quarta-feira, 15 de abril de 2009

Vida simples


No próximo Sábado começa a Semana Internacional de Downshifting, um movimento que propõe, há 14 anos, a simplicidade como modo de vida: decrescer, desacelerar e viver mais com menos; ser simples por fora e rico por dentro.

Texto e desenho* Dina Cristo

Num momento de crise, em que se continua a insistir nas políticas de crédito, consumo e crescimento económico, a simplicidade voluntária (re)surge com uma visão alternativa para a solução dos problemas gerados na sequência do excesso de produção e consumo da era industrial, nomeadamente os ambientais.
Recuperando de tempos ancestrais a ideia de despojamento material, os adeptos e teóricos deste movimento sócio-cultural propõem a sua aplicação nos nossos dias, nomeadamente na Austrália, Brasil, EUA ou Grã-Bretanha.
Desde Lao Tsé, S. Francisco de Assis, até Thoreau ou Gregg**, vários têm sido os autores a proclamar que o dinheiro não traz felicidade, pelo contrário. Há cerca de 30 anos foi a vez de Duane Elgin escrever “simplicidade voluntária”. De então para cá o movimento cresceu e desenvolveu-se. Em “Jardim da simplicidade”, o autor actualiza a concepção de vida simples e descreve dez áreas onde é influente.
São vários os dinamizadores das atitudes simples. Vicki Robin ensina a não gastar dinheiro e a calcular o salário real (subtraindo todas as despesas que acarreta e o tempo efectivo que consome), Jorge Mello lidera as acções no Brasil e Tracey Smith, fundadora da Semana, então nacional, de Downshifting, ocupa-se (a aconselhar indivíduos, empresas e escolas) em reduzir os desperdícios e transformar o lixo em recurso. Algumas das suas sugestões passam por desligar a televisão, largar o cartão de crédito, dar alguns dos seus bens ou cozinhar.
Hoje, este modo de viver melhor com menos é praticado por empresas como a Simple Living Network, pessoas comuns, ou publicamente conhecidas enquanto meios de comunicação tradicionais vão-se adaptando às últimas desta vontade de simplificar a vida.
Decrescer
O movimento assenta em cinco valores básicos: simplificação material, escala humana (pequeno é belo), auto-determinação, consciência ecológica e desenvolvimento pessoal. A sua atitude passa por desprender-se de tudo o que não é essencial e não contribui para a felicidade. Desta forma, por vezes, trocam empregos de prestígio e bem pagos por outros onde auferem menos salários mas gastam menos tempo obtendo maiores níveis de satisfação.
Dispensam salários bem remunerados em carreiras de sucesso, mas plenas de stress e em áreas que não os realiza, para despenderem de mais tempo, necessitando de menos recursos económicos, em actividades de lazer, criativas, vida familiar e auto-conhecimento.
Trata-se de uma opção, consciente e voluntária (ao contrário das vítimas de uma pobreza inesperada e indesejada, os chamados novos pobres), de troca de dinheiro por tempo. Estes homens e mulheres, com uma atitude mais amiga do ambiente, de consumo mais responsável e consciente, acabam por ter menos necessidades a satisfazer e, portanto, menos gastos a realizar. Prescindem do estatuto social em troca de mais tempo que dedicam a si próprios, aos seus e à sua comunidade.
Têm por princípio que ter menos é (poder) ser mais. Um dos objectivos é harmonizar o trabalho com a vida, o crescimento exterior, objectivo e materialista, com o desenvolvimento interior, mais subjectivo e espiritual, os valores masculinos com os femininos.
A proposta que corre mundo e se popularizou é, pois, menos trabalho, dinheiro, abuso de recursos de todo o género, luxo, consumo e pegada ecológica por mais tempo, lazer, liberdade, paz, relaxamento, realização, iluminação, independência e, enfim, uma vida com qualidade e significado.
Abnegação
Enquanto uma parte se preocupa em recuperar rapidamente da crise económica, lutando para repor os níveis de desperdício e ostentação material, estes humanos despem-se da luxúria e ocupam-se em focar no essencial, o que para cada um tem valor, sentido e significado e o faz sentir bem, satisfeito e feliz. Em vez de acumular (mais) bens, desfazem-se deles.
Escolher uma vida simples não significa, no entanto, optar uma vi(d)a pobre ou ascética. Como explica Duane Elgin o objectivo é atingir um nível intermédio, entre a carência e o excesso, que seja adequado para a pessoa. Decidir-se por uma vida simplificada exteriormente não significa sacrifício mas gratificação, pois há uma exploração em direcção ao interior humano. Tal implica maior profundidade e, nesse sentido, maior abundância e plenitude.
Livres dos pormenores que (dis)traem, estas pessoas focam-se no que é importante e básico para si. Ficam também com mais “espaço” para os outros. Encontrada a sua intimidade essencial estão disponíveis para a vida cívica e comunitária, como o trabalho voluntário.
Há uma espécie de religação entre o seu ser profundo ao âmago do universo e de todos os seres. Sentem-se, portanto, mais completos, livres e realizados. O seu “apelo” é, pois, em prol de um decrescimento exterior, de uma desaceleração, de ter o suficiente para viver, o adequado para si, aquilo que, em consciência, lhes é apropriado e indicado.

Menos é mais

Preferem o menos ao mais, a qualidade à quantidade, o mais pequeno ao maior, o simples ao complexo, a vontade de ser ao vício de ter, o relaxamento aos nervos, o desenvolvimento ao crescimento, a ajuda à exploração, o desapego ao desejo – que distinguem de necessidade, tal como o sucesso da realização. Elegem a riqueza da simplicidade à pobreza da complexidade (nomeadamente a burocrática).
Trabalham para viver em vez de viver para trabalhar. Privilegiam produtos duráveis (e não descartáveis), belos e úteis. Defendem a tecnologia intermédia (e não a alta tecnologia), a (est)ética, a responsabilidade, a cooperação, a conservação e a natureza. Propõem a redução da actividade, velocidade e intensidade e princípios como o equilíbrio, a moderação, o respeito (por todos os seres e gerações), a reflexão, a redução, a frugalidade, a tolerância, a diversidade são uma presença constante.
Prescindir do supérfluo, reduzir o desperdício, limitar o consumo ao essencial eis um novo modelo de atitudes e comportamentos numa nova era mais ecológica e solidária. Optar, conscientemente, por viver de forma despojada, mais livre e despreocupada, recuperando a qualidade de tempo e de vida, numa trilogia - ecologia-saúde-frugalidade - que os partidos ecologistas têm vindo a propor.
Uma ideia estudada e posta em prática em Portugal por pessoas e empresas que no dia-a-dia tornam efectiva a mudança para o modo de vida simples, baseado no fundamental, dezassete anos depois da tomada de posição e avisos de cerca de 1600 cientistas.

* Anos 70
**Alguns livros: CALLENBACH, Ernest – Living poor with style. DeGraaf – Affluenza: the all-consuming epidemic. DOMINGUEZ, Joe; ROBIN, Vicki – Dinheiro e vida. Cultrix. 2007. ELGIN, Duane – Voluntary simplicity. 1981. ELGIN, Duane – A garden of simplicity. GREGG, Richard – The value of voluntary simplicity. 1936. KINGSOLVER, Barbara – Animal, vegetable, miracle: a year of food life. MONGEAU, Serge – La simplicité volontaire: plus que jamais. POWYS, John Cowper – A philosophy of solitude. ROBERTSON, James – A new economics of sustainable development. SALT, Henry Stephens – simplification, the saner method of living. SCHUMACHER, E. F. - Small is Beautiful. 1973. SMITH, Tracey – The book of rubbish ideas. TIMOTHY FERRIS – 4-hours workweek: escape 9-5 THOREAU, Henry David – Walden. 1854

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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Vida serrana



Para enfrentar os tempos difíceis que se avizinham, olhamos para trás e reaprendemos com a população na montanha que sobreviveu à miséria.



Texto e fotografia Dina Cristo



«A vida simples das gentes serranas encerra uma lição de harmonia, sóbria dignidade e utilização comedida dos recursos (…) os utensílios eram remendados, reaproveitados ou reutilizados em novos contextos; nada se desperdiçava ou tirava fora; não havia tanto lixo nem se acumulavam objectos supérfluos»(1), retrata Paulo Ramalho.



A cultura serrana era despojada. «O Serrano era parco na sua alimentação, simples na sua atitude e honesto na sua conduta» refere António de Jesus Fernando, numa crónica da Serra publicada na Comarca de Arganil em Janeiro de 1997, citado pelo autor no seu livro “Tempos difíceis. Tradição e mudança na Serra do Açor”, editado em 1999, pela Câmara e Museu Municipal de Arganil.



«Tudo se cruzava, tudo estava intimamente ligado na vida quotidiana”(2) e numa relação estreita com a Natureza. As luzes acesas nunca podiam ser pares e cada utensílio era um bem raro. Os objectos eram improvisados e tinham múltiplas utilizações; eram simples e rústicos, mas belos e harmoniosos.



A aldeia tinha beleza e unidade, era «(…) uma parte que se integra harmoniosamente no todo”(3). As casas, pobres e escuras em lugarejos abandonados, eram de linhas simples e sóbrias mas possuíam um oratório familiar. Os quartos eram cubículos, gelados e sem janelas e os filhos mais velhos dormiam nos palheiros. Em quadras festivas, as paredes eram forradas com jornais.



A vida era difícil, por vezes miserável, mas de grande honestidade: «Uma vida dura, de trabalho e isolamento, com descanso no “dia consagrado”»(4). Os mineiros (nas Minas da Panasqueira) tinham um ofício perigoso e mal pago. por seu lado, os artesãos, muitas vezes, faziam os consertos em casa dos clientes, onde passavam dias. Havia relações de troca e os serviços prestados eram pagos em géneros.



Cultura de subsistência



O milho era o principal sustento. Seco ao sol e moído nos moinhos, com ele se faziam os coscoréis e a broa, inacessível aos mais pobres, que era cozida em fornos comunitários, com água morna, sal, farinha – sempre a mais velha - de milho, de trigo e de centeio.



O porco era essencial e o rebanho proporcionava, além do estrume, queijo, leite, carne e lã. Os chouriços e os queijos conservavam-se com azeite, que se benzia: «Deus te acrescente agora e sempre pelas almas do Purgatório”. O acesso aos alimentos dependia da idade e do sexo, segundo um código hierarquizado. Havia pouco espaço e repasto - as duas refeições quentes eram o almoço e a ceia.



«Por polémica iniciativa do Estado Novo, os pinhais substituíram, quantas vezes à força, os montes baldios cobertos de mato onde as cabras pastavam livremente»(5), controlando a sua altura e minimizando os riscos de incêndio. Hoje, em lugar dos matos existem pinheiros, eucaliptos, ribeiras secas, erosão e… fogos, que vieram nos anos 70 e 80, com o crescimento dos matos.



A Serra foi o espelho onde se reflectiam, ampliadas, as agruras do mundo. A miséria e a fome levaram à emigração para África, Brasil, Europa e Lisboa. Mas antes da aventura para lá da curva da estrada, há, segundo o autor, que recordar as raízes sãs e (re)colher os últimos ensinamentos: «Olhemos bem para trás antes de transpormos as portas do futuro»(6), recomenda.



O futuro está no passado



«Profunda contradição, esta – cada porta abre para um mundo agonizante, exibe feridas fundas vindas do passado, é um testemunho de tempos difíceis. Mas, a mesma porta, empurrada na direcção oposta, abre para o futuro (...). Conseguiremos nós, peneirar o passado no crivo do presente até lhe retirar o joio espúrio da pobreza e da miséria?»(7), interroga o autor.



Paulo Ramalho está convicto de que os dias que estão para vir mergulham as suas raízes nos dias já idos; afinal, cada geração come o pão amassado pela anterior. «Talvez o futuro deva ser assim: algo de muito novo, feito com a pedra sólida do passado»(8), já que:

«A nossa vida é um longo corredor

Atrás de nós cada chave fecha uma porta.

Se não as deitarmos fora, à nossa frente

Outras portas do corredor elas podem abrir»(9)


«A nossa civilização chegou à sua última encruzilhada: agora, ou consumimos o que resta do planeta ou reciclamos quase todos os nossos hábitos e atitudes»(10), defende Paulo Ramalho.

(1) RAMALHO, Paulo – Tempos difíceis. Tradição e mudança na Serra do Açor. Câmara Municipal de Arganil/Museu Municipal, 1999, pág. 84. (2) Idem, pág. 38. (3) Idem, pág. 15 (4) Idem, pág. 56. (5) Idem, pág. 67. (6) Idem, pág. 88. (7) Idem, pág. 15. (8) Idem, pág. 88. (9) Idem, pág. 90. (10) Idem, pág. 82.

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quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Informação solidária


Carlos Cardoso Aveline participou do Brasil, via internet, na conferência sobre “Informação Solidária”, de que é especialista. Eis o essencial da sua intervenção.

Texto Carlos Cardoso Aveline fotografia Dina Cristo

Meus Amigos,
Obrigado pelo convite para estar aqui em Coimbra entre vocês.
De fato, a internet tem coisas estranhas. Eu hoje posso dizer que estou mais aqui, em Coimbra, do que lá no Brasil onde meu corpo físico está a falar sozinho com algum computador.
Não há coisa mais bela do que a oportunidade de tornar alguém feliz, e assim também a missão mais nobre da comunicação social é identificar e eliminar as fontes de sofrimento da comunidade humana. Daí surge a idéia de uma informação solidária.
“Informação solidária” é aquele processo de produção e circulação de informações em que predomina a ética, a solidariedade e o bom senso.
O resultado natural disso é um compromisso dos editores com uma linha de respeito profundo pela vida, nos seus diferentes aspectos.
É preciso dizer que o processo da informação solidária não depende de estruturas externas. Pode haver Informação Solidária em empresas e instituições convencionais. Neste momento, por exemplo, em Junho de 2007, grandes grupos editoriais fazem informação solidária, no Brasil. É o caso da Editora Abril, com dezenas de revistas e websites, que acaba de assumir um compromisso explícito com o futuro do planeta. Por outro lado, também pode haver uma ausência de real solidariedade em qualquer pequeno jornal comunitário, se não houver clareza de metas e transparência nas decisões.
A vanguarda da informação solidária coloca o dinheiro ao serviço da vida, e não a vida ao serviço do dinheiro.
As grandes instituições (políticas, econômicas, sociais) devem ter a coragem e o talento necessários para perceber o ponto de vista do cidadão consciente; e também para obedecer a este ponto de vista.
A informação solidária eleva o estado de espírito da comunidade. Ela investiga e desenvolve o seu potencial positivo, mas também sabe ser crítica sempre que for necessário.
A solidariedade nas relações sociais é um resultado natural do uso do bom senso.
A falta de solidariedade é sintoma certo de falta de atividade cerebral.
Por isso pode-se falar realmente de um “despertar para a solidariedade”.
Porque na ausência de solidariedade há sempre um estado de sono, de adormecimento da consciência humana.
Normalmente é necessária alguma crise para que haja o despertar. Não podemos reclamar por falta de crises, no mundo hoje, e isso quer dizer que o despertador está tocando.
Vamos agora mencionar alguns exemplos do despertar, do que está a acontecer no Brasil, dentro do conceito amplo de Informação Solidária.
O jornalismo alternativo surge mais claramente na época da resistência à ditadura militar, nos anos 1970 e 1980. Eram pequenos jornais mensais, chamados de “nanicos”, isto é, “miúdos”. Hoje ainda temos pequenos jornais de partidos de esquerda radical, mas a grande novidade são os jornais alternativos que expressam ideais ecológicos e espirituais. Além disso, a comunicação social alternativa se transferiu em grande parte para a internet, com websites e revistas eletrônicas. Há experiências numerosas de rádios e TV comunitárias. E a grande imprensa também expressa essa renovação da comunicação social a partir da participação democrática.
Há pouco saiu publicada uma propaganda de página inteira na revista “Vida Simples”. A propaganda anunciava algo que o grande grupo editorial Abril, com suas 55 revistas e 33 sites, está a tratar em profundidade o tema do desenvolvimento sustentável, desde o início de Junho. As prioridades são soluções nas áreas do meio ambiente, energia, urbanismo, consumo, lixo, saúde, educação. O anúncio dizia: "Veja o que está acontecendo e o que você pode fazer em www.planetasustentavel.com.br".
Nessa ação, a Editora Abril tem o apoio de várias outras grandes empresas. Uma campanha como esta, por parte de um grande grupo editorial, pode ser vista como um sinal dos tempos, e um bom sinal dos tempos. Um sinal de despertar.
Um segundo exemplo de informação solidária é a própria revista
Vida Simples, do grupo Abril. Mensal, ela tem tiragem relativamente grande em termos brasileiros, e circula há vários anos. A temática da revista está toda ela voltada para o ato de viver com simplicidade, livre do consumismo, fora do processo de ansiedade, de frustração e de corrida neurótica atrás do dinheiro. O lema da revista é: “Para quem quer viver mais e melhor”.
Um terceiro exemplo é a coluna quinzenal da monja iogue Susan Andrews na revista Época, da Editora Globo. A revista Época é a segunda maior revista semanal de informação do país. É uma revista de grande porte. As suas matérias repercutem frequentemente nos jornais diários. Susan Andrews é uma mística e dirige uma comunidade de meditatores dedicados à economia solidária. Nesta edição de 28 de Maio de 2007, da Época, Susan Andrews discute como se pode escutar o som do silêncio. Ela diz: “Não fazer nada pode, algumas vezes, ser mais importante do que fazer algo”.
O quarto exemplo é o site da comunidade coordenada por Susan Andrews, o
Há também o
nosso website sobre ética, filosofia, teosofia, meio ambiente e cidadania planetária, que alguns amigos e eu criámos há poucos meses atrás. Nosso website é uma ferramenta de um e-grupo chamado Ser Atento, que se dedica à prática da arte de viver corretamente. Há também um boletim eletrônico. O site está em fase de crescimento: dentro de alguns dias vocês poderão ver nele um artigo da professora Dina Cristo, precisamente sobre informação solidária.
Para concluir, quero citar apenas dois exemplos portugueses de informação solidária.
O primeiro deles demonstra que partidos políticos também podem estar a abrir espaço alternativo em termos de comunicação social. Vejam o site do
Partido da Terra.
Um segundo exemplo português de informação solidária é a revista impressa trimestral
Biosofia, do Centro Lusitano de Unificação Cultural. Publicada em Lisboa, a Biosofia é uma revista interdisciplinar sobre teosofia, filosofia e a arte de viver. Ela aborda todas as áreas do conhecimento humano, dando um certo destaque para as obras de Helena Blavatsky. A Biosofia é editada pelo escritor José Manuel Anacleto.
Além desses exemplos, sabemos que há várias outras experiências importantes em Portugal, e elas estão sendo debatidas por vocês hoje.
Era basicamente isso o que eu tinha a dizer sobre informação solidária. Agradeço a oportunidade de fazer essa visita eletrônica a Coimbra, e fico à disposição para responder algumas perguntas, se houver.
Obrigado a todos.

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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Revolução Lenta

Começa amanhã, até Domingo, a conferência anual da Sociedade para a Desaceleração do Tempo, em Wagrain, na Áustria. Oportunidade para, a partir do livro do jornalista Carl Honoré, levantarmos a ponta do véu sobre o movimento internacional em defesa da Lentidão.

Texto Dina Cristo

É um dos recursos mais democráticos: cada pessoa tem, por dia, exactamente o mesmo número de horas disponível para viver. Para alguns basta, para outros é demais e para muitos parece insuficiente. O tempo transformou-se numa espécie ora de recurso valioso a poupar o máximo e gastar o mínimo ora de inimigo a ser constantemente vencido. Tornámos, assim, a vida num campo de batalha, uma luta permanente para ganhar… tempo. Não o ter converteu-se numa das mais habituais queixas humanas e detê-lo um dos maiores sonhos.
Mas que fazemos quando o antevemos? Tratamos de o ocupar. Sobrecarregamos as nossas agendas, preenchemo-lo o mais que podemos. Um espaço vago deixou de ser motivo de satisfação para passar a ser mais causa de angústia.
Segundo Carl Honoré a nossa relação com o tempo alterou-se desde a industrialização, com os seus impulsos ao nível da urbanização e massificação - produção intensiva e padronizada, na qual a rapidez passou a ser sinónimo de maior quantidade de produtos fabricados, de mais vendas e, portanto, capital económico e lucros financeiros. O tempo acabou por ser encarado como um recurso produtivo: nasce então a ideia de que tempo é dinheiro e que para sermos materialmente mais ricos temos de nos… despachar.
A “cotação” do tempo subiu de tal forma que os operários passaram a ser pagos à hora e não de acordo com aquilo que realmente fabricavam. A pressão para se produzir mais em cada vez menos tempo não parou, dando pouca margem ao controlo de qualidade. A acção externa e reprodutiva ganhou ênfase. O tempo demorado, natural e pessoal, anterior à Revolução Industrial, como o artesão e a sua arte de produzir, manual, individual e lentamente, passou à resistência.
Com a chegada dos relógios públicos, o tempo padronizou-se e homogeneizou-se, passou a regular a vida colectiva, como fábricas e transportes, e os humanos a ser máquinas comandadas por outras máquinas, num grande sistema de produção quantitativa, intensiva e contínua. No século XX, com o automóvel, a televisão, o computador ou o telemóvel, a indução da velocidade foi ainda maior.
Depois da “era” da mitologia e teologia, a tecnologia tem-se apresentado ao olhar humano como um novo deus, ao qual umas vezes se teme e outras se preste culto e devoção e deposite a esperança na resolução dos problemas. Quando pensamos em todas as máquinas que a evolução tecnológica nos tem disponibilizado entendemos a sua idolatria: elas permitiram-nos fazer mais (depressa). Aumentaram o potencial das nossas actividades e deram-nos os meios técnicos para nos tornarmos (automaticamente) mais rápidos. A velocidade das nossas vidas aumentou e nós adaptámo-nos a um ritmo cada vez mais célere.
O tempo, outrora, natural, artificializou-se e passámos a obedecer ao, colectiva e publicamente, estipulado como o (mais) correcto. Simbolizado nos relógios de corda que deixámos de usar (e os quais dominávamos), deixámos de ter poder sobre o tempo para ser ele a determinar (toda) a nossa vida. Prescindimos de nos levantar quando acordamos, de comer quando temos fome, de dormir quando temos sono e passámos a fazê-lo quando… são horas ditadas pelos relógios-despertadores.
Velocificados
Hoje, em que o mundo se transformou num hipermercado permanente, o acréscimo de estímulos e a possibilidade de ocupar o espaço de tempo aumentou extraordinariamente. Com cada vez mais (compras) a fazer, nós corremos. Iniciámos uma corrida colectiva contra o tempo, como doença contagiante, e aceleramos de manhã à noite, no trabalho e em férias, na estrada e na vida íntima. Hoje em dia, afirma Carl Honoré, o mundo inteiro está doente do tempo; todos pertencemos ao mesmo culto da velocidade, fora de controlo. Tornámo-nos velocificados.
Passámos a ter vidas frenéticas dirigidas pelo relógio. Adaptámo-nos ao ritmo industrial, primeiro, hoje ao informacional, submetemo-nos à economia, desequilibrámos as horas dedicadas ao trabalho e à vida. O tempo passou a nosso Senhor, ao qual prestamos vassalagem, devoção e nos sujeitamos. Ser lento e/ou chegar atrasado tornou-se num crime/pecado ou motivo de crítica social, como reflectem as anedotas acerca dos alentejanos.
A nossa visão linear do tempo, como recurso finito, que parece “voar” de forma irrecuperável, também não ajuda. Os relógios, por seu lado, têm-se tornado cada vez mais precisos na medição dos minutos e (milésimos de) segundos e quanto mais o dividimos maior a consciência da sua passagem. Cresce então a obsessão por não o desperdiçar. Foi assim que nos tornámos neuróticos: passámos a acelerar por acelerar, muitas vezes por hábito, já sem saber porquê; apressar tornou-se um vício, um reflexo condicionado.
Falta de tempo?
Numa relação de amor/ódio, sonhamos com uma agenda livre, mas tememos e angustiamo-nos perante esse vagar. Ocupamos obsessivamente os tempos livres, de crianças e adultos, e não nos sobra tempo, mesmo para as coisas mais simples e relevantes, como a alimentação, a saúde, a família, os amigos, e menos ainda para as efectuarmos devagar. Enchemos as nossas agendas, reduzimos as férias, não admitimos ficar doentes, e, por vezes, só paramos em situações (muito) graves. Assumimos uma atitude do “sempre-em-frente-sem-parar-até-cair”.
À pressão tecnológica e social para estarmos permanentemente ligados junta-se uma ocupação permanente com compromissos sem fim, pelo que a disponibilidade é, na verdade, mais aparente, parcial e superficial do que efectiva. Ter todo o tempo do mundo para alguém ou alguma coisa, fazendo uma pausa para tudo o resto, desligando o telemóvel, por exemplo, é um “luxo” quando habitualmente dispersamos a nossa atenção por várias actividades, simultaneamente. A nossa capacidade de concentração parece cada vez menor. Sem ir ao fundo de cada coisa, desmotivamo-nos, porque mesmo todas juntas nos parecem insossas.
Deixámos de possuir tempo, passámos a ter pressa. A urgência deixou de ser extraordinária. A tendência para o imediatismo, em obter, fazer e/ou ter tudo já, passou a fazer parte das nossas exigências. Tornámo-nos intolerantes em relação a pessoas, locais e actividades lentas. Rebentamos de raiva quando algo ou alguém nos atrasa e nos rouba alguns segundos da nossa vida. Em vez de apreciarmos o caminho (o aqui e agora), optámos por uma vi(d)a rápida (de que as auto-estradas são um exemplo), obcecados em chegar ao fim da meta.
Intensificámos a vida e de tanto a concentrarmos, desgastámo-la, pré-enchemo-la, esvaziando-a de sentido. De tanto perseguir a satisfação, frustrámo-nos num ciclo de superficialidade que apenas conduz à sensação de carência, motivo da procura de mais (quantidade) que por sua vez gera a substituição permanente, a procura da última “novidade”, êxito ou conquista, sempre efémera e descartável. Procuramos acumular o máximo e entrámos num ciclo vicioso de - sensação de - falta de tempo: «O resultado é uma crescente disparidade entre o que queremos da vida e o que realisticamente podemos ter, que alimenta a sensação de nunca haver tempo suficiente”
[1], explica o jornalista.
Refúgio
Carregar no acelerador - seja o tecnológico, do carro, ou o biológico, das pernas – liberta adrenalina e produz uma excitação sensorial imediata, mas é mais do que isso. A velocidade é, ainda que por vezes inconsciente, uma estratégia de fuga à vida presente (como defende Milan Kundera) e futura – tentativa de esquecer a nossa condição mortal (como defende Mark Kingwell).
Uma forma de resistência, uma fuga e uma distracção: «A doença do tempo pode também ser um sintoma de um mal mais profundo e existencial. Nos estádios finais que antecedem a exaustão, as pessoas muitas vezes aceleram para evitar serem confrontadas com a sua infelicidade. Kundera pensa que a velocidade nos ajuda a bloquear o horror e a desolação do mundo moderno”[2].
Cada vez que aceleramos aumentamos a superficialidade da nossa vida. Podemos fazer mais coisas mas quantas vezes mal feitas (porqu)e só com o corpo, sem alma para as animar. À força de tanto querer ganhar tempo, acabamos por perdê-lo ao corrigir os erros que se cometem durante a rapidez (como a correcção de mensagens electrónicas), já para não falar nos acidentes (mesmo os de viação).
Pagámo-lo também com o desgaste da nossa saúde: entramos em stress, fadiga e exaustão. Se é verdade que a velocidade nos conduz mais rapidamente à excitação, também nos leva mais depressa à impaciência, ao aborrecimento. Já Gustav Mahler defendia que perante um público enfadado a melhor solução era… abrandar.
Slow is beautiful
Os Lentos, que resistiram ao longo do séc. XIX e XX, mas não desistiram nem deixaram de existir, reaparecem agora em grupos pró-slow. O despertar do turismo, com a procura do descanso, era já um sintoma, mais recentemente sublinhado com a corrente de lazer cuja “onda” se espalha.
Em vez de afazeres humanos ou teres humanos há cada vez mais pessoas no mundo que decidem arriscar assumirem-se como seres humanos. A “heresia” de desacelerar, descontrair, demorar e preguiçar estende-se desde a Europa à América, passando pela Austrália, Japão ou Polónia, e nas mais diversas áreas, da comida à sexualidade, do trabalho às cidades, da música ao desporto, da medicina ao lazer, da educação ao cinema, a marcha lenta engrossa e as atitudes lentas também.
A simplicidade voluntária (downshifting) é um exemplo entre inúmeros. Enquanto em Espanha há cadeias de sesta, em Portugal os seus amigos explicam as virtudes de uma soneca depois do almoço. A nível internacional demonstram-se os efeitos nocivos da velocidade e programas dedicados a passatempos, como a jardinagem, atingem audiências significativas, na BBC.
Os apóstolos Lentos não defendem que se faça tudo a passo de caracol (o que seria absurdo), mas a um ritmo mais razoável e apropriado, mais sensato, natural e à medida do Ser Humano – o eigenzeit: “(…) o que o movimento Slow oferece, é um meio termo, uma receita para casar a dolce vita com o dinamismo da era da informação. O segredo está no equilíbrio: em vez de fazer tudo mais depressa, faça-se tudo à velocidade certa. Por vezes, depressa. Outras vezes, lentamente. Outras, algures no meio”
[3].
Começou episodicamente em Itália, ao nível dos vagares culinários. Tem-se alastrado pelo mundo e pelas várias áreas da vida humana. Hoje os Lentos têm à sua disposição conferências, festivais e, sobretudo, a possibilidade de debater e experienciar viver (de)vagar e com vagar, uma alternativa saudável, natural e eficaz à vi(d)a rápida. Carl Honoré explica e exemplifica como é nas horas vagas que, mais relaxado e sensível, o Ser Humano atinge mais e melhor inovação e criatividade.
(Des)acelerar?
O movimento em prol da Lentidão defende a utilidade da calma (e a futilidade da pressa), a ideia de que menos é mais (e mais é menos), de que saber demorar, apreciar e prolongar o momento (e não fugir dele), saber esperar (em vez de se impacientar), ser capaz de, por vezes, não fazer nada, o que permite estar mais atento e conduzir à descoberta. Enquanto o abrandamento, vera segurança, permite, com a sua profundidade e consciência (como no caso das ondas cerebrais), uma evolução, libertação, relaxamento, qualidade de vida e felicidade, a aceleração, sinal de insegurança, leva, com a sua superficialidade e inconsciência, a uma repetição, prisão, tensão, quantidade e raiva, documenta o autor.
Os adeptos* de que o “slow é possível” propõem um modo de vida simples, criativo, extensivo e demorado. Para tal há que estabelecer prioridades e fazer uma escolha, optar por fazer menos coisas e, assim, libertar a agenda para as que, para cada um, têm mais valor e significado. Ter espaço para o tempo livre, para o descanso, a descontracção ou actividades relaxantes, como a leitura, pesca, jardinagem, caminhada, renda, meditação ou simplesmente estar à janela.
Os seus simpatizantes colocam a economia ao serviço das pessoas e do ambiente, em vez do contrário. Ao espírito lento está subjacente o ressurgimento da memória de um tempo cíclico. Para os hindus era infinito (Kâla), para os gregos era um deus, Chronos, para Asclépio era estável, pois tinha necessidade, para além do movimento, de voltar ao princípio.
Nós transformámos a quarta dimensão numa espécie de inimigo cujo combate é diário. Para a “doença do tempo” e a “orgia da aceleração”, os activistas pró-Lentos apresentam, no entanto, um remédio: desacelerar ou mesmo travar, se e quando necessário. Sem a pressão dos ponteiros do relógio, assumem o seu próprio ritmo e desfrutam dos prazeres que a lentidão oferece: “Cada prazer (…) é mais delicioso, mais um prazer, se for tomado em pequenos golpes, se dermos tempo”, afirma Amos Oz.
Trata-se, afinal, para os povos mediterrâneos, de nada mais do que a recuperação da sua identidade, no caso português bem patente em provérbios populares que expressam os perigos da pressa, como “depressa e bem há pouco quem”, “quanto mais depressa mais devagar”, e as virtudes da lentidão, como “devagar se vai ao longe”. Afinal, como afirma Uwe Kliemt “O mundo é um lugar mais rico quando damos espaço para velocidades diferentes”.

[0] HONORÉ, Carl – O movimento slow – A corrida contra o tempo afecta o trabalho, a saúde, as relações e o sexo. É possível desacelerar e recuperar a qualidade de vida?, Estrela Polar, 2006.
[1] Pág. 36. [2] HONORÉ, Carl – O movimento slow – A corrida contra o tempo afecta o trabalho, a saúde, as relações e o sexo. É possível desacelerar e recuperar a qualidade de vida?, Estrela Polar, 2006, pág. 38. [3] Idem, pág. 240
*Eis alguns dos livros citados pelo autor ao longo do texto: BEARD, George – Nervosismo americano (efeitos da velocidade). CLAXTON, Guy – Cérebro de lebre, mente de tartaruga – porque aumenta a inteligência quando se pensa menos. ELKIND, David – A criança apressada: crescer depressa demais cedo demais. KUNDERA, Milan – Slowness. 1996. LAFARGUE, Paul – O direito a ser preguiçoso. 1883. MACHLOWITZ, Marilyn – Viciados no trabalho (Workaholics). 1980. NADOLNY, Sten – A descoberta da lentidão. 1996. OIWA, Keibo – Lento é belo. OLERICH, Henry – Um mundo sem cidades nem campos (uma civilização em Marte onde o tempo era tão precioso que se tornara moeda). PASEK, Hirsch – Einstein nunca usou cartas flash: como aprendem realmente as nossas crianças e porque precisam elas de brincar mais e memorizar menos. ROBERTSON, Morgan – Futilidade. 1989. RIFKIN, Jeremy – Guerras do tempo. RUSSELL – Em defesa da ociosidade. 1935. SAMPSON – Tantra: a arte do sexo que expande a mente. SAVORY, George Washington – O inferno na terra transformado em paraíso: os segrdos matrimoniais de um empreiteiro de Chicago. STOCKHAM, Bunker – Sexo sagrado. STOCKHAM, Bunker – Toktologia. 1883. TALSMA, W. R. – O renascimento dos clássicos. Instruções para a desmecanização da música. WEHMEYER, Grete – Prestíssimo: a redescoberta da lentidão na música.

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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Vida comum


No dia em que Dieter Duhm, fundador de Tamera, completa 70 anos de idade, analisamos duas necessidades humanas essenciais: a liberdade individual e a protecção social.

Texto e fotografia Dina Cristo


Uns procuram a expressão, o desenvolvimento, o aperfeiçoamento individual, outros a aceitação, a integração, o apoio e a ordem social. Será esta uma escolha inevitável ou duas forças possíveis de conciliar? Segundo José Flórido a individuação como a colectivização são duas leis possíveis de se compatibilizar e equilibrar. Tal é possível na última etapa de desenvolvimento humano. Até lá existem três fases prévias: a primeira é a de egoísmo e separatividade, correspondente à individuação em sentido negativo, quando o indivíduo quer conquistar sem esforço e sem aceitação das imposições sociais.

A segunda etapa, a da colectivização em sentido negativo, é quando a sociedade tenta absorver o indivíduo não deixando expressar livremente a sua criatividade, pelo que ele adopta os códigos, hábitos, usos e costumes sociais da maioria. Só depois, na terceira fase é possível a individuação positiva, quando o indivíduo, respeitando os outros, pretende expressar a sua individualidade e ser ele próprio. É na quarta fase, da colectivização positiva, que se atinge o altruísmo e a relação de amor com todos os seres, quando, ao desenvolver ao máximo as suas faculdades criadoras, o Ser Humano as utiliza em benefício da colectividade.

Evolução

Nas sociedades tradicionais e tribais as pessoas estavam unidas pela semelhança e conformavam-se devido à lei repressiva – a obrigação normativa e moral era sentido como natural tal como a solidariedade mecânica, com fortes laços sociais. Nas sociedades modernas os seus membros passaram a estar unidos pela diferença, regidos por uma lei restitutiva, que garante o direito à equidade, e pela solidariedade orgânica, assegurada ora pelo trabalho especializado ora pela cidadania democrática.

Com a industrialização, a massificação, o êxodo rural e os nacionalismos, as pessoas, em novo ambiente social, cultural e laboral, além de deslocalizadas, “exiladas”, atomizadas, no anonimato e desprezo das grande cidades, tornaram-se mais vulneráveis à cultura, dominação e manipulação mediática, controlo e vigilância social bem como a alienação pessoal.

Baseada na homogeneidade, no isolamento involuntário, as sociedades de massa transformaram-se em campos geradores de dependência (manifestados, por exemplo, em excessiva extroversão, para chamar a atenção, ou introversão, por receio de desaprovação) e propícios à exploração, à necessidade de cobiçar e extorquir no colectivo bens e pessoas, no máximo de quantidade e superficialidade, em benefício próprio, para satisfação dos seus interesses pessoais. Neste nível de desenvolvimento material, ainda infantil, faz-se sentir o narcisismo, a sociopatologia e a domesticação social - que condiciona, limita e aprisiona o indivíduo - a obediência, por um lado, por medo, e a necessidade de “protecção” e apoio, por outro. 
Não é, contudo, através do condicionamento, opressão, obstrução e castração do desenvolvimento individual, da exploração da vida social em prol dos interesses particulares e da satisfação instrumental que se pode fundamentar o desenvolvimento social saudável. Este implica o desabrochar mais livre das potencialidades e peculiaridades de cada ser humano, das diferentes formas de expressão (cultural) das necessidades e sonhos, esses sim, idênticos. O (re)conhecimento (e preservação) das particularidades de cada ser humano, da diversidade humana, é essencial pois são recursos que, mais tarde, serão postos em prática a favor da própria vida colectiva.

A fase de individualização, que pode implicar um afastamento da vida social intensa e fútil, é quantas vezes negativamente conotado como anti-social. Confunde-se a integração no sistema social (mediático, político, económico, etc.) com a integração social propriamente dita, na vida de todos os dias, do qual praticamente ninguém, na verdade, está excluído. Rubem Alves mostra, na crónica “solidão amiga”, os aspectos positivos do isolamento voluntário: tempo-espaço para a criação de obras de arte e a comunhão - consigo, com os outros, com a natureza – em que o “estar junto” é bem diferente do “estar próximo”.

Quando o individuo se afasta para ver melhor, para se conhecer e poder expressar e realizar a partir da sua identidade central, integral e profunda desencadeia o processo de individuação, um campo íntimo, de liberdade, autonomia e segurança. O séc. XIX e o romantismo foi fértil precisamente em dar espaço à Subjectividade, ao sentimento, ao Eu interior, pessoal e privado, que se auto-regula em detrimento do ser mais exterior, público, impessoal e objectivo, dos lugares e da hétero-regulação. Em vez da super-estrutura social, causal, teórica, ideal, colectiva e determinística, a infra-estrutura prática, material, individual, âmbito de acção de livre arbítrio, hoje exercido sobretudo ao nível do discurso.

Aceite a riqueza da diferença (posturas, valores, motivações e finalidades, por exemplo), inscrita num âmbito de (auto)conhecimento mais profundo, embora ainda separatista e discriminatório, eis um estado mais adulto de independência, liberdade, responsabilidade e realização. Um estágio cantado, como em “My way”, identificado, como nas deusas virgens – Artémis, Atena e Héstia – correspondentes a padrões de independência – e pensado, por exemplo, por Carlos Cardoso Aveline, que afirma: «Uma certa dose de condicionamento social é inevitável e positiva. Porém é indispensável respeitar, ao mesmo tempo, a necessidade de todo ser humano de estar consigo mesmo, ouvir a voz da sua própria consciência e ter vontade própria».

Comunidade

Só após a experiência da ordem social e da liberdade individual é possível atingir a sua conjugação e conciliação, equilibrando, nas unidades colectivas, as leis da colectivização, mais opressivas e de apego, focadas no todo e no intercâmbio, e da individuação, mais liberais e de desapego, focadas na parte e nas fronteiras. Tal é possível quando se prescinde da dependência social e da independência individual em prol da interdependência, numa visão mais moderada. Numa fase de maior maturidade é, assim, possível, após a falta de personalidade e o seu excesso, encetar uma etapa de despersonalização. É o que se denomina vulgarmente por cidadania, que tem em vista o Bem Comum, o Bem Geral.

Esta maior impessoalidade não significa a eliminação da individualidade mas pelo contrário o colocar as suas competências e talentos em prol da vida comunitária, reunindo a realização individual com a coesão social. Desta forma, quanto mais individual, profundo e original um ser for maior poderá ser a sua contribuição para o todo. Não se trata, pois, de submissão, uniformização ou de separatividade mas de unificação, harmonização e comunhão que hoje começa a ser expressa em comunidades em formação, num nível já não tribal antigo, sub-racional, mas em grupos supra-racionais.

Se na verdade há comunidades que vêm de séculos anteriores, como as religiosas, com as suas Ordens, Mosteiros e Conventos (sendo os Franciscanos um exemplo: os Menores restaurados em 1891, os Conventuais regressados em 1978 e os Capuchinhos entrados em 1939), no séc. XXI nascem e espalham-se pelo mundo cada vez mais comunidades, como os kibutz, ligadas à ecologia profunda, cultivando um estilo de vida simples, sagrado, vinculado, sustentável e com sentido. Já Thomas More, no final do séc.XIX havia imaginado uma sociedade onde o dinheiro era prescindível e ninguém possuía mais do que o necessário.

Em Portugal, Tamera, no Alentejo, é um dos exemplos. Formado como Centro de Pesquisa para a Paz e biótipo de cura, numa perspectiva de acupunctura planetária, ali se desenvolve uma comunidade de seres vivos, além dos humanos, com base na confiança e na cooperação mútua, fundamentada na satisfação das necessidades básicas, como água, alimentação e energia, e valores como a paz e o amor. Apoiada numa tecnologia descentralizada, assente na água (com paisagens de retenção) e no sol, a comunidade, constituída desde 1995, perto de Relíquias, tem por finalidade a (re)formação de uma nova cultura da Era da Deusa, humana, graciosa e harmoniosa.

Neste processo evolutivo da tribo à era grupal há que cuidar de evitar o pseudo-individualismo (diferenciação falsa, separatividade forçada e vi(vi)da em circuito fechado), o excesso de individualismo, motivo de mal-estar que Gilles Lipovetsky explicou, mais presente nos EUA, a sua indistinção da vida comunitária facilitada pela Web 2.0, bem como as tentativas para normalizar e aquietar os indivíduos em questionamento e crescimento, nomeadamente através de medicação.

Hoje, a ideia de que pela união se pode formar uma “constelação” avança e além das redes de Eco-aldeias, existem actualmente Comunidades de Comunidades. Na Europa, onde a ideia da vida colectiva é ainda mais forte, são recordadas quer os bens de uso comunitário, como o boi, o forno, o moinho, numa atitude de abertura, troca e solidariedade, quer os próprios animais com um forte espírito comunitário, como as abelhas, as formigas ou os gansos, que ao voarem em conjunto, em forma de V, reduzindo a resistência do ar, atingem um voo 70% mais longe do que o fariam sozinhos. O lado corporativo, pode representar igualmente um novo espírito grupal construtivo e mediador, entre o indivíduo particular e a sociedade no seu conjunto, nomeadamente as empresas sem fins lucrativos e/ou que actuam na área da responsabilidade social.

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quarta-feira, 28 de julho de 2010

Vida grupal

Ao completarmos três anos de actividade, mergulhamos - antes da pausa no mês de Agosto em todas as secções - num livro escrito pelo autor da corrente de Informação Solidária, que nos inspira. Em 1985, perante o perigo nuclear, Carlos Cardoso Aveline propõe uma transformação pacífica, e pela base, para um novo modelo social, político e económico (d)e uma vida comunitária auto-sustentável.

Texto Dina Cristo

A macro-economia, da sociedade industrial, deverá dar lugar à micro-economia, da era da informação e da ajuda mútua. O pressuposto da escassez de recursos, da sociedade patriarcal, e a ideia de luta, de espécies, de classes e de atenção no seio famíliar (considerada a única fonte legítima de contacto e que se reflecte no complexo de Édipo e de Electra) favoreceu a sociedade baseada na competição. A repressão emocional (carência expressa pela arte) e sexual (de modo a evitar o incesto) gerou separatividade e frustração. O poder é, então, exercido contra o outro, num modelo hierárquico, de dominação e manipulação.
O jornalista brasileiro mostra como, ao contrário desta percepção e citando os estudos de Kropotkin, de 1907, a selecção natural, entre os mais aptos, se deu entre aqueles em que a ajuda mútua venceu (o egoísmo e a preguiça). A competição enfraqueceu as espécies, ao contrário da cooperação, inata, que lhes aumentou a possibilidade de sobrevivência e lhes proporcionou um mais alto desenvolvimento. Referindo casos concretos, o autor afirma «Os mais astutos e inescrupulosos, que alguns darwinistas descreviam como vencedores, são eliminados para dar lugar aos indivíduos que compreendem as vantagens da vida social e do apoio mútuo» .
A sociedade que promove o distanciamento, a desconfiança, a inimizade, na tradição dos grandes impérios, impôs a padronização, a uniformização, a concentração, a centralização (nomeadamente da produção) e gerou uma vida escravizada, sem sentido (de que são efeito as taxas de suicídio), fragmentada, isolada e de sobrevivência. Espalhou a destruição, do Ser Humano (individual e colectivamente), da Natureza e da própria Terra.
O autor, ecologista, explicou algumas das principais ameaças ecológicas e o desequilíbrio ambiental entretanto gerado. De forma documentada decifrou as interacções entre a desmineralização dos solos, o excesso de substâncias químicas, como o CO2, a desflorestação e o perigo de uma Nova Era Glacial (para regeneração dos solos, entretanto esgotados neste final de Era Inter-Glaciar, temperada) e os sinais ora de frio e seca, com desertificação, ora de inundações, nas zonas tropicais, gerando mais refugiados e o colapso agrícola.
Como problema central, a fome (também de nutrientes e de afecto), a desnutrição dos países do Terceiro Mundo, por falta, mas também do Primeiro, por excesso. A necessidade de alimentação, lembra no início do seu segundo livro editado, ou o medo da fome é uma fonte de conflito que, para além de desvitalizar o Ser Humano, lhe provoca sofrimento, faz aumentar a fertilidade (como mecanismo de compensação e de sobrevivência da espécie), conduz à guerra e provoca inúmeras mortes.
A sociedade de imposição, que obrigou a pagar impostos aos Senhores, niilista e sem esperança, exclui o Ser Humano da própria vida e da vida em si, envenena-o, literalmente, e sujeita-o a integrar exércitos de guerra, até à irracionalidade geral. «Não há sentido em trabalhar dentro das máquinas burocráticas que dificultam, com regulamentações e controles inúteis, a vida do cidadão comum de carne e osso. Não tem sentido manter uma civilização que engendra doenças degenerativas pela má alimentação sistemática da população e produzir remédios químicos que tendem, a longo prazo, a piorar ainda mais a saúde do povo. Não faz sentido produzir tantos automóveis particulares que, primeiro, desperdiçam o petróleo cada dia mais caro; segundo, poluem o ar lançando o CO2 que nos ameaça; terceiro, criam crises de engarrafamento no trânsito; e quarto, matam milhares de pessoas em acidentes de tráfego (…)» .
Alternativas
O cenário de catástrofe levou o autor a procurar soluções, teóricas e práticas. Primeiro, a constatação de uma nova percepção do mundo, mais variada. A visão holística, mais integral, ecológica, mais inter-relacional, e informática, mais reticular, levaram a uma nova concepção da realidade, do mundo, da Natureza e da Humanidade. Com o aumento dos perigos, cresce também o conhecimento sobre as ameaças à vida e começa a nascer uma nova consciência sobre (o respeito pela) biodiversidade e, ao mesmo tempo, unidade dos seres vivos - concepções que facilitam o (re)surgimento do princípio da cooperação.
Actualmente editor do site de Filosofia Esotérica desenvolve a sua presença ao longo da evolução humana. Desde as tribos, passando pelas aldeias livres de povos como os Celtas, até às cidades-livres na Idade Média ou mesmo aos cantões da Suíça. Em comum, a vida comunitária, autónoma, baseada na co-gestão, co-operação e entre-ajuda, na decisão e construção colectiva - paciente, humilde e anónima. Um modelo democrático, abafado pela sociedade industrializada e burocrática, da série e dos números, que parte do princípio de que o Ser Humano é mau e o mundo não presta, correspondente ao dos deuses-Céu, de Jean Shinoda Bolen, assente no medo e na coação.
Olhando para os problemas globais, o autor propõe uma transição, pacífica, construtiva, de baixo para cima, no âmbito da responsabilidade individual, como salienta Johannes Hasenack, em posfácio. O objectivo é gerar confiança na capacidade colectiva de transformar a realidade, devolver a esperança e mobilizar para a acção efectiva, aqui e agora. Ensaiar experiências de novos modos de vida, mais humanos, desde o quintal ao local de trabalho, passando pelo bairro, correspondentes ao emergir do paradigma dos deuses-Terra, da referida autora, apoiado no amor, na coragem, na liberdade e na solidariedade.
Antes de mais a alteração da premissa para a abundância de recursos: há terras disponíveis suficientes para que todos tenham uma dieta adequada. A fome é resultado de uma capacidade alimentar má distribuída e não motivada por constrangimentos técnicos, como enfatiza actualmente o Projecto Vénus. Os países do Terceiro Mundo, ao produzir o que interessa às grandes potencias, descuraram a agricultura de subsistência. África, onde há milhões de pessoas a agonizar, possui mais de metade das terras cultiváveis sem utilização da Terra.
A resposta está, segundo Carlos Aveline, na descentralização da produção. Uma escala mais próxima, ao nível local e regional, municipal ou comunitário, que permita a identificação entre produtor e produto, evite os meios de transporte e produza mais e melhores alimentos. As hortas têm um papel de destaque. Caseiras, comunitárias, escolares ou hospitalares, os horticultores actuam simultaneamente ao nível da agricultura, da saúde, da educação e da alimentação; o excesso é doado, a outros grupos, ou escoado para as cooperativas, estruturas essenciais no sistema comunitário, algumas fundadas pelos antigos trabalhadores de fábricas falidas. As empresas familiares, como as fazendas europeias, também são revalorizadas.
Economia solidária
Trata-se da retoma da produção doméstica, trabalho - e não emprego - que se conjuga com lazer e prazer, devolvendo não só ao homem mas também às crianças, às mulheres e aos velhos liberdade, criatividade, tempo e significado daquilo que fazem. Resultados mais eficientes e uma atitude mais construtiva, sustentável, solidária e também mais simples, em que a pobreza é vista como a via moderada e desejável, entre a miséria e o luxo.
Praticando uma agricultura natural, localizada e de subsistência garante-se a saúde, o sustento e a preservação do meio ambiente. O reequilíbrio ambiental através, sobretudo, da reflorestação, nomeadamente com árvores nativas, sementes locais e pomares colectivos, e da remineralização, designadamente com pó de cascalho rico em minerais das rochas formadas durante a última Era Glacial. Com o solo esgotado por falta de minerais «(…) as florestas, que além de purificar o ar, evitam a erosão, conservam o solo, regulam o clima, dirigem o ciclo de evaporação e precipitação das águas (…)» enfraquecem, secam, ficam mais vulneráveis aos incêndios e não conseguem eliminar o CO2 da atmosfera.
Funções agrícolas, de protecção ambiental e também de assistência social, como é o caso do Exército da Paz do Sri Lanka, podem passar a ser a actividade normal dos exércitos, que se devem tornar, primeiro, populares, como no caso da Suíça, e, depois, serem reconvertidos para actividades produtivas. Organização autoritária, perigosa e inútil, à volta da guerra, sangue coagulado da ferida da violência, o exército é castrador de jovens, fiéis à Mãe-Pátria e fonte de insegurança internacional, defende Carlos Aveline, para quem a paz se atinge pelo Bem-Estar geral e segurança mútua e não pelo armamento.
Em causa está a revalorização do pensamento de Gandhi, renascido no Movimento Gramdan, liderado pelo seu discípulo Vinoba Bhave, e depois recuperado por A.T. Ariyaratne, através do Sarvodaya Shramadana, um movimento de libertação ao qual estavam associadas, nos anos 80, cerca de dois milhões de pessoas. O desafio é reconstruir a sociedade à margem das instituições burocráticas e do aparelho estatal centralizado. Voltar a viver a virtude, a simplicidade voluntária, o desenvolvimento local, com base na cooperação, no amor e na unidade, sob o princípio da diversidade, da inclusão e da participação.
Hoje parecem-nos naturais, mas estas ideias foram percepcionadas há 25 anos em plena corrida ao armamento e ao capital financeiro internacional. A Economia Solidária, budista como então lhe chamava o autor, teósofo, afirma o valor da vida e reinventa-a de forma mais proveitosa, reduzindo o desperdício, a poluição, as doenças, os acidentes, devolvendo às pessoas a esperança, a confiança, a criatividade, a autonomia, a alegria e a acção. Uma oportunidade para ultrapassar o pensamento bi-polar, superar os modelos europeus ou norte-americanos e fazer a síntese integradora, numa sociedade grupal que exerça o poder (de agir) com o outro, exalte a afinidade e amizade e recupere a unidade profunda com a Natureza, preservando a individualidade entretanto conquistada.

i AVELINE, Carlos Cardoso – Aqui e Agora – para viver até ao século XXI, Editora Sinodal, 1985, pág. 36. ii Idem, pág. 116. iii Idem, pág. 62.

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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Vida mutante



Para além de ir ou vir de férias, como a época que atravessamos, das mudanças profundas, ao nível climático, e superficiais, ao nível do penteado - expressão dessa força de vontade – há várias outras que abordamos a seguir.

Texto e fotografia Dina Cristo

Uns temem-na, outros desejam-na. Os pessimistas porque se fixam nos perigos, os optimistas porque acreditam nos benefícios. Como contou Spencer Johnson, no seu livro, os “pigarras” agarram-se ao medo, os “gaguinhos” à esperança.

Na vida, há os que tentam resistir à mudança e os que a tentam provocar, quer do ponto de vista individual quer colectivo. Os conservadores bloqueiam-na, os activistas incitam-na. Uns a favor da estabilidade, outros do dinamismo.

A mudança faz parte da vida. Tudo o que é vivo se movimenta, balança entre um pólo e o seu contrário. Uma acção que ou se faz em equilíbrio, moderadamente, quando se aceita a alternância, tão naturalmente como o dia e a noite, ou, sendo evitada, ocorrerá de forma abrupta, dada a necessidade de compensação. Sempre que se pende para um lado, mais cedo ou mais tarde, irá tender-se para outro; e não é pouco comum transformar-se mesmo no seu oposto, afinal duas faces da mesma moeda.
Tudo muda continuamente. A única constante na vida (relativa) é precisamente a mudança e a melhor forma de a enfrentar é preparar-se para ela, como se conclui do conto de “Quem mudou o meu queijo?”, e aceitá-la, sem a evitar ou antecipar. Os próprios padrões humanos (masculinos e femininos) também se vão alterando ao longo da vida, como explicou Jean Shinoda Bolen.
Sem obstrução, esta força limpará tudo o que já não serve e é, portanto, inútil à evolução pessoal e colectiva, abrindo espaço para o novo, a inovação e a criatividade. Do ponto de vista positivo pode ser experienciada, assim, com(o) entusiasmo, liberdade e alegria. Pelo contrário, se a ênfase é colocada no que se perde, na inércia, na resistência, no apego ao velho traz consigo sofrimento e, depois, doença.

Em termos verbais implica uma doação (mudar) e enquanto processo uma oscilação (mudança). Em ambos os casos, do ponto de vista numerológicos, representa o 21: o saber viver, o melhor possível, com o que se tem disponível, conforme a atitude de fluidez ou não o fazê-lo numa postura de resistência(1).

As diferentes perspectivas podem constatar-se desde quem prefere (in)conscientemente morrer a mudar às que mantêm, dentro do possível, um estilo de vida nómada, como os ciganos. Também ao nível sanguíneo, grupos como o tipo O têm maior facilidade de adaptação. Em termos numerológicos, o mesmo se pode dizer dos "nove", por conterem características de todos os outros números, e os que se encontram num ciclo "cinco", um dos mais propícios a mudanças relevantes.

A vida é dinamismo constante entre forças que se atraem e se repelam, entre fluxos e refluxos, inspirações e expirações. Desse balancear, o velho é “convidado” a sair para que o novo possa entrar. Em cada segundo. A toda a hora. É esta mudança contínua que permite a preservação do sistema, mais tarde visível em destruição (fim de ciclo), que dará lugar à (re)novação e à (re)recriação (em nova etapa).

Apesar de omnipresente, e fundamental nas passagens das diferentes fases da vida, do nascimento à morte, hoje quase sem rituais, este processo, que também é de desapego em relação ao passado, por vezes é difícil, ou porque foi bom – e se deseja reter – ou porque foi mau – e se culpa ou se sente culpado. Será mais fácil se houver não só preparação mas também precaução, para que não se elimine ou prescinda de tudo só porque é passado, como acontece nas revoluções, e se for enfrentado conscientemente e por vontade da própria pessoa, sem imposição, pressão ou manipulação exterior.

A mudança foi cantada por José Mário Branco e, mais recentemente, pelos “Humanos”. É hoje foco e nome de “medium”. Foi reflectida por autores como Gandhi – sê a mudança que queres ver no mundo -, Heráclito - ninguém se banha duas vezes na água do mesmo rio – ou, por exemplo, Lavoisier, nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Em Portugal, ficou célebre o manifesto anti-Dantas de Almada Negreiros.

O processo de mudança pode ser despoletado não só pela perda, ao nível da saúde, do trabalho, da família, por exemplo (caso em que a terapia floral aconselha o remédio Walnut), mas também pela insatisfação ou pelo erro. Nesta ocasião, é preciso tempo para reflectir e corrigir, alterar a direcção e, como nas curvas da vida, mesmo as físicas (umas mais apertadas, outras mais inclinadas), a visibilidade diminui. Aumenta o desconhecido e, por consequência, o medo e a angústia.

É preciso, pois, uma certa dose de coragem e confiança para o desafio que constitui enfrentar o incógnito, o diferente. Contudo, o risco está em não mudar, pois tal implica estagnar e, na prática, andar para trás. Como disse Omraam Aivanhov, “aqueles que se deixam ir atrás da facilidade, da preguiça, da estagnação, aproximam-se da vida instintiva, vegetativa, mineral, e petrificam-se”(2).

Como diz o provérbio português, “parar é morrer”, mas também “quem está mal, muda-se”. Se por um lado há tendência, pela lei da inércia, a prosseguir (n)o estado em que se está, para a contração, por outro também há um impulso evolutivo, para a expansão, e sem se descartar da pele velha, como acontece com os animais na muda, não haveria lugar à regeneração, ao renascimento.

Tolstoi chamava a atenção para a importância da mudança interior: “Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si próprio”, afirmou. Ora esta transformação pessoal é condição para que a mudança no mundo exterior aconteça. Foi a conclusão no movimento hippie, nos anos 60, e é hoje explicada pelas novas teorias. Trata-se de uma decisão individual, confirmada a cada instante, que começa, antes de mais no pensamento.

Para que o comportamento se altere, de forma que não seja meramente superficial, artificial, momentânea e inconsciente, mas antes constituia uma atitude sustentável, mais profunda e construtiva é necessário começar pela transmutação mental própria, em detrimento da expectativa em relação às modificações físicas e exteriores. Como escreveu Johannes F. Hasenack, “a soma de muitas iniciativas, a partir de baixo, e de novas atitudes a partir de dentro, bem pode desencadear um processo de mudança no todo ao qual pertencemos”.

Novo paradigma

Tendo em conta o papel vital da informação no sentido de dar forma, estrutura, como explicou Lucienne Cornu, e a existência de novos dados processados e acessíveis através da internet é, hoje, mais facilmente possível e provável, como defende Dieter Duhm, a alteração da organização nos organismos individuais e colectivos. Uma transformação global, impulsionada também ao nível cósmico, com a entrada na Nova Era de Aquário, com o trânsito de Plutão até 2023 e a própria alteração do campo magnético da Terra e da actividade solar com consequências ao nível do campo cerebral, genético e de frequência humano.

Esta elevação de consciência, do ponto de vista mitológico traduz-se na passagem dos deuses-céu para os deuses-terra, como explicou Jean Shinoda Bolen: de um contexto sócio-cultural patriarcal padronizado pelo medo, poder, opressão, domínio, objectividade e competitividade, modelo representado no Velho Testamento pelo Deus ciumento e vingativo, para outro matriarcal, baseado no amor, liberdade, subjectividade e solidariedade, representado no Novo Testamento pelo Deus afectuoso e clemente.

Para a autora americana, é o ressurgimento de Métis - a deusa da sabedoria, Sofia, a Mãe Natureza, que havia sido engolida por Zeus e esquecida - e com ela a emergência da ecologia, a vinculação entre e a todos os seres, desde o próprio à Terra. Sabina Lichtenfelds chama, e põe em prática em Portugal, esta Era da Deusa, da Graça, onde o poder-saber feminino é expresso, fortalecido e correspondido. Um retorno que Maria Flávia já o havia antecipado também.

Entretanto, pelo mundo prepara-se, cada vez mais ampla e intensamente, a transição para o novo modelo de tendência mais local, descentralizada, comunitária, simples e humana. Carlos Cardoso Avelino já o escreveu há mais de um quarto de século, mas, desde os últimos anos, com o problema do petróleo, as iniciativas, a nível internacional e mesmo nacional, têm sido mais determinadas, como as experiências de formação de comunidades, ou até hortas comunitárias.

O novo modelo dirige-se, entre outros, para a alegria, o amor, a coragem, a confiança, a comunhão, a compaixão, a cooperação, a cura, e também a ética, a lentidão, a memória, a paz, a protecção, a sensibilidade, a união. Tudo parte de um novo pensamento criativo de abundância, com repercussões nas mais diversas áreas, desde as ciências socias à economia. Neste campo desenvolvem-se conceitos como a Economia baseada em Recursos, Economia da Dádiva, Economia Sagrada ou Economia Social e Solidária.

Qualquer crise é uma oportunidade de mudança, de limpeza, de arrumação, de actualização, processando, compreendendo e perdoando o passado – um momento para expressar e ultrapassar tensões, libertando espaço e tempo disponível para viver o presente, aceitando os factos e reconhecendo a realidade do aqui e agora. A actual crise, potenciada pelas condições comunicacionais e sociais presentes, a nível mundial, é uma ocasião favorável a descartar de velhos pensamentos e hábitos, repetitivos e reproduzidos, como o pressuposto da escassez de recursos, em função de uma nova criatividade digna da Humanidade.

Novos começos são propícios em ciclos “um” (e nós estamos precisamente na primeira década do século XXI) mas para tal é preciso, antes, que exista um ciclo destruidor, renovador, alimentado, segundo a tradição religiosa, pelo Espírito Santo, o transformador, capaz de dinamizar mesmo o ponto máximo de estabilidade, a Terra e o corpo físico, correspondente, do ponto de vista cabalístico, à sephiroth Malkuth.

Segundo Stuart Hall, as séries da indústria cultural veiculam a ideia de que a mudança é impossível, de que é inútil desafiar o sistema e o melhor é rir. Mas, hoje, um pouco por todos os cantos do mundo há apelos à mudança. Dentro e fora do sistema, que se distanciou cada vez mais da vida (social), há pessoas e grupos envolvidos na mudança, para além dos que têm estado nas ruas, em diversos movimentos pacíficos. Como referiu Spencer Johnson “(…) quando se muda aquilo em que se acredita, muda-se igualmente a forma de actuar”.

Já a Teoria Social clássica havia notado que se o sistema é a estrutura condicionante, restritiva, ao nível individual, a agency, constitui um espaço de acção de maior liberdade. No caso do autor jamaicano este atenta que as práticas sociais são hoje constantemente reflectidas, examinadas e reformuladas à luz das informações recebidas, com inúmeras possibilidades de mudança de identidades, reforçadas pelo aumento das migrações, da globalização e das indústrias culturais.

Mudar é não só dar, “dançar”, balancear, variar, mas também alquimizar, transmutar – fazer, como diz a sabedoria popular, das tripas coração. É um processo de alternar que inclui a alteração, a transformação, mas compreende, além dela, a renovação, a recriação – uma espécie de reciclagem, numa oitava acima. Mudar implica, pois, não só ser capaz de se adaptar e flexibilizar mas igualmente de evoluir, melhorar, avançar e elevar. Envolve movimento capaz de reequilibrar, reorganizar e reformar qualquer sistema, organismo ou estrutura.

(1) RESINA, Luís – Tarot e numerologia. Pergaminho, 1998, pág.136. (2) AIVANHOV, Omraam – Pensamentos quotidianos, Publicações Maitreya, 2010 (14/2/2010).

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