sexta-feira, 25 de março de 2011

A Ciência da Polis X


Na décima parte, a última deste ensaio político, defende-se o poder legítimo, aquele que é capaz de assegurar a alimentação e a habitação digna a todos e, além destes direitos adquiridos, elevar a qualquer cidadão, a sua condição humana: mais cultura aos pobres e filantropia aos ricos.

Texto José Luís Maio fotografia Dina Cristo


Vamos continuar a debruçar-nos sobre os campos principais de actividade que exigem dos responsáveis da polis uma acurada atenção e intervenção com vista à satisfação dos direitos de todos os cidadãos. Convém, no entanto, ter presente que estes são não só 1. indivíduos que, se devidamente estimulados, podem desenvolver determinadas capacidades que lhes permitam concretizar certos objectivos, individuais e colectivos (nacionais ou internacionais), o que os enobrece, dignifica e realiza, pessoal e socialmente, mas, sobretudo, 2. seres espirituais em potência, idealmente mais conscientes do propósito de transformar essa potência em acto, isto é, em manifestar de modo visível essa natureza divina. Quer isto dizer que o Homem, sendo (em essência, em germe, em semente) um ser divino, tem a oportunidade de, através da sua vinda à existência e por meio de um esforço constante de aprimoramento da sua consciência, fazer desabrochar paulatinamente essa semente, ou essa potencialidade, que chamamos de “divina”. Ora isso pressupõe, inquestionavelmente, que no passado mais ou menos recente muitas etapas foram arduamente percorridas (com “sangue, suor e lágrimas”) e várias metas alcançadas.
Em extensões cada vez mais vastas do planeta conseguiu-se um elevado desenvolvimento humano a todos os níveis. Neste caso, é a conquista do que habitualmente se designa por direitos humanos, desde os físicos até aos sociais, como o direito à vida e à saúde e o direito ao saber e ao bom-nome. E se a tudo isto chamamos progresso, evolução, cultura e civilização, ao seu contrário teremos de chamar retrocesso, atrofia, incultura e barbárie e, perdoe-se-me o neologismo, selvilização.
O simples facto de alguém nos negar a possibilidade de percorrer as etapas necessárias aos legítimos fins a que a nossa natureza mais nobre aspira, seja porque nos barra o caminho que temos diante de nós, seja porque nos obriga a repetir as etapas já anteriormente calcorreadas, é por si só inconcebível à luz do senso comum mais elementar, como seria igualmente absurdo que qualquer estudante, após ter prestado boas provas académicas no fim do ensino secundário, fosse obrigado a repetir todos os anos da escolaridade obrigatória, ou vedar-lhe a entrada no ensino superior sem qualquer justificação ou por mero capricho.
Será que, nesta esteira, ou seja, para que possamos ascender a uma vida digna, culta, nobre e espiritualmente realizada, por meio de uma actividade cada vez mais intensa da alma – representada pelos “bens divinos” de Platão, “a sabedoria, a moderação, a justiça e a coragem” –, o direito à vida elementar, através de uma alimentação e uma habitação básicas – representada pelos “bens humanos” platónicos, “a saúde, a beleza, o vigor e a riqueza” –, está assegurado a todos os portugueses? É óbvio que não! Quais dos poderes institucionais zelam pelo cumprimento da nossa Constituição nesta matéria? Nenhum, evidentemente, pois quem exerce (ou devia exercer) tal função fiscalizadora pertence à (ou dela é refém) mesma “família” político/partidária governante!
Passemos agora a algumas considerações básicas:
1. Assim, nem a alimentação, nem a habitação, nem o acesso às fontes básicas de sobrevivência de alguém poderão jamais depender da obtenção de um mero emprego ou profissão, sob pena de, como tem acontecido, o “homem continuar a ser o lobo do homem”, devorando-lhe as entranhas físicas, morais e espirituais. Todo o Estado digno desse nome tem de garantir a qualquer cidadão, só pelo simples facto de ter nascido, o direito a uma alimentação e a uma habitação condignas.
Recentemente, mais precisamente em Maio de 2008, deparámo-nos novamente com a prova, perniciosa e atávica, de falta de informação e de conhecimentos que ainda influenciam a esmagadora maioria da mentalidade nacional. Ei-la, extraída de uma entrevista do jornal Público ao coordenador do estudo “Um Olhar Sobre a Pobreza”, Alfredo Bruto da Costa (o sublinhado é nosso):
Pergunta: «Há uma afirmação dura: “A sociedade portuguesa não está preparada para apoiar as medidas necessárias” no combate à pobreza...».
Resposta: «Isso porque num inquérito europeu de 2002 dois terços dos portugueses atribui a pobreza a factores que não são solúveis: fatalismo, má sorte, preguiça dos pobres. Se eu disser que vou tomar uma medida que terá alguma desvantagem para os que têm mais rendimentos, a sociedade portuguesa não vai perceber isto. Um dos programas de luta contra a pobreza tem que ser o de esclarecer a opinião pública sobre as verdadeiras causas da pobreza».
Custa a acreditar que um povo, que se quer culto, desenvolvido, bem-educado e despido de preconceitos tão obsoletos, mantenha esta reserva mental sobre um problema tão grave como é o da pobreza. Mas como factos são factos, e “contra factos não há argumentos”, tentemos, ao lado de Bruto da Costa, determinado e lúcido combatente pelo Bem Comum, compreender (para depois esclarecer) “as verdadeiras causas” deste tipo de conservadorismo, no mínimo vergonhoso e decadente. Não nos parecerá difícil consegui-lo se o fizermos à luz de um excerto publicado em "A Ciência da Polis III":
“A Igreja Católica é a maior fraude da História. Há 1700 anos que oprime as consciências. Dos cérebros, tantas vezes perversos e tantas vezes cruéis, dos que fizeram a sua ortodoxia, saiu a teologia absurda, pueril e monstruosa, partilhada nos aspectos essenciais pelas Igrejas protestantes saídas do seu seio. Os melhores e mais puros cristãos, juntamente com os sábios pagãos – mais a sua magnífica filosofia, ciência, arte e cultura – foram perseguidos e eliminados. Pensar, estudar e investigar foram amaldiçoados por Papas e seus ideólogos. O estigma do pecado e da condenação ao inferno, a eliminação da liberdade de pensamento, a hecatombe de vítimas provocadas pelos apaniguados da Igreja Romana desvirtuaram o genuíno sentimento religioso e condenaram milhões a acreditar nas mais estúpidas concepções”.
Estes factos, que são verdades irrefutáveis, ainda ecoam no subconsciente (onde reside o nosso instinto de sobrevivência) da maioria dos portugueses, afectando a sua lucidez mental e a sua nobreza de sentimentos. Como se isto não bastasse, e na outra vertente, a política de educação continua a exigir-lhes a mesma e obsoleta dependência e menoridade face ao autoritarismo dos poderes. Não será, portanto, de admirar que na sociedade portuguesa do século XXI – que, enquanto país membro de uma das maiores potências mundiais – a União Europeia – em inúmeros domínios, como o económico, político, científico e social, já deveria estar livre do ferrete do obscurantismo, do fanatismo, da superstição, do egoísmo e do preconceito – ainda se usem conceitos tão abstractos e com tantas implicações em todos os níveis da realidade humana como “fatalismo”, “má sorte”, “preguiça dos pobres”!
Talvez a maior parte dos dois terços de portugueses que responderam ao inquérito de 2002 dessem, hoje, uma resposta diferente, pois teriam uma consciência mais lúcida, mais próxima do quotidiano, porque expostos não só aos seus próprios fatalismos e más sortes, mas principalmente à sua própria preguiça, agora na situação de novos pobres. É que, quando o mal bate não apenas à porta dos outros, mas também à nossa, parte da sobranceria que nos tolhe a razão desaparece. Já devíamos ter aprendido o suficiente com a sabedoria popular para saber que “há males que vêm por bem” e para, quando confrontados com os problemas económicos, deixarmos de nos iludir com o sedutor, mas nunca eficaz, “passar a batata quente das nossas mãos para as dos outros”!
Finalmente, os pobres: terão eles, de facto, uma tendência natural para a preguiça? É, no mínimo, estranho que assim seja, pois é duvidoso que lucrem algo com ela. E os ricos…? Quem beneficiará com a posse da riqueza, os ricos ou os pobres? Então, será que tal bênção divina estimulará os ricos a trabalhar para acabar com tais privilégios? Pelos vistos, houve, nesse célebre inquérito, quem se tivesse esquecido do nosso Almeida Garrett nas “Viagens na Minha Terra”, publicado em 1846!: “…Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal; comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas-políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico. Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao Diabo, o número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro – seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis”.
Ao não garantir este direito basilar – comida e habitação – nenhum dos órgãos do poder político, até ao presente, é legítimo (cumpridor da Lei), pois defrauda de forma grosseira e vergonhosa as expectativas (isto é, a Lei suprema, o Espírito em cada ser) que cada cidadão activo ou potencial, isto é, adulto ou criança, nele deposita, pois, sem vermos assegurados os direitos fundamentais, os “bens humanos”, jamais poderemos obter os “bens divinos”. É como acreditar que conseguimos criar belas e inspiradoras obras de todo o género, ou pensar abstractamente em valores universais e princípios humanos ou em novas formas de organização social quando a fome nos faz contorcer de dor.
Quanto ao significado real de pobreza, parece não restar dúvidas de que esta se encontra hoje reduzida à dimensão mais visível e material: a monetária. Mas será mesmo assim? Quantos pobres nunca permitiram que ninguém lhes retirasse a dignidade? E de quantos ricos podemos dizer o mesmo? Bastará recordar o simbolismo bíblico de Job, que exemplifica na perfeição um tipo psicológico que faz parte do Reino Humano.
E, quanto à alegada e inerente compensação em dinheiro pelo esforço efectuado em qualquer actividade ou profissão, é suficiente pensarmos nas crianças (criadoras por excelência, segundo Platão e João dos Santos, distanciados no tempo mais de dois milénios), tão bem referenciadas num projecto belo, inovador e pleno de potencialidades – o Projecto Vénus: «Os seres humanos precisam de um ‘estímulo’ recompensador para fazer coisas significativas? Esta é uma perspectiva triste e incrivelmente negativa do que seja o ser humano em geral. Supor que uma pessoa precise de ser “motivada estruturalmente” ou “forçada” a fazer algo é simplesmente absurdo. Lembremo-nos de quando éramos crianças e não tínhamos a menor ideia do que fosse dinheiro. Nós brincávamos, éramos curiosos e fazíamos muitas coisas... Porquê? Porque queríamos. No entanto, conforme o tempo passa no nosso sistema, a curiosidade e auto-motivação naturais são extirpadas das pessoas, pois elas são forçadas a ajustar-se a um sistema de trabalho especializado, fragmentado, quase pré-definido para poderem sobreviver. Por sua vez, isso costuma criar uma revolta interior natural nas pessoas devido à obrigação, e foi assim que separámos os momentos de “lazer” e de “trabalho”; e a preguiça, que aqueles que defendem o sistema monetário (por alegar que ele cria estímulo) não reconhecem. Numa sociedade verdadeira, as pessoas seguem as suas inclinações naturais e trabalham para contribuir para a sociedade – não porque são “pagas” para isso, mas porque têm a consciência de que colaborar com a sociedade ajuda tanto a si próprias quanto a todas as outras pessoas. Esse é o estado elevado de consciência que esperamos transmitir. A recompensa pela sua contribuição para a sociedade é o bem-estar daquela sociedade... o que, por consequência, é também o seu bem-estar…».
2. Contrariamente ao que perpassa pelas esferas dos vários poderes ilegítimos – e ouso acrescentar que não temos hoje nenhum poder que não o seja, pois todos têm degradado a condição humana, em vez de a elevar, seja a dos pobres (tornando-a menos pobre e ignorante e mais culta e exigente), seja a dos ricos (tornando-a menos rica e mais filantropa) –, existem de facto direitos adquiridos. Trata-se dos direitos civilizacionais, daqueles que permitem que jamais se regrida da civilização para a selvajaria e pelos quais tantos dos nossos antepassados sacrificaram a própria vida e o que de melhor e mais nobre possuíam.
Somente aqueles que pretendem e lutam para que um dia os poderes se tornem legítimos são capazes de compreender, transmitir e garantir que a consolidação da observância desses direitos se deve estender aos que deles ainda estão arredados, e nunca – como alguns ditadores encobertos e disfarçados de democratas pretendem – que sejam os “deserdados” o termo de comparação para que os considerados “privilegiados” percam os frutos do progresso, pois o resultado inexorável deste tipo de mentalidade será o despojamento final da dignidade de todos, como nos recorda a triste trilogia do passado “clero, nobreza e povo”. A eliminação dos direitos adquiridos significará a absoluta paralisia de toda a acção, vida, movimento, produção e investigação inerentes a todos os indivíduos, mesmo primitivos, bem como a total hecatombe e desmoronamento da Humanidade. Façamos a analogia deste conceito de “direitos adquiridos” – para avaliar da sua pertinência e sustentabilidade – com um exemplo físico, material: a construção de uma ponte. Como todos sabemos, só é possível unir as duas margens de um rio, que significa unir horizontalmente cada extensão do tabuleiro, após a consolidação vertical dos pilares sobre o leito do mesmo. A partir dos pilares, vai-se avançando na direcção desejada até se cobrir toda a extensão desse abismo inicial. Em casos particulares, a ponte possui um único pilar – que fica situado a meio do leito do rio –, de onde saem simetricamente, isto é, avançando em simultâneo para as duas margens, uma espécie de “braços ou carrinhos” até se consumar a ligação à terra firme. A colocação simétrica e simultânea dos dois “braços” evita a queda do pilar, que seria inevitável com a projecção de um único para uma margem (com a intenção de só depois se ligar à margem oposta). Nesta analogia, podemos metaforicamente vislumbrar facilmente a ascensão e o reencontro final da Humanidade – inicialmente separada pelo abismo das desigualdades, dos egoísmos e da indiferença individual e de grupos isolados –, cujos pilares suportam e permitem o progresso sempre renovado e cada vez mais abrangente e inclusivo. Assim, as conquistas anteriores – ou direitos adquiridos de hoje – de alguns pioneiros no passado tornar-se-ão no futuro património de todos.
3. Nenhum trabalho, ofício, instituição deverá ser um fim em si mesmo, mas antes um instrumento ao serviço do Bem Comum e a sua extinção não pode significar a desgraça para os seus profissionais, mas, pelo contrário, a ascensão a um patamar superior de cultura, consciência e civilização. Basta pensarmos numa sociedade sem prisões nem hospitais para compreendermos isto.
Aliás, a ser assim, aqueles que tivessem escolhido a profissão de guarda prisional estariam definitivamente dependentes da existência e do aumento de condenações a prisão efectiva dos seus compatriotas. Nenhum juiz ou advogado deveria querer ver perpetuadas as situações de litígio para garantir a sua sobrevivência e dignidade, nem nenhum médico deveria desejar para o seu país um mau sistema educativo só para ter doentes que lhe garantissem uma posição social de destaque e uma situação financeira invejável. Antes de mais, todos estes profissionais são membros de um reino da natureza dotados de Vida, Qualidade e Aparência – ou Espírito, Alma e Personalidade – especificamente humanas, com tudo o que isso representa na sábia economia da Natureza (“obter-se o melhor resultado com o mínimo esforço”) para a incomensurável Mente Cósmica.
Ensina-nos Aiax, um Mestre da Humanidade: “Quando um animal começa a vibrar no pólo da mente, torna-se num homem. Quando um homem principia a vibrar no pólo da alma, torna-se num discípulo. Quando o discípulo se capacita a elevar-se ao pólo da alma, torna-se num iniciado. Quando um iniciado principia a vibrar no pólo do espírito, transfigura-se. Quando um alto iniciado transfigurado se capacita a elevar-se ao pólo do espírito, é iniciado perante o Cosmos e torna-se num Mestre…”. (1).
Estas palavras poderão parecer destituídas de objectividade ou de sentido prático para a pseudo-intelectualidade vigente. Nem surpreende que assim pensem os seus protagonistas, inclusive alguns “filósofos”, ou melhor, “sofistas” – os mercenários do ensino na Grécia antiga –, pois, na verdade, são eles os cegos proclamadores das “verdades” convenientes para a manutenção do ignóbil status quo social que pretendem preservar e ampliar à escala global.
A este propósito, vale um ensinamento proveniente da fonte antes referida: “Um homem que é só um homem não pode sentir a eternidade. Por isso, os filósofos que não se superaram a si mesmos jamais puderam encontrar respostas para as questões metafísicas. A eternidade somente pode ser consciencializada por um Deus. Assim, se procurais encontrá-la, sabei que o buscador adequado é o Deus interno. Do mesmo modo, se procurais a Beleza e a Verdade eternas, sabei que existe em vós a centelha divina capaz de ecoá-las. A única forma de as vivenciar depende, porém, do grau em que sois conscientemente essa centelha. Se vos identificais com o mutável, movediço e incerto mundo da morte, se vos identificais com o não-Ser, desesperai de encontrar o Ser. O caminho do Ser é um caminho de sintonia entre essências iguais. O semelhante é o único capaz de encontrar o semelhante. Por isso, se quereis encontrar o Amor, o Saber e o Poder, deixai que o pólo espiritual em vós vibre e se expresse. Deixai o vosso Deus Eu Sou encontrá-los” (2).

(1) As Novas Escrituras, vol. II, Mensagens dos Avatares Invisíveis, do CLUC, pág. 79. (2) Idem, pág.77.

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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A Ciência da Polis IX


Nesta nona parte, reflectimos sobre a força determinante da educação, no sentido da elevação, consciência e responsabilidade.


Texto José Luís Maio fotografia Dina Cristo

Para o desenvolvimento harmonioso da criança, já foi dito e repetido, é necessária a presença da mãe até, pelo menos, aos três anos. Para justificar esta asserção, fazemos a seguinte transcrição, limitada à nossa natureza fisiológica, mais precisamente à bioquímica, para não nos alongarmos demasiado:
“Lembremos que na mulher, curiosamente, alguns dos éteres (designadamente os denominados «de vida») são positivos, «fecundantes» e construtores; são, verdadeiramente, os elementos de liação e coesão dos tijolos celulares químicos. A progesterona, hormona feminina responsável na reprodução, é, em consequência, riquíssima em fósforo – o elemento intrinsecamente representativo do éter. O corpo feminino tem, pois, naturalmente, na sua constituição, maior percentagem de fósforo – sendo esta, aliás, uma das razões por que a mulher apresenta maior índice de longevidade do que o homem. É também um dos factores que está na base da menor incidência de alopecia (vulgo calvície) na mulher; a resistência à desagregação ou desligação dos corpos (quando em momentos de risco) faz-se, pois, mais notória. Os conceitos hodiernos em puericultura e em pediatria não contemplam algumas vitais situações de facto. De harmonia com o anteriormente exposto, não se deveria nunca apartar um nascituro da radiação ou proximidade da sua mãe até à idade de, pelo menos, três anos. A aura feminina é vitalizante e nutriente, por si só. Na natureza, veja-se o exemplo da acção da polaridade feminino-negativa nas galinhas: o facto de estas serem fêmeas provê a «potencialidade» de chocar os ovos. Chocar quer dizer, então, nutrir por via etérica – exogenamente (a osmose subtil, pela «atmosfera áurica» comum). Os ovos chocados naturalmente pelas galinhas são por isso pródigos em fósforo”.(1)
O acima exposto, baseado em provas científicas irrefutáveis, cala em definitivo as vozes da arbitrariedade contra os direitos das crianças e das mães e do despotismo esclavagista empregador de mão-de-obra a qualquer preço, nomeadamente à custa do futuro de qualquer povo que se pretenda saudável e culto.
A esse respeito, continuamos com Platão: “… Eu ainda sustentaria, sob o risco de parecer que gracejo, que as mulheres gestantes, mais do que qualquer outra pessoa, deveriam ser objecto de cuidado durante os seus anos de gravidez no sentido de não se entregarem a prazeres reiterados e intensos em lugar de cultivar durante a totalidade desse período um humor jovial, leve e sereno… Todos devem esquivar-se a uma vida de prazer ou dor sem mescla e trilhar sempre o caminho do meio”.(2)
Quanto às crianças mais velhas, diz-nos ele: “… A formação do carácter da criança de mais de três anos e até aos seis exigirá a prática de jogos…; neste período far-se-á uso do castigo a fim de impedi-la de ser indolente…, dever-se-ia evitar enraivecer as pessoas punidas por meio de castigos degradantes, ou amolecê-las deixando-as impunes; …há jogos que nascem do próprio instinto natural e elas mesmas inventam-nos sempre que estão juntas… Após os seis anos… tanto meninos quanto meninas passarão a receber instrução; os meninos aprenderão equitação, o manejo do arco, o arremesso do dardo e da funda; as meninas, por pouco que se prestem a isso, também deverão participar das lições, especialmente daquelas que se referem ao manejo de armas… Todas essas matérias terão que contar com o zelo dos magistrados masculinos e femininos…, visando que todos os meninos e todas as meninas possam ser sãos de mãos e de pés e possam não ter, de modo algum, as suas naturezas distorcidas pelos seus hábitos. As lições podem, por uma questão de pragmatismo, ser divididas em duas categorias: as da ginástica que educam o corpo e as da música que educam a alma. Há dois tipos de ginástica: a dança e a luta. No que tange à dança há um ramo no qual o estilo da Musa” [que inspira à música, no seu sentido mais vasto] “é imitado, preservando ao mesmo tempo liberdade e nobreza, e outro que visa a saúde do corpo, a sua agilidade e beleza, assegurando para as várias partes e membros do corpo o grau adequado de flexibilidade e extensão e conferindo-lhe, ainda, o movimento rítmico que é pertinente a cada uma das partes e membros e que tanto acompanha quanto é distribuído completamente durante a dança. Entretanto, os exercícios de luta íntegra, tudo o que destaca a maneira pela qual se desimpede o pescoço, as mãos, os flancos quando nos aplicamos a isso, somando ardor e elegância ao objectivo de obter vigor e saúde, tudo isso não deve ser omitido; mas temos que impor a discípulos e mestres… que estes últimos transmitam essas lições gentilmente e que os primeiros as recebam com gratidão. Tampouco se deverá descurar aquelas danças por imitação que se ajustam ao uso dos nossos corais…”.
Pertencendo a obra supra a uma época bastante anterior à nossa, poder-se-á pensar que tais instruções estão ultrapassadas. Porém, e por outro lado, é igualmente verdadeiro que a natureza humana permanece sempre a mesma, independentemente do momento histórico e do local geográfico a que nos reportemos. Podemos sintetizar isto definindo o Ser Humano como “um Eu Divino, uma Centelha da (na) Divindade Universal, um Ser Espiritual que, para realizar certas experiências e desdobrar os modos de expressão da Consciência Divina que tem latente, está envolto em formas materiais”. Complementando: “À medida que o trabalho evolutivo do Ser Humano vai sendo completado, as formas são reabsorvidas no Homem Espiritual que as emanou e ele, por sua vez – tendo manifestado, através de si, a Glória da Luz Divina –, retorna ao Centro Divino do Universo, o Grande Espírito em que todos os Espíritos se contêm e comungam” (3).
Resumindo: visto que, no Ser Humano, o Espírito (que se expressa por meio da Mente Superior auto-consciente, ou Alma Espiritual – Nous em grego) necessita do Corpo (da Matéria, Quaternário Inferior, ou Alma Animal – Psiche em grego) para aprender, por meio das experiências e vivências, a expressar (um ínfimo fragmento de) a Consciência Divina, pois o objectivo da “encarnação”, ou “corporificação”, é atingir a perfeição [“Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai…” (que é o Atman em sânscrito, ou Vontade Espiritual em nós)”, segundo o Evangelho de Mateus, 5, 48], é imperioso que cultivemos a saúde e vigor físicos ou corporais, para que a mente, ou Alma Humana, seja igualmente um veículo sabiamente construído e conservado, ou seja, dotado de uma inteligência criadora ao serviço do Bem Geral e agente consciente dos valores eternos e universais da sabedoria, paz e reunificação planetárias.
Recorrendo à profunda linguagem presente na Odisseia de Homero, podemos comprovar, de outra fonte, a origem e natureza divina do ser humano. Senão, vejamos: “Telémaco, a tua própria inteligência em parte te instruirá. E o resto, um daimon te suprirá; pois penso que é à vontade dos deuses que deves o teu nascimento e crescimento”. Ora, para os antigos gregos “daimon” tinha, entre outros, o significado de “deus inspirador de obras grandiosas e intuições” e era acessível a uma consciência pura, sábia e altruísta por meio de um profundo estado de meditação ou interiorização, como lhe chamava o velho Sócrates, mestre de Platão. Este “deus” era, de facto, o sexto princípio humano, “buddhi”, “intuição”, ou “amor/sabedoria”, e não alguém fora de nós, o Deus Ex Machina inacessível por toda a eternidade ao ser humano, como a teologia cristã impôs aos seus seguidores e tentou impor ao resto da humanidade, eliminando assim toda a esperança de seguirmos os ditames da nossa própria consciência mais interna – e “próxima do Divino em nós”. Quanto ao “daimon”, o cristianismo degradou-o o bastante para acabar triste e vergonhosamente como o malvado e tentador “demónio ou diabo”.
Ora, se a inteligência humana – que pode ser traduzida por adaptabilidade às situações com que nos deparamos – tiver sido de facto estimulada desde a infância a exercer as suas funções, seremos perfeitamente capazes de adaptar a sabedoria antiga às práticas actuais no domínio da saúde física, através da ginástica, e da saúde da alma, através da música – vocal e instrumental; a dança inclui ambos, o corpo e a alma.
As políticas educativas não sofreram ao longo dos últimos vinte e cinco séculos grandes alterações no que respeita ao essencial, isto é, raras foram as instituições competentes para fazer despertar nos educandos/alunos/discípulos a espontaneidade, o entusiasmo e a motivação em adquirir os conhecimentos existentes em todas as áreas da actividade humana. Pelo contrário, tudo lhes foi imposto, desde as piores técnicas de adestramento e embrutecimento humanos, até à mais sublime sabedoria desvelada pelos maiores portentos de todos os tempos – esta última evidentemente deturpada, interpolada e falsificada.
A seguirem-se as sábias orientações dadas pelos Antigos, reiniciaríamos da melhor maneira o processo de regeneração da educação, pois a evolução e o desenvolvimento de crianças e jovens efectivar-se-iam de modo gradual e harmonioso, sem hiatos, desvios, rupturas e distorções irreparáveis, como sucede actualmente, pelo que iremos terminar a abordagem deste tema com uma simples sugestão, apoiada, primeiro, no ensinamento infra, transposto do trabalho anterior, e, depois, numa comunicação mais dirigida a professores e educadores:
“A máxima pluralidade de informação possível – sobre os mais diversos âmbitos da actividade e do conhecimento humanos e não, apenas, sobre o âmbito restrito de uma profissão, quase sempre aleatória ou superficialmente escolhida – deve ser propiciada a todos; pelo contrário, o mínimo de imposição deve ser praticado. Não tendes o direito de impor uma educação de escravos. Tendes, sim, o dever de assegurar uma educação de liberdade – de liberdade interior, de liberdade de autoconstrução, de liberdade de autodescoberta”(4).

«São quatro as condições essenciais para um ensino adequado:
A busca da Sabedoria
Não se pode ensinar sem primeiro se saber. Na verdade um cego pouca vantagem retirará em ser guiado por outro cego… A busca da Sabedoria processa-se em quatro etapas que se repetem ciclicamente. A última dessas etapas sintetiza as três precedentes antes de um novo ciclo começar. Primeiramente surge o anseio de saber; depois a aquisição de conhecimentos; então a compreensão essencializa e (re)ordena tais conhecimentos; finalmente a síntese, que é Sabedoria, estabiliza-se…
A vontade de ensinar (Amor)
Nenhum verdadeiro sábio é egoísta. Um verdadeiro candidato a sábio também o não deve pois, caso contrário, estará a recusar-se a compreender uma das primeiras leis a reconhecer no seu aprendizado: a lei do Amor. Dar e receber devem, portanto, complementar-se incessantemente. O Amor une as duas metades e um dia elas serão indistinguíveis. A vontade de ensinar pode, por vezes, ter de lutar arduamente. A necessidade (ou o desejo) de descansar, as solicitações da existência quotidiana, a própria vontade de aprender mais poderão disputar prioridades com ela. Realmente impõe-se que haja um justo equilíbrio, que só a intuição pode ditar em cada caso. Contudo a vontade de ensinar, sob o impulso do Amor, tem de estar sempre presente.
Identificação
O ensino deve ser adequado ao aluno. O facto de, frequentemente, este recusar assumir-se como tal evidencia a verdade do que dizemos. A adequação faz-se necessária em várias perspectivas. Há, evidentemente, que ter em conta o grau evolutivo do aprendiz e o seu grau de (re)aquisição de conhecimento e Sabedoria… Com efeito, um ensinamento premente para o grau evolutivo daquele que ensina pode ser completamente inútil e incompreensível para aquele que aprende. Ao invés, um ensinamento muito mais simples (e quase “esquecido” pelo “professor”) pode ser bem mais frutuoso. Devem igualmente ser consideradas as circunstâncias pessoais do aprendiz. Ainda mais importante, porém, é compreenderem-se as características e linhas qualitativas de desenvolvimento e resposta do aluno. Assim a apresentação da Sabedoria pode preferencialmente exibir a força do seu Poder, o Amor que integralmente a percorre, a multiplicidade de dons inerentes, a Beleza que irradia, o rigor da Ciência que é, a possibilidade do Idealismo que desperta ou a Ordem mágica a que convida. Para que o ensino seja adequado é, pois, necessária a identificação essencial de quem ensina com quem aprende. Na luz que então se faz, o perfil do aprendiz surge revelado.
Abstracção activa
Quando tudo foi feito o melhor que pôde ser feito, pouco importam os resultados. Não quer dizer que fujamos ao seu conhecimento: eles são dados com que, talvez, poderemos melhorar a nossa capacidade e eficiência ao ensinar. No entanto – e é isso que pretendíamos significar – devemos abstrair-nos de reacções personalísticas (por exemplo, de euforia, desânimo ou irritação) ao conhecer esses resultados. Para um discípulo sábio, toda a energia disponível é posta na eficiência das acções úteis; não sobra, portanto, para reacções personalísticas. Esta abstracção é, contudo, activa. Não significa falta de diligência mas império da alma. Na verdade, a vontade de êxito a pôr no ensino deve ser ainda maior do que se os resultados interessassem desesperadamente à personalidade: “em Nome de Deus” é o lema de todos os que ensinam…» (5)
Do mesmo modo que os pais conscientes vão com os filhos assistir a jogos, exposições e actividades artísticas, gímnicas, musicais ou outras, dando-lhes assim a oportunidade de optar pelas que sintam uma especial afinidade – e todas as crianças, salvo raríssimas excepções, manifestarão um particular interesse por elas –, urge fundar campus pedagógicos (de carácter global, desde o 1.º ano de escolaridade, e não apenas universitário), dirigidos por pedagogos competentes – e aqui é vital que os professores sejam comprovadamente os mais sábios e experientes, dada a particular dificuldade inerente ao primeiro contacto de uma criança com os mundos extra-familiar e da criatividade comunitária, da ciência e da tecnologia, etc. –, integrados na Natureza (com fauna e flora adequadas) e na comunidade, que ofereçam às crianças, o mais cedo possível, as actividades mais diversificadas, de modo a poderem identificar-se com elas:
“(...) Todo o homem que se pretenda que seja bom em qualquer actividade precisa de dedicar-se à prática dessa actividade em especial desde a infância, utilizando todos os recursos relacionados com a sua actividade, seja no seu entretenimento, seja no trabalho. Por exemplo, o homem que pretende ser bom construtor precisa (quando menino) de se entreter a brincar na construção de casas, bem como aquele que deseje ser agricultor deverá (enquanto menino) brincar a lavrar a terra. Caberá aos educadores dessas crianças supri-las com ferramentas de brinquedo moldadas segundo as reais. Além disso, dever-se-á ministrar a essas crianças instrução básica em todas as matérias necessárias; sendo, por exemplo, ensinado ao aprendiz de carpinteiro sob a forma de brinquedo o manejo da régua e da fita métrica, àquele que será um soldado como montar e demais coisas pertinentes. E assim, por meio dos seus brinquedos e jogos, esforçar-nos-íamos por dirigir os gostos e desejos das crianças no sentido do objecto que constitui o seu objectivo principal relativamente à idade adulta…”.(6) E assim se cumpririam as recomendações “A máxima pluralidade de informação possível deve ser propiciada a todos” e “o mínimo de imposição deve ser praticado”.
Hoje, as escolas são autênticos presídios sem grades, isolados do mundo quotidiano fervilhante de vida e alegria e castradores da poderosa, infinita e amorosa criatividade inteligente inerente a cada ser humano. Com o novo paradigma de escola aqui proposto – e tantas e tantas vezes assinalado pelos eminentes pedagogos-filósofos de todos os tempos –, será uma inevitabilidade a libertação humana em direcção à reunificação e ao altruísmo conscientes e livres. O ser humano só pode ser livre quanto mais cedo aprender a sê-lo e quantas mais vezes passar pela experiência “erro, dor e correcção” [erro – ao desviar-se da direcção para a sua própria unidade ou divindade; dor – na alma ou consciência, como efeito desse erro; e correcção – através do redireccionamento rumo à unidade].

(1) No Templo do Espírito Santo, do Centro Lusitano de Unificação Cultural (CLUC), 1992, pág. 47. (2) O Buda Siddhartha Gautama fazia constantes alusões e exortava os seus discípulos a seguir o caminho do meio. (3) Luzes do Oculto, do CLUC, 1998, pergunta 12. (4) As Novas Escrituras, Vol. IV, A Educação, do CLUC, 1996. (5) "Como devemos ensinar" in Sementes do Jardim de Morya e Pérolas de Luz, do CLUC, pág. 97. (6) Leis, de Platão.

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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A Ciência da Polis VIII


Nesta oitava parte desenvolvemos a importância da verdadeira educação, em detrimento do mero adestramento.

Texto José Luís Maio fotografia Dina Cristo


“…A educação não pode continuar a ser entendida em termos de uma correria desenfreada para alcançar um emprego, como se (usando propositadamente uma rudeza de expressão) os seres humanos fossem animais de carga que se devam atrelar a uma carroça, ainda que dourada, tão logo seja possível. Deve, sim, começar a ser encarada como um processo de emersão de valores sólidos e de capacidades intelectuais e afectivas que permitam a cada indivíduo tornar-se mestre (ou seja, conquistar a capacidade de lidar correctamente) face às diferentes circunstâncias que a vida lhe irá apresentando… A máxima pluralidade de informação possível – sobre os mais diversos âmbitos da actividade e do conhecimento humanos e não, apenas, sobre o âmbito restrito de uma profissão, quase sempre aleatória ou superficialmente escolhida – deve ser propiciada a todos; pelo contrário, o mínimo de imposição deve ser praticado. Não tendes o direito de impor uma educação de escravos. Tendes, sim, o dever de assegurar uma educação de liberdade – de liberdade interior, de liberdade de autoconstrução, de liberdade de autodescoberta… A Nova Educação constituirá, em grande medida, o processo pelo qual se concede a cada indivíduo a oportunidade de descobrir por si mesmo – e, assim, enraizar profundamente – os princípios éticos que haverão de nortear a sua conduta social. Agindo de acordo com a sua própria convicção, com o seu livre auto-condicionamento, todo o indivíduo tenderá a encontrar a alegria ao contribuir para o bem comum…”(1).
Já foi dito algo acerca das naturezas essenciais dos animais e dos homens. O que é partilhado pelos elementos de ambos os reinos da natureza é “a mesma natureza física fundamental, bem como muitos instintos (que formam o seu subconsciente)”. Porém, o ser humano é “auto-consciente, o que decorre de ter o Princípio Mental activado (embora muito pouco, nas primeiras etapas) e, assim, um corpo mental definidamente constituído e formalmente organizado, o que lhe permite ter uma ligação individualizada entre o Espírito (que é pura unidade) e as formas materiais (diferenciadas e separadas) e, assim ter uma Alma individual, enquanto que a evolução animal se processa através das chamadas Almas-Grupo (ou melhor, das Almas colectivas, visto que se trata de uma consciência colectiva e não de uma consciência grupal, no seu sentido superior, própria da evolução super-humana”(2).
Para um melhor esclarecimento acerca do conceito “Alma-Grupo”, acrescenta-se, da mesma obra: “A Alma-Grupo de cada espécie animal preside aos seus mecanismos e determina a actuação do instinto. Como que pairando sobre cada unidade de vida, a Alma Grupal (ou Alma Colectiva) providencia os impulsos migratórios, os mecanismos de defesa, a aprendizagem da adaptação ao meio natural, a colaboração organicista (por exemplo, nas colmeias das abelhas), etc… Imagine-se os dedos de uma mão que, em simultâneo, estivessem enfiados numa placa de cartão perfurado (que impede de ver a mão como um todo). Aparentemente, no lado mais externo, eles não teriam nenhuma especial relação entre si; apesar de pertencentes a uma mesma espécie, aparentariam diferenças e seriam absolutamente independentes. Na realidade, porém, a sua verdadeira raiz e impulsos para a manifestação subjazeriam, ocultamente, do outro lado do cartão. De qualquer modo, nesse mundo aparente e dissociado da raiz que os une, cada informação é processada e transmitida para o outro lado – uma picada, por exemplo, ou qualquer outra sensação táctil. E a todo o momento o conjunto beneficia-se das informações colectadas e reencaminhadas para cada unidade. Assim acontece com a Alma Colectiva animal. A Alma Grupal pode ser comparada a uma enorme tina de água incolor (no Mundo Anímico), de que se retiram pequenas porções individuais que vêm procurar experiência no mundo externo (os animais englobados na Alma-Grupo); quando cada porção regressa ao manancial colectivo, vai-lhe introduzindo cor e substância, para ele contribuindo com a sua própria tonalidade e com os seus próprios ingredientes, conseguidos através da experiência particularizada. Da progressão dessas simbioses e combinações vão sempre surgindo (vindo à encarnação) seres detentores do produto das novas ou últimas experiências adquiridas”.
A entidade humana – por possuir “auto-consciência” e “individualidade” (única e intransmissível em relação aos demais seres humanos), isto é, por pertencer de facto ao primeiro reino da natureza em que a “unidade mental” que o completa adquire foros de “cidadania” real e plena (e só assim é que pode ser responsabilizado pelos seus próprios actos, sentimentos e pensamentos, o que não sucede nos animais) – distingue-se do ente animal e não pode ser sujeita ao adestramento que os humanos realizam neste. No animal, através da domesticação, são fortemente estimulados o veículo “kámico” (ou emocional) – por natureza inconsciente das consequências da sua acção no mundo que o envolve – e a rudimentar inteligência, subjacente a todas as manifestações de vida sub-humanas.
O total condicionamento [externo (e não auto-condicionamento, que é interno e uma expressão da vontade superior, espiritual, do ser humano – atman)] a que submetemos os animais só é “bem sucedido” porque, nestes, a inteligência (capacidade de resposta) é exclusivamente passiva e reactiva, e não activa e criadora, atributos da alma espiritual existente no indivíduo. Este, ao despertar (na personalidade) a sua consciência para patamares mais elevados – os níveis espirituais (“buddhi-manásicos”, próprios do eu superior, ou da mente superior e intuição) –, por meio da educação, da instrução e por um esforço de aprimoramento ético/moral, ficará capacitado a levar a cabo um conjunto de actividades e realizações geradoras não só de bem-estar e saúde pessoais, mas principalmente nos mundos físico, psíquico, mental e espiritual dos seres que delas beneficiem. As actividades e realizações de especial e elevada qualidade, inquestionável nobreza e vastíssimo alcance serão “imortalizadas”, ou seja, apesar de serem geradas na (e pela) personalidade (condicionalmente mortal) dos indivíduos, cobrirão o abismo que separa os níveis mentais inferiores (inerentes ao quaternário inferior) dos superiores e passarão a integrar a sua tríade espiritual (imortal), constituindo aquilo que na terminologia religiosa é conhecido por “tesouros que acumulamos no céu” (3).
Mais uma vez verificamos aqui como uma teoria científica (neste caso psicológica) é transformada em norma religiosa. De facto, “Não dissocieis a Sabedoria do Amor nem a Religião da Filosofia. A Religião deverá ser a Filosofia do Amor; a Filosofia deverá ser a Religião da Sabedoria. Unicamente assim podereis aceder à Sabedoria Divina. Se não amardes o Universo, jamais o havereis de compreender, jamais vos havereis de tornar sábios de verdade – da mesma forma como, se não amardes o vosso semelhante, nunca o podereis entender e ajudar, por mais teorias psicológicas que conheçais. Só pelo Amor a Razão de Ser que está dentro de vós pode compreender a Razão de Ser de todas as coisas… No entanto, se não dirigirdes sabiamente o amor, ele acabará por degenerar num sentimento caótico, inútil e cego, nada mais gerando senão ansiedade e bloqueios. Por isso, não estagneis num amor fraco e superficial que, tantas vezes, serve de desculpa e de pretexto para quem se recusa a fazer o esforço de aprender mais…” (4).
Para a egrégia e profunda sabedoria hindu, “velha” de muitas centenas de milhar de anos e berço de posteriores civilizações ocidentais, desde a persa à grega, uma das cinco causas da miséria humana é a ignorância – avidya em sânscrito [a (não, ausência de) + vidya (sabedoria)] –, não uma ignorância qualquer, mas a ignorância fundamental, isto é, a ignorância acerca da verdadeira natureza de todos os seres humanos.
A resposta da esmagadora maioria das nossas crianças e jovens às imposições brutais do caos social e da ignorância fundamental e congénita desta civilização – seja o desrespeito e desprezo aos pais nos lares, seja a rejeição e insurreição contra o sistema escolar – demonstra inquestionavelmente que a política de educação vigente é obsoleta e incapaz de motivar e entusiasmar, quer educadores, quer educandos, o que acaba por os tornar rebeldes, agressivos, anti-sociáveis, marginais e dependentes de todo o género de vícios.
Enquanto, por um lado, os pais não têm outra solução que não a de abandonar os seus filhos prematuramente – antes dos três anos – em instituições/depósitos apenas excepcionalmente competentes, para poder “ganhar a vida” – ou antes, na maioria dos casos, para “sobreviver” fisicamente e sem acesso aos bens realmente espirituais, os “bens divinos” de Platão –, por outro, o “habitat” escolar conserva os mesmos equipamentos cinzentos, desinteressantes e medievais, comparativamente à inebriante e tentadora tecnologia lúdica exterior das grandes catedrais de consumo, mantém os estudantes simbólica e literalmente imobilizados nos coletes de força que são os programas curriculares impostos de “cima”. É caso para perguntarmos: onde, quando e como é que as crianças podem aprender a utilizar sua própria criatividade, a desenvolver a sua individualidade, única no universo, em vez de jazer um autómato programado pela tirania alheia (por muita simpatia, revestida de “caridade esmoler”, que aparente)?
Como dizia o eminente investigador João dos Santos, a criança, no seu sentido etimológico, é alguém que não só é criado (bem-criado ou malcriado, bem-educado ou mal-educado), mas principalmente alguém “capaz de criar”.

A ciência da educação
A suprema importância da educação na vida de qualquer país tem de estar na proporcionalidade directa da envergadura ética e profissional daqueles que devem levá-la a cabo, sejam os ideólogos (legisladores e governantes), sejam os executores (pais e professores).
Contrariamente à usualmente conhecida por Sabedoria das Idades, Eterna Sabedoria, ou Ciência Espiritual, que aguarda paciente e misericordiosamente o momento em que, assim o queiramos, galvanizará todo o formidável potencial que caracteriza o Ser Humano no seu mais excelso esplendor e na sua mais magnífica estatura, no seio sabiamente hierarquizado do Todo Universal – precisamente no centro da Cruz Cósmica da plenitude da Vida, entre os reinos sub-humanos (adormecidos para a Unidade Divina) e supra-humanos (despertos e activos nessa Unidade) –, impera ainda no mundo e nas nossas vidas o pretenso, vulgar, limitado e constrangedor saber humano (a “sabença” no dizer de António Sérgio), cujos frágeis e cada vez mais obsoletos pilares teimam em perpetuar a fraqueza (física), o medo (emocional) e a inépcia (mental) na comunidade das crianças, adolescentes, jovens, pais, educadores, professores e cidadãos em geral.
É óbvio que a repressão da energia de todo o potencial que caracteriza os seres humanos – desde o nível físico até ao nível espiritual – só poderá dar maus resultados, pois é impossível reprimir seja quem for indefinida e impunemente, até ao momento da sua morte, como nos demonstra uma vulgar panela cheia de água hermeticamente fechada, ao lume.
Aprendamos novamente com Platão: “…São leis justas porquanto produzem o bem-estar daqueles que as utilizam proporcionando todas as coisas que são boas. Ora, os bens são de duas espécies, a saber, humanos e divinos; os bens humanos dependem dos divinos e aquele que recebe o maior bem adquire igualmente o menor, caso contrário é privado de ambos”.
“Entre os bens menores a saúde vem em primeiro lugar, a beleza em segundo, o vigor em terceiro, necessário à corrida e todos os demais exercícios corporais; segue-se o quarto bem, a riqueza, não a riqueza cega, mas a de visão aguda, que tem a sabedoria por companheira”.
“A sabedoria, a propósito, ocupa o primeiro lugar entre os bens que são divinos, vindo a racional moderação da alma [disposição moderadora da alma associada à inteligência; numa palavra, a temperança” (sobriedade)] “em segundo lugar; da união destas duas com a coragem nasce a justiça, ou seja, o terceiro bem divino, seguido pelo quarto, que é a coragem”.
De posse do conhecimento do que é nefasto e benéfico para as crianças, importa agora atentar para o facto de que se, conforme nos ensina Platão, “devido à força do hábito é na infância que todo o carácter é mais efectivamente determinado”, é mister estabelecer-se uma sinopse de prioridades a instituir, de modo a que os “bens” gerais – “humanos e divinos” – floresçam naturalmente em todas as crianças, passando de “potenciais” (possíveis e invisíveis) a “actuais” (efectivos e visíveis).
Também na ciência da educação é a lei hermética e universal da analogia ou da correspondência tão bem aplicada, como, aliás, não podia deixar de ser, pois, a não ser assim, isto é, se não incluísse toda a realidade, tal lei jamais poderia ser tida por “universal”.
Basta um pouco de atenção (ou, mais exactamente, de interiorização ou aprofundamento do pensamento – coisa a que, infelizmente, não estamos muito habituados, dado o ritmo frenético de vida quotidiana que decidimos adoptar, e não só…) e, de acordo com essa lei, transpormos os fenómenos básicos e elementares de manifestações da vida – neste caso, o da gravidez da futura mãe, quando o nascituro carregado de vitalidade se agita e movimenta no ventre, e o início da existência fisicamente autónoma dos recém-nascidos, quando chora poderosamente – para a instituição generalizada de um conjunto de normas educativas correctas, neste caso referentes à ginástica e dança para o corpo e à música (que inclui o canto) para a alma.
Para tal, recorramos novamente a Platão e às suas Leis: “ –…A nutrição correcta tem de ser decididamente capaz de tornar tanto corpos quanto almas em todos os aspectos os mais belos e melhores possíveis… E suponho que, tomando o mais elementar dos aspectos, os corpos mais belos devem, já da mais tenra infância, desenvolver-se com a maior normalidade possível… Acontece observarmos que, no que diz respeito a qualquer ser vivo, o primeiro impulso representa de muito o crescimento mais intenso e mais longo, a ponto de muitas pessoas afirmarem convictamente que, quanto à altura, os indivíduos crescem mais nos primeiros cinco anos de vida do que nos vinte seguintes. Mas nós sabemos que, quando o crescimento ocorre rapidamente desacompanhado de muito exercício adequado, produz no corpo males incontáveis. E que corpos que recebem o máximo de alimento requerem o máximo de exercício…
– O que queres dizer? Será que pretendemos prescrever o máximo de exercício para os recém-nascidos e as criancinhas?
– Não. Na verdade, bem antes disso. Nós prescrevê-lo-emos para aqueles que são nutridos nos corpos das suas mães… Uma tal prática é mais fácil de ser compreendida no meu Estado, porque lá há pessoas que praticam os jogos até ao excesso. Ali encontramos não apenas meninos mas por vezes mesmo homens velhos criando pequenas aves… Mas essas pessoas estão longe de crer que o adestramento que lhes proporcionam excitando a sua pugnacidade produz exercício suficiente; além disso, cada uma delas apanha a sua ave e com ela no punho, se for menor, ou no braço, se for maior, caminha muitos estádios a fim de melhorar a condição não dos seus próprios corpos, mas sim a desses animais. Assim se mostra claramente a qualquer observador que todos os corpos são beneficiados, como se por um tónico, quando são deslocados mediante qualquer tipo de movimento, seja quando são movidos por acção própria – como num balanço ou num barco a remo –, seja quando são transportados no dorso de um cavalo ou por quaisquer outros corpos de movimento célere; e também mostra que é esta a razão por que os corpos podem assimilar eficientemente os seus suprimentos alimentares e bebida e proporcionar-nos saúde, beleza e vigor… Tanto para o corpo quanto para as almas dos bebés um processo de nutrição infantil e movimentação, que seja o mais ininterrupto possível…, é sempre salutar e especialmente no caso dos bebés mais novos, que deveriam, se possível, ser balançados como se estivessem num navio; com os recém-nascidos dever-se-ia reproduzir esta condição com a máxima proximidade da condição original. Uma evidência suplementar a favor disto pode ser constatada no facto desse procedimento ser adoptado e a sua utilidade ser reconhecida tanto por quem alimenta os bebés, quanto por quem administra medicamentos. Assim, quando as mães têm filhos que padecem de insónia e desejam acalmá-los para que adormeçam, o tratamento que lhes dão não é imobilizá-los mas sim movê-los, pois embalam-nos nos seus braços constantemente; e em lugar de silêncio fazem uso de uma espécie de cantarolar e assim literalmente fascinam os seus bebés…, por meio do emprego do movimento combinado da dança e da canção como medicamento…”. Tal doença é uma forma de “medo e os medos devem-se a uma condição precária da alma. Assim, sempre que se aplica um sacudir externo a males desse tipo, este movimento externo aplicado domina o movimento (a perturbação) interno de medo e, ao dominá-lo produz uma visível tranquilidade na alma…”.

(1) In As Novas Escrituras, Vol. IV, A Educação, do Centro Lusitano de Unificação Cultural (CLUC), 1996. (2) In Luzes do Oculto, do CLUC, 1998. (3) Evangelho de Mateus, XIII. (4) In As Novas Escrituras, Vol. IV, A Filosofia do Amor, do CLUC, 1996.

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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Em quem votar?


Em final de campanha para a eleição do Presidente da República, este Domingo, publicamos um artigo de opinião do autor de um ensaio que editamos regularmente, no âmbito do qual foi proposto um Código Deontológico do Político.

Texto José Luís Maio fotografia Dina Cristo


Arredado que tem sido o povo do exercício – inequivocamente não pleno, mas um pouco mais real, ou antes, um pouco menos ilusório – da soberania, universal e constitucionalmente consagrada, nestes últimos 25/30 anos, isto é, desde que ao primeiro Presidente da República democraticamente eleito do pós-25 de Abril foi concedido um (infelizmente fugacíssimo) lampejo de lucidez e coragem ao ousar dar posse a governos da sua iniciativa, parece adequado o momento para uma breve reflexão acerca da importância e pertinência da eleição presidencial, com uma particular incidência sobre duas perspectivas, mas tendo como pano de fundo o aspecto crucial desse mesmo acto – o Bem dos cidadãos.

A questão constitucional


Mas, antes disso, e para uma melhor compreensão do objectivo aqui proposto, merece questionamento a nossa própria lei constitucional, tanto na sua literalidade, como na interpretação psicológica, axiológica e/ou teleológica, dada a sua falta de clareza, ou mesmo – e seja-me perdoada a impertinência – puerilidade (pelo menos no aspecto meramente gramatical), no que toca a princípios fundamentais relativos ao único legítimo detentor do poder, o Povo Português, e não a uma sua e ínfima componente, nem muito menos a uma sua “não expressão” imposta por uma tendência pseudo-globalizante – e não se veja nisto uma posição xenófoba, esta sim, anti-portuguesa.
A soberania popular parece estar, inquestionável e indelevelmente, consagrada logo nos seus três primeiros artigos: “Art.º 1.º – Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa… e na vontade popular… Art.º 2.º – A República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular… Art.º 3.º – A soberania, una e indivisível, reside no povo…”
Não julgo exagerada a menção ao sofisma im/explícito na letra destes artigos. De facto, a soberania popular vê-se, em primeiro lugar, afunilada, depois, coarctada e, finalmente, eliminada com a imposição (ilegítima, pois ninguém decide contra os seus próprios Bem, expectativas, direitos e deveres) nuclear, com emanações exponenciais deletérias, de ser exercida “…segundo as formas previstas na Constituição”, isto é, através dos partidos políticos, obviamente!
Ou seja, a ninguém envolvido na preparação e elaboração da Carta Magna portuguesa, como constitucionalistas ilustres e quejandos, dirigentes partidários e demais representantes da (agora conhecida por) “sociedade civil” – outra extensão burocrática do poder instituído que só serve para alargar o fosso que separa o Povo do efectivo exercício da sua cada vez mais inalcançável soberania –, ocorreu outra “forma” de poder que não esta, a sectária, cega, informe, sombria e que nos meteu “…no gosto da cobiça e na rudeza/Duma austera, apagada e vil tristeza.”(1)
Isto será caso, por um lado, para fundadamente se concluir que nada se aprendeu com os erros do passado, tenha este sido usurpado tanto por via eleitoral, seja unipessoal, seja partidária, como pela força bruta da tirania, e, por outro, para a oportunidade da emergência do que há tantos séculos tem faltado, qual seja um modelo de revigoramento ético que erradique as iniquidades das principais instituições contra os Portugueses, mas anunciadas como se fossem em seu nome – na esteira, aliás, da prática teológica (contra os seus cânones) em relação a Deus –, se necessário substituindo-as ou eliminando-as pelos crimes de lesa-pátria e, concomitantemente, responsabilizando, no mínimo com a sanção de total impedimento futuro, os autores desses atentados à soberania nacional, que é como quem diz, utilizando uma terminologia político-constitucional, soberania popular.

A adiada e dupla legitimidade do Presidente da República

Não fora a origem partidária de todos os Presidentes pós-Ramalho Eanes, ligações e cumplicidades essas perfeita e indelevelmente sanáveis por demonstrações e atitudes inequívocas de distanciamento e independência, tais como a rejeição nas suas campanhas eleitorais não só de militantes de segunda e terceira linha, como o apoio declarado e oficial dos próprios partidos anunciado pelos seus dirigentes máximos aos candidatos, e bem assim a sua exclusão das respectivas comissões de honra – como se os reais dignitários nacionais fora das lides partidárias inexistissem em número suficiente que justificasse o recurso a essas forças –, como dizia, não fora tudo isso e teríamos certamente Presidentes muito mais activos, exigentes, entusiasmantes e realmente representativos da natureza universalista dos Portugueses “d’Aquém e d’Além-mar”.
Se da escolha de um cidadão que nos represente e seja o porta-voz e símbolo do que de essencial ou profundo somos enquanto povo e enquanto República [no sentido de que o prefixo “res” que forma o nome “república” significa “realidade”] não resultar um efectivo desenvolvimento e aperfeiçoamento de toda a comunidade nacional e de cada um dos seus elementos constituintes – mais, muito mais, do que uma figura apoucada e meramente legitimadora de decisões governamentais e de deliberações dos deputados (banais correias de transmissão dos chefes partidários), mesmo que ocasionalmente delas discordante –, parece evidente que essa eleição será (mais) um acto popular inócuo e pueril. Um Presidente da República realmente (e não apenas auto-proclamado) “de todos os Portugueses”, legitimado pelos cidadãos em pé de igualdade, e não por uma particular prerrogativa ou uma pretensa representatividade, estaria numa situação ímpar para exigir dos titulares dos órgãos do poder político a aceitação de um Código Deontológico, em cuja redacção participariam todos os cidadãos com propostas válidas e pertinentes, exigente o bastante para afastar dos elevados cargos públicos os indignos, inescrupulosos e ignorantes no fundamental acerca da imensa e formidável aventura humana.

A urgência da educação

A outra área decisiva na acção presidencial, o primeiro (tenhamo-lo bem presente) representante da vontade do Povo, é a educação. O passado tem sido pródigo em ensinar às civilizações que lhe sucederam que a principal causa da decadência dos povos foi o desprezo a que ela foi votada, tendo a sua última vítima – a vetusta e paradigmática cultura e civilização grega – enfatizado, através de Platão, o papel essencial da Paideia (conceito que significa formação integral) no desenvolvimento e aperfeiçoamento da verdadeira Democracia e dos seus efeitos benéficos nos cidadãos.
Somos mesmo levados a crer que o principal factor de incompreensão e até rejeição do pensamento platónico por parte da actual pseudo-elite reside na sua incapacidade de interiorizar o simples facto de que os melhores governantes são aqueles que melhor se auto-governam, ou foram capazes de conquistar o domínio sobre si mesmos, isto é, o domínio do Eu inferior pelo Eu Superior constituintes da nossa natureza. Sem essa consciencialização, fruto de toda uma prática difícil, continuada e persistente em torno de um novo relacionamento humano, todos continuaremos a jazer inanes e embrutecidos física, mental e espiritualmente, pesem embora o avanço e a proliferação dos formidáveis recursos científicos e tecnológicos que possam rodear-nos e ocupar-nos.
Uma geração inteira foi enformada pelo sistema educativo saído da Revolução dos Cravos. Concedendo aos responsáveis políticos o benefício da dúvida pelo atraso de todas as reformas necessárias à extinção da educação repressiva do Estado Novo e de outras tentativas totalitárias de tomada do poder, o certo é que a essa geração ninguém retira o ónus da indefinição – para não dizer incompetência – dos governos “democráticos” deste último quarto de século nesta área vital e decisiva para todos nós e para o futuro de Portugal.
E quem, senão alguém com a legitimidade advinda do sufrágio popular directo, estaria na melhor posição para – também aqui – exigir aos (outros) responsáveis o desencadeamento de uma verdadeira regeneração da nossa natureza autêntica e imorredoura só possível através da educação correcta e libertadora?
A continuar nesta esteira, jamais será dada aos portugueses a oportunidade de crescer e desenvolver-se em inteligência, sensatez, bom senso, integridade, real competência técnica e científica, maturidade e cultura, a exemplo da Grande Civilização Helénica, e assim permanecerão, eternamente infantis, idiotas, egoístas e escravizados por tiranos disfarçados de democratas – pois as máscaras caem a cada dia que passa para cada vez mais cidadãos oferecidos no holocausto das “escolhas democráticas” por demais evidentes na divisão para reinar.
Eis expostas – esperamos que com não muita opacidade e o mínimo de clareza – as razões que considero fundamentais para legitimar a candidatura de um Presidente da República verdadeiramente digno de um “nobre Povo e de uma Nação valente”, ansiando pelo surgimento de alguém com provas inequívocas de serviço aos demais.

(1) CAMÕES, Luís - Os Lusíadas, X, 145

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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A Ciência da Polis VII


Nesta sétima parte abordamos a importância da educação, como fundamento da consciência, virtuosismo, justiça e vontade de bem (comum).

Texto José Luís Maio fotografia Dina Cristo



“…Se a causa da decadência dos Estados deve ser buscada na incultura, isto é, na falta de sinfonia entre os apetites e a razão na alma do governante – quer seja um só, quer sejam vários-, a conclusão é que deve ser arrebatada ao homem inculto qualquer influência na direcção do Estado. E pode muito bem acontecer que, neste sentido profundo, se tenha de considerar inculto mesmo alguém que a opinião geral considere tipicamente culto: o hábil calculador de rápida percepção mental, o que sabe exprimir-se engenhosamente. Mais ainda: Platão vê nestas qualidades um certo sintoma de que o instintivo predomina em quem as possui…”(1).
São demasiado dramáticas e conducentes às mais indesejáveis consequências, quer para cada ser humano, quer para os povos, estados e nações, todas as iniciativas de abolição das fontes de sabedoria que ao longo das eras foram o suporte e o farol da grandeza das civilizações e dos indivíduos, para que continuemos a ignorar as tragédias que provocaram, a fingir que nunca existiram, ou a “branquear” a corrupção ou perversidade intrínsecas que as caracterizam. Também justificámos (citando Eclesiastes) que nada há de novo sobre a Terra (“debaixo do Sol”) que já não tivesse acontecido no passado, como exemplificaremos com a seguinte transcrição do livro de Werner Jaeger: “… Após a derrota dos Espartanos, Epaminondas” [general de Tebas dos séculos V/IV a. C., até então dominada por Esparta] “arrancou os Messénios da sua secular situação de hilotas” [escravos dos espartanos, párias] “e restituiu-os à liberdade, para deste modo provocar no Peloponeso uma discórdia interna que rematasse a obra de destruição guerreira do inimigo. Estes acontecimentos tinham por força que suscitar no coração dos partidários do espírito dórico na Grécia inteira a dúvida do que teria sido a história grega se os Estados dóricos do Peloponeso, Esparta, Argos e Messénia, em vez de se dividirem em querelas internas, se tivessem fundido numa unidade política… A causa da sua decadência não fora a falta de valentia ou de arte da guerra, como um espartano poderia pensar, mas a sua incultura (amatia) nas matérias humanas mais importantes. Para Platão é esta profunda incultura que, hoje como outrora, destrói os Estados e continuará a destruí-los também no futuro. Quem quiser saber em que consiste esta incultura será remetido ao que ficou exposto nas longas investigações sobre a essência da paidéia. Esta baseia-se na verdadeira harmonia entre os apetites e a razão. Foi por seguirem no caminho dos seus apetites, em vez de enveredarem pelo caminho designado pela razão, que aqueles Estados poderosos dóricos caíram… A crítica filosófica a que, já na República Platão submetera o espírito do Estado espartano e a educação professada em Esparta é confirmada nas Leis pela esmagadora falência daquela família de povos, assim que se encara à luz do presente a sua luta histórica pelo mais alto prémio: a hegemonia sobre os Gregos, à qual parecia destinada. É como se Platão pusesse nestas páginas termo ao combate de toda a sua vida com o problema da ideia dórica do Estado. É um desfecho trágico, e nem podia ser de outro modo. Na sua juventude, ouvira exaltar Esparta como ideal absoluto, nos círculos da oposição ateniense. Na sua maturidade, aprendeu muito daquele modelo, mas, embora o êxito de Esparta, então no apogeu da sua força, parecesse dar razão aos seus admiradores desprovidos de espírito crítico, já na República Platão apontava, profeticamente, a raiz das suas fraquezas. Quando começou a escrever as Leis, já estes defeitos eram visíveis a todos. A Platão só restava agora reconhecer que foi precisamente por não ser o melhor, isto é, por lhe faltar a verdadeira paidéia e o melhor ethos que o “segundo Estado” da República teve de sucumbir. Aqueles “reis” tinham-se deixado arrastar pelo plethos da sua alma, pela ânsia de poder e honrarias, pela pleonexia, em vez de obedecerem ao verdadeiro guia, ao espírito… Exteriormente, o Estado era dirigido, como unidade, por uma pessoa, mas interiormente era dominado pela multidão de anseios e de desejos que governavam a alma deste indivíduo. Já no Górgias era em termos semelhantes a estes que Platão comparava a forma da democracia, onde imperava a arbitrariedade da multidão, à tirania, afim a ela por essência.(2) Para expressar isso nos termos da República, era a desintegração do Estado no interior da alma do governante que assinalava a ruína do seu poder externo. É que para Platão o Estado nunca é o mero poder, mas sempre a estrutura espiritual do homem que o representa...
A segunda das sete leis herméticas, conhecida por “Lei da Correspondência ou da Analogia”, ensina-nos o seguinte: "O que está em cima é como o que está em baixo", “o que está dentro é como o que está fora”, ou “como é no grande assim é no pequeno”. Como esclarecimento, continuamos a ler: “Essa lei é importante porque nos lembra que vivemos em mais que um mundo. Vivemos nas coordenadas do espaço físico, mas também vivemos num mundo sem espaço nem tempo. A perspectiva da Terra normalmente impede-nos de enxergar outros domínios acima e abaixo de nós. A nossa atenção está tão concentrada no microcosmo que não nos apercebemos do imenso macrocosmo à nossa volta. O princípio de correspondência diz-nos que o que é verdadeiro no macrocosmo é também verdadeiro no microcosmo e vice-versa. Portanto, podemos aprender as grandes verdades do cosmo observando como elas se manifestam nas nossas próprias vidas. Por isso estudamos o universo: para aprender mais sobre nós mesmos. Na menor partícula existe toda a informação do Universo”. Ora, esta reflexão – chegada até nós desde a mais vetusta antiguidade – é partilhada por um número cada vez maior de cientistas contemporâneos. De acordo com esta lei, se fizermos corresponder o permanente estado de guerra entre as várias cidades-estado da Grécia antiga ao estado de conflito ininterrupto entre as forças partidárias do país, facilmente conseguiremos profetizar a que exangue, “triste e vil” destino chegaremos como Estado, Nação e Povo, com as inexoráveis consequências a nível local e individual.
Se não fosse o desprezo e o ostracismo a que a esmagadora maioria dos políticos dos últimos vinte séculos votaram todo este imenso e riquíssimo manancial de informação e experiência dado por todas as formas de governo através das eras, mesmo as mais remotas, a sabedoria acumulada pela população do mundo actual seria suficiente para vermos hoje banida da face do planeta todas as fontes de misérias em que ainda estamos mergulhados.

A educação

Não se conhece o número dos agentes pedagógicos de todos os níveis e graus de ensino, do infantário à universidade, que consideram a educação como o processo de pôr os alunos a papaguear tudo o que alguns, do alto da sua infalibilidade catedrática, decidiram ser importante para a construção de um mundo melhor e para a felicidade e realização das pessoas, mas não devemos estar muito longe da realidade se dissermos que essa visão, monstruosa e iníqua, ou é partilhada pela esmagadora maioria dessa classe profissional, ou dela é cúmplice, para sua vergonha e para miséria de todos(3). De facto, se assim não fosse, exigiria antes o reconhecimento e estaria indelevelmente unida em torno do que já é feito nos raros espaços pedagógicos verdadeiramente, estes sim!, de excelência, onde vemos respeitados a divindade, a idiossincrasia, a singularidade, a dignidade, a individualidade, a vocação e os momentos próprios de maturação de cada aluno. Habituámo-nos a confundir os conceitos e as práticas conhecidos como “educação”, por um lado, e “instrução” ou “ensino”, por outro. É compreensível que assim seja, dada a interacção ou penetração de uma na outra, ou mesmo a sinonímia com que por vezes se reflectem no destinatário.
Segundo as Leis, de Platão, a educação “consiste na formação correcta que mais intensamente atrai a alma da criança, durante a brincadeira, para o amor daquela actividade, da qual, ao tornar-se adulto, terá que deter perfeito domínio”. Mas, logo a seguir, completa o filósofo: “…Mas é imperioso que não deixemos que a nossa definição de educação permaneça vaga, pois actualmente quando censuramos ou elogiamos a formação de um indivíduo, definimos um como educado e um outro como não-educado, a despeito deste último ser extraordinariamente bem educado no comércio… ou como piloto de uma embarcação… A educação a que nos referimos é o treino desde a infância na virtude, o que torna o indivíduo entusiasticamente desejoso de se converter num cidadão perfeito, o qual possui a compreensão tanto de governar como a de ser governado com justiça… Seria vulgar, servil e inteiramente indigno chamar educação a uma formação que visa somente à aquisição de dinheiro, vigor físico ou mesmo de alguma habilidade mental destituída de sabedoria e justiça…”.
No trabalho A Ciência da Polis V analisámos o significado do conceito “educação”. Sinteticamente, talvez possamos dizer que a educação processa-se de dentro para fora, enquanto a instrução ou ensino processa-se de fora para dentro. Isto é, através do processo educativo, o educando aprende a exteriorizar tudo o que guarda no seu interior – após uma fase de reflexão, interiorização e maturação – e havia adquirido em processo de aprendizagem numa fase anterior, de instrução ou ensino, por meio de um agente – progenitor ou tutor, professor, instrutor, etc., “de fora” (vindo do professor, tutor, etc.) “para dentro” (para a sua mente) –, de acordo com a sua particular vocação e, assim, capacitando-o a relacionar-se com o mundo (interno e externo, isto é, consigo mesmo e com os demais) e a servi-lo. A função essencial do “educador” é estimular o “educando” a exteriorizar o que o caracteriza e define como “ser humano” ou “indivíduo” num determinado momento do seu desenvolvimento global, ou numa fase particular e concreta do vasto processo de consciencialização da sua real natureza.
Neste sentido, tanto a instrução como a educação verdadeiras (baseadas em leis perfeitas e rigorosas, nunca arbitrárias ou caóticas) têm como alvo o despertar da “alma humana” ou “individualidade” (a mente superior ou abstracta, filosófica, reflexo da alma espiritual, ou amor/sabedoria, e do espírito individual, ou vontade de bem) do ser humano, de modo que a consciência se aproxime progressivamente da sua “natureza divina”. O ensino, a instrução, dá-nos a informação, o conhecimento, que permite que nos conheçamos a nós mesmos e a tudo o que nos rodeia; a educação permite-nos expressar e transmitir a consciência (o carácter) já conquistada. Ora, para que as qualidades da alma – no início em potência – sejam despertadas e trazidas à actividade – transformadas em acto –, é imperioso que comecemos por “sensibilizar”, ou “activar”, de forma correcta a estrutura que sustenta e serve de habitação a essa mesma alma, que é a “personalidade” (a mente inferior, concreta e prática, e os seus veículos ou instrumentos) – o “corpo” na terminologia ocidental comum, ou o “quaternário inferior” já referido anteriormente. Este método não soará estranho a ninguém, pois a velha máxima latina “mens sana in corpore sano” (mente sã em corpo são) é sobejamente conhecida de todos. A velha sabedoria grega recomendava que todas as crianças tivessem ginástica e música, o mais cedo possível, para serem saudáveis de corpo e alma, respectivamente. Porém, o que é que temos hoje, 2.500 anos depois, nos infantários e escolas pré-primárias e do 1.º ciclo portugueses? Continuaremos a dizer, depois disto, que é por azar ou castigo divino que somos maioritariamente um povo doente e inculto?
Toda a educação, no sentido de “paideia”, ou formação físico-anímico-espiritual da trindade humana “personalidade-alma-espírito, pressupõe um processo dialéctico de “recepção/emissão, “passividade/actividade”, regular e constante (não esporádico e ocasional), de modo a que a criança se familiarize a pouco e pouco com o hábito de contribuir, alegre, activa e lucidamente, para o bem do todo local, nacional e mundial. No entanto, os nossos espaços pedagógicos encontram-se entregues à mais mórbida letargia, à mais profunda passividade, ao mais retrógrado imobilismo físico, moral e intelectual.
Ainda nas Leis, aprendemos que é o próprio recém-nascido que emite os sinais e as indicações necessários à reaquisição do seu bem-estar e tranquilidade: “Toda a criatura recém-nascida – e a criatura humana especialmente – costuma emitir gritos; e mais, a criança vai além dos berros e geralmente põe-se a chorar…, certamente sinais que não são de felicidade. Este período da infância dura não menos que três anos, o que não constitui pouco tempo para se viver mal ou bem…”.
Adicionalmente, no pensamento, acção e obra do eminente pedagogo, pedopsiquiatra e psicanalista infantil do nosso tempo, João dos Santos, está presente a conclusão de que toda a criança, com uma educação normal, tem a capacidade de se auto-reprimir: “A criança que vive em liberdade, mas no enquadramento social humano, sente necessidade de se reprimir. A criança exige do adulto que a ajude a reprimir-se, para encontrar a segurança necessária ao seu desenvolvimento humano, à sua ânsia de atingir, igualar ou ultrapassar os adultos”.
Por outro lado, da falta de uma educação correcta nada de bom poderemos esperar. Voltemos às Leis: Toda a alma submetida ao medo desde a juventude tenderá de modo particular a tornar-se receosa, o que, todos concordarão, abre caminho para a prática da cobardia e não da coragem… A vida indolente desenvolve nas crianças um humor melancólico, tendente à cólera e muito facilmente movido pelas ninharias; por outro lado, o rigor extremo e rude a ponto de reduzi-las a uma escravização cruel torna-as vis, mesquinhas e misantrópicas e assim insociáveis… Supõe que tentássemos assegurar mediante todos os meios disponíveis que as nossas crianças de peito provassem o mínimo possível de aflição, medo ou sofrimento de qualquer espécie. Não seria de se acreditar que graças a esse meio a alma do lactente ganharia mais luz e leveza?... a vida acertada não deve nem visar (exclusivamente) aos prazeres nem se esquivar inteiramente às dores, devendo sim encerrar aquele estado intermediário de leveza, o qual é a condição da própria divindade. E sustento que quem quer que seja de entre nós que fosse divino teria que buscar esse estado de alma, nem se tornando absolutamente inclinado aos prazeres, mesmo porque com isto não estaria livre da dor, nem permitindo que nenhuma outra pessoa, velha ou jovem, homem ou mulher, ficasse nessa condição e muito menos, na medida do possível, o bebé recém-nascido, pois devido à força do hábito é na infância que todo o carácter é mais efectivamente determinado…”.
Face a tais provas e evidências, que remontam a um passado longínquo, teremos ainda o atrevimento de considerar as gerações mais novas as únicas e principais responsáveis pelos vícios que as corroem e destroem? Não será antes a incapacidade ou falta de preparação das gerações anteriores – no caso português as que atingiram a maioridade no e pós-25 de Abril e que voltaram a deixar-se enredar nas malhas (cada vez mais insidiosas) do obscurantismo teológico/político idêntico ao do antes-25 de Abril?
No nosso caso, faltaram lamentavelmente aos ideólogos e operacionais da Revolução dos Cravos as indispensáveis qualidades do lúcido Amor/Sabedoria e da intuitiva e determinada Vontade de Bem, a reger a sua nobre – porém ingénua, inexperiente, apaixonada e impetuosa – consciência. Talvez tenhamos aqui uma prova da existência do predomínio da natureza kama-manásica (ou da mente inferior, inerente à personalidade) sobre a consciência destes homens corajosos: foi provavelmente o medo de serem considerados ditadores se conservassem o poder conquistado por um impulso ou motivação digno que os levou a entregá-lo de “mão beijada” à avidez caótica e imatura dos partidos políticos, fonte desgovernada da cada vez mais caracteristicamente ocidental democracia dos medíocres, usurpadores e gananciosos provindos da mole anónima do tirânico demo, conforme profetizou o “divino” Platão.

(1) Werner Jaeger, in Paideia, A formação do homem grego.(2) Os líderes populares nas democracias são equiparados aos tiranos, Górg., 466 D e 467 A. O demos” [actualmente entendido como ‘multidões incultas manipuladas pelos demagogos’] “é um tirano a quem se têm de adaptar todos os cidadãos e principalmente todos os políticos, tal qual nos Estados despoticamente governados por um tirano… É evidente, porém, que Platão fala aqui de uma democracia que tenha degenerado num governo pela populaça. No Político distingue uma forma boa e outra má de democracia, tal como qualquer outra forma de governo pode ser boa ou má.(3) A incompetência atinge o paroxismo quando vemos muitos dos próprios docentes universitários transformados em meros e fastidiosos “ecos” dos apontamentos relativos às matérias que leccionam, limitando-se a repetir ipsis verbis nas aulas o que está escrito, como se os estudantes não soubessem ler!

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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A Ciência da Polis VI

Nesta sexta-parte recordamos o ideal político dos primeiros tempos.

Texto José Luís Maio fotografia Dina Cristo

No primeiro artigo deste trabalho foi dito que os governantes deveriam conhecer “de ciência certa”, isto é, com base na sua própria vivência, os quatro valores fundamentais – o Bem (Comum ou Geral), a Beleza, a Justiça e a Verdade –, para estarem nas melhores condições possíveis para dirigir os Estados. E porquê? Precisamente porque, se tais valores manifestam uma Realidade mais elevada, seja qual for a designação que lhe dêmos – “Deus”, “o Divino”, “o Absoluto”, “o Ser Infinito”, “a Vida Eterna”, “a Energia Una”, etc. –, esta Realidade inclui todas as formas e qualidades de ser e de consciência existentes no Universo, designadamente (para o caso que nos interessa) a Humanidade, colectivamente, e o ser humano, individualmente.
Ora, sendo o Reino Humano (o 4.º reino da Natureza) parte integrante do Divino, como os demais reinos, é evidente que os seus elementos constituintes, os seres humanos, possuem os mesmos atributos e qualidades do Ser Absoluto, “Aquele Acerca do Qual Nada Se Pode Dizer”, do mesmo modo como, de acordo com a Lei das Analogias ou das Correspondências, cada gota de água do oceano possui a mesma natureza e os mesmos elementos constituintes desse oceano (hidrogénio e oxigénio).
Quando está na posse das suas faculdades normais mais elementares, todo o indivíduo tende a relacionar-se de forma harmoniosa e pacífica com os seus concidadãos. O conflito, que dilacera a alma e nos faz sofrer com mais ou menos intensidade em todas as dimensões do nosso ser, é, portanto, uma excepção indesejável e um duro golpe no nosso equilíbrio físico, psicológico e espiritual. E, portanto, a atitude mais normal a tomar é procurarmos ver-nos livres desse estado de infelicidade o mais rapidamente possível, através dos recursos ao nosso dispor, para que possamos regressar ao “lar” (condição, atmosfera, “oikos”, raiz grega da palavra “ecologia”) da paz e, por meio da nossa capacidade inteligente, envolvida por esse estado de harmonia, criar realidades crescentemente globais e generalizadas de bem-estar pessoal, fraternidade grupal e bem-aventurança planetária.
Se todo o ser humano, enquanto exteriorização individualizada do Divino, possui dentro de si o Bem, a Beleza, a Verdade e a Justiça (ou melhor, ele próprio é uma expressão, mais fiel ou mais desvirtuada, desses valores universais e eternos), então um dos objectivos essenciais da nossa existência é a aquisição gradual de uma consciência cada vez mais elevada, até nos tornarmos uma “gota” consciente do “oceano” da Vida Divina omnisciente. Só assim poderemos legitimamente, um dia, afirmar – como fez o sábio judeu Jesus, mais exactamente Joshua Ben Pandira, há cerca de 2.000 anos – “eu sou” (uma ínfima centelha companheira numa fraternidade de Luz do Fogo Infinito de) “o Caminho, a Verdade e a Vida”.
De outro modo, andaremos eternamente à volta da nora, com a cerviz sob o jugo da opressão, da ignorância, da mediocridade e da estupidez, esbanjando e atrofiando as nossas melhores capacidades físicas, mentais e espirituais, sem outro fim que não seja o de perpetuar o sofrimento, o egoísmo, a miséria, a doença, a desconfiança, o ódio e a guerra. A insânia total dos “tempos modernos” teima em querer tirar-nos a genuína e pura alegria de viver. A sua única obsessão desvairada é pôr-nos a produzir, a vender e a comprar “bens” (ou males?) visíveis que nos vão apodrecendo o íntimo – os bens eternos e invisíveis da alma –, cujas salas, votadas ao mais completo abandono, pois nada colocamos lá que a faça revitalizar e despertar, acumulam poeira em vez de algo verdadeiramente digno. E aqui cada um de nós terá que fazer a sua opção de vida mais importante, pois, como nos adverte Morya, um grande sábio: “Sim, vós hesitais. Não estais bem certos de quererdes abdicar e servir, de quererdes servir já ou de quererdes ter coragem. Enquanto isso, o bem comum fica à espera; enquanto isso, a humanidade espera; enquanto isso, nós esperamos; enquanto isso, vós esperais. Sois a vergonha de vós próprios!...”(1).
A ignorância institucionalizada, que infelizmente se instalou em definitivo no psiquismo dos poderosos (agentes da mediocridade, da angústia, do medo e do sofrimento), só deixará de minar e fragmentar a sociedade se esta tiver a vontade determinada de se lhe opor através da sua inteligência lúcida e íntegra. Como já foi dito e repetido, o(s) poder(es) de hoje, curiosa e estranhamente – ou talvez não –, pretendem subrepticiamente banir dos programas escolares a sabedoria multimilenar inspiradora das civilizações de todas as eras e lugares. Será por acaso? A leitura (e a consequente reflexão que suscita) dos filósofos da Antiguidade fornece-nos inúmera informação sobre tudo o que está dito acima. Consta, aliás, de um dos livros do Antigo Testamento judaico-cristão, o Eclesiastes, o seguinte: “Todas as torrentes hibernais correm para o mar, contudo, o próprio mar não está cheio. Ao lugar de onde correm as torrentes hibernais, para lá elas voltam a fim de sair correndo. Todas as coisas são fatigantes; ninguém pode falar disso. O olho não se farta de ver, nem o ouvido se enche de ouvir. Aquilo que veio a ser é o que virá a ser; e o que se tem feito é o que se fará; de modo que não há nada de novo debaixo do sol. Existe algo de que se possa dizer: “Vê isto; isto é novo”? Já tem existido por tempo indefinido; o que veio à existência é de tempo anterior a nós…”.
Podemos justificar o acima exposto através de um pequeno exemplo que foi extraído do livro “Paidéia, A Formação do Homem Grego”, de Werner Jaeger, escrito em 1936. Nele, o escritor alemão comenta a obra "Leis", de Platão: “…A perspectiva de gozar um prazer ou sofrer uma dor move a nossa vida instintiva na forma de sentimentos de coragem e de medo; a reflexão valorativa indica-nos qual dessas sensações é melhor ou pior. Quando esta reflexão constitui um acordo comum da polis, damos-lhe o nome de lei. A alma só se deve deixar levar pelo fio macio e dourado com que o logos (a razão pura kantiana) a puxa e não pelos duros e férreos fios dos instintos. Quanto mais suave e menos violenta for a acção com que a reflexão guia a nossa alma, mais ela necessita de cooperação interior. Ora, … o fio do logos não é senão o que governa o Estado, sob o título de lei. Deus ou quem O conhece dá o logos à polis (sabedoria à comunidade) que o instaura como lei, a qual em seguida regula as relações da polis com ela própria e com os outros Estados. A obediência da alma ao logos é o que denominamos domínio de si…
Em "A República", a ideia do bem era concebida como o paradigma que o governante filósofo traz na sua própria alma. Nas Leis, o autor sente-se impelido a concretizar mais. Esta obra pressupõe uma Humanidade que quer saber exactamente o como e o quê, uma Humanidade que precisa de leis para todos e cada um dos detalhes da sua conduta. Nesta altura levanta-se o problema de saber como é que aquele logos divino encontrará o caminho para descer até ao Homem e converter-se em instituição política. Platão parece pensar, indubitavelmente, em qualquer forma de assentimento da colectividade, mas para ele é decisivo que se faça legislador da polis um indivíduo que conheça o divino. Nisto não faz mais do que seguir o exemplo dos grandes legisladores do passado. Os Gregos costumavam apelidá-los de homens divinos, título que cedo foi conferido ao próprio Platão. No tempo deste, mais de uma cidade grega pediu a algum filósofo para elaborar leis para o Estado. O protótipo destes legisladores, intermediários entre os deuses e os homens, é Minos, que falava com Deus. A sabedoria dos legisladores gregos está muito próxima da revelação… Fica, naturalmente, de pé a afirmação de que o órgão através do qual recebe o conhecimento do divino não é outro senão a sua razão. A sua visão não brota do êxtase e os conceitos religiosos de inspiração e entusiasmo, que Platão usa em outras obras para descrever o estado de espírito do filósofo, são por ele modificados no sentido de uma visão espiritual que constitui a meta final da trajectória dialéctica. Contudo, do ponto de vista daqueles que, sem serem filósofos, têm o dever de aceitar como lei o conhecimento do governante filósofo, este tipo de argumentação mal se distingue da revelação divina…”.
Noções e conceitos como “domínio de si”, “logos” (o nous grego, o atman hindu, a vontade espiritual no Ocidente, a intuição num certo sentido), “alma”, “instintos”, revelam-nos claramente a sabedoria superior (“divina”) e o domínio da mais elevada ciência psicológica de Platão – ainda hoje quase desconhecida e tão mal compreendida – quando, na fase final da sua vida, escreveu as "Leis".
Também graças a ele, poderemos já hoje perscrutar facilmente o futuro através da avaliação dos regimes actuais. Na época em que Platão viveu, já a famosa democracia ateniense agonizava, pois havia enveredado por caminhos que os nossos actuais legisladores e governantes teimam em conservar.
De facto, vemos o extracto seguinte, retirado da obra de Werner Jaeger: “… Referimo-nos ao paralelo que Platão estabelece entre o mau legislador e o médico de escravos, que corre de um enfermo para outro e, sem se dar ao trabalho de alegar razões nem de investigar a fundo cada caso, dá rápido e ditatorialmente as suas ordens, que retira, por hábito, da tradição alheia e da própria experiência. Comparado com ele, o médico que se dedica a tratar de cidadãos livres parece um filósofo. Fala aos enfermos como a discípulos que importa levar conscientemente ao conhecimento de um fenómeno. O médico de escravos não compreenderia nunca esta complicada maneira de instruir o doente e diria ao colega, se ele o escutasse: tu não tratas os doentes; tu educa-los, antes, como se em vez de curá-los te propusesses fazer deles médicos. Pois bem: é ao nível do médico de escravos que todos os legisladores actuais se encontram, diz Platão. Não são autênticos médicos, porque não são educadores. E é para isso que tendem todos os esforços de Platão nas Leis: conseguir um legislador no mais elevado dos sentidos, isto é, um verdadeiro educador dos cidadãos. A diferença entre esta maneira de conceber a sua missão e a do legislador corrente revela-se no desprezo dos preceitos legais de tipo usual, que outra coisa não fazem senão prever determinadas penas para determinados casos. Assim, é demasiado tarde que o legislador intervém, pois a sua missão mais importante não consiste precisamente em castigar as transgressões, mas em evitar que elas sejam praticadas. Ao dizer isto, Platão segue o exemplo da ciência médica, cuja tendência cada vez mais nítida daquele tempo era encarar como verdadeiro objecto da sua acção, não o homem enfermo, mas o homem são…”
E ainda: “… Mas se é certo que Platão concorda claramente em aceitar o preceito espartano que a todos os cidadãos impõe como dever supremo a defesa da pátria, nem por isso as Leis deixam de perseguir um objectivo maior e mais fundamental: o de encontrar a norma última da virtude e da perfeição humana… Às quatro virtudes da alma que Platão aqui apresenta como bens divinos devem submeter-se os bens humanos: saúde, força, beleza e riqueza. Onde os bens divinos são cultivados, também os bens humanos são servidos; onde, porém, só aos segundos se atende, perdem-se uns e outros ao mesmo tempo. Como já Teógnis dizia da justiça, os bens superiores têm sempre implícitos os bens ou virtudes inferiores. E a verdadeira unidade que os engloba todos, os divinos e os humanos, é a phronesis (3), a arete (4) do espírito… O ideal de coragem espartano não conhece outra educação a não ser a que se destina a desenvolver no homem a firmeza diante do medo e da dor, ignorando a que visa a resistência às tentações do prazer. Eis uma falta de coerência, que se traduz na fraqueza do homem perante os apetites… O ateniense impugna a pederastia dos Dórios como uma degeneração antinatural da vida sexual sã e censura o desregramento sexual das mulheres de Esparta… Agora é frequente chamar paideia (5) à formação em qualquer tipo de actividade e é assim que falamos da formação ou falta de formação na profissão de tendeiro ou de navegante ou em quaisquer outras manifestações do género. Mas se encararmos a paideia do nosso ponto de vista, isto é, do ponto de vista do educador que aspira a instilar no Estado um determinado ethos, um espírito colectivo que o enforme todo, deveremos, ao contrário, entender por cultura a educação para a arete, que se inicia na infância e estimula no homem o desejo de vir a tornar-se um cidadão perfeito, apto a mandar e a obedecer de acordo com os ditames do que é justo. Nenhum outro tipo de formação, que se refira apenas a especialidades, pode em rigor ostentar o nome de cultura, de paideia. Todas elas são manifestações banais, que visam o lucro ou qualquer aptidão ou conhecimento concreto e carecem de princípio directivo espiritual e finalidade recta, ou então são simples meios ou instrumentos…”.
Assim, e em referência à própria época de Platão, já degradada, lemos: “… A autêntica paideia, que sempre fora a formação do Homem na arete total, surgia desintegrada numa série de aptidões especiais, sem um objectivo que as unificasse. À verdadeira paideia, que opõe à simples formação profissional, chama ele o cultivo da perfeição humana…”.
Pode haver um texto mais actual que este, com cerca de dois mil e quinhentos anos?
É precisamente para que haja um consenso unânime em torno da constatação efectiva de estados superiores de vida e de consciência, que urge a chegada ao poder de dirigentes que conheçam (por os terem vivido) o Bem, a Beleza, a Justiça e a Verdade. Já é tristemente longa e profunda a experiência humana no que respeita àquilo que os gregos designavam por pleonexia, a ganância pela riqueza material dos senhores (melhor será dizer escravos) do poder.
(1) Sementes e Pérolas, Centro Lusitano de Unificação Cultural, Lisboa, 2.ª edição, 1996, pág. 54. (2) capítulo 1, 7-10. (3) A razão pura, o nous, a intuição. (4) Virtude. (5) cultura, formação, educação.

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