta, fá-lo depois, deixando-se ficar em casa”, referiam Fausto Gonçalves e Pereira Machado em 1939. “A menina da rádio” mostrou ao país um fragmento real das actividades radiofónicas, preconizadas por conhecidíssimos colaboradores da Emissora Nacional, estação que surge no filme com o nome fictício de Rádio Lisboa. Assim, Jorge Alves, distinto locutor da EN, dá-se a conhecer ao grande público, agora não só pela sua voz firme e colocada, como também pela sua estatura alta e elegante.
No sentido da representatividade do locutor, enquanto profissão equiparada ao jornalismo, Isabel Travancas escreveu no seu artigo “O Jornalista Como Personagem de Cinema” que “a indústria cultural e particularmente o cinema são um campo privilegiado de produções simbólicas e mitos modernos”, considerando que a chamada sétima arte tem “lugar de destaque na modernidade”. A autora defende que “a linguagem cinematográfica transmitiu o impacto das transformações sofridas neste século [Século XX]” e refere que “o cinema com o seu enorme poder de penetração nos mais diversos grupos sociais ajudou a construir mitos, a divulgar saberes novos, como a psicanálise e a popularizar actividades e profissionais, como foi o caso da imprensa e dos jornalistas”.
Isabel Travancas deixa no ar uma interessante afirmação, seguida de uma pergunta: “É possível afirmar que o cinema colaborou com a construção de uma imagem, ou melhor, de algumas imagens do jornalista; representações que certamente influenciaram na escolha profissional de futuros repórteres. Quantas carreiras jornalísticas não devem ter nascido no «escurinho» de uma sala de cinema?”
“A menina da rádio” permite entender esta reflexão de Isabel Travancas no seu sentido mais lato, uma vez que foi muito bem aceite pelo grande público, não tanto pela crítica. Podemos mesmo falar de um fenómeno mediático, nunca antes visto em Portugal, que se prendeu com o facto de, na fase de pré-produção do filme, não se ter encontrado rapidamente uma protagonista para o papel principal. Depois de uma longa espera, alimentada por rasgos de algum sensacionalismo da imprensa da época, a escolha acabou por recair sobre Maria Eugénia, uma jovem talento, com apenas 16 anos de idade. Este foi um factor que acabou por pesar no retumbante sucesso de bilheteira, proporcionado por um público ávido de contactar com algumas das suas maiores estrelas do teatro e da rádio.
Imagem ou realidade?
Uma análise de imagem mais pormenorizada de certas cenas isoladas deixa igualmente uma dúvida. Será que o filme pode ser considerado um documentário? Manuela Penafria, no seu artigo “O documentarismo no cinema”, considera que a base de um filme documentário é “o registo in loco dos acontecimentos do mundo e da vida das pessoas”. Neste sentido, este filme adquire em certas cenas um certo pendor documentarista, que favorece a percepção da imagem, devido à contextualização, que apresenta, a nível do texto narrativo.
Michel Tardy considera que “a pedagogia das mensagens visuais não pode deixar de ser, primeiro, uma reflexão sobre a verdadeira natureza da imagem e sobre as suas coordenadas ontológicas. Discute-se interminavelmente sobre os seus conteúdos e a sua beleza eventual; mas o essencial que é examinar o seu próprio ser, fica esquecido. Ora, a imagem não coincide com a realidade que ela representa. A sua transparência não passa de uma opacidade camuflada: ela tem a inocência dos hipócritas. Entre o elemento indutor, a realidade, e o elemento induzido, a imagem, interpõe-se toda uma série de mediações que fazem com que a imagem não seja restituição, mas reconstrução da realidade”.
O autor, na sua obra “O professor e as imagens”, afirma que estas não constituem um mundo paralelo, mas um segundo mundo, com suas características próprias e suas leis específicas. A imagem é sempre alteração, voluntária ou involuntária, da realidade. A alteração voluntária não é, aliás, a mais significativa, porque resulta numa falsificação e remete para a suposição implícita de que se trata apenas de uma questão de honestidade; restaurada esta, o problema desapareceria. Ora, faça-se o que se fizer, a imagem sempre coloca em jogo processos de derivação; ela é, por natureza, e não de modo contigente, deformante”.
O filme, apesar do seu carácter eminentemente cómico de situação, proporcionado por actores emblemáticos como António Silva, Maria Matos e Ribeirinho, adquire em certos momentos a visão aproximada de um documentário. Isto porque demonstra a preocupação de veicular uma imagem positiva do potencial que a rádio tem para oferecer. É este, sem dúvida, o vector da narrativa, omnipresente ao longo de todo o filme. Igrejas Caeiro considera mesmo que a película “consegue retratar” a imagem das grandes estações de rádio nacionais, tal como a Emissora Nacional, em contraste com as pequenas rádios de bairro, das quais fazia parte o projecto de Cipriano Lopes (António Silva), com a criação do Rádio Clube da Estrela.
Segundo o antigo locutor da Emissora Nacional, «Havia exactamente várias rádios. As rádios formais, mais completas, e outras pequeninas. É esse trabalho que aparece no filme. É a rádio da rua, do sítio. Havia várias, não só em Lisboa, mas também no Porto. Havia rádiozinhas dessas. Rádios pequenas. Antes ia tudo à censura. Não passava nada. E coisas com que nós ríamos, porque não tinham pés, nem cabeça. Bem... Aí havia uma possibilidade de comunicar de outra maneira. Aquilo era uma piada, era uma graça. E há certas graças que convinham ao movimento de então. Há coisas que lhes davam jeito. Parecendo que estavam a dizer, agradava-lhes que isso fosse dito. De uma maneira geral, esse tipo de filmes não tinham assim grande forma de... [ser censurados]. Eram aceites”.
Em comentário no DVD, Igrejas Caeiro declara: “Aquilo era muito fácil para as pessoas, era muito agradável e deixavam que as coisas passassem. Foi muito interessante. As pessoas gostaram de ver. Porque já havia aí o interesse pelos artistas. Aqueles de que se gostava mais. E vê-las num filme assim foi agradável. Agora, a propósito dos filmes portugueses, embora muito bons do ponto de vista fácil, de agradável, de comunicante, os críticos davam cabo desses filmes. [Diziam que] aquilo não era cinema, que não era isto, que não era aquilo... Agora, passados tempos, passam-se esses filmes e toda a gente fica... Mas que cinema extraordinário que havia nessa altura!”.
“Alô, alô! Confeitaria Bijou da Estrela. Especialidade em doce de ginja, merengues, pudins e compotas. É aqui que se fabricam as afamadas broas de noz e os célebres rebuçados para a voz (tussindo). Serviços para casamentos e baptizados. Copos de água aos domicílios”. Assim começa Ribeirinho, empregado da Confeitaria do Sr. Lopes, a “ladainha” publicitária, que ganhava agora notoriedade no espaço radiofónico e induzia no público-alvo o desejo de comprar os mais variados produtos.
Neste aspecto, o filme é absolutamente fantástico. Ele retrata fielmente, a necessidade sentida pelo Sr. Lopes de mobilizar a vontade de um grupo de notáveis comerciantes do Bairro da Estrela, em Lisboa, para o seu novo e visionário projecto radiofónico, onde todos haviam de lucrar, uma vez conseguido o retorno dos investimentos em publicidade. Rosa Gonçalves (Maria Matos) encabeçava o rol de incrédulos e eternos rivais de Cipriano Lopes. Ela era na verdade uma personagem detestável, que Cipriano acusava de “querer calar a boca ao progresso”.
Na verdade, António Silva, quer no cinema, quer na sua vida do quotidiano, era um grande entusiasta da rádio. Uma das suas grandes preocupações era a necessidade desta constituir um meio de formação eficaz para as pessoas. O rádio-receptor, a torneira que, segundo ele, se abria e “jorrava música”, devia informar, mas também formar. Já agora porque não... divertir? Sem rodeios, preconizava que os que não tivessem aproximação às emissões se tornariam verdadeiros “analfarádios”.
A fita teve um grande sucesso na sua estreia, contudo a imagem que os críticos de cinema retiveram foi a de um filme insípido, demasiado fácil de ver. Ora, por vezes, o segredo do sucesso está na simplicidade. Dava-se ao público o que ele gostava, atendendo obviamente às especificidades e exigências das comissões de censura, que não perdoavam o mínimo deslize aos propósitos originais de “Servir a Pátria”, exigidos aos realizadores de cinema portugueses. Tudo tinha de ser feito “A Bem de Portugal” - a velha máxima do Estado Novo. Face à necessidade de captar um vasto auditório de ouvintes para a Emissora Nacional, ter-se-á servido o Estado deste filme, como estratégia de propaganda? É uma pergunta que fica no ar, com pertinência, creio.
Imagem ou imaginação
O sentimento de pertença e a familiaridade dos ouvintes com as emissões era muito grande, na década de 40. Há uma passagem maravilhosa ao nível da compreensão deste fenómeno, que é aquela em que Maria Eugénia se encontra a ouvir rádio com a mãe, escutando Fernando Verdial (Fernando Ribeiro) a cantar na Rádio Lisboa. Nesta cena, a menina da rádio, embebida pela envolvência do som, imagina-o como um televisor. A suspirar, afirma que a imagem mental que tinha daquele cantor da moda “parece um sonho”. A mãe (Maria Olguim), logo de seguida, retorquiu dizendo: “parece mas é bruxedo. Some-te!” [Benzendo-se]. Por aqui é fácil observar que certas pessoas ainda não estavam habituadas nem aos novos avanços tecnológicos, nem à nova forma de fazer rádio, já longe das primeiras experiências radiofónicas amadoras portuguesas dos princípios do século XX.
A filosofia de trabalho, baseada na persistência e na auto-formação, era praticamente a mesma. No entanto, investia-se crescentemente em bases mais sólidas de formação técnica e tecnológica dos colaboradores do meio radiofónico. Afinal eram estes que permitiam a transmissão de uma mensagem perceptiva e cultural, tal qual o modelo preconizado por Roland Barthes. A rádio povoava o imaginário colectivo. A própria palavra “imaginário” está relacionada com as imagens mentais que se criam por indução. A manipulação da realidade, ou a manutenção dos seus pressupostos, vai levar a que se gerem, ou não, imagens mentais fidedignas ou adulteradas do seu sentido original.
Para Martine Joly, o binómio Imagem/imaginário gera relações de complementaridade entre imagens e palavras, que reside no facto de “elas se alimentarem umas às outras”. Segundo a autora, “não existe qualquer necessidade de uma co-presença da imagem e do texto para que este fenómeno se verifique”, já que “as imagens engendram palavras que engendram imagens, num movimento sem fim”. Esta visão de Martine Joly está bem patente no filme “A menina da rádio”, já que o seu visionamento remete sempre para uma relação analógica e multiforme, de reconhecimento da realidade representada.
Voz e palavras
Manuela Penafria presta igualmente um contributo valioso para a compreensão deste filme, através do seu artigo “Ouvir imagens e ver sons”, apresentado nos VII Encontros de Cinema Música(s), realizado em Dezembro de 2003, no Cine Clube de Faro. A autora considera, antes de mais, que “a teoria cinematográfica tem estado algo arredada em estudar o som como elemento expressivo e fundamental dos filmes”.
A autora refere que o som pode ser de diferentes tipos, citando o de ambiente, os diálogos, a música, a locução (voz off) e os ruídos. Assim, falar de som em cinema implica “afastarmo-nos de um discurso que considera que o mesmo se dirige ao ouvido (assim como considerarmos apenas que a imagem se dirige ao olho)”. Imagem e som exercem assim uma acção complementar que favorece, ou não, a criação de ideias, crenças e valores, acerca da realidade que está a ser representada por via da transposição para o cinema.
Manuela Penafria menciona ainda no seu artigo que “com a introdução do som directo foi possível dizer-se que havia uma relação directa e linear entre a realidade e a sua representação. Entrevistas de rua e som ambiente enquanto parte integrante da realidade foram incluídas nos filmes. Mas, como sabemos, esse projecto de representação fiel da realidade foi mais um projecto de entusiasmo que efectivo”. Ainda segundo a autora, “quando a matéria da representação são imagens, estamos afastados do objecto representado, em especial, por questões estéticas (escolha de ângulos, enquadramentos, etc.), o que não permite essa relação linear com a realidade.
Através desta primeira abordagem, facilmente se perceberá a sua aplicação ao caso d’ “A menina da rádio”. Na verdade, em muitas cenas do filme são precisamente os momentos sonoros, que permitem que a sua visualização se torne inteligível, favorecendo a criação de uma imagem uniforme do meio radiofónico retratado. A imagem perceptiva que se tira de um filme fica muito a dever ao som, mais do que à imagem, em certas situações.
Arlindo Machado, no artigo “O fonógrafo visual”, afirma que há uma terminologia bastante desenvolvida na área da imagem, a nível, por exemplo, da profundidade de campo e enquadramentos, enquanto que para o som não se passa o mesmo. O autor considera ainda que quase sempre as discussões sobre o cinema partem do princípio que este é apenas um fenómeno visual, deixando de parte a componente sonora que, ou não é referida, ou é tratada marginalmente.
Importa citar as palavras reveladoras do realizador Pedro Sena Nunes, incluídas na sua retrospectiva, numa Edição do V Festival Nacional de Vídeo de Ovar: “Eu não consigo imaginar ou suportar um documentário em que não se sinta a escuta. Se quem fica do outro lado não está a ouvir, o objecto já não é um documentário. Se há definição possível de documentário será porventura essa: saber ouvir. E não é ouvir para registar. É saber que, para registares um bocadinho, muita coisa tem de ser ouvida”.
A nível de som e de escuta, não nos podemos alhear da grande popularidade das várias canções lançadas no filme “A menina da rádio” como, por exemplo, a canção “Sonho de amor”, da autoria de Silva Tavares. A música povoou assim o imaginário dos ouvintes e espectadores de cinema, muito para além do momento em que contactaram com o grande ecrã, o que contribui para a compreensão do fenómeno de proximidade que o filme “A Menina da Rádio” desencadeou.
Conceito
“Uma representação da realidade (física, como uma fotografia, ou imaginária, como uma música). Elemento essencial da comunicação de massa, desde que a fotografia entrou na imprensa e sobretudo desde que a televisão a aliou ao som e ao movimento. Sendo polissémica (passível de ter vários significados) necessita do texto (escrito ou verbal) para esclarecer o seu sentido. Mantém uma relação analógica com a realidade e, como sublinharam os semiólogos, tem duas leituras, uma denotada (o que representa de facto) e outra conotada (o seu valor simbólico, o que evoca além do que representa e depende do leitor). «O espectador da imagem recebe ao mesmo tempo a mensagem perceptiva e a mensagem cultural», afirmou Roland Barthes”
[2].
Martine Joly considera que “o termo imagem é tão utilizado, com todos os tipos de significados sem ligação aparente, que parece muito difícil apresentar uma definição simples e que abarque todas as maneiras de a empregar”
[3]. A autora reconhece que nós “compreendemos que ela [a imagem] designa algo que, embora não remetendo sempre para o visível, toma de empréstimo alguns traços ao visual e, em todo o caso, depende da produção de um sujeito: imaginária ou concreta, a imagem passa por alguém, que a produz ou a reconhece”.
A imagem “longe de ser um flagelo contemporâneo ameaçador, é um meio de expressão e de comunicação que nos liga às tradições mais antigas e mais ricas da nossa cultura”, explica Martine Joly. Para a autora, a sua leitura, mesmo a mais ingénua e quotidiana, mantém em nós uma memória que apenas exige ser um pouco estimulada para se tornar num utensílio mais de autonomia do que passividade”. Neste sentido, a compreensão de imagens necessita do recurso ao contexto da comunicação, à historicidade da sua interpretação e às especificidades culturais.
O cinema, como processo de sequencialização fotográfica, torna inteligíveis as palavras de Roland Barthes a propósito da fotografia. Barthes considera que o que faz da fotografia “uma imagem fundamentalmente diferente das outras imagens: é a dupla conjunção de realidade e de passado que ela propõe – aquilo que ela representa esteve ali. É aquilo a que Barthes chamou «isto foi». Será que: “Uma imagem vale mais do que mil palavras”? Arriscaria dizer que sim.
Independentemente de qualquer abordagem a nível de análise da imagem cinematográfica e da estruturação de uma imagem mental uniforme do meio radiofónico, o filme “A menina da rádio” é um excelente ponto de partida para a afirmação de um progressivo interesse pelos artistas, por parte do público, o que demonstra a instituição de valores culturais e de culto pelos personagens mediáticos da época. Para além disso, a vertente didáctica de construção da linguagem radiofónica e da estruturação programática dos novos conteúdos, próxima do grande público rádio-ouvinte e cinéfilo, cruza-se com a popularidade de locutores consagrados, equiparados a jornalistas, cantores, actores e colaboradores da rádio que, no seu tempo, souberam engrandecer a profissão que abraçaram. A todos eles se deve o sucesso do filme, a eles se deve a inspiração do meu trabalho.

[2] CASCAIS, Fernando - Dicionário de Jornalismo – as palavras dos media. [3] JOLY, Martine - Introdução à Análise de Imagem.

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

João 3-16


Nesta quadra de Natal, eis um conto original sobre a importância... do essencial.

Texto José Maria Alves fotografia Dina Cristo

Foi na cidade de São Paulo. Na avenida Brigadeiro Faria Lima. A noite de Inverno estava escura e triste, com os fumos da poluição a envolverem os candeeiros de iluminação pública. O frio inusitado circundava objectos e seres. A pobreza era mais pobre, e o sofrimento mais sofrido. A miséria dos desfavorecidos golpeada pela opulência dos edifícios e pela quentura da riqueza.

Junto a uma loja, na calçada, um rapazinho de 11 anos, sujo, vestido de indigência, trémulo, de uma magreza desconfortante a exibir uns belos olhos negros, vendia os doces que não se aventurava a comer.
O pai morrera num assalto, quando tinha dois anos. Não nascera salteador, assim como a sua desventurada mãe, perdida nos subúrbios, não nascera prostituta. Só ele nascera desafortunado.
Quando o frio o não acossava tanto, interpelava-se quanto à justiça do mundo. “Não lhe daria Deus uma fogueira, e quem sabe um pedaço de pão com manteiga? Ele que enchia de afagos e carícias os passantes de viaturas aquecidas e dos condomínios luxuosos. Ouvia gente rica e poderosa falar dos pobres, mas tinham a barriga inchada de tanto comerem e roupas caras para se aquecerem.”
Os pensamentos desvaneciam-se na bruma e no gélido bafo da noite. A melancolia dos seus olhos, mais parecia clamar pela morte em segredo, de modo lento, para não doer.
Os transeuntes apressavam-se, não reparavam nele, nem acudiam aos seus apelos de compra, transformados em invocações de misericórdia. Ninguém comprava, apenas passavam por si, alheios ao padecimento e ao desabrigo, presos ao seu próprio ego e mesquinhas ambições.
Renunciou. Por que havia de insistir?! De que lhe serviriam mais uns magros reais?! Sentou-se nos degraus de um prédio de escritórios, e olhou para o céu. “Nem uma estrela”, pensou. “Gostava ao menos de poder olhar uma estrela a luzir no firmamento.” “Teriam os ricos um céu só para eles?; provavelmente têm, com muito pão, doces, e lume para se aquecerem quando faz frio e limonadas geladas para quando o calor comprime o peito e não nos deixa respirar.”
Tinha saudades da mãe que o abandonara e do pai que não se lembrava de ter conhecido. E tinha frio, e fome, e uma tristeza que só os pobres sabem reter. Não pedira para nascer. Deus bem podia ter-se esquecido dele e dar a sua alma a outro menino que não tivesse de dormir num vão de escadas. Até o Menino Jesus dos presépios, que vira no último Natal, tinha palha, uns panos e animais para o aquecer, uma mãe para o alimentar e um pai que o escudava do mal, da agonia e do pesar. Também ele queria uma cama, um gato que se enroscasse na sua barriga e um pão recheado que a enchesse.
Nisto, um polícia aproximou-se, visivelmente cansado, com as faces enrugadas por não saber sorrir, e perguntou: - Estás perdido? - Não, não estou senhor. Apenas queria um lugar quente para dormir – respondeu o rapaz com a indiferença e naturalidade de quem nada pode perder, por nada ter. - Onde é que tu dormes? – volveu o agente, que parecia ausente na dureza viciada do seu modo de falar.
- Na Paulista, numa caixa de cartão. Mas hoje tenho muito frio. Talvez não seja o frio, talvez seja eu. Quem sabe se não tenho febre?! Dói-me o corpo. Só queria um lugar quente. Dizem que no Norte faz sempre calor e que as praias estão sempre cheias; aí venderia água de coco, gelados e não teria frio. Mas não sei como ir, não tenho reais que cheguem para comer um pão, quanto mais para viajar. E como deve ser longe; nunca saí desta cidade. Gostava de ver o mar e os barcos com as velas ao vento, como nos postais; e de ir no comboio ao Rio para olhar os turistas que vivem em lugares onde não lhes falta nada e por isso têm dó dos mendigos. Se calhar só dão para poderem ir para o céu, ou para se verem livres de nós, mas pelo menos dão; quem me disse foi o “Caipira” da Rua Augusta.
O polícia apesar de exausto, olhou a criança, demoradamente, como quem chora ou como quem quer chorar e não sabe. Ficou em silêncio por alguns segundos, deslocou o boné para o lado e coçou a cabeça luzente, já quase sem cabelos.
Apontando para uma transversal, disse: - Bem, menino, desces esta rua e mais ou menos ao meio, vais encontrar uma casa grande, pintada de branco, com um jardim e com portões verdes. Quando chegares, toca na sineta. Alguém te irá abrir a porta, abrem sempre. - E o que é que eu faço? – questionou o rapaz um tanto confundido. - Nada. Diz apenas: João 3-16.
Estranho. João 3-16... João 3-16. Nunca ouvira tal coisa. Quem seria o João? O dono da casa? Um amigo do dono? E 3-16? Estranho. João 3-16. Ninguém se chama assim, com números e tudo, pensava, só os que estão presos com tabuletas no peito, como nos filmes que correm nas televisões das montras.
O frio aumentava enquanto a noite crescia. Desceu a rua, tocou a sineta. Ninguém vai aparecer, pensou. Não deve estar ninguém. História de polícia; se calhar estava bêbado. Toco outra vez? É melhor não. Ainda me maltratam.
Enquanto absorto nessa torrente de pensamentos, acendeu-se a luz da ombreira e abriu-se a porta de madeira talhada. Uma senhora idosa poisou nele o seu olhar meigo e caridoso, como quem acaricia com a vista uma flor, ou envolve uma criança num pano de linho, o que lhe fez perder o receio que o afligia. - João 3-16 - disse baixinho. - Não te oiço menino. - João 3-16 – volveu o rapazinho. - Entra meu filho.
A casa era bonita demais. Cheirava a lenha queimada e a comida. Tinha cadeiras, mesas, panos nas janelas, jarras, quadros nas paredes. E não parecia ter mais gente.
- Vem, aproxima-te do fogão de lenha – disse-lhe afectuosamente. Senta-te neste banco e aquece-te, estás branco, enregelado. Deves ter fome; aguarda um momento.
Enquanto o corpo recuperava o calor perdido, pensou consigo: - João 3-16, quem será? Não sei, mas aquece-me. É bom, deve ser bom, só pode ser, senão não me aquecia.
A Senhora retornou com um prato cheio de comida. Nunca havia comido nada assim. Há dois dias que nada comia. Nem os doces que vendia. Se os vendesse como poderia comprar pão? João 3-16. Nada sabia dele, apenas que aquecia e matava a fome. Não sei o que é, nem quem, mas cuida de mim, pensou. - Come o que quiseres filho. Há mais na cozinha.
Quando terminou a refeição, a benévola Senhora levou-o por umas escadas circulares ao andar cimeiro e deu-lhe um banho de água bem quente que cheirava ao perfume que as senhoras ricas deixavam na calçada quando entravam nas lojas do centro. Não sabia que a água tinha cheiro. Será que também se podia beber?!
- Posso ficar sozinho? – perguntou. Tenho vergonha que me veja assim. - Claro, criança. Mas não podes demorar. Terminaste agora a refeição. Não sabia quem era João 3-16, ou o que era João 3-16, mas tinha a certeza que o limpava de tanta sujeira.
Ao fim de algum tempo, a Senhora disse-lhe que tinha de sair da água. Que pena, estava tão quente, tão confortável, que o esforço para não adormecer era enorme. Segurou a sua mãozita, e conduziu-o a um quarto com uma cama de ferro, lençóis brancos e almofada de penas.
Não sabia quem era João 3-16, mas sabia que lhe estava a dar uma cama macia num quarto quente, e que dormiria como nunca havia dormido em toda a sua vida.
A Senhora abraçou-o, beijou-o na testa, deitou-o e apagou as luzes, dizendo: - Durma em paz criança de Deus.
No escuro, com uma ténue luminosidade que entrava pela janela, pensou: “Não sei quem é João 3-16, mas aquece, alimenta, limpa, e dá repouso, e dá carinho. Talvez seja rico, mas não como os outros ricos da Paulista.” E duas grossas e límpidas lágrimas escorreram no rosto inocente.

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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Educação lenta


Um novo ano lectivo bate à porta. Como uma corrida para ver quem chega ao pódio, a ordem é “mais informação e cada vez mais depressa”. Quase todos aceleram, à pressa e sob pressão, excepto os que - lentamente - desafiam o sistema. Talvez tenham tido tempo suficiente para recordar que os últimos… são os primeiros.

Texto e desenho* Dina Cristo

Obcecado por exames e objectivos, com horários sobrecarregados, o estudante do séc. XXI tornou-se um discípulo apressado. Num contexto de educação intensa e abreviada, de luta para cumprir os programas, acelerados, a pressão, como para cumprir prazos e ser cada vez mais rápido, é constante. O estilo, de disciplina marcial, competição desenfreada e atmosfera sufocante, é de “treina e mata” e “estudar-até-cair”, observava Carl Honoré no seu livro “Movimento slow”.

O jornalista canadiano notou, contudo, que as crianças aprendem melhor quando o ritmo é mais lento e que um ambiente mais descontraído favorece o desenvolvimento de uma personalidade mais completa. Cita exemplos como a academia japonesa Macieira, fundada em 1988, em que os alunos vêm e vão, estudam o que e quando querem. Uma investigação que desenvolveu no seu livro mais recente “Sob pressão: como salvar as crianças da cultura dos hiper-pais”.

Na vontade de empurrar os seus filhos, os pais super-estimulam-nos. Os tempos livres… são ocupados em actividades extra-curriculares. Harry Lewis, ouvido pelo autor, nota: «O tempo livre não é um vácuo que se tenha de preencher (…). É aquilo que permite que outras coisas no vosso cérebro sejam recordadas de forma criativa (…)». Por isso, defende, há que limitar as actividades e reservar algum tempo para o lazer, divertimento, descontracção, solidão e imaginação.

É o reflexo do medo de ficar para trás, num mundo “turbo-alimentado”. A escola é vista como um campo de batalha em que o que interessa é ser o primeiro, o melhor. A hiperpaternidade, na vontade compulsiva de aperfeiçoar os filhos, agarra-se ao resultado dos exames e empurra-os tanto que os deixa exaustos; há crianças a dormir insuficientemente e a sofrer de stress. Maurice Holt, escutado por Carl Honoré, lembra que «(..) atulhar as crianças de informação o mais depressa possível é tão alimentício como devorar um Big Mac”(1).

Além do mais, a especialização desde tenra idade pode causar danos. José Luís Maio deu grande relevância à educação no ensaio “A Ciência da Polis”, nomeadamente à maximização da pluralidade de informação, com campos pedagógicos, integrados na Natureza e na comunidade. O autor destacou a importância de, até aos três anos, a criança estar próximo da mãe, cuja vitalidade o nutre, de entre os três a seis anos, brincar e jogar naturalmente e depois dos seis atender às necessidades do corpo, pela ginástica, e da alma, através da música.

Educação lenta

No sistema finlandês e sueco, por exemplo, o jardim-de-infância devolve aos pequenos o tempo para brincarem e a liberdade de serem crianças. Pais e professores estão mais motivados para que adquiram auto-estima e auto-confiança. Mais tarde, na fase de aprendizagem verbal, o entusiasmo e dedicação multiplicam-se. Já Omraam Aivanhov lembrava a importância da preparação para a aprendizagem para que o discípulo possa apreciar e aplicar o que é ensinado (2).

Há quase dez anos Maurice Holt publicou um manifesto pela “Escolaridade lenta” – a defesa do alívio da carga de actividades e de um ritmo mais adequado à velocidade de cada um; a importância de um espaço-tempo para a procura e compreensão do conhecimento por si próprio. Ninguém consegue ensinar aquilo que só se pode aprender, referia há décadas Khalil Gibran. Talvez por isso, os autodidactas ao longo da história não têm deixado que a escola atrapalhe os seus estudos.

Em Ridgewood, New Jersey, realiza-se em Março o “Preparar, estão prontos, relaxar!”, um dia em que não são marcados trabalhos para casa e são cancelados treinos, explicações e reuniões: “Os pais tratam de virem para casa mais cedo, a tempo de jantarem com os filhos e passarem algum tempo com eles à noite”(3).

Em Portugal, a Escola da Ponte, em Vila das Aves (Santo Tirso), inserida no sistema de ensino público vem, desde há décadas, ensaiando um novo modelo de educação mais motivante, participativo e democrático. Espelho da atenção a uma educação mais extensiva, informal, descentralizada e, ao mesmo tempo, livre e profunda.

Esta tendência para desacelerar e procurar um ritmo mais suave, mais natural, reflecte-se no interesse pelo ensino doméstico, em que Roland Meigham é perito. Na América há mais de um milhão de jovens que estão a ser ensinados em casa. São educados numa determinada tradição, têm mais protecção e mais liberdade de escolher os seus próprios horários; a aprendizagem torna-se mais produtiva e equilibrada, combinando curiosidade, criatividade e imaginação, além de que sobra mais tempo livre para o divertimento.

Carl Honoré tem mostrado a futilidade e os perigos de uma aceleração constante. «O segredo está no equilíbrio: em vez de fazer tudo mais depressa, faça-se tudo à velocidade certa. Por vezes, depressa. Outras vezes, lentamente. Outras, algures no meio»(4). Abrandar e escolher o ritmo que o faz mais feliz, usar o tempo de forma mais sensata, traz benefícios. Apreciar a vida, fazer as coisas como deve ser, com significado e prazer, eis a proposta do movimento slow aplicado à educação.

Uma educação mais lenta, livre, corajosa e humana que tenta satisfazer o amargo de boca de um modelo institucional, imposto e rápido, sob pressão para ser o melhor, e superar o vírus da pressa que, num sistema industrial, tem contagiado alunos, pais e professores, velocificados numa espécie de regime militar, esgotante.

• Anos 70

(1) HONORÉ, Carl – O movimento slow – A corrida contra o tempo afecta o trabalho, a saúde, as relações e o sexo. É possível desacelerar e recuperar a qualidade de vida?, Estrela Polar, 2006, p.224.(2) Caso contrário «(…) só irá entrar em choque com ele, ver-se-á em toda a espécie de contradições e continuará tão fraco e ignorante como antes». AIVANHOV, Omraam -pensamentos quotidianos, Edições Prosveta,2010: 22/7/2011. (3) HONORÉ, Carl – O movimento slow – A corrida contra o tempo afecta o trabalho, a saúde, as relações e o sexo. É possível desacelerar e recuperar a qualidade de vida?, Estrela Polar, 2006, p.233. (4) Idem, p.240.

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quarta-feira, 30 de abril de 2008

Dinâmica radiofónica


Nesta quinta e última parte da entrevista, Etelvina Lopes de Almeida recorda as qualidades da oposição e as vantagens da rádio.

Entrevista Virgílio Luís Silva

Existe uma referência no final da década de 50, que tem a ver com o conto da cadeira. Salazar caiu mesmo da cadeira onde esta sentado?
Acho que sim. Ela já não estava muito bem.
Foi isso que deu origem ao conto?
Eu acho que o que deu origem deve ter sido uma trombose, uma coisa assim que lhe deu e o fez cair.
Já em 1960, para além da Sociedade Portuguesa ter sido marcada pela guerra de África, os movimentos que existiram, por exemplo na música, na Inglaterra, com os Beatles.
Foram entusiasticamente recebidos cá. Era qualquer coisa de liberdade que chegava aqui.
Como é que a Censura via isso na rádio? Deixavam-vos passar essas músicas?
A gente passava. Não estavam censurados.
Não percebiam inglês?
Não percebiam inglês! O problema está nisso. Porque razão a oposição não foi destruída? Porque a oposição usava a inteligência e usava a cultura, e eles usavam a força. O problema é este.
Há uma coisa que eu tenho de lhe dizer, não sei se lhe interessa, pode interessar para a rádio também porque se fizeram palestras, fizeram-se folhetins e isso tudo. Houve a certa altura, no final da Guerra de Espanha, uma abertura intelectual em Portugal, com livros que vinham de fora, clandestinos. E também livros que se estavam a editar em Portugal, que se vendiam por debaixo do balcão. Sabe o que significa esta frase, por debaixo do balcão? Eram livros expostos, mas que eu sabia que uma determinada livraria, sabe é o Tam Tam, estava a editar um livro e chegava lá e dizia que estava interessada no livro. Depois passava pela livraria, punha o dinheiro em cima do balcão, ia aos fundos e davam-me o livro. Ora, eu recebia livros através de um amola tesouras que mos trazia de França e de Espanha e assim chegavam a minha casa. Um livro sensacional, que teve uma repercussão espantosa em Portugal, chamava-se “O drama de Jean Barois, você leu alguma vez? Eu recomendo-lhe vivamente. É um livro desta época, mas é um livro sensacional - Roger Martin Du Gard.
Vieram livros, por exemplo com a 24ª Hora do Steinbeck e veio Jorge Amado. Teve uma influência extraordinária. Foi proibido aqui “Os Capitães da Areia”, foi proibido “O Mar Morto”, foi proibido, no entanto a gente recebia os livros, tinha 24 horas para o ler e para passar a outro. Isto trouxe à oposição uma ânsia de cultura do que se passava nos outros países, que nos enriquecia. Não andávamos de bandeirinha na mão como hoje. Hoje não se faz oposição nenhuma, porque as pessoas não se preparam em ideias. Mas nós naquela altura preparávamos as nossas ideias. Nós sabíamos porque é que estávamos a lutar. E então em Portugal tivemos o Soeiro Pereira Gomes, o Alves Redol, o Manuel da Fonseca.
Esses escritores escreviam e os livros eram editados quase clandestinamente ?
Clandestinamente? Muitas vezes eram apreendidos. É por isso que nós íamos buscar o livro, antes da Censura saber que ele estava cá fora. É isso que se chama por debaixo do balcão.
Essa importância, essa linha de orientação, com aquelas músicas e os respectivos movimentos musicais dos anos 50 e 60, isso foi dando uma abertura cada vez maior à cultura portuguesa, não só pelos livros, mas também pela música.
Em todo o caso eu devo dizer-lhe que a música de uma maneira geral tocava a juventude que sabia inglês, os livros tocavam outra área, de pessoas já mais conscientes, já mais preparadas para a luta democrática, digamos assim.
A D. Etelvina acha que na década de 60, com esse advento da música e os movimentos jovens característicos da época, com a miniaturização dos equipamentos permitindo o seu transporte, acha, que com tudo isso, a rádio foi perdendo peso?
Eu acho que a rádio ainda hoje não perdeu o seu lugar. Fui uma pessoa de rádio, continuo a ser uma pessoa de rádio, continuo a dizer que a televisão não destruiu a rádio. A rádio continua a ser a rainha da informação enquanto ela for correcta. Eu vou-lhe dar um exemplo. Eu estou em casa a ouvir um noticiário da TV, mas eu não posso ouvir o noticiário da TV enquanto vou daqui para Tábua. Com a rádio durante a viagem vou mudando de canal e vou ouvindo os noticiários consoante o canal. Portanto a TV obrigou-nos a uma posição estática. A rádio continua a permitir-nos dinâmica.
Mas quando a televisão aparece em Portugal em 1957, acha que a rádio possa ter perdido alguma influência com a televisão como elemento de novidade?
Sim, isso evidentemente. Houve muitas pessoas que acharam que a televisão era o supra-sumo.
Mas D. Etelvina, eu não estive em 1957, como bem pode imaginar, na Feira Popular para assistir à primeira emissão da televisão. Estou a imaginar o que terá sido, e estou também a imaginar o que terá sido também no Porto a emissão experimental que aí decorreu.
Foi o que terá sido uma coisa nova que chega. O cometa que está no ar agora. É isso! As pessoas ficaram deslumbradas com aquilo tudo, mas evidentemente terminado o programa sente-se o vazio. Ao passo que a rádio estava lá. É contínua. Agora, tudo depende daquilo que a gente dá às pessoas. Eu por exemplo, sou incapaz de ver “A Noite da Má-língua”, sou incapaz de ver aquele programa que é o “Confissões”, da Teresa Guilherme, não posso, o meu cérebro não admite aquilo. No entanto gosto imenso de ver o Miguel Sousa Tavares, acho que ele tem uma inteligência extraordinária. Gosto imenso dele. Gosto muito da mulher dele (Laurinda Alves), que tem também um programa muito bom e sou capaz de ver um “Rei do gado” porque está muito bem feito. Está muito bem feito e tem até conteúdo revolucionário, muito bem dado, assim como quem não quer a coisa. Até se mata um senador. Portanto, um programa que tenha conteúdo, que tenha texto, que tenha actores, que me interesse, eu vejo. Agora não perco o meu tempo a olhar para o ecrã com uma coisa que é negativa quando tenho um rádio que me dá pelo menos música. É por isso que eu continuo a ser uma mulher de rádio.
No final dos anos 60, em 68 existiram problemas em França com os estudantes. Como é que isso foi visto cá pela rádio?
Isto foi feito cá pela grande esperança. Pela grande esperança da oposição. Porque estávamos na altura da guerra de África. Portanto as coisas todas... Nós tínhamos passado a guerra de Espanha que havia sido um caminho onde se desenvolveram as experiências para a Segunda Grande Guerra. Isso aprendemos nós. Ficamos com a marca do fascismo italiano e do hitlerismo alemão, ficamos com a mocidade portuguesa que foi feita à semelhança das hostes do Hitler. Foram pessoas lá, de cá do governo, estudar a maneira de como é que se faziam as juventudes hitlerianas e depois vieram para cá e copiaram. Houve muita gente, muitas famílias que não quiseram que os seus filhos fossem. Por isso os miúdos foram castigados e depois a oposição quando viu o “S” de Salazar na fivela dos cintos, fizeram anedotas e dizia-se a propósito “Somos Socialistas Sem Salazar Saber”. Estas coisas, percebe, é que era. Fazer revolução com um sorriso é muita mais útil que à pancadaria.
O cinema, nesta altura dá um contributo à rádio. O Arthur Duarte e os outros. O desporto na rádio acaba por ser importante.
Nessa altura também se dizia que a nossa vida era desporto, Fátima e outra coisa ... agora não me lembro. O que se dizia Deus, Pátria e Família, numa vertente, também se dizia Desporto, Fátima e... Bem não sei, não me lembro já.
As reportagens de Fátima também marcaram a rádio nos anos 50. Dá-me a sensação que os anos 50 são marcados pelas reportagens de Fátima, pelo Desporto, e prova disso é o “Leão da Estrela” do Arthur Duarte. Aliás o cinema português teve essas particularidades. Quando a rádio começa a aparecer em Portugal o fenómeno é transposto para o cinema “O Pátio das Cantigas”, “A Menina da Rádio”, “O Leão da Estrela” e outros.
Havia muita gente apaixonada, tinham de ir, toda a gente tinha de cantar na rádio, como agora toda a gente quer ir para a “Chuva de Estrelas”. É a mesma coisa. O fenómeno é o mesmo.
A imagem que tenho da rádio, e pode ser uma imagem totalmente errada da minha parte, é de que a rádio até 1950 em muitos programas era feita com recurso a orquestra, coro e com o locutor a servir de ponte entre os elementos da programação.
Os programas directos. Só os programas directos. Na altura já existia a hipótese de se montar os programas. Os directos eram assim. Eu fiz muitos assim na Rádio Renascença.
Como é que a rádio noticiou alguns avanços da ciência e da medicina, como foi por exemplo a descoberta da vacina da poliomielite, o aparecimento da pílula contraceptiva, da descoberta da cortizona.
Da pílula nada. Não se podia falar nisso. Da vacina da poliomielite dava-se a notícia, quando muito entrevistava-se o cientista. São notícias, como agora dão as notícias da SIDA. Só que com a SIDA nós vamos saber mais, vamos saber onde estão as pessoas, vamos fazer as imagens. Ainda no outro dia vi uma coisa horrível. Na América para apanharem um homem com SIDA, lançaram um jacto de água para o conseguirem prender. Acho horrível. Essas imagens de TV, acho horríveis. Você repare uma coisa. A TV desde que começa até que acaba um noticiário é tudo mau. Você já tinha reparado nisso?
Mas repare. Tudo o que está a acontecer com a polícia, com a sociedade, tem significado. Tem o significado de desautorizar a polícia. Ora enfim, eu fui educada desde pequena, que quando tivesse um problema qualquer na rua me dirigisse a um polícia, porque o polícia era o homem que me defendia. Agora nós não podemos ter essa ideia.
Sra. D. Etelvina, muito obrigado pela sua ajuda.
Disponha sempre.

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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Revolução Lenta

Começa amanhã, até Domingo, a conferência anual da Sociedade para a Desaceleração do Tempo, em Wagrain, na Áustria. Oportunidade para, a partir do livro do jornalista Carl Honoré, levantarmos a ponta do véu sobre o movimento internacional em defesa da Lentidão.

Texto Dina Cristo

É um dos recursos mais democráticos: cada pessoa tem, por dia, exactamente o mesmo número de horas disponível para viver. Para alguns basta, para outros é demais e para muitos parece insuficiente. O tempo transformou-se numa espécie ora de recurso valioso a poupar o máximo e gastar o mínimo ora de inimigo a ser constantemente vencido. Tornámos, assim, a vida num campo de batalha, uma luta permanente para ganhar… tempo. Não o ter converteu-se numa das mais habituais queixas humanas e detê-lo um dos maiores sonhos.
Mas que fazemos quando o antevemos? Tratamos de o ocupar. Sobrecarregamos as nossas agendas, preenchemo-lo o mais que podemos. Um espaço vago deixou de ser motivo de satisfação para passar a ser mais causa de angústia.
Segundo Carl Honoré a nossa relação com o tempo alterou-se desde a industrialização, com os seus impulsos ao nível da urbanização e massificação - produção intensiva e padronizada, na qual a rapidez passou a ser sinónimo de maior quantidade de produtos fabricados, de mais vendas e, portanto, capital económico e lucros financeiros. O tempo acabou por ser encarado como um recurso produtivo: nasce então a ideia de que tempo é dinheiro e que para sermos materialmente mais ricos temos de nos… despachar.
A “cotação” do tempo subiu de tal forma que os operários passaram a ser pagos à hora e não de acordo com aquilo que realmente fabricavam. A pressão para se produzir mais em cada vez menos tempo não parou, dando pouca margem ao controlo de qualidade. A acção externa e reprodutiva ganhou ênfase. O tempo demorado, natural e pessoal, anterior à Revolução Industrial, como o artesão e a sua arte de produzir, manual, individual e lentamente, passou à resistência.
Com a chegada dos relógios públicos, o tempo padronizou-se e homogeneizou-se, passou a regular a vida colectiva, como fábricas e transportes, e os humanos a ser máquinas comandadas por outras máquinas, num grande sistema de produção quantitativa, intensiva e contínua. No século XX, com o automóvel, a televisão, o computador ou o telemóvel, a indução da velocidade foi ainda maior.
Depois da “era” da mitologia e teologia, a tecnologia tem-se apresentado ao olhar humano como um novo deus, ao qual umas vezes se teme e outras se preste culto e devoção e deposite a esperança na resolução dos problemas. Quando pensamos em todas as máquinas que a evolução tecnológica nos tem disponibilizado entendemos a sua idolatria: elas permitiram-nos fazer mais (depressa). Aumentaram o potencial das nossas actividades e deram-nos os meios técnicos para nos tornarmos (automaticamente) mais rápidos. A velocidade das nossas vidas aumentou e nós adaptámo-nos a um ritmo cada vez mais célere.
O tempo, outrora, natural, artificializou-se e passámos a obedecer ao, colectiva e publicamente, estipulado como o (mais) correcto. Simbolizado nos relógios de corda que deixámos de usar (e os quais dominávamos), deixámos de ter poder sobre o tempo para ser ele a determinar (toda) a nossa vida. Prescindimos de nos levantar quando acordamos, de comer quando temos fome, de dormir quando temos sono e passámos a fazê-lo quando… são horas ditadas pelos relógios-despertadores.
Velocificados
Hoje, em que o mundo se transformou num hipermercado permanente, o acréscimo de estímulos e a possibilidade de ocupar o espaço de tempo aumentou extraordinariamente. Com cada vez mais (compras) a fazer, nós corremos. Iniciámos uma corrida colectiva contra o tempo, como doença contagiante, e aceleramos de manhã à noite, no trabalho e em férias, na estrada e na vida íntima. Hoje em dia, afirma Carl Honoré, o mundo inteiro está doente do tempo; todos pertencemos ao mesmo culto da velocidade, fora de controlo. Tornámo-nos velocificados.
Passámos a ter vidas frenéticas dirigidas pelo relógio. Adaptámo-nos ao ritmo industrial, primeiro, hoje ao informacional, submetemo-nos à economia, desequilibrámos as horas dedicadas ao trabalho e à vida. O tempo passou a nosso Senhor, ao qual prestamos vassalagem, devoção e nos sujeitamos. Ser lento e/ou chegar atrasado tornou-se num crime/pecado ou motivo de crítica social, como reflectem as anedotas acerca dos alentejanos.
A nossa visão linear do tempo, como recurso finito, que parece “voar” de forma irrecuperável, também não ajuda. Os relógios, por seu lado, têm-se tornado cada vez mais precisos na medição dos minutos e (milésimos de) segundos e quanto mais o dividimos maior a consciência da sua passagem. Cresce então a obsessão por não o desperdiçar. Foi assim que nos tornámos neuróticos: passámos a acelerar por acelerar, muitas vezes por hábito, já sem saber porquê; apressar tornou-se um vício, um reflexo condicionado.
Falta de tempo?
Numa relação de amor/ódio, sonhamos com uma agenda livre, mas tememos e angustiamo-nos perante esse vagar. Ocupamos obsessivamente os tempos livres, de crianças e adultos, e não nos sobra tempo, mesmo para as coisas mais simples e relevantes, como a alimentação, a saúde, a família, os amigos, e menos ainda para as efectuarmos devagar. Enchemos as nossas agendas, reduzimos as férias, não admitimos ficar doentes, e, por vezes, só paramos em situações (muito) graves. Assumimos uma atitude do “sempre-em-frente-sem-parar-até-cair”.
À pressão tecnológica e social para estarmos permanentemente ligados junta-se uma ocupação permanente com compromissos sem fim, pelo que a disponibilidade é, na verdade, mais aparente, parcial e superficial do que efectiva. Ter todo o tempo do mundo para alguém ou alguma coisa, fazendo uma pausa para tudo o resto, desligando o telemóvel, por exemplo, é um “luxo” quando habitualmente dispersamos a nossa atenção por várias actividades, simultaneamente. A nossa capacidade de concentração parece cada vez menor. Sem ir ao fundo de cada coisa, desmotivamo-nos, porque mesmo todas juntas nos parecem insossas.
Deixámos de possuir tempo, passámos a ter pressa. A urgência deixou de ser extraordinária. A tendência para o imediatismo, em obter, fazer e/ou ter tudo já, passou a fazer parte das nossas exigências. Tornámo-nos intolerantes em relação a pessoas, locais e actividades lentas. Rebentamos de raiva quando algo ou alguém nos atrasa e nos rouba alguns segundos da nossa vida. Em vez de apreciarmos o caminho (o aqui e agora), optámos por uma vi(d)a rápida (de que as auto-estradas são um exemplo), obcecados em chegar ao fim da meta.
Intensificámos a vida e de tanto a concentrarmos, desgastámo-la, pré-enchemo-la, esvaziando-a de sentido. De tanto perseguir a satisfação, frustrámo-nos num ciclo de superficialidade que apenas conduz à sensação de carência, motivo da procura de mais (quantidade) que por sua vez gera a substituição permanente, a procura da última “novidade”, êxito ou conquista, sempre efémera e descartável. Procuramos acumular o máximo e entrámos num ciclo vicioso de - sensação de - falta de tempo: «O resultado é uma crescente disparidade entre o que queremos da vida e o que realisticamente podemos ter, que alimenta a sensação de nunca haver tempo suficiente”
[1], explica o jornalista.
Refúgio
Carregar no acelerador - seja o tecnológico, do carro, ou o biológico, das pernas – liberta adrenalina e produz uma excitação sensorial imediata, mas é mais do que isso. A velocidade é, ainda que por vezes inconsciente, uma estratégia de fuga à vida presente (como defende Milan Kundera) e futura – tentativa de esquecer a nossa condição mortal (como defende Mark Kingwell).
Uma forma de resistência, uma fuga e uma distracção: «A doença do tempo pode também ser um sintoma de um mal mais profundo e existencial. Nos estádios finais que antecedem a exaustão, as pessoas muitas vezes aceleram para evitar serem confrontadas com a sua infelicidade. Kundera pensa que a velocidade nos ajuda a bloquear o horror e a desolação do mundo moderno”[2].
Cada vez que aceleramos aumentamos a superficialidade da nossa vida. Podemos fazer mais coisas mas quantas vezes mal feitas (porqu)e só com o corpo, sem alma para as animar. À força de tanto querer ganhar tempo, acabamos por perdê-lo ao corrigir os erros que se cometem durante a rapidez (como a correcção de mensagens electrónicas), já para não falar nos acidentes (mesmo os de viação).
Pagámo-lo também com o desgaste da nossa saúde: entramos em stress, fadiga e exaustão. Se é verdade que a velocidade nos conduz mais rapidamente à excitação, também nos leva mais depressa à impaciência, ao aborrecimento. Já Gustav Mahler defendia que perante um público enfadado a melhor solução era… abrandar.
Slow is beautiful
Os Lentos, que resistiram ao longo do séc. XIX e XX, mas não desistiram nem deixaram de existir, reaparecem agora em grupos pró-slow. O despertar do turismo, com a procura do descanso, era já um sintoma, mais recentemente sublinhado com a corrente de lazer cuja “onda” se espalha.
Em vez de afazeres humanos ou teres humanos há cada vez mais pessoas no mundo que decidem arriscar assumirem-se como seres humanos. A “heresia” de desacelerar, descontrair, demorar e preguiçar estende-se desde a Europa à América, passando pela Austrália, Japão ou Polónia, e nas mais diversas áreas, da comida à sexualidade, do trabalho às cidades, da música ao desporto, da medicina ao lazer, da educação ao cinema, a marcha lenta engrossa e as atitudes lentas também.
A simplicidade voluntária (downshifting) é um exemplo entre inúmeros. Enquanto em Espanha há cadeias de sesta, em Portugal os seus amigos explicam as virtudes de uma soneca depois do almoço. A nível internacional demonstram-se os efeitos nocivos da velocidade e programas dedicados a passatempos, como a jardinagem, atingem audiências significativas, na BBC.
Os apóstolos Lentos não defendem que se faça tudo a passo de caracol (o que seria absurdo), mas a um ritmo mais razoável e apropriado, mais sensato, natural e à medida do Ser Humano – o eigenzeit: “(…) o que o movimento Slow oferece, é um meio termo, uma receita para casar a dolce vita com o dinamismo da era da informação. O segredo está no equilíbrio: em vez de fazer tudo mais depressa, faça-se tudo à velocidade certa. Por vezes, depressa. Outras vezes, lentamente. Outras, algures no meio”
[3].
Começou episodicamente em Itália, ao nível dos vagares culinários. Tem-se alastrado pelo mundo e pelas várias áreas da vida humana. Hoje os Lentos têm à sua disposição conferências, festivais e, sobretudo, a possibilidade de debater e experienciar viver (de)vagar e com vagar, uma alternativa saudável, natural e eficaz à vi(d)a rápida. Carl Honoré explica e exemplifica como é nas horas vagas que, mais relaxado e sensível, o Ser Humano atinge mais e melhor inovação e criatividade.
(Des)acelerar?
O movimento em prol da Lentidão defende a utilidade da calma (e a futilidade da pressa), a ideia de que menos é mais (e mais é menos), de que saber demorar, apreciar e prolongar o momento (e não fugir dele), saber esperar (em vez de se impacientar), ser capaz de, por vezes, não fazer nada, o que permite estar mais atento e conduzir à descoberta. Enquanto o abrandamento, vera segurança, permite, com a sua profundidade e consciência (como no caso das ondas cerebrais), uma evolução, libertação, relaxamento, qualidade de vida e felicidade, a aceleração, sinal de insegurança, leva, com a sua superficialidade e inconsciência, a uma repetição, prisão, tensão, quantidade e raiva, documenta o autor.
Os adeptos* de que o “slow é possível” propõem um modo de vida simples, criativo, extensivo e demorado. Para tal há que estabelecer prioridades e fazer uma escolha, optar por fazer menos coisas e, assim, libertar a agenda para as que, para cada um, têm mais valor e significado. Ter espaço para o tempo livre, para o descanso, a descontracção ou actividades relaxantes, como a leitura, pesca, jardinagem, caminhada, renda, meditação ou simplesmente estar à janela.
Os seus simpatizantes colocam a economia ao serviço das pessoas e do ambiente, em vez do contrário. Ao espírito lento está subjacente o ressurgimento da memória de um tempo cíclico. Para os hindus era infinito (Kâla), para os gregos era um deus, Chronos, para Asclépio era estável, pois tinha necessidade, para além do movimento, de voltar ao princípio.
Nós transformámos a quarta dimensão numa espécie de inimigo cujo combate é diário. Para a “doença do tempo” e a “orgia da aceleração”, os activistas pró-Lentos apresentam, no entanto, um remédio: desacelerar ou mesmo travar, se e quando necessário. Sem a pressão dos ponteiros do relógio, assumem o seu próprio ritmo e desfrutam dos prazeres que a lentidão oferece: “Cada prazer (…) é mais delicioso, mais um prazer, se for tomado em pequenos golpes, se dermos tempo”, afirma Amos Oz.
Trata-se, afinal, para os povos mediterrâneos, de nada mais do que a recuperação da sua identidade, no caso português bem patente em provérbios populares que expressam os perigos da pressa, como “depressa e bem há pouco quem”, “quanto mais depressa mais devagar”, e as virtudes da lentidão, como “devagar se vai ao longe”. Afinal, como afirma Uwe Kliemt “O mundo é um lugar mais rico quando damos espaço para velocidades diferentes”.

[0] HONORÉ, Carl – O movimento slow – A corrida contra o tempo afecta o trabalho, a saúde, as relações e o sexo. É possível desacelerar e recuperar a qualidade de vida?, Estrela Polar, 2006.
[1] Pág. 36. [2] HONORÉ, Carl – O movimento slow – A corrida contra o tempo afecta o trabalho, a saúde, as relações e o sexo. É possível desacelerar e recuperar a qualidade de vida?, Estrela Polar, 2006, pág. 38. [3] Idem, pág. 240
*Eis alguns dos livros citados pelo autor ao longo do texto: BEARD, George – Nervosismo americano (efeitos da velocidade). CLAXTON, Guy – Cérebro de lebre, mente de tartaruga – porque aumenta a inteligência quando se pensa menos. ELKIND, David – A criança apressada: crescer depressa demais cedo demais. KUNDERA, Milan – Slowness. 1996. LAFARGUE, Paul – O direito a ser preguiçoso. 1883. MACHLOWITZ, Marilyn – Viciados no trabalho (Workaholics). 1980. NADOLNY, Sten – A descoberta da lentidão. 1996. OIWA, Keibo – Lento é belo. OLERICH, Henry – Um mundo sem cidades nem campos (uma civilização em Marte onde o tempo era tão precioso que se tornara moeda). PASEK, Hirsch – Einstein nunca usou cartas flash: como aprendem realmente as nossas crianças e porque precisam elas de brincar mais e memorizar menos. ROBERTSON, Morgan – Futilidade. 1989. RIFKIN, Jeremy – Guerras do tempo. RUSSELL – Em defesa da ociosidade. 1935. SAMPSON – Tantra: a arte do sexo que expande a mente. SAVORY, George Washington – O inferno na terra transformado em paraíso: os segrdos matrimoniais de um empreiteiro de Chicago. STOCKHAM, Bunker – Sexo sagrado. STOCKHAM, Bunker – Toktologia. 1883. TALSMA, W. R. – O renascimento dos clássicos. Instruções para a desmecanização da música. WEHMEYER, Grete – Prestíssimo: a redescoberta da lentidão na música.

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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Batalha do Buçaco


A alguns dias dos 200 anos da última ofensiva no âmbito das invasões napoleónicas, revivemos o como e o porquê dos ataques franceses e das defesas anglo-portuguesas, vencedoras.

Texto Susana Nunes fotografia Dina Cristo

Em 1807, Napoleão é o grande senhor do continente europeu, após ter saído vencedor dos confrontos com as grandes potências continentais. A supremacia francesa parece solidamente instalada na Europa Ocidental, mas a construção é muito menos sólida do que aparenta: como todos os gigantes, Napoleão também tem o seu calcanhar de Aquiles.
Embora o imperador tenha conseguido impor a sua lei ao continente europeu, não venceu o seu adversário mais inabalável, a Inglaterra, que continua a dominar os mares sem quem lhe faça concorrência. Em 1806, Napoleão tinha optado por uma guerra económica, “ao exumar uma lei que proclamava: ‘A importação de mercadorias manufacturadas provenientes de fábricas ou de comércios ingleses é proibida, tanto por mar como por terra, em todo o alcance da República francesa’. De acordo com a visão do imperador, o campo de aplicação deste texto cobria a totalidade da Europa, incluindo os países não ocupados com os quais tivessem sido estabelecidos tratados (e em particular a Espanha)”1.
No entanto, para ser eficaz, era necessário que este dispositivo fosse globalmente aplicado, o que nunca chegará a acontecer, apesar de todos os meios que lhe serão consagrados. Portugal, que vivia exclusivamente do comércio britânico, não tinha em conta esta interdição, tal como a Espanha, que aplicava o bloqueio de forma muito ligeira. Portugal não podia, nem tinha qualquer vontade em aplicá-lo, pois colocaria em perigo a sua actividade económica. Para além disso, o país contava com o apoio generalizado da sua população, fundamentalmente em desacordo com as exigências francesas.
Dá-se então uma operação armada, pela conquista de Portugal. O que Napoleão não previa é que este movimento, “a seus olhos um simples passeio militar”2, teria resultados completamente opostos ao esperado. O general Junot, que parte em direcção à capital portuguesa, atinge o seu objectivo sem dificuldade e destrona a casa de Bragança. No entanto, este acto terá como consequência directa a intervenção de um corpo expedicionário inglês que eliminará os franceses de Lisboa e que, solidamente instalado neste país de difícil acesso, resistirá a duas voltas ofensivas cada vez mais potentes, sob Soult em 1809 e Masséna em 1810. Ambas terminar-se-ão lamentavelmente para o exército francês, a primeira no Porto e a segunda em Torres Vedras. “As forças portuguesas estavam pouco preparadas para agir em batalha, mas, animadas por um verdadeiro patriotismo, dedicavam-se sem descanso a tudo o que pudesse servir à sua instrução”3.
Um erro

Napoleão não abandonava a intenção de submeter Portugal e em Agosto de 1810 decide enviar mais de 60 mil homens comandados pelo marechal Masséna, apoiado pelo marechal Ney e o general Junot. Uma terceira campanha que durará até Março de 1811, sem alcançar o principal objectivo, a tomada de Lisboa.
Perante os movimentos das tropas francesas, Wellington, general inglês enviado para defender Portugal, decidiu-se finalmente a aceitar uma batalha na serra de Alcoba, actual Buçaco. Mas à sua maneira. Num terreno por si escolhido, particularmente favorável, reforçado por algumas obras defensivas, e onde estimava ter todas as hipóteses do seu lado para barrar a estrada aos franceses. Afirma-o num comunicado escrito na altura: "Ocupámos uma excelente posição, é bastante difícil atacar-se de frente e, se o inimigo esperar mais um ou dois dias, apenas poderá atacar por um único ponto vulnerável. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para o conter neste local. Se não o conseguir, tentarei novamente em Coimbra”4.
Esta zona, a pouca distância de Coimbra, é formada pelas gargantas do Mondego e montanhas pouco penetráveis. “Difícil de se fazer o reconhecimento, ela é eminentemente propícia à defensiva. Estas ‘montanhas malditas’, como lhes chamou um oficial britânico, são perpendiculares ao longo do Mondego, pouco elevadas (entre 200 e 400 metros) e, no entanto, de um acesso difícil pois são bastante íngremes e cobertas de urze. Fora da estrada de Coimbra, apenas raros atalhos abrem caminho, dos quais um, importante, que atravessa por detrás de toda a linha aliada. A norte, encontra-se o convento do Buçaco, rodeado de árvores que o escondem da vista dos franceses. De facto, apenas existem dois pontos a defender pelos anglo-portugueses: à esquerda inglesa a estrada do Buçaco que atravessa o convento, e à direita o caminho que parte de Santo António de Cântaro”5. Estes caminhos difíceis, cujos arredores eram impraticáveis, foram cortados e barricados e estavam defendidos por artilharia.
É neste terreno que o general inglês decidiu concentrar as suas forças para receber os franceses, esgotados de uma dezena de dias de um caminho bastante árduo: “a cavalaria e as divisões Hill e Leith atravessam o Mondego através da Ponte Murcelha e chegam pela estrada do Espinhal ao planalto do Buçaco no dia 26. Juntam-se a Wellington, que dispõe os 50 mil soldados (dos quais 27 mil ingleses) e as 40 peças de artilharia no planalto, a esquerda a cavalo sobre a estrada de Mortágua a Coimbra, a direita sobre a de Santo António de Cântaro. A cavalaria é disposta no campo entre Mortágua e o Mondego. Assim organizado, o inimigo [o exército anglo-português] é capaz de neutralizar a acção da cavalaria e da artilharia francesas. O cume da montanha ocupado tem uma largura inferior a 3 quilómetros”6. As tropas portuguesas podiam, assim, observar todos os movimentos dos franceses, que precisavam de mais de uma hora de um trajecto exposto ao fogo para chegar aos postos avançados.
Para os franceses, a decisão foi difícil. Alguns preferiam a ofensiva imediata. Outros defendiam uma mudança de posição. A esta proposta, que o futuro acabará por provar a melhor, Masséna responde que é impossível. O marechal Ney menciona a possibilidade de se atacar o Porto em vez de Lisboa e chega mesmo a propor o regresso a Almeida, para se esperar por reforços. “Seria efectivamente necessário atacar-se imediatamente, ou mudar-se de posição, como propunha o duque que Elchingen? O adversário, mesmo se não tinha ainda tomado as suas posições de combate definitivas, era largamente superior em número. Atacar sem esperar, seria lançar as divisões à medida que estas chegassem ao campo de batalha, em ordem dispersa, e, certamente, fazê-las combater isoladas. Mudar-se esta posição inatacável de frente para se apanhar o adversário pelas costas, ou levá-lo a separar-se, obrigaria a efectuar-se um deslocamento em presença do inimigo, manobra sempre delicada e perigosa. Masséna rejeita estas soluções, a primeira pois conduziria a uma derrota certa e sangrenta, a segunda porque tem a certeza de que é impossível, tal como Wellington.”7
A batalha
É assim iniciado o ataque armado. O assalto começa de manhã cedo, às apalpadelas num espesso nevoeiro. “Precedida pela brigada Foy e vários pelotões do 31º Ligeiro, a divisão Merle começa a subir a encosta em coluna apertada, abrindo caminho com dificuldade através da urze, sob fogo intenso. Os elementos avançados inimigos começam a recuar. Mas as colunas francesas perdem aos poucos a orientação e afastam-se do seu objectivo. A brigada Foy sai finalmente da bruma pelo caminho que conduz a Santo António e ataca a brigada portuguesa de Chaplemond. Dizimados pelas rajadas do 21º Foot, os franceses tentam reorganizar-se, mas o 74º regimento britânico e uma bateria aliada abrem igualmente o fogo e, após causarem enormes perdas aos franceses, obrigam-nos a parar”8.
Entretanto, a divisão francesa Merle chega por sua vez ao cume e organiza-se à esquerda de Chaplemond. Não existem unidades aliadas nesta parte da encosta, mas a reacção do general inglês Picton é rápida: reúne os fugitivos das unidades avançadas aliadas e, reforçado por regimentos de Leith, contra-ataca pela esquerda. As perdas são grandes do lado francês. Merle é atingido, tal como muitos dos seus oficiais, e é obrigado a retirar as suas tropas pelo flanco direito da montanha, perseguido pelos aliados, que algumas rajadas da artilharia de Masséna obrigam à retirada.
Apesar do fracasso deste primeiro assalto, Reynier persevera na sua tentativa e lança ao ataque os dois regimentos do general Foy conduzidos por Heudelet. Bastante desencorajados pela derrota da coluna de Merle, escalam a encosta num combate desigual contra a brigada Chaplemond. Leith, acudido por tropas frescas, ataca as tropas francesas. O general Foy é ferido e os seus homens, esgotados e dizimados, retiram-se rapidamente. É assim que termina a luta neste sector. A linha aliada não é alcançada.
À direita, o marechal Ney avança para Buçaco. Ordena ao general Loison um ataque em massa por brigadas. Os 12 batalhões de Loison avançam através da mata até à aldeia de Sula. Sobem uma encosta bastante íngreme até ao cume onde, escondidas, se encontram as 1800 baionetas dos 43º e 52º regimentos de infantaria. Convencidos de que apenas terão de enfrentar artilharia, os homens de Loison continuam a avançar. De repente, Crawford faz com que os soldados aliados saiam do seu esconderijo e enviem uma rajada a apenas 10 passos. As primeiras filas da formação francesa são totalmente destruídas. Mais de mil homens, oficiais e soldados, caem, e o resto recua na maior das confusões sem ter causado grandes perdas ao inimigo.
Todos os batalhões de Loison são dizimados, excepto um. Os aliados apenas têm de enfrentar este último, que se separou do corpo principal e aparece face aos regimentos de Coleman. Bastante inferiores em número relativamente ao seu adversário e desconcertados pela debandada dos seus camaradas, os soldados desta formação são facilmente despistados pelo 18º regimento português e retiram-se para Sula. À chegada, reúnem-se ao resto da divisão que se contenta em lutar contra a linha avançada de Crowford, pois Loison não se pode arriscar a lançar um novo ataque.
Ao mesmo tempo, o general Marchand avança em direcção ao convento por uma encosta mais suave que conduz à divisão de Spencer e faz um desvio pela esquerda para apoiar Loison. Rapidamente, se depara com uma grande linha da infantaria ligeira na mata ao sul de Sula e inicia um violento combate. Completamente desorganizados, os franceses conseguem no entanto lançar-se sobre esta formação e sair da mata, mas são recebidos por uma rajada de mosquetes da brigada Pack e, pouco a pouco, recuam até ao sopé das colinas com grandes perdas. Os regimentos de Maucune tentam por sua vez alcançar por um caminho que parte de Sula, mas o fogo das três baterias e o ferimento do seu líder fá-los hesitar. Ney abandona o ataque. Esta retirada marca o fim da batalha do Buçaco. Os anglo-portugueses perderam cerca de dois mil homens, os franceses 4 486, dos quais 275 oficiais.
A derrota francesa
O próprio Napoleão afirmava: “Uma máxima de guerra bem provada é não se fazer aquilo que o inimigo quer, pela simples razão de que ele o deseja: assim, devemos evitar o campo de batalha que ele reconheceu e estudou; é preciso ter-se ainda mais cuidado em evitar aquele que ele fortificou e onde ele se enclausurou. Uma consequência deste princípio é de nunca atacar a frente de uma posição que podemos obter em a rodeando”9. E os factos deram-lhe razão. A responsabilidade desta derrota foi em parte atribuída ao ataque frontal imediato, pois os franceses não souberam encontrar a passagem existente, que permitiria uma mudança de posição e atacar-se os anglo-portugueses em melhores condições, ou forçá-los à derrota sem combate.
Felizmente, para os franceses, como já tinha acontecido no Vimeiro, Wellington não se movimentou após esta vitória e não procurou tornar mais pesada a derrota de Masséna através de uma contra-ofensiva imediata. Contentou-se, como anteriormente, em permanecer numa prudente expectativa.
Após esta derrota, os franceses dirigem-se a Lisboa mas são obrigados a parar nas linhas de defesa de Torres Vedras, construídas no maior dos segredos para proteger a capital, pela iniciativa de Wellesley, na altura comandante-chefe do exército português. Os franceses acamparão perante estas linhas durante seis meses, onde viverão condições difíceis em consequência da “estratégia da terra queimada” de Wellington. Este tinha ordenado à população que escondesse ou queimasse todo o meio de subsistência, antes de partirem em busca de protecção, ou no interior das linhas ou em locais fora do alcance dos franceses. “Neste país deserto, os soldados de Masséna procuravam alimentar-se de qualquer forma, utilizando por vezes métodos pouco louváveis. A retirada, dirigida eficazmente pelo marechal Ney, traduziu-se igualmente por actos de violência ainda hoje na memória dos Portugueses”10.
O apagão
Portugal, um país com dimensões reduzidas e um governo fraco, representou, mais do que qualquer outro Estado da Europa, um obstáculo à vontade imperial, “que se sentia ainda mais invencível pela simplicidade aparente da neutralização [de Portugal]. Esta foi a grande e triste ilusão de Napoleão. A sua ignorância da geografia e da história de Portugal leva-o a projectos irrealistas, cujo falhanço era previsível"11.
Os meios mobilizados por Napoleão foram consideráveis, mas a designação do marechal Ney e do general Junot, sob comando do marechal Masséna, foram um erro: no ano precedente, Ney tinha recusado servir sob as ordens de um outro marechal, desestabilizando os planos da campanha do Tejo. Quanto a Junot, que tinha sido governador-geral de Portugal, considerava-se humilhado. Para além disso, as tropas francesas não estavam completamente preparadas: meios de transporte inexistentes ou insignificantes, desconhecimento dos itinerários, falta de informações, inexactidões na execução do plano de invasão… “Não sabíamos quase nada sobre as fortificações em Torres Vedras, que protegiam Lisboa, quando Masséna estava apenas a 6 posições da capital! Digo mais: se o príncipe de Essling [Masséna] falha militarmente em Buçaco, falha sobretudo perante a política sistemática da terra queimada imposta pelos ingleses às populações portuguesas sob pena de morte. O Imperador não tinha previsto dar aos seus exércitos meios de subsistência para um deserto”12.
As consequências destas três campanhas foram consideráveis para Portugal: “foi necessário voltar a meter-se os campos em cultura para se alimentar a população, reconstruir aldeias inteiras, reencontrar a sua autonomia, o que não era simples com a ingerência dos ingleses nos assuntos do Estado, na ausência dos monarcas pouco apressados em regressar à metrópole”13.
Imparável, Wellington, o futuro vencedor de Napoleão em Waterloo, apoiará a rebelião espanhola. E, no momento certo, saberá aproveitar-se de circunstâncias favoráveis para, após algumas tentativas infrutuosas, lançar uma grande ofensiva que criará uma segunda frente no sudoeste da França em 1814 e que apenas parará com a queda do Império.
É na Península Ibérica que desaparece o mito de invencibilidade das tropas napoleónicas. Após Baylen, Talavera, Vimeiro, Porto, Buçaco e Torres Vedras, nada será como antes: “a partir desta época, o próprio Imperador vai ver a sua estrela empalidecer, a mesma estrela que um dia mostrou ao cardinal Fesh em pleno dia e que afirmava ser o único a ver”14.

1 MOLIERES, Michel – Les expédtitions françaises en Portugal de 1807 à 1811, Editions Publibook, 2007. 2 Ibidem. 3 La Compagne de Portugal en 1810 et 1811. Éditeur A. Eymery, 1814. MOLIERES, Michel - Les expédtitions françaises en Portugal de 1807 à 1811, Editions Publibook, 2007. 4 Idem. 5 Idem. 6 Idem. 7 Idem. 8 Idem. 9 Idem 10 CAILLAUX DE ALMEIDA, Tereza – La mémoire dês campagnes napoléoniennes au Portugal (1807-1811). Au croisement dês sources orales, écrites et iconographiques, Actes du colloque interdisciplinaire: Nouvelles perspectives de la recherche française sur l aculture portugaise (5-6 février 2007). 11 Napoléon et le Portugal, Conferência pronunciada por Nicole Gotterri a 6 de Abril de 2002 no Institut Napoléon (Paris, La Sorbonne). 12 Idem. 13 Idem. 14 MOLIERES, Michel - Les expédtitions françaises en Portugal de 1807 à 1811, Editions Publibook, 2007
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