quarta-feira, 15 de abril de 2009

Vida simples


No próximo Sábado começa a Semana Internacional de Downshifting, um movimento que propõe, há 14 anos, a simplicidade como modo de vida: decrescer, desacelerar e viver mais com menos; ser simples por fora e rico por dentro.

Texto e desenho* Dina Cristo

Num momento de crise, em que se continua a insistir nas políticas de crédito, consumo e crescimento económico, a simplicidade voluntária (re)surge com uma visão alternativa para a solução dos problemas gerados na sequência do excesso de produção e consumo da era industrial, nomeadamente os ambientais.
Recuperando de tempos ancestrais a ideia de despojamento material, os adeptos e teóricos deste movimento sócio-cultural propõem a sua aplicação nos nossos dias, nomeadamente na Austrália, Brasil, EUA ou Grã-Bretanha.
Desde Lao Tsé, S. Francisco de Assis, até Thoreau ou Gregg**, vários têm sido os autores a proclamar que o dinheiro não traz felicidade, pelo contrário. Há cerca de 30 anos foi a vez de Duane Elgin escrever “simplicidade voluntária”. De então para cá o movimento cresceu e desenvolveu-se. Em “Jardim da simplicidade”, o autor actualiza a concepção de vida simples e descreve dez áreas onde é influente.
São vários os dinamizadores das atitudes simples. Vicki Robin ensina a não gastar dinheiro e a calcular o salário real (subtraindo todas as despesas que acarreta e o tempo efectivo que consome), Jorge Mello lidera as acções no Brasil e Tracey Smith, fundadora da Semana, então nacional, de Downshifting, ocupa-se (a aconselhar indivíduos, empresas e escolas) em reduzir os desperdícios e transformar o lixo em recurso. Algumas das suas sugestões passam por desligar a televisão, largar o cartão de crédito, dar alguns dos seus bens ou cozinhar.
Hoje, este modo de viver melhor com menos é praticado por empresas como a Simple Living Network, pessoas comuns, ou publicamente conhecidas enquanto meios de comunicação tradicionais vão-se adaptando às últimas desta vontade de simplificar a vida.
Decrescer
O movimento assenta em cinco valores básicos: simplificação material, escala humana (pequeno é belo), auto-determinação, consciência ecológica e desenvolvimento pessoal. A sua atitude passa por desprender-se de tudo o que não é essencial e não contribui para a felicidade. Desta forma, por vezes, trocam empregos de prestígio e bem pagos por outros onde auferem menos salários mas gastam menos tempo obtendo maiores níveis de satisfação.
Dispensam salários bem remunerados em carreiras de sucesso, mas plenas de stress e em áreas que não os realiza, para despenderem de mais tempo, necessitando de menos recursos económicos, em actividades de lazer, criativas, vida familiar e auto-conhecimento.
Trata-se de uma opção, consciente e voluntária (ao contrário das vítimas de uma pobreza inesperada e indesejada, os chamados novos pobres), de troca de dinheiro por tempo. Estes homens e mulheres, com uma atitude mais amiga do ambiente, de consumo mais responsável e consciente, acabam por ter menos necessidades a satisfazer e, portanto, menos gastos a realizar. Prescindem do estatuto social em troca de mais tempo que dedicam a si próprios, aos seus e à sua comunidade.
Têm por princípio que ter menos é (poder) ser mais. Um dos objectivos é harmonizar o trabalho com a vida, o crescimento exterior, objectivo e materialista, com o desenvolvimento interior, mais subjectivo e espiritual, os valores masculinos com os femininos.
A proposta que corre mundo e se popularizou é, pois, menos trabalho, dinheiro, abuso de recursos de todo o género, luxo, consumo e pegada ecológica por mais tempo, lazer, liberdade, paz, relaxamento, realização, iluminação, independência e, enfim, uma vida com qualidade e significado.
Abnegação
Enquanto uma parte se preocupa em recuperar rapidamente da crise económica, lutando para repor os níveis de desperdício e ostentação material, estes humanos despem-se da luxúria e ocupam-se em focar no essencial, o que para cada um tem valor, sentido e significado e o faz sentir bem, satisfeito e feliz. Em vez de acumular (mais) bens, desfazem-se deles.
Escolher uma vida simples não significa, no entanto, optar uma vi(d)a pobre ou ascética. Como explica Duane Elgin o objectivo é atingir um nível intermédio, entre a carência e o excesso, que seja adequado para a pessoa. Decidir-se por uma vida simplificada exteriormente não significa sacrifício mas gratificação, pois há uma exploração em direcção ao interior humano. Tal implica maior profundidade e, nesse sentido, maior abundância e plenitude.
Livres dos pormenores que (dis)traem, estas pessoas focam-se no que é importante e básico para si. Ficam também com mais “espaço” para os outros. Encontrada a sua intimidade essencial estão disponíveis para a vida cívica e comunitária, como o trabalho voluntário.
Há uma espécie de religação entre o seu ser profundo ao âmago do universo e de todos os seres. Sentem-se, portanto, mais completos, livres e realizados. O seu “apelo” é, pois, em prol de um decrescimento exterior, de uma desaceleração, de ter o suficiente para viver, o adequado para si, aquilo que, em consciência, lhes é apropriado e indicado.

Menos é mais

Preferem o menos ao mais, a qualidade à quantidade, o mais pequeno ao maior, o simples ao complexo, a vontade de ser ao vício de ter, o relaxamento aos nervos, o desenvolvimento ao crescimento, a ajuda à exploração, o desapego ao desejo – que distinguem de necessidade, tal como o sucesso da realização. Elegem a riqueza da simplicidade à pobreza da complexidade (nomeadamente a burocrática).
Trabalham para viver em vez de viver para trabalhar. Privilegiam produtos duráveis (e não descartáveis), belos e úteis. Defendem a tecnologia intermédia (e não a alta tecnologia), a (est)ética, a responsabilidade, a cooperação, a conservação e a natureza. Propõem a redução da actividade, velocidade e intensidade e princípios como o equilíbrio, a moderação, o respeito (por todos os seres e gerações), a reflexão, a redução, a frugalidade, a tolerância, a diversidade são uma presença constante.
Prescindir do supérfluo, reduzir o desperdício, limitar o consumo ao essencial eis um novo modelo de atitudes e comportamentos numa nova era mais ecológica e solidária. Optar, conscientemente, por viver de forma despojada, mais livre e despreocupada, recuperando a qualidade de tempo e de vida, numa trilogia - ecologia-saúde-frugalidade - que os partidos ecologistas têm vindo a propor.
Uma ideia estudada e posta em prática em Portugal por pessoas e empresas que no dia-a-dia tornam efectiva a mudança para o modo de vida simples, baseado no fundamental, dezassete anos depois da tomada de posição e avisos de cerca de 1600 cientistas.

* Anos 70
**Alguns livros: CALLENBACH, Ernest – Living poor with style. DeGraaf – Affluenza: the all-consuming epidemic. DOMINGUEZ, Joe; ROBIN, Vicki – Dinheiro e vida. Cultrix. 2007. ELGIN, Duane – Voluntary simplicity. 1981. ELGIN, Duane – A garden of simplicity. GREGG, Richard – The value of voluntary simplicity. 1936. KINGSOLVER, Barbara – Animal, vegetable, miracle: a year of food life. MONGEAU, Serge – La simplicité volontaire: plus que jamais. POWYS, John Cowper – A philosophy of solitude. ROBERTSON, James – A new economics of sustainable development. SALT, Henry Stephens – simplification, the saner method of living. SCHUMACHER, E. F. - Small is Beautiful. 1973. SMITH, Tracey – The book of rubbish ideas. TIMOTHY FERRIS – 4-hours workweek: escape 9-5 THOREAU, Henry David – Walden. 1854

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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Vida serrana



Para enfrentar os tempos difíceis que se avizinham, olhamos para trás e reaprendemos com a população na montanha que sobreviveu à miséria.



Texto e fotografia Dina Cristo



«A vida simples das gentes serranas encerra uma lição de harmonia, sóbria dignidade e utilização comedida dos recursos (…) os utensílios eram remendados, reaproveitados ou reutilizados em novos contextos; nada se desperdiçava ou tirava fora; não havia tanto lixo nem se acumulavam objectos supérfluos»(1), retrata Paulo Ramalho.



A cultura serrana era despojada. «O Serrano era parco na sua alimentação, simples na sua atitude e honesto na sua conduta» refere António de Jesus Fernando, numa crónica da Serra publicada na Comarca de Arganil em Janeiro de 1997, citado pelo autor no seu livro “Tempos difíceis. Tradição e mudança na Serra do Açor”, editado em 1999, pela Câmara e Museu Municipal de Arganil.



«Tudo se cruzava, tudo estava intimamente ligado na vida quotidiana”(2) e numa relação estreita com a Natureza. As luzes acesas nunca podiam ser pares e cada utensílio era um bem raro. Os objectos eram improvisados e tinham múltiplas utilizações; eram simples e rústicos, mas belos e harmoniosos.



A aldeia tinha beleza e unidade, era «(…) uma parte que se integra harmoniosamente no todo”(3). As casas, pobres e escuras em lugarejos abandonados, eram de linhas simples e sóbrias mas possuíam um oratório familiar. Os quartos eram cubículos, gelados e sem janelas e os filhos mais velhos dormiam nos palheiros. Em quadras festivas, as paredes eram forradas com jornais.



A vida era difícil, por vezes miserável, mas de grande honestidade: «Uma vida dura, de trabalho e isolamento, com descanso no “dia consagrado”»(4). Os mineiros (nas Minas da Panasqueira) tinham um ofício perigoso e mal pago. por seu lado, os artesãos, muitas vezes, faziam os consertos em casa dos clientes, onde passavam dias. Havia relações de troca e os serviços prestados eram pagos em géneros.



Cultura de subsistência



O milho era o principal sustento. Seco ao sol e moído nos moinhos, com ele se faziam os coscoréis e a broa, inacessível aos mais pobres, que era cozida em fornos comunitários, com água morna, sal, farinha – sempre a mais velha - de milho, de trigo e de centeio.



O porco era essencial e o rebanho proporcionava, além do estrume, queijo, leite, carne e lã. Os chouriços e os queijos conservavam-se com azeite, que se benzia: «Deus te acrescente agora e sempre pelas almas do Purgatório”. O acesso aos alimentos dependia da idade e do sexo, segundo um código hierarquizado. Havia pouco espaço e repasto - as duas refeições quentes eram o almoço e a ceia.



«Por polémica iniciativa do Estado Novo, os pinhais substituíram, quantas vezes à força, os montes baldios cobertos de mato onde as cabras pastavam livremente»(5), controlando a sua altura e minimizando os riscos de incêndio. Hoje, em lugar dos matos existem pinheiros, eucaliptos, ribeiras secas, erosão e… fogos, que vieram nos anos 70 e 80, com o crescimento dos matos.



A Serra foi o espelho onde se reflectiam, ampliadas, as agruras do mundo. A miséria e a fome levaram à emigração para África, Brasil, Europa e Lisboa. Mas antes da aventura para lá da curva da estrada, há, segundo o autor, que recordar as raízes sãs e (re)colher os últimos ensinamentos: «Olhemos bem para trás antes de transpormos as portas do futuro»(6), recomenda.



O futuro está no passado



«Profunda contradição, esta – cada porta abre para um mundo agonizante, exibe feridas fundas vindas do passado, é um testemunho de tempos difíceis. Mas, a mesma porta, empurrada na direcção oposta, abre para o futuro (...). Conseguiremos nós, peneirar o passado no crivo do presente até lhe retirar o joio espúrio da pobreza e da miséria?»(7), interroga o autor.



Paulo Ramalho está convicto de que os dias que estão para vir mergulham as suas raízes nos dias já idos; afinal, cada geração come o pão amassado pela anterior. «Talvez o futuro deva ser assim: algo de muito novo, feito com a pedra sólida do passado»(8), já que:

«A nossa vida é um longo corredor

Atrás de nós cada chave fecha uma porta.

Se não as deitarmos fora, à nossa frente

Outras portas do corredor elas podem abrir»(9)


«A nossa civilização chegou à sua última encruzilhada: agora, ou consumimos o que resta do planeta ou reciclamos quase todos os nossos hábitos e atitudes»(10), defende Paulo Ramalho.

(1) RAMALHO, Paulo – Tempos difíceis. Tradição e mudança na Serra do Açor. Câmara Municipal de Arganil/Museu Municipal, 1999, pág. 84. (2) Idem, pág. 38. (3) Idem, pág. 15 (4) Idem, pág. 56. (5) Idem, pág. 67. (6) Idem, pág. 88. (7) Idem, pág. 15. (8) Idem, pág. 88. (9) Idem, pág. 90. (10) Idem, pág. 82.

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quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Informação solidária


Carlos Cardoso Aveline participou do Brasil, via internet, na conferência sobre “Informação Solidária”, de que é especialista. Eis o essencial da sua intervenção.

Texto Carlos Cardoso Aveline fotografia Dina Cristo

Meus Amigos,
Obrigado pelo convite para estar aqui em Coimbra entre vocês.
De fato, a internet tem coisas estranhas. Eu hoje posso dizer que estou mais aqui, em Coimbra, do que lá no Brasil onde meu corpo físico está a falar sozinho com algum computador.
Não há coisa mais bela do que a oportunidade de tornar alguém feliz, e assim também a missão mais nobre da comunicação social é identificar e eliminar as fontes de sofrimento da comunidade humana. Daí surge a idéia de uma informação solidária.
“Informação solidária” é aquele processo de produção e circulação de informações em que predomina a ética, a solidariedade e o bom senso.
O resultado natural disso é um compromisso dos editores com uma linha de respeito profundo pela vida, nos seus diferentes aspectos.
É preciso dizer que o processo da informação solidária não depende de estruturas externas. Pode haver Informação Solidária em empresas e instituições convencionais. Neste momento, por exemplo, em Junho de 2007, grandes grupos editoriais fazem informação solidária, no Brasil. É o caso da Editora Abril, com dezenas de revistas e websites, que acaba de assumir um compromisso explícito com o futuro do planeta. Por outro lado, também pode haver uma ausência de real solidariedade em qualquer pequeno jornal comunitário, se não houver clareza de metas e transparência nas decisões.
A vanguarda da informação solidária coloca o dinheiro ao serviço da vida, e não a vida ao serviço do dinheiro.
As grandes instituições (políticas, econômicas, sociais) devem ter a coragem e o talento necessários para perceber o ponto de vista do cidadão consciente; e também para obedecer a este ponto de vista.
A informação solidária eleva o estado de espírito da comunidade. Ela investiga e desenvolve o seu potencial positivo, mas também sabe ser crítica sempre que for necessário.
A solidariedade nas relações sociais é um resultado natural do uso do bom senso.
A falta de solidariedade é sintoma certo de falta de atividade cerebral.
Por isso pode-se falar realmente de um “despertar para a solidariedade”.
Porque na ausência de solidariedade há sempre um estado de sono, de adormecimento da consciência humana.
Normalmente é necessária alguma crise para que haja o despertar. Não podemos reclamar por falta de crises, no mundo hoje, e isso quer dizer que o despertador está tocando.
Vamos agora mencionar alguns exemplos do despertar, do que está a acontecer no Brasil, dentro do conceito amplo de Informação Solidária.
O jornalismo alternativo surge mais claramente na época da resistência à ditadura militar, nos anos 1970 e 1980. Eram pequenos jornais mensais, chamados de “nanicos”, isto é, “miúdos”. Hoje ainda temos pequenos jornais de partidos de esquerda radical, mas a grande novidade são os jornais alternativos que expressam ideais ecológicos e espirituais. Além disso, a comunicação social alternativa se transferiu em grande parte para a internet, com websites e revistas eletrônicas. Há experiências numerosas de rádios e TV comunitárias. E a grande imprensa também expressa essa renovação da comunicação social a partir da participação democrática.
Há pouco saiu publicada uma propaganda de página inteira na revista “Vida Simples”. A propaganda anunciava algo que o grande grupo editorial Abril, com suas 55 revistas e 33 sites, está a tratar em profundidade o tema do desenvolvimento sustentável, desde o início de Junho. As prioridades são soluções nas áreas do meio ambiente, energia, urbanismo, consumo, lixo, saúde, educação. O anúncio dizia: "Veja o que está acontecendo e o que você pode fazer em www.planetasustentavel.com.br".
Nessa ação, a Editora Abril tem o apoio de várias outras grandes empresas. Uma campanha como esta, por parte de um grande grupo editorial, pode ser vista como um sinal dos tempos, e um bom sinal dos tempos. Um sinal de despertar.
Um segundo exemplo de informação solidária é a própria revista
Vida Simples, do grupo Abril. Mensal, ela tem tiragem relativamente grande em termos brasileiros, e circula há vários anos. A temática da revista está toda ela voltada para o ato de viver com simplicidade, livre do consumismo, fora do processo de ansiedade, de frustração e de corrida neurótica atrás do dinheiro. O lema da revista é: “Para quem quer viver mais e melhor”.
Um terceiro exemplo é a coluna quinzenal da monja iogue Susan Andrews na revista Época, da Editora Globo. A revista Época é a segunda maior revista semanal de informação do país. É uma revista de grande porte. As suas matérias repercutem frequentemente nos jornais diários. Susan Andrews é uma mística e dirige uma comunidade de meditatores dedicados à economia solidária. Nesta edição de 28 de Maio de 2007, da Época, Susan Andrews discute como se pode escutar o som do silêncio. Ela diz: “Não fazer nada pode, algumas vezes, ser mais importante do que fazer algo”.
O quarto exemplo é o site da comunidade coordenada por Susan Andrews, o
Há também o
nosso website sobre ética, filosofia, teosofia, meio ambiente e cidadania planetária, que alguns amigos e eu criámos há poucos meses atrás. Nosso website é uma ferramenta de um e-grupo chamado Ser Atento, que se dedica à prática da arte de viver corretamente. Há também um boletim eletrônico. O site está em fase de crescimento: dentro de alguns dias vocês poderão ver nele um artigo da professora Dina Cristo, precisamente sobre informação solidária.
Para concluir, quero citar apenas dois exemplos portugueses de informação solidária.
O primeiro deles demonstra que partidos políticos também podem estar a abrir espaço alternativo em termos de comunicação social. Vejam o site do
Partido da Terra.
Um segundo exemplo português de informação solidária é a revista impressa trimestral
Biosofia, do Centro Lusitano de Unificação Cultural. Publicada em Lisboa, a Biosofia é uma revista interdisciplinar sobre teosofia, filosofia e a arte de viver. Ela aborda todas as áreas do conhecimento humano, dando um certo destaque para as obras de Helena Blavatsky. A Biosofia é editada pelo escritor José Manuel Anacleto.
Além desses exemplos, sabemos que há várias outras experiências importantes em Portugal, e elas estão sendo debatidas por vocês hoje.
Era basicamente isso o que eu tinha a dizer sobre informação solidária. Agradeço a oportunidade de fazer essa visita eletrônica a Coimbra, e fico à disposição para responder algumas perguntas, se houver.
Obrigado a todos.

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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Revolução Lenta

Começa amanhã, até Domingo, a conferência anual da Sociedade para a Desaceleração do Tempo, em Wagrain, na Áustria. Oportunidade para, a partir do livro do jornalista Carl Honoré, levantarmos a ponta do véu sobre o movimento internacional em defesa da Lentidão.

Texto Dina Cristo

É um dos recursos mais democráticos: cada pessoa tem, por dia, exactamente o mesmo número de horas disponível para viver. Para alguns basta, para outros é demais e para muitos parece insuficiente. O tempo transformou-se numa espécie ora de recurso valioso a poupar o máximo e gastar o mínimo ora de inimigo a ser constantemente vencido. Tornámos, assim, a vida num campo de batalha, uma luta permanente para ganhar… tempo. Não o ter converteu-se numa das mais habituais queixas humanas e detê-lo um dos maiores sonhos.
Mas que fazemos quando o antevemos? Tratamos de o ocupar. Sobrecarregamos as nossas agendas, preenchemo-lo o mais que podemos. Um espaço vago deixou de ser motivo de satisfação para passar a ser mais causa de angústia.
Segundo Carl Honoré a nossa relação com o tempo alterou-se desde a industrialização, com os seus impulsos ao nível da urbanização e massificação - produção intensiva e padronizada, na qual a rapidez passou a ser sinónimo de maior quantidade de produtos fabricados, de mais vendas e, portanto, capital económico e lucros financeiros. O tempo acabou por ser encarado como um recurso produtivo: nasce então a ideia de que tempo é dinheiro e que para sermos materialmente mais ricos temos de nos… despachar.
A “cotação” do tempo subiu de tal forma que os operários passaram a ser pagos à hora e não de acordo com aquilo que realmente fabricavam. A pressão para se produzir mais em cada vez menos tempo não parou, dando pouca margem ao controlo de qualidade. A acção externa e reprodutiva ganhou ênfase. O tempo demorado, natural e pessoal, anterior à Revolução Industrial, como o artesão e a sua arte de produzir, manual, individual e lentamente, passou à resistência.
Com a chegada dos relógios públicos, o tempo padronizou-se e homogeneizou-se, passou a regular a vida colectiva, como fábricas e transportes, e os humanos a ser máquinas comandadas por outras máquinas, num grande sistema de produção quantitativa, intensiva e contínua. No século XX, com o automóvel, a televisão, o computador ou o telemóvel, a indução da velocidade foi ainda maior.
Depois da “era” da mitologia e teologia, a tecnologia tem-se apresentado ao olhar humano como um novo deus, ao qual umas vezes se teme e outras se preste culto e devoção e deposite a esperança na resolução dos problemas. Quando pensamos em todas as máquinas que a evolução tecnológica nos tem disponibilizado entendemos a sua idolatria: elas permitiram-nos fazer mais (depressa). Aumentaram o potencial das nossas actividades e deram-nos os meios técnicos para nos tornarmos (automaticamente) mais rápidos. A velocidade das nossas vidas aumentou e nós adaptámo-nos a um ritmo cada vez mais célere.
O tempo, outrora, natural, artificializou-se e passámos a obedecer ao, colectiva e publicamente, estipulado como o (mais) correcto. Simbolizado nos relógios de corda que deixámos de usar (e os quais dominávamos), deixámos de ter poder sobre o tempo para ser ele a determinar (toda) a nossa vida. Prescindimos de nos levantar quando acordamos, de comer quando temos fome, de dormir quando temos sono e passámos a fazê-lo quando… são horas ditadas pelos relógios-despertadores.
Velocificados
Hoje, em que o mundo se transformou num hipermercado permanente, o acréscimo de estímulos e a possibilidade de ocupar o espaço de tempo aumentou extraordinariamente. Com cada vez mais (compras) a fazer, nós corremos. Iniciámos uma corrida colectiva contra o tempo, como doença contagiante, e aceleramos de manhã à noite, no trabalho e em férias, na estrada e na vida íntima. Hoje em dia, afirma Carl Honoré, o mundo inteiro está doente do tempo; todos pertencemos ao mesmo culto da velocidade, fora de controlo. Tornámo-nos velocificados.
Passámos a ter vidas frenéticas dirigidas pelo relógio. Adaptámo-nos ao ritmo industrial, primeiro, hoje ao informacional, submetemo-nos à economia, desequilibrámos as horas dedicadas ao trabalho e à vida. O tempo passou a nosso Senhor, ao qual prestamos vassalagem, devoção e nos sujeitamos. Ser lento e/ou chegar atrasado tornou-se num crime/pecado ou motivo de crítica social, como reflectem as anedotas acerca dos alentejanos.
A nossa visão linear do tempo, como recurso finito, que parece “voar” de forma irrecuperável, também não ajuda. Os relógios, por seu lado, têm-se tornado cada vez mais precisos na medição dos minutos e (milésimos de) segundos e quanto mais o dividimos maior a consciência da sua passagem. Cresce então a obsessão por não o desperdiçar. Foi assim que nos tornámos neuróticos: passámos a acelerar por acelerar, muitas vezes por hábito, já sem saber porquê; apressar tornou-se um vício, um reflexo condicionado.
Falta de tempo?
Numa relação de amor/ódio, sonhamos com uma agenda livre, mas tememos e angustiamo-nos perante esse vagar. Ocupamos obsessivamente os tempos livres, de crianças e adultos, e não nos sobra tempo, mesmo para as coisas mais simples e relevantes, como a alimentação, a saúde, a família, os amigos, e menos ainda para as efectuarmos devagar. Enchemos as nossas agendas, reduzimos as férias, não admitimos ficar doentes, e, por vezes, só paramos em situações (muito) graves. Assumimos uma atitude do “sempre-em-frente-sem-parar-até-cair”.
À pressão tecnológica e social para estarmos permanentemente ligados junta-se uma ocupação permanente com compromissos sem fim, pelo que a disponibilidade é, na verdade, mais aparente, parcial e superficial do que efectiva. Ter todo o tempo do mundo para alguém ou alguma coisa, fazendo uma pausa para tudo o resto, desligando o telemóvel, por exemplo, é um “luxo” quando habitualmente dispersamos a nossa atenção por várias actividades, simultaneamente. A nossa capacidade de concentração parece cada vez menor. Sem ir ao fundo de cada coisa, desmotivamo-nos, porque mesmo todas juntas nos parecem insossas.
Deixámos de possuir tempo, passámos a ter pressa. A urgência deixou de ser extraordinária. A tendência para o imediatismo, em obter, fazer e/ou ter tudo já, passou a fazer parte das nossas exigências. Tornámo-nos intolerantes em relação a pessoas, locais e actividades lentas. Rebentamos de raiva quando algo ou alguém nos atrasa e nos rouba alguns segundos da nossa vida. Em vez de apreciarmos o caminho (o aqui e agora), optámos por uma vi(d)a rápida (de que as auto-estradas são um exemplo), obcecados em chegar ao fim da meta.
Intensificámos a vida e de tanto a concentrarmos, desgastámo-la, pré-enchemo-la, esvaziando-a de sentido. De tanto perseguir a satisfação, frustrámo-nos num ciclo de superficialidade que apenas conduz à sensação de carência, motivo da procura de mais (quantidade) que por sua vez gera a substituição permanente, a procura da última “novidade”, êxito ou conquista, sempre efémera e descartável. Procuramos acumular o máximo e entrámos num ciclo vicioso de - sensação de - falta de tempo: «O resultado é uma crescente disparidade entre o que queremos da vida e o que realisticamente podemos ter, que alimenta a sensação de nunca haver tempo suficiente”
[1], explica o jornalista.
Refúgio
Carregar no acelerador - seja o tecnológico, do carro, ou o biológico, das pernas – liberta adrenalina e produz uma excitação sensorial imediata, mas é mais do que isso. A velocidade é, ainda que por vezes inconsciente, uma estratégia de fuga à vida presente (como defende Milan Kundera) e futura – tentativa de esquecer a nossa condição mortal (como defende Mark Kingwell).
Uma forma de resistência, uma fuga e uma distracção: «A doença do tempo pode também ser um sintoma de um mal mais profundo e existencial. Nos estádios finais que antecedem a exaustão, as pessoas muitas vezes aceleram para evitar serem confrontadas com a sua infelicidade. Kundera pensa que a velocidade nos ajuda a bloquear o horror e a desolação do mundo moderno”[2].
Cada vez que aceleramos aumentamos a superficialidade da nossa vida. Podemos fazer mais coisas mas quantas vezes mal feitas (porqu)e só com o corpo, sem alma para as animar. À força de tanto querer ganhar tempo, acabamos por perdê-lo ao corrigir os erros que se cometem durante a rapidez (como a correcção de mensagens electrónicas), já para não falar nos acidentes (mesmo os de viação).
Pagámo-lo também com o desgaste da nossa saúde: entramos em stress, fadiga e exaustão. Se é verdade que a velocidade nos conduz mais rapidamente à excitação, também nos leva mais depressa à impaciência, ao aborrecimento. Já Gustav Mahler defendia que perante um público enfadado a melhor solução era… abrandar.
Slow is beautiful
Os Lentos, que resistiram ao longo do séc. XIX e XX, mas não desistiram nem deixaram de existir, reaparecem agora em grupos pró-slow. O despertar do turismo, com a procura do descanso, era já um sintoma, mais recentemente sublinhado com a corrente de lazer cuja “onda” se espalha.
Em vez de afazeres humanos ou teres humanos há cada vez mais pessoas no mundo que decidem arriscar assumirem-se como seres humanos. A “heresia” de desacelerar, descontrair, demorar e preguiçar estende-se desde a Europa à América, passando pela Austrália, Japão ou Polónia, e nas mais diversas áreas, da comida à sexualidade, do trabalho às cidades, da música ao desporto, da medicina ao lazer, da educação ao cinema, a marcha lenta engrossa e as atitudes lentas também.
A simplicidade voluntária (downshifting) é um exemplo entre inúmeros. Enquanto em Espanha há cadeias de sesta, em Portugal os seus amigos explicam as virtudes de uma soneca depois do almoço. A nível internacional demonstram-se os efeitos nocivos da velocidade e programas dedicados a passatempos, como a jardinagem, atingem audiências significativas, na BBC.
Os apóstolos Lentos não defendem que se faça tudo a passo de caracol (o que seria absurdo), mas a um ritmo mais razoável e apropriado, mais sensato, natural e à medida do Ser Humano – o eigenzeit: “(…) o que o movimento Slow oferece, é um meio termo, uma receita para casar a dolce vita com o dinamismo da era da informação. O segredo está no equilíbrio: em vez de fazer tudo mais depressa, faça-se tudo à velocidade certa. Por vezes, depressa. Outras vezes, lentamente. Outras, algures no meio”
[3].
Começou episodicamente em Itália, ao nível dos vagares culinários. Tem-se alastrado pelo mundo e pelas várias áreas da vida humana. Hoje os Lentos têm à sua disposição conferências, festivais e, sobretudo, a possibilidade de debater e experienciar viver (de)vagar e com vagar, uma alternativa saudável, natural e eficaz à vi(d)a rápida. Carl Honoré explica e exemplifica como é nas horas vagas que, mais relaxado e sensível, o Ser Humano atinge mais e melhor inovação e criatividade.
(Des)acelerar?
O movimento em prol da Lentidão defende a utilidade da calma (e a futilidade da pressa), a ideia de que menos é mais (e mais é menos), de que saber demorar, apreciar e prolongar o momento (e não fugir dele), saber esperar (em vez de se impacientar), ser capaz de, por vezes, não fazer nada, o que permite estar mais atento e conduzir à descoberta. Enquanto o abrandamento, vera segurança, permite, com a sua profundidade e consciência (como no caso das ondas cerebrais), uma evolução, libertação, relaxamento, qualidade de vida e felicidade, a aceleração, sinal de insegurança, leva, com a sua superficialidade e inconsciência, a uma repetição, prisão, tensão, quantidade e raiva, documenta o autor.
Os adeptos* de que o “slow é possível” propõem um modo de vida simples, criativo, extensivo e demorado. Para tal há que estabelecer prioridades e fazer uma escolha, optar por fazer menos coisas e, assim, libertar a agenda para as que, para cada um, têm mais valor e significado. Ter espaço para o tempo livre, para o descanso, a descontracção ou actividades relaxantes, como a leitura, pesca, jardinagem, caminhada, renda, meditação ou simplesmente estar à janela.
Os seus simpatizantes colocam a economia ao serviço das pessoas e do ambiente, em vez do contrário. Ao espírito lento está subjacente o ressurgimento da memória de um tempo cíclico. Para os hindus era infinito (Kâla), para os gregos era um deus, Chronos, para Asclépio era estável, pois tinha necessidade, para além do movimento, de voltar ao princípio.
Nós transformámos a quarta dimensão numa espécie de inimigo cujo combate é diário. Para a “doença do tempo” e a “orgia da aceleração”, os activistas pró-Lentos apresentam, no entanto, um remédio: desacelerar ou mesmo travar, se e quando necessário. Sem a pressão dos ponteiros do relógio, assumem o seu próprio ritmo e desfrutam dos prazeres que a lentidão oferece: “Cada prazer (…) é mais delicioso, mais um prazer, se for tomado em pequenos golpes, se dermos tempo”, afirma Amos Oz.
Trata-se, afinal, para os povos mediterrâneos, de nada mais do que a recuperação da sua identidade, no caso português bem patente em provérbios populares que expressam os perigos da pressa, como “depressa e bem há pouco quem”, “quanto mais depressa mais devagar”, e as virtudes da lentidão, como “devagar se vai ao longe”. Afinal, como afirma Uwe Kliemt “O mundo é um lugar mais rico quando damos espaço para velocidades diferentes”.

[0] HONORÉ, Carl – O movimento slow – A corrida contra o tempo afecta o trabalho, a saúde, as relações e o sexo. É possível desacelerar e recuperar a qualidade de vida?, Estrela Polar, 2006.
[1] Pág. 36. [2] HONORÉ, Carl – O movimento slow – A corrida contra o tempo afecta o trabalho, a saúde, as relações e o sexo. É possível desacelerar e recuperar a qualidade de vida?, Estrela Polar, 2006, pág. 38. [3] Idem, pág. 240
*Eis alguns dos livros citados pelo autor ao longo do texto: BEARD, George – Nervosismo americano (efeitos da velocidade). CLAXTON, Guy – Cérebro de lebre, mente de tartaruga – porque aumenta a inteligência quando se pensa menos. ELKIND, David – A criança apressada: crescer depressa demais cedo demais. KUNDERA, Milan – Slowness. 1996. LAFARGUE, Paul – O direito a ser preguiçoso. 1883. MACHLOWITZ, Marilyn – Viciados no trabalho (Workaholics). 1980. NADOLNY, Sten – A descoberta da lentidão. 1996. OIWA, Keibo – Lento é belo. OLERICH, Henry – Um mundo sem cidades nem campos (uma civilização em Marte onde o tempo era tão precioso que se tornara moeda). PASEK, Hirsch – Einstein nunca usou cartas flash: como aprendem realmente as nossas crianças e porque precisam elas de brincar mais e memorizar menos. ROBERTSON, Morgan – Futilidade. 1989. RIFKIN, Jeremy – Guerras do tempo. RUSSELL – Em defesa da ociosidade. 1935. SAMPSON – Tantra: a arte do sexo que expande a mente. SAVORY, George Washington – O inferno na terra transformado em paraíso: os segrdos matrimoniais de um empreiteiro de Chicago. STOCKHAM, Bunker – Sexo sagrado. STOCKHAM, Bunker – Toktologia. 1883. TALSMA, W. R. – O renascimento dos clássicos. Instruções para a desmecanização da música. WEHMEYER, Grete – Prestíssimo: a redescoberta da lentidão na música.

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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Vi(d)a rápida?

Perto do atraso de uma hora, na madrugada de Domingo, reflectimos sobre o “vírus” da pressa, que nos põe à mercê dos ponteiros do relógio, cinco anos depois do primeiro dia nacional nos EUA pela diminuição das horas de trabalho e a defesa de mais tempo livre para o lazer.

Texto e fotografia Dina Cristo

Quem, hoje, não está ocupado? Poucos. E quem não está por vezes parece estar. Estar ocupado tornou-se uma espécie de estatuto social elevado: quanto mais atarefado mais importante se parece ser. Parar, fazer uma pausa, estar disponível parece ter sido relegado para o mundo dos fracos e indigentes. Mais do que isso, os humanos são de tal forma “elevados” que correm e vivem continuamente apressados, para aqui e para ali, fazendo isto e aquilo, atarefados entre um compromisso e outro, entre uma e outra chamada telefónica, @mail, e os mais afazeres que a tecnologia nos possibilitou.

«Na maioria da humanidade», escreveu Max Heindel, «existe tal preponderância de egoísmo e um desejo tão veemente de tirar o maior partido possível da vida física, que os seres humanos se encontram sempre ocupados, seja em manter o “lobo fora da porta”, seja acumulando posses e cuidando delas. Daí que tenham pouco tempo ou inclinação para se ocuparem com a cultura da alma, tão necessária para o verdadeiro êxito da vida»[1].
Para além das nossas actividades, sempre “importantes” e quase sempre urgentes, homens e mulheres esforçam-se por ser os primeiros: na escola, no trabalho, na estrada. Chegar primeiro é ser “mais” do que os outros e acrescenta ainda uma sensação de mais “poder”. É, assim, que muitas vezes já não corremos mas “voamos”, e algumas vezes nos estatelamos. Nesta correria, esquecemo-nos de que estar ocupado é estar preso, como explica Luís Martins Simões, é não deixar vago o lugar para tudo o que o agora nos pode presentear, e de que os últimos são os primeiros.
Embora os lamentos acerca da falta de tempo sejam habituais, o horror à pausa (como ao silêncio ou ao espaço vazio) parece ser ainda maior. E assim ocupamos excessivamente os tempos livres (talvez a mesma disfunção que leva a condicionar o ar) tentando encaixar numa vida, numa década ou, de preferência, num ano, quem sabe numas férias, todas as experiências possíveis. Para poder viver e fazer tudo só aumentando o ritmo. E foi o que fizémos: tudo, cada vez mais rápido. Fotografias num minuto, consertos rápidos, “conversas” de 30 segundos, crescimento intensificado (mesmo de crianças), canções concentradas num refrão.
Infectados pelo vírus da pressa, contagiamo-nos e de aguda tornou-se em doença crónica. A preocupação em gerir o tempo de forma eficaz gerou o aparecimento de gurus que nos aconselham a poupar tempo ao segundo. Só que a contabilização cada vez mais precisa do tempo torna-nos autênticos neuróticos, numa relação com o tempo patológica, perigosa e disfuncional.
Há mesmo quem sonhe em travar o tempo e o “anuncie” como marca do seu serviço e até bancos do tempo, onde as actividades são gratificadas consoante as horas dispendidas e não segundo o valor de mercado de cada serviço. Em Portugal existem agências desde 2002. Pagamos o trabalho com aquilo que, em cada época tem, para nós, mais valor. Se outrora fora o sal (daí o salário) e hoje é o dinheiro, quem sabe se no futuro vai ser o tempo a retribuição do exercício profissional.
Mas o tempo não tem todo o mesmo valor. O mundo, que se tornou num gigantesco centro mundial sempre acessível, potenciado com a internet, dá-nos essa ilusão. Quase tudo está a qualquer hora ao nosso alcance. Em Portugal a “revolução” começou com a abertura dos hipermercados ao Domingo e não mais parou. Fazem-se compras indiscriminadamente, de dia e de noite, à semana e ao fim-de-semana, durante a hora do almoço ou do jantar, nos dias profanos ou sagrados. Sempre as festas (diárias) das novas aquisições.
Desrespeitámos as tradições, os ritmos naturais e passámos a ter tudo sempre. É o caso da fruta que, congelada e vinda de vários países, temos durante todo o ano, a luz artificial que nos permite fazer da noite dia e trabalhar como se houvesse luz do sol. Mas, recorda Carl Honoré[1], a natureza tem os seus próprios horários e há uma altura certa para tudo. O Sábado, por exemplo, é um dia consagrado ao descanso (de onde vem a dispensa sabática) e não ao trabalho, muitas vezes duro, como se vê por quase todo o lado.
Desafiámos também os nossos próprios limites, até a (e à) morte. Quando aceleramos em excesso colocamos a vida em perigo, corremos o risco, na estrada, no trabalho (onde se verificam vários óbitos devido ao excesso de actividade) e na vida, com todo o desgaste orgânico gerado pelo stress continuado e de cuja tensão resultam inúmeras doenças. Radicalizamos, mesmo no desporto.

Devagar que tenho pressa

Queremos ser tão despachados por fora, que acabamos empachosos por dentro. Como, entre tanta pressa, sem tempo para “intervalo” – quantas vezes mesmo o natural e vital sono – havemos de assimilar e digerir tanta “comunicação”, experiências e “novidades”? Como, sem reflexão, atingiremos a consciência? Como, à força de assumirmos ritmos e horários apostados no trabalho sem tempo para a vida – incluindo o tão sonhado tempo para nós próprios e as coisas (às vezes mais simples) que nos alimentam a alma e nos devolvem a felicidade e alegria – não nos desumanizamos?
Haverá forma de nos protegermos desta doença do tempo, a necessidade gerada pela tecnologia de termos e fazermos sempre mais – mesmo à custa de sermos cada vez menos – com uma sensação crescente de falta de tempo e a mania de poupá-lo?
Desacelerar, como explica Carl Hororé no seu livro “O movimento slow”[2], é um risco numa sociedade apressada, competitiva e materialista. Abrandar tem um preço e os Lentos sabem-no bem. Mas deixar voluntariamente uma carreira de alta tensão, estatuto e lucros para adoptar uma vida mais simples, criativa, e descontraída tem inúmeras vantagens e uma delas é a de ser mais feliz.
Podemos começar por recuperar quer a sensação de ter tempo suficiente quer o auto-controlo. O primeiro passo - após a tomada de consciência de que o poder de escolha é nosso - é “dizer não” e optar: libertar a agenda e deixar espaço de tempo livre para passatempos que nos agradem, enriqueçam e alegrem ou, quem sabe, aproveitar para visitar o Museu do Relógio António Tavares D`Almeida, em Serpa.
Em relação às outras tarefas, seremos mais eficazes se tivermos em conta dois factores: primeiro, começar pelo essencial, depois o importante e no final o acessório; segundo, aproveitar os 20% de tempo em que atingimos os 80% de produtividade – período variável consoante os casos. Seja como for é importante manter o equilíbrio entre o trabalho e a vida ou, como sugere Louise Hay, dedicar oito horas por dia ao trabalho, ao lazer e ao descanso, bem como saber aplicar diferentes velocidades consoante as circunstâncias internas e externas, como indica Carl Honoré.
Não se trata de deixar de “correr” com fundamento, mas reconciliar-se com arte do fabrico manual, atentar ao aqui e agora, sem dele tentar escapar, saber dar tempo ao tempo, porque “Roma e Pavia não se fizeram num dia”, ser capaz de relaxar, parar ou, simplesmente, contemplar. “Não fazer nada, ser Lento, é essencial para se pensar bem” lembra Carl Honoré.
Por outro lado, “Ler implica tempo para reflectir (…)”[3], como lembra Paul Virilio, e “Tudo o que seja digno se ser lido é digno de ser lido lentamente”, reforça Cecília Howard. Para Uwe Kliemt “É estúpido beber um copo de vinho rapidamente. E é estúpido tocar Mozart muito depressa”[4]. É hora, pois, de reconhecer as virtudes da tartaruga.


[1] HEINDEl, Max - Princípios Ocultos de Saúde e Cura, Cap.V, pág.5. [2] HONORÉ, Carl - O movimento slow, Ed. Estrela Polar, 2006. [3] Citado por Carl Honoré [4] Citado por Carl Honoré

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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Vida comum


No dia em que Dieter Duhm, fundador de Tamera, completa 70 anos de idade, analisamos duas necessidades humanas essenciais: a liberdade individual e a protecção social.

Texto e fotografia Dina Cristo


Uns procuram a expressão, o desenvolvimento, o aperfeiçoamento individual, outros a aceitação, a integração, o apoio e a ordem social. Será esta uma escolha inevitável ou duas forças possíveis de conciliar? Segundo José Flórido a individuação como a colectivização são duas leis possíveis de se compatibilizar e equilibrar. Tal é possível na última etapa de desenvolvimento humano. Até lá existem três fases prévias: a primeira é a de egoísmo e separatividade, correspondente à individuação em sentido negativo, quando o indivíduo quer conquistar sem esforço e sem aceitação das imposições sociais.

A segunda etapa, a da colectivização em sentido negativo, é quando a sociedade tenta absorver o indivíduo não deixando expressar livremente a sua criatividade, pelo que ele adopta os códigos, hábitos, usos e costumes sociais da maioria. Só depois, na terceira fase é possível a individuação positiva, quando o indivíduo, respeitando os outros, pretende expressar a sua individualidade e ser ele próprio. É na quarta fase, da colectivização positiva, que se atinge o altruísmo e a relação de amor com todos os seres, quando, ao desenvolver ao máximo as suas faculdades criadoras, o Ser Humano as utiliza em benefício da colectividade.

Evolução

Nas sociedades tradicionais e tribais as pessoas estavam unidas pela semelhança e conformavam-se devido à lei repressiva – a obrigação normativa e moral era sentido como natural tal como a solidariedade mecânica, com fortes laços sociais. Nas sociedades modernas os seus membros passaram a estar unidos pela diferença, regidos por uma lei restitutiva, que garante o direito à equidade, e pela solidariedade orgânica, assegurada ora pelo trabalho especializado ora pela cidadania democrática.

Com a industrialização, a massificação, o êxodo rural e os nacionalismos, as pessoas, em novo ambiente social, cultural e laboral, além de deslocalizadas, “exiladas”, atomizadas, no anonimato e desprezo das grande cidades, tornaram-se mais vulneráveis à cultura, dominação e manipulação mediática, controlo e vigilância social bem como a alienação pessoal.

Baseada na homogeneidade, no isolamento involuntário, as sociedades de massa transformaram-se em campos geradores de dependência (manifestados, por exemplo, em excessiva extroversão, para chamar a atenção, ou introversão, por receio de desaprovação) e propícios à exploração, à necessidade de cobiçar e extorquir no colectivo bens e pessoas, no máximo de quantidade e superficialidade, em benefício próprio, para satisfação dos seus interesses pessoais. Neste nível de desenvolvimento material, ainda infantil, faz-se sentir o narcisismo, a sociopatologia e a domesticação social - que condiciona, limita e aprisiona o indivíduo - a obediência, por um lado, por medo, e a necessidade de “protecção” e apoio, por outro. 
Não é, contudo, através do condicionamento, opressão, obstrução e castração do desenvolvimento individual, da exploração da vida social em prol dos interesses particulares e da satisfação instrumental que se pode fundamentar o desenvolvimento social saudável. Este implica o desabrochar mais livre das potencialidades e peculiaridades de cada ser humano, das diferentes formas de expressão (cultural) das necessidades e sonhos, esses sim, idênticos. O (re)conhecimento (e preservação) das particularidades de cada ser humano, da diversidade humana, é essencial pois são recursos que, mais tarde, serão postos em prática a favor da própria vida colectiva.

A fase de individualização, que pode implicar um afastamento da vida social intensa e fútil, é quantas vezes negativamente conotado como anti-social. Confunde-se a integração no sistema social (mediático, político, económico, etc.) com a integração social propriamente dita, na vida de todos os dias, do qual praticamente ninguém, na verdade, está excluído. Rubem Alves mostra, na crónica “solidão amiga”, os aspectos positivos do isolamento voluntário: tempo-espaço para a criação de obras de arte e a comunhão - consigo, com os outros, com a natureza – em que o “estar junto” é bem diferente do “estar próximo”.

Quando o individuo se afasta para ver melhor, para se conhecer e poder expressar e realizar a partir da sua identidade central, integral e profunda desencadeia o processo de individuação, um campo íntimo, de liberdade, autonomia e segurança. O séc. XIX e o romantismo foi fértil precisamente em dar espaço à Subjectividade, ao sentimento, ao Eu interior, pessoal e privado, que se auto-regula em detrimento do ser mais exterior, público, impessoal e objectivo, dos lugares e da hétero-regulação. Em vez da super-estrutura social, causal, teórica, ideal, colectiva e determinística, a infra-estrutura prática, material, individual, âmbito de acção de livre arbítrio, hoje exercido sobretudo ao nível do discurso.

Aceite a riqueza da diferença (posturas, valores, motivações e finalidades, por exemplo), inscrita num âmbito de (auto)conhecimento mais profundo, embora ainda separatista e discriminatório, eis um estado mais adulto de independência, liberdade, responsabilidade e realização. Um estágio cantado, como em “My way”, identificado, como nas deusas virgens – Artémis, Atena e Héstia – correspondentes a padrões de independência – e pensado, por exemplo, por Carlos Cardoso Aveline, que afirma: «Uma certa dose de condicionamento social é inevitável e positiva. Porém é indispensável respeitar, ao mesmo tempo, a necessidade de todo ser humano de estar consigo mesmo, ouvir a voz da sua própria consciência e ter vontade própria».

Comunidade

Só após a experiência da ordem social e da liberdade individual é possível atingir a sua conjugação e conciliação, equilibrando, nas unidades colectivas, as leis da colectivização, mais opressivas e de apego, focadas no todo e no intercâmbio, e da individuação, mais liberais e de desapego, focadas na parte e nas fronteiras. Tal é possível quando se prescinde da dependência social e da independência individual em prol da interdependência, numa visão mais moderada. Numa fase de maior maturidade é, assim, possível, após a falta de personalidade e o seu excesso, encetar uma etapa de despersonalização. É o que se denomina vulgarmente por cidadania, que tem em vista o Bem Comum, o Bem Geral.

Esta maior impessoalidade não significa a eliminação da individualidade mas pelo contrário o colocar as suas competências e talentos em prol da vida comunitária, reunindo a realização individual com a coesão social. Desta forma, quanto mais individual, profundo e original um ser for maior poderá ser a sua contribuição para o todo. Não se trata, pois, de submissão, uniformização ou de separatividade mas de unificação, harmonização e comunhão que hoje começa a ser expressa em comunidades em formação, num nível já não tribal antigo, sub-racional, mas em grupos supra-racionais.

Se na verdade há comunidades que vêm de séculos anteriores, como as religiosas, com as suas Ordens, Mosteiros e Conventos (sendo os Franciscanos um exemplo: os Menores restaurados em 1891, os Conventuais regressados em 1978 e os Capuchinhos entrados em 1939), no séc. XXI nascem e espalham-se pelo mundo cada vez mais comunidades, como os kibutz, ligadas à ecologia profunda, cultivando um estilo de vida simples, sagrado, vinculado, sustentável e com sentido. Já Thomas More, no final do séc.XIX havia imaginado uma sociedade onde o dinheiro era prescindível e ninguém possuía mais do que o necessário.

Em Portugal, Tamera, no Alentejo, é um dos exemplos. Formado como Centro de Pesquisa para a Paz e biótipo de cura, numa perspectiva de acupunctura planetária, ali se desenvolve uma comunidade de seres vivos, além dos humanos, com base na confiança e na cooperação mútua, fundamentada na satisfação das necessidades básicas, como água, alimentação e energia, e valores como a paz e o amor. Apoiada numa tecnologia descentralizada, assente na água (com paisagens de retenção) e no sol, a comunidade, constituída desde 1995, perto de Relíquias, tem por finalidade a (re)formação de uma nova cultura da Era da Deusa, humana, graciosa e harmoniosa.

Neste processo evolutivo da tribo à era grupal há que cuidar de evitar o pseudo-individualismo (diferenciação falsa, separatividade forçada e vi(vi)da em circuito fechado), o excesso de individualismo, motivo de mal-estar que Gilles Lipovetsky explicou, mais presente nos EUA, a sua indistinção da vida comunitária facilitada pela Web 2.0, bem como as tentativas para normalizar e aquietar os indivíduos em questionamento e crescimento, nomeadamente através de medicação.

Hoje, a ideia de que pela união se pode formar uma “constelação” avança e além das redes de Eco-aldeias, existem actualmente Comunidades de Comunidades. Na Europa, onde a ideia da vida colectiva é ainda mais forte, são recordadas quer os bens de uso comunitário, como o boi, o forno, o moinho, numa atitude de abertura, troca e solidariedade, quer os próprios animais com um forte espírito comunitário, como as abelhas, as formigas ou os gansos, que ao voarem em conjunto, em forma de V, reduzindo a resistência do ar, atingem um voo 70% mais longe do que o fariam sozinhos. O lado corporativo, pode representar igualmente um novo espírito grupal construtivo e mediador, entre o indivíduo particular e a sociedade no seu conjunto, nomeadamente as empresas sem fins lucrativos e/ou que actuam na área da responsabilidade social.

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segunda-feira, 8 de junho de 2009

Literatura portuguesa VI


http://portografico.blogs.sapo.pt/124227.html

Nesta sexta parte, abordamos a prosa doutrinária no séc.XVI, com Samuel Usque, Heitor Pinto, Amador Arrais e Tomé de Jesus.

Texto Dina Cristo

A prosa doutrinal religiosa é constituída por um conjunto de obras em que predominam os motivos religiosos. Não se pode falar, no caso português, de uma literatura propriamente mística, que exprima uma experiência de contacto directo com a divindade. Não são muitas as obras ascéticas, que se ocupam dos preceitos que levam à perfeição espiritual e preparam para a união com Deus.
“A consolação às tribulações de Israel”, de Samuel Usque, é constituída por três diálogos entre pastores e tem como objectivo rememorar as perseguições do povo bíblico. Embora adaptado à ficção pastoril, a sua inspiração é fundamentalmente bíblica. Neste estilo, a ligação lógica é dada por alegorias e metáforas simples, repetições e descrições pitorescas. Por exemplo, o diálogo pastoril sobre as causas da Sagrada Escritura, com mais descrições campestres, traça um quadro paradisíaco anterior às atribulações israelitas.
É ainda sob uma reconhecível influência do Humanismo renascentista que Heitor Pinto redige “A imagem da Vida Cristã”, marcando já a inflexão para o ascetismo e o barroco da época seguinte. O autor é platonizante convicto: inferioriza o conhecimento sensível perante o intelectual (diálogo um entre onze), apresenta a teoria platónica das Ideias (diálogo da justiça) e defende que a verdadeira filosofia é o conhecimento de si próprio. Ele faz um discreto mas inequívoco ataque à teologia escolástica mas dá, em geral, a última palavra a um interlocutor teólogo. No ideário social encontra-se também um eco, embora já muito amortecido, do Humanismo: manifesta-se contra as distinções hierárquicas.
O aspecto mais saliente da forma literária de “A imagem da vida cristã” é variedade, profusão e interesse das imagens que por vezes surgem aos cachos para caracterizar um mesmo pensamento. Algumas são de origem literária, outras provêm do ambiente físico observado quotidianamente. O paralelismo entre a vida física e a vida moral é o eixo destas comparações. O gosto pelas imagens também é devido à técnica medieval da pregação, à leitura dos diálogos de Platão e uma grande vocação metafórica a trabalhar espontaneamente sobre os dados correntes. Há muito conceptismo (que serve em geral para sublinhar conceitos contraditórios) nas inúmeras comparações de Heitor Pinto. As suas imagens são motivos de reflexão e apoiam-se numa observação naturalista sem precedentes no seu género literário.

Heitor Pinto tem uma cultura humanista variada e profunda, além de literária, e com referências constantes à matemática. É um humanista laico e de raiz burguesa e representante de uma elite clerical que não anda muito longe do ideal proposto por Erasmo. Não pode considerar-se um místico nem um asceta. Para ele, a religião consiste na caridade e o primeiro passo para o conhecimento de Deus é o auto-conhecimento. Mas já na sua prosa há uma superabundância de ornato, que anuncia o barroco, e temas como o isolamento e o desprendimento do mundo que vão ser acentuados na época seguinte.

Misticismo
Amador Arrais faleceu em 1600 após ter desempenhado importantes cargos eclesiásticos. “Os Diálogos” são constituídos por simples conversas à beira de um doente que é sucessivamente visitado por dez amigos e não um debate entre teses opostas. Por vezes, os interlocutores limitam-se a reforçar entre si as opiniões comuns. A sua prosa limita-se a ser correcta e acessível, evitando o conceptismo barroco e é neste aspecto a melhor dos autores religiosos seiscentistas. Apresenta um progresso literário pois dirige-se a um público leitor mais vasto, por isso assimila a disciplina gramatical e os recursos estilísticos clássicos ao uso das formas correntes do idioma.
Contudo, parece que a obra literária não é original. O que pode interessar neste livro é o testemunho de certa problemática típica da época: censura do lucro, glorificação dos rasgos cavaleirescos e cristãos da história portuguesa; a cobiça e a usura seriam os responsáveis pela decadência portuguesa. Arrais defende a subordinação do poder político aos preceitos da religião. A segunda parte da obra é um tratado moral com regras precisas sobre o testamento.
Frei Tomé de Jesus pode ser considerado um escritor místico se o misticismo literário for definido sem ter em conta a experiência mística como uma efusão emocional. De qualquer maneira o fervor místico encontrou muito poucas manifestações originais na literatura portuguesa.
Os trabalhos de Jesus destinam-se a consolar a nação portuguesa no tempo daqueles grandes trabalhos da jornada de África. Esta obra é uma reconstituição imaginária de cinquenta dos padecimentos de Jesus Cristo e de outros passos da sua vida seguidos de preces. Salienta-se, não pelo pitoresco ou imagem mas pelo enlevo com que procura erguer toda a amargura dos companheiros de Jesus. Os períodos parecem querer prolongar-se até aos limites do folgo, numa enumeração de pormenor dos sofrimentos. É uma evocação realista e torturada dos padecimentos carnais da via-sacra, já com larga tradição. É uma mística da dor, centrada na paixão de Cristo.

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