quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O bichinho da rádio

Precisamente no dia que mundialmente lhe é dedicado, publicamos um texto, escrito há 17 anos, sobre os motivos por detrás da paixão que suscita entre profissionais e ouvintes.
Texto e fotografia Dina Cristo
O fascínio da rádio, quer para quem a executa quer para quem a ouve, deve-se ao predomínio do audível e à presença do invisível, às suscitações que um elemento como a voz desperta. Enquanto meio predominantemente sonoro, é constituído por uma dupla ausência – como lhe chama Fernando Curado Ribeiro – na medida em que “aquele que fala não vê o que escuta; o que escuta não vê o que fala”[1].
Esta característica, per si, desencadeia a faculdade de representar no espírito as pessoas e/ou os objectos ausentes. Cria-se a partir desse instante as mais diversas concepções acerca do que é dito, sugestionado também pela forma como tal é realizado. “Para tanto, até inconscientemente ele [o ouvinte] trata de reconstituir na sua imaginação o espectáculo que mais lhe convém, para melhor compreender o que lhe explicam pelo som”[2].
Se, por um lado, o ouvinte reconstitui o rosto de quem fala, este, emergido num estúdio de rádio, tem virtualmente, por seu lado, todas as faces e os corpos dos ouvintes que se dignar imaginar. É, digamos, um duplo fascínio que passa por esse elemento vital que é o som. “Pela sua forte ressonância psicológica e pela importância dos afectos que põe em jogo (pela ausência, nomeadamente de todo e qualquer elemento visual), a voz, e na rádio em especial, abre o espaço do imaginário onde o ouvinte, por exemplo, reconstrói o corpo daquele que fala a partir do que lhe é sugerido pela sua voz”[3].
A voz constitui-se, assim, como peça fundamental neste puzzle. A propósito dos tempos em que a televisão não existia, Michel Tournier sublinha a sua importância: “Permanecendo sem rosto e sem olhar, as vozes só ganhavam em mistério e a sua magia actuava por vezes com uma eficácia tremenda sobre os homens e as mulheres em estado de escuta. Recorde-se que em muitas religiões os decretos divinos se menifestavam por intermédio de uma voz vinda das alturas de um céu vazio. Assim apareciam os locutores ao grande público, criaturas incorpóreas e dotadas de ubiquidade, ao mesmo tempo todo-poderosas e inacessíveis”.
“A rádio possuía mais um imenso privilégio relativamente à televisão: o de se dirigir aos olhos da alma e não aos do corpo. O homem da televisão tem apenas o rosto que tem. O da rádio tinha todos os rostos que os seus ouvintes lhe quisessem emprestar, fazendo unicamente fé nas suas inflexões vocais”. Como exemplo, Michel Tournier contrapõe a aparência física de Tristan Vox com a ideia que dele construíam os ouvintes: “A imagem que geralmente se fazia dele, a partir da sua voz, era a de um homem na segunda juventude, alto, magro, suave, de cabelos castanhos e rebeldes cujo “cair” romântico atenuava o que o rosto nobremente atormentado, de maçãs um pouco salientes, poderia ter de excessivamente sombrio, apesar da doçura dos grandes olhos melancólicos. Tristan Vox chamava-se na realidade Félix Robinet e andava perto dos sessenta. Era baixo, careca e barrigudo”[4].
Isabel Carlos defende no seu ensaio que “cada voz sugere um corpo, imaginário, metafórico, que nunca coincide com o corpo real do locutor” e acrescenta que são de ordem acusmática os fantasmas sexuais que a voz de um profissional de rádio suscita e que aquando da sua presentificação física se desvanecem.
A rádio gera várias doses de cumplicidade, intimidade e afectividade entre os interlocutores. Uma ligação quase umbilical, como se a rádio, nomeadamente o transístor, fosse uma prótese do ouvido humano. “O homem da rádio está sempre muito mais livre, muito mais à vontade porque não pode ser visto. Está muito menos constrangido e é por isso que o tom, em rádio, é geralmente mais descontraído. Quando estou na rádio sinto-me em casa, na minha intimidade, à minha vontade; na televisão, é como se estivesse numa recepção, num serão em casa de pessoas que não conheço”[5].
A função emotiva e passional da rádio é relembrada por Adriano Duarte Rodrigues. Na sua obra “O campo dos media”, o autor descreve este uso afectivo do meio bem como a natureza envolvente e quase maternal do seu discurso. “Há aliás algo de fascinante e de encantamento na escuta da rádio. O estudante que faz os trabalhos escolares ao som da rádio, a dona de casa que a mantém acesa como fundo sonoro enquanto faz as lides domésticas, o automobilista que vai escutando, com atenção intermitente, a voz do locutor ou a melodia favorita que encomendou por telefone procuram um envolvimento, uma espécie de redoma sonora”[6].
Com a evolução da escuta radiofónica, que de colectiva se tornou familiar e desta se transformou em individual, o próprio discurso utilizado na rádio se modificou, tornando-se mais pessoal. A propósito, já em 1964, Fernando Curado Ribeiro escreve: “Cada ouvinte, encontra-se quase sempre só, perante o seu receptor. Portanto, no momento em que o conferencista fala, dirigindo-se a este público (que ultrapassa em número qualquer assembleia normal), apenas o faz, na realidade, a um único ouvinte. É por esta razão que se diz (e justamente) que há, nas comunicações estabelecidas pela Rádio, um certo carácter confidencial”[7].
A paixão pela rádio é desencadeada pela conjugação destes factores físicos, psicológicos e emotivos. O fascínio de estar a falar para alguém que não se conhece, não se vê, mas que se imagina – pelo lado do emissor – e a magia de ouvir a voz de alguém a partir da qual se lhe reconstrói o corpo material – por parte do ouvinte – põe em comunhão dois seres à partida desligados. “Não se vê aquele que fala na Rádio; dá-se uma espécie de abolição da sua imagem visual; mas ouve-se, e a tonalidade dessa voz é inseparável da tentativa de um conhecimento do homem”, escreve Curado Ribeiro para quem a tonalidade da voz chegam a revelar mais sobre um ser do que propriamente o rosto ou até a fisionomia.
A dimensão sonora que a rádio incorpora, devolve-lhe ronovadas magias e imagens sonoras que a palavra falada ‘apenas’ legenda. Os ruídos, o som, o silêncio, a música fazem parte da audiosfera ou dimensão sonora, da qual a rádio se alimenta e, ao mesmo tempo, nutre o ouvido humano. “O radiouvinte «vê» o jogo relatado na rádio, sente a vibração do estádio, participa das emoções que «o grão da voz» do locutor corporiza. Como dizia Montesquieu, existe de facto uma imagem visual dos objectos, uma imagem sonora que se move, ora lenta ora acelerada, no imaginário com todas as suas dimensões”[8].
A importância do que é dito pode ser diminuída pelo acto de dizer e pela forma como tal é elaborado. A voz é um elemento que participa na significação, ela pode construir um conjunto de significações, uma linguagem articulada com sentido, refere Isabel Carlos[9]. Mas para além deste também desempenha outros papéis. “A sua função consiste não apenas em assegurar o contacto com o ouvinte mas também em mantê-lo – tornando-se, ela própria, mensagem quando o discurso tem pouco interesse (…)”[10].
Segundo Adriano Duarte Rodrigues, a radiodifusão não se limita a representar as vozes dos personagens: “É a totalidade do mundo que é radiodifundida sob o modo metonímico, na medida em que o som radiofónico dá conta dos corpos e produz de facto a acção. Não representa mas cria a realidade, convertendo-se em corpo abstracto que vem integrar o nosso mundo, apelando para a totalidade da nossa experiência sensorial, imagética, intelectual”[11].
A rádio é o meio, por excelência, de incorporação da voz – elemento que é simultaneamente presença e ausência do corpo físico. Ela representa-o, mas, no entanto, a sua materialidade mantém-se invisível. Para Isabel Carlos, a voz enquadra-se entre a palavra (dita) e o corpo. A sua dimensão vocálica assume-se como a essência do ser humano. “Não se pode reduzi-la à sua dimensão corporal porque ultrapassa-a como valor acrescentado, quanto como substituição do próprio corpo. Mas é igualmente verdadeiro que não há voz sem corpo que a emita: o corpo é o seu limite”[12].
Há diferentes tipos de vozes. Através delas o ouvinte desfruta dos mais diversos graus de intimidade. “Há vozes finas e vozes grossas, vozes legíveis e vozes angulosas e cheias de rodriguinhos (…) Há vozes anódinas, discretas, insípidas…”[13]. Adriano Duarte Rodrigues salienta a sua natureza corporal. “Tal como os corpos, as vozes são, ao mesmo tempo, todas idênticas e todas diferentes. Paradoxo em que se enraíza e de que se alimenta o fascínio da audiência da rádio (…) perfeito na medida em que o dispositivo radiofónico toma a voz pela personagem, não na presença mas na ausência dos corpos”.
“Corpo abstracto, a voz da rádio é”, para Adriano Duarte Rodrigues,  “plasticidade pura, modulação sonora etérea incorporal, virtualidade admirável de se substituir ao corpo, máscara falante na ausência do actor. É graças a esta abstracção, a esta virtualidade modulatória, a esta autonomização do corpo, que a voz é ao mesmo tempo materialidade transportável, superfície de inscrição e figura pura inscrita nos registos magnéticos”[14].
A rádio converte o sujeito do discurso em pura voz. “É por isso um dispositivo performativo de uma espantosa sinédoque metonímica particularizante. Autonomizando a voz da personagem que a profere, a rádio consegue não só representar discursivamente mas substituir realmente a parte pelo todo, em virtude da contiguidade entre a voz proferida e a personagem que a profere”[15] denota Adriano Duarte Rodrigues que também refere a questão primordial: “A voz da rádio é assim uma voz originária em que prevalece à significação das palavras o fluxo modalizador do som, a força enunciadora do corpo. Força enunciadora excessiva, na exacta medida da ausência do corpo”[16].
Desta forma a origem da paixão pela rádio – esse afecto extremoso, latente ou demonstrado – está no conjunto composto pelas suas principais características, o som e a voz, que por sua vez alimentam o invisível, o imaginário - factores que remetem para a afectividade e a intimidade, elementos tão peculiares na rádio.

[1] RIBEIRO, Fernando Curado – Rádio Produção – Realização – Estética, Editora Arcádia, Lisboa, 1964, pág. 148.  [2] Idem, pág. 149. [3] LAVOINE, Yves – A rádio, Editora Veja, Lisboa, s/d, pág. 168. [4] Idem, pág. 179. [5] Entrevista de P. Bellamare ao La Croix de 26/1/1977 citado por Yves Lavoine. [6] RODRIGUES, Adriano Duarte – O campo dos Media, Editora Veja, Lisboa,s/d, pág.118. [7] RIBEIRO, Fernando Curado – Rádio Produção – Realização – Estética, Editora Arcádia, Lisboa, 1964, pág. 151. [8] RODRIGUES, Adriano Duarte – O campo dos Media, Editora Veja, Lisboa, s/d, pág. 126/127. [9] CARLOS, Maria – A voz: ocorrências in Revista “Comunicação e Linguagens” - “O corpo, o nome e a escrita”. [10] LAVOINE, Yves – A rádio, Editora Veja, Lisboa, s/d, pág. 167. [11] RODRIGUES, Adriano Duarte – O campo dos Media, Editora Veja, Lisboa, s/d, pág. 126. [12] CARLOS, Maria – A voz: ocorrências in Revista “Comunicação e Linguagens” - “O corpo, o nome e a escrita”, pág. 81. [13] SCHAEFFER, Pierre – Notas sobre a expressão radiofónica, 1944. [14] RODRIGUES, Adriano Duarte – O campo dos Media, Editora Veja, Lisboa, s/d, pág.125. [15] Idem, pág.125/126. [16] Idem, pág.127.

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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Rádio Clube de Moçambique V


                           
Revista Rádio Moçambique nº276 de Julho de 1959


Nesta quinta e última parte concluímos o artigo sobre RCM, cuja publicação mensal se iniciou em Maio.

Texto Dina Cristo

Ao longo da recolha, análise e leitura (do significado) dos dados, tentámos compreender até que ponto o Rádio Clube de Moçambique foi um mero instrumento de propaganda (política) ao serviço de Portugal ou se, de alguma forma, constituiu já uma vocação para a informação social. Para tal, focamo-nos sobretudo na criação da rede de Emissores Regionais (ER), através da qual é difundida a “Voz de Moçambique”, um programa destinado às populações indígenas.

Despertada em relação à relevância das línguas como meio de dominação dos povos na construção artificial de identidades nacionais bem como uma falsa identificação entre o todo e a parte , por um lado, mas também como instrumento de acção, expressão e de libertação da dominação, por outro, quisemos apurar até que ponto ela constituiu um modo de penetração ideológica ou de (re)construção de laços de solidariedade.


O estudo teve como fonte fundamental todos os números, desde o 258 ao 441, editados de Janeiro de 1958 a Novembro de 1973, da revista publicada, mensalmente, pelo Rádio Clube de Moçambique, existente na Biblioteca Nacional, em Lisboa, denominada “Rádio Moçambique”. A publicação reproduz frequentemente matérias da rádio da Metrópole, nomeadamente da Emissora Nacional - como discursos, aniversários, renovação de programas, iniciativas, como os jogos florais – possuindo várias rubricas, como a história da rádio, além da programação, entrevistas, reportagens, palestras ou discursos proferidos aos microfones da estação.


A investigação - escrita no presente histórico, de modo não adaptado ao novo acordo ortográfico e usando os termos coevos, como Metrópole, Ultramar ou Província -desenvolveu-se em quatro partes essenciais. Na primeira parte se fez uma caracterização geral da estação de Lourenço Marques, a nível histórico e de condições (materiais) existentes. Na segunda, abordámos os conteúdos e horas de programação, em termos gerais, transmitidos da sede, e particulares, dos emissores distritais. A terceira parte concentrou-se na caracterização específica da “Voz de Moçambique”, o programa dirigido às populações africanas. A quarta parte centrou-se na rádio enquanto meio propício à difusão de propaganda, para além da informação e recreação.

Conclusão


De acordo com o discurso oficial, reflectido nas páginas da “Rádio Moçambique”, o esforço (político, económico, técnico e humano) investido na cobertura de uma rede de radiodifusão, com um programa nativo, único, retransmitido em cadeia, a nível do território, tem como finalidade aliar o útil - a conveniência portuguesa, a acção educativa e civilizadora, a divulgação política - ao agradável: a vantagem para o nativo com conteúdos acessíveis e compreensíveis.


A instalação desta rede de emissores que cobre as províncias tem um objectivo duplo: valorizar o folclore e língua locais e, ao mesmo tempo, cobrir «(…) a propaganda de tão vastas e várias regiões e colocando ao alcance dos Governos um elemento que rapidamente difunda pelas mais longínquas regiões as suas iniciativas e instruções». Em 1973, por ocasião da inauguração do ER de Inhambane, Humberto Albino das Neves, presidente da Direcção, recorda que o RCM: «Não visa propósitos lucrativos; não distribui dividendos; tudo o que realiza reaplica, reinveste em melhor satisfazer as populações, no campo informativo, no recreativo, no cultural, no educativo, e no imperativo, que o domina, de cooperar na consecução dos interesses superiores da comunidade, em colaboração franca com a Administração, tanto quanto lho permitam as suas faculdades e lho consintam uma gestão saudável».


Ambas as finalidades são expressas, já em 1961, em forma de trilogia: «Colocar à disposição do Governo e das autoridades locais um meio de difusão de notícias, ordens e instruções (…)» é a primeira das intenções. «Contribuir para a elevação do nível cultural e artístico das regiões servidas, pela organização de programas locais, em que se revelem e ponham em evidência os seus valores nos campos das letras, das artes, da música e da ciência» é o segundo objectivo, recordado a propósito da inauguração do primeiro emissor, o de Nampula. «Criar uma rede de radiodifusão que permita a esses valores [locais], assim como às mais importantes manifestações da vida dessas regiões, chegarem ao conhecimento dos seus habitantes» é o terceiro fim, que funde os antecedentes, o reforço da identidade nacional e a valorização da cultura local.


De facto, entre 1958 e 1973, o Rádio Clube de Moçambique aumenta considerável, contínua e amplamente o número de horas de emissão, quer ao nível da sede, Emissor da Matola, perto da capital, quer ao nível dos Emissores Regionais - Nampula, Quelimane, Cabo Delgado, Dondo, Tete, Vila Cabral e Inhambane. Se a sua implementação e aumento de potência, ao longo de 20 anos, se faz desde o início da década de 50, é no período marcelista que se multiplica e intensifica o empenho na cobertura do território moçambicano.


O investimento realizado no âmbito do plano de radiodifusão para Moçambique espelha a confiança na capacidade de eficácia da rádio ao nível da propagação ideológica e de penetração na vida das populações, ao ponto de justificar a degradação da situação económica de uma estação, historicamente sólida.


Por outro lado, a disponibilidade de uma equipa de recolha de elementos folclóricos autóctones e de locutores nativos para falar numa das onze línguas indígenas, durante cada vez mais horas de emissão, é, na prática, uma forma de fazer chegar, identificar, compreender e aceitar mais facilmente a mensagem da causa nacional (de pacificação, civilidade, unidade e progresso) - que tem como origem a Emissora Nacional, na Metrópole, e o RCM, em Lourenço Marques.

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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Os dias da rádio



No dia do III Congresso da Rádio evocamo-la através do filme que Woody Allen realizou há 25 anos, num momento em que se exibe nas salas de cinema a última película do cineasta.

Texto Tiago Mota fotografia Dina Cristo


Se, hoje, ao entrarmos no nosso veículo, automaticamente ligamos a rádio e sintonizamos numa estação que habitualmente transmite música agradável ao nosso refinado ouvido, apenas como forma de falsa companhia e distracção, outrora a coisa foi diferente, note-se, bastante diferente.


Imaginemo-nos nascidos há mais de meio século atrás, numa era em que possuir algo que hoje nos é tão banal como um rádio – aqueles aparelhozinhos que, por vezes, acompanham os produtos alimentares em forma de brinde – era, então, um luxo. As donas de casa, essas, tinham o privilégio de poder ouvir, durante todo o dia, as galanteadoras vozes que apresentavam as canções românticas e que as deixavam suspirantes e apaixonadas, seguidas das dramáticas novelas, que julgavam prováveis de elas próprias vivenciar. Os homens, pilares da família que diziam trabalhar que nem cães, ansiavam por chegar a casa e sentar-se no seu viril cadeirão, pegar no tardio jornal do dia e escutar a telefonia. Já os catraios, depois de um contrariado dia de aulas, não podiam ver a hora de largar a mochila no tapete da sala de jantar e ajoelhar-se frente ao grande e requintado aparelho, ouvindo serem relatadas as mais recentes aventuras dos bravos super-heróis e dos cowboys do oeste, nas suas épicas cavalgadas recreadas com cocos num estúdio de rádio.


A música sempre foi uma das componentes mais poderosas da rádio, se não a mais. Tudo nos conquistava, fossem as agradáveis baladas de fácil audição, fossem os orelhudos jingles. E a fórmula era tão eficaz que ainda hoje se repete e repete e repete. Mas tínhamos de ser selectivos, não nos chegasse aos ouvidos aquela música do demónio, recheada de mensagens subliminares, que os estrangeiros para cá trouxeram em jeito de rebelião.

Éramos gente ingénua e facilmente impressionável. Não sentíamos a necessidade de confirmar a veracidade do que se dizia e era dito, do que se escondia por detrás de tais amigáveis vozes. Conhecer uma destas grandes estrelas da rádio era quase como conhecer uma alma pura e divina, por mais ridícula que fosse, por menos cintilante que uma estrela devesse, de facto, ser. E o mais estranho é que, apesar de tudo, ainda hoje assim somos, por muito que o tentemos negar. Mas sabíamos também que ouvir a telefonia era quase como ouvir o que o demónio tinha para falar, e esse sentimento de culpa tornava o desafio ainda mais aliciante. Ouvir a rádio nessa época era um pouco como fumar e beber nos nossos dias, sabemos que nos faz mal, por isso consumimo-lo só de vez em quando.


É fácil apelidar a rádio como a banda sonora das nossas vidas, mas o certo é que outrora assim foi. E porque o Homem de extremos se faz, houve um tempo em que nos reuníamos em família para o ritual de ouvir a telefonia, enquanto que, hoje, apenas recorremos à rádio quando a solidão nos assombra, lembrando-nos que há quem esteja lá por nós, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, à distância de uma simples vontade.

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domingo, 23 de setembro de 2012

Rádio Clube de Moçambique IV


Revista "Rádio Moçambique", nº 332, Março de 1964, pág.10


Nesta quarta parte falamos da rádio como instrumento de propaganda.


Texto Dina Cristo


A rádio é considerada um meio ubíquo, indiscriminado, capaz de ultrapassar as fronteiras, barreiras ou distâncias e nem mesmo o muro de Berlim é capaz de a deter: «Ligeira como o vento, ágil como o pensamento, vence as distâncias, abre os ferrolhos mais possantes, transpõe os muros mais impenetráveis, instala-se nos lares e nos corações como uma presença benigna, fiel e amiga. (….) A Rádio vai a toda a parte; visita todos os lares e tanto se faz ouvir na humilde palhota escondida na selva, como no luxuoso palacete dos bairros elegantes».



Sobretudo em África, é sentido a sua função afectiva, como um meio que proporciona companhia e amizade: «Aqueles que vivem nas lonjuras da terra africana são os que melhor compreendem e estimam o receptor radiofónico, fabulosa criação do espírito humano que se transporta de um lado para outro, na camioneta, na mão, a tiracolo. À noite, quando o silêncio torna as trevas ainda mais densas e aviva a saudade, é ao aparelho de rádio que se recorre, na certeza de que nele encontramos um amigo sempre pronto a consolar-nos. É então ao Rádio Clube de Moçambique que, normalmente se recorre para preencher essas horas nostálgicas. A um simples toque dos nossos dedos, que actuam como varinhas de condão, a caixa electrónica anima-se, vibra, ganha alma e comunica connosco para vencer a desoladora solidão e dominar a melancolia».



A sua capacidade de estreitamento de laços, de aproximação e de interligação entre pessoas, faz-se sentir em Ultramar, fortalecendo a unidade nacional para além da dispersão territorial, sobretudo num momento de guerra fria através das ondas sonoras: «(…) É sempre consolador ouvir a voz de Portugal aos portugueses espalhados pelo mundo, mas agora, é necessário também que essa voz seja eco que nunca se apague nos corações das gentes e ao mesmo tempo tenha neles ressonâncias que não diminuam em comparação com outros ecos que também lhe chegam».



A rádio desenvolve-se enquanto meio de formar a vontade, de orientar o espírito, de conduzir e controlar a opinião pública, de convencer alguém a acreditar em algo ou a agir de determinado modo a que se chamará educação, nos casos positivos, ou propaganda, nos casos negativos, segundo Eduardo Rebelo, autor da crítica radiofónica na revista “Rádio Moçambique”. A força da rádio, o seu poder é reconhecido: «A Rádio (…) influencia, sugestiona e, desta forma, conduz (…)».



Enquanto meio acessível, imediato, úbíquo e intencional, é explorada em prol da colonização portuguesa e o RCM ao serviço do interesse nacional, moral e material: «(…) colocando-se num dos postos da vanguarda da radiodifusão em África, o Rádio Clube teve mais o mérito de servir triunfantemente a propaganda portuguesa moçambicana nos territórios do continente ao sul da linha equatorial. E como já uma vez aqui dissemos, desta obra que parece entrar por um ouvido e sair pelo outro, alguma coisa ficou: “Um eco dos apelos nos corações, um conhecimento que se aprendeu, um gosto que se ilustrou, um prazer de espírito que se firmou, um reavivar da consciência de português”. Uma contribuição positiva para a grande obra de portuguesismo e de universalidade que nesta Província nos compete realizar: a da civilização de Moçambique».



A rádio assume-se como um dos meios mais eficazes de divulgação rápida, de propagação directa das mensagens governativas. Os discursos oficiais, nomeadamente aquando de visitas ou eleições, são oportunamente difundidos através da informação que se incrementa.



Se em 1958 já há consciência da especificidade da natureza do meio com a sua linguagem peculiar - simples, natural e compreensível – nos inícios dos anos 60, a rádio inova em termos informativos, aproximando-se da vida de todos os dias: ela deixa de «(…) se confinar aos estúdios para ir às casas em que se vive e aos lugares em que se trabalha – residências, escritórios, fábricas, oficinas, etc. – e descer à rua e em todos os lugares, estuante de energia vital, acompanhar a vida, transmitindo as suas manifestações».



Sobretudo no período marcelista, a função informativa e a palavra adquirem proeminência em detrimento da função recreativa e da música (apesar desta agradar mais aos adolescentes, em Lisboa). A primazia da voz dá lugar ao que é dito e ao modo como é feito: os ouvintes «(…) preferem que lhes digam coisas que tenham interesse mesmo numa voz descolorida, a banalidades numa voz maravilhosa».



A rádio ganha vitalidade, apura o seu valor social, desempenha o seu papel no campo cívico, concentra-se no interesse colectivo e torna-se uma “porta-voz” da sociedade, assumindo a responsabilidade moral e o primado da consciência, dos valores, da opinião e da cultura: «A rádio é um instrumento poderoso na educação e formação da vontade».



Assim, ela vai para a rua, testemunha e documenta as manifestações de vida, fora dos estúdios, seja nos confins da terra, no mar ou no ar, como a transmissão da “Hora das Vedetas” feita a bordo dum Boeing 737 . «Ao longo do ano, funcionários dos Serviços Redactoriais e do quadro de locutores efectuaram mais de 3500 apontamentos de reportagem, entrevistas, etc., em serviço fora da sede».



No início dos anos 70, entre os vários factores que concorrem para que a informação radiofónica se expanda está a colaboração dos Emissores Regionais, com o envio de notícias, crónicas e reportagens. Em 1971, quando existem nove noticiários diários, a pedido da EN, é criado um serviço noticioso diário para a Metrópole. Em 1972 realizam-se três grandes reportagens fora de Moçambique: a visita do Presidente do Conselho e do Presidente da República de Portugal ao Brasil e os Jogos Olímpicos de Munique; em Moçambique, predomina a cobertura das várias visitas oficiais, como as do Governador-Geral, Pimentel dos Santos, aos distritos.



A “Voz de Moçambique” também transmite informação oficial, nomeadamente das visitas, como a do Presidente da República em Julho de 1964, objecto de 31 reportagens (19 directas – as relativas às sessões solenes - e 12 gravadas) , e «(..) está em todas as casas. Ensina e orienta em massa, todos os dias, em toda a parte, saltando fronteiras, fazendo progredir, interessando, ensinando, fazendo-se amar, conquistando corações, como é próprio deste povo amorável e compreensivo que é o povo Português. E, enquanto os ouvintes da V.M. tiverem oportunidade de escutar esta Voz, não escutarão outras… E isto porque é o Amor e não o ódio que permanece e aquece imperecivelmente o coração dos homens».



Em relação à política do espírito, que ao longo dos anos estudados se vai intensificando, alia a informação à educação. A difusão das ideias, cuja necessidade vai crescendo à medida que os ataques e contestações à política portuguesa vão aumentando, era levada a cabo por programas como a rádio-escolar, inaugurada na Metrópole a 25 de Novembro de 1960 e em Moçambique em Fevereiro de 1972, um programa para professores e para alunos, produzido pela Secretaria Provincial de Educação, mais concretamente pelo Centro de Produção Radiofónica.



A cultura e a instrução, mas também a recreação, a diversão e a distração são estratégicos na política propagandística de que o programa dirigido às Forças Armadas é exemplar. No final de 1968, mais de 60 elementos do RCM partem em direcção à Beira e a Nampula, para realizar sete espectáculos para os soldados, militares doentes e a população. A caravana conta com a Orquestra Típica de Música Portuguesa, o coro feminino e os cantores Natércia Barreto e Carlos Guilherme, entre outros - uma embaixada chefiada por Eduardo Parreira, que levou confiança e conforto moral «(…) junto daqueles homens sobre quem pesa a responsabilidade de defender a terra portuguesa ameaçada pelo bandoleirismo partido do exterior e que, heroicamente, asseguram a continuidade de Portugal na rota de Nação livre e independente».



Num contexto internacional de luta através das ondas radiofónicas entre o Ocidente e o Oriente, com uma rede radiofónica de centenas de emissores , depois da vaga de independências, designadamente a do Congo, em 1960, e da guerra nos territórios ultramarinos, desde o estalar do conflito, em Angola, em 1961, a rádio é, cada vez mais, usada como um verdadeiro soldado, em que a arma é o microfone e as balas as palavras.



A rádio transforma-se num elemento bélico, de defesa contra os ataques da propaganda comunista, como uma arma poderosa, sobretudo de propaganda, mais efectiva, por um lado, e menos perigosa, por outro. A radiodifusão torna-se, assim, um verdadeiro instrumento de contra-ataque , daí, também, o surgimento das emissões nocturnas e ininterruptas como medida de proteção contra investidas exteriores.



A necessidade de reforçar a disseminação da causa nacional cresce, ao mesmo tempo que a ideia de missão e de serviço do RCM, enquanto voz de Portugal em África, se enfatiza. Em 1970, quando o «programa de mentalização» “Hora da Verdade” é distribuído por todos os dialectos, cobrindo toda a província e se recebem lições de português em língua nativa, «(…) zonas imensas do Norte moçambicano estão inteiramente abrangidas nas áreas de influência de emissoras estrangeiras – nomeadamente as de Dar-es-Salam, Pequim, Moscovo e Cairo. Lourenço Marques não se consegue fazer ouvir (…)» , daí a urgência de se criarem postos regionais, estando nesta altura a ser montados mais sete, além dos quatro existentes.



A irradiação da mensagem nacionalista tem a atenção, ajuda e intercâmbio da EN. A Emissora oficial em Lisboa é a fonte de programas que são retransmitidos - nomeadamente os relatos de futebol -, propositados - como o “Jornal da Metrópole”, produzido pelos Serviços Ultramarinos - e para a qual são enviados programas como o “Minuto da Amizade” ou “Presença de Moçambique”, “um documentário radiofónico”, transmitido desde Maio de 1963.



Já em 1958, aquando da comemoração das bodas de prata, o delegado do RCM em Lisboa, agradece as relações amistosas e a solidariedade entre a Emissora Nacional e o Rádio Clube de Moçambique, que vêm, pelo menos, desde 1942: «Nunca será demais lembrar a obsequiosa, correcta e eficiente colaboração dos Serviços Técnicos desta emissora à sua congénere de Moçambique; nunca serão esquecidos, de igual modo, o empenho, o sentido da oportunidade e a diligência indesmentida com que os Serviços de Intercâmbio permitem manter o elevado nível artístico e cultural da programação do Rádio Clube de Moçambique; nunca nós teremos a expressão exacta para exaltar e agradecer a compreensão e o carinho com que todos os departamentos da Emissora Nacional acolhem e satisfazem os desejos da estação moçambicana para bem desempenhar a missão que lhe compete do vasto plano dos interesses do País».



Entre os principais argumentos usados durante a propagação dos valores nacionais enquanto nação multirracial, pluricultural e transcontinental, estão a harmonização, a amizade, o entendimento, a compreensão, o progresso e a pacificação: «A paz reina entre as populações autóctones e a civilização progride, onde não há muito lutas entre as tribos causavam o desassossego, mortes, violências e latrocínios».



Portugal presta não só protecção, entendimento, liberdade e humanidade, como refere Adriano Vidal, numa das suas “Notas do dia” do “Jornal da Noite”, como também o bem-estar às populações, a fraternidade racial, a sociedade multirracial (contra o terrorismo alimentado pelo comunismo) ou a transcontinentalidade: «Portugal é sempre Portugal. Não importa que o banhe o Atlântico, o Índico ou o Pacífico. Não importa que esteja situado nos Trópicos ou no Equador» . Neste contexto, a deserção é apontada como uma monstruosa traição, uma «(…) podridão moral e cívica».

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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Rádio Clube de Moçambique III



Revista "Rádio Moçambique" 13/6/1964, pág.3

Nesta terceira parte concentramo-nos no programa "Voz de Moçambique", destinado às populações nativas.

Texto Dina Cristo

Em 1958, além das emissões especiais em língua francesa - nomeadamente para o Congo belga e com música e novidades portuguesas, inglesas e em afrikaans - há uma em língua indígena. Desde o dia 6 de Abril desse ano que existem três horas semanais do serviço especializado “Hora Nativa”, na língua autóctone Xirronga, onde os ouvintes do ER de Matola, são ensinados e aconselhados, em termos da vida doméstica, política, saúde e agricultura.

De carácter popular, o programa contém notícias desportivas e diversos avisos. Começa com a seguinte abertura: «Aqui, Portugal Moçambique! Fala-vos a Voz de Moçambique a transmitir nas bandas dos 60 e 90 metros onda curta, e em 245 metros, onda média. O locutor… ao iniciar o seu trabalho de hoje, cumprimenta os seus estimados ouvintes, desejando-lhes uma boa audição para o programa que vai apresentar».

Nesse ano, em que o programa possui cinco funcionários, segundo João Pinheiro, gerente geral, «Muitos milhares de indígenas possuem já o seu receptor e outros em audições colectivas escutam entusiasmados e com regularidade as emissões que o Rádio Clube de Moçambique lhes dedica todos os domingos». O aumento de audiência entre os nativos, facilitado pelos transístores, é, assim, impulsionado pela programação destinada às populações autóctones.

Em 1959, conta já sete horas e meia de emissão por semana, mas esta irá estender-se substancialmente. Se no início dos anos 60, não são atingidas as duas mil horas de emissão, o mesmo já não acontece em 1967. Contudo, é no final da década e sobretudo na de 70 que a aposta neste programa se intensifica e as emissões são desdobradas, aumentadas e expandidas a diversos dias da semana. A 20 de Janeiro de 1961 a “Hora nativa” estende-se a Cabo Delgado, num ano em que transmite em cinco línguas dos povos autóctones. Em 1962 é substituído pela “Voz de Moçambique”; as emissões passam a ser diárias e nos nove dialectos mais falados.

Em 1963, a emissão estende-se ao ER do Norte, na língua Emacua, com milhão e meio de falantes. Num propósito explicitado de “fraternal altruísmo” e feito por locutores africanos, para identificação com a vida, problemas e aspirações das populações, o programa procura distrair, instruir e contribuir para o aperfeiçoamento moral.

São rubricas do programa, além do teatro infantil, “Diga-nos o que pensa”, “Português, minha língua”, “Vamos conversar”, “Correio do emigrante”, “Os nossos campos e os nossos animais”, “O conto da semana”, “Palestra sobre a saúde”, “Programa para a mulher” («(…) com o intuito da promoção social da família»), “Conselhos breves”, a que se juntam, em 1964, relatos de futebol, “Procurando vocações”, “Programa de variedades” e “Hora do recreio” (com música, diálogos e concursos).

O programa, com as máximas de honestidade, simpatia e humor, é orientado pelo chefe da Divisão de Acção Educativa e Cultural, a 3ª Divisão dos Serviços de Acção Psicosocial - cuja maior parte dos funcionários, redactores, tradutores e locutores são de raça negra - que depois de extinta deixa a produção a cargo dos Serviços de Radiodifusão e de Cinema Educativo e Informativo, na dependência do Centro de Informação e Turismo.

As emissões têm em vista a elevação do povo. Para uma acção construtiva ajusta-se aos seus particularismos, daí estar assente sobretudo na recreação, apoiada nas suas expressões musicais, fábulas e novelística, o que gera cumplicidade e confiança entre os ouvintes: «É a sua emissora. Ensina-os a tratar dos campos, a criar os filhos, conta-lhes histórias, dá-lhes os mais variados conselhos, proporciona-lhes as músicas que amam, vive para eles enfim».

Embora comercial, o programa inclui noticiários, contos, palestras, temas religiosos, música e língua portuguesa, folclore regional e história de Moçambique. Cresce e desenvolve-se a tal ponto que em 1968 as emissões se fazem em dez dialectos locais. Nesse ano há 4 085 h em línguas nativas a partir do emissor em Lourenço Marques, 1 625 h a partir do emissor de Nampula (em Macua), 624 h dos emissores de Quelimane (em Chuabo) e 286 h a partir dos emissores de Porto Amélia (em Medo), num total de 6 620 h de transmissão em línguas nativas.

Em 1969, das onze línguas autóctones transmitidas pelos quatro emissores, Emacua, emitida do ER do Norte lidera com mais horas: 1730, embora sempre ultrapassadas pela língua portuguesa, que neste caso conta com 3725 h de programação. Em 1971, com uma média semanal de 240h de emissão, o programa tem à sua disposição o quarto e quinto andares do edifício-sede, para serviços administrativos.

Em 1972, mantém-se a liderança dos dialectos Xirronga e Xissena, com mais de duas mil horas, e, dos restantes, apenas Emacua Metho não atinge as mil horas. Nesse ano, a língua portuguesa, só nos ER de Quelimane, Nampula, Porto Amélia e Tete, totaliza 12 998 h 50 m; por seu lado, a “Voz de Moçambique”, em vários dialectos e através de todos os Centros Emissores, perfaz 15 945 h 45 m.

Ao todo são as seguintes as onze línguas moçambicanas transmitidas:

Xirronga (distrito de Lourenço Marques): 2 165 h - Distrito de Lourenço Marques e Gaza, Suazilândia e larga área da região vizinha da África do Sul durante 5h 30m nos dias de semana, com acréscimo de 2h 30m aos Sábados e Domingos, em OC e OM.

Xissena (região da Beira, parte norte de Manica e Sofala e sul da Zambézia): 2 013 h – Distrito da Beira, em OM, com o emissor de 50 kw e o de Vila Pery, e em OC, com o de 10 kw. É escutado também pelas populações ribeirinhas do Zambeze, dos distritos de Zambézia e Tete. O dialecto é ainda escutado e entendido pelos elementos da etnia “Chenwé” do distrito de Inhambane. O período de emissão é de 5h 30m.

Xinhungue (distrito de Tete): 1 830 h. Com um emissor de 25 kw, em OC, é destinado a grande parte do distrito de Tete durante 5h.

Emakua (Norte da Zambézia, distrito de Moçambique e partes de Cabo Delgado e Niassa): 1 730 h. Todo o distrito de Moçambique e parte dos distritos do Niassa e Cabo Delgado, de Segunda-Feira a Sábado, durante 4 h. Aos Domingos e feriados a duração do programa é de 8h 30m.

Etchuabo ou Xichuabo (região de Quelimane): 1 647 h. Toda a região de Quelimane em OC, com um emissor de 10 kw, bem como a maior parte da Zambézia durante 4h 30m, todos os dias.

Xichangana (distritos de Gaza e Inhambane): 1 314 h. Distritos de Lourenço Marques, Gaza e Inhambane, em complementação do programa de Xirronga, com duração de 4h 30m de Segunda a Sexta-Feira e suplemento de 2h 30m aos Sábados e Domingos.

Kiswahili (da região costeira, começando a sul da Ilha de Moçambique até Mocimboa do Rovuma e fronteira norte ao longo do rio Rovuma): 507 h 15 m. Destinado às populações dos distritos do Norte que falam esta língua. Tem larga audição na Tanzânia e até Quénia. É transmitido da Beira por um emissor de 100 kw e tem a duração de 3 h.

Xinianja (regiões de fronteira com o Malawi dos distritos de Tete, Moçambique e Niassa): 479 h 45 m. Emitido em 100 kw, durante 3 h por dia; abrange a área do distrito do Niassa e é largamente escutado no Malawi. Ouve-se em razoáveis condições no distrito de Tete.

Kiyau ou Ajáua (a maior parte do distrito de Niassa): 365 h. Dirigido, especialmente, às populações ajauas do Niassa. Utiliza-se na sua emissão o emissor de 100 kw, que assegura a audição para além-fronteiras. Passa a ocupar 3 h diárias.

Emacua Metho (regiões de Porto Amélia e Montepuez): 262 h 30 m. Às Quartas-Feiras e Domingos durante 2h 30m em Porto Amélia.

Kimakonde ou Emaconde (grande parte central de Cabo Delgado até junto à fronteira do Rovuma): 169 h. Transmitido pelo emissor de 100 kw para a região habitada pela etnia maconde. Tem muitíssimos ouvintes na Tanzânia. O programa, que vinha a ser feito a título experimental, passa a ter a duração de 3 h diariamente.

Embora com períodos dedicados à cultura regional, a grande parte das emissões é preenchida com retransmissões da sede, em cadeia, como atestam a diferença percentual entre a utilização da língua portuguesa e as línguas nativas nos ER. «Estes centros, bem como as actuais estações regionais e as que se irão instalar noutros centros populacionais, serão ligados à estação-sede por uma rede-mista, de forma a permitir que seja ouvido em toda a província o programa de carácter geral emanado de Lourenço Marques, do qual se designam as estações regionais em certos períodos do dia para darem noticiários, reportagens e programas de carácter local».

Ao contrário de Angola, com a disseminação de estações comerciais concorrentes por todo o território, devido à formação de maiores núcleos populacionais e em maior número, Moçambique adopta o modelo de uma emissora única de âmbito provincial que agrupa e estabelece a unidade, em detrimento da pulverização. O plano dos emissores regionais em rede, a funcionar em cadeia, com um serviço de produção centrado na capital é salientado aquando da inauguração, em 1972, do ER de Tete: além do seu contributo para a programação geral, o programa é comum, suplementado a espaços longos com inserções exclusivamente locais.

Em relação à emissão, «(…) os nossos emigrantes do Transval e ainda imensos grupos de nacionalidade sul-africana, escutam os programas com extraordinário agrado. A comprová-lo há arquivos repletos de copiosa correspondência, quer de nacionais radicados na África do Sul, quer de negros sul-africanos, sem falar evidentemente, nos da Província, de Norte a Sul».

Em 1963, só dos dialectos Xirronga e Xichangana, o RCM recebe, em média, 1700 cartas por mês, cujo conteúdo vai desde os discos pedidos à exposição de problemas íntimos e solicitação de informações e conselhos. Numa dessas cartas, o ouvinte Eário Matos Muchelze escreve: «(…) Na nossa casa já sabemos fazer bolos, e esperamos que nos ensinem outras coisas. Muito obrigado».

Em 1963, a “Voz de Moçambique” acolhe 26 887 pedidos de discos e 311 462 votos, no concurso do Rei da Rádio. Em 1964 o programa recebe, em média, 4 000 cartas por mês; em 1967 são 154 120, 42 520 das quais de militares e 15 600 de emigrantes. Em 1968, quando a “Voz de Moçambique” tem mais de dois mil visitantes, são 150 mil as cartas recebidas que, em 1970, ano em que o programa alcança os 3 500 visitantes, atingem as 215 mil.

De acordo com as estatísticas oficiais de 1966, existem, em Moçambique, cerca de 75 mil aparelhos de rádio licenciados, o que, tendo em conta o censo populacional de 1960, proporciona, em média, um receptor de rádio para 88 ouvintes, enquanto isso no mundo há centenas de milhões espalhados por milhares de emissoras.

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sábado, 23 de junho de 2012

Rádio Clube de Moçambique II


O Centro Emissor da Matola

Nesta segunda parte, apresentamos a(s horas de) programação na sede do RCM, na capital, bem como a local, nos Emissores Regionais que se vão instalando: Nampula, Quelimane, Cabo Delgado, Dondo, Tete, Vila Cabral, Inhambane.

Texto Dina Cristo


Se em 1963 a emissão abre às 6h 30m (7h 30m no Domingo) e fecha às 23h 05m, com interrupção de hora e meia ao início da tarde, durante a semana, transmite quatro serviços de notícias, entre 10 a 15 minutos, dez anos mais tarde o programa principal inicia-se às 5h 56m e segue, ininterruptamente, até às 0h 10m, com nove noticiários, dois dos quais de meia hora.

Em termos globais, tendo em conta o plano de cobertura de rede em Moçambique, que se vai implementando, ao longo do período em estudo, há um progressivo aumento do número de horas de emissão. Se estas, em 1960, não atingem as dez mil horas, em 1972 ultrapassam as 60 mil.

As extensões das emissões vão aumentando também em função dos novos programas que, entretanto, vão sendo criados, ao longo da década de 60, nomeadamente o C e o D, totalizando quatro desdobramentos, com diferentes horários e cumprimentos de onda.

O programa A, em língua portuguesa, comercial, é o mais importante e propício aos programas ao vivo. Em 1968 é constituído 47,1% por canções e música ligeira, num ano que conta com 11,1% de noticiários e reportagens e 8,5% de publicidade. Em 1970 colabora regularmente com estações de Angola, Cabo Verde, Guiné, São Tomé, Macau e Timor, que transmitem gravações de algumas rubricas vivas.

O programa B, em língua africânder e inglesa, comercial, com dezoito horas de emissão, desde 1963, é transmitido em 24h diárias, desde o dia 1 de Março de 1964. Em 1968 integra 6.866 h de canções e música ligeira e 1.115 h de publicidade.

O programa C, em língua portuguesa, de carácter artístico e cultural, não comercial (sem publicidade), iniciado a 15 de Dezembro de 1962, é emitido através não só da Onda Média (OM) mas também da Onda Curta (OC) e Modulação de Frequência (FM), sendo captado na Metrópole. É composto essencialmente por música coral, de câmara, instrumental, ópera, canções, com destaque para a sinfónica. De acordo com o relatório de 1967 , 10% são programas falados, 4,2% noticiários e 2,6% teatro e contos; em 1968 tem 140h de ópera e 506h de música sinfónica, sendo transmitido em alta fidelidade e estereofonia.

O programa D cobre sobretudo a capital, num raio de cerca de 70 km durante o dia (um pouco mais à noite), durante nove horas, de acordo com o relatório referente ao exercício do mesmo ano, em que predomina a música ligeira e as canções, com 1960 h de emissão. A estação, no ar desde 2 de Janeiro de 1968, é criada com fins comerciais, para aumentar as receitas, aliviar a publicidade do programa A e melhorar a produção das agências publicitárias concorrentes.

Entre a programação, há teatro, folhetins, diálogos, programas infantis (como o “Teu programa”, de Maria Helena Jardim, iniciado em 1961, com rubricas à descoberta de valores no âmbito da poesia e da pintura) - crónicas, nomeadamente internacionais, palestras, como “Cinco minutos de espiritualidade” (proferida pelo Arcebispo de Lourenço Marques, D. Custódio Alvim Pereira, por exemplo sobre a visita do Papa Paulo VI a Fátima ou o Concílio Vaticano II ) e discos pedidos, que em 1957 recebem quase 28 mil solicitações. Em 1958, «Devido à afluência de senhas, só nos é permitido atender, 120 dentre todas recebidas, escolhidas por sorteio».

Figuras e factos da história de Moçambique, sublinhando a presença portuguesa também são motivo de atenção, como em “Terras de Portugal”, no ar desde 3 de Abril de 1963, no programa A: «Costumes. Artesanato. Folclore. Vindimas do Douro e lendas de Macau. Praias do Algarve e encantos da Madeira. Festas minhotas e mornas de Cabo Verde. S. João no Porto e povos de Angola. Moinhos metropolitanos e relíquias históricas da Ilha de Moçambique. Última Nata de Goa».

Alguns programas são assegurados por várias produtoras independentes, entre as quais as Produções Elmo (programa Tic-Tac), Produções Somar e Produções Golo (passatempos e relatos de futebol), que representam, em Moçambique, os parodiantes de Lisboa.

Igualmente a informação, jornais falados e reportagens, são presença constante, com o auxílio da Agência France Press, recebida desde 1963. O “Jornal de actualidades”, uma vez por semana, começa em 1958. Em 1968, no “Jornal da noite” abordam-se temas como a agricultura (os cereais), a indústria, os transportes e comunicações (como os caminhos de ferro). Dois anos mais tarde, para além do seu editorial próprio, “Nota do dia”, na rubrica “Volta ao mundo”, presta igualmente informações ligadas à arte, à ciência, ao cinema, à educação, à literatura, à medicina, à política, à sociologia, à tecnologia, ao trânsito e ao turismo.

As reportagens acompanham habitualmente os membros do Governo Central, o Governador-Geral ou Secretários Provinciais. Depois da visita do Presidente da República, Almirante Américo Tomás, em Julho de 1964, é a vez, em 1969, da cobertura da visita do Presidente do Conselho, Marcello Caetano, a Moçambique e das visitas de Baltazar Rebello de Souza às principais regiões do território, transmitindo directamente «(…) não só os actos oficiais como as manifestações populares (…)».

Em 1971 há 572h 45m dedicados aos noticiários e às reportagens, como a transmissão directa de todos os discursos pronunciados pelo Presidente da República, vários ministros, nomeadamente o do Ultramar, e outras individualidades (como o Presidente Banda do Malawi), o concurso Eurovisão da Canção, concertos e colóquios. Também são cobertos os grandes acontecimentos mundiais. No caso da alunagem, a cobertura, directa, teve 30 h de reportagem permanente, desde as 19h 30m do dia 20 de Julho de 1969 até às 7h 30 m do dia 21 abrangendo a retransmissão de reportagens de três origens diferentes, nas quais se inclui o serviço da EN.

Após a guerra em Angola, passa a haver programas de variedades e informativos. O “Jornal das Forças Armadas”, iniciado no dia 7 de Março de 1963, dedicado aos soldados, marinheiros e aviadores, produzido por Fernando Rebelo, responsável pela locução com Lisete Lopes, visa a recreação. O programa divulga biografias de heróis nacionais, como Sacadura Cabral, informações sobre os combates, correspondência, nomeadamente das madrinhas de guerra, que dão amparo moral, faz concursos e transmite poemas escritos e discos pedidos pelos militares. Magalhães Monteiro, enviado especial a Angola no início do conflito, sublinha a ideia de que um soldado indígena morto é mais um herói português tombado.

Emissores regionais

Ao nível da programação local, os centros emissores são estações que servem «(…) pequenos núcleos de população civilizada e grandes áreas povoadas por população não civilizada», estão aptos a retransmitir as emissões provenientes da capital, onde são preparadas, assegurando a cobertura do país, com a radiodifusão de um programa único. Os desdobramentos fazem-se num trabalho em cadeia, cooperativo, com a sede e para cujo custeamento foi criada uma taxa de radiodifusão. No caso do ER de Cabo Delgado os encargos são suportados pelos subsídios do Governo do Distrito, das Comissões Municipais, pelas circunscrições, pela publicidade e por pequenas receitas, como donativos.

O Emissor Regional do Norte, em Nampula, é inaugurado a 19 de Novembro de 1953. Em 1968, Pires Teixeira, escreve: «Os grandes dias da portugalidade, os grandes momentos de exaltação lusíada, as grandes manifestações de fé, assinalaram sempre, sem uma falha, a presença inestimável do Emissor, pundonoroso no cumprimento das suas obrigações e no respeito pelas suas imensas responsabilidades».

A 3 de Setembro de 1958 é inaugurado o Emissora da Zambézia, em Quelimane. O de Porto Amélia, em Cabo Delgado, no valor de 800 contos, é estreado a 20 de Abril de 1960.

Em Outubro de 1970 tem início o Centro Emissor do Dondo, que, em 1971, emite mais de sete mil horas. A 29 de Outubro de 1972, embora em instalações temporárias, é inaugurado o ER de Tete, uma cerimónia com a presença, além da Direcção do RCM, do Ministro do Ultramar, Silva Cunha, do Governador-Geral, Pimentel dos Santos, do Comandante-Chefe das Forças Armadas, Kaulza de Arriaga e dos Secretários Provinciais de Comunicações e Obras Públicas.

No mesmo ano, a 12 de Dezembro de 1972, é inaugurado o ER de Vila Cabral, no distrito de Niassa. Fazem parte da comitiva, o Secretário Provincial das Comunicações, Vilar Queirós, da Educação, Marques e Almeida, de Emprego, Wanonn Pinto e o director dos CTT, Armindo Fontes, instituição que os supervisionava. Além do Delegado Gerente, fazem parte dos quadros do pessoal, cinco locutores, cinco técnicos e uma secretária, instalados numa casa pré-fabricada. Nos dois últimos (Tete e Vila Cabral) são instalados emissores de 5 kw de OM e antenas concebidas e fabricadas no RCM.

Antes de terminar o ano de 1973, em 23 de Novembro, é inaugurado o ER de Inhambane. O Governador-Geral faz-se representar pelo Secretário Provincial das Comunicações que, por sua vez, põe no ar o emissor por intermédio da esposa do Governador do Distrito. Apesar da sua crise financeira e dos encargos que representa, o RCM decide antecipar os planos para a cadeia de emissores, com mais um elo, cooperando com a nação num momento crucial: «Esta magnífica instituição, integrando-se perfeitamente dentro das preocupações do Governo de Moçambique, não hesitou em alterar estruturalmente os seus planos para seguir aquilo que o Governo estabeleceu como primeira prioridade», profere o Secretário Provincial das Comunicações, Vilar Queiróz, durante as cerimónias.

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