quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Educação lenta


Um novo ano lectivo bate à porta. Como uma corrida para ver quem chega ao pódio, a ordem é “mais informação e cada vez mais depressa”. Quase todos aceleram, à pressa e sob pressão, excepto os que - lentamente - desafiam o sistema. Talvez tenham tido tempo suficiente para recordar que os últimos… são os primeiros.

Texto e desenho* Dina Cristo

Obcecado por exames e objectivos, com horários sobrecarregados, o estudante do séc. XXI tornou-se um discípulo apressado. Num contexto de educação intensa e abreviada, de luta para cumprir os programas, acelerados, a pressão, como para cumprir prazos e ser cada vez mais rápido, é constante. O estilo, de disciplina marcial, competição desenfreada e atmosfera sufocante, é de “treina e mata” e “estudar-até-cair”, observava Carl Honoré no seu livro “Movimento slow”.

O jornalista canadiano notou, contudo, que as crianças aprendem melhor quando o ritmo é mais lento e que um ambiente mais descontraído favorece o desenvolvimento de uma personalidade mais completa. Cita exemplos como a academia japonesa Macieira, fundada em 1988, em que os alunos vêm e vão, estudam o que e quando querem. Uma investigação que desenvolveu no seu livro mais recente “Sob pressão: como salvar as crianças da cultura dos hiper-pais”.

Na vontade de empurrar os seus filhos, os pais super-estimulam-nos. Os tempos livres… são ocupados em actividades extra-curriculares. Harry Lewis, ouvido pelo autor, nota: «O tempo livre não é um vácuo que se tenha de preencher (…). É aquilo que permite que outras coisas no vosso cérebro sejam recordadas de forma criativa (…)». Por isso, defende, há que limitar as actividades e reservar algum tempo para o lazer, divertimento, descontracção, solidão e imaginação.

É o reflexo do medo de ficar para trás, num mundo “turbo-alimentado”. A escola é vista como um campo de batalha em que o que interessa é ser o primeiro, o melhor. A hiperpaternidade, na vontade compulsiva de aperfeiçoar os filhos, agarra-se ao resultado dos exames e empurra-os tanto que os deixa exaustos; há crianças a dormir insuficientemente e a sofrer de stress. Maurice Holt, escutado por Carl Honoré, lembra que «(..) atulhar as crianças de informação o mais depressa possível é tão alimentício como devorar um Big Mac”(1).

Além do mais, a especialização desde tenra idade pode causar danos. José Luís Maio deu grande relevância à educação no ensaio “A Ciência da Polis”, nomeadamente à maximização da pluralidade de informação, com campos pedagógicos, integrados na Natureza e na comunidade. O autor destacou a importância de, até aos três anos, a criança estar próximo da mãe, cuja vitalidade o nutre, de entre os três a seis anos, brincar e jogar naturalmente e depois dos seis atender às necessidades do corpo, pela ginástica, e da alma, através da música.

Educação lenta

No sistema finlandês e sueco, por exemplo, o jardim-de-infância devolve aos pequenos o tempo para brincarem e a liberdade de serem crianças. Pais e professores estão mais motivados para que adquiram auto-estima e auto-confiança. Mais tarde, na fase de aprendizagem verbal, o entusiasmo e dedicação multiplicam-se. Já Omraam Aivanhov lembrava a importância da preparação para a aprendizagem para que o discípulo possa apreciar e aplicar o que é ensinado (2).

Há quase dez anos Maurice Holt publicou um manifesto pela “Escolaridade lenta” – a defesa do alívio da carga de actividades e de um ritmo mais adequado à velocidade de cada um; a importância de um espaço-tempo para a procura e compreensão do conhecimento por si próprio. Ninguém consegue ensinar aquilo que só se pode aprender, referia há décadas Khalil Gibran. Talvez por isso, os autodidactas ao longo da história não têm deixado que a escola atrapalhe os seus estudos.

Em Ridgewood, New Jersey, realiza-se em Março o “Preparar, estão prontos, relaxar!”, um dia em que não são marcados trabalhos para casa e são cancelados treinos, explicações e reuniões: “Os pais tratam de virem para casa mais cedo, a tempo de jantarem com os filhos e passarem algum tempo com eles à noite”(3).

Em Portugal, a Escola da Ponte, em Vila das Aves (Santo Tirso), inserida no sistema de ensino público vem, desde há décadas, ensaiando um novo modelo de educação mais motivante, participativo e democrático. Espelho da atenção a uma educação mais extensiva, informal, descentralizada e, ao mesmo tempo, livre e profunda.

Esta tendência para desacelerar e procurar um ritmo mais suave, mais natural, reflecte-se no interesse pelo ensino doméstico, em que Roland Meigham é perito. Na América há mais de um milhão de jovens que estão a ser ensinados em casa. São educados numa determinada tradição, têm mais protecção e mais liberdade de escolher os seus próprios horários; a aprendizagem torna-se mais produtiva e equilibrada, combinando curiosidade, criatividade e imaginação, além de que sobra mais tempo livre para o divertimento.

Carl Honoré tem mostrado a futilidade e os perigos de uma aceleração constante. «O segredo está no equilíbrio: em vez de fazer tudo mais depressa, faça-se tudo à velocidade certa. Por vezes, depressa. Outras vezes, lentamente. Outras, algures no meio»(4). Abrandar e escolher o ritmo que o faz mais feliz, usar o tempo de forma mais sensata, traz benefícios. Apreciar a vida, fazer as coisas como deve ser, com significado e prazer, eis a proposta do movimento slow aplicado à educação.

Uma educação mais lenta, livre, corajosa e humana que tenta satisfazer o amargo de boca de um modelo institucional, imposto e rápido, sob pressão para ser o melhor, e superar o vírus da pressa que, num sistema industrial, tem contagiado alunos, pais e professores, velocificados numa espécie de regime militar, esgotante.

• Anos 70

(1) HONORÉ, Carl – O movimento slow – A corrida contra o tempo afecta o trabalho, a saúde, as relações e o sexo. É possível desacelerar e recuperar a qualidade de vida?, Estrela Polar, 2006, p.224.(2) Caso contrário «(…) só irá entrar em choque com ele, ver-se-á em toda a espécie de contradições e continuará tão fraco e ignorante como antes». AIVANHOV, Omraam -pensamentos quotidianos, Edições Prosveta,2010: 22/7/2011. (3) HONORÉ, Carl – O movimento slow – A corrida contra o tempo afecta o trabalho, a saúde, as relações e o sexo. É possível desacelerar e recuperar a qualidade de vida?, Estrela Polar, 2006, p.233. (4) Idem, p.240.

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quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Educação Moral



Começa na próxima semana a 30ª campanha de Natal dos cerca de 500 alunos da disciplina de Educação Moral Religiosa Católica (EMRC) da Escola Secundária de Peniche (ESP). Oportunidade para conhecermos, através do seu fundador, as actividades que preenchem, ao longo de todo o ano lectivo, estas aulas que, sendo opcionais, têm inscritos cerca de 80% dos estudantes daquele estabelecimento de ensino.


Texto Francisco Domingos fotografia Dina Cristo

Em conjunto com os alunos sonhámos, partilhámos, ousámos. Nasceram coisas bonitas. Muito bonitas.

Campanhas de Natal – a favor dos mais desfavorecidos e desprotegidos, dos mais pobres e dos mais doentes, da família da rua, ali ao lado, ou do povo lá longe em Timor-Leste, Moçambique ou Guiné/Bissau.

Foram "Coração em Moçambique", "Peniche no Coração", "Voa mais Alto", "Mil cartas por Timor" e, mais recentemente, a emblemática "Uma Escola no Coração", em que três escolas de Peniche – Escola Básica dos 1º, 2º e 3º ciclos, Escola Básica dos 2º e 3º ciclos D. Luís de Ataíde e Escola Secundária – se uniram para construir uma escola em Bajob, na Guiné-Bissau.

Festas de Natal – desde sempre ligadas à campanha de Natal, cujo ponto mais alto acontece no momento em que os alunos representantes de cada turma colocam no palco, aos pés do Menino Jesus, o fruto da campanha de suas turmas. São momentos únicos, vibrantes, fascinantes.

Festa Anual – 1 de Maio – Começou por ser, ainda na década de 80, uma simples festa dos alunos do 12º ano, finalistas na disciplina de Moral. Hoje é muito mais que isso. Com efeito, finalistas e demais alunos, professores, funcionários, pais, encarregados de educação e antigos alunos, associam-se à volta do altar da eucaristia em gesto e jeito de acção de graças. Nesta festa destaca-se a presença fidelíssima de um grupo muito especial: os nossos dedicadíssimos antigos alunos da disciplina de Educação Moral. São fantásticos, sublimes. Estão felizes e orgulhosos por um dia terem sido alunos de "R.M." (Religião e Moral) da Escola Secundária de Peniche. Uns vêm de longe de suas universidades, outros da aldeia aqui perto. Aqueles trazem seus filhos, ainda de colo, estes, são já os pais dos alunos ali ao lado, agora finalistas. É um ambiente maravilhoso. 'Um encanto para os olhos e para o coração'. Uma festa fantástica, seguramente uma das maiores e mais bonitas da cidade de Peniche.

Visitas de estudo – No sentido de evitarmos um número excessivo de saídas (há que haver bom senso e equilíbrio) somos fidelíssimos apenas a duas visitas – "visitas de amor" – como lhe chamamos: Doentes Profundos em Fátima e Reclusos do Estabelecimento Prisional de Caldas da Rainha.

Intercâmbios de Escolas – Desde há alguns anos que mantemos um intercâmbio muito interessante e sobretudo muito original: Uma escola secundária – Peniche – e uma escola do ensino básico, 2º e 3º ciclos – Josefa de Óbidos. Duas escolas que, pesem embora as suas naturais e múltiplas diferenças, são, como alguém um dia escreveu, "instituições, que, com seus alunos, professores e funcionários, constituem um raro exemplo de uma relação verdadeiramente notável". E tudo isto, sob os auspícios da disciplina de EMRC, o que é, sublinhe-se, uma coisa verdadeiramente extraordinária.

Aos professores do ensino secundário que queiram uma actividade verdadeiramente radical sugerimos uma… peregrinação. Isso mesmo: uma peregrinação a Fátima a pé. É uma experiência absolutamente única. Trata-se de um acontecimento notável que irá decididamente marcar, (leia-se revolucionar) a vida do adolescente.

Uma aventura? Sim, é possível, mas apenas nos primeiros quilómetros. Depois surgem as primeiras dificuldades, as primeiras bolhas. Começa então a caminhada interior. A verdadeira caminhada. As marcas, são agora mais profundas e não se eliminam com uma simples agulha ou massagem. É que as "bolhas do coração", também deixam marcas, desta vez, para toda a vida.

Mais de duas dezenas de peregrinações, mais de um milhar de alunos conduzidos até junto de Maria, dão-nos toda a segurança para saber do que estamos a falar.

O lema que escolhemos para a última peregrinação que realizamos, a 21ª, ajuda-nos a perceber claramente tudo isto: "Fátima a Pé é um milagre de Fé".

São cem quilómetros ao encontro da nossa Padroeira. Nossa Senhora de Fátima, por sugestão dos alunos, é desde 1999, a Padroeira do Alunos e Antigos Alunos de E.M.R.C. da nossa escola.

Fechamos este capítulo com uma sugestiva frase de um nosso antigo aluno, hoje professor de Moral na Escola Josefa de Óbidos: "Fátima a Pé é a rainha das actividades da disciplina de Moral da Escola Secundária de Peniche".

Deixando agora de lado o campo dos actividades, vamos agora deter-nos, um pouco, sobre alguns elementos que fazem parte de um precioso legado que a disciplina tem cultivado ao longo dos anos e que se têm revelado de fundamentais na construção de uma mística e de um espírito muito próprios do aluno de Moral deste estabelecimento de ensino.

O nosso hino. De facto, temos um hino. Um hino que se torna resposta ao chamamento do "Senhor das margens do lago". É cantado e respeitado religiosamente por todos. Para evitar a sua banalização cantamo-lo apenas em momentos muito especiais: na Eucaristia de nossa Festa Anual e na Peregrinação a Fátima a pé, à chegada ao Santuário. São dois momentos fantásticos.

O nosso lema: "Deixa por onde fores caminhando brilhante sinal da tua bondade". Da autoria de uma turma de finalistas do 12º ano, o lema desde há muito, foi consagrado como a magna carta do aluno de Moral da Secundária. E, por oportuníssima sugestão do Sr. Presidente do Conselho Executivo, encontra-se gravado num quadro de rara beleza, estrategicamente colocado, junto à porta de entrada, no exterior da sala de Moral. Trata-se de uma referência notável e decisiva na construção da nossa mística e da nossa identidade.

Intencionalmente deixámos para o fim o elemento mais emblemático de todo o nosso património: "O livro d´Ouro"! Guardião sagrado da nossa História e da nossa Memória. Ali podemos recordar os primeiros passos… os primeiros alunos… As primeiras histórias… A nossa vida. Toda a nossa vida. Um tesouro de recordações e de emoções.

O 1º volume, 1976-1982, encontra-se "religiosamente" emoldurado e colocado em espaço nobre na nossa sala de aula. "Olha o meu pai", ou "olha a minha mãe" ou ainda "o meu irmão também está no Livro d´Ouro". Estas sã algumas das expressões de espanto e de emoção, por cada vez que, no início de cada ano, abrimos o Livro d`Ouro e o apresentamos aos novos alunos do 10º ano.

A mensagem foi lançada. Todos percebem. O desafio é unanimemente aceite. Com entusiasmo, com emoção, e, porque não dizê-lo, com uma ponta de orgulho até. A eles, novos alunos, compete dar continuidade à nossa história.

Estamos certos de que outras histórias fantásticas, outras páginas igualmente belas, outros sonhos, outros projectos irão com certeza surgir. Naturalmente com novos protagonistas, é claro, porém, os mesmos autores de sempre: os Alunos da Disciplina de EMRC da ESP. Uns e outros com um coração do tamanho do mundo.

De referir que estamos a elaborar o 6º volume de “O Livro d´Ouro, que deverá ser oficialmente apresentado na próxima Festa dos Alunos de Moral, dia 1 de Maio. Nele poderemos recordar, entre outras actividades, Campanhas e Festas de Natal, Festa Anual 1 de Maio, Peregrinações a Fátima a pé, Visitas de Amor, Página de Sonho (estudantes que contraíram matrimónio, um e outro alunos de moral), alunos a quem Deus já chamou…

Parece-nos agora igualmente importante referir um outro elemento e pelo qual nos batemos durante anos. Trata-se da nossa Sala de Moral. Não a consideramos um privilégio alcançado, pese embora a clara falta de espaços na escola, antes, uma evidente necessidade, face ao volume e à natureza de alguns projectos a reclamarem um espaço próprio, devidamente adequado e equipado.

Esta tratou-se de uma conquista fundamental para a Disciplina. Equipada quase na sua totalidade pelo esforço financeiro e outros dos nossos alunos, é hoje considerada a melhor sala de aula da nossa escola.

Finalmente, e se nos é permitido, gostaríamos de dedicar este trabalho aos professores de EMRC que um dia passaram pela Escola Secundária de Peniche. Bem hajam, estimados colegas, por tudo quanto nos deixaram.
Gostaríamos também de o dedicar aos nossos queridos alunos de quem tanto gostamos e amamos. Bem hajam, por tudo, tudo, quanto de vós recebemos. Para nós, são os melhores alunos do mundo.

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quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Arte na Educação

A Arte é um dos principais meios de desenvolvimento pessoal, social e de sucesso educativo. Nas Caldas da Rainha, o conceito é levado à prática, desde há vários anos, com assinalável êxito no desenvolvimento integral dos alunos.

Texto e fotografia Cristina Lourenço


A educação pela arte coloca relevância no desenvolvimento harmonioso da personalidade, através de actividades de expressão artística. Este conceito introduz no sistema educativo a imaginação, a espontaneidade e a dimensão da sensibilidade. É também encarada como um processo globalizante, no sentido do desenvolvimento integral do ser humano.
O papel da arte na educação aparece generalizado no século XX, quando é reconhecido, por diversos autores, como uma actividade natural do Homem e igualmente como meio enriquecedor das suas capacidades comunicativas, expressivas, afectivas, criativas e cognitivas.
Durante a minha própria investigação científica, pude, além de comprovar os resultados do estudo da psicologia infantil, pedagogia e arte, verificar o contributo da integração das artes para o sucesso educativo. Procurei implementar estas aprendizagens na minha prática pedagógica, através da criação de uma disciplina de opção para o 3ºciclo, designada de Artes Performativas.

Criada há cerca de seis anos, na Escola Básica Integrada 123, em Caldas da Rainha, ali é cultivada a liberdade de ideias, prazer, cooperação, aceitação do outro, auto-estima, valorização pessoal e do grupo. Trata-se de um espaço onde podemos expor ideias e sentimentos, valorizando-se o contributo de todos, através da palavra, do texto, do corpo ou da mímica. O trabalho final, “happening” ou espectáculo, construído ao longo de muitas aulas, vai sendo apresentado ao público e comunidade escolar ao longo do ano.

No ano lectivo 2006/2007 foi desenvolvido um projecto designado T0, onde se procurou estabelecer parcerias com outras entidades, nomeadamente o centro de juventude, que nos proporcionou espaço (palco), apoio técnico de som e luz. Os alunos começaram por imaginar um espaço - cubo virtual de 2x2x2 metros - que deveria ser ocupado por um personagem.
Durante as aulas foram exploradas as noções de espaço, através da expressão corporal e de textos escritos. Um sobre a ideia de casa, descrevendo além do espaço físico, objectos, sentimentos, cheiros, sons, cores, e outro sobre o personagem para a habitar, com a caracterização física e psicológica e a sua história. No final, estabeleceram-se ligações entre os diferentes espaços T0 e os personagens, criando-se uma história dentro de muitas histórias.

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