quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Mythos



Nesta quadra natalícia publicamos um (en)cont(r)o com Jesus.

Texto Zita Leonardo

Cideo passeava pelo jardim enquanto tomava conta de um pequeno grupo de crianças que a seguiam alegremente. Por vezes escondiam-se dela atrás dos tufos de margaridas brancas que enfeitavam toda a alameda ladeada de colunas de mármore branco que terminava num edifício sumptuoso para onde se dirigiam. As crianças riam com o seu embaraço, quando as via desaparecer da sua vista. Não queriam aborrecê-la, elas amavam a bela Cideo que lhes dedicava igualmente um amor sem limites que só uma mãe consegue sentir. Não interessa se a maternidade não era biológica, o que é certo é que ninguém as amava mais do que ela, ninguém poderia sentir um grau de responsabilidade maior que o desta mulher pelas crianças que tinha à sua guarda. De resto, aquele era o seu trabalho e ela adorava fazê-lo, não quereria ter outro.

Era ainda jovem e muito bela também, literalmente iluminada visto que a sua imagem irradiava, sobretudo quando sorria, como se o sol resplandecesse no seu rosto. Cobria todo o corpo com uma veste de um branco puríssimo que acabava numa espécie de manto a cair sobre o ombro direito; os cabelos castanhos com reflexos doirados estavam presos em trança que descia ao longo das costas e que num gesto feminino enfeitara com três margaridas que tinha colhido no jardim. Caminhava direita, suavemente, em direcção ao templo, agora num passo mais apressado mas sem perder a elegância e a firmeza das suas formas. Segurou no colo o menino mais pequenino, um lindo bebé de caracóis louros, ao mesmo tempo que, na outra mão, rebocava duas meninas também pequenas que, de outra forma, não conseguiriam acompanhar o seu passo. Seguiam-na as três crianças mais velhas do grupo, dois meninos e uma menina, com idades aproximadas e que não pareciam ter mais que seis a sete anos.

Tinha pedido uma audiência a Jesus que já devia estar à sua espera. Não gostava nada de se atrasar, mas tinha a certeza que seria perdoada logo que Jesus conhecesse os seus motivos: os meninos mais crescidos gostavam de lhe pregar partidas e escondiam-se dela. Perdia tempo a procurá-los e, quando os descobria, fingia estar zangada para que lhe pedissem desculpa. Logo que tal sucedia acabavam em abraços e gargalhadas de imensa alegria. Era assim todos os dias. Hoje, porém, tinha um compromisso com Jesus e estava um pouquinho ansiosa.

À chegada à porta que se mantinha aberta parou e, como de costume, curvou-se um pouco a pedir permissão para entrar; a seguir inspirou e expirou profundamente, repetindo o gesto mais duas vezes. As crianças observavam-na com carinho e admiração seguindo-lhe todos os gestos, como já era hábito. Afinal tratava-se de um espaço sagrado e como educadora tinha que iniciá-las desde logo no respeito ao divino. E de facto era assim, tudo era sagrado naquele lugar maravilhoso e hoje especialmente, porque albergava o grande e doce Irmão Jesus, havia mais luz e mais paz ainda.

Despediu-se das crianças com um longo abraço a cada e entregou-as à guarda da jovem Lylia que veio ao seu encontro. A pouco e pouco foram deixando de se ouvir as alegres vozes dos miúdos que contavam à mulher, por entre gargalhadas, as partidas desse dia.

Após ter andado mais uns metros ao longo do largo corredor iluminado, entrou numa porta entreaberta que dava acesso a uma sala de leitura e lazer, ligada por sua vez por outra porta, esta de correr, à biblioteca do Templo. Entrou de mansinho e logo viu Jesus que descansava em frente à grande janela por onde podia ver-se a parte sul do jardim coberta de relva muito verde e onde algumas árvores de sombra se elevavam para o céu. Também ela gostava de repousar a vista e a mente a meio do estudo de um livro mais técnico ou de mais difícil compreensão, olhando aquela abençoada paisagem e observando os irmãos pássaros a tomarem banho no riacho ali próximo. O rosto de Jesus, contemplativo e sério mas ao mesmo tempo de uma beleza tão suave, denotava alguma preocupação. A sua aura era tão pura e de luz tão branca que quase tornava transparente o seu belíssimo corpo. E que aroma inebriante o do perfume de lírios emanado daquele Ser! Todo o ambiente estava impregnado e quase sentiu vertigens, mas já Jesus a recebia nos braços, com o mais belo sorriso, forçando-a a sentar-se a seu lado. Era uma honra demasiado grande, não sabia se devia, mas, na verdade, não estava em condições de reagir. Obedeceu simplesmente, sentindo-se maravilhosamente bem envolta naquela doce vibração.

Querido Mestre, será que hoje podíamos voltar a falar do irmão Fausto? Pediu com alguma timidez, já não era a primeira vez que insistia no mesmo tema.

Filha, dum dogmático demónio foi dito, mas Fausto é Irmão poderoso totalmente necessitado de iluminação.
Fausto é um criador, seu karma está ligado à dimensão genética divina; ditou a mudança da forma. Fausto fez o GNA da nossa bendita mente: Biologia divina, fogo/água, fusão da física personalidade com a fonte espiritual, é Quinto sintetizado. Abaixo finalidade genética, acima jogo biológico divino.

Eram palavras misteriosas para a inocente Cideo, não que não fosse inteligente, porém a sua aprendizagem, tanto quanto se lembrava, tinha sido dedicada ao estudo dos Astros como oráculo e à prática dos rituais do templo, com especial ênfase nos Equinócios e nos Solstícios. Sem mesmo saber a que impulso obedecia, ela falou:

Amado Jesus, permite-me que vá novamente ao encontro de Fausto. Já combinei com a irmã Lylia para ficar com a guarda das crianças, está mais que preparada e os meninos adoram-na; e Myriam irá substituir-me no serviço religioso, há muito que espera por isso e fá-lo melhor que ninguém. Só tenho um receio e é por isso que peço a Tua ajuda: Como sabes eu dependo directamente de Júpiter e, sem a bênção de meu Pai, não poderei tomar nenhuma decisão. Por favor meu querido Mestre, intercede por mim.

Já imaginava que ias pedir me para defender a tua causa junto do poderoso Júpiter e, por isso, antecipei-me e falei-Lhe da tua missão. Não só acedeu ao nosso pedido como te desejou boa sorte e, para que não tenhas dúvidas da Sua protecção, mandou que te entregasse um presente que vai acompanhar-te na Demanda: um unicórnio branco chamado Quiron, um ser iluminado que nunca te abandonará desde que as tuas motivações sejam sempre puras.

A jovem levantou-se e, sem que Jesus a pudesse impedir, prostrou-se a seus pés, segurou na mão esquerda do Mestre e beijou-a entre lágrimas de agradecimento. Jesus comoveu-se e com a outra mão acariciou-lhe a cabeça comentando: Pensa bem filha, não tens que fazer isto, não quero que te sacrifiques novamente. Sabes tão bem como eu que ainda existe o risco da queda. Mas confio na tua força e dedicação ao irmão Fausto. Sê feliz jóia, é vosso futuro Luz e eu vou estar sempre convosco.

Jesus levantou-se e ajudou Cideo a erguer-se também. Ela secou rapidamente o rosto com a ponta do véu e saíram de mão dada para o jardim onde Quiron a esperava pacientemente. Como era belo e forte o seu novo amigo! Agarrou-se ao pescoço do cavalo e beijou-o repetidas vezes. Jesus ajudou-a a subir no dorso do animal e pensou como eram puros e ainda mais belos assim juntos num uno centauro. Num gesto de despedida apertaram as mãos e olharam-se com um amor infinito. A seguir ela partiu e o Mestre ficou ali, pensativo, até que a imagem de Cideo e a de Quiron se desvaneceram no horizonte.

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segunda-feira, 8 de junho de 2009

Literatura portuguesa VI


http://portografico.blogs.sapo.pt/124227.html

Nesta sexta parte, abordamos a prosa doutrinária no séc.XVI, com Samuel Usque, Heitor Pinto, Amador Arrais e Tomé de Jesus.

Texto Dina Cristo

A prosa doutrinal religiosa é constituída por um conjunto de obras em que predominam os motivos religiosos. Não se pode falar, no caso português, de uma literatura propriamente mística, que exprima uma experiência de contacto directo com a divindade. Não são muitas as obras ascéticas, que se ocupam dos preceitos que levam à perfeição espiritual e preparam para a união com Deus.
“A consolação às tribulações de Israel”, de Samuel Usque, é constituída por três diálogos entre pastores e tem como objectivo rememorar as perseguições do povo bíblico. Embora adaptado à ficção pastoril, a sua inspiração é fundamentalmente bíblica. Neste estilo, a ligação lógica é dada por alegorias e metáforas simples, repetições e descrições pitorescas. Por exemplo, o diálogo pastoril sobre as causas da Sagrada Escritura, com mais descrições campestres, traça um quadro paradisíaco anterior às atribulações israelitas.
É ainda sob uma reconhecível influência do Humanismo renascentista que Heitor Pinto redige “A imagem da Vida Cristã”, marcando já a inflexão para o ascetismo e o barroco da época seguinte. O autor é platonizante convicto: inferioriza o conhecimento sensível perante o intelectual (diálogo um entre onze), apresenta a teoria platónica das Ideias (diálogo da justiça) e defende que a verdadeira filosofia é o conhecimento de si próprio. Ele faz um discreto mas inequívoco ataque à teologia escolástica mas dá, em geral, a última palavra a um interlocutor teólogo. No ideário social encontra-se também um eco, embora já muito amortecido, do Humanismo: manifesta-se contra as distinções hierárquicas.
O aspecto mais saliente da forma literária de “A imagem da vida cristã” é variedade, profusão e interesse das imagens que por vezes surgem aos cachos para caracterizar um mesmo pensamento. Algumas são de origem literária, outras provêm do ambiente físico observado quotidianamente. O paralelismo entre a vida física e a vida moral é o eixo destas comparações. O gosto pelas imagens também é devido à técnica medieval da pregação, à leitura dos diálogos de Platão e uma grande vocação metafórica a trabalhar espontaneamente sobre os dados correntes. Há muito conceptismo (que serve em geral para sublinhar conceitos contraditórios) nas inúmeras comparações de Heitor Pinto. As suas imagens são motivos de reflexão e apoiam-se numa observação naturalista sem precedentes no seu género literário.

Heitor Pinto tem uma cultura humanista variada e profunda, além de literária, e com referências constantes à matemática. É um humanista laico e de raiz burguesa e representante de uma elite clerical que não anda muito longe do ideal proposto por Erasmo. Não pode considerar-se um místico nem um asceta. Para ele, a religião consiste na caridade e o primeiro passo para o conhecimento de Deus é o auto-conhecimento. Mas já na sua prosa há uma superabundância de ornato, que anuncia o barroco, e temas como o isolamento e o desprendimento do mundo que vão ser acentuados na época seguinte.

Misticismo
Amador Arrais faleceu em 1600 após ter desempenhado importantes cargos eclesiásticos. “Os Diálogos” são constituídos por simples conversas à beira de um doente que é sucessivamente visitado por dez amigos e não um debate entre teses opostas. Por vezes, os interlocutores limitam-se a reforçar entre si as opiniões comuns. A sua prosa limita-se a ser correcta e acessível, evitando o conceptismo barroco e é neste aspecto a melhor dos autores religiosos seiscentistas. Apresenta um progresso literário pois dirige-se a um público leitor mais vasto, por isso assimila a disciplina gramatical e os recursos estilísticos clássicos ao uso das formas correntes do idioma.
Contudo, parece que a obra literária não é original. O que pode interessar neste livro é o testemunho de certa problemática típica da época: censura do lucro, glorificação dos rasgos cavaleirescos e cristãos da história portuguesa; a cobiça e a usura seriam os responsáveis pela decadência portuguesa. Arrais defende a subordinação do poder político aos preceitos da religião. A segunda parte da obra é um tratado moral com regras precisas sobre o testamento.
Frei Tomé de Jesus pode ser considerado um escritor místico se o misticismo literário for definido sem ter em conta a experiência mística como uma efusão emocional. De qualquer maneira o fervor místico encontrou muito poucas manifestações originais na literatura portuguesa.
Os trabalhos de Jesus destinam-se a consolar a nação portuguesa no tempo daqueles grandes trabalhos da jornada de África. Esta obra é uma reconstituição imaginária de cinquenta dos padecimentos de Jesus Cristo e de outros passos da sua vida seguidos de preces. Salienta-se, não pelo pitoresco ou imagem mas pelo enlevo com que procura erguer toda a amargura dos companheiros de Jesus. Os períodos parecem querer prolongar-se até aos limites do folgo, numa enumeração de pormenor dos sofrimentos. É uma evocação realista e torturada dos padecimentos carnais da via-sacra, já com larga tradição. É uma mística da dor, centrada na paixão de Cristo.

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Cristo Maitreya


Perto da comemoração de mais um nascimento de Jesus e sessenta anos depois do desaparecimento de Alice Bailey detemo-nos num dos seus livros, escrito em 1948, onde afirma que estão reunidas as condições para a segunda e última vinda de Cristo.

Texto Dina Cristo

A antecipação da vinda de Cristo foi decidida entre 1936 e 1945. A necessidade humana, por um lado, e o apelo invocativo da humanidade, por outro, cria(ra)m as circunstâncias para o reaparecimento de Cristo e dos seus discípulos. «Aparecem, unicamente, quando o mal predomina; ainda que seja somente por esta razão, podemos, na atualidade, esperar um Avatar. O cenário adequado para o reaparecimento do Cristo está preparado»
[1].
O espírito de colaboração e paz mundial, após a Grande Guerra, são dois dos efeitos da aproximação dos seus Colaboradores, a Hierarquia de Mestres, que se exteriorizará: «O Filho de Deus está a caminho e não vem só»
[2]. Contudo, parte da preparação do seu regresso depende da Humanidade, da educação para a cidadania mundial, em boa vontade e em correctas relações humanas.
Em 1945 Cristo recitou e os Seus Colaboradores transcreveram a Grande Invocação. Difundida pela rádio, estava traduzida em quase 20 línguas, dois anos depois. Este trabalho de invocação das massas e da evocação da Hierarquia espiritual, a par da ordem e da aceitação de certas verdades, é fundamental na preparação do regresso de Cristo.
Ao longo do devir colectivo, a certas ideias difundidas, a Humanidade responde com ideais que, mais tarde, se materializam numa nova cultura, inaugurando uma nova civilização: «(…) a história é o registro da reacção cíclica da humanidade a alguma energia divina, que flui através de algum dirigente inspirado ou de um Avatar»
[3].
Síntese aquariana

Em cada nova Era, um novo Mistério é revelado por um Instrutor. Foi assim em Gémeos, com Hermes, em Touro, com Mithra, em Carneiro, com Buda, em Peixes com Cristo (Jesus) e agora Aquário, com Cristo (Maitreya). Depois da Luz de Buda, a mente, o Deus imanente do Oriente, e do Amor de Jesus Cristo, o coração, o Deus transcendente do Ocidente, vem de novo Cristo para fundir o primeiro e segundo aspectos em Vontade para o Bem, através do serviço.
Cristo Maitreya vem estimular o princípio crístico em todos os corações humanos e desenvolver a intuição. Mediador entre a Divindade e a Humanidade, Mensageiro que vem pela última vez antes de retornar à casa do Pai, Shambala, o Logos planetário, onde a Vontade de Deus é conhecida. Mestre dos Mestres, Instrutor mundial do reino angelical e humano, é desde 1945 o Precursor, Dispensador e Sustentador da Era de Aquário, durante mais de dois mil anos.
Aquela será uma Era de Boa Vontade, de correctas relações humanas, de uma nova religião mundial e de Restauração dos antigos mistérios. Com ela a fascinação (plano emocional) e ilusão (plano mental) serão dissipadas e a ciência desvelará verdades fundamentais (re)conhecidas, como a unidade essencial do Ser humano ou a evolução, inscrita em rituais, números, símbolos e palavras.
Cristo tem como Associados o Espírito de Síntese (Poder), o Espírito de Paz (Amor) e Buda (Luz). O Salvador está vivo e, embora não se saiba quando nem como, actuará no plano físico: «Desta vez o Cristo não virá só; fá-lo-á com Seus colaboradores. Sua experiência e a deles serão diferentes da anterior, pois todos os olhos O verão, todos os ouvidos O ouvirão e todas as mentes O julgarão»
[4].
[1] BAILEY, Alice – O reaparecimento do Cristo, Pensamento, p. 10. [2] Idem, p. 50. [3] Idem, p. 12. [4] Idem, p. 48.

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quarta-feira, 16 de maio de 2012

Comunicação maravilhosa


Este Domingo, em várias cidades portuguesas, vai-se sentar e caminhar em paz - precisamente no mesmo Dia Mundial das Comunicações, dedicado ao silêncio, cuja criação vamos espreitar.

Texto Manuel Oliveira de Sousa fotografia Dina Cristo



A história da comunicação poder-se-á confundir com a história humana(1). Porém, a comunicação de massa considera-se, genericamente, que teve o seu início em Guttenberg, com a invenção da imprensa. Aos livros produzidos em série a partir do século XV e os primeiros jornais no século XVII foi-se acrescentando o cinema, no fim do século XIX, a rádio e, depois, a televisão no início do século XX. A Igreja, porém, acompanhava tais meios com desconfiança, permitindo assim que muitas pessoas sentissem a sua utilização com fins pouco virtuosos.
O decreto Inter Mirifica (2) (IM) surgiu como que uma necessidade para orientar os cristãos e convocá-los para um uso correto dos meios de comunicação. Foi uma maneira de reconhecer a importância da comunicação de massa como meio capaz de movimentar indivíduos e sociedades e o seu valioso auxílio para o desenvolvimento do ser humano e para a evangelização.
Inter Mirifica é o segundo dos dezasseis documentos publicados pelo Vaticano II. Aprovado a 4 de dezembro de 1963, assinala o primeiro momento em que um concílio da Igreja aborda a problemática, a comunicação. Este documento revestiu-se, e reveste-se, de particular importância pela oportunidade, por dar escala, e por alguns elementos cujo conteúdo projetou ad intra, no seio da própria Igreja Católica, mas também ad extra, para a sociedade, para o mundo. A Igreja assegura a obrigação e o direito de utilizar os instrumentos de comunicação social. Além disso, este decreto apresenta a primeira orientação geral da Igreja para o clero e para os leigos sobre o emprego dos meios de comunicação social. Passou a existir uma referência sobre a posição oficial da Igreja na matéria.
Porém, desde o primeiro momento, o tema não foi pacífico de tratar o que, só por si, releva, a esta distância, a importância dada à compreensão sobre tal assunto, o texto e contextos naquele período histórico da Igreja e do Mundo.
O decreto Inter Mirifica foi preparado antes da primeira sessão do Vaticano II, pelo Secretariado Preparatório para a Imprensa e Espetáculos (novembro de 1960 a maio de 1962). O esboço do documento foi aprovado pela Comissão Preparatória Central do Concílio. Posteriormente, em novembro de 1962, o documento foi debatido na primeira sessão do concílio e o esquema, aprovado, mas o texto foi considerado muito vasto. A drástica redução do texto deu espaço a conotações e margem para as mais variadas conclusões. Durante o primeiro período conciliar, os 114 artigos foram reduzidos para 24 e submetido novamente à assembleia, em novembro de 1963. A apuração dos votos registrou 1598 "sim" contra 503 "não". Inter Mirifica foi o documento do Vaticano II aprovado com o maior número de votos contra, o que demonstrará um pouco da singularidade.
Pode-se ainda sublinhar, para encerrar este enquadramento, que os resultados do Concílio Vaticano II deixaram, de modo geral, a maioria dos católicos satisfeitos; porém, também houve contestação. Os conservadores censuraram o concílio pelas suas tendências ecuménicas e modernistas, e insistiram na continuidade do passado. Por outro lado, os progressistas queixaram-se de que, embora o concílio tenha feito algum progresso, falhou no tratamento das estruturas hierárquicas da Igreja. E argumentaram que o sentido real do concílio estaria na sua inovação, aplaudindo a decisão do Vaticano II de romper com o “juridicismo”, o clericalismo e o triunfalismo dos tempos pré-conciliares.
O texto conciliar, desde logo antecipado nos dois números do proémio, possui uma organização interna do texto e dos respetivos conteúdos assente no binómio importância e subsídios do Decreto para a sociedade e comunicação – ad extra – e assunção da transformação do pensamento e ação da Igreja – ad intra. Isto mesmo é refletido nos dois capítulos que, nos seus 24 números, como foi referido anteriormente, tratam o pensamento da Igreja Católica, pela primeira vez, ao nível pontifício, sobre a comunicação de massa e aponta para várias iniciativas que ao longo dos anos se foram concretizando: criação do secretariado pontifício e secretariados nacionais, dia mundial da comunicação social, instruções pastorais, associações internacionais.
O primeiro propósito está no acolhimento que o Vaticano II dá aos instrumentos de difusão da comunicação em massa, IM, 1: “Entre as maravilhosas invenções da técnica que, principalmente nos nossos dias, o engenho humano extraiu, com a ajuda de Deus, das coisas criadas, a santa Igreja acolhe e fomenta aquelas que dizem respeito, antes de mais, ao espírito humano e abriram novos caminhos para comunicar facilmente notícias, ideias e ordens”.
Sucede, a este primeiro propósito, o contributo concetual, novidade até então, acerca destas maravilhosas invenções da técnica. Há um elemento concetual. O documento refere-se aos instrumentos de comunicação, tais como imprensa, cinema, rádio, televisão e outros meios semelhantes, que também podem ser propriamente classificados como meios de comunicação social (IM, 1). Estava encontrada a matriz para expressar na generalidade o que só se sabia dizer na especificidade.
Reconhecida importância e “batizada” a essência da maravilha que se abre à humanidade na reprodução mecânica, surge, na segunda parte da nota introdutória, os desígnios axiológicos e teleológicos que convém cuidar, com a convicção que “aproveitarão não só ao bem dos cristãos, mas também ao progresso de toda a sociedade humana” (IM, 2).
Legitimando a utilização destes instrumentos numa dialética permanente entre a importância e o reto uso, estabelece as normas necessárias a esse fim.
Porém, provavelmente a maior contribuição do Inter Mirifica, foi a sua assertividade sobre o direito de informação. É intrínseco à sociedade humana o direito à informação sobre aqueles assuntos que interessam aos homens e às mulheres, quer tomados individualmente, quer reunidos em sociedade, conforme as condições de cada um (IM 5). Residirá aqui a mais importante declaração do documento; este trecho demonstra que o direito à informação foi visto pela Igreja não como um objeto de interesses comerciais, mas como um bem social. Dezassete anos depois o Relatório MacBride(3) iria além do "direito à informação" ao defender o "direito à comunicação".
O primeiro capítulo ainda aborda temas como a opinião pública, já considerada anteriormente por Pio XII. E dirige-se ao público em geral, não apenas ao que está ativamente envolvido com os meios de comunicação, mas também ao recetor das mensagens.
O número doze foi um dos mais polémicos. Analisa o dever da autoridade civil de defender e tutelar uma verdadeira e justa liberdade de informação. Este artigo foi interpretado, especialmente por alguns jornalistas americanos, como sendo contra a liberdade de imprensa. Realmente, o Inter Mirifica justifica a interferência do Estado, a fim de proteger a juventude contra a "imprensa e os espetáculos nocivos à sua idade" (IM 12).
Em latim civilis auctoritas (autoridade civil) tem significado diferente de publica potestas (poder público). A tradução, em diversas línguas, acabou por reduzi-los a "sociedade civil". No entanto, atribuir direitos e deveres à sociedade civil não parece ser a mesma coisa que atribuí-los às autoridades públicas, aos governos.
Na segunda parte do documento, surgem os contributos para a transformação do pensamento e ação da Igreja – ad intra.
Desde os parágrafos introdutórios que é sublinhado o direito da Igreja usar os instrumentos de comunicação social. Só por si, este elemento, potencia e universaliza as potencialidades da comunicação. Mas desde logo reivindica, como direito inato, o uso e a posse de todos os instrumentos desse género, que são necessários e úteis para a formação cristã e para qualquer atividade empreendida em favor da salvação do homem (IM 3).
Incidindo mais na ação pastoral da Igreja, no uso da comunicação social, tanto o clero como o laicado foram convidados a empregar os instrumentos de comunicação no trabalho pastoral. Enumeram-se então diretrizes gerais, referentes à educação católica, à imprensa católica e à criação de secretariados diocesanos, nacionais e internacionais, de comunicação social ligados à Igreja (IM 19-21). São sugeridas medidas para que se consagre um dia por ano à instrução do povo no que tange à reflexão, discussão, oração e deveres em relação às questões de comunicação - Dia Mundial das Comunicações (IM 18) (4). Do mesmo modo, determinou a elaboração de uma nova orientação pastoral sobre comunicação, "com a colaboração de peritos de várias nações", sob a coordenação de um secretariado especial da Santa Sé para a comunicação social (IM 23).
O Papa Paulo VI relevou a importância do Inter Mirifica. Contudo, percebe-se que, se este decreto tivesse sido discutido mais no final do concílio, após as muitas sessões consagradas à Igreja no mundo moderno e à liberdade religiosa, o texto do Inter Mirifica teria sido particularmente mais enriquecido. O decreto olhou para o passado e não para o futuro, olhou mais para dentro e pouco para fora. Não aproveitou as realizações criativas do profissionalismo e da prática secular em comunicação de massas, como forças que articulam os meios de comunicação. Por exemplo, anúncios, marketing, relações públicas e propaganda.
Em síntese, apesar das limitações, ressaltam aspetos positivos que é sugestionável destacar.
Transformou em objeto de atenção por parte da Igreja e suscitou o desenvolvimento em dimensões maiores ou menores, segundo o interesse e a "inculturação" da Igreja nas mais diversas realidades.
Assinalou uma mudança em relação aos media e, um Concílio ao abordar o assunto, a comunicação, deu independência ao tema dentro da Igreja.
Fez algum avanço em relação aos documentos anteriores, ao conferir à sociedade o direito à informação (IM 5), à escolha livre e pessoal, em vez da censura e da proibição (IM 9). Além de reconhecer que é dever de todos contribuir para a formação das dignas opiniões públicas (IM 8), o decreto assume os instrumentos de comunicação social como indispensáveis para a ação pastoral; o Inter Mirifica oficializa o Dia Mundial das Comunicações (5), o único indicado por um concílio da Igreja.
Introduziu um novo conceito na abordagem ao fenómeno da comunicação.
Inaugurou um trajeto de reflexão, aprofundamento académico e ação através dos diversos meios de comunicação social e redes sociais. Desatacam-se, a nível pontifício, como resposta pastoral ao decreto Inter Mirifica (1963), a instrução Communio et Progressio (6) que o papa Paulo VI promulgou em 1971.
Depois João Paulo II, com a Aetatis novae (22.2.1992); os documentos do Conselho Pontifício das Comunicações Sociais Ética na publicidade (1997), Ética nas Comunicações Sociais (2000) e Ética na Internet (2002); de referir ainda a Encíclica Redemptor hominis (7.12.1990) e a Carta Apostólica no 40º aniversário da Inter Mirifica (21.2.2005) sobre o grande desenvolvimento dos media, ambas de João Paulo II. Todos os anos, desde 1966, pela Ascensão, se celebra o Dia Mundial das Comunicações Sociais, para o qual o Papa publica, com a data da festa de S. Francisco de Sales (24.1), uma mensagem. São instrumentos de comunicação social da Santa Sé: a Tipografia Vaticana (desde meados do séc. XV), o diário L’Osservatore Romano (desde 1861) e suas edições semanais mais recentes em 7 línguas, a Libreria Editrice Vaticana (desde 1926), a Rádio Vaticana (desde 1931) e o Centro Televisivo Vaticano (desde 1983).
Em Portugal, os Bispos, perante o clima adverso dos inícios do séc. XX e depois no tempo da renovação (a partir dos anos 20), deram particular atenção à imprensa regional de inspiração cristã, tendo sido criados por essa altura a maioria dos jornais diocesanos e o diário Novidades (nas mãos do Episcopado, de 1923 a 1974). Foi também assinalável a publicação de livros católicos (da União Gráfica e outras editoras) e de diversos jornais e revistas, sobretudo dos institutos religiosos. Respondendo a apelo de Zuzarte de Mendonça na revista Renascença (1933), foi lançada, inicialmente sob a égide da Acão Católica Portuguesa, a Rádio Renascença, Emissora Católica Portuguesa (com emissões desde 1937) que, sob a gestão, durante 30 anos, de Monsenhor Lopes da Cruz, passou a ser a estação de rádio mais ouvida.
Mais recentemente, para além de serviços pastorais específicos, como Secretariados Diocesanos e nacionais da Comunicação Social, foi criada a Agência Ecclesia com diversidade de plataformas.
Falharam, porém, as tentativas de um canal de televisão (Canal 4)
Referência bibliográficas:
HABERMAS, Jurgem (1986). Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro: Biblioteca templo universitário.
MACLUHAN, Marshall (1996). Os meios de comunicação como extensão do homem. São Paulo: Cultrix.
MENDIETA, Eduardo e VANANTWERPEN, Jonathan (Coord.) (2011). The power of religion in the public sphere. New York: Columbia University Press.
BENTO XVI (2006). Os mídia: rede de comunicação, comunhão e cooperação. Em 24 de janeiro.
JOÃO PAULO II (2002). Os meios de comunicação social e a nova evangelização. Em 1 de Março.
JOÃO PAULO II (2005). O rápido desenvolvimento. Em 24 de janeiro
JOÃO PAULO II (2001). Carta apostólica Nuovo Millenio Ineunte. Em 6 de janeiro
VATICANO II (1962-1965). Decreto “Inter Mirifica” sobre os meios de comunicação social (1963), in Concílio Ecuménico Vaticano II (19839). Braga: Editora AO, pp. 42-52.

(1) É interessante fazer uma análise sinótica com Walter Benjamin, A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução.
(2) Designado em latim, como é comum nos documentos oficiais da Igreja Católica, por ser a língua institucional da Igreja sediada em Roma, e por, na tradição da Igreja, serem as primeiras palavras dos documentos que os intitulam. No caso, “Inter mirifica…”, isto é, “Entre as maravilhosas…”.
(3) MacBride - Many voices, one world: communication and society today and tomorrow (Unesco, 1980) (Muitas vozes, um só mundo: comunicação e Sociedade agora e no futuro).
A comunicação, atualmente, é material de direitos humanos. Mas é interpretada cada vez mais como um direito à comunicação, indo além do direito de receber comunicação ou de ter acesso à informação (MacBride 172).
(4) Em Portugal, a Conferência Episcopal instituiu o Domingo em que se celebra a Ascensão de Jesus ao céu.
Esta solenidade foi transferida para o 7º domingo Páscoa desde seu dia originário, a quinta-feira da 6º semana de Páscoa, quando se cumprem os quarenta dias depois da ressurreição, conforme o relato de São Lucas em seu Evangelho e nos Atos dos Apóstolos; mas continua conservando o simbolismo da quarentena: como o Povo de Deus esteve quarenta dias em seu Êxodo do deserto até chegar à terra prometida, assim Jesus cumpre seu Êxodo pascal em quarenta dias de aparições e ensinamentos até ir ao Pai. A Ascensão é um momento mais do único mistério pascal da morte e ressurreição de Jesus Cristo, e expressa sobretudo a dimensão de exaltação e glorificação da natureza humana de Jesus como contraponto à humilhação padecida na paixão, morte e sepultamento.
Ao contemplar a ascensão de seu Senhor à glória do Pai, os discípulos ficaram assombrados, porque não entendiam as Escrituras antes do dom do Espírito, e olhavam para o alto. Aparecem dois homens vestidos de branco, é uma teofania, a mesma dos dois homens que Lucas descreve no sepulcro (24,4). Neles a Igreja Mãe judaico-cristã via acertadamente a forma simbólica da divina presença do Pai, que são Cristo e o Espírito.
(5) Em 2011 celebrou-se o 45º, sob o tema, Mensagem do Papa Bento XVI, “Verdade, anúncio e autenticidade de vida, na era digital”.
(6) Trata-se de um documento pastoral da Igreja que não tem caráter dogmático. Não é uma encíclica, nem um documento conciliar da Igreja como o Inter Mirifica. A Communio et Progressio foi escrita pela Comissão Pontifícia para os Meios de Comunicação Social. De fato, o nome completo do documento é "Instrução Pastoral para a aplicação do Decreto do Concílio Ecuménico Vaticano II sobre os Meios de Comunicação Social". O documento, marcado pela abertura que caracterizou os documentos do concílio, mas sobretudo a evolução das mentalidades nos anos seguintes, desenvolve-se em 187 artigos e distingue-se do decreto Inter Mirifica particularmente pelo seu estilo.

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Menino Jesus


Apresentamos, antes do Natal,  versos escritos e recitados por Frei Morgado, no Convento do Varatojo, como há 55 anos quando era noviço.

Texto Frei Morgado

«Ó meu Menino Jesus
Deus de infinita beleza
Vinde nascer na minha alma
Abrandar a sua dureza

Desceste do céu à terra
Rei dos anjos adorado
Nove meses habitaste
A virgem no ventre sagrado

Escolheste para mãe uma virgem
Pai adoptivo São José
Com eles 30 anos viveste
Oculto em Nazaré

Quiseste nascer num presépio
Ó meu Deus que humildade
E, por fim, morrer na cruz
E salvar a humanidade

Entre animais sois adorado
Por Reis Magos e pastores
Eles vos oferecem prendas
A vós, Senhor dos Senhores

Vão guiados por uma estrela
À grutinha de Bélem
Conduzi sempre meus passos
Pelo caminho do bem

Fugiste para o Egipto
Para não seres emulado
Pelo cruel Rei Herodes
Esse coração malvado

Aí estiveste até que a morte
Te levasse, afinal
Mas depois, por fim, voltaste
À vossa terra Natal

E vós, ainda ficaste,
Cá na Terra a habitar
Até que por fim vos deram a morte
A que ninguém pode escapar».

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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Jesus?


Perto do Natal, escrevemos sobre um génio mundial, quase desconhecido e coevo de Jesus, a partir do livro de G. Mead “Apolónio de Tiana - sábio, profeta e renovador dos mistérios".

Texto Dina Cristo

Apolónio nasceu em Tiana[1], actual Turquia, nos primeiros anos da era cristã. Grande instrutor, elogiado por Voltaire, não foi um deus mas estava acima dos homens, um verdadeiro “daemonion”, cidadão do mundo e sacerdote da religião universal. Enigmático, com uma vida secreta e, durante cinco anos, devotada ao silêncio, Apolónio era forte e erecto, mas também suave, gentil, modesto e até charmoso.

Aluno de Euxeno, iniciado em segredos mais elevados do que os eleusinos, Apolónio de Tiana era um profundo estudioso e amante do saber. Dedicava as manhãs a dar e receber instrução sobre as coisas sagradas, e depois da ciência divina, à tarde, ensinava o que sabia sobre ética e vida privada, com frases curtas e exemplos (comuns). Exigente consigo próprio, não impunha aos outros o seu modo de vida.
Despojado e frugal, defendia um sistema de vida que disciplinasse para a aceitação. Andava descalço e só usava linho. Rejeitava o vinho, a lã e tudo o que provinha de animais. Pleno de compaixão, condenou os combates de gladiadores, o sacrifício de sangue, a excitação selvagem nas corridas de cavalos ou a degeneração dos bacanais. Considerava como única comida pura a produzida pela terra: fruta e vegetais.
Ascético, recusava todos os presentes e rogava “Concedam-me ó Deuses, ter pouco e não necessitar de nada”. Com uma vida pura, considerava que era ao não ter nada que se possuía todas as coisas. Meditava três vezes por dia, ao amanhecer, meio-dia e pôr-do-sol, e à noite banhava-se em água fria. A sua conduta pautava-se por “Coração, sê paciente e tu, minha língua, fica quieta”
[2].
Reconsagração internacional

Com uma actividade quase mundial, viajou muito por terras distantes. Alexandria, Atenas, Arábia, Babilónia, Cádiz, Chipre, Éfeso, Espanha, Etiópia, Grécia, Itália, Jónia, Nínive, Pérgamo, Tróia fizeram parte das suas estadias, onde visitava antigos templos, santuários, magos, centros, comunidades e instituições. Não fundou nenhuma escola, antes procurava restaurar os antigos ritos sagrados, purificando-os, explicando-os melhor, ajudando, assim, pela iluminação à sua restauração.
Apolónio viajou, estudou e ensinou muito. Entre os diversos tratados que escreveu contam-se “O testamento de Apolónio”, um resumo das suas obras, “A vida de Pitágoras” ou “Os ritos místicos ou com relação aos sacrifícios”. Instruía, nos seus sermões, sobre temas como a morte - “Ninguém jamais nasce ou morre jamais”
[3] - ou a imaginação - “(…) a imitação só faz aquilo que viu, enquanto a imaginação o que nunca foi visto, concedendo-o na forma em que a coisa realmente é”[4].
Apolónio, que acreditava que o governo monárquico era o melhor para o império, conversava com reis e aconselhava moralmente os príncipes. “Não deveis colocar vossos próprios problemas acima dos deveres públicos”, dizia nos seus sermões. Com influência, a nível moral e político, defendia que “(…) entre os maiores governantes é o melhor aquele que consegue primeiro governar a si mesmo”
[5]. Admirava Palamedes[6], filósofo do período troiano a quem considerava um herói.
Com uma extraordinária memória, lia os pensamentos humanos e podia ver eventos que ocorriam noutro local, “(…) havia aprendido como comunicar-se com eles [sábios indianos] apesar do seu corpo estar na Grécia e os deles na Índia”
[7]. Médico da alma, para Apolónio, “Nenhuma criatura pode ser saudável enquanto a parte mais elevada nele estiver doente”.
Teve como discípulos, ouvintes, Dâmis, Musónio e Demétrio. Orava “Dai-me, ó Deuses, o que me é devido”, lembrava que “O tempo faz cessar o sofrimento” e que “Aquilo que é não cessa jamais de ser”. Teve que deixar Itália depois de um decreto ter banido os filósofos de Roma, onde foi julgado em 93.

[1] Perto de Tarso, onde também nasceu o apóstolo Paulo, seu contemporâneo. [2] MEAD G.R.S. - Apolónio de Tiana – sábio, profeta e renovador dos mistérios, Brasília, Editora Teosófica, 2000, pág. 65. [3] Idem, pág.132. [4] Idem, pág.125. [5] Idem, pág.133. [6] Palamedes, segundo as fábulas, inventou letras, completando o alfabeto de Cadmo. [7] Idem, pág.81.

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quarta-feira, 19 de junho de 2013

O Caminho do Yoga

Wikipédia
Antes do Dia Mundial do Yoga, publicamos um artigo originalmente editado na revista "Biosofia", no ano 2000[1]. Nele o autor, diácono da Igreja Católica Liberal, explica quais são os principais tipos e princípios do Yoga.

Texto João Gomes 

Olhamos à nossa volta, e sentimo-nos insatisfeitos com as respostas que encontramos nas várias áreas do conhecimento e da chamada fé. Percebemos, no âmago do nosso ser, que chegou a altura de desvendarmos os mistérios e os véus que cobrem a vida. É ai, num pedaço de milagre, surge o início da resposta, vinda muitas vezes por “acaso”, numa conversa, num livro ou num filme.
Para muita gente, o yoga é a resposta para essas quatro questões fundamentais. [Quem sou eu? O que faço aqui? Donde venho? Para onde vou?]. Infelizmente, também para alguns, ele é a teia que os sufoca e os ilude.

O que é o yoga?

Uns dirão que é uma espécie de ginástica, de acrobacia oriental; outros, mais perto da verdade, afirmarão que é uma filosofia de vida; outros ainda, que é uma forma de atingir a paz e a libertação da roda dos nascimentos. A resposta a esta questão, encontra-se na raiz etimológica do termo. O vocábulo yoga é uma palavra do sânscrito e deriva do termo yug, que quer dizer união, unir. No yoga, o aspirante pretende unir o seu eu inferior (a personalidade, o anjo lunar, o quaternário, o subconsciente e o consciente) ao seu Eu Superior (o Cristo Interno, a alma espiritual, o Ego, a tríade, o anjo solar, atma, purusha, o supraconsciente). Assim, o yoga faculta-nos os meios, as técnicas e os instrumentos, para chegarmos a este fim.
Será interessante fazermos aqui um pequeno parêntesis e compararmos a psicanálise ao yoga. Na primeira, temos uma metodologia que nos permite “descer” ao subconsciente e analisar e conhecer o seu conteúdo; no segundo, apresenta-nos uma técnica que nos permite “subir” ao supraconsciente e contactar com o seu mundo.

O folclore da pseudo-espiritualidade

São muitos, infelizmente, os falsos gurus, os falsos mestres, que pululam por aí. Com um ar mais ou menos oriental, com os olhos mais ou menos em bico, com uma conta mais ou menos choruda, estes vendedores de sonhos apresentam-se como salvadores, avatares encarnados, que apenas com um olhar, são capazes de ministrar as mais altas iniciações. E o ocidental, guloso por algo diferente, ansioso por poderes psíquicos e sensações místicas e ocultas, aspirando à paz enlatada do pseudo-nirvana, corre, com o olhar húmido e a bolsa aberta, para os braços do seu exótico e sorridente guruzinho, o papá espiritual.
Poucos são os Instrutores que, com a humildade da experiência e do conhecimento, sabem que eles não são mais do que alunos no meio de alunos; auxiliares no processo de descoberta, que o estudante fará no seu percurso espiritual, do seu Mestre Interno (o Cristo Interno). É precisamente esse mestre interno, que apresentará o discípulo ao seu (verdadeiro) Mestre, esse Ser Excepcional, flor rara das altas montanhas, que obviamente, não frequenta ginásios da Nova Era, grupos “esotéricos e iniciáticos” (que, de esotérico só têm o chapéu e, de iniciático, o avental) e ashrams poeirentos e anandicos.
Desculpem os leitores, se causticamente desanco certo folclore ligado ao yoga e a movimentos afins. Estar calado é ser cúmplice. Amo demasiado o yoga e a filosofia oculta, para suportar, sem gritar e sem protestar contra, o modo como certos gurupitecos usam e abusam da Doutrina Sagrada. Nada tenho contra aqueles que, competente e honestamente, vivem em exclusivo para o ocultismo, cobrando o seu justo salário. Lá porque se é espiritualista, não quer dizer que o indivíduo não tem o direito, e o dever mesmo, de viver com dignidade. Todavia, o que eu não posso de modo nenhum concordar e entender são: os luxos, a baba vaidosa e matreira; os excessos; o culto das personalidades; os “segredos de Polichinelo”; a ignorância primária; a exaltação do vulgar e da ocultite; a exploração da aspiração sincera e legítima; o fanatismo sectário – e os negócios chorudos que florescem à volta do sagrado. Quem o faz desconhece a regra, quem o faz “marimba-se” para o espiritual.
Quando despertamos para a espiritualidade, uma das primeiras questões que se coloca na nossa mente, é a de sabermos qual o tipo de yoga que devemos seguir. A resposta a esta dúvida encontra-se na auto-análise prévia, que devemos efectuar. O tipo de yoga a escolher vai depender de três ou quatro factores essenciais: a idade; a raça (no sentido oculto); as polarizações; e o temperamento do praticante ou raio predominante.

Os sete sistemas de yoga

De um modo geral, consideram-se sete grandes yogas:

O Hatha Yoga, método indicado para adultos polarizados no seu corpo físico (tipo lemuriano) e nos chakras inferiores (raiz ou sacro), imaturos emocional, mental e animicamente; crianças (quando devidamente adaptado); e, predominantemente, pessoas de temperamento do 1º raio (tipo voluntarioso e determinado), 4º raio (tipo artístico, com grande sensibilidade para a estética, beleza e harmonia) e 7º raio (organizado fisicamente, valorizando os detalhes e os pormenores). O praticante deste sistema utiliza os exercícios físicos (asanas) e os exercícios respiratórios (pranayama) para atingir os seus fins. Segundo esta metodologia, a mente (vritti) é governada e dirigida pelo prana (energia vital), ou seja, o princípio inferior governa o superior. Este yoga é o mais antigo de todos, e tem as suas raízes na Lemuria e na 3ª raça, quando a humanidade atravessava o estágio infantil. Acrescente-se ainda que os Mestres e os grandes iniciados desaprovam a prática deste sistema, argumentando que: o nível evolutivo actual e médio da raça; os excessos circenses e acrobáticos desta disciplina, e algumas práticas de recuperação do controlo consciente de certos órgãos internos, que naturalmente, ao longo do processo evolutivo, passaram para a direcção do inconsciente – são tudo razões que desaconselham, claramente, a prática deste marga. Acrescentamos por fim, que a espiritualidade não é, nem pode ser, um circo, um espectáculo!
O Karma Yoga, metodologia de tipo generalista recomendado a todos os tipos de yoguis. Este sistema é um dos mais seguros e eficientes, exigindo do praticante uma personalidade (corpos mental, emocional e físico) equilibrada e bem desenvolvida, alinhada com a alma ou o Eu Superior. Os Chakras inferiores (raiz, sacro e solar) direcionam-se para o chakra cardíaco, e funcionam em sintonia com ele. Este é o yoga da acção inspirada, do serviço, da entrega. Se tivermos em conta que iniciamos um ciclo regido pelo 7º raio (vector que governa o plano físico) e que, encarnados, temos o dever de utilizar o corpo mais denso no serviço ao plano divino, então percebemos a afirmação inicial de que este yoga é do tipo generalista. Os discípulos do 3º raio (inteligentemente activos e adaptáveis), do 7º raio e do 1º, sentem-se especialmente atraídos por este caminho. O Senhor Cristo Maitreya, Gandhi, Annie Besant e Madre Teresa de Calcutá podem ser considerados exemplos superiores deste tipo de percurso.
O Laya Yoga é um sistema utilizado pelos iniciados (do 2º grau, preparando-se para a 3ª iniciação) sob a direcção do seu Mestre. Neste sistema, o discípulo medita e reflecte nas características e natureza dos chakras elevando, nas últimas etapas, a energia de Kundalini até ao último centro, o chakra coronal. Num breve parêntesis, esclareço aqui que esta metodologia não tem nada a ver com qualquer tipo de exercício tântrico ou sexual. Se assim fosse, não faltaria por aí grandes iluminados. Esta prática exige que o iniciado tenha já algum desenvolvimento do princípio atmico ou espiritual e um certo alinhamento, ainda que mínimo, com a mónada. Este é um dos yogas mais perigosos, e que provoca um grande fascínio nos aspirantes. Contudo, nunca é demais repetir que são a consciência, a meditação, autodisciplina, o serviço e a maturação espiritual que devem levar ao despertar dos chakras e não o contrário.
O Bhakti Yoga é o marga do devoto, o caminho do coração, a via do místico, recomendado a todos aqueles que estão polarizados no seu corpo emotivo e no chakra do plexo solar (tipo atlante). É também o método indicado para os adolescentes e jovens quando devidamente adaptado na sua linguagem e técnica. O devoto, através de cânticos, mantras, orações e cultos, dedica todo o seu amor à sua divindade tutelar, ao seu Mestre, procurando unir-se misticamente ao seu objecto de adoração. É minha opinião que este yoga deveria ser adaptado para servir o homem de hoje. Provavelmente deveria incluir-se nele o amor à natureza, o amor ao próximo e o amor às hierarquias espirituais e angélicas. Isto permitiria ao grosso da humanidade direcionar as suas energias emotivas e afectivas, que predominam na estrutura psico-espiritual da maior parte de género humano, para fins e causas superiores. A médio e longo prazo, permitiria a solução do problema ecológico (a questão ambiental é não apenas uma problemática da informação e de vontades política e económica mas, sobretudo, o resultado da falta de amor, da falta de integração do homem nos reinos naturais, da perda do sentido da sacralidade da vida e da reverência pela Terra). Daí a urgência de um yoga verde, agente integrador do homem e da natureza, de um yoga humanista, que permita a fusão do ser humano no corpo maior da humanidade; e de um yoga angélico (não quero com este conceito alimentar certas práticas tão habituais nos tempos de hoje, que mais parecem negócios com o céu) que facilite o contacto do homem com os reinos angélicos e dévicos. Importa esclarecer que não se tratariam de três yogas diferentes mas de três ramos do mesmo sistema, o yoga do amor, o bhakti marga. Os temperamentos do 6º raio (tipo devoto, dedicado e idealista) e do 2º raio (características amorosas e sábias) sentem-se profundamente tocados por este yoga. Exemplos superiores deste caminho terão sido S. Francisco de Assis, S. João Apóstolo e Ramakrishna.
O Jnana Yoga ou o marga do conhecimento, da sabedoria e da iluminação. Nele, o discípulo procura unir-se à divindade através do conhecimento espiritual. As suas disciplinas compreendem o domínio dos sentidos, o controlo da mente, o estudo e a meditação no Espírito Omnisciente (a Mente Universal), de modo a que, com a prática, o yogui atinja a iluminação, transformando o conhecimento em sabedoria. Este é o caminho adequado a todos aqueles que estejam polarizados no corpo mental e no chakra laríngeo (tipo da 5ª Raça-Raíz): os intelectuais e os estudiosos. Os discípulos do 2º, 3º e 5º (tipo científico) raios sentem-se especialmente atraídos por este sistema. Exemplos típicos e elevados deste yoga terão sido o Senhor Buda Gautama, Helena Blavatsky, Teilhard de Chardin, Alice Bailey, Pietro Ubaldi e I.K. Taimni.
O Raja. Este é o caminho real (raja). É o marga que sintetiza todos os outros – não nas práticas, mas nos resultados. A prática essencial deste caminho baseia-se na meditação. O discípulo, ao longo de oito passos, vai aprimorando o seu carácter; rectificando a sua postura; dirigindo a sua energia vital; controlando os seus sentidos, aprendendo a pensar e a meditar; e, por fim, no último estágio, mergulha no seu Eu Superior, identificando-se gradualmente com a sua essência espiritual. Recomenda-se este yoga a todos os discípulos que têm já o seu quaternário inferior (a personalidade) razoavelmente coordenados e estão polarizados no chakra frontal (tipo superior da 5ª Raça-Raíz). Os estudantes dos 5º e 1º raios sentem-se sintonizados com este método.
O Agni Yoga. Muito pouco se sabe deste percurso espiritual. Conhece-se apenas que ele será o yoga da próxima raça, a Sexta. O discípulo deste yoga tem já o seu corpo búdico e intuitivo razoavelmente desenvolvido e encontra-se polarizado no chakra cardíaco e no centro correspondente da cabeça. Este é a via dos discípulos avançados e dos iniciados. Muito sinteticamente, poder-se-á dizer que ele é o caminho da vida, da síntese espiritual, do fogo, da intuição e do sacrifício. O 2º e o 4º raios regem este percurso.

Os primeiros passos

Entende-se no sistema preconizado por Pantajali, o sistematizador da Filosofia Yoga, que este caminho espiritual deva ser percorrido ao longo de oito passos, ramos, partes ou angas. Não deixa de ser curioso que, também o sistema budista de libertação ou emancipação espiritual – O Nobre Caminho Óctuplo – seja composto por oito passos, e que, os raios que governam a 5ª Raça-raiz, o actual tipo evolutivo liderante, sejam o 3º e o 5º, que somados perfazem oito. Aliás, os oito passos do yoga estão divididos em dois grupos: o yoga externo, que constitui os cinco primeiros passos, e o yoga interno, os três últimos. Coincidências?
Os primeiros dois passos, yama e niyama, consistem numa série de disciplinas ou valores de carácter moral, que perfazem o total de dez, tal como acontece nos mandamentos da tradição judaico-cristã. Os objectivos destes princípios são o de preparar o yogui para, de uma forma bem estruturada eticamente, poder enfrentar os desafios que a prática mais profunda da meditação lhe vai colocar no seu caminho. Para além disso, estes valores promovem: o desenvolvimento das correctas relações com o homem, com a natureza e com Deus; a cristificação da aura; a purificação dos chakras inferiores e dos corpos da personalidade; a elevação das forças dos centros inferiores, para os chakras superiores.

Os cinco Mandamentos

Yama«Há apenas um caminho para a senda, e só bem no seu final se pode ouvir a “A Voz do Silêncio”. A escada pela qual ascende o candidato é formada de degraus de sofrimento e de dor, que só podem ser aplacados pela voz da virtude. Ai de ti, discípulo, se restar um só vício que não tenhas deixado para trás. Pois então a escada cederá e deitar-te-á abaixo; as suas pernas estão apoiadas no profundo lodo dos teus pecados e falhas e antes que possas tentar atravessar este largo abismo de matéria, tens de lavar os teus pés nas “águas da renúncia”»[2].
Ahimsa – Inofensividade ou Não Violência. Todo o yoga se fundamenta, se enraíza no valor, no voto da Inofensividade. O yogui deverá praticar a não violência em todos os pensamentos, palavras e actos. Este é o mandamento básico do Yoga. Ahimsa baseia-se no conhecimento, que o yogui tem, da unidade essencial, da sacralidade de toda a vida e de todo o Cosmos. Para o yogui, todo o Universo é o corpo, é o organismo da divindade, de Ishvara.[3] Por isso, ele deve pôr em todos os seus gestos, em todas as suas acções, o amor que lhe vai na alma e reparti-lo por toda a criação. Amando o Criador ele ama as criaturas. Esta é a Lei máxima de todo o yoga.
Disse Gandhi: «A não violência é uma força da Ordem Superior. É a força espiritual, o poder de Deus em nós. Participamos da divindade na medida em que manifestamos a não violência».
Brahmacarya – Controlo Sexual, Criatividade Mental. Este, devido à nossa incapacidade de perceber o lado interno da vida, é talvez um dos votos mais difíceis de entender. Brahmacarya não nos pede exactamente, como tradicionalmente se afirma, que deixemos de ter actividade sexual mas que apliquemos principalmente a energia reprodutiva, em acções de criatividade mental. Quando o yogui é criativo no modo como se veste, no modo como cozinha, na maneira como fala e se expressa, na sua profissão, enfim, no modo como vive e se manifesta, a sua actividade e necessidade sexual diminuem naturalmente. A energia criativa, que até aí se expressava essencialmente ao nível da libido, ao nível sexual (chakra sacro), passa de modo gradual a expressar-se ao nível mental (centro laríngeo).
Asteya – Honestidade, não roubar. A honestidade não significa, apenas, não roubar (no sentido legal do termo); quer dizer, sobretudo, não nos apropriarmos daquilo que não nos pertence. O discípulo não afirma ter escrito, dito ou feito aquilo que não realizou; não aceita uma recompensa por ter cumprido o seu dever; não aceita privilégios que não lhe são devidos.
Deixo aqui uma afirmação de Gandhi para meditação: «Todo aquele que possui coisas de que não precisa é um ladrão».
Aparigraha – Desapego. Ausência de Desejos. Sobriedade, Simplicidade. Todos os grandes yoguis, iniciados e iluminados, foram simples. Foram simples na forma como viveram, foram simples na forma como transmitiram os seus ensinamentos (o que não quer dizer que as suas doutrinas fossem simplistas!). Foram sóbrios nas suas posses, foram sóbrios nos seus desejos pessoais. Este mandamento, aparigraha, continua o anterior. O yogui não só é honesto, como também é sóbrio. Deseja ele apenas o necessário para a sua sobrevivência e dos seus, e o estritamente indispensável para o cumprimento da sua missão.
Satya – Veracidade, Sinceridade. Também aqui deverá entender este mandamento de uma forma mais abrangente do que o simples não mentir. Satya implica a abstenção de exageros e equívocos no pensamento, palavra e acção; o yogui deverá, consequentemente, ser verdadeiro e rigoroso nestas três áreas. Ele não deve pretender ser aquilo que não é; não deve pretender fazer aquilo que não pode ou não deve realizar.

As cinco regras; Niyama

TapasAutodisciplina. Quando abordamos esta regra e meditamos nela, percebemos que tem pelo menos três níveis de interpretação. A primeira, tradicional, resume-se à prática de austeridades, tão em voga nos regimes monásticos da Idade Média no Ocidente e nos Sinyasins da Índia durante a Idade de Peixes. Vemos assim grandes figuras do Oriente e do Ocidente dedicarem-se a este tipo de práticas, que tinham como objectivo o desenvolvimento da vontade e que, porém, levavam muitas vezes ao prejuízo do corpo físico. Trata-se de um tipo de disciplina pisciana, com raízes na Lemúria, e que já não tem nenhum sentido no tipo médio do yogui actual.
O segundo nível manifesta-se como autodisciplina(s) que, normalmente, são aquelas de que gostamos menos. É nestes sectores que o yogui deve autodisciplinar-se e desenvolver a sua vontade. Passarei a dar alguns exemplos: se o yogui tem dificuldades em se levantar da cama pela manhã, deverá desenvolver a sua vontade ou, dito de outro modo, deverá assumir como tapas erguer-se da cama ao primeiro toque do despertador; de uma tarefa doméstica lhe é extremamente desagradável, como tapas deverá efectuá-la com afinco e brio, se tem uma dificuldade enorme em chegar a tempo aos seus compromissos, como tapa fará um esforço para chegar 15 minutos antes. O “truque” de tapas está na concentração ou focalização da mente na tarefa disciplinadora. Se a mente focalizada ocupar todo o espaço da nossa consciência, não daremos espaço ao nosso corpo emocional para interferir e dizer: “Que seca! Que tarefa mais maçadora” Se, pelo contrário, deixarmos a mente solta, permitiremos ao nosso “amigo” emocional interferir na actividade, protestando constantemente, até nos convencer que, de facto, a tarefa em mãos é uma “chatice” e que o melhor é adiá-la para depois. Voltamos a repetir: a chave de tapas reside na concentração da mente. Se habituarmos a mente a identificar-se com uma determinada actividade, chegará o tempo em que a tarefa, que era absolutamente “intragável”, passará a ter o seu quê de interessante.
A forma superior de tapas denomina-se vontade para ou do bem. Esta energia poderosíssima tem a sua raiz na mónada ou Eu Divino e no corpo átmico ou espiritual, seguidamente, expressa-se no lótus egóico, ao nível das pétalas do sacrifício; e finalmente ancora no duplo etérico através do chakra coronal, via corpo mental. Só um iluminado com a terceira ou mais iniciações tem a capacidade de expressar a verdadeira vontade do bem. Talvez uma das fórmulas espirituais que mais revelem o mistério desta força esteja contida numa oração que se encontra no livro "Folhas do Jardim de Morya I” e que reza assim: «Ó Senhor, dá força ao meu coração, e poder ao meu braço, porque sou Teu servo. Nos Teus raios, aprenderei a verdade eterna do Ser. Na Tua voz, escutarei a harmonia do Mundo. Entrego-Te, ó Senhor, o meu coração, sacrifica-o em favor do Mundo».[4]
Svadhyaya – Estudo. Também esta regra espiritual tem vários aspectos. Tradicionalmente, considera-se que uma das regras a observar pelo yogui consiste no estudo das obras que abordam o tema do yoga e da espiritualidade. E assim é. Se, de facto, o yogui não estudar os grandes autores e Instrutores da espiritualidade, como poderá ele querer fazer um trabalho sério nesta área? É como pretender tocar superiormente piano, sem estudar os grandes compositores; ou pintar para a posteridade, sem se embrenhar nos grandes criadores; ou querer exercer medicina, sem frequentar uma boa Universidade e estudar Anatomia, Fisiologia ou Patologia. Não obstante, há alguns aspirantes que pensam que podem praticar yoga ou tornarem-se ocultistas ou esoteristas sem meditarem nas grandes obras da espiritualidade. Dizem eles, ocamente, sem qualquer tipo de consciência do que estão a dizer, que a sabedoria tem de vir de dentro. De duas uma: ou deveras vem de dentro, e então pergunta-se “onde é que ela está?”; ou, então, se não vem de dentro, como realmente acontece, que humildemente se pegue nos livros e se estude! Não nos coloquemos em bicos de pés; só os Grandes Iniciados podem afirmar que a sabedoria lhes vem de dentro. E tal apenas é possível porque durante muitas vidas passaram muito tempo aprendendo directamente com os Mestres da Sabedoria e da Compaixão e os seus discípulos, ou investigando e reflectindo nas grandes obras da espiritualidade.
Outro aspecto de svadhyaya consiste no estudo e na análise da sabedoria e da cultura do tempo onde o yogui está inserido. O yogui é um discípulo que se está a treinar para vir a ser um Mestre da Sabedoria e da Compaixão, um Jivanmukta. Para isso, ele precisará de ter uma cultura superior, devendo conhecer com algum pormenor todas as grandes correntes de pensamento do seu tempo e da história. Como poderá ele ser um posto avançado dos Grandes Mestres e da Doutrina Sagrada, se não conseguir conversar e comunicar, pelo menos ao mesmo nível, com os grandes intelectuais e líderes do seu tempo? É por isso que todos os Iniciados e iluminados foram homens e mulheres de superior cultura. Assim aconteceu com Blavatsky, Annie Besant, Steiner, Alice Bailey, Pietro Ubaldi e tantos outros.
O terceiro aspecto tem a ver com o estudo e a meditação nos símbolos. Para o yogui, o mundo e os acontecimentos da vida são os efeitos de um mundo interior, são símbolos dos mundos superiores. Interessa-lhe sobretudo perceber as forças e as energias que estão por trás de um acontecimento – mais do que, propriamente o acontecimento em si. Ele procura diariamente penetrar, cada vez mais, no mundo das causas, nos planos dos arquétipos.
Por fim, svadhyaya também se expressa como auto-estudo, autoconhecimento, análise das motivações, impulsos, forças e energias que nos fazem mover. Esse autoconhecimento manifesta-se essencialmente pela auto-observação que realizamos no dia-a-dia, e em especial à noite, no exame de consciência.
Isvara-pranidhana – Amor Crístico. Este amor, ao contrário do desejo e do amor pessoal, não está condicionado, sendo absolutamente altruísta e fraternal. O expoente máximo deste amor na história foi o Cristo, o Avatar ou o Senhor do Amor. Na sua vida, Ele expressou de uma forma única o sentido, a grandeza e a entrega do amor espiritual.
Isvara-pranidhana não é apenas um sentimento; ele é também serviço, acção e auto-sacrifício. É serviço prestado altruisticamente à humanidade, é serviço sacrificial prestado ao planeta, é serviço manifestado incondicionalmente ao próximo, é serviço doado impessoalmente ao Plano Divino e é serviço entregue abnegadamente à Hierarquia Oculta, aos Mestres.
Sauca – Pureza. A propósito de sauca passo a citar Taimni. «Antes que sejamos capazes de compreender como podemos purificar a nossa natureza devemos clarificar as nossas ideias acerca da pureza. O que é a pureza? De acordo com a filosofia do yoga todo o Universo, visível e invisível, é uma manifestação da Vida Divina e é impregnado pela Consciência Logóica. Para o sábio iluminado ou santo, que desenvolveu a sua visão espiritual, tudo, desde o átomo até a Ishvara de Brahmanda (O Logos Cósmico ou Solar), é um veículo da Vida Divina e, por isso, puro e sagrado. Assim, em termos absolutos, nada pode ser considerado impuro… Deste modo, purificação quer dizer a eliminação de todos aqueles elementos e condições que impedem os veículos de exercer as suas funções e atingir os seus objectivos. Para o yogui, o propósito é a autorrealização através da união da sua consciência individual com a consciência do Supremo ou a realização de Kaivalya (Libertação, Unificação), tal como a apresenta os Yoga Sutras. Para o yogui, Purificação significa assim, especificamente, a transformação de veículo, de modo a que ele possa servir crescentemente como instrumento para esta unificação…
Todos os veículos inferiores de Jivatma estão constantemente a mudar e a purificação consiste na substituição gradual e sistemática do material comparativamente grosseiro por um tipo mais refinado de matéria. No caso do corpo físico, é comparativamente simples e pode ser efectuada fornecendo ao corpo a matéria adequada na forma de comida e bebida… A carne, o álcool e muitos outros acessórios da dieta moderna tornam o corpo físico completamente inútil para a vida yóguica e, se o aspirante embruteceu o seu corpo através do uso destes alimentos e bebidas, deve sujeitar-se a um período prolongado de uma dieta cuidadosa, para se ver livre do material indesejável e tornar o seu corpo suficientemente refinado.
A purificação dos veículos subtis, que servem de instrumentos para a expressão dos pensamentos e emoções, é conseguida através de um processo diferente e mais complicado. Neste caso, as tendências vibratórias (inferiores) são gradualmente modificadas pela exclusão de pensamentos e emoções indesejáveis substituindo-os constantemente e persistentemente por pensamentos e emoções de natureza superior. À medida que as tendências vibratórias destes veículos mudam, a matéria dos corpos também muda “pari passu” e, depois de algum tempo, se o esforço é continuado, os veículos estão adequadamente purificados. O teste de uma purificação real é fornecido pela tendência vibratória normal que encontramos no veículo. Fácil e naturalmente uma mente pura reflecte pensamentos puros e sente emoções puras, e torna-se difícil para ela entreter-se com pensamentos e emoções indesejáveis; tal como, do mesmo modo, para uma mente impura é difícil produzir pensamentos e emoções superiores e nobres»[5].
A purificação espiritual envolve, assim, três tipos de disciplinas: uma, material, que implica uma dieta tendencialmente vegetariana, a supressão de tóxicos (tabaco, álcool, drogas) e um contacto íntimo com os elementos[6]; outra, psíquica, envolve todo um trabalho de vigilância dos pensamentos e das emoções, de modo a que o yogui não deixe penetrar e habitar na sua mente qualquer sentimento indigno do seu “Cristo Interno”.
Samtosa – Alegria. Como já deve ter percebido, a verdadeira alegria não tem a ver com as condições que nos rodeiam: ela desenvolve-se e cresce apesar das circunstâncias e dos condicionamentos que nos envolvem. Contrariamente, a felicidade depende das circunstâncias exteriores, sobretudo da satisafação ou não dos nossos desejos. Memorize esta chave da alegria, apesar de… Alice Bailey escreveu, a propósito de samtosa, o seguinte: «O contentamento produz uma condição psíquica que promove a paz mental, é baseado no reconhecimento das leis que governam a vida e fundamentalmente na Lei do Karma. Ele produz um estado mental onde todas as condições são aceites como correctas e justas, e como aquelas nas quais o aspirante pode melhor realizar e alcançar o propósito (superior) da sua vida. Isto não implica qualquer tipo de acomodação ou submissão mas, sim, o reconhecimento das condições do momento, uma avaliação das oportunidades, de modo a que formem a fundação e a base de todo o progresso futuro»[7]
*Diácono da Igreja Católica Liberal; Coordenador da Unidade de Serviço Aquarius, inspirada predominantemente na Boa Vontade Mundial.
Bibliografia:
BAILEY, Alice – The light of the soul. Lucis Press Ltd.
BLAVATSKY, Helena – Glossário Teosófico. Ed. Ground.
CLUC – O Tempo das Multidões. Centro Lusitano de Unificação Cultural.
GOMES, João – Curso de Raja Yoga – 1º Grau. Policopiado.




[1] . GOMES, João – Yoga – O Caminho Sagrado da Vida in Biosofia, nº5, Primavera de 2000, pág. 57-59  e nº6,Verão de 2000, pág.31-34. [2] BLAVATSKY, Helena – A Voz do Silêncio. Editora Pensamento, pág.69. [3] Helena Blavatsky escreveu o seguinte no Proémio da Doutrina Secreta: «A Doutrina Secreta ensina a identidade fundamental de todas as almas com a Alma Suprema Universal, sendo esta última em aspecto da Raiz Desconhecida… Por isso dizem os hindus que o Universo é Brahman e Brahmâ; porque Brahman está em todo o átomo do Universo, sendo os seis princípios da natureza a expressão ou os aspectos vários e diferenciados do Sétimo e Uno, a Realidade única do Universo, seja (ele) cósmico ou micrcósmico…» [4] Convido os leitores, com um conhecimento mais profundo do ocultismo, a fazerem o seguinte exercício: substituam na fórmula o termo Senhor por mónada, coração por lótus egóico; braço por personalidade; raios por antahkarana; e voz por corpo búdico ou intuitivo – e uma nova luz poderá brotar sobre este assunto. [5] TAIMNI, I.K. – The Science of Yoga, Quest Book, pág. 221-224. [6] Para alguns ocidentais, poderá parecer algo radical e tipicamente oriental este tipo de visão a propósito das disciplinas de purificação. Devo dizer contudo, que estas disciplinas eram e são tão comuns quer no Oriente, quer no Ocidente. Jesus, no «Evangelho da Paz» (Texto Apócrifo do Séc.I da nossa era) apresenta o mesmo tipo de soluções. [7] BAILEY, Alice – The Light of The Soul, Lucis Press Ltd. , pág. 189.

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