quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Quem deve governar a cidade?


Um monarca, timocrata, oligarca, democrata ou tirano? O melhor entre os mais velhos - filósofo, educado, justo, virtuoso e desapegado do poder - defende Platão, a quem recorremos para nos elucidar no voto, este Domingo, no âmbito das eleições autárquicas.

Texto Dina Cristo

Deve gerir a cidade quem melhor se governa a si mesmo, quem é capaz de ser Senhor de si próprio. Quando o Ser humano – homem ou mulher – atinge a Liberdade, ou seja, quando a sua melhor parte, a mais humana, superior, sensata, domesticada, a mais pequena, domina a pior, a mais animalesca, inferior, perversa, selvagem, a maior e mais corrupta. Tal atitude distingue um humano virtuoso - sábio, corajoso, moderado e justo -, dentro de uma minoria que identifica o bem com o saber, aspira à verdade e à salvação do mundo inteligível.
Um ser humano perfeito, com uma vida sóbria, tranquila e segura, que escolhe o melhor para os seus subordinados e se identifica com o Bem, o Bom e o Belo. É o que quer efectivamente ser bom (e não parecê-lo) e o que tem mais graça, ventura e felicidade: no caso de um filósofo-Rei será, segundo Platão, 729 vezes mais feliz que o tirano.
O filósofo, amigo do saber, é aquele que é capaz de contemplar o Ser, olhar para a verdade absoluta e julgar melhor. O que atinge o prazer real, sólido, puro e verdadeiro. Bem diferente do ambicioso, cujo prazer não passa de uma ausência de dor, de natureza colérica, irascível e violenta e que tende para dominar, vencer e ter fama. Mais distinto ainda do interesseiro, repleto de dor e com um apetite insaciável, caracterizado pela concupiscência e sensualidade, amigo do dinheiro, com desejos violentos e que olha para baixo.
O chefe deve ter tido uma educação equilibrada, para a alma, através da música, e para o corpo, através da ginástica - ambas simples. Baseada na dialéctica, geometria, astronomia e artes, de forma a olhar para as alturas e desenvolver o pensamento abstracto. O objectivo é atingir a contemplação da Ideia de Bem, paradigma a adoptar para ordenar a cidade, de acordo com a lei (como a piedade para com os deuses e os pais ou fazer silêncio e dar o lugar aos mais velhos).

Guardião

Desta forma o governante da cidade deverá ser um monarca, com acesso à contemplação do Ser, capaz de atingir o imutável e olhar para a essência, a verdade absoluta. Ao contrário do timocrata, amigo do poder, das riquezas e honrarias e do oligarca, avarento e dissipador do Estado, que despreza a virtude e a pobreza.
Também o democrata se torna perverso: ao ambicionar demasiado a liberdade e tornando-a excessiva abre caminho para a anarquia, quando os discípulos têm os mestres em pouca conta, os anciãos condescendem com os novos ou os cidadãos não se submetem às leis. Neste sistema, os trabalhadores, com mais poder, poucas vezes se reúnem, os ricos tornam-se parasitas e são os violentos que administram quase tudo. O protector do povo tornar-se depois seu tirano - o mais desgraçado, escravo, infeliz e injusto de todos e que acabará na pobreza, fuga ou mendicidade.
O guardião da cidade, que cuida e protege as leis e costumes, deve ser seleccionado entre o mais ágil (nos estudos e trabalho) até aos 20 anos, o mais sólido (nas ciências, guerra e leis) até aos 30, na capacidade dialéctica, de forma contínua e exclusiva, até aos 35 anos, e de experiência na caverna até aos 50. Serão enviados para os campos se ultrapassarem os dez anos na cidade e consagrar-se-ão à filosofia. Ensinarão outros a serem como eles e depois retirar-se-ão.

Qualidades


Será eleito entre os mais rectos, fortes, corajosos, generosos, livres, simples, verdadeiros, com memória, esforçados nos estudos e exercícios. O chefe da cidade é aquele que cuida do prazer da alma e será incompreendido e criticado pela multidão: «(…) são inúteis à maioria os melhores filósofos. Da sua inutilidade, manda, contudo, acusar os que os não utilizam, e não os homens superiores»
[1].

O filósofo-Rei será o melhor, entre os que procedem bem para com os demais, como no mito de Er, aquele que procura o melhor para os seus subordinados. O que despreza o poder político e o assumirá por necessidade e amor: (…) Ora a verdade é que convém que vão para o poder aqueles que não estão enamorados dele; caso contrário, os rivais entrarão em combate»
[2], escrevia Platão.
Fora do governo ficarão os viciosos, injustos, mal educados, ambiciosos, interesseiros, insensatos, cobardes, ricos, poderosos, perdidos, imoderados, ignorantes, lisonjeadores, invejosos, desleais, hostis, impiedosos, maldosos, opinativos, escravos, perversos, prisioneiros, desgovernados, fantasiosos, embriagados, violentos, insaciáveis, adúlteros, medrosos, irados, corruptos, orgulhosos, arrogantes, criminosos ou incapazes de actuarem em comum.

[1] Idem, p.274.

[2] PLATÃO – República, p.325. Bibliografia citada ao longo do livro pela tradutora, Maria Helena da Rocha Pereira: ARISTÓFANES – As rãs; ARISTÓFANES – As mulheres na Assembleia; ARISTÓFANES – As nuvens; CÍCERO – Tratado sobre a velhice; DIOFANTO – Aritmética; ÉSQUILO – Prometeu agrilhoado; ÉSQUILO – As mulheres de Etna; ÉSQUILO – Agamémnon; EURÍPIDES – Andrómaca; EURÍPIDES – As bancantes; EURÍPIDES – Os troianos; EURÍPIDES – Arquelau; EURÍPIDES – Alcméon em Corinto; EURÍPIDES – Ifigénia na Áulide; FERREIRA, J. Ribeiro – A democracia na Grécia Antiga, Coimbra, 1990. HESÍODO – Trabalhos e dias; HESÍODO – Teogonia; HOMERO – Ilíada; PEREIRA, Maria Helena da Rocha – Concepções helénicas de felicidade no além, de Homero a Platão; PÍNDARO – Ístmicas, SÓFOCLES – Ájax de Locros; SÓFOCLES – Rei Édipo; PLATÃO – Apologia; PLATÃO – Banquete; PLATÃO – Íon; PLATÃO – Fedro;

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quarta-feira, 1 de junho de 2011

O poder do Um

Antes das eleições legislativas viajamos pelo poder político e, com a ajuda dos números, pelos seus líderes. Apertem o cinto.

Texto e fotografia Dina Cristo

Alguns têm talento para o pioneirismo, a independência, a criatividade, tornam-se líderes, arras(t)am pelas suas palavras ou acções; outros têm vocação para a colaboração e cooperação, são jogadores de equipa - apesar do seu valor, raramente são (re)conhecidos; outros seres humanos são seguidores, sentem-se bem a reproduzir ou obedecer. Quem deve governar a cidade?, perguntava Platão. O melhor de entre os mais velhos, dignificando a sua natureza.
Apesar da insistência na estabilidade, sobretudo pelos partidos com mais acesso à governação, do outro lado, reclama-se mudança. Na verdade, só ambas, inércia (tamas) e movimento (rajas), permitem o equilíbrio, a harmonia (satwa). Omraam Aivanhov disse-nos ainda que a criatura que seguir o Criador, aumenta o seu poder e transforma-se em 10, pelo contrário, ao seguir os seus instintos converte-se em 0,1.
Além do aparecimento nos últimos tempos de novos partidos políticos, como o PAN, estão nas comunidades digitais e nas ruas cada vez mais, maiores e diferentes movimentos. Uns a favor da demissão da classe política, outros da militância política, uns contra a existência de partidos políticos, outros na defesa do aprofundamento democrático, da democracia directa, participativa, mais representativa ou deliberativa. Uns a favor do voto em branco, outros da laicização ou da lusofonia, propondo um outro Portugal.
Os jovens, no mundo, na Europa e em Portugal encetam a revolução. Da cultura dos direitos para os deveres cívicos. Uma consciência mais refinada faz exigir de todos, líderes, colaboradores e seguidores, elites e massa, mais qualidade ao nível da verdade e da responsabilidade, num ressurgimento ético.
No “Aqui & Agora”, publicámos já a proposta de um código deontológico político, integrado no ensaio “A Ciência da Pólis” de José Luís Maio, que encorajava o surgimento de pessoas dotadas de consciência, sábia, lúcida e compassiva. Oscar Quiroga, por exemplo, escreveu sobre a importância da república de leis (interesse público) em detrimento de pessoas (interesses particular).
Perguntamo-nos até que ponto a unidade, no essencial, não pode e deve ser manifestada através da diversidade, no acessório. Tal pode(ria) ser representado pelos 12 mais pequenos partidos portugueses concorrentes, se reunidos, como numa espécie de roda zodiacal, pudessem assim formar uma unidade integral, convergente no centro e divergente na periferia.
Lembremos, nesse sentido, a importância de se harmonizar com a força complementar, contrária, que, em última instância, se contém. Em comum e na íntegra, dando espaço de manifestação a todas as partes, diferentes, num enriquecimento e espírito verdadeiramente comunicativo. Afinal, o verdadeiro poder está na união da diversidade, na vivência da unidade. Mas enquanto não experienciamos o poder do Um, a unidade, vejamos o poder dos 1, os líderes, sendo que um verdadeiro líder será não apenas pioneiro como trará igualmente um impulso unificador.
O carisma
Iniciamos agora uma curta leitura do mapa numerológico dos actuais líderes partidários portugueses concorrentes às eleições legislativas antecipadas. Trata-se de um breve perfil com base na numerologia intuitiva, tal como proposta por António Santos.
Ficamos a saber que muitos têm uma “estrelinha”, uma protecção divina, o chamado carisma. Em destaque a liderança, como destino (José Manuel Coelho), motivação (Passos Coelho), talento (Rui Marques) ou desejo (Francisco Louçã) e a comunicação (sobretudo Paulo Portas). São frequentes os “créditos”, nomeadamente ao nível da liberdade, limitada pela exposição pública, o desejo de dar de si próprio uma boa impressão bem como o espírito cooperativo, entusiasmado e de boa vontade por trás das imagens cerradas.
São seres humanos com determinados factores de destino e motivações profundas, personalidade e desejos a projectar publicamente e capacidades a desenvolver, consoante o período do ciclo pessoal em que se encontram. Enquanto alguns estão a iniciar (Garcia Pereira), outros estão a terminar (José Sócrates), muitos estão em ano de realização, quer dentro dos "cinco" quer dos "doze".
Francisco Louçã e Paulo Borges são os mais organizados. Paulo Portas, o mais comunicativo, José Sócrates, o mais solitário. José Manuel Coelho o maior espírito de liderança, Passos Coelho o mais harmonioso. Jerónimo de Sousa o mais idealista, Rui Marques o mais optimista. Carmelinda Pereira e Maria Vítor Mota são as únicas mulheres.
Mapa numerológico
António Pestana Garcia Pereira (14/11/1952) – Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP/MRPP: manifesto). Está em início de ciclo. Personalidade optimista e capacidade de adaptação. Destinado à harmonia e compreensão, tem no espírito familiar a sua motivação. Gosta de ser visto como empreendedor.
Carmelinda Maria dos Santos PereiraPartido Operário de Unidade Socialista (POUS: manifesto) . O espírito familiar é a sua motivação interior. Capacidade de adaptação. Gosta de ser vista como empreendedora.
Francisco Anacleto Louçã (12/11/1956) – Bloco de Esquerda (B.E.: programa). O mais organizado de todos, grande talento para vir a estabelecer algo de concreto na sociedade. Está destinado à realização material. Personalidade e motivação viradas para a comunicação. Pretende ser visto como líder. Vive o seu ano de colheita dos frutos.
Jerónimo Carvalho de Sousa (13/4/1947) – Coligação Democrática Unitária (PCP-PEV - CDU: programa). Uma vibração de mestre. Grande faculdade de inspiração e destinado a viver as suas visões e a concretizar os seus sonhos. Marcadamente a contas com o trabalho. Personalidade orientada para a estrutura, gosta de ser visto como filósofo.
José de Almeida e Vasconcelos Pinto Coelho (27/9/1960) – Partido Nacional Renovador (PNR: programa). Destinado à intelectualidade, tem personalidade filantrópica e uma motivação de espírito familiar. Possui faculdade de administração e deseja ser visto como alguém iluminado.
José Manuel da Mata Vieira Coelho (22/7/1952) – Partido Trabalhista Português (PTP: manifesto). Destinado à liderança para a qual está totalmente motivado. Senhor de uma personalidade poderosa, de vibração rara. Dotado de faculdade de análise, gosta de ser visto como devotado. Está a terminar um ano de mudanças.
José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa (6/9/1957) – Partido Socialista (PS: programa). Destinado à liderança, mas actualmente em fim de ciclo. Espírito solitário que gosta de ser visto como altruísta, protector dos mais fracos e alguém que quer mudar o mundo. Uma personalidade indulgente com faculdade de análise.
Luís Filipe Botelho Ribeiro (17/11/1967) - Portugal pro Vida (PPV: wiki). Capacidade de liderança e gosto em ser visto como tal. Em menor porporção, mas igualmente presente no seu destino, personalidade e motivação, que é ligada à filantropia.
Maria Vítor Neves Ferreira Mota (21/12/1978) - Partido Humanista (P.H.: programa). Destinada à comunicação e totalmente orientada para a cooperação. Com uma motivação filantrópica e à vontade na faculdade de adaptação, deseja ser vista como alguém livre. Está no seu ano de realização.
Paulo Alexandre Esteves Borges (5/10/1959) - Partido Pelos Animais e Pela Natureza (PAN: programa). Com uma motivação e destino marcado pela comunicação, com um "q" de tendência à liderança, tem uma personalidade optimista e um desejo de dirigir. Grande faculdade de organização.
Paulo de Sacadura Cabral Portas (12/9/1962) – Partido Popular (CDS PP: manifesto). Destinado à comunicação, a sua motivação e personalidade. Faculdade de análise. O que mais se destaca no desejo de transmitir uma boa impressão. A contas com o trabalho, num ano em que vê os frutos crescerem.
Paulo Jorge Abraços Estêvão (27/7/1968) - Partido Popular Monárquico (PPM: programa). Destinado a grande poder de realização, coadjuvado por uma motivação totalmente orientada para o pioneirismo, destacada capacidade de aventura e personalidade fortemente filantrópica. A contas com o trabalho, deseja dar uma boa impressão, salpicada com uma imagem de dirigente e comunicador. Está em novo ciclo.
Pedro Manuel Mamede Passos Coelho (24/7/1964) – Partido Social Democrata (PPD/PSD: programa). Totalmente motivado para a liderança. Destino e talentos na área da harmonia e com personalidade indulgente. Gosta de ser visto como alguém livre, a contas com limites à liberdade. Atravessa o seu ano de colheita.
Pedro Quartin Graça Simões José (18/5/1962) – Partido da Terra (MPT: programa). Tem personalidade filantrópica e capacidade de inspiração. Motivado pela comunicação, deseja ser visto como empreendedor. Destinado à liberdade, com a qual vem a contas. Está em ano de colheita.
Rui Manuel Pereira Marques (25/6/1963) – Movimento Esperança Portugal (MEP: programa). Motivado e destinado ao optimismo. De personalidade intelectual, gosta de ser visto como alguém livre. Tem talento para liderar e está no seu ano de colheita.
Por falta de dados não conseguimos, até ao momento, disponibilizar informação relativa a dois líderes partidários. Em compensação, deixamos uma referência às entrevistas efectuadas por Maria Flor Pedroso, da Antena 1, aos candidatos:
Nova Democracia (PND: programa). João Carvalho Fernandes em entrevista.

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