quarta-feira, 24 de junho de 2009

Elementais


Publicamos neste dia (das fogueiras) de S. João um texto sobre a importância dos Espíritos da Natureza; para além do fogo, a água, a terra e o ar.


Texto João Gomes fotografia Dina Cristo

«O nosso mundo já toca o das fadas em alguns pontos. Muitas pessoas sentem em maior ou menor grau o espírito de um bosque ou a grandiosidade de uma montanha, mas atribuem isso, na maioria das vezes, a estranhas visões, sons e sensações. No entanto, essa sensação procede com frequência do mundo mágico que o habita. Poetas como A.E., James Stevens, Yeats, Tennyson e Shakespeare(1), enriqueceram o nosso conhecimento e sentimento sobre o mundo das fadas. Há uma enorme quantidade de pessoas, mais do que se supõe, que estão em intima comunhão com fadas e anjos. A brecha entre os dois grupos de seres, as fadas e os homens, não é tão grande quanto o imagina a nossa ignorância. Se ao menos pudéssemos entender que vivemos num mundo coalhado de fadas, de anjos e de toda a espécie de seres, isso fazia uma enorme diferença na nossa atitude e em nosso modo de viver. A simples crença de que tal mundo existe deveria deliciar-nos; seu conhecimento e certeza seriam, sem dúvida, uma consequência disso. Nós mesmos nos tornaríamos muito mais alegres, pois é impossível entrar em contacto com esse mundo que palpita de alegria sem deixar de adoptar o mesmo espírito, que desperta nossa energia criativa.»(2) Dora van Gelder
Talvez por ignorância, talvez por preconceito, talvez por falta de informação, talvez porque vivemos numa sociedade materialista ou, talvez ainda, pela súmula de todas estas razões – os espíritos da natureza são esquecidos.
A tradição, o povo, nunca os esqueceu e a sua memória e o seu culto ficaram gravados nos contos populares e de fadas. Todos nós estamos lembrados do papel das fadas no drama da Bela Adormecida ou, dos anões, na história da Branca de Neve. Quantas histórias de fadas e duendes nos encantaram na nossa infância. Agora, adultos, vemo-los como contos fictícios, como produtos da riqueza da imaginação popular, contudo, por trás deles, existe uma realidade que os fundamenta e sustenta – os Espíritos da Natureza.
Estes seres não são criaturas materiais, densas, físicas, estão mais próximos dos anjos do que de nós, humanos. A substância dos seus corpos é denominada na Teosofia Moderna como etérica: uma matéria mais subtil do que os gases mais finos. Daí a dificuldade em observá-los; não obstante, muitos são os testemunhos daqueles que, numa determinada altura, divisaram estes seres.
Os Alquimistas da Idade Média classificaram os Espíritos da Natureza (ou Elementais Naturais) em quatro grandes grupos conforme o elemento em que se expressavam: Os espíritos das águas ou ondinas; os espíritos da terra ou gnomos; os espíritos do fogo ou salamandras; e os espíritos do ar ou silfos.
Os elementais têm, como já dissemos, uma função importantíssima na Natureza. O seu trabalho está associado à propagação e crescimento dos seres vivos. Eles, dirigidos superiormente pelas Hierarquias Criadoras (Anjos, Arcanjos …), encontram-se por trás dos processos vitais e da evolução da vida natural; eles e as Hierarquias Criadoras corporificam a Inteligência que está por trás da vida. Nada acontece por acaso, a natureza é inteligente e caminha para um Propósito Supremo.
É a nossa cultura materialista, que de uma forma supersticiosa e ignorante, retira dos processos naturais a sua componente espiritual e a sua dimensão divina – à revelia dos Ensinamentos dos Grandes Mestres e Instrutores Espirituais, de todas as épocas e latitudes.
Contudo, nestes tempos dramáticos de crise e suicídio ambiental, torna-se vital voltar a entrar em contacto e a colaborar com as Hierarquias Criadoras de modo que, em conjunto com elas, possamos ultrapassar esta fase crítica da história da vida no nosso Planeta – a nossa casa comum.
Paz… a todas as criaturas.

[1] E também o nosso poeta maior, Camões. Nos Lusíadas por exemplo, várias vezes invoca e refere os espíritos da natureza. As ninfas, as tágides, e as nereidas aparecem em inúmeros episódios no texto. Todos estamos recordados do papel das ninfas na Ilha dos Amores ou, das nereidas, na salvação da armada do Gama da cilada do duro e esperto mouro. [2] «O Mundo Real das Fadas». 21. Editora Pensamento. São Paulo

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terça-feira, 21 de maio de 2013

A Comunicação Oculta VII



Terminamos este ensaio com o sétimo artigo, sobre a Evocação e a Invocação, neste Dia Mundial da Comunicação.
 
Texto e desenho* Dina Cristo
Para que haja uma verdadeira Comunicação – circular, directa, bidireccional, recíproca e transpessoal - é indispensável a vontade de quem emite e a abertura de quem recebe. Na Comunicação entre a Hierarquia e a Humanidade (parte do triangulo também constituído por Shamballa) esta dimensão entre Evocação e Invocação tem lugar. 

Segundo Maria Flávia de Monsaraz[1], depois de terem evocado, chamado e relembrado os Humanos, os Homens Perfeitos, que atingiram a sexta Iniciação, estão actualmente a responder-lhes. Ao estímulo inicial, de impressão mental de novos ideais, os Homens responde(ra)m invocando, pedindo protecção e inspiração; de início de forma vaga, difusa e irregular e depois num apelo mais convicto e focalizador, com desejo (d)e maior grau de consciência.

A Comunicação Universal é esse espaço-tempo de comunhão entre quem invoca, pede, implora ou suplica, como os Humanos, e quem evoca, chama, relembra e responde, como os Super-Humanos. Estes, ao activarem a recordação da informação, estimulam na família humana a vontade de Comunicar. Por sua vez, esta emite orações, mantras ou meditações que os Mestres recebem, dirigem e transmutam.

Alice Bailey descreve assim o processo: «Aqueles que exigem salvação chamam em altas vozes. Suas vozes penetram no mundo sem forma e lá evocam resposta. Aqueles que, há muitos eons, se comprometeram a salvar e servir, respondem. Seus gritos também se fazem ouvir e, ressoando, penetram nos escuros, distantes lugares nos mundos da forma. Assim estabelece-se um vórtex que se mantém vivo pelo constante soar dos dois sons. Então é feito o contacto, e no espaço e durante algum tempo, os dois se tornam um – As Almas que Salvam e as Unidades a serem servidas»[2].

A evocação manifesta-se através da Arte (nomeadamente da Música), da Imaginação, dos Mitos, da Magia, da Telepatia, dos Rituais, dos Símbolos (como a cabala, as cores, os números ou o tarot), dos Sonhos e dos Mensageiros, desde os (Arc)anjos aos Iniciados, passando pelos profetas, filósofos e Mestres; todos têm transmitido a mensagem de uma Nova Civilização, a terceira, baseada no Amor/Sabedoria, depois da primeira inspirada em Buda, o Conhecimento, e da segunda, em Cristo, o Amor.

Trata-se de verdadeira Religião, da religação à Fonte, o regresso à Origem, ao Ser (trazendo iluminação, reintegração e participação); o Retorno do Cristo, do Desejado (em Portugal) e da proclamada Idade do Espírito Santo, Quinto Império, Era de Aquário, Idade de Ouro, uma Época de (Re)Descobertas Espirituais, de peregrinação até à Individuação, de C. G. Jung, à Grande Obra, dos Alquimistas, ou à Cristificação, de Max Heindel.

Jean Shinoda Bolenexplicou-o com base na Mitologia: a Deusa Métis, Sophia que fora engolida por Zeus e esquecida, é recuperada e, com ela, a vinculação à Terra, à Vida, ao Ritmo Natural (dos ciclos e estações), aos Outros, o desenvolvimento da Ecologia e de uma consciência global e solidária, própria de uma cultura matriarcal, baseada no amor e na liberdade, que privilegia as relações externas e reacções internas - representada no Deus afectuoso e clemente do Novo Testamento.

Annie Besant ilustra esta Lei do Retorno, o Feed-back: “Assim como um imã possui o seu “campo magnético”, uma área dentro da qual todas as suas forças atuam, grandes ou pequenas de acordo com a sua força, assim também todo homem possui um campo de influência dentro do qual agem as forças que ele emite, e essas forças agem em curvas que retornam para aquele que as emite, que retornam ao centro de onde emergiram”[3].

Actualmente, a Web, com os seus grupos electivos, facilita a emergência de uma Nova Era que, segundo o Centro Lusitano de Unificação Cultural[4], é dirigida pela alegria, maleabilidade, suavidade, comunhão, compreensão, integridade e paz – sete tónicas de uma Era de Comunicação Fraternal[5], propícia ao desenvolvimento da Informação Solidária, que relate esta Religação a Si, aos Outros e à Natureza.

* Anos 70
BIBLIOGRAFIA 
ANACLETO, José Manuel – Transcendência e imanência de Deus. CLUC. 2002
ANACLETO, J. Manuel – Duas grandes pioneiras. CLUC. 1999.
AVELINE, Carlos Cardoso – A informação solidária. Edifurb. Blumenau. 2001
BAILEY, Alice – Astrologia esotérica. Tomo II. Association Lucis Trust. Genebra. 1999.
BAILEY, Alice – Um tratado sobre os sete raios. Tomo I. Vol.III. Association Lucis Trust. Genebra. 1997.
BHAGAVAD GUITA – Bhagavad Guita. Editora Estampa. 2ª ed. 1999.
BESANT, Annie – O enigma da vida. Editora Pensamento. S. Paulo. 10ª ed., 1997.
DALICHOW, Irene; BOOTH, Mike – Aura-soma. Editora Margarita Schack. 1997.
COLLINS, Mabel – Luz no caminho. Editora Teosófica. 3ª ed. 2001.
COSTA, H. Álvares – As sete leis fundamentais – uma visão geral segundo o hermetismo, Cabalismo, Pai Nosso e Teosofia. STP. 1997.
EVANGELHO SEGUNDO TOMÉ – Evangelho segundo Tomé. Editora Estampa. 1992.
GOVERNO, Isabel – Logos, devas e elementais. CLUC. 2002.
GIBRAN, Kahlil – O profeta. Editora Pergaminho. 2004.
HEAD, G.R. – Apolónio de Tiana. Editora Teosófica. Brasília. 2000.
HEINDEL, Max – Astrologia científica simplificada. FRC. 1985.
HEINDEL, Max – O véu do destino. FRC. 1996.
HEINDEL, Max – Conceito Rosacruz do Cosmo. FRC. 3ª ed., 1989.
INTRODUÇÃO AO SUM – Introdução ao sum. CLUC. 1994.
INTRODUÇÃO À SABEDORIA E TÉCNICA GRUPAIS – introdução à sabedoria e técnica grupais. CLUC. 1990.
LEADBEATER, C.W. – Os sonhos. Editora Pensamento. São Paulo.
MENDANHA, Victor – História misteriosa de Portugal. Ed. Pergaminho. 6ª ed. 2001.
MONSARAZ, Maria Flávia – Vénus. Marginália Editora. 2004.
NO DOMÍNIO DO ESPAÇO-TEMPO – No domínio do espaço-tempo. CLUC. 2000.
NO TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO – No templo do Espírito Santo. CLUC.
NOVOS DIÁLOGOS HERMÉTICOS – Novos diálogos herméticos II. CLUC. 1994.
PARA UM MUNDO MELHOR – Para um mundo melhor. CLUC. 1997.
PÉROLAS DE LUZ – Pérolas de luz. Vol II. CLUC.
QUINTA DA REGALEIRA -  Quinta da Regaleira. Fundação CulturSintra.
RITUAL DE CIRCULAÇÃO DE LUZ – Ritual de circulação de luz. CLUC. 2001.
ROBERT, Denis; ZARACHOWICZ, Weronika – Noam Chomsky – duas horas de lucidez. Editora Inquérito. 2002.
TRAVASSOS, Lubélia de Fátima – Os manuscritos do Mar Morto. Os essénios. Editora. 1997. 

Revistas: 
Biosofia, N.º8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 26, 27,
Portugal Teosófico, n.º76, 83, 84, 85, 86, 87, 88, 89 (2003).
De Aqui e de Além, n.º1, 2, 3, 4, 5, 6, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 16, 17, 18.
Rosacruz, n.º358, 363, 370, 371, 372, 373, 374, 375, 376, 377, 378, 379, 

CD:
 MONSARAZ, Flávia – A religião do novo mundo. S/d. S/ Ed. 49:58.


[1] MONSARAZ, Maria Flávia – A religião do Novo Mundo – Faixa Hierarquia Planetária. CD [2] BAILEY, Alice – Astrologia esotérica, Tomo II, Association Lucis Trust, Genebra, 1999, p.206. [3] BESANT, Annie – O enigma da vida. Editora Pensamento. S. Paulo. 10ª ed., 1997, pág. 175. [4] Cf. CLUC – No Templo do Espírito Santo, CLUC, 1992, pág. 149 [5] A concretização do Espírito da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade

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quarta-feira, 20 de março de 2013

Recurso vital


Neste que é o Ano Internacional da Cooperação pela Água, e antes do seu Dia Mundial, reflectimos sobre o que nos espelha.
Texto Dina Cristo
Cai do céu e gosta de penetrar profundamente na terra, onde descansa. Depois de repousar, brota como nascente. Corre lentamente pelo leito dos rios, nutrindo as suas margens. Vitalizada, desagua no mar. Eis o grande ciclo, em equilíbrio, sem falta ou excesso de água.
Contudo, hoje, com a deflorestação, sem húmus suficiente, ela desperdiça-se apressadamente pelos vales abaixo. Enquanto deixa o solo seco inunda as margens dos rios, levando consigo detritos e causando destruição. Crescem os riscos de incêndio, aumenta a poluição e o nível do mar. As fontes secam, os caudais diminuem, as reservas escasseiam. Existe cada vez menos água potável e com menor qualidade.

O consumo, esse, aumenta. Durante o séc.XX o uso de água cresceu nove vezes, segundo Janez Potocnik, Comissário Europeu do Ambiente. Quando mais de um bilião de pessoas não possuem abastecimento de água, e Moçambique consome quatro litros diários, no território português, apesar de um Programa Nacional para o seu uso eficiente, utiliza-se cerca de 175 litros por dia, 70% dos quais em autoclismos e em duches.
Em Portugal existe uma legislação quase centenária e uma Lei da Água desde 2005, um Plano Nacional, do qual decorre o Plano de Gestão das Regiões Hidrográficas, além de um Plano Estratégico para o Abastecimento de Água e Saneamento de Águas Residuais (PEAASAR), uma Estratégia Nacional para os Efluentes Agro-Pecuários e Agro-industriais (ENEAPAI), uma Entidade Reguladora e, entre outros organismos, um Instituto da Água, agora integrado na Agência Portuguesa do Ambiente.
Contudo, falta uma gestão articulada e integrada, disse Carmona Rodrigues, em entrevista à “QuercusAmbiente”(1), referindo que um terço da água tem má ou muito má qualidade, que a factura do consumidor se mantém demasiado elevada e que do Plano de Barragens, lançado à margem do Plano Nacional de Água, não constava o do Baixo Sabor, além de não ter sido sujeito ao parecer prévio do Conselho Nacional da Água.

Reequilíbrio
Em Tamera, desde 2007 que Bernd Walter Mueller vem pesquisando e implementando uma paisagem de retenção de água e o grande ciclo. Lagos, com barragens naturais, permitem aproveitar a água da chuva que, de forma lenta e profunda, é absorvida pelos solos. Os lençóis freáticos recuperam-se, a paisagem regenera-se e, além dos três lagos existentes e cerca de uma centena de pássaros, há já uma nascente.
Eis o resultado da cooperação com o espírito da água, de natureza feminina e que gosta de repousar como de se movimentar livremente, em S: «Como qualquer ser vivo, a água precisa de ser livre para se mover de acordo com o seu Ser. A água gosta de se mover sinuosamente, de se enrolar e de descrever curvas e espirais. Desta forma, ela mantém a sua frescura e vitalidade. Através destes movimentos, purifica-se a si própria ao mesmo tempo que abranda o seu ritmo e se infiltra no corpo terrestre» (2), explica Bernd Walter Mueller.

O segredo está em compreende-la, respeitá-la e estimá-la; conhecer a sua essência, por dentro, e não apenas medi-la por fora. Trabalhar com ela, em harmonia, e não contra ela, em concorrência, exploração ou abusos, permite obter nutrição e energia suficiente, reverter o deserto em paraíso, sonhar com mil lagos para o Alentejo e visionar a região como um modelo para o mundo, com direito a acesso livre a água potável de boa qualidade.
Universalmente conhecida como origem da vida, de purificação e de regeneração (a sua capacidade de Memória, ligada à Imortalidade) será, assim - despoluída, cuidada e protegida - capaz de devolver aos seres (humanos) as bênçãos da Graça, da cura e do rejuvenescimento(3). Fonte altamente informativa, capaz de receber e distribuir pela terra inteira informações vitais, restruturando-a, e veículo de comunicação entre todos os seres, ela é hoje também foco de olhares mais (híper)sensíveis e atentos que experienciam outros modos mais energéticos de a purificar, como o pensamento ou a aurosoma.

Matriz
Matéria-prima original, Prakriti, a Mãe do Universo, ligada à Mulher, à Alma, como à Luz, à Águia e a Gabriel, excelente condutora (de Electricidade, Sabedoria, Verbo e Sentimento), é também, segundo Maria Flávia de Monsaraz, filtrada pela Lua.
Manifesta-se como fonte, lago, rio, ribeira, mar, gelo, chuva ou vapor. Pode ser doce (pura) ou salgada (amarga), destilada ou mineralizada, pluvial ou subterrânea, ácida ou alcalina, corrente ou pantanosa, benta e abençoada, termal ou residual, pode estar calma ou raivosa, viva ou adormecida, livre ou engarrafada, limpa ou poluída, em cisternas ou fontanários, aquedutes, açudes ou albufeiras (hoje transformados em praias fluviais).
Depois da herança romana, com os seus balneários termais, e, séculos mais tarde, das termas, com as suas águas caldas, minerais e curativas, um pouco por todo o país e para as mais variadas doenças, ela é hoje não só considerada um elemento vital para a saúde como também para a beleza e bem-estar, como mostram, por exemplo, os SPA, saúde pela água, e a talossoterapia.
Água presa
A água salgada é um importante recurso terapêutico mas quando, devido à secura dos solos, neles se infiltra torna-os inférteis - um perigo sempre que os aquíferos subterrâneos naturais se começam a esgotar. Neste momento, o recurso a barragens ou mesmo mini-hídricas não é, para a Quercus, a solução. As grandes (mais de cem) ou pequenas e médias (cerca de 800) infra-estruturas ocupam 90% dos troços dos rios (4) e afectam a sua conectividade, qualidade, quantidade e morfologia de água, além de, entre outros danos, a livre e efectiva passagem de peixes.
Em vez disso, a Associação Nacional de Conservação da Natureza, que aponta deficiências ao nível da aplicação, fiscalização e gestão das entidades responsáveis e documentação produzida, propõe a poupança do recurso hídrico e a micro-geração como moinhos de água, preservando em vez de destruir o património, como no caso de Alqueva onde «Pastagens, montados, olivais foram engolidos, centenários moinhos do Guadiana e um castelo ficaram cobertos pela água, estradas foram cortadas, conduzindo a lado nenhum, e uma povoação desapareceu para sempre» (5).

«O Programa Nacional de Barragens, onde a Barragem do Foz Tua se destaca como um dos casos mais deploráveis, deve ser cancelado. As nove grandes barragens aprovadas permitiriam satisfazer apenas 3% das necessidades anuais de electricidade em Portugal. Apostar em medidas de eficiência energética é dez vezes mais barato do que aumentar a capacidade instalada de produção de electricidade», escreviam há um ano, a Quercus, o GEOTA, Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente, e o CEAI, Centro de Estudos da Avifauna Ibérica (6).

Aguados

Quase a finalizar a Década Internacional de Accção da Água para a Vida, estamos perante um confronto, como na Bolívia, entre os que lutam pelo seu controlo, domínio, privatização e em que a escassez de H2O se transforma em poder e lucro, e os que defendem o seu livre acesso, como um direito fundamental, a um bem indispensável à prossecução da vida e nela vêem a sacralidade, abundância, fertilidade e pacifismo. Em Portugal, Carmona Rodrigues, em entrevista a Carla Graça, afirmou que a privatização das "Águas de Portugal" deveria ser (re)equacionada pois o mais importante é a capacidade reguladora do Estado. O tema é objecto de atenção mediática internacional.
Os humanos, que são seres de água, constituídos essencialmente por ela, em especial o seu cérebro, dela dependem para sobreviver. Este elemento que não se fabrica, está na base do ecossistema, que provê a própria economia, hoje tão desejada. Constituída por elementais, como as ondinas, associada à terra, também ela elemento receptivo, omnipresença constante, em cada ser e objecto, interna e externamente, para tudo é necessária.
Contudo, aos olhos técnicos a água não passa de uma fórmula a controlar, manipular e explorar. O afastamento da Natureza levou a medi-la, a planifica-la estratégica e friamente. E desconhecendo-a, a Humanidade desrespeitou-a. Invadiu o seu próprio espaço, poluindo-a, abusando e desperdiçando-a. A água cai graciosamente e os humanos, além de não a aproveitarem, muitas vezes maldizem-na, quando chove na cidade, mesmo após anos de seca severa.
Cantada, em Portugal e no mundo, ela é hoje peça de Museu, uma prenda acessível, motivo de pesquisa, de invocação e também de atenção em fóruns de discussão real e internacional. Faz parte da pegada ecológica de cada ser humano que a requer pura para primeiro lavar e depois levar as suas máculas. Depois de tão ignorada, mal tratada e poluída, é da sua própria reabilitação que está dependente o futuro e regeneração da própria Humanidade.
(1) GRAÇA, Carla - Recursos hídricos em Portugal in QuercusAmbiente, Janeiro/Fevereiro, 2013, pág.4-5. (2) MUELLER, Bernd Walter - o segredo da água - a base para um novo mundo. Institute for Global Peace Work, pág.6. (3) CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain - Dicionário dos símbolos, Teorema, 1994, pág.41-46. (4) «Não nos sobram muitos rios num território já cortado em fatias por dezenas de auto-estradas», afirmavam Mara Sé, Bruno Caracol e Marcos Pais, na QuercusAmbiente, Maio/Junho 2012, nº52, pág.26. (5) JORGE, José Luís – Alqueva – paisagem de água. Tempo Livre, Setembro 2012, pág.28. (6) Quercus, GEOTA, CEAI – Plano Nacional de Barragens in QuercusAmbiente, Janeiro/Fevereiro 2012, pág.20.

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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Aldeia de Luz


Numa semana de lançamento do livro “Tamera – um modelo para o futuro”*, revemos os fundamentos e desígnios desta comunidade perto de Odemira, autêntico Centro de Pesquisa para a Paz.

Texto e fotografia Dina Cristo


Fundado, em 1995, por Dieter Duhm e Sabine Lichtenfels, um casal alemão, o centro comunitário de Tamera, em Monte Cerro (Colos) é uma experiência-piloto de auto-sustentabilidade. Um biótopo de cura para dissolver o centro traumático civilizacional, preenchido de medo, violência, guerra e destruição. Verdadeiramente ecológico, no sentido de restabelecer a inter-ligação entre todos os seres vivos, tem por principal objectivo restaurar a paz no planeta.
Se a experiência for bem sucedida então há esperança de generalizar uma vida mais verdadeira, construtiva e feliz à escala global, através da aplicação dos princípios da acupuntura (ao desbloquear um ponto vital promove-se a regeneração no todo) e dos campos mórficos de Rupert Sheldrake (numa espécie de ressonância colectiva). A experiência de uma vida comunitária saudável será memorizada e tal informação será retransmitida a outras eco-aldeias criando uma rede destes centros cujo exemplo de uma nova forma de vida em conjunto se generalizará.
Com a crise, entrámos (voluntária ou involuntariamente) num processo de transição. 2012, explicita Dieter Duhm, não será nenhum apocalipse mas antes um marco na mudança de mentalidade. A alteração social para valores éticos não se fará, defende, nem por um equilíbrio externo de poder nem por macro-projectos: “Não são os mega-sistemas técnicos do actual planeamento futuro ou colónias em Marte ou cidades flutuantes que trarão a paz”, escreve. A transformação passará pelo próprio Ser Humano, através da activação do poder do amor.
Vibração amorosa
Para prescindir do amor ao poder, da sociedade patriarcal, dominadora e castradora, é necessária uma mudança de consciência; novos padrões de percepção, pensamento e interpretação, o que se poderá realizar através da alteração da frequência (de beta para alfa, incrementando uma vida mais lenta) por via da modificação dos campos cerebrais, propiciado pela mudança dos campos magnéticos da Terra. A relação entre o corpo humano e o terrestre - com(o) os quatro elementos - é, aliás, uma das linhas a salientar do conhecimento emergente.
O desenvolvimento, com ênfase no colectivo e na cooperação, passará, antevê o mesmo autor, pela reconexão com a Fonte Divina (espiritualidade), a reconciliação entre os géneros humanos (comunidade), a recuperação da Natureza bem como o respeito em relação à Terra e colaboração entre todos os seres (nomeadamente elementais) que nela habitam. A orientação será para a unidade (sobrepondo-se às diferenças e aos interesses), da harmonização dos opostos, da síntese, procurando o essencial: o comum. Partindo da nova informação inserida no organismo (humano e terreno) ela expandir-se-á. Desbloqueado o sistema, os canais abrir-se-ão ao contacto com o(s) outro(s), à compaixão, à comunhão, ao amor.
Será realizável no Séc. XXI um movimento de transição de um padrão cognitivo-comportamental de stress, medo, insegurança, doença, solidão, tristeza e carência, pressuposto da economia capitalista, para um novo modelo de vida de relaxamento, confiança, cura, interdependência, alegria e abundância, premissa da economia solidária; de um paradigma baseado na imposição informativa, opressiva, para outro assente na comunicação livre e voluntária.
Os recursos são suficientes. Há tecnologia disponível como a engenharia solar, permacultura e aquacultura ecológica, ali implementada, mas não só. Por todo o mundo, como na Europa estão em crescimento as eco-aldeias, vilas e comunidades. O movimento Yamaguishi, com meia centena de comunidades, é um exemplo.
Em Portugal, algumas experiências, como Seara (Gondomar) ou Terramada (Castro Marim) cessaram, mas deixaram aprendizagem e memória. Entretanto, há diversas quintas e variados projectos em prol de uma vida mais equilibrada, saudável e gratificante, uma existência mais digna e humana. Em Tamera, mais de centena e meia de pessoas não só acreditam como vivenciam esta realidade, todos os dias.

* DREGGER, Leila Dregger - Tamera – um modelo para o futuro, Verlag Meiga, 2010.

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quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Condicionar o ar?


Mais importante do que o dinheiro, o amor, ou mesmo a água. O ar. Existe naturalmente, mas nós condicionamo-lo. O seu abuso agrava a poluição.

Texto e fotografia Dina Cristo

Não há nada de mais precioso. Venerado como um dos principais elementos da Vida, em sociedades antigas, onde os Silfos, elementais do Ar, eram respeitados, o ar é hoje desvalorizado. Além de respirarmos superficial, rapidamente e sem consciência, também já pouco exalamos ao ar livre e menos ainda ao ar puro. No entanto, é do ar que depende a nossa qualidade de vida. Literalmente. É dele que dependemos, desde que nascemos. Sem ele, nada do que consideramos mais importante resistiria. Sobre o ar deveria recair, então, a nossa maior e melhor atenção. É um dos nossos direitos mais básicos. Mas também um dos deveres primordiais, ao nível de um comportamento sustentável, de responsabilidade para com as gerações vindouras. Deixar-lhes, ao menos, ar puro e livre, para poderem não apenas sobreviver, mas também viver condignamente. Ao invés da preocupação com esta herança fundamental, nem sequer nos atendemos a nós próprios. Como tudo o que é realmente importante, é discreto, invisível e gratuito. Mas nós desbaratamo-lo. Depois de desequilibrarmos a Natureza, refugiamo-nos em autênticas redomas de vidro para não vermos o resultado das nossas acções. Fechamos janelas, acendemos a luz e, já quase automaticamente, ligamos o ar… condicionado. Condicionamo-lo à nossa comodidade. Esquecemos o resto: as causas e as consequências.
Os efeitos ambientais
Porque preferimos nós respirar ar condicionado? Fará melhor? Será melhor? Sentir-nos-emos uma espécie de Pavana, o antigo Senhor do Ar, que o regula à mercê dos seus desejos? Só que esse poder, ilegítimo e mal usado, virar-se-á contra o seu usuário. É o que está a acontecer. Num momento em que o país tem de economizar recursos, tanto económicos quanto energéticos e ambientais, usamos mal e/ou abusamos do ar que condicionamos. Deixamo-lo ligado horas a fio já sem dele necessitarmos, depois de ‘lá fora’ se ter atingido a temperatura que nós, ‘aqui dentro’, consideramos ideal. Numa altura em que a palavra de ordem é economizar, nós desperdiçamos. Sem o resolver (apenas mascaramos) agravamos o problema: consumimos mais energia. Para a repor entramos num ciclo vicioso: mais gastos, mais necessidade de recursos, mais depauperação, mais alterações climáticas, mais abuso… O que leva a mais necessidades artificiais e ao consumo de mais energia, para a qual se delapidará ainda mais património natural desgastando assim a natureza que, um dia, mais cedo ou mais tarde, manifestará o desequilíbrio criado. Outra consciência ambiental já comum é a necessidade de evitarmos os gases que destroem a camada de ozono, que nos protege dos raios ultravioletas. Pois bem, o ar condicionado é um dos principais responsáveis pela utilização desses gases compostos de síntese à base de cloro, bromo e flúor.
Os efeitos no Ser Humano e social
Além dos efeitos económicos e ambientais, há outros (mais) imediatos, visíveis e audíveis. A tosse, a irritação da garganta, olhos, nariz, as dores de cabeça, as alergias, as constipações. Enfim, cada um reage de acordo com sua parte mais sensível. É sabido que a falta, escassez ou deficiência na manutenção dos aparelhos de ar condicionado são campo para o desenvolvimento de fungos e bactérias, transmissão de infecções respiratórias, tal como para a
acidificação do sangue. A causa está na deficiente presença de oxigénio e na falta de oxigenação em proporções naturais. Tal resulta do desgaste do organismo devido ao ácido láctico que é descarregado na circulação sanguínea, por graça da decomposição da glucose que origina a produção de ácido pirúvico. A acidez no sangue por sua vez causará, entre outros efeitos, deficiência imunológica, aumento dos radicais livres e fungos, envelhecimento prematuro, problemas hormonais, cardiovasculares, de bexiga; pedra nos rins, diabetes, osteoporose, obesidade, fadiga crónica, rápida exaustão, tendências depressivas, digestão lenta, úlceras, gastrite; dores musculares, de cabeça e de dentes, inflamação da córnea, pálpebra e gengivas, pele seca e unhas e cabelos quebradiços.
Um dos problemas é a falta de alternativa. Para quem sofre os efeitos do ar artificial no organismo, sente uma opressão social, pois ele é hoje presença obrigatória em quase todos os estabelecimentos, públicos e privados, que nem as mercearias escapam. Trata-se de uma verdadeira questão de saúde pública. Enquanto em relação ao tabaco já há um aumento da consciência quanto aos malefícios, um retrocesso no que toca à imagem socialmente favorável de quem puxava pelo cigarro, uma onda de apoio crescente em termos legislativos e cada vez mais locais reservados a não fumadores, no que diz respeito ao ar condicionado tal não acontece. Ainda se está na maré de opinião pública crescente em que se usa sem conhecer as consequências. Por outro lado, enquanto nos elevadores é fácil para o consumidor verificar a manutenção feita, no caso dos aparelhos de ar condicionado não há como confirmar o estado dos filtros. A única coisa a que os utilizadores forçados têm acesso é, muitas vezes, ao aspecto pouco higiénico dos cabos e contentores. Algumas vezes nem sequer se limpa o espaço, no mais básico que a limpeza tem, mas há sempre um moderno aparelho de ar para se ligar. Não custa quase nada. Aparentemente e no curto prazo, apenas. Sacrifica-se o saber bem, a sensação de um desejo hedonisticamente cumprido, de parecer bem, ao fazer bem à saúde. Consideramos então muito “in” andar de mangas curtas em pleno Inverno e, no Verão, de mangas cumpridas. Rejeitamos o clima que a natureza tão graciosamente nos oferece, para desejarmos quase sempre o contrário. Vivemos, assim, numa insatisfação permanente, querendo quase sempre o contrário da temperatura que temos de forma natural. Mas haverá prazer maior que desfrutar o ar quente do Verão e, depois, o frio do Inverno, ou vice-versa? O quente e o frio é tão natural e importante como o dia e a noite, o homem e a mulher. Sem um deles, a vida seria absurda e impossível.
Neste momento, o ar condicionado corre o risco de se juntar a uma lista de dependências (sociais), como o tabaco ou o café. Primeiro o organismo rejeita e reage, depois habitua-se e a dependência instala-se. Os estragos virão mais tarde, até um dia a doença se manifestar.
A ilusão técnica
Tudo o que fazemos é uma expressão daquilo que somos. Ao condicionar o ar não estamos mais do que a auto-limitar a nossa essência vital. Prendemos o ar, como a água. A acção incauta e ambição humana parece tocar a consciência, levando o Ser Humano a necessitar de compensar com reservas para o futuro os recursos que, consumidos de forma frugal, seriam mais que suficientes no presente. A técnica, porém, dá-nos a ilusão de que podemos continuar a poluir o ar natural e que deste haverá sempre forma de o filtrar. A fantasia de viver quase permanentemente em ar artificial, ainda que uma vez por outra lá se tenha de enfrentar as quatro estações naquelas poucas vezes em que ainda saímos à rua e nos confrontamos com o sol, a chuva, a terra ou o ar. Às vezes, já sob a forma de ondas de calor, inundações, tremores de terra ou incêndios. Esquecendo os nossos gestos, limpamos daí as mãos, a nossa responsabilidade, individual e colectiva. A ideia de que podemos poluir à vontade, que depois haverá uma qualquer técnica que nos dará os elementos básicos à nossa sobrevivência, limpos e puros, pode ser muito cómoda mas é insustentável. Tudo aquilo que fizermos à Natureza e aos seus elementos, mais cedo ou mais tarde, ela nos devolverá. Em “feedback”. Aqui, agora, ou ali, depois. Mas inevitavelmente. Cada vez que optamos por ligar o ar condicionado estamos a agravar o problema das alterações climáticas. É como lançar ainda mais lenha para a fogueira. E o que se quer é apagá-la. A continuar assim, somos muito mais condicionados pelo ar do que o condicionamos, na verdade. Quem o vê, em janelas e prédios em toda a parte, parece que não tem concorrentes. Mas eles ainda existem e são mais eficazes, baratos e saudáveis. Tudo começa pela qualidade da construção dos prédios, o uso de persianas no Verão, e as velhinhas ventoinhas. Podemos ainda optar por uma via mais ecológica: a sombra de uma árvore, no calor, ou o uso de roupas mais quentes, durante o frio.
Um uso adequado, controlado da nova técnica pode ser, no entanto, legítimo na defesa de vidas humanas. Tratar-se-ia de um uso racional, pontual, em vez de um abuso emocional, quotidiano.

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