quarta-feira, 17 de junho de 2009

"O Figueirense" faz 90 anos


Quase um ano depois de publicarmos um levantamento, realizado há cinco, das três primeiras fases de “O Figueirense” (1863-1919), concluíamo-lo agora que se comemoram 90 anos da última série deste jornal da Figueira da Foz.

Texto Luís Manuel Martins*

O primeiro número da quarta série do jornal “O Figueirense” publicou-se em 19 de Junho de 1919. Os seus fundadores foram o Dr. José Maria Cardoso, antigo advogado na Figueira da Foz, e José da Silva Fonseca, que assumiram os cargos de directores, juntamente com Joaquim Gomes de Almeida, o editor. Foi composto na Tipografia Peninsular de J. Gomes de Almeida e impresso na Tipografia Popular de Manuel Jorge Cruz, entre o período inaugural desta última série e o mês de Janeiro de 1920. A partir desta data passaria a ser publicado em exclusivo pela Tipografia Peninsular.
O jornal “O Figueirense”, que adoptara um formato in-fólio, com quatro páginas de seis colunas cada, manteve a sua periodicidade semanal até ao número 40, de 18 de Março de 1920. A partir do número 41 passou a ser bi-semanário, publicando-se às quintas-feiras e domingos e mantendo as mesmas características. Porém, chegaram a ser publicadas algumas edições de duas páginas apenas, devido à carestia do papel de impressão.
A ideologia dos seus fundadores era de tendência republicana. Por sua influência o jornal seguiu a nova orientação política, subjacente à fusão do Partido Evolucionista, chefiado pelo ex-presidente da República, Dr. António José de Almeida, com a União Republicana, que viria a dar origem ao Partido Liberal. Uma vez fundidos os Liberais com os Reconstituintes, o jornal foi acompanhando o Partido Nacionalista, no flanco direito da política republicana.
Em 25 de Março de 1920, “O Figueirense” passa a ter um novo proprietário e editor – o Dr. José Cardoso. Na véspera do São João desse ano, dia 23 de Junho, foi impresso uma edição especial do Jornal com seis páginas, o número 67, de carácter noticioso e literário, que foi ilustrado por António Piedade.
O dia 3 de Fevereiro de 1921 marcou a chegada de um novo director ao jornal “O Figueirense” – o Dr. Pedro António de Almeida, notário na Freguesia do Paião (Figueira da Foz) e o regresso de Joaquim Gomes de Almeida, desta vez aos cargos de redactor e administrador. O Dr. José Maria Cardoso mantinha-se como proprietário, embora deixasse de ter influência na sua linha editorial e deixando o cargo, em 23 de Fevereiro de 1922. Desta forma, Joaquim Gomes de Almeida, concentrou em si os cargos de proprietário, redactor e administrador deste periódico, ao passo que o Dr. Pedro António de Almeida, continuaria a assumir a direcção deste periódico figueirense.
O Dr. Pedro António de Almeida viria a abandonar a direcção do jornal em 1 de Fevereiro de 1923, quando já se havia publicado o número 314. Joaquim Gomes de Almeida reunira agora todos os cargos do jornal.
Ao longo dos anos de publicação, dando continuidade à ideologia patente no espírito de fundação desta quarta série, o jornal “O Figueirense” mostrou nas suas páginas os retratos de figuras proeminentes da vida política nacional, apoiantes da causa republicana, tais como Guerra Junqueiro, António José de Almeida, Canavarro de Valadares, José Cardoso, Raimundo Esteves, Manuel Teixeira Gomes, Ginestal Machado e Francisco Martins Cardoso, entre outros.
No período histórico que decorre entre o ano de 1919, aquando da fundação da quarta série, e o ano de 1926, no que é possível observar no livro "Jornalismo Figueirense", de Cardoso Martha, o jornal “O Figueirense” teve ao seu serviço alguns dos melhores colaboradores figueirenses. Dando alguns exemplos, dentro das várias áreas, temos D. Amélia Brás, D. Maria Feio, Raimundo Esteves, Ernesto Tomé, António Ruas, Tenente Fernandes de Carvalho, José Brandão, que publicou uma admirável bibliografia portuguesa da I Grande Guerra Mundial, Mário Reis, Edmundo Santos, Cardoso Sant’Iago, Luiz Carrisso, Santos Júnior, António Amargo, Canavarro de Valadares, Alberto Borges, Artur Bivar, Nicolau da Fonseca, João Gaspar Simões, Francisco Martins Cardoso, Joaquim Leite, o próprio Cardoso Martha, autor da obra citada, entre muitos outros. O colaborador artístico permanente era António Piedade.
Os cortes da censura A partir de 1926, com a instauração da Ditadura Militar, a partir da Revolução triunfante do Marechal Gomes da Costa, no 28 de Maio, verifica-se um recuo da liberdade de imprensa, que se reflecte em todos os periódicos nacionais e regionais. O jornal “O Figueirense” não foi excepção e, pelo que foi possível apurar junto do que viria a ser o futuro director, Aníbal Correia de Matos, a vida deste jornal não foi fácil. Houve números que nunca chegaram a sair, por falta de conteúdo relevante, já que eram completamente truncados pelas comissões de censura. A estratégia passava então por adoptar notícias de âmbito nacional, de feição ao regime político vigente, fazendo o paralelismo para a realidade local. Aí residiu o segredo de o jornal ter escapado muitas vezes à mão atroz dos censores. Temos como exemplo a elaboração de um suplemento ao número 657 do jornal dedicado à Revolução Militar de Gomes da Costa de 28 de Maio de 1926 e datado de 1 de Junho de 1926, ou o artigo de primeira página do dia 1 de Junho de 1940, do número 2076, com o título “A Festa de Portugal”, dedicado às comemorações dos Centenários, que pressupunha um ambiente de grande entusiasmo, em todo o país.
A censura atravessou transversalmente a Ditadura Militar desencadeada por Gomes da Costa (1926-1933), o «Estado Novo» e a IIª República Corporativa, legitimados pela Constituição de 1933, pelo que se pode falar claramente de 48 anos de repressão à imprensa, que só terminaram com o a Revolução do 25 de Abril de 1974. A liberdade estava ganha!
A caminho das Bodas de Ouro Na época balnear de 1936, o jornal “O Figueirense” tomou temporariamente o nome de Diário da Praia, o segundo deste nome, já que no ano anterior tinha existido um jornal com esta mesma designação, com orientação editorial diferente. Manteve-se com estes dois títulos e em formato pequeno a partir de 28 de Agosto de 1936, entre os seus números 1731 e 1768.
Em 19 de Dezembro de 1950, devido à morte de Joaquim Gomes de Almeida, quem ocupou o cargo de direcção, interinamente, foi Aníbal Correia de Matos. Viria a ser substituído pelo Dr. Alberto Borges, até ao número 3302, de 4 de Fevereiro de 1961. No número seguinte, o 3303, Aníbal Correia de Matos regressa definitivamente como director.
Em 1969, na comemoração dos 50 anos da quarta série, o jornal “O Figueirense” tem o prazer de noticiar a atribuição da Medalha de Mérito de Ouro da Cidade da Figueira da Foz, na sua edição de sábado, dia 19 de Julho de 1969 (edição número 3739), num artigo de primeira página, que diz: “A Câmara Municipal deliberou atribuir a Medalha de Mérito de Ouro e dar o nome deste jornal à antiga Rua do Curro.”
[1]
À data do seu quinquagésimo aniversário o jornal era propriedade de Matos & Irmão. A redacção, administração e oficinas funcionavam no número 212 da Rua da República, que hoje continua a ter esse nome e se estende desde a Estação de Caminhos de Ferro, até à Praça 8 de Maio e à zona adjacente da antiga doca.
Em 15 de Maio de 1981, no seu número 4296, o jornal anuncia uma interrupção temporária, vindo a aparecer posteriormente de forma interpolada, com o número 4297 em 20 de Janeiro de 1982 e com o número 4298 de 15 de Dezembro de 1982. “O Figueirense” vai retomar a sua publicação regular, a partir do número 4299, em 8 de Julho de 1983, até aos dias de hoje.

Um passo para o futuro

Em 1988 o jornal “O Figueirense” é adquirido pela Sociedade Figueira Praia S.A.. O grande dinamizador desta aquisição é Fernando Alves do Vale. A empresa Ralma Lda, (da qual fazia antes parte também o Dr. António Ramos), essa, continuou com a mesma designação.
Aníbal Correia de Matos continua por algum tempo a dirigir o jornal, sendo nomeado para director-adjunto o Dr. Jorge Babo, professor da Escola Secundária Bernardino Machado. Jorge Babo viria depois a abandonar o cargo. Ainda em 1988 surge então uma nova equipa: o Dr. Carlos Albarino Maia é convidado para director, em simultâneo com António Jorge Lé (chefe de redacção) e Jorge Reis (editor desportivo). Para gerente executivo é nomeado Jorge Galamba Marques.
Em 1990 o Grupo Amorim chega à Figueira da Foz, ao adquirir as participações da Sociedade Figueira Praia. No entanto, o Grupo Amorim acarinha a existência do jornal “O Figueirense” e, mais tarde, em 2002, cria a empresa Fozcom – Produção e Comunicação Multimédia, S.A., que sucede desta forma à Ralma Lda..
As antigas instalações do Jornal funcionavam na Rua de “O Figueirense”, uma perpendicular à Praça General Freire de Andrade (Praça Velha), tendo-se mudado para a Praça 8 de Maio (Praça Nova), em 1 de Abril de 2001, onde está em modernas instalações.
Durante os últimos anos foram colocados inúmeros desafios ao jornal “O Figueirense”, que passaram pela renovação do aspecto gráfico e pela criação de uma edição on-line actualizada permanentemente, projectos estes que pretendem captar novos públicos e assegurar o contacto permanente com os figueirenses que estão no estrangeiro ou não têm acesso directo à edição escrita deste jornal semanário.
O projecto de design gráfico foi elaborado por Pedro Pessoa, da empresa Pandemia, enquanto que a edição on-line é gerida pela empresa Octágono – Comunicação Digital, Lda..
O actual director do jornal, António Jorge Lé, foi o principal impulsionador de todas estas transformações que considera essenciais para a actualidade. O lema é apostar na modernidade, respeitando a linha editorial existente – servir a Figueira da Foz. O administrador executivo é João Leal Barreto e o director Comercial Ângelo Bragança Coelho.
Houve também uma preocupação em preservar a memória colectiva do jornal ao longo dos seus quase 85 anos de história. A imagem do fundador da quarta série do jornal foi perpetuada em fotografia e à redacção foi atribuído, simbolicamente, o nome de Aníbal Correia de Matos, o jornalista mais antigo da cidade da Figueira da Foz. Foi para esse efeito descerrada uma placa, ainda nas antigas instalações, por iniciativa do actual director em 12 de Junho de 2000. Este acto foi realizado em virtude de Aníbal de Matos, à data, escrever assiduamente, desde 1926. Nas instalações do jornal “O Figueirense” estão presentes igualmente fotografias de Albarino Maia e Jorge Reis, já falecidos, e documentação preciosa para o estudo do jornal, como sejam exemplares antigos e gravuras.
Hoje
“O Figueirense” é actualmente um jornal semanário que sai à sexta-feira. Tem um formato fixo de 32 páginas, com vários planos a cor, alternados com planos a preto e branco. A rotina produtiva do jornal realiza-se nas suas instalações, onde é efectuada a paginação e a maqueta final, que de seguida é enviada através de uma linha telefónica dedicada da Figueira da Foz para as instalações da Mirandela – Artes Gráficas, S.A., em Lisboa, onde é feita a impressão e o acabamento das edições. Uma vez concluído este processo, as encomendas com os jornais impressos são remetidas directamente para os assinantes, por via postal. A tiragem média mensal ronda os 18 mil exemplares.
A assinatura anual tem o custo de 15 euros. Existem muitos assinantes quer em Portugal, na cidade da Figueira da Foz e na região de Coimbra, quer no estrangeiro, especialmente em Espanha e nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.
A nível institucional, o jornal “O Figueirense” está inscrito no Instituto da Comunicação Social com o número 100543 e é membro da Associação Portuguesa da Imprensa (AIND), da Associação Portuguesa da Imprensa Regional (APIR) e da União Portuguesa da Imprensa Regional (UNIR).
O jornal “O Figueirense” conta, ao longo da sua existência, com inúmeras distinções e é Sócio Honorário da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Figueira da Foz e da Sociedade Filarmónica 10 de Agosto, uma das mais antigas e prestigiadas colectividades da Figueira da Foz. Ao fim de 85 anos de história da quarta série, o jornal “O Figueirense” é o jornal mais antigo da cidade da Figueira da Foz.
Edições especiais
Ao longo dos anos o jornal tem publicado inúmeras edições especiais e suplementos temáticos, que são fruto da vontade de dar a conhecer as personalidades históricas, os lugares e os recursos da Figueira da Foz e da região onde se insere. Tudo isto com um único ideal – o da aproximação do jornal aos seus leitores.
Em 6 de Abril de 1922, o jornal publicou uma edição especial de seis páginas, no seu número 228, dedicada ao lampadário da Batalha, onde devia estar bem presente a Chama da Pátria. Recorreu-se à utilização de uma gravura sugestiva deste símbolo e à colaboração especializada de diversos oficiais do exército português.
Catorze dias depois, no dia 20 de Abril de 1922, a “saga” dos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, que empreenderam fazer a travessia do Atlântico Sul, desde Lisboa até ao Rio de Janeiro, a bordo de um pequeno hidroavião – o «Lusitânia», motivou a publicação um número especial do jornal (número 232). A chegada dos dois aviadores aos Penedos de São Pedro e São Paulo, ao largo da costa brasileira, foi notícia de primeira página, onde sobressaía uma grande cruz de Cristo vermelha e as fotografias dos dois aviadores.
Em 18 de Junho de 1922, um dia depois da chegada de Gago Coutinho e Sacadura Cabral ao Brasil, ao fim de se cumprirem 8000 quilómetros e 60 horas e 14 minutos de voo, “O Figueirense” prestou homenagem aos dois aviadores, no seu número 249. A primeira página desta edição, totalmente a cores, incluía uma silhueta do hidroavião, as fotografias dos aviadores e o escudo nacional. Nas dez páginas de texto interiores dedicadas ao acontecimento, podiam observar-se pormenores diversos do hidroavião “Lusitânia II” nos Penedos de São Pedro e São Paulo, que após o acidente com a aeronave original, permitiu que os dois pilotos portugueses chegassem a Terras de Vera Cruz. O número 286 do jornal, de 26 de Outubro de 1922, relatava o regresso a Lisboa de Gago Coutinho e Sacadura Cabral, recorrendo a muitas ilustrações.
Em 22 de Junho de 1924, após ter completado o seu quinto ano de vida e em plena época balnear, "O Figueirense” dedicou a sua primeira edição especial, totalmente a cores, à Figueira da Foz. Neste número foram incluídas 40 imagens da praia, da cidade e arredores, modelo que obteve grande sucesso. Apostando na sua continuidade, foram publicados vários exemplares bi-semanais, até dia 22 de Julho de 1924, data em que sairia a última edição, com o número 455, de uma série de números comemorativos, impressos a cores, ilustrados e acompanhados de textos inéditos.

Suplementos

No dia 4 de Março de 1939 foi publicado o primeiro número do suplemento “Filmagem”, dedicado à propaganda cinematográfica, edição esta que viria a não circular por falta de autorização dos Serviços de Censura. O projecto manteve-se e no dia 11 de Março foi distribuído um novo número inaugural deste suplemento, o primeiro de dez edições, publicadas sob a direcção de J. Oliveira Santos.
Também em 1939, é criado um novo suplemento, designado por “Tribuna Literária”. Teve como seus mentores Belarmino Pedro e Manuel Guimarães. Este suplemento publicou 296 números, que saíram semanalmente com o Jornal, ao longo de 11 anos, entre 10 de Abril de 1940 e 24 de Novembro de 1951.
Belarmino Pedro (1909-1990) nasceu em Almalaguês (Coimbra) e morreu em Tavarede (Figueira da Foz). Fez a sua formação escolar na Figueira da Foz e foi funcionário da Câmara Municipal desta cidade. Quando aposentado, dedicou-se de alma e coração ao jornalismo, tendo colaborado para além do jornal “O Figueirense”, em inúmeros periódicos do país, dos quais se podem citar como mais conhecidos os jornais “A Voz”, o “Diário da Manhã”, o “Jornal de Notícias”, o “Diário de Lisboa”, o “Comércio do Porto”, “O Século”, o “Diário de Coimbra”, o “Diário de Notícias”, “O Dia” e a revista “Renascença”. Foi redactor do Jornal “O Dever”, ainda hoje em publicação, propriedade da Paróquia de São Julião da Figueira da Foz. Viria a ser, em 1953, um dos fundadores do Jornal “A Voz da Figueira”, ainda existente, permanecendo aí como director a partir de Julho de 1969, até à sua morte. Belarmino Pedro, foi também escritor, tendo-nos deixado obras de grande valor crítico. Ingressou na Conferência Religiosa de São Vicente de Paulo, na qual foi um dos grandes mentores da construção do “Bairro Padre Américo” da Figueira da Foz, para alojamento de famílias pobres, projecto este que foi concretizado graças ao apoio do Jornal “A Voz da Figueira”, que então dirigia.
Em 1947 foi criada uma separata com o nome de “As Novas Indústrias do Cabo Mondego”, com o intuito de divulgar os recursos industriais existentes na faixa noroeste do concelho da Figueira da Foz, nomeadamente as minas de carvão e as fábricas de cimento e de cal hidráulica, das quais hoje ainda se mantém esta última em funcionamento.
Em 1956, Alberto de Monsaraz publica uma separata de homenagem a Joaquim António Simões (1817-1905). O homenageado, a título de curiosidade, nasceu na Abrunheira (Verride) e veio muito novo para a Figueira da Foz. Herdou uma vasta fortuna de seus pais e foi ao longo da sua vida um excelente investidor, tendo-se estabelecido nesta cidade com armazéns de vinhos, que ocupavam um lugar de destaque no panorama nacional de distribuidores. Ministro do Reino de D. Maria II, foi grande impulsionador da construção do Teatro Circo Saraiva de Carvalho, actual Casino da Figueira, constituindo-se como o principal accionista deste empreendimento cultural e artístico. Foi ainda responsável pela instalação da Linha Ferroviária da Beira Alta e pela construção da velha ponte sobre o Rio Mondego, entre outros equipamentos, na Figueira da Foz, que ainda hoje subsistem. Por curiosidade, pode referir-se ainda que foi graças a familiares de Joaquim António Simões que Ramalho Ortigão começou a frequentar a Figueira da Foz.


*Nota do autor: Todas as referências aos 85 Anos do Jornal “O Figueirense” são relativas a 2004, ano da realização e publicação deste trabalho. Importa referir que o Jornal “O Figueirense” continua a ser editado e publicado todas as semanas, às quartas-feiras. A História recente do jornal trouxe novos elementos a este trabalho que, contudo, não puderam ser ainda actualizados.

[1] Assinado pelo Sr. Eng. José Coelho Jordão, ilustre presidente da Câmara Municipal deste Concelho, recebemos com data de 11 do corrente (Julho de 1969), o ofício que a seguir transcrevemos:
“Sr. director de O Figueirense
Figueira da Foz
Tenho a honra de levar ao conhecimento de V. ... que esta Câmara, em reunião de 1 do corrente mês, congratulou-se pela elevação como decorreu o «II Encontro da Imprensa Regional das Beiras» e agradece todas as referências amáveis à nossa cidade e sente-se profundamente reconhecida pela defesa que, nas colunas dos jornais das Beiras, frequentemente se fez dos legítimos interesses da Figueira.
Levo ainda ao conhecimento de V. ... que, na mesma reunião, foi deliberado dar o nome de Rua de «O Figueirense” à actual Rua do Curro e atribuir ao Semanário a Medalha da Mérito de Ouro.
Apresento a V. ... os meus melhores cumprimentos.”
A Bem da Nação
O Presidente da Câmara
José Coelho Jordão (Eng.)

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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Figueira: raízes dos frutos jornalísticos

Comemora-se este Sábado a primeira edição de “O Figueirense”, um dos mais antigos jornais portugueses. Neste artigo recordamos as primeiras três séries do periódico, com início em 1863, 1900 e 1918.

Texto e fotografia Luís Manuel Martins

O jornal “O Figueirense” é uma publicação com uma longa história. Fundado em 9 de Agosto de 1863 por Augusto Silvério de Oliveira (1827-1902), um abastado industrial regressado há poucos anos do Brasil, era então um jornal semanário impresso na Tipografia Figueirense que marcara o alvorecer da imprensa jornalística na Figueira da Foz. A Tipografia Figueirense foi criada em 1862 pelo mesmo proprietário de “O Figueirense” e situava-se na Rua da Oliveira, junto ao Largo do Carvão, em pleno centro da então vila da Figueira da Foz, que só viria a ser elevada a cidade por ocasião da visita real de D. Luiz I, em 1882. O equipamento de impressão era, porém, muito rudimentar e os recursos humanos escasseavam.
O jornal tinha o formato in-fólio com quatro páginas e três colunas. O primeiro número foi impresso em papel de várias cores, nomeadamente em branco, verde, azul e cor-de-rosa, de forma a captar a atenção do público. O preço de assinatura era, à data da primeira edição, de 2.000 réis por ano e 1.200 por semestre. Os anúncios custavam 20 réis por linha, enquanto que os comunicados e as correspondências de carácter particular tinham o custo de 10 réis.
Conceito
A estratégia comercial de “O Figueirense” passou por um interessante e ambicioso desafio de defesa dos recursos da Figueira da Foz e uma proximidade do público, preconizando ainda uma importante meta para a objectividade – o distanciamento político, tal como deixam entrever as linhas do programa editorial saído no primeiro número do jornal:
“Advogar os interesses da terra que o vio nascer; empregar toda a actividade, todos os esforços da sua intelligencia na consecução progressiva dos seus diversos melhoramentos e na satisfação das suas variadas e multiplices necessidades, é o fim a que se dirige o «Figueirense» (...) O «Figueirense» é um jornal escripto para a Figueira, quasi em família; não faz portanto programma politico, nem cura por emquanto de politica”.
No programa editorial é dado igualmente grande destaque às condições geográficas da Figueira e à necessidade de modernizar o porto comercial, o único das Beiras e detentor da terceira maior fatia de tráfego portuário de Portugal Continental, segundo dados de 1862.
Em plena época da Regeneração, que remontava a 1850, os jornais de âmbito local e regional, onde está incluído o jornal O Figueirense, tiveram condições para crescer em quantidade e qualidade, a que muito se deve o desenvolvimento progressivo dos transportes e dos meios de comunicação.

Primeira série (1863-1864)

O jornal “O Figueirense” permaneceu no seu formato original até ao dia 3 de Janeiro de 1864, onde na ficha técnica passa a aparecer para além do nome do proprietário, Augusto Silvério de Oliveira, também o nome de A. J. da Silva Pereira, responsável da redacção. Em 31 de Julho de 1864 termina a primeira série com o número 52, ao fim de quase um ano de existência. Apesar do seu carácter efémero, convém não esquecer que a assunção do risco, valeu ao “O Figueirense”, na sua primeira série editorial, o estatuto de um dos mais antigos periódicos portugueses. Ao ser o primeiro jornal da Figueira da Foz, o mote estava dado para que outras publicações lhe seguissem o exemplo, num futuro próximo.
Existe na Biblioteca Municipal Pedro Fernandes Tomaz (Figueira da Foz), uma colecção encadernada com todas os números da primeira série do Jornal, que tem na capa a inscrição “O Figueirense 1863-1864” e o nome do seu fundador, Augusto Silvério de Oliveira, doada por António Fernandes da Silva. A Biblioteca Nacional possui igualmente, na sua colecção patrimonial de periódicos, exemplares dos primeiros números do jornal “O Figueirense”.
Em finais do Século XIX verifica-se que o desenvolvimento das artes gráficas e da imprensa figueirense deve muito ao contributo de tipógrafos, impressores, editores e encadernadores, provenientes de Coimbra. Estes profissionais eram profundos conhecedores dos métodos e técnicas de impressão, pelo que representaram para a Figueira da Foz um efectivo crescimento – qualitativo e quantitativo - do volume de publicações impressas.

Segunda série (1900-1902)

A história da segunda série do Jornal “O Figueirense” começa a ser contada em 23 de Dezembro de 1899, quando a “Gazeta da Figueira” noticia superficialmente e com o título de “Novo Jornal” o seguinte: «A typographia onde se imprimia o nosso collega local “O Povo da Figueira” foi pelo seu proprietario (Amadeu Sanches Barreto) vendida ao sr. Prazilio Augusto Martins. Segundo ouvimos, em substituição do “Povo da Figueira”, que suspendeu a publicação, sairá um outro – “Echo da Figueira” – que parece ficará sendo o órgão do partido progressista da localidade, e que encetará a sua publicação nos começos do proximo ano (1900)».
O “Echo da Figueira” nunca chega a sair. Em seu lugar, no dia 21 de Janeiro de 1900, inicia-se a publicação da segunda série do jornal com o nome de O Figueirense, que assume doravante a nova característica de bi-semanário, mantendo uma linha conceptual independente. Esta série foi liderada pelo editor José Maria Roque dos Reis, oficial de encadernador, e pelo redactor Joaquim da Assunção Martinho, que vivia em Coimbra e cujo nome não constava da ficha técnica do Jornal.
Nesta época o Jornal era publicado na Tipografia Popular de Prazílio Augusto Martins (1870-1911), sede da administração e redacção, situada no Passeio Infante D. Henrique e cujas origens remontam ao ano de 1897. O Jornal adquirira agora um formato fólio de quatro páginas de cinco colunas.

Independência

O jornal "O Figueirense" no número um da sua segunda série, ao verificar que a Gazeta da Figueira tinha sido mal informada acerca da sua orientação política, enuncia no seu primeiro artigo, com o título de “A Nossa Atitude”:
«O Figueirense não é, como muitos poderão supôr, um jornal politico. Apresenta-se com caracter independente, sem sympathias por este ou por aquelle partido, e sem preferencias politicas por este ou por aquelle homem publico. Propõe-se a defender desinteressadamente os interesses da Figueira, a auxiliar o fraco contra o forte, quando a razão e a justiça estejam do seu lado, e sem atender a odios e inimizades politicas. A nossa divisa será a Justiça e a Verdade. Escudados pela Justiça, fustigaremos sem piedade os que o merecerem; se nos atacarem com as calumnias e com o insulto, responderemos com a verdade, que «muitas vezes doe mais que a mentira».
A Gazeta da Figueira veio porém a rectificar o seu lapso, na edição de 24 de Janeiro de 1900, pelo que o jornal, agradecendo as boas referências que foram dadas nessa edição, vai afirmando: «Como a Gazeta regista a nossa declaração de não querermos ser um jornal politico, é conveniente aclarar. Não seremos um jornal politico na accepção estreita, vulgar do termo, que na accepção geral não podemos deixar de o ser. Se algum dia quizessemos ser jornal “partidario”, declaralo-hiamos préviamente e com a maior lealdade. Não nos prestaremos a servir encapotadamente baixos interesses pessoaes ou de partidos».

Linha editorial

A verdadeira orientação editorial do jornal “O Figueirense” viria a ler-se nas entre linhas do artigo “Explicando”, escrito por Amadeu Sanches Barreto, que acompanhava o editorial do primeiro número da segunda série. Este artigo, datado de Alhadas (concelho da Figueira da Foz) em 14-1-1900, uma semana antes da segunda série começar a ser publicada, é complementar às ideias patentes na apresentação. Reveste-se de grande importância, porque fornece informações que muito interessam ao extinto jornal Povo da Figueira e prova, em primeiro lugar que o jornal “O Figueirense” surgira de novo nesta segunda série para o vir substituir.
Ainda que seguisse uma linha independente, o artigo “Explicando”, continua a delinear o meticulosamente o “retrato” do fundador, como é possível verificar no seu conteúdo: «Prazilio Augusto Martins é um daquelles caracteres que para se compreenderem é necessário tratá-los na intimidade. Trabalhador indefeso, intelligente, extremamente meticuloso em todos os pontos que possam tocar a sua dignidade, pode e deve fazer carreira com o “Figueirense”, se tiver quem o coadjuve efficazmente e o guie no escabroso mister de lançar um jornal à publicidade. Dotado de ideias amplamente liberaes, democraticas mesmo, não se achando filiado em nenhum partido político, é de esperar que imprima a este jornal uma orientação justa, imparcial, fundada nos principios dos direitos e regalias populares. Se não se póde dizer que o “Povo da Figueira” foi substituído por um jornal genuinamente republicano, é grande erro afirmar-se que as hostes monarchicas contarão mais um soldado na imprensa.
E para o demonstrar basta dizer que muitos dos colaboradores do jornal que elle vem substituir, continuarão a escrever para o “Figueirense”».
Recursos humanos

O novo “O Figueirense” defendeu, durante a sua existência, a causa democrática, ainda que não de forma tão directa como o jornal “Povo da Figueira” havia feito. “O Figueirense” foi, em todos os aspectos, um jornal que quis primar pela diferença, em busca de uma independência e meios de acção eficazes para a recepção e difusão da informação. Deste modo abriu as portas ao regime de correspondentes, que estavam espalhados em quase todas as freguesias do concelho da Figueira da Foz, em toda a região centro, centro-norte e centro-sul (distritos de Coimbra, Aveiro e Leiria), em localidades estratégicas do país, como Lisboa, Porto, Braga, Santarém, Almada e ainda na África Ocidental, onde residiam comunidades portuguesas.
Nesta época, foram colaboradores do jornal “O Figueirense” as seguintes personalidades: Amadeu de Sanches Barreto, João Barreto, Manuel Barreto, José da Silva Fonseca, Manuel Gaspar de Lemos, José Alves Miranda, Fortunato Correia Pinto, Joaquim de Assunção Martinho, Bernardo Teles Leitão, Henrique de Barros, Aníbal Taborda, R. Paganel, António Júlio Vale e Sousa, António Mira de Miranda e Brito, João Jacques, Arménio Monteiro, entre outros.
O editor José M. Roque dos Reis deixou de exercer a sua função a partir da edição número 180, de Domingo dia 20 de Outubro de 1901, como prova a declaração publicada nesse número do jornal. Foi assim substituído pelo proprietário, que tomaria o controlo absoluto do jornal até ao fim da segunda série. Em resultado de uma crítica insensata que o redactor do jornal dirigiu a um papel desempenhado pelo actor Ferreira da Silva, no Teatro Príncipe, na Figueira da Foz, Fernando Augusto Soares impôs-se à liderança de Prazílio Augusto Martins, o que vai levar à suspensão da segunda série.
Em 24 de Abril de 1902, Quinta-feira, termina a segunda série, com o número 225, ao fim do terceiro ano de edição.

Terceira série (1918)

A terceira série inicia-se em 15 de Fevereiro de 1918, com carácter bi-semanário, durante uma das suspensões do jornal Voz da Justiça, conforme consignado numa circular assinada por Manuel J. Cruz, de 15 de Janeiro de 1918, distribuída aos seus assinantes, que diz o seguinte: “Venho comunicar a V. Ex.ª que, tendo o meu jornal sido suspenso hoje, 15 do corrente, por ordem do delegado do atual governo neste concelho, fica a remessa para V. Ex.ª interrompida até que se normalize a actual situação”.
Tendo como director e editor Raimundo Esteves, o Jornal “O Figueirense” era propriedade da Empresa. A redacção, a administração e a impressão funcionavam na Tipografia Popular, de Manoel J. Cruz., publicando-se às Terças-feiras e às Sextas-feiras. O novo formato era do tipo fólio de quatro páginas, a seis colunas cada.
O artigo de apresentação refere o seguinte: «Saibam, pois, as gentes, que O Figueirense, é autenticamente, genuinamente um jornal novo, com todas as suas características. Aqui não se depende de ninguém, não se continua a vida de ninguém, não se obedece a quem quer que seja! Isto não está aforado. E quem aqui vive dentro, tem a mesma liberdade de acção que um pardal na larguesa vasta das asas...
Uma única coisa temos assente e firme: – não fazer política partidária! O resto será como Deus quiser e for servido!... Defender os interesses da nossa terra, lutar pelo bom nome, pelo engrandecimento da Figueira, é tão natural e tão intuitivo, tão claro, que até a gente escusa de dizê-lo, visto que o próprio nome do jornal é o mais bairrista possível.
Afirmar nesta hora grave para a nossa nacionalidade o nosso patriotismo, a admiração pelos que se batem na França e na Africa por Portugal, a fé ardente na vitória dos aliados, que é a nossa vitória, é escusado repeti-lo, tão naturalmente, tão firmemente tudo isto deve estar ligado à alma de todos os portugueses!
Acentuar o espírito de liberdade que sempre fulgirá em todas as nossas palavras é, então, perfeitamente desnecessário: – neste jornal, – de quem o escreve ao ambiente que se move, – toda a gente abomina o luar, porque só gosta do sol! ... E temos dito!»
Os colaboradores da terceira série foram, entre outros, Manuel Cruz, Ernesto Tomé, que escrevia as “Crónicas Perversas”, Manuel Gaspar de Lemos e o autor daquelas linhas, autor de um único artigo, que assinava pelo pseudónimo de Eça de Queiroz.
O jornal O Figueirense viria a terminar a publicação da terceira série em 29 de Março de 1918, com o número 13, após o término da suspensão ao jornal A Voz da Justiça, informação esta que foi dada por uma folha volante onde se podia ler: O Figueirense interrompe a sua publicação. Saindo das oficinas de “A Voz da Justiça”, e devendo reaparecer amanhã, terça-feira, 2 (de Abril), este jornal, impossível é continuar agora a publicidade do nosso bi-semanário.
1 de Abril de 1918.
Pela redacção do «Figueirense» – Raimundo Esteves.

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quarta-feira, 28 de maio de 2008

Ver rádio

Nas vésperas de mais um aniversário de “A menina da rádio”, olhamos para a imagem da telefonia neste filme.

Texto Luís Manuel Martins

O filme “A menina da rádio”[1], um dos clássicos do cinema português, foi realizado em 1944, por Arthur Duarte, sob a chancela da Companhia Portuguesa de Filmes. Esta produção cinematográfica trouxe pela primeira vez a rádio para o grande ecrã, consagrando-a como um meio de comunicação cada vez mais importante. A Emissora Nacional (EN), estação pública de radiodifusão, havia nascido em 1 de Agosto de 1935 e começava agora a criar um público cada vez mais fiel, que ouvia com agrado as emissões. A envolvência e a familiaridade que os locutores despertavam junto dos rádio-ouvintes eram tão grandes que, por vezes, havia quem se deparasse a criar imagens mentais da fisionomia das grandes vedetas que falavam “ao microfone”. A “Menina da rádio” vem desfazer os equívocos e as imagens estereotipadas que os portugueses haviam criado sobre o novo meio radiofónico.
Os anos 40 constituíram o maior período de expansão da rádio em Portugal. Os seus receptores ocuparam um verdadeiro lugar de honra nos lares dos portugueses, servindo de companhia e de fonte de entretenimento. A rádio tornou-se um elemento aglutinador para as famílias, que passaram a estar mais vezes reunidas a escutar as suas estações preferidas. Foi também na década de 40 que os comerciantes atraídos pela potencialidade que a rádio tinha para oferecer, a nível da publicidade, começaram a anunciar os seus produtos.
Os conteúdos radiofónicos eram muito variados e incluíam espaços de informação de carácter geral, noticiários, programas políticos e música. A programação musical ocupava um lugar de grande destaque. O filme “A menina da rádio” dá a conhecer o advento das grandes orquestras radiofónicas, que actuavam nos estúdios das emissoras, em directo e ao vivo. Os anos 50 viriam a dar lugar ao espectáculo radiofónico, realizado por gente do teatro, do cinema e das artes em geral, onde se destacavam jornalistas habituados a escrever peças para o teatro de revista, argumentos de cinema e textos publicitários para os jornais e para a rádio.
“O chefe de casa, que geralmente está ausente, passando o tempo por locais nem todos recomendáveis, descuidando o lar monótono, atraído pelo ruído e pelo movimento que encontra fora dele, começa a fazer nova vida. Quando não põe o aparelho a funcionar enquanto janta, fá-lo depois, deixando-se ficar em casa”, referiam Fausto Gonçalves e Pereira Machado em 1939. “A menina da rádio” mostrou ao país um fragmento real das actividades radiofónicas, preconizadas por conhecidíssimos colaboradores da Emissora Nacional, estação que surge no filme com o nome fictício de Rádio Lisboa. Assim, Jorge Alves, distinto locutor da EN, dá-se a conhecer ao grande público, agora não só pela sua voz firme e colocada, como também pela sua estatura alta e elegante.
No sentido da representatividade do locutor, enquanto profissão equiparada ao jornalismo, Isabel Travancas escreveu no seu artigo “O Jornalista Como Personagem de Cinema” que “a indústria cultural e particularmente o cinema são um campo privilegiado de produções simbólicas e mitos modernos”, considerando que a chamada sétima arte tem “lugar de destaque na modernidade”. A autora defende que “a linguagem cinematográfica transmitiu o impacto das transformações sofridas neste século [Século XX]” e refere que “o cinema com o seu enorme poder de penetração nos mais diversos grupos sociais ajudou a construir mitos, a divulgar saberes novos, como a psicanálise e a popularizar actividades e profissionais, como foi o caso da imprensa e dos jornalistas”.
Isabel Travancas deixa no ar uma interessante afirmação, seguida de uma pergunta: “É possível afirmar que o cinema colaborou com a construção de uma imagem, ou melhor, de algumas imagens do jornalista; representações que certamente influenciaram na escolha profissional de futuros repórteres. Quantas carreiras jornalísticas não devem ter nascido no «escurinho» de uma sala de cinema?”
“A menina da rádio” permite entender esta reflexão de Isabel Travancas no seu sentido mais lato, uma vez que foi muito bem aceite pelo grande público, não tanto pela crítica. Podemos mesmo falar de um fenómeno mediático, nunca antes visto em Portugal, que se prendeu com o facto de, na fase de pré-produção do filme, não se ter encontrado rapidamente uma protagonista para o papel principal. Depois de uma longa espera, alimentada por rasgos de algum sensacionalismo da imprensa da época, a escolha acabou por recair sobre Maria Eugénia, uma jovem talento, com apenas 16 anos de idade. Este foi um factor que acabou por pesar no retumbante sucesso de bilheteira, proporcionado por um público ávido de contactar com algumas das suas maiores estrelas do teatro e da rádio.
Imagem ou realidade?
Uma análise de imagem mais pormenorizada de certas cenas isoladas deixa igualmente uma dúvida. Será que o filme pode ser considerado um documentário? Manuela Penafria, no seu artigo “O documentarismo no cinema”, considera que a base de um filme documentário é “o registo in loco dos acontecimentos do mundo e da vida das pessoas”. Neste sentido, este filme adquire em certas cenas um certo pendor documentarista, que favorece a percepção da imagem, devido à contextualização, que apresenta, a nível do texto narrativo.
Michel Tardy considera que “a pedagogia das mensagens visuais não pode deixar de ser, primeiro, uma reflexão sobre a verdadeira natureza da imagem e sobre as suas coordenadas ontológicas. Discute-se interminavelmente sobre os seus conteúdos e a sua beleza eventual; mas o essencial que é examinar o seu próprio ser, fica esquecido. Ora, a imagem não coincide com a realidade que ela representa. A sua transparência não passa de uma opacidade camuflada: ela tem a inocência dos hipócritas. Entre o elemento indutor, a realidade, e o elemento induzido, a imagem, interpõe-se toda uma série de mediações que fazem com que a imagem não seja restituição, mas reconstrução da realidade”.
O autor, na sua obra “O professor e as imagens”, afirma que estas não constituem um mundo paralelo, mas um segundo mundo, com suas características próprias e suas leis específicas. A imagem é sempre alteração, voluntária ou involuntária, da realidade. A alteração voluntária não é, aliás, a mais significativa, porque resulta numa falsificação e remete para a suposição implícita de que se trata apenas de uma questão de honestidade; restaurada esta, o problema desapareceria. Ora, faça-se o que se fizer, a imagem sempre coloca em jogo processos de derivação; ela é, por natureza, e não de modo contigente, deformante”.
O filme, apesar do seu carácter eminentemente cómico de situação, proporcionado por actores emblemáticos como António Silva, Maria Matos e Ribeirinho, adquire em certos momentos a visão aproximada de um documentário. Isto porque demonstra a preocupação de veicular uma imagem positiva do potencial que a rádio tem para oferecer. É este, sem dúvida, o vector da narrativa, omnipresente ao longo de todo o filme. Igrejas Caeiro considera mesmo que a película “consegue retratar” a imagem das grandes estações de rádio nacionais, tal como a Emissora Nacional, em contraste com as pequenas rádios de bairro, das quais fazia parte o projecto de Cipriano Lopes (António Silva), com a criação do Rádio Clube da Estrela.
Segundo o antigo locutor da Emissora Nacional, «Havia exactamente várias rádios. As rádios formais, mais completas, e outras pequeninas. É esse trabalho que aparece no filme. É a rádio da rua, do sítio. Havia várias, não só em Lisboa, mas também no Porto. Havia rádiozinhas dessas. Rádios pequenas. Antes ia tudo à censura. Não passava nada. E coisas com que nós ríamos, porque não tinham pés, nem cabeça. Bem... Aí havia uma possibilidade de comunicar de outra maneira. Aquilo era uma piada, era uma graça. E há certas graças que convinham ao movimento de então. Há coisas que lhes davam jeito. Parecendo que estavam a dizer, agradava-lhes que isso fosse dito. De uma maneira geral, esse tipo de filmes não tinham assim grande forma de... [ser censurados]. Eram aceites”.
Em comentário no DVD, Igrejas Caeiro declara: “Aquilo era muito fácil para as pessoas, era muito agradável e deixavam que as coisas passassem. Foi muito interessante. As pessoas gostaram de ver. Porque já havia aí o interesse pelos artistas. Aqueles de que se gostava mais. E vê-las num filme assim foi agradável. Agora, a propósito dos filmes portugueses, embora muito bons do ponto de vista fácil, de agradável, de comunicante, os críticos davam cabo desses filmes. [Diziam que] aquilo não era cinema, que não era isto, que não era aquilo... Agora, passados tempos, passam-se esses filmes e toda a gente fica... Mas que cinema extraordinário que havia nessa altura!”.
“Alô, alô! Confeitaria Bijou da Estrela. Especialidade em doce de ginja, merengues, pudins e compotas. É aqui que se fabricam as afamadas broas de noz e os célebres rebuçados para a voz (tussindo). Serviços para casamentos e baptizados. Copos de água aos domicílios”. Assim começa Ribeirinho, empregado da Confeitaria do Sr. Lopes, a “ladainha” publicitária, que ganhava agora notoriedade no espaço radiofónico e induzia no público-alvo o desejo de comprar os mais variados produtos.
Neste aspecto, o filme é absolutamente fantástico. Ele retrata fielmente, a necessidade sentida pelo Sr. Lopes de mobilizar a vontade de um grupo de notáveis comerciantes do Bairro da Estrela, em Lisboa, para o seu novo e visionário projecto radiofónico, onde todos haviam de lucrar, uma vez conseguido o retorno dos investimentos em publicidade. Rosa Gonçalves (Maria Matos) encabeçava o rol de incrédulos e eternos rivais de Cipriano Lopes. Ela era na verdade uma personagem detestável, que Cipriano acusava de “querer calar a boca ao progresso”.
Na verdade, António Silva, quer no cinema, quer na sua vida do quotidiano, era um grande entusiasta da rádio. Uma das suas grandes preocupações era a necessidade desta constituir um meio de formação eficaz para as pessoas. O rádio-receptor, a torneira que, segundo ele, se abria e “jorrava música”, devia informar, mas também formar. Já agora porque não... divertir? Sem rodeios, preconizava que os que não tivessem aproximação às emissões se tornariam verdadeiros “analfarádios”.
A fita teve um grande sucesso na sua estreia, contudo a imagem que os críticos de cinema retiveram foi a de um filme insípido, demasiado fácil de ver. Ora, por vezes, o segredo do sucesso está na simplicidade. Dava-se ao público o que ele gostava, atendendo obviamente às especificidades e exigências das comissões de censura, que não perdoavam o mínimo deslize aos propósitos originais de “Servir a Pátria”, exigidos aos realizadores de cinema portugueses. Tudo tinha de ser feito “A Bem de Portugal” - a velha máxima do Estado Novo. Face à necessidade de captar um vasto auditório de ouvintes para a Emissora Nacional, ter-se-á servido o Estado deste filme, como estratégia de propaganda? É uma pergunta que fica no ar, com pertinência, creio.
Imagem ou imaginação
O sentimento de pertença e a familiaridade dos ouvintes com as emissões era muito grande, na década de 40. Há uma passagem maravilhosa ao nível da compreensão deste fenómeno, que é aquela em que Maria Eugénia se encontra a ouvir rádio com a mãe, escutando Fernando Verdial (Fernando Ribeiro) a cantar na Rádio Lisboa. Nesta cena, a menina da rádio, embebida pela envolvência do som, imagina-o como um televisor. A suspirar, afirma que a imagem mental que tinha daquele cantor da moda “parece um sonho”. A mãe (Maria Olguim), logo de seguida, retorquiu dizendo: “parece mas é bruxedo. Some-te!” [Benzendo-se]. Por aqui é fácil observar que certas pessoas ainda não estavam habituadas nem aos novos avanços tecnológicos, nem à nova forma de fazer rádio, já longe das primeiras experiências radiofónicas amadoras portuguesas dos princípios do século XX.
A filosofia de trabalho, baseada na persistência e na auto-formação, era praticamente a mesma. No entanto, investia-se crescentemente em bases mais sólidas de formação técnica e tecnológica dos colaboradores do meio radiofónico. Afinal eram estes que permitiam a transmissão de uma mensagem perceptiva e cultural, tal qual o modelo preconizado por Roland Barthes. A rádio povoava o imaginário colectivo. A própria palavra “imaginário” está relacionada com as imagens mentais que se criam por indução. A manipulação da realidade, ou a manutenção dos seus pressupostos, vai levar a que se gerem, ou não, imagens mentais fidedignas ou adulteradas do seu sentido original.
Para Martine Joly, o binómio Imagem/imaginário gera relações de complementaridade entre imagens e palavras, que reside no facto de “elas se alimentarem umas às outras”. Segundo a autora, “não existe qualquer necessidade de uma co-presença da imagem e do texto para que este fenómeno se verifique”, já que “as imagens engendram palavras que engendram imagens, num movimento sem fim”. Esta visão de Martine Joly está bem patente no filme “A menina da rádio”, já que o seu visionamento remete sempre para uma relação analógica e multiforme, de reconhecimento da realidade representada.
Voz e palavras
Manuela Penafria presta igualmente um contributo valioso para a compreensão deste filme, através do seu artigo “Ouvir imagens e ver sons”, apresentado nos VII Encontros de Cinema Música(s), realizado em Dezembro de 2003, no Cine Clube de Faro. A autora considera, antes de mais, que “a teoria cinematográfica tem estado algo arredada em estudar o som como elemento expressivo e fundamental dos filmes”.
A autora refere que o som pode ser de diferentes tipos, citando o de ambiente, os diálogos, a música, a locução (voz off) e os ruídos. Assim, falar de som em cinema implica “afastarmo-nos de um discurso que considera que o mesmo se dirige ao ouvido (assim como considerarmos apenas que a imagem se dirige ao olho)”. Imagem e som exercem assim uma acção complementar que favorece, ou não, a criação de ideias, crenças e valores, acerca da realidade que está a ser representada por via da transposição para o cinema.
Manuela Penafria menciona ainda no seu artigo que “com a introdução do som directo foi possível dizer-se que havia uma relação directa e linear entre a realidade e a sua representação. Entrevistas de rua e som ambiente enquanto parte integrante da realidade foram incluídas nos filmes. Mas, como sabemos, esse projecto de representação fiel da realidade foi mais um projecto de entusiasmo que efectivo”. Ainda segundo a autora, “quando a matéria da representação são imagens, estamos afastados do objecto representado, em especial, por questões estéticas (escolha de ângulos, enquadramentos, etc.), o que não permite essa relação linear com a realidade.
Através desta primeira abordagem, facilmente se perceberá a sua aplicação ao caso d’ “A menina da rádio”. Na verdade, em muitas cenas do filme são precisamente os momentos sonoros, que permitem que a sua visualização se torne inteligível, favorecendo a criação de uma imagem uniforme do meio radiofónico retratado. A imagem perceptiva que se tira de um filme fica muito a dever ao som, mais do que à imagem, em certas situações.
Arlindo Machado, no artigo “O fonógrafo visual”, afirma que há uma terminologia bastante desenvolvida na área da imagem, a nível, por exemplo, da profundidade de campo e enquadramentos, enquanto que para o som não se passa o mesmo. O autor considera ainda que quase sempre as discussões sobre o cinema partem do princípio que este é apenas um fenómeno visual, deixando de parte a componente sonora que, ou não é referida, ou é tratada marginalmente.
Importa citar as palavras reveladoras do realizador Pedro Sena Nunes, incluídas na sua retrospectiva, numa Edição do V Festival Nacional de Vídeo de Ovar: “Eu não consigo imaginar ou suportar um documentário em que não se sinta a escuta. Se quem fica do outro lado não está a ouvir, o objecto já não é um documentário. Se há definição possível de documentário será porventura essa: saber ouvir. E não é ouvir para registar. É saber que, para registares um bocadinho, muita coisa tem de ser ouvida”.
A nível de som e de escuta, não nos podemos alhear da grande popularidade das várias canções lançadas no filme “A menina da rádio” como, por exemplo, a canção “Sonho de amor”, da autoria de Silva Tavares. A música povoou assim o imaginário dos ouvintes e espectadores de cinema, muito para além do momento em que contactaram com o grande ecrã, o que contribui para a compreensão do fenómeno de proximidade que o filme “A Menina da Rádio” desencadeou.
Conceito
“Uma representação da realidade (física, como uma fotografia, ou imaginária, como uma música). Elemento essencial da comunicação de massa, desde que a fotografia entrou na imprensa e sobretudo desde que a televisão a aliou ao som e ao movimento. Sendo polissémica (passível de ter vários significados) necessita do texto (escrito ou verbal) para esclarecer o seu sentido. Mantém uma relação analógica com a realidade e, como sublinharam os semiólogos, tem duas leituras, uma denotada (o que representa de facto) e outra conotada (o seu valor simbólico, o que evoca além do que representa e depende do leitor). «O espectador da imagem recebe ao mesmo tempo a mensagem perceptiva e a mensagem cultural», afirmou Roland Barthes”
[2].
Martine Joly considera que “o termo imagem é tão utilizado, com todos os tipos de significados sem ligação aparente, que parece muito difícil apresentar uma definição simples e que abarque todas as maneiras de a empregar”
[3]. A autora reconhece que nós “compreendemos que ela [a imagem] designa algo que, embora não remetendo sempre para o visível, toma de empréstimo alguns traços ao visual e, em todo o caso, depende da produção de um sujeito: imaginária ou concreta, a imagem passa por alguém, que a produz ou a reconhece”.
A imagem “longe de ser um flagelo contemporâneo ameaçador, é um meio de expressão e de comunicação que nos liga às tradições mais antigas e mais ricas da nossa cultura”, explica Martine Joly. Para a autora, a sua leitura, mesmo a mais ingénua e quotidiana, mantém em nós uma memória que apenas exige ser um pouco estimulada para se tornar num utensílio mais de autonomia do que passividade”. Neste sentido, a compreensão de imagens necessita do recurso ao contexto da comunicação, à historicidade da sua interpretação e às especificidades culturais.
O cinema, como processo de sequencialização fotográfica, torna inteligíveis as palavras de Roland Barthes a propósito da fotografia. Barthes considera que o que faz da fotografia “uma imagem fundamentalmente diferente das outras imagens: é a dupla conjunção de realidade e de passado que ela propõe – aquilo que ela representa esteve ali. É aquilo a que Barthes chamou «isto foi». Será que: “Uma imagem vale mais do que mil palavras”? Arriscaria dizer que sim.
Independentemente de qualquer abordagem a nível de análise da imagem cinematográfica e da estruturação de uma imagem mental uniforme do meio radiofónico, o filme “A menina da rádio” é um excelente ponto de partida para a afirmação de um progressivo interesse pelos artistas, por parte do público, o que demonstra a instituição de valores culturais e de culto pelos personagens mediáticos da época. Para além disso, a vertente didáctica de construção da linguagem radiofónica e da estruturação programática dos novos conteúdos, próxima do grande público rádio-ouvinte e cinéfilo, cruza-se com a popularidade de locutores consagrados, equiparados a jornalistas, cantores, actores e colaboradores da rádio que, no seu tempo, souberam engrandecer a profissão que abraçaram. A todos eles se deve o sucesso do filme, a eles se deve a inspiração do meu trabalho.

[2] CASCAIS, Fernando - Dicionário de Jornalismo – as palavras dos media. [3] JOLY, Martine - Introdução à Análise de Imagem.

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quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Hora da saudade


O capitão tem 87 anos e recorda-se dos tempos em que decidiu seguir a vocação marítima. Embarcou na aventura da frota bacalhoeira portuguesa, rumo às águas da Gronelândia. Pescou bacalhau à linha entre 1943 e 1946. Um ano depois passou para a pesca de arrasto, onde se manteve até 1953.

Entrevista e fotografia Luís Manuel Martins 


Em 1937 era lançado pela Emissora Nacional de Radiodifusão o programa “Hora da Saudade”, dirigido à diáspora portuguesa no continente americano e à frota bacalhoeira nacional em campanha na Terra Nova. Apresentado por Curado Ribeiro, tornou-se rapidamente num dos programas mais famosos e marcantes de sempre da rádio em Portugal. O capitão João Braz, um velho “homem do mar”, evoca, numa entrevista única, as emoções vividas através das ondas da rádio, esse sopro mágico de vida que um dia soou mais alto, nos recônditos mares do Norte.

Capitão João Braz, como é que se processava a pesca do bacalhau há setenta anos?

Numa altura em que armadores portugueses se agitam e num ano em que perfaz 70 anos sobre a inauguração do programa radiofónico “Hora da Saudade”, publicamos uma entrevista a João Ramalho Braz, natural da Figueira da Foz.


As campanhas da pesca do bacalhau duravam, habitualmente, cerca de seis meses. A faina estava centrada nos lugres. Inicialmente, esses navios à vela navegavam sem sistemas eléctricos a bordo, pelo que a iluminação era assegurada por velas e candeeiros a petróleo. A vida a bordo era muito dura. Os navios partiam e voltavam de Portugal sem receber qualquer notícia, uma vez que não havia comunicações via rádio.
Na Terra Nova os lugres não iam a terra, seguindo uma prática que estava estipulada na época. Muitas vezes só à chegada é que se sabia que tinha morrido alguém. Os mortos eram atirados ao mar. Estou-me a referir aos navios à vela. O sistema em que eu andei mais foi em arrasto, onde a vida já era diferente. O pessoal já não saía de bordo, o navio é que pescava com uma rede a reboque. Nos lugres pescava-se ainda em botes a remos – os dóris – onde cada um pescava à sua vontade onde queria. Depois à tarde o capitão tinha uma hora a que içava uma bandeira. Os pescadores viam-na ao longe e regressavam com o peixe que tinham a bordo. A pesca acabava entre as vinte e três horas e a uma hora do dia seguinte, conforme o quantitativo que havia sido pescado e conforme a hora em que haviam começado o trabalho. O tempo de descanso nos lugres nunca excedia as cinco horas.
Nessa altura esses navios tinham más condições que mais tarde desapareceram. O navio estava fundeado, os dóris chegavam a bordo, descarregavam tudo o que os pescadores tinham. Os pescadores tiravam o peixe de dentro do bote e depois escalavam-no, salgavam-no. Quando acabava o trabalho, entre as 23 horas e a meia-noite, o capitão estava no porão do navio a ver a salga, que era a parte que exigia mais assistência, para o peixe não se estragar. Quando o capitão chegava cá acima perguntava que horas eram, já que não era hábito usar relógio de pulso. Lá lhe diziam: “Onze e meia!”. Ele fazia logo as contas e respondia: “Louvados às cinco horas da manhã!” Louvados era o mesmo que “levantados”.
O pessoal depois comia alguma coisa, deitava-se a dormir completamente vestido. Os pescadores não mudavam de roupa com frequência. Quando um grupo ia dormir, entravam logo dois homens de vigia. O navio estava ancorado. Não havia ainda motores nesse tempo. Estou-me a referir aos anos 35 e 36. Os vigias que rodavam de acordo com uma escala diária de serviço alertavam a tripulação no caso de se levantar uma tempestade de repente ou de vir um icebergue em direcção ao navio. Era muito trabalho para tão pouco rendimento. Um quilo de bacalhau nessa altura custava aí, em qualquer loja, quinze escudos e agora custa muito.
Quando os navios regressavam à Figueira da Foz, eram obrigados por lei a responder a um questionário feito pelo Capitão do Porto, à distância, através do Código internacional de Bandeiras. Cada navio tinha uma forma gráfica de apresentar o seu nome. O “Foz do Mondego”, onde andei, tinha como código as iniciais “SSPR”. O sistema de comunicação por bandeiras entre os navios, inventado pelo inglês Frederick Marryat, estava sistematizado num manual de referência.

Como é que é composto esse sistema de comunicação com recurso a bandeiras, que referiu?


Não consigo precisar. Os paquetes e os grandes navios comerciais terão sido os primeiros a receber esse tipo de tecnologia. A Lusitânia – Companhia Portuguesa de Pesca colocou o primeiro posto emissor/receptor da frota pesqueira num navio bacalhoeiro seu chamado “Trombetas”. Foi um caso pioneiro, ainda que não tenha sido seguido de imediato por outros navios. Os sistemas de radiocomunicação foram instalados muito gradualmente. Mais tarde, com a entrada dos arrastões na pesca do bacalhau – navios mais sofisticados – passou a haver telegrafista a bordo e aparelhos para poder transmitir e receber notícias, entre navios e estações costeiras. Finalmente podíamos comunicar com o exterior. Eu falei muitas vezes com a minha mulher. A empresa armadora passava a estar disponível permanentemente, em caso de necessidade.

Em que medida é que as campanhas lucraram com a radiocomunicação?
As comunicações constituíram um auxílio precioso para a navegação e rotina diária da pesca. Pela primeira vez o telegrafista podia contactar com a estação costeira da Terra Nova, para nos dar um azimute, ou seja, a direcção, a posição que nós tínhamos em relação à costa. Traçava-se esse dado no mapa e apurava-se, na medida do possível, a localização aproximada. Era muito difícil obter a demarcação exacta do navio, já que a Terra Nova estava sempre muito sujeita a nevoeiros e não havia possibilidade de poder observar o sol e as outras estrelas, como meio de orientação. Uma das vantagens mais importantes da radiocomunicação foi poder falar directamente para os pilotos da barra, quando havia necessidade de ir ao porto de Saint John, por motivo de doença e morte de tripulantes, ou de avarias nos sistemas internos dos navios. O telegrafista era o elemento-chave que assegurava as comunicações.

As novas tecnologias aplicadas à navegação foram uma grande prioridade da frota bacalhoeira nesse período?
Sim, sem dúvida. No que a radares diz respeito, por exemplo, foi no ano de 1950, salvo erro, que vieram para Portugal os dois primeiros radares, ao abrigo do célebre Plano Marshall. Um deles foi implantado num navio de comércio, que não posso precisar o nome, não sei se foi o “Pátria” ou se foi o “Império”. O outro radar veio para a Figueira da Foz para o primeiro arrastão em aço fabricado aqui, nos Estaleiros Navais do Mondego – o “Comandante Tenreiro” – um navio para o qual entrei como imediato no ano seguinte. O radar auxiliava-nos muito, porque as tradicionais zonas de pesca da Terra Nova estavam muito sujeitas a nevoeiros cerrados. Não havia grande perigo de afundamento dos navios, porque a velocidade a que se deslocavam a arrastar as redes rondava as três milhas (cerca de 5,5 quilómetros por hora). Ainda assim era uma enorme vantagem e privilégio poder contar com um radar a bordo.

Qual era o impacto do programa “A Hora da Saudade” da Emissora Nacional na frota bacalhoeira portuguesa em campanha na Terra Nova?
É bom recordar que o programa só foi possível de ouvir quando os navios começaram a dispor de meios de recepção. Ouvíamos a “Hora da Saudade" com muita satisfação. O pessoal que estava a trabalhar, normalmente de noite, escutava o programa através de um altifalantezinho. Se o capitão ou alguém estava a ouvir, dizia logo: “Ó João, a tua família está a falar na rádio!”. Se havia a possibilidade de ouvir facilmente, tudo bem. Mas parar o serviço, nunca paravam. O programa “Hora da Saudade” era muito bem recebido, porque as pessoas gostavam muito de ouvir os familiares. Mas a vida era tão pesada, tão trabalhosa... Não posso agora precisar quando é que começaram as emissões da “Hora da Saudade”. Numa fase inicial, o programa proporcionou-nos uma oportunidade fantástica de poder comunicar com a família, quando ainda não havia telegrafista. Com a “Hora da Saudade” estabelecíamos uma forte ligação à nossa casa, à nossa terra. Durava pouco, mas sabia muito bem. O procedimento mais usual era, quando os pescadores estavam a trabalhar, o capitão ia de imediato ouvir as mensagens recebidas em directo a partir de Portugal, retransmitindo-as de seguida pelo navio.


O Código Internacional de Sinais é composto por 26 bandeiras alfabéticas (cada uma com significado próprio), dez numéricas, três substitutas e um galhardete de código ou reconhecimento. O manual de que falei continha o meio de formulação de todo o tipo de perguntas através das bandeiras, por exemplo: “De onde vens?”, “Qual o nome do teu navio?”, “Tens doentes a bordo?”. O interrogatório costumava demorar entre uma e duas horas. Içavam-se as bandeiras e dava-se um sinal de reconhecimento. Normalmente as perguntas eram feitas a partir de terra daqui para os navios. Como este procedimento se havia tornado usual em todas as viagens, já se sabia as perguntas de cor. O que conto situa-se por volta de 1930/1940. Recordo-me de ir às vezes em rapaz, aí pelos meus quinze anos, ao pé do Forte de Santa Catarina, na Figueira da Foz, ver esse cerimonial.

Desde quando é que passou a haver sistemas de radiocomunicação nos navios bacalhoeiros?

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