quarta-feira, 12 de maio de 2010

"Fátima" no JN

Em plena visita papal, editamos um texto, elaborado em 2002, sobre os artigos publicados no “Jornal de Notícias”, no dia 13 de Maio, entre 1964 e 1984, relativos às celebrações da aparição da Virgem Maria aos três pastorinhos.


Texto Ana Rasteiro Brites fotografia Dina Cristo


A 13 de Maio de 1917 estavam os três pastorinhos, Francisco, Jacinta e Lúcia, a guardar o seu rebanho na Cova da Iria, em Fátima, quando de repente um clarão brilhou no céu.
Em frente deles estava uma Senhora muito nova e “extraordinariamente bela, mais brilhante do que o sol” sobre uma pequena azinheira. A Senhora pediu-lhes que se encontrassem naquele lugar, no dia 13 de cada mês, ao meio-dia.
Os três pastorinhos combinaram não dizer nada a ninguém sobre o que tinham visto, no entanto Jacinta não se conteve e dissera à sua mãe que tinha visto Nossa Senhora. Então os três pastorinhos tiveram muitos problemas, pois ninguém acreditava neles.
No dia 13 de Junho apareceu a Virgem novamente sobre a azinheira, onde disse a Francisco e Jacinta que iriam brevemente para o céu, ao contrário de Lúcia que iria continuar na Terra.
No mesmo dia do mês seguinte já estavam mais de 2000 pessoas aquando da aparição de Nossa Senhora e disse-lhes que “No mês de Outubro, farei um grande milagre, para que todos acreditem”.
Tal como tinha sido prometido, no dia 13 de Outubro de 1917 a Virgem fez um milagre, para que todos acreditassem, com “A Dança do Sol”.

Década de 60

Na edição do “Jornal de Notícias” do dia 13 de Maio de 1964, Quarta-Feira, é dada uma ideia do que se passa em Fátima durante este dia: “Fátima é desde ontem à tarde e continuará a ser até ao princípio da tarde de hoje o altar do mundo onde ajoelha e reza gente de todas as latitudes, de todas as raças, de todas as condições sociais, de todas as idades”.
Nessa altura Fátima é o palco de “uma expressão conjugada de fé que não conhece os limites do sacrifício”.
Em 1965 “Fátima é inegavelmente um fenómeno”, mais uma vez milhares de peregrinos chegam nesta altura ao chamado “Altar do Mundo”.
Nesse ano, a peregrinação termina de uma forma especial, com a “solene entrega da Rosa de Ouro concedida pelo Papa Paulo VI e entregue por D. Fernando Cento “ao santuário”.
Segundo o Papa Paulo VI o “que todos os anos se vê em Fátima é a prova segura de que “enquanto houver portugueses a Virgem será sempre o seu amor”.
Todos os anos Fátima é palco de penitências, muitas delas são pagas de joelhos, por mulheres e homens sozinhos ou com filhos ao colo, por jovens e até mesmo por idosos.
Em 1966 “Vinte e um prelados portugueses e fiéis de todo o mundo reunidos em Fátima na grande peregrinação de Maio”, na qual “tomaram parte representações de quase todos os países católicos do mundo”.
Tal como acontece todos os anos, e este não é excepção, “a procissão das velas constitui uma impressionante manifestação de fé”, onde se encontram milhares de pessoas a observar o andor de Nossa Senhora iluminado.
Este acontecimento é retratado pelo “Jornal de Notícias” como uma “emocionante expressão de fé, espectáculo de extraordinário significado e beleza que atingiu (…) um raro esplendor”.
Em 1967 “Portugal recebe o Papa!”.
Foi um dia muito importante em Fátima, o 13 de Maio de 1967, uma vez que o Papa Paulo VI veio a Fátima participar nas celebrações do 13 de Maio, nomeadamente na procissão do “Adeus”.
Um outro factor, não menos importante, que marcou o 13 de Maio deste ano, foi o facto de que Lúcia, “única vidente ainda viva”, assistiu na tribuna papal às cerimónias em honra de Nossa Senhora.
Em 1968 é a vez de “Fátima no fecho do ano jubilar”.
Em Fátima, no Altar do mundo, “onde se multiplicam de ano para ano testemunhos da grande força da fé católica, vivem-se as horas do encerramento do cinquentenário das aparições de Nossa Senhora”.
É também muito retratado pelo jornal as considerações feitas sobre a visita do Papa Paulo VI a Fátima no ano anterior, tal como a inauguração da sua estátua no presente ano, nomeando-o de “Papa peregrino”.
No último ano da década de 60 Fátima é, novamente, como se repete há 52 anos, o Altar do Mundo, onde decorre “a mais grandiosa e expressiva manifestação de fé”.
“A peregrinação deste ano ao santuário de Fátima será efectivamente das mais comovedoras de sempre”.
Segundo o enviado especial do JN a peregrinação de 1969 foi deveras marcante, pois jamais se verificaram “tão numerosos actos de dura penitência”, “meia centena de mulheres de todas as condições sociais – percorrendo de joelhos, em cumprimento de promessas, esse longo caminho que vai da Cruz Alta à capelinha das Aparições”.
No 53º aniversário das aparições são muito menos os fiéis que acorrem ao santuário de Fátima no 13 de Maio, devido ao tempo incerto com aguaceiros. No entanto, todas as celebrações foram realizadas ao ar livre como estava previsto.

Década de 70

Em 1970 a peregrinação nacional teve como intenção “pedir a beatificação dos videntes Jacinta e Francisco Marto, no cinquentenário da sua morte”.
“Portugal e o mundo peregrinos em Fátima”. Em 1971 encontram-se novamente em Fátima peregrinos de todo o mundo “De joelhos, em volta da Capela das Aparições”, “promessas feitas em horas de angústia – cumprem-se num arrastar dramático, doloroso. Padece agora o corpo – porque a alma se viu aliviada”.
“Fátima reza pela paz no mundo” e volta a ser palco, em 1972, de uma grande afluência de peregrinos: “De todo o mundo peregrinos convergem para Fátima”, uns a pé, outros de carro, “vai-se de muitas maneiras – vai-se por devoção e fé”.
Em 1975 há “Crentes de todo o mundo em Fátima” e a 13 de Maio atinge-se, segundo o enviado especial do “Jornal de Notícias”, “A maior peregrinação dos últimos anos” cuja explicação assenta no facto de que “o 12-13 do corrente mês é um fim-de-semana” e também porque é o Dia Mundial da Oração pelas Vocações.
Em 1974 há “Peregrinos de cravo ao peito” e Fátima é palco de inúmeras manifestações de fé, “num Portugal renovado pela liberdade”.
“Gente deste Portugal rejuvenescido há 18 dias apenas, rezará pelo futuro”. “Os peregrinos de Fátima associaram a esperança comum à fé que os une neste ano da graça em que Portugal teve a liberdade como bênção”.
O tema da peregrinação de 1975 é a reconciliação: “Os portugueses chegam para rezar pela «reconciliação de uma sociedade em conflito»”. Segundo o enviado especial do JN encontram-se muitos ex-combatentes por entre os penitentes que “caminham ou se arrastam” para o santuário de Fátima.
Em 1976, Fátima continua a ser o “altar, ponto de encontro da gente com fé”.
O Cardeal Sebastião Bagio, perfeito da Sagrada Congregação dos Bispos, veio “de Roma à Cova da Iria para presidir à peregrinação destinada a orar e a reflectir sob o tema «Vamos construir a civilização do amor»”.
No dia 13 de Maio de 1977 comemora-se o 60º aniversário da aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos.
Fátima é novamente o altar de inúmeras manifestações de fé, “fé esta que todos os anos faz convergir milhares de peregrinos à Cova da Iria”. O título de primeira página é “Peregrinos do mundo inteiro em oração pela unidade da Igreja”.
Segundo José Coimbra, o enviado do JN em 1978, “Milhares de peregrinos de todo o mundo encontram-se desde ontem no santuário da Cova da Iria para prestar homenagem à Senhora de Fátima, no 61º aniversário das aparições”. O título era “Orações solicitaram sociedade mais justa”.
“Uma das maiores peregrinações de sempre – meio milhão de fiéis rezam em Fátima” deu-se em 1979, no Ano Internacional da Criança: “foi às crianças que a Virgem falou”.
Segundo o enviado especial do jornal esta foi “uma das maiores peregrinações de sempre senão a maior – número só atingido em 1967, quando aqui se deslocou o Papa Paulo VI”.
Novamente Fátima se transformou no altar do Mundo onde “se respira um ambiente de estranho misticismo, que se espelha no semblante de cada um dos peregrinos, cujos olhos irradiam esperança”.

Década de 80

Em 1980, “Multidão orou toda a noite à luz das velas na Cova da Iria”.
“Fátima viveu mais um dia 13 de Maio” do ano seguinte com um vasto número de peregrinos que como sempre vêm de vários pontos do país” e cujo tema da peregrinação era “Nós os cristãos não podemos viver sem o domingo”.
No ano de 1980 Fátima contou com a presença do Cardeal espanhol D. Marcelo Gonzalez Marti que, segundo o enviado especial do “Jornal de Notícias”, fez um apelo “para que humildemente a venerem, já que Ela tem uma imagem universal e por isso mesmo não é de Portugal ou de Espanha MAS sim de todo o Mundo” – Nossa Senhora.
Em 1981, “Milhares de peregrinos não olham aos sacrifícios da sua devoção”. O tema da peregrinação deste ano é “Celebrando o domingo, edificamos a Igreja com Maria”.
O “Jornal de Notícias” testemunhou novamente mais um ano em Fátima cheio de sacrifícios – são inúmeros os casos de devoção. As pessoas chegam a Fátima de diversas formas, “desde as pernas ao autocarro, passando pela bicicleta, de modo que à chegada a Fátima eram frequentes os abraços e até as lágrimas, quando vizinhos e familiares se voltavam a ver”.
Em 1983, “sob novo «milagre do sol», a presença do Papa foi constante”.
Segundo o “Jornal de Notícias” “Em Fátima assistiu-se, ontem à tarde, a um novo «milagre do sol», pelo menos assim o afirmavam muitos milhares de peregrinos”, pois precisamente às 19h, aquando do início oficial da peregrinação “o sol rompeu as nuvens negras que todo o dia ensombraram a região, vindo iluminar a Capelinha das Aparições”. Também foi muito evocada a presença do Papa João Paulo II, há precisamente um ano.
“Fátima constitui apelo à renovação da Igreja, para que ela possa oferecer uma imagem correcta de si mesma”, foram as palavras do Arcebispo de Évora em 1984.
Como já é hábito, em todos os 13 de Maio, “Ontem (…) todos os caminhos de Portugal iam dar a Fátima” e “o facto de se estar num fim-de-semana, e de fazer bom tempo, deverá ter contribuído para que o santuário se apresentasse ontem à noite repleto”.

Comparação

No decorrer destes 20 anos na edição de 13 de Maio do “Jornal de Notícias” o espaço dado ao fenómeno de Fátima não é uniforme nem homogéneo, pois não há uma regra, nem sempre existem as mesmas páginas ou número de palavras.
A importância dada às aparições de Fátima, a nível espacial e formal, varia consoante a menor ou maior relevância que o acontecimento tenha, tanto para o jornal como para a sociedade.
No entanto, em todos estes jornais houve sempre um espaço reservado na primeira página para este acontecimento, o que demonstra de alguma forma a importância que tem para a população, nomeadamente para os leitores do jornal.
No que respeita ao discurso do “Jornal de Noticias”, antes e após o 25 de Abril de 1974, sobre o 13 de Maio, existem algumas diferenças.
Logo na primeira edição após a data histórica verificam-se algumas alterações no discurso. Até ao 25 de Abril a imprensa não publicou nada que fosse contra o regime político vigente – era tudo a favor nada contra o Estado.
No entanto, no JN de 13 de Maio de 1974, 18 dias após a revolução afirma-se que com a mudança do regime não mais “haverá soldados bravos rapazes de Portugal renovado, envergando tantos fatos de guerra”. Nesta mesma edição do jornal da cidade invicta também se denota uma crítica à Igreja: “E repórter encontra em Fátima toda uma estrutura material-comercial que tende a modificar um lugar espiritual”. Na edição de 13 de Maio de 1975, o tema é a “reconciliação numa sociedade em conflito”.
No “Jornal de Notícias” de 13 de Maio de 1976 há uma crítica a Fátima ou, mais precisamente, a tudo o que a envolve: “Por um lado foi o altar, ponto de encontro de gente com fé; por outro mais não passou do que pólo de atracção de gentes para as quais a fé (dos outros) é filão que se explora até à exaustão”.
“Orações solicitaram sociedade mais justa” é o que se pode verificar no JN de 13 de Maio de 1978. Na edição de 1974 temos outra frase crítica: “devemos amar a época que vivemos mas é necessário transformá-la”.
Antecedentes
A implantação da República em 1910 toma inúmeras medidas com vista à abolição da Igreja Católica. Põe fim à instrução religiosa nas escolas, fecha conventos, mosteiros, passando os seus bens para o Estado, encerra a faculdade de Teologia em Coimbra, suprime os 26 feriados religiosos, as prestações de juramento nos tribunais e expulsa os jesuítas.
Deste modo o Estado desperta o anticlericalismo, pois quer castigar a Igreja Católica pelo seu comprometimento com a monarquia. Consequentemente o clero virou-se contra a República. Esta revolta é apoiada por Salazar como se verifica no seu discurso pronunciado a 23 de Novembro após a sua ascensão a membro do Conselho: «Pode afirmar-se, (…) que a república portuguesa essência anticatólica e que a sua neutralidade representava uma mentira, o que era grave para a república e para a Igreja num país de população e de tradição católicas”.
Numa situação de anticlericalismo por parte da República e de uma situação de anti-republicanismo por parte da Igreja, entre 1910 e 1926, a aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos em 1917 tem duas interpretações diferentes.
Em 1922 é lançada “A Voz de Fátima”.
Em 1924 inicia-se a construção do Santuário de Fátima que recebe milhares de peregrinos, tanto portugueses como estrangeiros, que para ali se deslocam, permanentemente.
Em 1929, a 13 de Maio, o Presidente da República e o chefe do Governo assistem à cerimónia de celebração do culto.
Em 1931 está presente um milhão de pessoas para a celebração do 14º aniversário da aparição.
Portugal é consagrado ao Imaculado coração de Maria a 13 de Maio de 1938.
É atribuído em 1965 por Paulo VI a Rosa de Ouro ao santuário.
Segundo os opositores do regime “Salazar anexou a Virgem” e Fátima é considerada, juntamente com o fado e o futebol, um dos três F maléficos do Estado Novo.
Salazar utilizou a Igreja para chegar ao poder, pois as suas ideias de base eram conservar o catolicismo como apoio, dando-lhe algumas vantagens em troca da cristianização da população, uma vez que um povo que seja crente é mais fácil de dominar.

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quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Educação Moral



Começa na próxima semana a 30ª campanha de Natal dos cerca de 500 alunos da disciplina de Educação Moral Religiosa Católica (EMRC) da Escola Secundária de Peniche (ESP). Oportunidade para conhecermos, através do seu fundador, as actividades que preenchem, ao longo de todo o ano lectivo, estas aulas que, sendo opcionais, têm inscritos cerca de 80% dos estudantes daquele estabelecimento de ensino.


Texto Francisco Domingos fotografia Dina Cristo

Em conjunto com os alunos sonhámos, partilhámos, ousámos. Nasceram coisas bonitas. Muito bonitas.

Campanhas de Natal – a favor dos mais desfavorecidos e desprotegidos, dos mais pobres e dos mais doentes, da família da rua, ali ao lado, ou do povo lá longe em Timor-Leste, Moçambique ou Guiné/Bissau.

Foram "Coração em Moçambique", "Peniche no Coração", "Voa mais Alto", "Mil cartas por Timor" e, mais recentemente, a emblemática "Uma Escola no Coração", em que três escolas de Peniche – Escola Básica dos 1º, 2º e 3º ciclos, Escola Básica dos 2º e 3º ciclos D. Luís de Ataíde e Escola Secundária – se uniram para construir uma escola em Bajob, na Guiné-Bissau.

Festas de Natal – desde sempre ligadas à campanha de Natal, cujo ponto mais alto acontece no momento em que os alunos representantes de cada turma colocam no palco, aos pés do Menino Jesus, o fruto da campanha de suas turmas. São momentos únicos, vibrantes, fascinantes.

Festa Anual – 1 de Maio – Começou por ser, ainda na década de 80, uma simples festa dos alunos do 12º ano, finalistas na disciplina de Moral. Hoje é muito mais que isso. Com efeito, finalistas e demais alunos, professores, funcionários, pais, encarregados de educação e antigos alunos, associam-se à volta do altar da eucaristia em gesto e jeito de acção de graças. Nesta festa destaca-se a presença fidelíssima de um grupo muito especial: os nossos dedicadíssimos antigos alunos da disciplina de Educação Moral. São fantásticos, sublimes. Estão felizes e orgulhosos por um dia terem sido alunos de "R.M." (Religião e Moral) da Escola Secundária de Peniche. Uns vêm de longe de suas universidades, outros da aldeia aqui perto. Aqueles trazem seus filhos, ainda de colo, estes, são já os pais dos alunos ali ao lado, agora finalistas. É um ambiente maravilhoso. 'Um encanto para os olhos e para o coração'. Uma festa fantástica, seguramente uma das maiores e mais bonitas da cidade de Peniche.

Visitas de estudo – No sentido de evitarmos um número excessivo de saídas (há que haver bom senso e equilíbrio) somos fidelíssimos apenas a duas visitas – "visitas de amor" – como lhe chamamos: Doentes Profundos em Fátima e Reclusos do Estabelecimento Prisional de Caldas da Rainha.

Intercâmbios de Escolas – Desde há alguns anos que mantemos um intercâmbio muito interessante e sobretudo muito original: Uma escola secundária – Peniche – e uma escola do ensino básico, 2º e 3º ciclos – Josefa de Óbidos. Duas escolas que, pesem embora as suas naturais e múltiplas diferenças, são, como alguém um dia escreveu, "instituições, que, com seus alunos, professores e funcionários, constituem um raro exemplo de uma relação verdadeiramente notável". E tudo isto, sob os auspícios da disciplina de EMRC, o que é, sublinhe-se, uma coisa verdadeiramente extraordinária.

Aos professores do ensino secundário que queiram uma actividade verdadeiramente radical sugerimos uma… peregrinação. Isso mesmo: uma peregrinação a Fátima a pé. É uma experiência absolutamente única. Trata-se de um acontecimento notável que irá decididamente marcar, (leia-se revolucionar) a vida do adolescente.

Uma aventura? Sim, é possível, mas apenas nos primeiros quilómetros. Depois surgem as primeiras dificuldades, as primeiras bolhas. Começa então a caminhada interior. A verdadeira caminhada. As marcas, são agora mais profundas e não se eliminam com uma simples agulha ou massagem. É que as "bolhas do coração", também deixam marcas, desta vez, para toda a vida.

Mais de duas dezenas de peregrinações, mais de um milhar de alunos conduzidos até junto de Maria, dão-nos toda a segurança para saber do que estamos a falar.

O lema que escolhemos para a última peregrinação que realizamos, a 21ª, ajuda-nos a perceber claramente tudo isto: "Fátima a Pé é um milagre de Fé".

São cem quilómetros ao encontro da nossa Padroeira. Nossa Senhora de Fátima, por sugestão dos alunos, é desde 1999, a Padroeira do Alunos e Antigos Alunos de E.M.R.C. da nossa escola.

Fechamos este capítulo com uma sugestiva frase de um nosso antigo aluno, hoje professor de Moral na Escola Josefa de Óbidos: "Fátima a Pé é a rainha das actividades da disciplina de Moral da Escola Secundária de Peniche".

Deixando agora de lado o campo dos actividades, vamos agora deter-nos, um pouco, sobre alguns elementos que fazem parte de um precioso legado que a disciplina tem cultivado ao longo dos anos e que se têm revelado de fundamentais na construção de uma mística e de um espírito muito próprios do aluno de Moral deste estabelecimento de ensino.

O nosso hino. De facto, temos um hino. Um hino que se torna resposta ao chamamento do "Senhor das margens do lago". É cantado e respeitado religiosamente por todos. Para evitar a sua banalização cantamo-lo apenas em momentos muito especiais: na Eucaristia de nossa Festa Anual e na Peregrinação a Fátima a pé, à chegada ao Santuário. São dois momentos fantásticos.

O nosso lema: "Deixa por onde fores caminhando brilhante sinal da tua bondade". Da autoria de uma turma de finalistas do 12º ano, o lema desde há muito, foi consagrado como a magna carta do aluno de Moral da Secundária. E, por oportuníssima sugestão do Sr. Presidente do Conselho Executivo, encontra-se gravado num quadro de rara beleza, estrategicamente colocado, junto à porta de entrada, no exterior da sala de Moral. Trata-se de uma referência notável e decisiva na construção da nossa mística e da nossa identidade.

Intencionalmente deixámos para o fim o elemento mais emblemático de todo o nosso património: "O livro d´Ouro"! Guardião sagrado da nossa História e da nossa Memória. Ali podemos recordar os primeiros passos… os primeiros alunos… As primeiras histórias… A nossa vida. Toda a nossa vida. Um tesouro de recordações e de emoções.

O 1º volume, 1976-1982, encontra-se "religiosamente" emoldurado e colocado em espaço nobre na nossa sala de aula. "Olha o meu pai", ou "olha a minha mãe" ou ainda "o meu irmão também está no Livro d´Ouro". Estas sã algumas das expressões de espanto e de emoção, por cada vez que, no início de cada ano, abrimos o Livro d`Ouro e o apresentamos aos novos alunos do 10º ano.

A mensagem foi lançada. Todos percebem. O desafio é unanimemente aceite. Com entusiasmo, com emoção, e, porque não dizê-lo, com uma ponta de orgulho até. A eles, novos alunos, compete dar continuidade à nossa história.

Estamos certos de que outras histórias fantásticas, outras páginas igualmente belas, outros sonhos, outros projectos irão com certeza surgir. Naturalmente com novos protagonistas, é claro, porém, os mesmos autores de sempre: os Alunos da Disciplina de EMRC da ESP. Uns e outros com um coração do tamanho do mundo.

De referir que estamos a elaborar o 6º volume de “O Livro d´Ouro, que deverá ser oficialmente apresentado na próxima Festa dos Alunos de Moral, dia 1 de Maio. Nele poderemos recordar, entre outras actividades, Campanhas e Festas de Natal, Festa Anual 1 de Maio, Peregrinações a Fátima a pé, Visitas de Amor, Página de Sonho (estudantes que contraíram matrimónio, um e outro alunos de moral), alunos a quem Deus já chamou…

Parece-nos agora igualmente importante referir um outro elemento e pelo qual nos batemos durante anos. Trata-se da nossa Sala de Moral. Não a consideramos um privilégio alcançado, pese embora a clara falta de espaços na escola, antes, uma evidente necessidade, face ao volume e à natureza de alguns projectos a reclamarem um espaço próprio, devidamente adequado e equipado.

Esta tratou-se de uma conquista fundamental para a Disciplina. Equipada quase na sua totalidade pelo esforço financeiro e outros dos nossos alunos, é hoje considerada a melhor sala de aula da nossa escola.

Finalmente, e se nos é permitido, gostaríamos de dedicar este trabalho aos professores de EMRC que um dia passaram pela Escola Secundária de Peniche. Bem hajam, estimados colegas, por tudo quanto nos deixaram.
Gostaríamos também de o dedicar aos nossos queridos alunos de quem tanto gostamos e amamos. Bem hajam, por tudo, tudo, quanto de vós recebemos. Para nós, são os melhores alunos do mundo.

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quarta-feira, 30 de abril de 2008

Dinâmica radiofónica


Nesta quinta e última parte da entrevista, Etelvina Lopes de Almeida recorda as qualidades da oposição e as vantagens da rádio.

Entrevista Virgílio Luís Silva

Existe uma referência no final da década de 50, que tem a ver com o conto da cadeira. Salazar caiu mesmo da cadeira onde esta sentado?
Acho que sim. Ela já não estava muito bem.
Foi isso que deu origem ao conto?
Eu acho que o que deu origem deve ter sido uma trombose, uma coisa assim que lhe deu e o fez cair.
Já em 1960, para além da Sociedade Portuguesa ter sido marcada pela guerra de África, os movimentos que existiram, por exemplo na música, na Inglaterra, com os Beatles.
Foram entusiasticamente recebidos cá. Era qualquer coisa de liberdade que chegava aqui.
Como é que a Censura via isso na rádio? Deixavam-vos passar essas músicas?
A gente passava. Não estavam censurados.
Não percebiam inglês?
Não percebiam inglês! O problema está nisso. Porque razão a oposição não foi destruída? Porque a oposição usava a inteligência e usava a cultura, e eles usavam a força. O problema é este.
Há uma coisa que eu tenho de lhe dizer, não sei se lhe interessa, pode interessar para a rádio também porque se fizeram palestras, fizeram-se folhetins e isso tudo. Houve a certa altura, no final da Guerra de Espanha, uma abertura intelectual em Portugal, com livros que vinham de fora, clandestinos. E também livros que se estavam a editar em Portugal, que se vendiam por debaixo do balcão. Sabe o que significa esta frase, por debaixo do balcão? Eram livros expostos, mas que eu sabia que uma determinada livraria, sabe é o Tam Tam, estava a editar um livro e chegava lá e dizia que estava interessada no livro. Depois passava pela livraria, punha o dinheiro em cima do balcão, ia aos fundos e davam-me o livro. Ora, eu recebia livros através de um amola tesouras que mos trazia de França e de Espanha e assim chegavam a minha casa. Um livro sensacional, que teve uma repercussão espantosa em Portugal, chamava-se “O drama de Jean Barois, você leu alguma vez? Eu recomendo-lhe vivamente. É um livro desta época, mas é um livro sensacional - Roger Martin Du Gard.
Vieram livros, por exemplo com a 24ª Hora do Steinbeck e veio Jorge Amado. Teve uma influência extraordinária. Foi proibido aqui “Os Capitães da Areia”, foi proibido “O Mar Morto”, foi proibido, no entanto a gente recebia os livros, tinha 24 horas para o ler e para passar a outro. Isto trouxe à oposição uma ânsia de cultura do que se passava nos outros países, que nos enriquecia. Não andávamos de bandeirinha na mão como hoje. Hoje não se faz oposição nenhuma, porque as pessoas não se preparam em ideias. Mas nós naquela altura preparávamos as nossas ideias. Nós sabíamos porque é que estávamos a lutar. E então em Portugal tivemos o Soeiro Pereira Gomes, o Alves Redol, o Manuel da Fonseca.
Esses escritores escreviam e os livros eram editados quase clandestinamente ?
Clandestinamente? Muitas vezes eram apreendidos. É por isso que nós íamos buscar o livro, antes da Censura saber que ele estava cá fora. É isso que se chama por debaixo do balcão.
Essa importância, essa linha de orientação, com aquelas músicas e os respectivos movimentos musicais dos anos 50 e 60, isso foi dando uma abertura cada vez maior à cultura portuguesa, não só pelos livros, mas também pela música.
Em todo o caso eu devo dizer-lhe que a música de uma maneira geral tocava a juventude que sabia inglês, os livros tocavam outra área, de pessoas já mais conscientes, já mais preparadas para a luta democrática, digamos assim.
A D. Etelvina acha que na década de 60, com esse advento da música e os movimentos jovens característicos da época, com a miniaturização dos equipamentos permitindo o seu transporte, acha, que com tudo isso, a rádio foi perdendo peso?
Eu acho que a rádio ainda hoje não perdeu o seu lugar. Fui uma pessoa de rádio, continuo a ser uma pessoa de rádio, continuo a dizer que a televisão não destruiu a rádio. A rádio continua a ser a rainha da informação enquanto ela for correcta. Eu vou-lhe dar um exemplo. Eu estou em casa a ouvir um noticiário da TV, mas eu não posso ouvir o noticiário da TV enquanto vou daqui para Tábua. Com a rádio durante a viagem vou mudando de canal e vou ouvindo os noticiários consoante o canal. Portanto a TV obrigou-nos a uma posição estática. A rádio continua a permitir-nos dinâmica.
Mas quando a televisão aparece em Portugal em 1957, acha que a rádio possa ter perdido alguma influência com a televisão como elemento de novidade?
Sim, isso evidentemente. Houve muitas pessoas que acharam que a televisão era o supra-sumo.
Mas D. Etelvina, eu não estive em 1957, como bem pode imaginar, na Feira Popular para assistir à primeira emissão da televisão. Estou a imaginar o que terá sido, e estou também a imaginar o que terá sido também no Porto a emissão experimental que aí decorreu.
Foi o que terá sido uma coisa nova que chega. O cometa que está no ar agora. É isso! As pessoas ficaram deslumbradas com aquilo tudo, mas evidentemente terminado o programa sente-se o vazio. Ao passo que a rádio estava lá. É contínua. Agora, tudo depende daquilo que a gente dá às pessoas. Eu por exemplo, sou incapaz de ver “A Noite da Má-língua”, sou incapaz de ver aquele programa que é o “Confissões”, da Teresa Guilherme, não posso, o meu cérebro não admite aquilo. No entanto gosto imenso de ver o Miguel Sousa Tavares, acho que ele tem uma inteligência extraordinária. Gosto imenso dele. Gosto muito da mulher dele (Laurinda Alves), que tem também um programa muito bom e sou capaz de ver um “Rei do gado” porque está muito bem feito. Está muito bem feito e tem até conteúdo revolucionário, muito bem dado, assim como quem não quer a coisa. Até se mata um senador. Portanto, um programa que tenha conteúdo, que tenha texto, que tenha actores, que me interesse, eu vejo. Agora não perco o meu tempo a olhar para o ecrã com uma coisa que é negativa quando tenho um rádio que me dá pelo menos música. É por isso que eu continuo a ser uma mulher de rádio.
No final dos anos 60, em 68 existiram problemas em França com os estudantes. Como é que isso foi visto cá pela rádio?
Isto foi feito cá pela grande esperança. Pela grande esperança da oposição. Porque estávamos na altura da guerra de África. Portanto as coisas todas... Nós tínhamos passado a guerra de Espanha que havia sido um caminho onde se desenvolveram as experiências para a Segunda Grande Guerra. Isso aprendemos nós. Ficamos com a marca do fascismo italiano e do hitlerismo alemão, ficamos com a mocidade portuguesa que foi feita à semelhança das hostes do Hitler. Foram pessoas lá, de cá do governo, estudar a maneira de como é que se faziam as juventudes hitlerianas e depois vieram para cá e copiaram. Houve muita gente, muitas famílias que não quiseram que os seus filhos fossem. Por isso os miúdos foram castigados e depois a oposição quando viu o “S” de Salazar na fivela dos cintos, fizeram anedotas e dizia-se a propósito “Somos Socialistas Sem Salazar Saber”. Estas coisas, percebe, é que era. Fazer revolução com um sorriso é muita mais útil que à pancadaria.
O cinema, nesta altura dá um contributo à rádio. O Arthur Duarte e os outros. O desporto na rádio acaba por ser importante.
Nessa altura também se dizia que a nossa vida era desporto, Fátima e outra coisa ... agora não me lembro. O que se dizia Deus, Pátria e Família, numa vertente, também se dizia Desporto, Fátima e... Bem não sei, não me lembro já.
As reportagens de Fátima também marcaram a rádio nos anos 50. Dá-me a sensação que os anos 50 são marcados pelas reportagens de Fátima, pelo Desporto, e prova disso é o “Leão da Estrela” do Arthur Duarte. Aliás o cinema português teve essas particularidades. Quando a rádio começa a aparecer em Portugal o fenómeno é transposto para o cinema “O Pátio das Cantigas”, “A Menina da Rádio”, “O Leão da Estrela” e outros.
Havia muita gente apaixonada, tinham de ir, toda a gente tinha de cantar na rádio, como agora toda a gente quer ir para a “Chuva de Estrelas”. É a mesma coisa. O fenómeno é o mesmo.
A imagem que tenho da rádio, e pode ser uma imagem totalmente errada da minha parte, é de que a rádio até 1950 em muitos programas era feita com recurso a orquestra, coro e com o locutor a servir de ponte entre os elementos da programação.
Os programas directos. Só os programas directos. Na altura já existia a hipótese de se montar os programas. Os directos eram assim. Eu fiz muitos assim na Rádio Renascença.
Como é que a rádio noticiou alguns avanços da ciência e da medicina, como foi por exemplo a descoberta da vacina da poliomielite, o aparecimento da pílula contraceptiva, da descoberta da cortizona.
Da pílula nada. Não se podia falar nisso. Da vacina da poliomielite dava-se a notícia, quando muito entrevistava-se o cientista. São notícias, como agora dão as notícias da SIDA. Só que com a SIDA nós vamos saber mais, vamos saber onde estão as pessoas, vamos fazer as imagens. Ainda no outro dia vi uma coisa horrível. Na América para apanharem um homem com SIDA, lançaram um jacto de água para o conseguirem prender. Acho horrível. Essas imagens de TV, acho horríveis. Você repare uma coisa. A TV desde que começa até que acaba um noticiário é tudo mau. Você já tinha reparado nisso?
Mas repare. Tudo o que está a acontecer com a polícia, com a sociedade, tem significado. Tem o significado de desautorizar a polícia. Ora enfim, eu fui educada desde pequena, que quando tivesse um problema qualquer na rua me dirigisse a um polícia, porque o polícia era o homem que me defendia. Agora nós não podemos ter essa ideia.
Sra. D. Etelvina, muito obrigado pela sua ajuda.
Disponha sempre.

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Rádio teatral

Na primeira parte desta entrevista, Etelvina Lopes de Almeida fala do teatro radiofónico. A “Coxinha do Tide” e as “Pupilas do Sr. Reitor” ficaram na história.

Entrevista Virgílio Luís Silva


Este é uma resumo das várias vezes que falei com a Etelvina Lopes de Almeida a propósito da Rádio. Quis saber como era o trabalho, que pressões se sofria, o que não se dizia, o que não se podia fazer. De própria voz, a Etelvina contou.
Em 1950 um dos dados interessantes que consegui recolher, foi a Invasão da Coreia do Norte pela Coreia do Sul. Não sei em certa medida que repercussão teve cá em Portugal e se foi feita alguma coisa a nível da rádio cá, ou como foi dada a notícia pela Rádio cá em Portugal...
Eu devo dizer-lhe que tudo o que era dado politicamente sobre qualquer acontecimento era só através da Nota do Dia que era uma folhinha que nós líamos antes de começar o noticiário...
A Nota do Dia era uma espécie de Editorial …
Era. Era um editorial político feito pela casa, evidentemente, ou feito por pessoas a quem a casa os encomendava. Nós tivemos várias pessoas a fazer essas coisas desde o Silva Dias ao João Ameal e outros assim e, portanto, a Nota do Dia era marcada pelo lado político do governo e depois eram notícias soltas, notícias das agências depois de censuradas.
O problema que a Coreia Norte e Sul teve para o público em geral, e para aqueles que tinham uma visão democrática da vida, resultava numa simpatia para a Coreia do Norte e o Estado tinha uma simpatia para a Coreia do Sul. Daqui havia, por exemplo um choque de noticiário, que as pessoas democráticas diziam “olha lá estão eles a dizer contra...” e nós a dizer a favor, portanto, nem a interpretação do público é que se poderia encontrar a diferença entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, porque a partir da Guerra de Espanha, as pessoas ficaram cépticas em relação às notícias que dava o Estado.
Primeiro o Estado, enfim, os nacionalistas ganhavam em toda a parte, e não era bem assim, e claro, quando chegou à vitória do Franco, as pessoas, a maior parte dos portugueses, ficaram desanimados, muitos tinham combatido na guerra de Espanha. A Guerra de Espanha tinha trazido a Portugal um acender de novas ideias que não se coadunavam com as ideias do Estado Novo, houve muita gente presa por defender as ideias republicanas, portanto, houve por assim dizer uma explosão em Portugal de política, devido à Guerra de Espanha, até porque nós sabíamos todos que nós estávamos a apoiar Franco, que estávamos a mandar mantimentos para lá, que estávamos a ter cada vez menos mantimentos em Portugal mas o Estado continuava a negar. Portanto esse jogo de verdade/mentira estabeleceu aquilo que levou depois às listas da oposição.
Tanto assim que no principio da década de 50 o Marechal Carmona, na sua mensagem de ano novo, faz a apologia de Deus, Pátria e Família e diz a certa altura “com tal proceder, não só se afirma a consciência de uma solidariedade espiritual e o natural anseio de sobrevivência pela família, como demonstramos crer que alguma coisa na vida transcenda a nossa vontade, os nossos desígnios, o nosso próprio esforço, por muito dependerem de uma bênção superior, enfim da protecção da Providência que dirige os destinos dos homens e dos povos”.
Dá a sensação que tudo está bem, que o governo trata muito bem as pessoas, que estamos todos unidos, solidários, perante o futuro da Pátria, mas não é nada disso...
E que Deus está lá de cima a olhar por todos nós...
Não era nada disso! Eu pergunto: Onde cabe aí nessa ideia o Tarrafal, onde cabe aí nessa ideia o bailarico que existia no governo civil que, de vez em quando, eu ouvia na Renascença...
A Renascença quanto a isto, era mais liberal que a Emissora Nacional, ou não....A censura estava lá também.
Não sei como a gente pode dizer que a Renascença era mais liberal. Evidentemente, eu estava lá, fiz programas lá, que até fiquei a transmitir uma opereta russa chamada Katiuska, e eles não percebiam o que era. Não era mais liberal, talvez fosse menos agressiva no sentido de fiscalização, no sentido de censura, e deixava a nós “ad limitum” a responsabilidade daquilo que fazíamos. É a outra maneira de contornar o problema. Tu tens a responsabilidade, agora aguenta-te.
Isso fazia com que as pessoas respondessem posteriormente pelos seus actos...
Não nunca dei por isso, havia era coisas muito estranhas. Eu vou-lhe dizer. Na Renascença durante um grande período, fazia-se uns sorteios de automóveis, vendiam-se os bilhetes e depois o sorteio era pela Santa Casa da Misericórdia e um dia a chefe do escritório chegou ao pé de mim e disse: “Etelvina hoje o Monsenhor Lopes da Cruz convida todas as pessoas a rezar o Terço no seu gabinete, para pedir a Nossa Senhora que faça sair o número da lotaria, nos números de bilhetes que ficaram na casa, que são muitos. Ficou muito bilhete em casa”. Eu não vou pedir isso a Nossa Senhora, tem paciência, isso é um comércio. Sou cristã não posso de maneira nenhuma fazer comércio com Cristo. “Ah mas pede para estarem todas”... Evidentemente quando chegou à hora lá do Terço, o Monsenhor Lopes da Cruz, lá com as Senhoras que estavam junto dele e que pertenciam à sua Igreja, armaram um altar em cima do cofre a Nossa Senhora e Fátima, puseram uma vela e começou o Terço. Simplesmente isso era uma coisa que na minha consciência eu não podia, eu não peço nada para mim. Eu parto do princípio de que eu tenho aquilo que mereço. Para eu pedir para mim, eu tenho que pedir para a Humanidade inteira, de modo que eu não fui. Assumi a responsabilidade. O Monsenhor nunca mais me falou... Quando chegou a altura de pôr o problema da minha saída da Renascença, deixaram-me vir embora, percebi muito bem.
O que é certo, ou pela prece ou não, o número do automóvel saiu na casa. De maneira que ficaram todos contentes que Nossa Senhora de Fátima tinha feito um milagre. Havia estas coisas que dentro dos católicos, não quer ofender ninguém, mas para uma pessoa que de religião tem um respeito muito maior, não dá! Eu não podia colaborar numa coisa destas.
Outro dos acontecimentos grandes na década de 50, logo no início da década na rádio, nomeadamente o da E.N. ter decidido que o Teatro Radiofónico passaria a ser diário. A Rádio Nacional escrevia assim em 18 de Fevereiro de 1950: “um grande acontecimento na Rádio Portuguesa. A E.N. vai ter um folhetim radiofónico diário”. D. Etelvina, como é que foi? A rádio já tinha teatro radiofónico.
O teatro radiofónico já existia com a Virgínia Vitorino. Ela dirigiu o teatro radiofónico e muito bem. Trabalhei no teatro radiofónico da Virgínia Vitorino durante vários meses. Houve uma peça, “A Castro”, do António Ferreira. Pela necessidade, naquela altura nós não podíamos voltar a trás, tinha de ser tudo gravado de seguida. É claro, nós não podíamos de maneira nenhuma gravar teatro radiofónico nos estúdios da Emissora Nacional da Rua do Quelhas sem barulho e “A Castro” exigia o som de pedra pisada e o som de coisas daquela época. E então a Virgínia Vitorino disse: Só há uma maneira. É irmos para a Torre de Belém. Começamos às duas horas da madrugada e terminamos com o sol nascido”. Mas esse trabalho era um trabalho não para a Emissora Nacional, mas para nós próprios. Nós apaixonávamo-nos por aquilo que estávamos a fazer.
Agora em relação ao folhetim. O primeiro folhetim que foi para o ar foi no Rádio Clube Português e chamava-se “A Coxinha do Tide”. Esse foi o primeiro folhetim. Depois, não sei se foi o terceiro se o segundo, eu fiz a adaptação do Mário da Silva Gaio e fiz a adaptação da Rosa do Adro.
“A Rosa do Adro” teve um grande impacto. Foi para o ar três vezes. Esgotou os chocolates que a patrocinavam. De maneira que o dono da fábrica de chocolates me diz: D. Etelvina pare com o folhetim. Mas paro porquê, respondi eu. É que já tive de fazer um pavilhão na fábrica e não tenho mais espaço nenhum. Pare com isso. Eu agora não posso parar. Tenha paciência. Aumente outro pavilhão.
Era a Marquise, a fábrica de chocolates Marquise. Depois terminei, foram duas vezes e depois ainda uma terceira. Esse folhetim quem o tem é o Luís Sambado. Foi um folhetim que eu fiz com muito apego e com muito bons actores, à base do Vasco Santana e de pessoas do Teatro Nacional. Tinha a Maria de Resende, que naquele tempo era uma grande vedeta, tinha a Manuela Reis, eram as duas adaptadoras, que eu naquela altura tinha muito que fazer e dei a adaptação a elas.
E olhe, com o Vasco Santana aconteceu uma coisa engraçada. É que ele só podia fazer aquilo numa Segunda-feira, que era o dia em que não havia teatro. Tinha feito duas sessões no Domingo e depois tinha de fazer a sessão da noite de Terça-feira. E tinha oito folhetins a gravar, oito episódios. Lá chegamos, ele gravou os episódios todos e quando chegou ao fim era de madrugada, fomos embora. Isto está gravado e ele disse-me assim: Mas ó D. Etelvina então diga-me uma coisa, eu gravei isto tudo e agora não ouço. Se quiser ouvir, ouve, disse eu, mas oito folhetins, são oito vezes dez minutos. Como é que vai fazer isso, a que horas vai chegar a casa para dormir. Ele replicou: Ai, não me importo nada.
Ele era de um profissionalismo espantoso. Depois no Rádio Clube Português, os folhetins sucederam-se. É como hoje com as telenovelas. As pessoas ficavam agarradas ao aparelho, com uma vantagem, eu acho que é uma vantagem entre o folhetim radiofónico e a telenovela. Na telenovela nós somos só espectadores, vemos tudo quanto está ali, vemos a pessoa, ouvimos a sua voz, temos a cor, temos o décors, temos as viagens, temos a paisagem, temos tudo. Tudo nos é dado e nós só temos de receber. No folhetim radiofónico, como só existe uma via, o som, automaticamente o radiouvinte compõe o resto. E o folhetim é tanto melhor quanto através do diálogo ou através da sonorização nós levamos o ouvinte a compor o ambiente mais do que outro qualquer que não tenha a condição de compor. É uma das coisas que eu acho que a rádio ainda tem vantagem sobre a televisão. A pessoa colabora. Ao passo que na TV só recebe.
A propósito disto eu vou-lhe dizer que um dia fui para o Alentejo com o Urbano Tavares Rodrigues que queria falar com ceifeiros do Alentejo. Andava a fazer um romance, eu também fiz um sobre o Alentejo, ele é de Moura e eu sou de Serpa. Um dia tinha-me dito: Etelvina, eu gostava de falar com o povo autêntico. E eu disse-lhe: Então vamos embora. Fomos para baixo. Vejo uma quantidade de ceifeiras e disse-lhe: Urbano, vamos parar aqui e falar com elas. Bom. Chego ao pé delas e disse-lhes: Olhem eu sou da rádio, este senhor é escritor, tal, tal...- Ai a senhora é da rádio. Então diga uma coisa. Porque é que a senhora não nos dá conselhos de beleza para nós. Eu respondi-lhes: Dou conselhos de beleza a toda a gente. Não dou só para as senhoras que estão em Lisboa.
Porque é que não nos dá um remédio para a gente não esfolar as mãos, solicitaram elas. Olhem, porque eu penso que vocês enquanto estão no campo não ouvem rádio, retorqui eu. E eles responderam: Ai não. Então olhe ali para o corno da vaca. E estava um aparelho de rádio ali a transmitir. Devo dizer que o Urbano ficou impressionado com isto, que não conseguiu falar, estabelecer o diálogo, não conseguiu.
Eu disse-lhe: Então ó Urbano porque é que você não fala com elas. E ele: olhe é uma questão de pudor. Eu acho que esta gente vigorante é tão autêntica, tão simples e sincera que eu para fazer um romance não tenho a coragem de fazer perguntas.
Esta peça particularmente, que nós estamos a falar, e deu azo a esta notícia na Rádio Nacional, era as “Pupilas do Sr. Reitor”...
Isso foi dirigido pelo Adolfo Simões Müller.
Que era o produtor, tinha montagem de Jorge Alves, assistido por Jorge Santos, argumento e direcção musical de Belo Marques, que estará à frente, para este seu novo trabalho da Orquestra de Salão e o Coro Feminino da E.N.. E depois vem o rol de actores: Samwel Dinis (Reitor); Adelina Campos (Margarida); Barbara Virgínia (Clara); Estevão Amante (José Dias Dornas); José Amaro (Pedro); Álvaro Benamor (Daniel); Vasco Santana (João Semana); Rosina Rego (Joana a criada); Pestana de Amorim (João da Esquina); Luz Veloso (Stª Teresa de Jesus); Emíla Duque (Francisquinha); Barroso Lopes (mestre barbeiro). Lembra-se das Pupilas do Sr. Reitor?
Teve muito êxito.
Esta iniciativa de ter um folhetim diário na rádio não perdeu só com as “Pupilas do Sr. Reitor”. Teve seguimento?
Não me lembro qual foi o folhetim a seguir a esse. Lembro-me que foi o Mário da Silva Gaio, que foi adaptado também, mas não me lembro se foi na Emissora. Não deve ter sido na Emissora porque é um romance que a certa altura tem uma certa revolução lá dentro.
De qualquer modo o trabalho deste género de folhetim, implicava uma equipa muito numerosa a produzir e adaptar as peças para os actores.
Lembro-me quando eu fiz para os actores o folhetim “A Coxinha do Tide” não teve o respeito das pessoas que trabalhavam na rádio, percebe. Era uma coisa que todos diziam que era mal feita e era para as pessoas de bairro. Quando fiz a adaptação da “Rosa do Adro”, o Silva Dias chamou a direcção da Emissora e disse, porque é que nós não fazemos folhetins assim. É nessa altura que o Müller propôs a adaptação das “Pupilas do Sr. Reitor”.
Passando a diário.
Pois.
De qualquer modo as “Pupilas do Sr. Reitor” teve a importância histórica de ser um folhetim diário.
Sim, mas além disso havia uma coisa que era muito importante e que tinha muita audiência, que eram os diálogos de Domingo, o “Domingo Sonoro”, que era uma revista semanal e terminava com um diálogo de Domingo que era geralmente feito pelo Francisco Mata (escrito) e interpretado pelo Olavo d’Eça Leal e pela Maria João Duval, que era o pseudónimo da Virgínia Vitorino.
Mas teve uma altura em que era também interpretado pelo Ribeirinho e pelo Vasco Santana.
Não me lembro.

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quarta-feira, 13 de maio de 2009

Intelectualidade?

Quando se celebra mais um ano das aparições de Nossa Senhora em Fátima e próximo dos 40 anos do II Congresso Republicano de Aveiro, reflectimos sobre a influência mediática no estado da ment(alidad)e.

Texto e fotografia Myriam Mesquita Lopes

Precipitados para o descrédito intelectual, a razão de não consternação é a aceitação medíocre de sobrevivência. A saturação informativa propagandista resulta na retracção cognitiva e esquecimento.
Com o tempo, nasceram e evoluíram grandes pensadores. A criação implica espaço à reflexão. Ser racional é ser diferente. Implica pré-disposição. Cada ser pensante é multifacetado. No entanto a massa vence, é mais forte. É defesa, disfarce ao sofrimento. Arrisco dizer que só quem acredita nas suas capacidades, é capaz de se questionar. A realidade informativa é um negócio extraordinário que trabalha a formatação cognitiva, reconhecendo uma multidão e não um indivíduo isoladamente. Reproduz artefactos indiscriminadamente e a uma velocidade abominável. Influencia, manipula desenvolvendo a homogeneidade, transformando a sociedade alienada, desconcentrada e passiva face à própria essência. A sedução, o fascínio provoca a grandiosa dependência e o facilitismo viciante que proporciona prazer. Reflexão por sua vez é uma das maiores demonstrações de esforço intelectual. Mas é uma tarefa cansativa que implica serenidade, pressupõe disponibilidade e capacidade de auto-interrogação. Não há sentido no sentido. É o vazio. A simulação mais pura do real é o “continuamente novo”. Os valores de valor submergem. O indivíduo é traído pelo desejo de bem-estar.
Delinquente, o jornalismo está nas mãos de quem jamais o fez. Cada palavra, expressão, entoação, imagem é arma mortífera numa luta onde os adversários se confundem. As minorias apologistas do saber ainda existem. Haverá esperança? Domina a passividade e o engolir sem mastigar das notícias. São indiscutivelmente impingidas. Quem se deixa hoje interrogar? Consciente o indivíduo sabe que pode jamais descobrir o seu caminho, acomodando-se, voltando à multidão que havia tentado abandonar. Que público argumentista e contestador vinga à alienação? Pressões levam à fuga de raciocínio. O poder instituído vence, mórbido de interesses e manipulações. A sociedade massificada encontra necessidade de se iludir, evadir de algo que não sabe. Há o privilégio do espectáculo face à meditação.
Democracia é provável utopia. Dissimulada é pura ilusão. Guiada por um líder transmite confiança. Com os meios de comunicação social não é diferente. Cego, o indivíduo sente-se consciente. Não há escolhas, há imposições. É o auge da ausência de reflexão. A verdade incomoda. Predomina o medo de auto – reflexão. Permanece a mentira com alma de verdade. Organizada e imperceptível devasta o sentido. Move o mundo, descontrolada, deturpa. Dá-se a concepção de uma nova censura. A verdade morreu. A sociedade contribui para a sua desconcentração. A urgência do capitalismo reflecte-se. A simplificação do real é a brilhante estratégia de cegueira intelectual. Ser diferente é mais-valia quando a norma é norma. A mudança de mentalidades urge. É a última esperança. No entanto, há vergonha, timidez. A intelectualidade está enfraquecida. É o irreversível contágio da encenação. A livre expressão é utópica, vitimiza a realidade.
Os média incutem dependências, necessidades fúteis, superficiais e comerciais. A industrialização expõe o indivíduo à demência inconsciente. A agenda mediática leva a cabo a estupidificação. A consciencialização é o único caminho para a evolução cognitiva. Compreender limitações é também compreender possibilidades. Palavras verdadeiras inexistem perante o reinado actual da imagem. Fascina. Alerto à reflexão das imagens. Há a emergência de recusa às segundas intenções. Caso contrário, o que seremos nós?.

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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Rádiotelefonia de sessenta IV


Nesta quarta parte ecoamos o modo como a rádio tratou alguns dos principais acontecimentos dos anos 60.



Texto e fotografia Dina Cristo



Em 1962, teve início a primeira emissão da Rádio Portugal Livre, a 12 de Março: “Aqui Rádio Portugal Livre. Fala Rádio Portugal Livre. Uma emissora Portuguesa ao Serviço do Povo, da Democracia e da Independência Nacional”(1). Duraria mais 13 anos, fazendo contra-propaganda, sob a orientação do PCP. Contudo, “A audição era bastante pequena, segundo suponho e ao contrário do que na época afirmava a direcção do Partido”(2), escreveu Rui Perdigão.

Pouco depois, em Abril, estalou a crise académica de 1962, causando a demissão de Marcello Caetano da Universidade Clássica de Lisboa e a saída do director da PIDE, Homero de Matos. Nos anos seguintes, a guerra africana alastrou, primeiro à Guiné, em 1963, e depois a Moçambique, em 1964.

Em 1965 Humberto Delgado é assassinado e o seu corpo e da sua secretária descoberto em Villanueva del Fresno. Logo que informado, José do Nascimento seguiu para Espanha, conseguindo enganar os militares armados, que fiscalizavam o acesso ao local. As expectativas de conseguir trazer uma reportagem gravada não se concretizaram, já que todos os intervenientes (o sub-delegado de saúde, o motorista, o menino que descobriu os corpos, a polícia local e até o povo) se recusaram a falar (3).

Quando chegou ao RCP, e se preparava para contar aos ouvintes a sua aventura, foi impedido. “Paradoxalmente eu, que não havia conseguido uma palavra dos espanhóis e só poderia descrever o que tinha visto, fui proibido pelo antigo SNI de continuar o meu relato ao microfone (…)”(4). António Caetano Carvalho, funcionário superior do SNI, telefonou para o RCP proibindo a transmissão de informações sobre Humberto Delgado: “Vocês deram há pouco uma notícia relativa ao facto de terem enviado um enviado especial a Espanha. Há instruções superiores no sentido de as notícias relativas a este acontecimento, desde que não sejam das agências autorizadas, carecerem de autorização da censura”(5).

Pelo funeral de Humberto Delgado, a rádio transmitiu o som fúnebre do seu enterro. A reportagem descreveu a urna, coberta pela bandeira portuguesa, em seda, tendo desenhado o escudo da Força Aérea e o povo, imenso, que (quando deu entrada na nave do Santo Condestável) se reunia em redor, aplaudindo vibrantemente(6) .

O ano de 1965 não terminaria ainda sem a extinção, assalto e destruição da Sociedade Portuguesa de Escritores, devido ao prémio atribuído ao livro “Luuanda” de Luandino Vieira, então no Tarrafal.

Em 1966, quando Américo Tomás comemorou oito anos à frente da presidência da República, o “Diário Sonoro” abriu com o aniversário da reeleição do chefe de Estado: “Passa hoje mais um ano sobre a data em que o almirante Américo Tomás foi reeleito chefe do Estado, em confirmação do seu anterior mandato”(7). Na presidência da República, acrescentava ainda a notícia, foram recebidas, por tal motivo, muitas saudações, procedentes de todos os pontos do país.

O noticiário nacional, com mais de dez minutos, incluía uma notícia sobre a abertura de uma agência do Banco de Crédito Comercial de Benguela, como forma de extensão dos estabelecimentos de crédito metropolitanos às províncias; um comunicado da Polícia de Segurança Pública (2’20’’) apelando ao pagamento de imposto sobre as viaturas importadas, numa linguagem eminentemente escrita e rebuscada; a informação sobre a recepção, nos paços do Concelho lisboeta, de uma representação da colónia portuguesa, residente na República do Congo ex-Belga, que veio a Portugal assistir às comemorações do 40º aniversário da revolução nacional e outras notícias, como os exames para ingresso na universidade, e o Campeonato Mundial de Futebol, com um comentário de João Saldanha, da Rádio Nacional do Brasil: “Parabéns a Portugal. Parabéns pela brilhante participação na copa do mundo(…)”(8).

Artur Agostinho terminava a intervenção no radiojornal: “Senhores ouvintes este o comentário que se nos oferece fazer agora, neste momento, e que talvez possamos completar um pouco mais tarde com outros apontamentos e outras sugestões, que nos tenham sido oferecidas por este encontro dramático entre Portugal e a Inglaterra. Por agora é tudo”(9). Artur Agostinho relatou ainda, em directo, o desfecho do campeonato, em que pela primeira vez Portugal ficou apurado para a fase final.

Em 1967, o Papa Paulo VI visitou Fátima, para assistir às cerimónias comemorativas do 50º aniversário do 13 de Maio, o que levou a uma movimentação inusitada de meios técnicos e humanos, e mais de 850 acreditações de jornalistas estrangeiros, “tendo a Emissora Nacional mobilizado todo o seu pessoal e meios técnicos de que pôde dispor”(10). Contudo, “não houve nada de novo no plano técnico. As transmissões fizeram-se como todas”(11).

O “PBX”, programa que se havia estreado em 1967, reportou as inundações de Lisboa, adquirindo uma função de serviço público e prolongando-se ao longo da madrugada: “(…) o trabalho de reportagem e de cobertura do trágico acontecimento foi de tal ordem que o programa acabou por se transformar numa espécie de centro de informações e de comunicações. Os bombeiros, a polícia e as diversas entidades envolvidas no sinistro davam informações, faziam apelos, pediam notícias”(12). Os produtores do “PBX”, Parodiantes de Lisboa, comemoravam 20 anos aos microfones da rádio, fazendo humor, nesse mesmo ano de 1967.

Salazar exonerado

Em 1968, dois dias após um acidente vascular, que se seguiu à queda da cadeira de Salazar, um relatório médico explicou o estado de saúde do Presidente do Conselho. “(…) Um dia depois do aparecimento das primeiras manifestações patológicas foi feito o diagnóstico do hematoma e da sua localização e realizado o trabalho cirúrgico apropriado. O presidente teve uma recuperação notável e dois dias depois da operação os sintomas tinham desaparecido a ponto de se poder considerar em vias de atingir o seu estado normal. Infelizmente, o regresso às suas actividades habituais foi subitamente interrompido há dois dias por um acidente vascular cerebral, hemorragia no hemisfério cerebral direito. Esta hemorragia não teve qualquer relação com o hematoma sub-dural de que anteriormente sofreu, mas foi consequência da ruptura de uma artéria cerebral. Uma hemorragia intra cerebral é uma lesão grave que ameaça a vida do doente. O presidente está a lutar valorosamente para vencer a lesão do seu cérebro(…)”(13).

No dia 10 de Setembro, João Patrício, comentador político da EN, responsável pelos editoriais e notas do dia, afirmava aos microfones a influência de Salazar: “O prestígio do Doutor Salazar é realidade incontroversa, que não poderá minimizar-se ou negar-se. Ao tomar o País conhecimento de que o Doutor Salazar adoecera e havia sido submetido a delicada intervenção cirúrgica, logo, por toda a parte, se geraria espontâneo e colectivo movimento de ansiedade e de simpatia e de respeito pela sua figura prestigiosa. Sentia-se que a Nação lhe entregava, uma vez mais, o coração e se reunia à volta de si para, como ele, lutar e vencer nova crise – agora em combate contra a doença”(14).

A 26 de Setembro de 1968, Américo Tomás, sonoramente emocionado, exonerou Salazar e indigitou Marcello Caetano como novo Presidente do Conselho: “Continuando muito gravemente doente, o presidente do Conselho, Dr. António Oliveira Salazar, e perdidas todas as esperanças, mesmo que sobreviva, de poder voltar a exercer em plenitude as funções do seu alto cargo, atendendo a que superiores interesses do país têm de prevalecer sobre quaisquer sentimentos, por maiores e mais legítimos que pareçam, circunstância que obriga à decisão dolorosa de substituir na chefia do Governo o Dr. Oliveira Salazar, tendo ouvido o Conselho de Estado e não devendo adiar por mais tempo é, no entanto, com profunda amargura, só minorada pelo que dele directamente colhi, de que não desejava morrer no desempenho das suas funções, que o uso da faculdade conferida pelo número primeiro, do artigo 81 da Constituição, exonero o Dr. António Oliveira Salazar do cargo de presidente do Conselho de Ministros, do qual manterá todas as honras a ele inerentes, e para o substituir nomeio, nos termos do mesmo preceito constitucional, o Dr. Marcello José das Neves Alves Caetano”(15).

No dia seguinte, João Patrício intitulava o seu comentário de “renovação na continuidade”: “A mensagem dirigida pelo chefe do Estado a comunicar ao País aquela histórica decisão é um documento que, pelo seu valor patriótico e humano, todo o português subscreveria. O respeito pela unidade e pela fidelidade aos princípios defendidos toda a vida por Salazar será, nesta hora suprema, um motivo de máxima meditação e a mais elevada homenagem a prestar ao grande Português que tanto honrou e engrandeceu a Pátria comum. Foi constante pensamento político de Salazar que os Governos do Estado Novo eram sempre o mesmo governo; só os homens mudam de vez em quando. Renovação na continuidade”(16).

Na era salazarista, João Patrício havia comentado temas como a entrevista de Salazar à revista “Extra”, o seu 36º aniversário como presidente do Conselho, o seu discurso de 23 de Setembro de 1966, a tomada de posse dos comandantes gerais da PSP e Legião Portuguesa, a construção da barragem de Cabora-Bassa, a emigração para o Ultramar e o esmagamento da Checoslováquia. Goa não fora esquecida: “Goa, pelo coração e pela história, continua a ser orgulhosamente portuguesa. Politicamente, também. Só a administração e a soberania locais nos foram clamorosamente usurpadas pela garra rapace da falsamente pacífica União Indiana. Há duas situações de facto: a realidade da usurpação e a realidade da permanência espiritual lusíada em terras distantes da costa do Malabar, a despeito dessa ignominiosa usurpação. São duas realidades incontroversas: uma promanada de um acto de violência e de injustiça internacionais; a outra, resultante de um acto de são e exemplar sentimento de amor pátrio”(17).

Em comentário à encíclica “Humanae Vitae” de Paulo VI, nomeadamente à anti-concepção, João Patrício afirmava. «Com efeito, segundo dados fornecidos por especialistas responsáveis, “dos 50 por cento dos solos do Planeta passíveis de cultivo, só 10 por cento produzem actualmente, restando ainda 40 por cento para serem utilizados na luta contra a fome”. Não têm, portanto, os neomalthusianistas razão para fundamentarem o emprego da limitação científica da natalidade no drama natural da subalimentação nem recearem uma constante ascensão demográfica. Há, assim, dois problemas morais convergentes: o anti-concepcionismo, por um lado, antinatural, condenado por Deus; e o egoísmo e premeditado abandono de terras cultiváveis, igualmente antinatural e verberado por Deus. “A vida humana – segundo João XXIII, citado por Paulo VI – é sagrada; desde o seu alvorecer compromete directamente a acção criadora de Deus»(18).

(1) PERDIGÃO, Rui – O PCP visto por dentro e por fora, pág.52. (2) Idem, pág. 58. (3) A. H. RDP. 01/11/1976. AHD 10584. (4) Idem, ibidem. (5) A.H. RDP. RCP. 1965. AHD 584. (6) A.H. RDP. RDP. 01/11/1976. AHD 10584. Extracto 11. (7) Idem, EN 1966. (8) Idem, ibidem. (9) Idem, ibidem. (10) “60 anos de rádio em Portugal”, pág.305. (11) CRISTO, Dina – “Rádio anos 60”, pág. 2. (12) MAIA, Matos - Telefonia, Círculo de Leitores, pág.278. (13) A.H. RDP. EN 01/09/1968. AHD 1922. Faixa 10. (14) “Editoriais e notas do dia. Das realidades aos mitos”, pág. 30. (15) A.H. RDP. EN 26/09/1968. (16) Op. Cit. Pág. 34. (17) Idem, pág. 18. (18) Idem, pág. 26.

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sábado, 23 de junho de 2012

Rádio Clube de Moçambique II


O Centro Emissor da Matola

Nesta segunda parte, apresentamos a(s horas de) programação na sede do RCM, na capital, bem como a local, nos Emissores Regionais que se vão instalando: Nampula, Quelimane, Cabo Delgado, Dondo, Tete, Vila Cabral, Inhambane.

Texto Dina Cristo


Se em 1963 a emissão abre às 6h 30m (7h 30m no Domingo) e fecha às 23h 05m, com interrupção de hora e meia ao início da tarde, durante a semana, transmite quatro serviços de notícias, entre 10 a 15 minutos, dez anos mais tarde o programa principal inicia-se às 5h 56m e segue, ininterruptamente, até às 0h 10m, com nove noticiários, dois dos quais de meia hora.

Em termos globais, tendo em conta o plano de cobertura de rede em Moçambique, que se vai implementando, ao longo do período em estudo, há um progressivo aumento do número de horas de emissão. Se estas, em 1960, não atingem as dez mil horas, em 1972 ultrapassam as 60 mil.

As extensões das emissões vão aumentando também em função dos novos programas que, entretanto, vão sendo criados, ao longo da década de 60, nomeadamente o C e o D, totalizando quatro desdobramentos, com diferentes horários e cumprimentos de onda.

O programa A, em língua portuguesa, comercial, é o mais importante e propício aos programas ao vivo. Em 1968 é constituído 47,1% por canções e música ligeira, num ano que conta com 11,1% de noticiários e reportagens e 8,5% de publicidade. Em 1970 colabora regularmente com estações de Angola, Cabo Verde, Guiné, São Tomé, Macau e Timor, que transmitem gravações de algumas rubricas vivas.

O programa B, em língua africânder e inglesa, comercial, com dezoito horas de emissão, desde 1963, é transmitido em 24h diárias, desde o dia 1 de Março de 1964. Em 1968 integra 6.866 h de canções e música ligeira e 1.115 h de publicidade.

O programa C, em língua portuguesa, de carácter artístico e cultural, não comercial (sem publicidade), iniciado a 15 de Dezembro de 1962, é emitido através não só da Onda Média (OM) mas também da Onda Curta (OC) e Modulação de Frequência (FM), sendo captado na Metrópole. É composto essencialmente por música coral, de câmara, instrumental, ópera, canções, com destaque para a sinfónica. De acordo com o relatório de 1967 , 10% são programas falados, 4,2% noticiários e 2,6% teatro e contos; em 1968 tem 140h de ópera e 506h de música sinfónica, sendo transmitido em alta fidelidade e estereofonia.

O programa D cobre sobretudo a capital, num raio de cerca de 70 km durante o dia (um pouco mais à noite), durante nove horas, de acordo com o relatório referente ao exercício do mesmo ano, em que predomina a música ligeira e as canções, com 1960 h de emissão. A estação, no ar desde 2 de Janeiro de 1968, é criada com fins comerciais, para aumentar as receitas, aliviar a publicidade do programa A e melhorar a produção das agências publicitárias concorrentes.

Entre a programação, há teatro, folhetins, diálogos, programas infantis (como o “Teu programa”, de Maria Helena Jardim, iniciado em 1961, com rubricas à descoberta de valores no âmbito da poesia e da pintura) - crónicas, nomeadamente internacionais, palestras, como “Cinco minutos de espiritualidade” (proferida pelo Arcebispo de Lourenço Marques, D. Custódio Alvim Pereira, por exemplo sobre a visita do Papa Paulo VI a Fátima ou o Concílio Vaticano II ) e discos pedidos, que em 1957 recebem quase 28 mil solicitações. Em 1958, «Devido à afluência de senhas, só nos é permitido atender, 120 dentre todas recebidas, escolhidas por sorteio».

Figuras e factos da história de Moçambique, sublinhando a presença portuguesa também são motivo de atenção, como em “Terras de Portugal”, no ar desde 3 de Abril de 1963, no programa A: «Costumes. Artesanato. Folclore. Vindimas do Douro e lendas de Macau. Praias do Algarve e encantos da Madeira. Festas minhotas e mornas de Cabo Verde. S. João no Porto e povos de Angola. Moinhos metropolitanos e relíquias históricas da Ilha de Moçambique. Última Nata de Goa».

Alguns programas são assegurados por várias produtoras independentes, entre as quais as Produções Elmo (programa Tic-Tac), Produções Somar e Produções Golo (passatempos e relatos de futebol), que representam, em Moçambique, os parodiantes de Lisboa.

Igualmente a informação, jornais falados e reportagens, são presença constante, com o auxílio da Agência France Press, recebida desde 1963. O “Jornal de actualidades”, uma vez por semana, começa em 1958. Em 1968, no “Jornal da noite” abordam-se temas como a agricultura (os cereais), a indústria, os transportes e comunicações (como os caminhos de ferro). Dois anos mais tarde, para além do seu editorial próprio, “Nota do dia”, na rubrica “Volta ao mundo”, presta igualmente informações ligadas à arte, à ciência, ao cinema, à educação, à literatura, à medicina, à política, à sociologia, à tecnologia, ao trânsito e ao turismo.

As reportagens acompanham habitualmente os membros do Governo Central, o Governador-Geral ou Secretários Provinciais. Depois da visita do Presidente da República, Almirante Américo Tomás, em Julho de 1964, é a vez, em 1969, da cobertura da visita do Presidente do Conselho, Marcello Caetano, a Moçambique e das visitas de Baltazar Rebello de Souza às principais regiões do território, transmitindo directamente «(…) não só os actos oficiais como as manifestações populares (…)».

Em 1971 há 572h 45m dedicados aos noticiários e às reportagens, como a transmissão directa de todos os discursos pronunciados pelo Presidente da República, vários ministros, nomeadamente o do Ultramar, e outras individualidades (como o Presidente Banda do Malawi), o concurso Eurovisão da Canção, concertos e colóquios. Também são cobertos os grandes acontecimentos mundiais. No caso da alunagem, a cobertura, directa, teve 30 h de reportagem permanente, desde as 19h 30m do dia 20 de Julho de 1969 até às 7h 30 m do dia 21 abrangendo a retransmissão de reportagens de três origens diferentes, nas quais se inclui o serviço da EN.

Após a guerra em Angola, passa a haver programas de variedades e informativos. O “Jornal das Forças Armadas”, iniciado no dia 7 de Março de 1963, dedicado aos soldados, marinheiros e aviadores, produzido por Fernando Rebelo, responsável pela locução com Lisete Lopes, visa a recreação. O programa divulga biografias de heróis nacionais, como Sacadura Cabral, informações sobre os combates, correspondência, nomeadamente das madrinhas de guerra, que dão amparo moral, faz concursos e transmite poemas escritos e discos pedidos pelos militares. Magalhães Monteiro, enviado especial a Angola no início do conflito, sublinha a ideia de que um soldado indígena morto é mais um herói português tombado.

Emissores regionais

Ao nível da programação local, os centros emissores são estações que servem «(…) pequenos núcleos de população civilizada e grandes áreas povoadas por população não civilizada», estão aptos a retransmitir as emissões provenientes da capital, onde são preparadas, assegurando a cobertura do país, com a radiodifusão de um programa único. Os desdobramentos fazem-se num trabalho em cadeia, cooperativo, com a sede e para cujo custeamento foi criada uma taxa de radiodifusão. No caso do ER de Cabo Delgado os encargos são suportados pelos subsídios do Governo do Distrito, das Comissões Municipais, pelas circunscrições, pela publicidade e por pequenas receitas, como donativos.

O Emissor Regional do Norte, em Nampula, é inaugurado a 19 de Novembro de 1953. Em 1968, Pires Teixeira, escreve: «Os grandes dias da portugalidade, os grandes momentos de exaltação lusíada, as grandes manifestações de fé, assinalaram sempre, sem uma falha, a presença inestimável do Emissor, pundonoroso no cumprimento das suas obrigações e no respeito pelas suas imensas responsabilidades».

A 3 de Setembro de 1958 é inaugurado o Emissora da Zambézia, em Quelimane. O de Porto Amélia, em Cabo Delgado, no valor de 800 contos, é estreado a 20 de Abril de 1960.

Em Outubro de 1970 tem início o Centro Emissor do Dondo, que, em 1971, emite mais de sete mil horas. A 29 de Outubro de 1972, embora em instalações temporárias, é inaugurado o ER de Tete, uma cerimónia com a presença, além da Direcção do RCM, do Ministro do Ultramar, Silva Cunha, do Governador-Geral, Pimentel dos Santos, do Comandante-Chefe das Forças Armadas, Kaulza de Arriaga e dos Secretários Provinciais de Comunicações e Obras Públicas.

No mesmo ano, a 12 de Dezembro de 1972, é inaugurado o ER de Vila Cabral, no distrito de Niassa. Fazem parte da comitiva, o Secretário Provincial das Comunicações, Vilar Queirós, da Educação, Marques e Almeida, de Emprego, Wanonn Pinto e o director dos CTT, Armindo Fontes, instituição que os supervisionava. Além do Delegado Gerente, fazem parte dos quadros do pessoal, cinco locutores, cinco técnicos e uma secretária, instalados numa casa pré-fabricada. Nos dois últimos (Tete e Vila Cabral) são instalados emissores de 5 kw de OM e antenas concebidas e fabricadas no RCM.

Antes de terminar o ano de 1973, em 23 de Novembro, é inaugurado o ER de Inhambane. O Governador-Geral faz-se representar pelo Secretário Provincial das Comunicações que, por sua vez, põe no ar o emissor por intermédio da esposa do Governador do Distrito. Apesar da sua crise financeira e dos encargos que representa, o RCM decide antecipar os planos para a cadeia de emissores, com mais um elo, cooperando com a nação num momento crucial: «Esta magnífica instituição, integrando-se perfeitamente dentro das preocupações do Governo de Moçambique, não hesitou em alterar estruturalmente os seus planos para seguir aquilo que o Governo estabeleceu como primeira prioridade», profere o Secretário Provincial das Comunicações, Vilar Queiróz, durante as cerimónias.

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