quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Infinita sabedoria

Num ano em que se comemoram 460 sobre o seu nascimento, revemos um dos livros de Giordano Bruno, “Acerca do infinito, do universo e dos mundos”. Em cinco diálogos, o autor expõe, no séc. XVI, como o universo está cheio de infinitos mundos invisíveis aos sentidos e pleno de vida.

Texto Dina Cristo

As pessoas estão mortas em vida, pois têm no corpo a cadeia que as acorrenta. Os sentidos atraiçoam: eles não vêem o infinito e enganam nos juízos que fazem, como no caso do movimento da Terra, que nos é insensível. Para além do limite imaginário do céu, existem corpos mundanos, astros, Terras e Sóis ilimitados: «Existem terras infinitas, sóis infinitos, e éter infinito»
[1].
Há, pois, que ver com os olhos da razão e ser douto por ciência e não por fé: julgar correctamente em vez de acreditar. Teólogos e filósofos sabem «que a fé se requer para a educação dos povos rudes, que devem ser governados, e demonstração se requer para os iluminados, que se sabem governar a si próprios e aos outros»
[2].
Plenitude celestial
Omitido por Galileu, é contra Aristóteles, quando este defendeu que fora do céu estava o nada. Se existe o vácuo, argumentou, então deve poder conter mundos, se não existe é porque é o pleno. Para o filósofo dominicano todo o espaço infinito é semelhante a este que vemos. Se este mundo é conveniente, pleno, bom e necessário, os outros também o serão.
No Séc.XVI Giordano Bruno defendeu que o vazio não existe - «A experiência é contrária ao vácuo e não ao pleno»
[3] - há vida em todos os planetas e os outros mundos são povoados como a Terra. O espaço infinito «que se difunde por tudo, penetra em tudo, e é continente, contíguo e contínuo a tudo, não deixando vácuo algum»[4] é o lugar onde tudo se move e desliza. No espaço imenso e amplo não há diferença entre direita e esquerda, em cima e em baixo, adiante e atrás. O infinito não tem centro nem margens. Há um só céu.
(In)finitos mundos
O corpo terrestre não é mais do que um ponto entre mundos inumeráveis. O universo é infinito, mas é finito cada um dos inumeráveis mundos que contém: «Cada um dos infinitos mundos é finito»
[5]. Se Deus é infinito cria mundos infinitamente finitos; se a potência é infinita o acto também o é. Há uma eficiente alma motriz, impulsionadora dos globos, ser necessário e imutável, que compreende o infinito, o número em potência. A causa operadora comporta o efeito.
O Divino, poder e vontade, está inteiramente em todo o mundo e em cada uma das suas partes. O amplíssimo infinito está no indivíduo simplicíssimo e este está nele, pelo modo como o infinito está em tudo e tudo está nele. O todo está em todas as partes e todas as partes estão no todo. O universo, além de conter o mundo, é também o espaço fora dele. O vácuo é aquilo que pode conter qualquer coisa, como os átomos, o princípio infinito e imóvel, é invulnerável e o infinito não pode ser terminado, enquanto os corpos são vulneráveis e dissolúveis.
Esferas invisíveis
O infinito é uma região etérea imensa, onde existem inumeráveis corpos, como a Terra, a Lua, o Sol. Os mundos são as esferas, corpos incontáveis colocados no éter, o ar, espírito que, além de estar à volta dos corpos, penetra neles. No infinito não há qualidade de grave ou leve. Ele não é móvel, nem em potência nem em acto, mas completamente imóvel, inalterável e incorruptível. É a infinita duração, a eternidade.
Para Giordano Bruno, é necessário que existam mais Sóis inumeráveis «sendo muitos deles visíveis sob a espécie de pequenos corpos»
[6]. Não lhe espantaria, pois, que os astros que estão para além de Saturno (e que podem receber tanto calor quanto lhes baste) se são imóveis verdadeiramente como parecem, venham a ser os inumeráveis Sóis em torno dos quais giram as terras próximas que não são perceptíveis por nós. Para os que vivem no Sol não é este que faz o dia, mas outra estrela circundante: «aos que estão nos astros luminosos, ou iluminados, não é sensível a luz do seu astro, mas a dos circundantes»[7].
Na verdade, são infinitas terras – como a Lua, Mercúrio ou Vénus – que giram à volta de incontáveis sóis: «Nem é absurdo que existam ainda outras terras que se movam em torno deste sol (…) Além dos visíveis, podem ainda existir inumeráveis lumes aquosos (isto é, terras em que a água toma parte) que giram em torno do sol»
[8].
Movimento renovador
Embora limitado, há movimento no finito. Todos os astros se movem, nas suas regiões e distâncias no campo etéreo, pelo princípio interno que é a sua alma. Esta essência divina move tudo e dá a todas as coisas a possibilidade de se moverem – ela é a Vida das vidas. Assim, há dois princípios activos do movimento: o finito, que se move no tempo, segundo a razão do sujeito finito, e o infinito, que se move no instante, segundo a razão do sujeito infinito. Neste caso, como acontece com a Terra, partir e chegar são simultâneos, pelo que se mantém estável: o mover-se é, ao mesmo, tempo, não se mover
[9].
Os astros, que são inúmeros bem como os mundos nele contidos e diferentes na matéria, assemelham-se no movimento para o seu espaço. É a gravidade, o impulso das partes que estão longe para o seu próprio local. Cada parte reflua e volta para o grande corpo, o todo. Qualquer dos corpos do universo é transmutável, difundindo parte de si e sempre em si recolhendo. Ao nível atómico, por exemplo, há infinitas transformações, quer de formas quer de lugares, numa renovação em que «(…) continuamente flúem em nós novos átomos e partem de nós os recolhidos de outras vezes»
[10]. Nesta mudança, o crescimento implica um maior influxo, o envelhecimento um maior defluxo (obedecendo à debilitação constante) e o amadurecimento um fluxo equivalente.
Acção centrípeta

Cada astro, como cada alma, tem o seu centro. O todo, como cada parte, tem o seu meio (no caso do Ser Humano é o coração), para o qual tende naturalmente – o extrínseco da circunferência é a parte superior e o intrínseco a inferior: «(…) nem um astro no seu todo, nem parte dele, estariam aptos a moverem-se para o meio dum outro»
[11]. Uma Terra, animal móvel, não se move para outra, próxima ou afastada que esteja. O desejo de conservar-se é o seu principal princípio motor.
Os astros, como o globo terrestre, movem-se no imenso espaço etéreo, em torno do próprio centro e de qualquer outro meio, por princípio intrínseco. Os cometas são espécies de astros que se aproximam e afastam da Terra, por atracção e repulsão. Tudo o que se move espontaneamente tem translação circular, ou em torno do seu meio ou em volta de um alheio. Durante um longo curso de séculos, não há, contudo, parte central que se não torne circunferencial e vice-versa; no decurso de enormes intervalos de idades, os mares transformaram-se em continentes e estes em oceanos. Na verdade, só no infinito ilimitado não existe movimento ou diferença entre o tempo e o lugar.

Corpos luminosos e moderadores

Em cada membro da Terra existem, de forma clara ou latente, pelo menos três dos quatro principais elementos: terra, água, ar e fogo. Tanto o Sol como a Terra são compostos dos mesmos princípios, embora predomine um. Se na sua composição predomina o fogo chama-se Sol, se é a água chama-se Terra.
Para Giordano Bruno, as terras infinitas são móveis e não cintilam enquanto os fogos são fixos e brilham. Há, pois, dois tipos de corpos luminosos: os aquosos ou cristalinos, constituídos por águas iluminadas, e os ígneos, constituídos por chamas luminosas, sendo os seus mundos igualmente habitados.
O universo é ainda constituído por corpos contrários, como o quente e o frio, que, difundidos no campo etéreo, se equilibram; o fogo (quente e seco) e a água (fria e húmida) harmonizam-se por conflito. «O frio e o húmido aniquilar-se-iam com o quente e o seco; ao passo que, dispostos a certa e conveniente distância, um vive e vegeta por influência do outro»
[12].
Todas as partes que a Terra possui não são luminosas por si próprias, mas tem partes de fogo. O Sol, que é por si próprio quente e luminoso, só é arrefecido pelos corpos circundantes, mas tem em si partes de água. «E como neste corpo frigidíssimo (…) existem animais que vivem pelo calor e luz do Sol, assim naquele quentíssimo e luminoso existem aqueles que vegetam pela refrigeração dos corpos frios circundantes»
[13].
Terra d´água
A água não está apenas e principalmente à volta da Terra mas no seu próprio seio. O meio do planeta é mais lugar de água do que de terra. Nós habitamos «(…) no côncavo e escuro da terra, e temos para os animais, que existem sobre a terra, a mesma relação que os peixes têm para nós (…) também nós vivemos num ar mais carregado do que aqueles que estão numa região mais pura e tranquila»
[14].
É a água que une e dá coerência às partes, tal como a substância espiritual dá coerência à material: «em todo o corpo sólido que tem partes coerentes existe água»
[15]. As coisas espessas, além de possuírem maior participação de água, são a água em substância, como é o caso dos metais liquescíveis. A firmeza da terra deve-se também à água que está dentro dela como o sangue (e humores) no Ser Humano.

[1] BRUNO, Giordano – Acerca do infinito, do universo e dos mundos, 4ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, pág. 63 [2] Idem, pág. 43 [3] Idem, pág.32 [4] Idem, pág. 174 [5] Idem, pág.139 [6] Idem, pág. 92 [7] Idem, pág. 96 [8] Idem, pág. 90 [9] Idem, pág. 47 [10] Idem, pág. 67 [11] Idem, pág.129 [12] Idem, ibidem [13] Idem, pág.96 [14] Idem, pág.106 [15] Idem, pág.111

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quarta-feira, 5 de março de 2008

Terra fria


Próximo do Dia Internacional da Mulher, este Sábado, evocamo-la através de um filme, que estreou em Portugal há dois anos: "North Country” - um ponto de vista feminino da realizadora Niki Caro sobre o assédio sexual.

Texto Dina Cristo

A película conta-nos a história de uma adolescente que depois de violada pelo professor aceita ter o filho. Mais tarde, decide recomeçar a vida, longe do companheiro que a violentava, junto com a sua filha. Pega nas duas crianças e ruma à casa dos pais, no Minnesota. O objectivo é sobreviver. Por isso, vai trabalhar para uma empresa que explora minas de ferro. O trabalho é pesado, mas bem pago, o que permite aos pequenos ensaiarem as alegrias de uma nova vida.
Contudo, tal conforto proporcionado aos filhos resulta num imenso sacrifício para si própria. Além de ter encarado a crueldade dos pais dos seus filhos, a difamação social e a rejeição familiar, enfrenta, naquele trabalho tradicionalmente ocupado por homens, uma humilhação permanente, uma violência - verbal, psíquica, física e mesmo sexual. Enquanto as portas de apoio se parecem fechar cada vez mais, o sofrimento só a fortalece: aumenta a consciência do seu direito a ser mulher e respeitada na sua dignidade, a poder viver e trabalhar sem ser agredida.
Perante a precipitação das acusações sociais de que é alvo, da frieza da família, a principal personagem de "Terra fria" aumenta o sua determinação interior, e com clareza, a força da sua razão. A perversão laboral permitida pela razão da força do dinheiro e do estatuto social sedimenta-se… até à resolução de colocar a empresa em tribunal.
Força ou razão
A princípio, o medo de perder o emprego e a necessidade de garantir o sustento familiar, levam as mulheres a consentirem o constante assédio sexual e humilhação. Desprotegidas pelos homens e pela sociedade, contam apenas com o seu coração que, apesar de tanto abuso e obscenidade, permanece puro e cheio de amor pelas crianças que deram ao mundo. Ainda que lhes atirem pedras, que as insultem e difamem, elas persistem em sacrificar-se. A sua coragem supera qualquer razão que a força possa parecer ter.
Bastou um coração de mãe a desenterrar uma alma de pai (lembrando-o de que a filha não cometeu qualquer crime, apenas deu à luz um bebé) para que, como num castelo de cartas, as pessoas se tocassem quanto à verdade da vitimação em vez de cristalizarem no estereótipo falso. Bastou a sua amiga quase moribunda expressar que estava a favor de Josey (a mulher que levou, através de um advogado, os homens a tribunal, defendidos por uma advogada) para que a minoria silenciosa começasse a manifestar-se. Muito mais do que três (mulheres), puderam assim dar início ao julgamento de classe contra uma empresa por assédio sexual.
O filme, produzido pela Participant, com música de Bob Dylan, foi inspirado em factos reais, relatados no livro “Class Action: The Landmark Case That Changed Sexual Harassment Law”, escrito por Clara Bingham e Laura Leedy Gansler sobre o caso de Eveleth Mines. Eis um produto da sétima arte que nos fala da incompreensão, da ligeireza da crítica social, dos maus tratos, da desumanidade, mas também de como apesar de tudo se preserva a sensibilidade, a honradez, o amor, a esperança, a força de vontade, a aspiração de verdade e de como partindo de um sentimento de impotência, inicial, se pode, afinal, mudar o mundo.

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quarta-feira, 11 de março de 2009

Filmes

Brindamos a chegada da nossa segunda Primavera com algumas das mais belas obras da sétima arte. À memória de Fernando J. Pinto Basto.



Selecção e fotografia Dina Cristo


FORMAN, Milos - Hair (1979):


EDEL, Uli - Avalon (2001):



REDFORD, Robert - Quiz show (1994):
/p

EASTWOOD, Clint - Outra vida (2010):

MASTROIANNI, Armand - Profecia celestina (2006):
CHAPLIN, Charles - Tempos modernos (1936): ALLEN, Woody - Os dias da rádio (1987): QUEIROGA, Perdigão - Fado, história de uma cantadeira (1947): SCHNITZLER, Gregor - A nuvem (2006): CARO, Niki - Terra fria (2005): GIBSON, Brian - What`s love got to do with it (1993): STONE, Oliver - Alexandre, o grande (2004): CAMERON, James - Avatar (2009): AMENÁBAR, Alejandro - Ágora (2009): BROOKS, James L. - Edição especial (1987): SHYAMALAN, Night M.- Sexto sentido (1999): EMMERICH, Roland - O dia depois de amanhã (2004): ANNAUD, Jean-Jacques - Sete anos no Tibete (1997): CHAPMAN, Brenda; HICKNER, Steve - Príncipe do Egipto (1998): GAGHAN, Stephen - Syriana (2005): VASCONCELOS, António-Pedro - Jaime (1999): STONE, Oliver - J.F.K. (1991): BENIGNI, Roberto - A vida é bela (1997): COSTNER, Kevin - O mensageiro (1997): EPHRON, Nora - Sintonia de amor (1993): SPIELBERG, Steven - A lista de Schindler (1993): Jackson, Peter - O Senhor dos Anéis (2001-2003): LOPES, Luís Vidal - Mensagem (1988): MONSON, Shaun - Terráqueos (2005): ZWANIKKEN, Gertjan & SOETERS, Karen - Uma verdade mais que inconveniente (2008): GOORJIAN, Michael - You can heal your life (2007): MOORE, Michael - Sicko (2007): ROCHA, Luís Filipe - Adeus pai (1996): BERTRAND, Yann Arthus - O mundo é a nossa casa (2009): BOAVIDA, Cristina; ESPÍRITO SANTO, Ricardo - Amo-te Teresa (2000): GIONO, Jean - O homem que plantava árvores: STREISAND, Barbra - As duas faces do espelho (1996): TORNATORE, Giuseppe - Cinema paraíso (1989): OLIVEIRA, Manuel - Vale Abraão (1993): CAMERON, James - Titanic (1997): BARTLETT, Hall - Fernão Capelo Gaivota (1973): GEORGE, Terry - Hotel Ruanda (2004): EPHRON, Nora - Você tem uma mensagem (1998): KIM, Ki-duk Kim - Primavera, Verão, Outono, Inverno… e Primavera (2003): MEDEIROS, Maria - Capitães de Abril (2000): PARKER, Alan - Culpado ou inocente (2003): GIBSON, Mel - A paixão de Cristo (2004): VIEIRA, Leonel - Zona J (1998): ZUCKER, Jerry - Ghost, o espírito do amor (1990):MEIRELLES, Fernando - Fiel jardinero (2005): ZEMECKIS, Robert - Contacto (1997): EASTWOOD, Clint - As pontes de Madison County (1995): BAY, Michael - A ilha (2005):

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domingo, 23 de setembro de 2012

Rádio Clube de Moçambique IV


Revista "Rádio Moçambique", nº 332, Março de 1964, pág.10


Nesta quarta parte falamos da rádio como instrumento de propaganda.


Texto Dina Cristo


A rádio é considerada um meio ubíquo, indiscriminado, capaz de ultrapassar as fronteiras, barreiras ou distâncias e nem mesmo o muro de Berlim é capaz de a deter: «Ligeira como o vento, ágil como o pensamento, vence as distâncias, abre os ferrolhos mais possantes, transpõe os muros mais impenetráveis, instala-se nos lares e nos corações como uma presença benigna, fiel e amiga. (….) A Rádio vai a toda a parte; visita todos os lares e tanto se faz ouvir na humilde palhota escondida na selva, como no luxuoso palacete dos bairros elegantes».



Sobretudo em África, é sentido a sua função afectiva, como um meio que proporciona companhia e amizade: «Aqueles que vivem nas lonjuras da terra africana são os que melhor compreendem e estimam o receptor radiofónico, fabulosa criação do espírito humano que se transporta de um lado para outro, na camioneta, na mão, a tiracolo. À noite, quando o silêncio torna as trevas ainda mais densas e aviva a saudade, é ao aparelho de rádio que se recorre, na certeza de que nele encontramos um amigo sempre pronto a consolar-nos. É então ao Rádio Clube de Moçambique que, normalmente se recorre para preencher essas horas nostálgicas. A um simples toque dos nossos dedos, que actuam como varinhas de condão, a caixa electrónica anima-se, vibra, ganha alma e comunica connosco para vencer a desoladora solidão e dominar a melancolia».



A sua capacidade de estreitamento de laços, de aproximação e de interligação entre pessoas, faz-se sentir em Ultramar, fortalecendo a unidade nacional para além da dispersão territorial, sobretudo num momento de guerra fria através das ondas sonoras: «(…) É sempre consolador ouvir a voz de Portugal aos portugueses espalhados pelo mundo, mas agora, é necessário também que essa voz seja eco que nunca se apague nos corações das gentes e ao mesmo tempo tenha neles ressonâncias que não diminuam em comparação com outros ecos que também lhe chegam».



A rádio desenvolve-se enquanto meio de formar a vontade, de orientar o espírito, de conduzir e controlar a opinião pública, de convencer alguém a acreditar em algo ou a agir de determinado modo a que se chamará educação, nos casos positivos, ou propaganda, nos casos negativos, segundo Eduardo Rebelo, autor da crítica radiofónica na revista “Rádio Moçambique”. A força da rádio, o seu poder é reconhecido: «A Rádio (…) influencia, sugestiona e, desta forma, conduz (…)».



Enquanto meio acessível, imediato, úbíquo e intencional, é explorada em prol da colonização portuguesa e o RCM ao serviço do interesse nacional, moral e material: «(…) colocando-se num dos postos da vanguarda da radiodifusão em África, o Rádio Clube teve mais o mérito de servir triunfantemente a propaganda portuguesa moçambicana nos territórios do continente ao sul da linha equatorial. E como já uma vez aqui dissemos, desta obra que parece entrar por um ouvido e sair pelo outro, alguma coisa ficou: “Um eco dos apelos nos corações, um conhecimento que se aprendeu, um gosto que se ilustrou, um prazer de espírito que se firmou, um reavivar da consciência de português”. Uma contribuição positiva para a grande obra de portuguesismo e de universalidade que nesta Província nos compete realizar: a da civilização de Moçambique».



A rádio assume-se como um dos meios mais eficazes de divulgação rápida, de propagação directa das mensagens governativas. Os discursos oficiais, nomeadamente aquando de visitas ou eleições, são oportunamente difundidos através da informação que se incrementa.



Se em 1958 já há consciência da especificidade da natureza do meio com a sua linguagem peculiar - simples, natural e compreensível – nos inícios dos anos 60, a rádio inova em termos informativos, aproximando-se da vida de todos os dias: ela deixa de «(…) se confinar aos estúdios para ir às casas em que se vive e aos lugares em que se trabalha – residências, escritórios, fábricas, oficinas, etc. – e descer à rua e em todos os lugares, estuante de energia vital, acompanhar a vida, transmitindo as suas manifestações».



Sobretudo no período marcelista, a função informativa e a palavra adquirem proeminência em detrimento da função recreativa e da música (apesar desta agradar mais aos adolescentes, em Lisboa). A primazia da voz dá lugar ao que é dito e ao modo como é feito: os ouvintes «(…) preferem que lhes digam coisas que tenham interesse mesmo numa voz descolorida, a banalidades numa voz maravilhosa».



A rádio ganha vitalidade, apura o seu valor social, desempenha o seu papel no campo cívico, concentra-se no interesse colectivo e torna-se uma “porta-voz” da sociedade, assumindo a responsabilidade moral e o primado da consciência, dos valores, da opinião e da cultura: «A rádio é um instrumento poderoso na educação e formação da vontade».



Assim, ela vai para a rua, testemunha e documenta as manifestações de vida, fora dos estúdios, seja nos confins da terra, no mar ou no ar, como a transmissão da “Hora das Vedetas” feita a bordo dum Boeing 737 . «Ao longo do ano, funcionários dos Serviços Redactoriais e do quadro de locutores efectuaram mais de 3500 apontamentos de reportagem, entrevistas, etc., em serviço fora da sede».



No início dos anos 70, entre os vários factores que concorrem para que a informação radiofónica se expanda está a colaboração dos Emissores Regionais, com o envio de notícias, crónicas e reportagens. Em 1971, quando existem nove noticiários diários, a pedido da EN, é criado um serviço noticioso diário para a Metrópole. Em 1972 realizam-se três grandes reportagens fora de Moçambique: a visita do Presidente do Conselho e do Presidente da República de Portugal ao Brasil e os Jogos Olímpicos de Munique; em Moçambique, predomina a cobertura das várias visitas oficiais, como as do Governador-Geral, Pimentel dos Santos, aos distritos.



A “Voz de Moçambique” também transmite informação oficial, nomeadamente das visitas, como a do Presidente da República em Julho de 1964, objecto de 31 reportagens (19 directas – as relativas às sessões solenes - e 12 gravadas) , e «(..) está em todas as casas. Ensina e orienta em massa, todos os dias, em toda a parte, saltando fronteiras, fazendo progredir, interessando, ensinando, fazendo-se amar, conquistando corações, como é próprio deste povo amorável e compreensivo que é o povo Português. E, enquanto os ouvintes da V.M. tiverem oportunidade de escutar esta Voz, não escutarão outras… E isto porque é o Amor e não o ódio que permanece e aquece imperecivelmente o coração dos homens».



Em relação à política do espírito, que ao longo dos anos estudados se vai intensificando, alia a informação à educação. A difusão das ideias, cuja necessidade vai crescendo à medida que os ataques e contestações à política portuguesa vão aumentando, era levada a cabo por programas como a rádio-escolar, inaugurada na Metrópole a 25 de Novembro de 1960 e em Moçambique em Fevereiro de 1972, um programa para professores e para alunos, produzido pela Secretaria Provincial de Educação, mais concretamente pelo Centro de Produção Radiofónica.



A cultura e a instrução, mas também a recreação, a diversão e a distração são estratégicos na política propagandística de que o programa dirigido às Forças Armadas é exemplar. No final de 1968, mais de 60 elementos do RCM partem em direcção à Beira e a Nampula, para realizar sete espectáculos para os soldados, militares doentes e a população. A caravana conta com a Orquestra Típica de Música Portuguesa, o coro feminino e os cantores Natércia Barreto e Carlos Guilherme, entre outros - uma embaixada chefiada por Eduardo Parreira, que levou confiança e conforto moral «(…) junto daqueles homens sobre quem pesa a responsabilidade de defender a terra portuguesa ameaçada pelo bandoleirismo partido do exterior e que, heroicamente, asseguram a continuidade de Portugal na rota de Nação livre e independente».



Num contexto internacional de luta através das ondas radiofónicas entre o Ocidente e o Oriente, com uma rede radiofónica de centenas de emissores , depois da vaga de independências, designadamente a do Congo, em 1960, e da guerra nos territórios ultramarinos, desde o estalar do conflito, em Angola, em 1961, a rádio é, cada vez mais, usada como um verdadeiro soldado, em que a arma é o microfone e as balas as palavras.



A rádio transforma-se num elemento bélico, de defesa contra os ataques da propaganda comunista, como uma arma poderosa, sobretudo de propaganda, mais efectiva, por um lado, e menos perigosa, por outro. A radiodifusão torna-se, assim, um verdadeiro instrumento de contra-ataque , daí, também, o surgimento das emissões nocturnas e ininterruptas como medida de proteção contra investidas exteriores.



A necessidade de reforçar a disseminação da causa nacional cresce, ao mesmo tempo que a ideia de missão e de serviço do RCM, enquanto voz de Portugal em África, se enfatiza. Em 1970, quando o «programa de mentalização» “Hora da Verdade” é distribuído por todos os dialectos, cobrindo toda a província e se recebem lições de português em língua nativa, «(…) zonas imensas do Norte moçambicano estão inteiramente abrangidas nas áreas de influência de emissoras estrangeiras – nomeadamente as de Dar-es-Salam, Pequim, Moscovo e Cairo. Lourenço Marques não se consegue fazer ouvir (…)» , daí a urgência de se criarem postos regionais, estando nesta altura a ser montados mais sete, além dos quatro existentes.



A irradiação da mensagem nacionalista tem a atenção, ajuda e intercâmbio da EN. A Emissora oficial em Lisboa é a fonte de programas que são retransmitidos - nomeadamente os relatos de futebol -, propositados - como o “Jornal da Metrópole”, produzido pelos Serviços Ultramarinos - e para a qual são enviados programas como o “Minuto da Amizade” ou “Presença de Moçambique”, “um documentário radiofónico”, transmitido desde Maio de 1963.



Já em 1958, aquando da comemoração das bodas de prata, o delegado do RCM em Lisboa, agradece as relações amistosas e a solidariedade entre a Emissora Nacional e o Rádio Clube de Moçambique, que vêm, pelo menos, desde 1942: «Nunca será demais lembrar a obsequiosa, correcta e eficiente colaboração dos Serviços Técnicos desta emissora à sua congénere de Moçambique; nunca serão esquecidos, de igual modo, o empenho, o sentido da oportunidade e a diligência indesmentida com que os Serviços de Intercâmbio permitem manter o elevado nível artístico e cultural da programação do Rádio Clube de Moçambique; nunca nós teremos a expressão exacta para exaltar e agradecer a compreensão e o carinho com que todos os departamentos da Emissora Nacional acolhem e satisfazem os desejos da estação moçambicana para bem desempenhar a missão que lhe compete do vasto plano dos interesses do País».



Entre os principais argumentos usados durante a propagação dos valores nacionais enquanto nação multirracial, pluricultural e transcontinental, estão a harmonização, a amizade, o entendimento, a compreensão, o progresso e a pacificação: «A paz reina entre as populações autóctones e a civilização progride, onde não há muito lutas entre as tribos causavam o desassossego, mortes, violências e latrocínios».



Portugal presta não só protecção, entendimento, liberdade e humanidade, como refere Adriano Vidal, numa das suas “Notas do dia” do “Jornal da Noite”, como também o bem-estar às populações, a fraternidade racial, a sociedade multirracial (contra o terrorismo alimentado pelo comunismo) ou a transcontinentalidade: «Portugal é sempre Portugal. Não importa que o banhe o Atlântico, o Índico ou o Pacífico. Não importa que esteja situado nos Trópicos ou no Equador» . Neste contexto, a deserção é apontada como uma monstruosa traição, uma «(…) podridão moral e cívica».

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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Saudades de Portugal




No dia da reeleição de Barack Obama, véspera dos 135 anos do nascimento de Teixeira de Pascoaes, relembramos, através da primeira obra de prosa do escritor português, o potencial da natureza saudosista da alma nacional.



Texto Dina Cristo



A pátria é um ser vivo, espiritual, superior às vidas individuais que o constituem e dependente, no seu progresso e liberdade, do sacrifício dos indivíduos que, para se guiarem no seu trabalho, amor e luta, devem conhecer a alma portuguesa, plena de lembrança e esperança.



É o sacrifício, o serviço do inferior ao superior, que permite a harmonia universal. No ser humano rudimentar ele manifesta-se através da vivência da vida da família, no ser mais elevado, da pátria e no ser sublime da Humanidade e, depois, do próprio Universo. Contudo, esta lei suprema deve ser cultivada sem destruir os interesses individuais, familiares e municipais.



Para Teixeira de Pascoaes, o indivíduo deve, em primeiro lugar, amar-se a si próprio, a sua alegria e beleza, cuidando da sua saúde. «Devemos, antes de tudo, amar a nossa pessoa individual, vendo já nela a sua descendência. O verdadeiro próximo somos nós. O outro próximo é uma ilusão, origem piedosa de muitos males»(1).



A recordação



Para além da paisagem (a terra) e da herança (o sangue), na origem primitiva da alma pátria esteve a fusão de dois ramos distintos: o ariano - do qual procedeu a civilização greco-romana, o Naturalismo, o Paganismo, o Panteismo, a Forma, a Sensualidade, o amor carnal, que mantém a vida - e o semita, do qual adveio a civilização judaica, a Bíblia, o Espiritualismo, o Cristianismo, o amor ideal, que purifica a vida.



Gregos, romanos, celtas, godos, por um lado, e judeus, árabes e fenícios, por outro, misturaram-se, casaram-se a tal ponto que a sua dualidade e contraste se uniu, dando origem à raça lusíada, com qualidades físicas, morais e electivas próprias de um povo, bem como a promessa de uma nova luz original, de que resultou o sentimento saudoso.



A saudade - memória amargurada e dolorosa do passado, de âmbito espiritual, e esperança alegre, gostosa em relação ao futuro, de âmbito material, o parentesco íntimo com as coisas - manifesta-se sobretudo ao nível da linguagem popular, de extrema sensibilidade ao Mistério, das palavras intraduzíveis, que emanam a essência espiritual de tal sentimento, das lendas, da arte como da religião.



Mas a área em que melhor se revela o misticismo e a sensibilidade panteísta da alma portuguesa é na literatura, na expressão vivente dos escritores portugueses, não apenas forma mas também essência, e sobretudo na poesia, no seu lirismo elegíaco, no amor saudoso e platónico, no sentido etérico, puro e imaterial.



A esta superioridade poética corresponde uma inferioridade filosófica, pois a personalidade portuguesa, mais sentimental, espontânea e emotiva, alumia mais do que vê, vive mais do que interpreta. Tal característica conduz à dispersão do ideal colectivo, que assim é ignorado e incompreendido, e, incapaz de construir novas verdades, leva Portugal a transviar-se, a hesitar e a não progredir.



Para avançar, a pátria necessita do sacrifício dos portugueses, guiados no seu amor, trabalho e luta pelo conhecimento da essência da alma pátria, a saudade, e da sua aspiração, a Renascença. «Desejaríamos tornar sentimental a VERDADE PORTUGUESA demonstrada neste livro, para que ela desse nova energia aos portugueses»(2), declara, no final da obra o seu autor.



(De)feitos



Do carácter saudoso, o desenho íntimo, o ser, resultam as qualidades, exteriorização em acção, o fazer, da alma nacional. Em primeiro lugar o sentimento de independência e de liberdade, de que deriva o génio aventureiro (que leva a arriscar a vida individual por um fim de utilidade colectiva), o poder de iniciativa, a faculdade inventiva.



Este espírito de originalidade, sob a dor (da derrota), como no sebastianismo, pode transformar-se na segunda derivação, o espírito messiânico, que é a espiritualização da aventura, a redenção e a sua missão. As três qualidades existem nas artes e nas letras, ao contrário dos defeitos, que vivem nos portugueses, assim que o carácter adoece, se dilui e decai.



«Que tragédia, a terrível ausência da nossa alma! O sonâmbulo automatismo em que vagueia a nossa Pátria sem destino, tão aleijada e apagada de feições que é difícil reconhecê-la! Será ela? Não será? O incolor, o insípido, o inodoro esfumam, em nódoa pálida e fria, seu vulto mortuário, errando ao sabor daqueles que exploram a sua morte…»(3).



Trata-se da vil tristeza que acompanha a falta de persistência, quando o espírito de aventura, impulsivo, não tem continuidade e é, muitas vezes, abortado. O lado negativo do pioneirismo surge, então, reforçado, degenerado e viciado, enquanto espírito de imitação, de vaidade susceptivel e de intolerância.



«É outro defeito muito vulgar num Povo que foi grande e decaiu. Inferior e pobre, considera-se ainda possuidor dos bens arruinados. Continua a viver, em sonho, o poderio perdido. Mas, como toda a vida fantástica pressente o próprio nada que a forma, torna-se, por isso mesmo, de uma susceptibilidade infinita, sangrando dolorosamente, ao contacto de qualquer coisa de real que, junto dela, se ponha em contraste revelador da sua ilusória aparência»(4).



A esperança



A alma pátria é a soma electiva dos indivíduos que trabalham aspirando a um fim comum. No caso do génio português, o sonho secular e profundo, a mais íntima e eterna aspiração do ser humano, não é individual mas colectiva, dinâmica e popular, instintivamente sentida pelos poetas e pelo povo, ao qual deve competir «(…) convertê-la em concreta realidade social ou nova Civilização»(5).



Trata-se da Renascença, a futura civilização de harmonia - entre Paganismo e Cristianismo, Lembrança e Esperança, Tradição e Revolução, Herança e Personalidade, Espírito e Matéria. Uma aspiração presente no idealismo religioso, popular e anti-intelectual, de transmutar a natureza inicial, material, imperfeita e demoníaca em espiritual, perfeita e divina – a obediência do condicional ao absoluto, a vida e a paz do céu.



A este idealismo saudosista se junta o culto da saudade (o saudosismo) e o próprio sebastianismo, quando a grandeza de Portugal morreu materialmente para renascer espiritualmente. Assim, além do mundo realista, com a presença do objecto, e do romântico, com a sua indeterminação, há um outro mundo, expressão de uma saudade, com ausência do objecto sobre o qual incide.



Eis a verdade portuguesa para a Renascença pátria, uma organização de ideias espalhadas através de “A Águia”, escrita com sensibilidade poética, segundo o próprio Teixeira de Pascoaes - um visionário e ouvinte, de coração aberto, segundo Miguel Esteves Cardoso – para o qual os portugueses estão destinados, por um lado, ao sacrifício, à lembrança e à determinação, por outro à redenção, à esperança e à libertação.



Foi objectivo do autor elevar os portugueses ao estado de alma heroica, de sacrifício pelo país. «Há momentos em que o sentimento de obediência à Lei suprema desfalece, pondo em perigo a independência de uma Raça, a qual se firma, a todo o instante, no esforço comum dos indivíduos que a compõem (…) É preciso, portanto, fortalecer e animar a alma dos portugueses, para que a Pátria, que deles depende, ganhe novas energias e virtudes»(6).




A pátria é constituída por uma raça que se organizou e se tornou independente politicamente. Por isso, querer destrui-la, afirma, Pascoaes, é um absurdo. «O Cancioneiro e a obra camoniana constituem os dois fundamentos indestrutíveis da nossa Raça. Logo que a Mocidade os compreenda, subordinando-lhes o seu espírito, e obrando a profunda reforma política, religiosa, económica e literária de que a Pátria necessita para se erguer, definida e viva, da nódoa estrangeirada em que a deliram e apagaram, então, sim, voltaremos, de novo, a ser Alguém…»(7).

(1) PASCOAES, Teixeira de – Arte de ser português, Assírio & Alvim, 3ª ed. 1998, pág.35. (2) Idem, pág.124. (3) Idem, pág.100 (4) Idem, pág.101 (5) Idem, pág.113. (6) Idem, pág. 29. (7) Idem, pág.71.

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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Alegria franciscana


                          
Antes do Dia de S. Francisco, e no ano em que se assinalam 785 sobre o desaparecimento físico do homem que pregou a paz e viveu (n)a pobreza, lembramos, dos sonetos sobre a sua vida, um excerto gentilmente cedido pelo Frei Morgado - um dos 127 franciscanos actualmente existentes em Portugal.

Fotografia Dina Cristo

 


Francisco vai de jornada

com seu irmão preferido

meu caro irmão diz dorido

pela sua caminhada



Se na vida atribulada

alguém de nós fosse tido

como exemplo engrandecido

de virtude muito amada



Se soubessemos fazer

altos milagres e ter

a minha sabedoria



Seguir os astros de perto

não estava nisso por certo

a verdadeira alegria



Mais um pouco adiante

ei-lo de novo a dizer

pudéssemos nós saber

meu irmãozinho constante



O mistério cativante

que reside em cada ser

ramo de árvore a crescer

veio de água murmurante



Soubesse a gente pregar

de maneira a conquistar

para a divina harmonia



Os ímpios que a terra tem

não estava nisso também

a verdadeira alegria!



Mas então onde encontrar

a verdadeira alegria

pergunta o irmão que o ouvia

como a noite ouve o luar



Meu irmão vamos chegar

por noite chuvosa e fria

ao convento que anuncia

aos pobrezinhos um lar



Vamos de fome trazidos

mas se fôssemos comidos

lançados à ventania



Sem uma côdea de pão

era isso meu irmão

a verdadeira alegria



Mas se de nova chamada

o porteiro enraivecido

nos tratasse com alarido

como a bandidos de estrada



E sobre nós dois qual rajada

de vento enfurecido

desenrolasse perdido

pragas, ruína de enfiada



E nós meu irmão por amor

do que sofreu o Senhor

até à sua agonia



Se sofrêssemos contente

era isso unicamente

a verdadeira alegria



É que acima caro irmão

dos dons e graças que temos

deve estar no que sofremos

a maior satisfação



O que do Céu recebemos

pertence a Deus, a nós não

mas na dor, na provação

bem fundo nos conhecemos



Sofrendo com sapiência

com caridade e clemência

só por amor de Jesus



Eis a perfeita alegria

do que só se vangloria

dos quatro braços da cruz.

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