quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Jornalismo de Paz



Antes do Dia dos Jornalistas pela Paz, Sábado, seguimos de perto o artigo* do especialista Jake Lynch sobre o "Peace Journalism".

Texto e fotografia Dina Cristo

O actual interesse (teórico) e emergência (prática) de um jornalismo de paz tem a sua origem nos estudos de Galtung e Ruge, nos anos 60, e de MacBride, nos anos 80. Ambos mostraram as fragilidades do jornalismo convencional, dominado pela guerra.


Johan Galtung e Mari Ruge mostraram como os principais critérios jornalísticos – a amplitude, o inesperado, a negatividade, a frequência e a clareza – são uma escolha sistemática dos profissionais. Os três últimos conduzem quer ao privilégio dos acontecimentos, em detrimento dos processos, quer do dualismo – o costume de contar dois lados da história, o que impulsiona, ainda mais, o conflito.

Por seu lado, os dois últimos factores de noticiabilidade criam padrões de omissão – os processos positivos que beneficiam grupos e países de menor poder, riqueza, influência ou expressão – e inclusão, que conduz à preferência pelas fontes oficiais como preponderantes na definição e representação nas notícias.

Desta forma, a reportagem de mainstream tem-se orientado para a violência (o conflito entre duas partes a reivindicar apenas o objectivo de vitória), as elites (o privilégio dado a fontes oficiais, líderes políticos e militares), a propaganda (atenção às falsidades) e à vitória (saindo os repórteres assim que a guerra termina).

Mais tarde, MacBride, num estudo encomendado pela UNESCO, confirmava o desequilíbrio do fluxo de notícias a nível mundial, com os países materialmente ricos, com os EUA, a liderar como a principal fonte de notícias internacionais. O alinhamento de notícias pelas nações ainda se aplica; muito do consumo mediático é nacional na sua origem e orientação, apesar do enfraquecimento dos limites políticos pela expansão e desenvolvimento acelerado das Tecnologias de Informação e Comunicação. Há, no entanto, o risco de tal ser conotado com solidariedade em detrimento da opressão.

O hábito da citação oficial decorre da estratégia comercial da imprensa. Para vender mais jornais, acessíveis a qualquer ponto de vista político, era necessário apresentá-los de forma neutral, objectiva e imparcial. De facto, as fontes oficiais garantem a rotina jornalística, satisfazem as suas necessidades de recolha de informação de fundo e de declarações credíveis, lançando um “self serving declarations”, devidamente escrutinados pelos seus porta-vozes. São ambos sistemas institucionalizados, burocratizados, cristalizados que se asseguram mutuamente.

A sua eficácia produtiva gerou, contudo, um problema de abuso e de dependência. Só quando um acontecimento se torna preocupação oficial num dado país é que os seus jornalistas se interessam. Se, por outro lado, problemas houver que não convenham aos dois maiores partidos da democracia representativa - cujo foca se limita à dissidência e controvérsia, o que enfatiza ainda mais a oposição e dualidade – ele é ignorado ou cai da agenda.

Novo paradigma

Não é raro encontrar pessoas com uma visão de paz no âmbito de uma experiência de sofrimento decorrente da guerra. Contudo não são escutadas, vistas ou reportadas porque ou são afectadas pelos conflitos ou porque são pouco poderosas. Por seu lado, os líderes políticos, a quem os “media” prestam subserviência, privilegiando-os como fontes de informação primordiais, raramente dão um passo em prol da paz.

Contudo, desde a invasão do Iraque, em 2003, que o oficial perdeu significativa credibilidade e o militar entrou em crise de legitimidade. Acentuou-se a divergência entre a opinião política e a opinião pública, com os públicos dos países aliados cépticos (como a Austrália em 2008) enquanto os governos enviavam tropas para auxiliar os EUA. Na verdade, quando a imprensa designa Washington ou Londres quer-se referir à classe política.

O uso da força, monopólio das organizações políticas estatais, como lembrava Max Weber, só era aceite pelos americanos sob certas condições. Uma resposta a um conflito que ultrapassa a lei internacional, nenhuma vez mencionada, tal como a Carta da ONU, em qualquer dos 70 editoriais estudados por Friel e Falk sobre a ocupação do Iraque.

As instituições mediáticas, corporativas, autênticas indústrias culturais, com as suas estruturas, hábitos, usos e costumes atendem não só às suas próprias necessidades como às do sistema capitalista – motivo da sua desconexão, formal, com outros agentes importantes [como as ONG]. Porém, aumenta o nível de debate e contestação sobre a representação noticiosa dos conflitos. Segundo Michael Schudson, um dos muitos autores referidos por Lynch, o jornalista não pode aparecer como menos bem informado do que o seu público.

No presente

O activismo mediático, que desafia o padrão dominante de reprodução nos “media” globais, enfrenta hoje uma pronta e vasta oposição por parte dos jornalistas - caso de David Randall, do “Independent”, e David Loyn, da BBC – e dos círculos académicos – como Hanitzsch. Para este crítico, a paz, enquanto objectivo externo, ameaça os fins internos do jornalismo.


Pelo contrário, Jake Lynch defende que o Jornalismo de Paz (JP) é um instrumento para melhor os realizar, não só a correcção, pois a imagem que a audiência frequentemente recebe do conflito é menos pacífica do que os factos confirmam, como a justiça, com uma cobertura mais orientada para as pessoas, para as soluções e para a paz.

O "Peace Journalism" defende que o conflito enquanto problema pode parecer bastante diferente se for examinado por ângulos distintos pelos que o experienciam, o povo que está no terreno, na vida de todos os dias. Neste modelo o jornalista está preparado, procura e transmite iniciativas em prol da paz, quaisquer que sejam a sua proveniência, e representa as múltiplas e variáveis partes em conflito, perseguindo diversos objectivos e com várias oportunidades de intervenção.

O JP é, pois, uma oportunidade para colocar as respostas não violentas no debate público, para que a sociedade as conheça e valorize. A pesquisa e esclarecimento a nível mais profundo e contextual das iniciativas pacíficas é uma forma de resistência à guerra, ao terrorismo e um desafio às relações de domínio, na ordem económica, política e social mundial. E apesar das distorções e manipulações nos relatos jornalísticos tem havido maior abertura e aceitação desta prática profissional.

Exemplares


Desde o “Peace News”, já com 75 anos, ao recente “Sydney Morning Herald”, que lançou a campanha “Hora do planeta”, passando, de uma forma geral, pelo jornalismo alternativo e a “penny press”, o Jornalismo de Paz embora de uma forma descontinuada, em termos de tempo, e envergonhada, em termos de espaço, tem vindo a marcar presença (às vezes mesmo de forma pouco consciente, como o caso de David Loyn que respondeu ao autor afirmando que não fora sua intenção fazer JP).

A seguir à queda de Suharto na Indonésia, o maior jornal, “Kompas”, adoptou o “jurnalisme damai” como política editorial; o jornal de Jakarta, “Sinar Harapan” relançou o slogan “O jornalismo de paz representa a esperança de que podemos viver juntos” e a Associação Internacional de Jornalistas ajudou a encontrar um espaço seguro, em Ambon, para os repórteres contactarem com o ponto de vista do outro lado e, assim, contribuir para um mútuo entendimento.

Nas Filipinas, país com longa tradição ao nível da imprensa clandestina anti-colonial, o maior jornal “Philippine Daily Inquirer” alcançou o objectivo para o qual fora criado em 1985: contribuir para o fim da guerra. No conflito entre Israel e o Líbano, em 2006, Shinar encontrou uma notável limitação da penetração do discurso militar e uma considerável atenção às fontes orientadas para os civis. No caso do Afeganistão, Hackett e Schroeder identificaram perspectivas de múltiplas partes em conflito bem como critérios de Jornalismo de Paz em cerca de 3/10 dos artigos estudados.

Quando as excepções proliferam no modelo actual é sinal de que um novo paradigma está a surgir. Para tal, contribuem os activistas de “media”, que tomam iniciativas em prol da mudança a três níveis: dos jornalistas, com acções pedagógicas com vista à diminuição do uso da linguagem militar (e de vitimação); da audiência, com acções educativas e críticas com vista à consciencialização em relação à importância da linguagem como condutora, indirecta, da violência ou da reconciliação e harmonia social, de acordo com o discurso, e, por fim, dos meios, com a fundação, por uma agência da ONU, de um Banco de Desenvolvimento de “Media” como uma forma de criar mais meios com base no JP, de modo a formar um sistema de ética mediática à escala global.
Dov Shinar que fez o ponto da situação em relação ao Jornalismo de Paz, em 2007, actualizou as recomendações de MacBride sugerindo o trabalho em rede da imprensa independente, o treino em literacia mediática, para jornalistas e audiência e a garantia de acesso das minorias, sobretudo aos novos “media”. Uma exortação para que se encontre um lugar na actual prática noticiosa para o Jornalismo de Paz.



Um remédio para as influências nefastas dos critérios adoptados pelo jornalismo tradicional, nomeadamente na sociedade ocidental, liberal e individual e a defesa de que se podem e devem alterar as escolhas, sobre que histórias contar e como, tendo em vista a perversidade de invasões a outros países, como as ocupações recentes no Médio Oriente e na Ásia, em pleno séc.XXI ao que se juntam os efeitos de stress causados na audiência por um Jornalismo de Guerra.

* LYNCH, Jake – Peace journalism in ALLAN, Stuart (editor) - The Routledge Companion to News and Journalism. London and New York, 2010, p.541-553.

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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Vida simples


No próximo Sábado começa a Semana Internacional de Downshifting, um movimento que propõe, há 14 anos, a simplicidade como modo de vida: decrescer, desacelerar e viver mais com menos; ser simples por fora e rico por dentro.

Texto e desenho* Dina Cristo

Num momento de crise, em que se continua a insistir nas políticas de crédito, consumo e crescimento económico, a simplicidade voluntária (re)surge com uma visão alternativa para a solução dos problemas gerados na sequência do excesso de produção e consumo da era industrial, nomeadamente os ambientais.
Recuperando de tempos ancestrais a ideia de despojamento material, os adeptos e teóricos deste movimento sócio-cultural propõem a sua aplicação nos nossos dias, nomeadamente na Austrália, Brasil, EUA ou Grã-Bretanha.
Desde Lao Tsé, S. Francisco de Assis, até Thoreau ou Gregg**, vários têm sido os autores a proclamar que o dinheiro não traz felicidade, pelo contrário. Há cerca de 30 anos foi a vez de Duane Elgin escrever “simplicidade voluntária”. De então para cá o movimento cresceu e desenvolveu-se. Em “Jardim da simplicidade”, o autor actualiza a concepção de vida simples e descreve dez áreas onde é influente.
São vários os dinamizadores das atitudes simples. Vicki Robin ensina a não gastar dinheiro e a calcular o salário real (subtraindo todas as despesas que acarreta e o tempo efectivo que consome), Jorge Mello lidera as acções no Brasil e Tracey Smith, fundadora da Semana, então nacional, de Downshifting, ocupa-se (a aconselhar indivíduos, empresas e escolas) em reduzir os desperdícios e transformar o lixo em recurso. Algumas das suas sugestões passam por desligar a televisão, largar o cartão de crédito, dar alguns dos seus bens ou cozinhar.
Hoje, este modo de viver melhor com menos é praticado por empresas como a Simple Living Network, pessoas comuns, ou publicamente conhecidas enquanto meios de comunicação tradicionais vão-se adaptando às últimas desta vontade de simplificar a vida.
Decrescer
O movimento assenta em cinco valores básicos: simplificação material, escala humana (pequeno é belo), auto-determinação, consciência ecológica e desenvolvimento pessoal. A sua atitude passa por desprender-se de tudo o que não é essencial e não contribui para a felicidade. Desta forma, por vezes, trocam empregos de prestígio e bem pagos por outros onde auferem menos salários mas gastam menos tempo obtendo maiores níveis de satisfação.
Dispensam salários bem remunerados em carreiras de sucesso, mas plenas de stress e em áreas que não os realiza, para despenderem de mais tempo, necessitando de menos recursos económicos, em actividades de lazer, criativas, vida familiar e auto-conhecimento.
Trata-se de uma opção, consciente e voluntária (ao contrário das vítimas de uma pobreza inesperada e indesejada, os chamados novos pobres), de troca de dinheiro por tempo. Estes homens e mulheres, com uma atitude mais amiga do ambiente, de consumo mais responsável e consciente, acabam por ter menos necessidades a satisfazer e, portanto, menos gastos a realizar. Prescindem do estatuto social em troca de mais tempo que dedicam a si próprios, aos seus e à sua comunidade.
Têm por princípio que ter menos é (poder) ser mais. Um dos objectivos é harmonizar o trabalho com a vida, o crescimento exterior, objectivo e materialista, com o desenvolvimento interior, mais subjectivo e espiritual, os valores masculinos com os femininos.
A proposta que corre mundo e se popularizou é, pois, menos trabalho, dinheiro, abuso de recursos de todo o género, luxo, consumo e pegada ecológica por mais tempo, lazer, liberdade, paz, relaxamento, realização, iluminação, independência e, enfim, uma vida com qualidade e significado.
Abnegação
Enquanto uma parte se preocupa em recuperar rapidamente da crise económica, lutando para repor os níveis de desperdício e ostentação material, estes humanos despem-se da luxúria e ocupam-se em focar no essencial, o que para cada um tem valor, sentido e significado e o faz sentir bem, satisfeito e feliz. Em vez de acumular (mais) bens, desfazem-se deles.
Escolher uma vida simples não significa, no entanto, optar uma vi(d)a pobre ou ascética. Como explica Duane Elgin o objectivo é atingir um nível intermédio, entre a carência e o excesso, que seja adequado para a pessoa. Decidir-se por uma vida simplificada exteriormente não significa sacrifício mas gratificação, pois há uma exploração em direcção ao interior humano. Tal implica maior profundidade e, nesse sentido, maior abundância e plenitude.
Livres dos pormenores que (dis)traem, estas pessoas focam-se no que é importante e básico para si. Ficam também com mais “espaço” para os outros. Encontrada a sua intimidade essencial estão disponíveis para a vida cívica e comunitária, como o trabalho voluntário.
Há uma espécie de religação entre o seu ser profundo ao âmago do universo e de todos os seres. Sentem-se, portanto, mais completos, livres e realizados. O seu “apelo” é, pois, em prol de um decrescimento exterior, de uma desaceleração, de ter o suficiente para viver, o adequado para si, aquilo que, em consciência, lhes é apropriado e indicado.

Menos é mais

Preferem o menos ao mais, a qualidade à quantidade, o mais pequeno ao maior, o simples ao complexo, a vontade de ser ao vício de ter, o relaxamento aos nervos, o desenvolvimento ao crescimento, a ajuda à exploração, o desapego ao desejo – que distinguem de necessidade, tal como o sucesso da realização. Elegem a riqueza da simplicidade à pobreza da complexidade (nomeadamente a burocrática).
Trabalham para viver em vez de viver para trabalhar. Privilegiam produtos duráveis (e não descartáveis), belos e úteis. Defendem a tecnologia intermédia (e não a alta tecnologia), a (est)ética, a responsabilidade, a cooperação, a conservação e a natureza. Propõem a redução da actividade, velocidade e intensidade e princípios como o equilíbrio, a moderação, o respeito (por todos os seres e gerações), a reflexão, a redução, a frugalidade, a tolerância, a diversidade são uma presença constante.
Prescindir do supérfluo, reduzir o desperdício, limitar o consumo ao essencial eis um novo modelo de atitudes e comportamentos numa nova era mais ecológica e solidária. Optar, conscientemente, por viver de forma despojada, mais livre e despreocupada, recuperando a qualidade de tempo e de vida, numa trilogia - ecologia-saúde-frugalidade - que os partidos ecologistas têm vindo a propor.
Uma ideia estudada e posta em prática em Portugal por pessoas e empresas que no dia-a-dia tornam efectiva a mudança para o modo de vida simples, baseado no fundamental, dezassete anos depois da tomada de posição e avisos de cerca de 1600 cientistas.

* Anos 70
**Alguns livros: CALLENBACH, Ernest – Living poor with style. DeGraaf – Affluenza: the all-consuming epidemic. DOMINGUEZ, Joe; ROBIN, Vicki – Dinheiro e vida. Cultrix. 2007. ELGIN, Duane – Voluntary simplicity. 1981. ELGIN, Duane – A garden of simplicity. GREGG, Richard – The value of voluntary simplicity. 1936. KINGSOLVER, Barbara – Animal, vegetable, miracle: a year of food life. MONGEAU, Serge – La simplicité volontaire: plus que jamais. POWYS, John Cowper – A philosophy of solitude. ROBERTSON, James – A new economics of sustainable development. SALT, Henry Stephens – simplification, the saner method of living. SCHUMACHER, E. F. - Small is Beautiful. 1973. SMITH, Tracey – The book of rubbish ideas. TIMOTHY FERRIS – 4-hours workweek: escape 9-5 THOREAU, Henry David – Walden. 1854

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quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Meio século de utopia


A paz e fraternidade entre a família europeia deixaram de ser apenas um ideal. Há 50 anos.

Texto e fotografia Dina Cristo

O primeiro dia do ano assinala nada mais do que a concretização do sonho europeu: a re-união da Europa. Inicialmente a seis, República Federal Alemã, França, Itália e os países do Benelux – Bélgica, Luxemburgo e Países Baixos colocaram em marcha um processo de unificação. No dia um de Janeiro de 1948 entrou em vigor o Tratado constitutivo da CEE – Comunidade Económica Europeia – que criou um Mercado Comum Europeu e abriu as fronteiras internas.
Este tratado criou algumas políticas, como a agrícola, a PAC – Política Agrícola Comum - e instituições comuns, como a Assembleia (actual Parlamento Europeu), Conselho de Ministros, Comissão, Tribunal de Justiça, Comité Económico e Social, Tribunal de Contas e Banco Europeu de Investimento. Na mesma altura foi também criada a Euratom, Comunidade Europeia de Energia Atómica, para aumentar a produção energética europeia.
O Tratado de Roma, assinado (por Antonio Segni, Christian Pineau,
Joseph Bech, Joseph Luns, Paul Henri Spaak e Konrad Adenauer) em Março de 1957, tinha como objectivo uma integração económica progressiva que atingisse uma união política, a criação de um mercado comum e o relançamento da economia. Estávamos na época do pós-Guerra, com toda a consequente destruição e enfraquecimento da Europa num contexto internacional de domínio dos EUA e da União Soviética. Os valores da fraternidade e da paz subjacentes à (re)construção europeia eram fundamentais.
Vividas as consequências da guerra, os homens entenderam que o melhor, para todos, seria a (re)união. E para preservar a paz, não bastava a cooperação internacional, havia que aprofundar, integrar, fundir os países. Primeiro em termos económicos, depois administrativos até à dimensão política. Nações até aí separadas integraram uma união maior, foram-se (e vão-se) tornando num só.
Eliminam-se as fronteiras, primeiro de bens, depois de pessoas. Hoje, qualquer cidadão - além dos países do núcleo duro, do Reino Unido, Irlanda e Dinamarca (que aderiram em 1973), Grécia (1981), Portugal e Espanha (1986), Áustria, Finlândia e Suécia (1995), Chipre, Eslováquia, Eslovénia, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Malta, Polónia e República Checa (2004) e Bulgária e Roménia (2007) - pode estudar, trabalhar e/ou viver nos outros países. A nossa identidade, experiência e percepção mudaram. Somos actualmente uma comunidade de 27 estados ou regiões de uma comunidade em edificação.
Tratados até Lisboa
O tratado fundador da união europeia teve os seus antecedentes, como a instituição da CECA – Comunidade Europeia do Carvão e do Aço – que durou precisamente meio século, de 23 de Julho de 1952 à mesma data em 2002, e haveria de ter vários consequentes.
O primeiro foi o chamado Tratado de Fusão, assinado em Bruxelas, e que, no final dos anos 60, instituiu uma Comissão e Conselho únicos para as comunidades então existentes (CECA, CEE e Euratom). Mais tarde, no final dos anos 80, entraram em vigor o Acto Único Europeu, que estabeleceu a União Económica e Monetária, e, no início dos anos 90, o Acordo fundador da União Europeia (UE), conhecido como Tratado de Maastricht, criando o Mercado Único e com pilares ao nível da justiça, assuntos internos e defesa, com a PESC – Política Externa de Segurança Comum (que havia fracassado, em 1954, com a tentativa de criação da CED – Comunidade Europeia de Defesa).
Em menos de dez anos (últimos), assinaram-se os Tratados de Amesterdão (com alterações aos anteriores), de Nice (com versão única dos acordos antecedentes e uma reforma institucional) e, em 2004, o Tratado de Roma II, estabelecendo uma Constituição Europeia - rejeitado, em 2005, pela França e Países Baixos. Por fim, o Tratado de Lisboa, assinado há menos de um mês, que altera o Tratado da UE e o que instituiu a CE – Comunidade Europeia (resultado da transformação da anterior CEE, no Tratado de 1993).
União fortalecida
Há cinco décadas que os políticos europeus, em vez de utilizarem estratégias militares, sentam-se às mesas, conversando, tentando encontrar uma unidade na diversidade, harmonizando diferenças, convergindo. Dirigentes europeus tentam pôr em prática aquilo que (n)os une: os valores – cooperação e solidariedade, liberdade e tolerância, Estado de Direito, democracia, direitos humanos. Tal, tem um preço: a cedência de parte da soberania dos Estados-Membros em relação a algumas competências.
Ninguém prometeu que seria fácil. Compatibilizar a prosperidade económica e o modelo social, convencer os homens de que a união faz a força, o alargamento da família só nos pode trazer mais paz e alegria, a fraternidade (a união da humanidade, escrita por Schiller, em 1785, e musicada por Beethoven, em 1823, sonhada por tantos génios da humanidade) concretiza-se, passo a passo. Oportunidade para escutar “Ode à Alegria”, Hino oficial dos estados unidos da Europa, desde 1985.

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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Viver em paz



O auto-conhecimento é a via que equilibra a externa, da acção, com a interna, do recolhimento. Antes do Dia Mundial da Paz, vemos como cultivá-la no interior antes que a possamos colher fora de nós.

Texto Dina Cristo

São três os caminhos que se dispõe para atingir a paz interior. Um, típico da infância e inocência, é o da auto-afirmação, a via do combate, das conquistas e aquisições. É a estrada do guerreiro da luz, que luta pelo bem: amor, altruismo, combate a mentira e manipulação. Nessa via de manifestação no plano externo é-lhe indispensável o bom senso e o desapego.
O guerreiro em luta é codajuvado pelo silêncio, gratidão e perdão, fortalece-se através da disciplina, da paciência, da vontade e da capacidade de ver oportunidades. São suas armas a vida simples, o estudo e a actuação correcta. Guiado pela sua consciência, cumpre o dever e corrige os erros.
Este ser de acção investe em vencer a sua própria ignorância; reconhece fora e em si o conflito entre os desejos do corpo e a vontade da alma. Fiel à verdade, precisa de coragem e independência. Concentra a sua energia no impessoal, tentar fazer o melhor que pode e, apesar de preparado, evita a luta.
Saber e prescindir
A segunda via é a do auto-conhecimento, própria da juventude e da independência, em que se fortalece a ligação com o Eu Superior. Ao elevar o foco da consciência são necessários, além da dedicação, discernimento e confiança, a sinceridade e o esforço. Desenvolve-se, assim, uma inteligência espiritual, consciente da inter-ligação entre a corpo e a alma - nomeadamente através do cérebro, coração, sangue, figado e glândulas.
A consciência ânimica equilibra a atitude afirmativa (descrita em primeiro lugar) com a terceira via, característica da maturidade e discernimento: um caminho de negação, renúncia ao que é errado, nocivo, falso, ilusório ou supérfluo - uma via de esvaziamento, aceitação das perdas, silêncios e desilusões, condutora à plenitude.
Este caminho de recolhimento e realização interior implica a presença da luz espiritual. São habitualmente quatro as formas de lhe aceder: estudo, auto-observação, trabalho altruísta e meditação. A focalização na libertação de remorsos e cobiças, a austeridade, o enfrentar a verdade (aceitando a vida) e assumir a responsabilidade - cumprindo o dever - são instrumentos inspiradores.
No seu livro, publicado em 2002, pela Editora Teosófica, Carlos Cardoso Aveline, editor de “Filosofia Esotérica”, salienta que os três caminhos para a paz interior, indispensáveis para que a objectiva se manifeste, são simultâneos e inseparáveis.

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Vida espiritual



Em época natalícia folheamos um dos Tratados inseridos no “Livro dos Preceitos de Ouro”, escrito em Sânscrito, e editado no final do Séc.XIX em Inglaterra.


Texto Dina Cristo

Entre os principais ensinamentos estão matar a ambição, a fome de crescimento, todo o sentido de separação, o desejo de sensação, de conforto e o próprio desejo de viver. «O Caminho e a verdade vêm em primeiro lugar, em seguida vem a vida», indica Mabel Collins neste livro, um clássico da literatura espiritual oriental, editado em Londres em 1885.

«Cada homem é para si próprio absolutamente o caminho, a verdade e a vida», depois de ter dominado a personalidade. «Uma vez que tenha passado pela tormenta e atingido a paz, então é sempre possível aprender», afirma a autora que aconselha: «Procura pela flor que desabrocha durante o silêncio que se segue à tormenta (…)», altura em que a percepção desperta.

A autora britânica ensina a desejar somente o que está dentro e além de cada um e é inalcançável. Fixar os sentidos no invisível e no inaudível é a única cura para o desejo, assegura. Mabel Collins orienta a desejar ardentemente o poder e fervorosamente a paz e quanto a posses que estas sejam acima de tudo para o Eu, a Alma Pura. «Deseja apenas plantar a semente do fruto que alimentará o mundo», afirma.

Dos ensinamentos fazem parte a observação de tudo ao redor de cada um, incluindo as sensações. Há que ter confiança, abrir a alma, auxiliar os outros, ajudar as pessoas que fazem o bem (em vez de censurar ou afastar-se do mal), controlar e usar o eu, a personalidade, um instrumento de experiência e experimentação sujeito ao erro.

Há que combinar um pouco de leitura ou de escuta com muita meditação, cientes de que a voz mental apenas é ouvida no plano em que a mente actua, que ao conservar os olhos fixos na pequena luz ela crescerá, que é no centro, na Alma, que reside a esperança e o amor e que é no silêncio que se encontra um momento de satisfação, de paz e de força.

Entre as verdades essenciais, como a alma e o princípio que dá a vida ser imortal – demonstrado por Immnuel Kant – cada pessoa é o seu próprio legislador. E um dos conselhos deixados pela autora, inspirada por Hilarion, que pertenceu ao movimento gnóstico e neoplatónico, é mesmo estudar as leis, entre as quais a da Graça.

Entre as regras transmitidas está procurar o Caminho, recolhendo-se para o interior e avançando ousadamente para o exterior, sabendo que para cada temperamento há uma estrada (mais) adequada. Depois de iniciada não há mais que ceder às seduções dos sentidos ou então experimentar até não mais ser afectado por elas.

É a dor, em primeiro lugar, e depois a sua superação que leva os seres humanos a ouvir a alma, a fazer silêncio e a encontrar a paz. «Assim como o indivíduo tem voz, aquilo em que ele existe também tem voz. A própria vida tem uma fala e nunca está silenciosa», escreveu a autora desta obra cuja segunda parte é dedicada apenas a discípulos.

Carlos Cardoso Aveline, teósofo, faz, no seu website uma análise e interpretação do Tratado para se ler com os olhos do espírito: « “Luz no Caminho” [1] tem um estilo paradoxal, e fala mais à alma que ao cérebro. Contém palavras, mas está livre delas. Leva o leitor a um plano da realidade em que a compreensão está além da linguagem verbal e transcende as suas limitações. A obra fala aos dois hemisférios do cérebro humano, o lógico e o intuitivo. Dá conselhos aparentemente contraditórios, mas isto se deve ao fato de que a natureza do ser humano é, realmente, dual».

(1) “Luz no Caminho”, Mabel Collins, edição de bolso com 110 pp., Editora Teosófica, Brasília, 1999. Há uma edição da Editora Pensamento, com 85 pp.

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quarta-feira, 24 de abril de 2013

Somos livres?

 


Na véspera da celebração da Revolução do 25 de Abril e a dias da de inauguração, há 45 anos, na Broadway, do musical “Hair”, vamos saber o que é e até que ponto se consegue ser livre.
  
Texto e fotografia Dina Cristo

Alguém é livre quando age de acordo com a própria natureza, vontade, verdade e consciência. Tal pressupõe o auto-conhecimento, fundamental para que se possa actuar de acordo com quem se é. Ser livre é ter o poder e a capacidade de decidir o melhor para si, fazer a escolha mais acertada tendo em conta a sua essência, quem já se sabe que é e não para se vir a ser alguém; é ter capacidade de saber de que se ocupar, ao que dar atenção, a quem se ligar, como indica Omraam Aivanhov.
“(…) a verdadeira liberdade consiste em obrarmos em nosso próprio nome, em sermos nós em nossas obras e pensamentos”, escreveu Teixeira de Pascoaes. Esta capacidade de auto-determinação, do livre arbítrio da acção individual visível, o “agency”, é hoje enfatizada pela ciência pós-moderna em detrimento do determinismo externo, do constrangimento da estrutura colectiva invisível. No caso da pragmática acional, para a qual falar é agir, essa actuação é de âmbito discursivo.
Viver de acordo com a sua questão particular implica escolher o seu caminho, saber selecionar o mais adequado para si e não o mais atraente ou sedutor. Para Platão, a liberdade está em ser-se senhor de si mesmo, o que acontece quando a sua melhor parte, a mais virtuosa, embora menos desenvolvida, domina a pior, a mais viciosa e abundante. Como alguém escreveu, a liberdade atinge-se quando o intelecto compreende o que é o bem, o belo e o bom, o coração o deseja e a vontade vai atrás.
Quando está ao serviço das paixões o ser humano enceta uma falsa libertação que o mantém dependente dos apelos instintivos e expande as suas amarras. Dar vasão aos gostos, apetites e inclinações, como diria Immanuel Kant, apenas o amarrará aos seus interesses limitados, ao condicionado, à região abaixo do diafragma. Já Antero de Quental havia ensinado que “só é verdadeiramente livre aquele que sabe limitar voluntariamente a própria liberdade”.

Desprendimento

A verdadeira libertação está no auto-domínio, em saber integrar apegos, desejos e medos, para depois os direcionar e ultrapassar. Primeiro a aceitação já que, como lembra Carlos Cardoso Aveline, “ficamos presos a tudo aquilo que rejeitamos”. Há que aprender a harmonizar, a reequilibrar, a reunir o pólo da liberdade e da ordem, com moderação, para evitar que o investimento excessivo num conduza ao aprisionamento no outro, oposto e oculto.
«Sereis livres de facto não quando os vossos dias decorrerem sem cuidados e as vossas noites sem desejos e sem fadigas mas antes quando todas estas coisas cercarem a vossa vida e vos elevardes acima delas, nus e libertos”, ensinou Kahlil Gibran(1). Esta superação e subida às alturas acontecem quando se age sem esperar nada em troca, desinteressadamente, através do desapego, sobretudo quando se libertam as (outras) pessoas, se prescinde de objectos e actividades inúteis ou se livram de preocupações mentais ou emoções destrutivas, como a culpa, a raiva ou o medo, nomeadamente através do canto.
A libertação real advém do perdão, uma desculpa pelos erros, próprios e alheios, cometidos no passado, a cuja memória se associam emoções, como a tristeza, que precisam de ser enfrentadas, expressas, processadas e compreendidas. Muitas vezes o que resulta em termos de significado e sentido atribuído à experiência é a consciência de uma ilusão, o que normalmente origina um sofrimento duplo, tendo em conta a decisão de separação, uma grande perda e mudança que implica. “Você não encontrará a liberdade”, disse António L. Santos, “até ser capaz de enfrentar a mudança e a incerteza”.
A verdade é a via da autêntica libertação. Dependente do estado ou foco de consciência, do nível evolutivo, própria do mundo inteligível, incondicionado, da Razão Pura kantiana, ela dissipa as ilusões e desapossa de pessoas, ideias, lugares e ocupações, que ora o medo ora o desejo tentavam, pelo controlo, manipulação e mentira, suster, fixar e agarrar. Libertar é deixar fluir, circular e movimentar, é ser um sistema aberto, dinâmico e renovador. Estagnar, amarrar, prender ou parar, como diz o provérbio popular, é morrer.
Dependendo do estado de consciência, assim o ser humano se vai desembaraçando de ilusões em direcção a focos de luz maiores e melhores, num processo continuo que o leva a deixar para trás as percepções mais deturpadas ou distorcidas pelo egotismo, com gratidão pelo grau de evolução que a experiência anterior lhe permitiu alcançar. Como no Outono, em que as folhas caem da árvore, a efectiva libertação ocorre aquando da maturidade, quando há sabedoria suficiente para orientar e salvar.

Livramento

A verdadeira autonomia e independência são interiores. Corresponde à vibração anímica do amor, reino da abundância e da doação, da altivez, acima do diafragma, ao reino da Graça e da abundância, a Providência divina, repleta de luz e de leveza. Liberta dos p(r)esos materiais, mesmo sem nada, a pessoa é, como interpretou Nina Simone e é sentindo quem é, ao abrir o coração, viver cada emoção e ouvir a intuição que o indivíduo pode, doravante, viver em conformidade com esse conhecimento, fiel à sua própria natureza.
Contudo, o mais vulgar é a ampliação, amputação ou ajustamento das características e peculiaridades para uma rápida e conveniente adaptação à cultura vigente, aos papéis sociais, às expectativas alheias, se necessário recorrendo a comprimidos… para normalizar, ‘adormecer’ ou anestesiar, incluindo os sentimentos. Quer esta implosão psicológica interna quer a rejeição externa, que se crê ser causa de limitação e, por isso, se pretende desembaraçar, mesmo que abruptamente, são falsas libertações.
Ser livre é diferente de se ter a sensação de o ser. Embora o controlo seja cada vez mais remoto, tecnológico e indirecto, ele está omnipresente e tornou-se, no actual sistema, não apenas consentido mas também, devido aos sentimentos de insegurança fabricados e publicitados, desejado pelos próprios indivíduos. Enquanto domina, como denuncia a Teoria Crítica, o sistema difunde a auto-propaganda através do consumo, trabalho, “media”, educação e cultura em vigor como meio de libertação.
Contudo, como explicitou a 10/10/2011 Óscar Quiroga, o que impera é a opressão. Mesmo nos relacionamentos humanos, quando não se atinge a frequência amorosa, (ab)usa-se da ameaça, culpa, chantagem, julgamento, manipulação ou mentira que elimina o espaço, que não se tem e por isso não se dá, e, assim, sufocada, vicia-se a ligação num curto circuito fechado de dependência, medo ou subordinação. As Pessoas Altamente Sensíveis, como esclarece Elaine Aron, deixam-se aprisionar pelas exigências dos outros, por exemplo.
Sem amor e sem verdade, a escassa liberdade - de pensamento, expressão, opinião, circulação ou acção - reflecte-se numa atitude de bloqueio face ao meio ambiente: a ocupação do tempo, o condicionamento do ar como o barramento da água, aprisionada por estruturas equivalentes às que restringem o livre fluxo venusiano. Trata-se de um espelho de toda a estratégia mental que, por insegurança e falta de auto-conhecimento, a leva a investir na manutenção de algo que é, por natureza, constantemente transformado e alter(n)ado.
Contudo, florescem os mais diversos movimentos a favor da liberdade, desde o software ao amor, dois séculos após a independência americana e a Revolução francesa e meio após o movimento de contracultura hippie, nascido em S. Francisco e retratada no musical e filme “Hair”, contra a guerra, o consumismo e as restrições sociais, com o seu “flower power”, “make love, not war”, o desnudamento, os cabelos cumpridos, o valor da amizade, simplicidade e festividade e de vanguarda a favor dos movimentos ecologistas, sociais, pacifistas, comunitários e esotéricos, que entretanto se desenvolveram.

A peça, estreada desde então um pouco por todo o mundo, com as mais diversas traduções e versões, contou nos seus elencos com nomes como Sérgio Godinho (em França), Donna Summer (Alemanha) ou Sónia Braga (no Brasil) e as suas músicas ficaram para a História bem como a sua influência nas artes e nos costumes. A criação retrata uma tribo urbana liderada por Berger, um homem extrovertido e amigo de Claude, um romântico pensativo apaixonado por Sheila, uma mulher com destacado estatuto social. Embora contra a guerra no Vietname, o líder acaba, no filme, ao contrário do musical original, por embarcar, por engano, no lugar do seu amigo recrutado e morre não sem deixar o seu exemplo de combate a favor da paz, que passa a ser seguido.


(1) GIBRAN, Kahlil - O profeta, Pergaminho, 2004, pág.103.

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quarta-feira, 12 de maio de 2010

"Fátima" no JN

Em plena visita papal, editamos um texto, elaborado em 2002, sobre os artigos publicados no “Jornal de Notícias”, no dia 13 de Maio, entre 1964 e 1984, relativos às celebrações da aparição da Virgem Maria aos três pastorinhos.


Texto Ana Rasteiro Brites fotografia Dina Cristo


A 13 de Maio de 1917 estavam os três pastorinhos, Francisco, Jacinta e Lúcia, a guardar o seu rebanho na Cova da Iria, em Fátima, quando de repente um clarão brilhou no céu.
Em frente deles estava uma Senhora muito nova e “extraordinariamente bela, mais brilhante do que o sol” sobre uma pequena azinheira. A Senhora pediu-lhes que se encontrassem naquele lugar, no dia 13 de cada mês, ao meio-dia.
Os três pastorinhos combinaram não dizer nada a ninguém sobre o que tinham visto, no entanto Jacinta não se conteve e dissera à sua mãe que tinha visto Nossa Senhora. Então os três pastorinhos tiveram muitos problemas, pois ninguém acreditava neles.
No dia 13 de Junho apareceu a Virgem novamente sobre a azinheira, onde disse a Francisco e Jacinta que iriam brevemente para o céu, ao contrário de Lúcia que iria continuar na Terra.
No mesmo dia do mês seguinte já estavam mais de 2000 pessoas aquando da aparição de Nossa Senhora e disse-lhes que “No mês de Outubro, farei um grande milagre, para que todos acreditem”.
Tal como tinha sido prometido, no dia 13 de Outubro de 1917 a Virgem fez um milagre, para que todos acreditassem, com “A Dança do Sol”.

Década de 60

Na edição do “Jornal de Notícias” do dia 13 de Maio de 1964, Quarta-Feira, é dada uma ideia do que se passa em Fátima durante este dia: “Fátima é desde ontem à tarde e continuará a ser até ao princípio da tarde de hoje o altar do mundo onde ajoelha e reza gente de todas as latitudes, de todas as raças, de todas as condições sociais, de todas as idades”.
Nessa altura Fátima é o palco de “uma expressão conjugada de fé que não conhece os limites do sacrifício”.
Em 1965 “Fátima é inegavelmente um fenómeno”, mais uma vez milhares de peregrinos chegam nesta altura ao chamado “Altar do Mundo”.
Nesse ano, a peregrinação termina de uma forma especial, com a “solene entrega da Rosa de Ouro concedida pelo Papa Paulo VI e entregue por D. Fernando Cento “ao santuário”.
Segundo o Papa Paulo VI o “que todos os anos se vê em Fátima é a prova segura de que “enquanto houver portugueses a Virgem será sempre o seu amor”.
Todos os anos Fátima é palco de penitências, muitas delas são pagas de joelhos, por mulheres e homens sozinhos ou com filhos ao colo, por jovens e até mesmo por idosos.
Em 1966 “Vinte e um prelados portugueses e fiéis de todo o mundo reunidos em Fátima na grande peregrinação de Maio”, na qual “tomaram parte representações de quase todos os países católicos do mundo”.
Tal como acontece todos os anos, e este não é excepção, “a procissão das velas constitui uma impressionante manifestação de fé”, onde se encontram milhares de pessoas a observar o andor de Nossa Senhora iluminado.
Este acontecimento é retratado pelo “Jornal de Notícias” como uma “emocionante expressão de fé, espectáculo de extraordinário significado e beleza que atingiu (…) um raro esplendor”.
Em 1967 “Portugal recebe o Papa!”.
Foi um dia muito importante em Fátima, o 13 de Maio de 1967, uma vez que o Papa Paulo VI veio a Fátima participar nas celebrações do 13 de Maio, nomeadamente na procissão do “Adeus”.
Um outro factor, não menos importante, que marcou o 13 de Maio deste ano, foi o facto de que Lúcia, “única vidente ainda viva”, assistiu na tribuna papal às cerimónias em honra de Nossa Senhora.
Em 1968 é a vez de “Fátima no fecho do ano jubilar”.
Em Fátima, no Altar do mundo, “onde se multiplicam de ano para ano testemunhos da grande força da fé católica, vivem-se as horas do encerramento do cinquentenário das aparições de Nossa Senhora”.
É também muito retratado pelo jornal as considerações feitas sobre a visita do Papa Paulo VI a Fátima no ano anterior, tal como a inauguração da sua estátua no presente ano, nomeando-o de “Papa peregrino”.
No último ano da década de 60 Fátima é, novamente, como se repete há 52 anos, o Altar do Mundo, onde decorre “a mais grandiosa e expressiva manifestação de fé”.
“A peregrinação deste ano ao santuário de Fátima será efectivamente das mais comovedoras de sempre”.
Segundo o enviado especial do JN a peregrinação de 1969 foi deveras marcante, pois jamais se verificaram “tão numerosos actos de dura penitência”, “meia centena de mulheres de todas as condições sociais – percorrendo de joelhos, em cumprimento de promessas, esse longo caminho que vai da Cruz Alta à capelinha das Aparições”.
No 53º aniversário das aparições são muito menos os fiéis que acorrem ao santuário de Fátima no 13 de Maio, devido ao tempo incerto com aguaceiros. No entanto, todas as celebrações foram realizadas ao ar livre como estava previsto.

Década de 70

Em 1970 a peregrinação nacional teve como intenção “pedir a beatificação dos videntes Jacinta e Francisco Marto, no cinquentenário da sua morte”.
“Portugal e o mundo peregrinos em Fátima”. Em 1971 encontram-se novamente em Fátima peregrinos de todo o mundo “De joelhos, em volta da Capela das Aparições”, “promessas feitas em horas de angústia – cumprem-se num arrastar dramático, doloroso. Padece agora o corpo – porque a alma se viu aliviada”.
“Fátima reza pela paz no mundo” e volta a ser palco, em 1972, de uma grande afluência de peregrinos: “De todo o mundo peregrinos convergem para Fátima”, uns a pé, outros de carro, “vai-se de muitas maneiras – vai-se por devoção e fé”.
Em 1975 há “Crentes de todo o mundo em Fátima” e a 13 de Maio atinge-se, segundo o enviado especial do “Jornal de Notícias”, “A maior peregrinação dos últimos anos” cuja explicação assenta no facto de que “o 12-13 do corrente mês é um fim-de-semana” e também porque é o Dia Mundial da Oração pelas Vocações.
Em 1974 há “Peregrinos de cravo ao peito” e Fátima é palco de inúmeras manifestações de fé, “num Portugal renovado pela liberdade”.
“Gente deste Portugal rejuvenescido há 18 dias apenas, rezará pelo futuro”. “Os peregrinos de Fátima associaram a esperança comum à fé que os une neste ano da graça em que Portugal teve a liberdade como bênção”.
O tema da peregrinação de 1975 é a reconciliação: “Os portugueses chegam para rezar pela «reconciliação de uma sociedade em conflito»”. Segundo o enviado especial do JN encontram-se muitos ex-combatentes por entre os penitentes que “caminham ou se arrastam” para o santuário de Fátima.
Em 1976, Fátima continua a ser o “altar, ponto de encontro da gente com fé”.
O Cardeal Sebastião Bagio, perfeito da Sagrada Congregação dos Bispos, veio “de Roma à Cova da Iria para presidir à peregrinação destinada a orar e a reflectir sob o tema «Vamos construir a civilização do amor»”.
No dia 13 de Maio de 1977 comemora-se o 60º aniversário da aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos.
Fátima é novamente o altar de inúmeras manifestações de fé, “fé esta que todos os anos faz convergir milhares de peregrinos à Cova da Iria”. O título de primeira página é “Peregrinos do mundo inteiro em oração pela unidade da Igreja”.
Segundo José Coimbra, o enviado do JN em 1978, “Milhares de peregrinos de todo o mundo encontram-se desde ontem no santuário da Cova da Iria para prestar homenagem à Senhora de Fátima, no 61º aniversário das aparições”. O título era “Orações solicitaram sociedade mais justa”.
“Uma das maiores peregrinações de sempre – meio milhão de fiéis rezam em Fátima” deu-se em 1979, no Ano Internacional da Criança: “foi às crianças que a Virgem falou”.
Segundo o enviado especial do jornal esta foi “uma das maiores peregrinações de sempre senão a maior – número só atingido em 1967, quando aqui se deslocou o Papa Paulo VI”.
Novamente Fátima se transformou no altar do Mundo onde “se respira um ambiente de estranho misticismo, que se espelha no semblante de cada um dos peregrinos, cujos olhos irradiam esperança”.

Década de 80

Em 1980, “Multidão orou toda a noite à luz das velas na Cova da Iria”.
“Fátima viveu mais um dia 13 de Maio” do ano seguinte com um vasto número de peregrinos que como sempre vêm de vários pontos do país” e cujo tema da peregrinação era “Nós os cristãos não podemos viver sem o domingo”.
No ano de 1980 Fátima contou com a presença do Cardeal espanhol D. Marcelo Gonzalez Marti que, segundo o enviado especial do “Jornal de Notícias”, fez um apelo “para que humildemente a venerem, já que Ela tem uma imagem universal e por isso mesmo não é de Portugal ou de Espanha MAS sim de todo o Mundo” – Nossa Senhora.
Em 1981, “Milhares de peregrinos não olham aos sacrifícios da sua devoção”. O tema da peregrinação deste ano é “Celebrando o domingo, edificamos a Igreja com Maria”.
O “Jornal de Notícias” testemunhou novamente mais um ano em Fátima cheio de sacrifícios – são inúmeros os casos de devoção. As pessoas chegam a Fátima de diversas formas, “desde as pernas ao autocarro, passando pela bicicleta, de modo que à chegada a Fátima eram frequentes os abraços e até as lágrimas, quando vizinhos e familiares se voltavam a ver”.
Em 1983, “sob novo «milagre do sol», a presença do Papa foi constante”.
Segundo o “Jornal de Notícias” “Em Fátima assistiu-se, ontem à tarde, a um novo «milagre do sol», pelo menos assim o afirmavam muitos milhares de peregrinos”, pois precisamente às 19h, aquando do início oficial da peregrinação “o sol rompeu as nuvens negras que todo o dia ensombraram a região, vindo iluminar a Capelinha das Aparições”. Também foi muito evocada a presença do Papa João Paulo II, há precisamente um ano.
“Fátima constitui apelo à renovação da Igreja, para que ela possa oferecer uma imagem correcta de si mesma”, foram as palavras do Arcebispo de Évora em 1984.
Como já é hábito, em todos os 13 de Maio, “Ontem (…) todos os caminhos de Portugal iam dar a Fátima” e “o facto de se estar num fim-de-semana, e de fazer bom tempo, deverá ter contribuído para que o santuário se apresentasse ontem à noite repleto”.

Comparação

No decorrer destes 20 anos na edição de 13 de Maio do “Jornal de Notícias” o espaço dado ao fenómeno de Fátima não é uniforme nem homogéneo, pois não há uma regra, nem sempre existem as mesmas páginas ou número de palavras.
A importância dada às aparições de Fátima, a nível espacial e formal, varia consoante a menor ou maior relevância que o acontecimento tenha, tanto para o jornal como para a sociedade.
No entanto, em todos estes jornais houve sempre um espaço reservado na primeira página para este acontecimento, o que demonstra de alguma forma a importância que tem para a população, nomeadamente para os leitores do jornal.
No que respeita ao discurso do “Jornal de Noticias”, antes e após o 25 de Abril de 1974, sobre o 13 de Maio, existem algumas diferenças.
Logo na primeira edição após a data histórica verificam-se algumas alterações no discurso. Até ao 25 de Abril a imprensa não publicou nada que fosse contra o regime político vigente – era tudo a favor nada contra o Estado.
No entanto, no JN de 13 de Maio de 1974, 18 dias após a revolução afirma-se que com a mudança do regime não mais “haverá soldados bravos rapazes de Portugal renovado, envergando tantos fatos de guerra”. Nesta mesma edição do jornal da cidade invicta também se denota uma crítica à Igreja: “E repórter encontra em Fátima toda uma estrutura material-comercial que tende a modificar um lugar espiritual”. Na edição de 13 de Maio de 1975, o tema é a “reconciliação numa sociedade em conflito”.
No “Jornal de Notícias” de 13 de Maio de 1976 há uma crítica a Fátima ou, mais precisamente, a tudo o que a envolve: “Por um lado foi o altar, ponto de encontro de gente com fé; por outro mais não passou do que pólo de atracção de gentes para as quais a fé (dos outros) é filão que se explora até à exaustão”.
“Orações solicitaram sociedade mais justa” é o que se pode verificar no JN de 13 de Maio de 1978. Na edição de 1974 temos outra frase crítica: “devemos amar a época que vivemos mas é necessário transformá-la”.
Antecedentes
A implantação da República em 1910 toma inúmeras medidas com vista à abolição da Igreja Católica. Põe fim à instrução religiosa nas escolas, fecha conventos, mosteiros, passando os seus bens para o Estado, encerra a faculdade de Teologia em Coimbra, suprime os 26 feriados religiosos, as prestações de juramento nos tribunais e expulsa os jesuítas.
Deste modo o Estado desperta o anticlericalismo, pois quer castigar a Igreja Católica pelo seu comprometimento com a monarquia. Consequentemente o clero virou-se contra a República. Esta revolta é apoiada por Salazar como se verifica no seu discurso pronunciado a 23 de Novembro após a sua ascensão a membro do Conselho: «Pode afirmar-se, (…) que a república portuguesa essência anticatólica e que a sua neutralidade representava uma mentira, o que era grave para a república e para a Igreja num país de população e de tradição católicas”.
Numa situação de anticlericalismo por parte da República e de uma situação de anti-republicanismo por parte da Igreja, entre 1910 e 1926, a aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos em 1917 tem duas interpretações diferentes.
Em 1922 é lançada “A Voz de Fátima”.
Em 1924 inicia-se a construção do Santuário de Fátima que recebe milhares de peregrinos, tanto portugueses como estrangeiros, que para ali se deslocam, permanentemente.
Em 1929, a 13 de Maio, o Presidente da República e o chefe do Governo assistem à cerimónia de celebração do culto.
Em 1931 está presente um milhão de pessoas para a celebração do 14º aniversário da aparição.
Portugal é consagrado ao Imaculado coração de Maria a 13 de Maio de 1938.
É atribuído em 1965 por Paulo VI a Rosa de Ouro ao santuário.
Segundo os opositores do regime “Salazar anexou a Virgem” e Fátima é considerada, juntamente com o fado e o futebol, um dos três F maléficos do Estado Novo.
Salazar utilizou a Igreja para chegar ao poder, pois as suas ideias de base eram conservar o catolicismo como apoio, dando-lhe algumas vantagens em troca da cristianização da população, uma vez que um povo que seja crente é mais fácil de dominar.

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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Vida mutante



Para além de ir ou vir de férias, como a época que atravessamos, das mudanças profundas, ao nível climático, e superficiais, ao nível do penteado - expressão dessa força de vontade – há várias outras que abordamos a seguir.

Texto e fotografia Dina Cristo

Uns temem-na, outros desejam-na. Os pessimistas porque se fixam nos perigos, os optimistas porque acreditam nos benefícios. Como contou Spencer Johnson, no seu livro, os “pigarras” agarram-se ao medo, os “gaguinhos” à esperança.

Na vida, há os que tentam resistir à mudança e os que a tentam provocar, quer do ponto de vista individual quer colectivo. Os conservadores bloqueiam-na, os activistas incitam-na. Uns a favor da estabilidade, outros do dinamismo.

A mudança faz parte da vida. Tudo o que é vivo se movimenta, balança entre um pólo e o seu contrário. Uma acção que ou se faz em equilíbrio, moderadamente, quando se aceita a alternância, tão naturalmente como o dia e a noite, ou, sendo evitada, ocorrerá de forma abrupta, dada a necessidade de compensação. Sempre que se pende para um lado, mais cedo ou mais tarde, irá tender-se para outro; e não é pouco comum transformar-se mesmo no seu oposto, afinal duas faces da mesma moeda.
Tudo muda continuamente. A única constante na vida (relativa) é precisamente a mudança e a melhor forma de a enfrentar é preparar-se para ela, como se conclui do conto de “Quem mudou o meu queijo?”, e aceitá-la, sem a evitar ou antecipar. Os próprios padrões humanos (masculinos e femininos) também se vão alterando ao longo da vida, como explicou Jean Shinoda Bolen.
Sem obstrução, esta força limpará tudo o que já não serve e é, portanto, inútil à evolução pessoal e colectiva, abrindo espaço para o novo, a inovação e a criatividade. Do ponto de vista positivo pode ser experienciada, assim, com(o) entusiasmo, liberdade e alegria. Pelo contrário, se a ênfase é colocada no que se perde, na inércia, na resistência, no apego ao velho traz consigo sofrimento e, depois, doença.

Em termos verbais implica uma doação (mudar) e enquanto processo uma oscilação (mudança). Em ambos os casos, do ponto de vista numerológicos, representa o 21: o saber viver, o melhor possível, com o que se tem disponível, conforme a atitude de fluidez ou não o fazê-lo numa postura de resistência(1).

As diferentes perspectivas podem constatar-se desde quem prefere (in)conscientemente morrer a mudar às que mantêm, dentro do possível, um estilo de vida nómada, como os ciganos. Também ao nível sanguíneo, grupos como o tipo O têm maior facilidade de adaptação. Em termos numerológicos, o mesmo se pode dizer dos "nove", por conterem características de todos os outros números, e os que se encontram num ciclo "cinco", um dos mais propícios a mudanças relevantes.

A vida é dinamismo constante entre forças que se atraem e se repelam, entre fluxos e refluxos, inspirações e expirações. Desse balancear, o velho é “convidado” a sair para que o novo possa entrar. Em cada segundo. A toda a hora. É esta mudança contínua que permite a preservação do sistema, mais tarde visível em destruição (fim de ciclo), que dará lugar à (re)novação e à (re)recriação (em nova etapa).

Apesar de omnipresente, e fundamental nas passagens das diferentes fases da vida, do nascimento à morte, hoje quase sem rituais, este processo, que também é de desapego em relação ao passado, por vezes é difícil, ou porque foi bom – e se deseja reter – ou porque foi mau – e se culpa ou se sente culpado. Será mais fácil se houver não só preparação mas também precaução, para que não se elimine ou prescinda de tudo só porque é passado, como acontece nas revoluções, e se for enfrentado conscientemente e por vontade da própria pessoa, sem imposição, pressão ou manipulação exterior.

A mudança foi cantada por José Mário Branco e, mais recentemente, pelos “Humanos”. É hoje foco e nome de “medium”. Foi reflectida por autores como Gandhi – sê a mudança que queres ver no mundo -, Heráclito - ninguém se banha duas vezes na água do mesmo rio – ou, por exemplo, Lavoisier, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Em Portugal, ficou célebre o manifesto anti-Dantas de Almada Negreiros.

O processo de mudança pode ser despoletado não só pela perda, ao nível da saúde, do trabalho, da família, por exemplo (caso em que a terapia floral aconselha o remédio Walnut), mas também pela insatisfação ou pelo erro. Nesta ocasião, é preciso tempo para reflectir e corrigir, alterar a direcção e, como nas curvas da vida, mesmo as físicas (umas mais apertadas, outras mais inclinadas), a visibilidade diminui. Aumenta o desconhecido e, por consequência, o medo e a angústia.

É preciso, pois, uma certa dose de coragem e confiança para o desafio que constitui enfrentar o incógnito, o diferente. Contudo, o risco está em não mudar, pois tal implica estagnar e, na prática, andar para trás. Como disse Omraam Aivanhov, “aqueles que se deixam ir atrás da facilidade, da preguiça, da estagnação, aproximam-se da vida instintiva, vegetativa, mineral, e petrificam-se”(2).

Como diz o provérbio português, “parar é morrer”, mas também “quem está mal, muda-se”. Se por um lado há tendência, pela lei da inércia, a prosseguir (n)o estado em que se está, para a contração, por outro também há um impulso evolutivo, para a expansão, e sem se descartar da pele velha, como acontece com os animais na muda, não haveria lugar à regeneração, ao renascimento.

Tolstoi chamava a atenção para a importância da mudança interior: “Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si próprio”, afirmou. Ora esta transformação pessoal é condição para que a mudança no mundo exterior aconteça. Foi a conclusão no movimento hippie, nos anos 60, e é hoje explicada pelas novas teorias. Trata-se de uma decisão individual, confirmada a cada instante, que começa, antes de mais no pensamento.

Para que o comportamento se altere, de forma que não seja meramente superficial, artificial, momentânea e inconsciente, mas antes constituia uma atitude sustentável, mais profunda e construtiva é necessário começar pela transmutação mental própria, em detrimento da expectativa em relação às modificações físicas e exteriores. Como escreveu Johannes F. Hasenack, “a soma de muitas iniciativas, a partir de baixo, e de novas atitudes a partir de dentro, bem pode desencadear um processo de mudança no todo ao qual pertencemos”.

Novo paradigma

Tendo em conta o papel vital da informação no sentido de dar forma, estrutura, como explicou Lucienne Cornu, e a existência de novos dados processados e acessíveis através da internet é, hoje, mais facilmente possível e provável, como defende Dieter Duhm, a alteração da organização nos organismos individuais e colectivos. Uma transformação global, impulsionada também ao nível cósmico, com a entrada na Nova Era de Aquário, com o trânsito de Plutão até 2023 e a própria alteração do campo magnético da Terra e da actividade solar com consequências ao nível do campo cerebral, genético e de frequência humano.

Esta elevação de consciência, do ponto de vista mitológico traduz-se na passagem dos deuses-céu para os deuses-terra, como explicou Jean Shinoda Bolen: de um contexto sócio-cultural patriarcal padronizado pelo medo, poder, opressão, domínio, objectividade e competitividade, modelo representado no Velho Testamento pelo Deus ciumento e vingativo, para outro matriarcal, baseado no amor, liberdade, subjectividade e solidariedade, representado no Novo Testamento pelo Deus afectuoso e clemente.

Para a autora americana, é o ressurgimento de Métis - a deusa da sabedoria, Sofia, a Mãe Natureza, que havia sido engolida por Zeus e esquecida - e com ela a emergência da ecologia, a vinculação entre e a todos os seres, desde o próprio à Terra. Sabina Lichtenfelds chama, e põe em prática em Portugal, esta Era da Deusa, da Graça, onde o poder-saber feminino é expresso, fortalecido e correspondido. Um retorno que Maria Flávia já o havia antecipado também.

Entretanto, pelo mundo prepara-se, cada vez mais ampla e intensamente, a transição para o novo modelo de tendência mais local, descentralizada, comunitária, simples e humana. Carlos Cardoso Avelino já o escreveu há mais de um quarto de século, mas, desde os últimos anos, com o problema do petróleo, as iniciativas, a nível internacional e mesmo nacional, têm sido mais determinadas, como as experiências de formação de comunidades, ou até hortas comunitárias.

O novo modelo dirige-se, entre outros, para a alegria, o amor, a coragem, a confiança, a comunhão, a compaixão, a cooperação, a cura, e também a ética, a lentidão, a memória, a paz, a protecção, a sensibilidade, a união. Tudo parte de um novo pensamento criativo de abundância, com repercussões nas mais diversas áreas, desde as ciências socias à economia. Neste campo desenvolvem-se conceitos como a Economia baseada em Recursos, Economia da Dádiva, Economia Sagrada ou Economia Social e Solidária.

Qualquer crise é uma oportunidade de mudança, de limpeza, de arrumação, de actualização, processando, compreendendo e perdoando o passado – um momento para expressar e ultrapassar tensões, libertando espaço e tempo disponível para viver o presente, aceitando os factos e reconhecendo a realidade do aqui e agora. A actual crise, potenciada pelas condições comunicacionais e sociais presentes, a nível mundial, é uma ocasião favorável a descartar de velhos pensamentos e hábitos, repetitivos e reproduzidos, como o pressuposto da escassez de recursos, em função de uma nova criatividade digna da Humanidade.

Novos começos são propícios em ciclos “um” (e nós estamos precisamente na primeira década do século XXI) mas para tal é preciso, antes, que exista um ciclo destruidor, renovador, alimentado, segundo a tradição religiosa, pelo Espírito Santo, o transformador, capaz de dinamizar mesmo o ponto máximo de estabilidade, a Terra e o corpo físico, correspondente, do ponto de vista cabalístico, à sephiroth Malkuth.

Segundo Stuart Hall, as séries da indústria cultural veiculam a ideia de que a mudança é impossível, de que é inútil desafiar o sistema e o melhor é rir. Mas, hoje, um pouco por todos os cantos do mundo há apelos à mudança. Dentro e fora do sistema, que se distanciou cada vez mais da vida (social), há pessoas e grupos envolvidos na mudança, para além dos que têm estado nas ruas, em diversos movimentos pacíficos. Como referiu Spencer Johnson “(…) quando se muda aquilo em que se acredita, muda-se igualmente a forma de actuar”.

Já a Teoria Social clássica havia notado que se o sistema é a estrutura condicionante, restritiva, ao nível individual, a agency, constitui um espaço de acção de maior liberdade. No caso do autor jamaicano este atenta que as práticas sociais são hoje constantemente reflectidas, examinadas e reformuladas à luz das informações recebidas, com inúmeras possibilidades de mudança de identidades, reforçadas pelo aumento das migrações, da globalização e das indústrias culturais.

Mudar é não só dar, “dançar”, balancear, variar, mas também alquimizar, transmutar – fazer, como diz a sabedoria popular, das tripas coração. É um processo de alternar que inclui a alteração, a transformação, mas compreende, além dela, a renovação, a recriação – uma espécie de reciclagem, numa oitava acima. Mudar implica, pois, não só ser capaz de se adaptar e flexibilizar mas igualmente de evoluir, melhorar, avançar e elevar. Envolve movimento capaz de reequilibrar, reorganizar e reformar qualquer sistema, organismo ou estrutura.

(1) RESINA, Luís – Tarot e numerologia. Pergaminho, 1998, pág.136. (2) AIVANHOV, Omraam – Pensamentos quotidianos, Publicações Maitreya, 2010 (14/2/2010).

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