quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Jornalistas pela paz


Próximo da comemoração do Dia Mundial dos Jornalistas pela Paz, este Sábado, dia 27, apresentamos um livro que nos fala de um novo paradigma (d)e agenda mediática. Organizado por José Manuel Pureza e editado pela Quarteto, a obra reúne comunicações apresentadas durante um curso realizado pela Comissão Nacional da Unesco, na Universidade de Verão, na Arrábida, em 2000, Ano Internacional da Cultura da Paz.

Texto Dina Cristo

É urgente implementar uma agenda de paz, que promova o diálogo intercultural, a protecção das minorias, a cidadania global, de solidariedade, integração, adopte uma perspectiva menos alinhada com a violência e valorize o grande desvio: as iniciativas, actores e métodos pacíficos. A própria sustentabilidade informativa depende de uma agenda reestruturada, que inclua não apenas o crescimento mas também o desenvolvimento económico, social e ambiental (“profit”, “people” e “planet”). A paz, condição para transformar os conflitos de forma criativa e construtiva, é também urgente nos “media”, porque corresponde a um interesse da comunidade, a uma necessidade verdadeiramente colectiva.
A guerra (substituída pelo eufemístico “intervenção militar”) é dispensável e politicamente irracional; ela desenrola-se hoje, sobretudo, no teatro... informativo – fluxos e conteúdos que a elite no poder controla, para preservar o “status quo” que tem dominado: uma cultura política conflitual, baseada numa ideologia conservadora que só admite o “preto” e o “branco”, quando a realidade é um espectro de várias cores.
A pós-nacionalidade implica um novo paradigma de comunicação, de respeito, conhecimento mútuo e solidariedade cosmopolita e, portanto, de superação das diferenças de forma a atingir uma visão global. A globalização é cada vez mais multicultural. A intolerância informativa será suicidária e desfocada em relação às novas propostas de construção social de um mundo matizado e, assim, rico, pacífico, partilhado e unido pelos interesses realmente comuns, redescobrindo uma identidade plural.
Um novo contrato social
Este novo contrato assenta na co-habitação, no pluralismo de culturas, no direito/dever de informação, participação e respeito mútuo para uma cultura de solidariedade e cooperação humana, transnacional e uma paz positiva, global, com uma comunidade humana integrada e harmónica. A cultura de paz implica não apenas a paz negativa (a ausência de violência directa/pessoal), mas também a inexistência de violência estrutural (repressão, exploração, imposição, segmentação e marginalização) como também a cultural - transmitida pelos “media” – substituída pela liberdade, equidade, diálogo, integração, solidariedade e participação.

A informação que (ainda) utiliza a dualidade e reproduz um discurso bipolar do mundo (o “Outro”, sobretudo o culturalmente diferente, visto com valor e intenção negativa, o “Mau”, e “Nós”, os “Bons”) não reproduzindo de forma séria e equilibrada o(s) argumento(s) do inimigo e transportando para os relatos políticos, sociais e desportivos uma linguagem bélica, tem dado mais importância à guerra do que à solução pacífica.
Mudança de paradigma
Com o nuclear, os custos da guerra, o “soft power”, a mediação internacional, surge uma deslegitimação quer da violência clássica quer da emancipadora. São então apontados factores como a sua ineficácia e ontologia, moralmente condenável e estrategicamente inadequada. Assim, as guerras entram em desuso nos anos 90, depois de inconclusivas nos anos 80. Hoje, as forças armadas têm mais missões humanitárias (e até ambientais), o pacifismo que é considerado eficaz, realista e racional, como escreve Luís Mota, professor catedrático de Sociologia das Relações internacionais.
Verifica-se actualmente uma mudança da natureza do Estado e uma nova lógica, pós-nacional – um modelo de cidadania internacional, um projecto de sociedade solidária, inclusiva, dialogante, participativa, tolerante e intercultural – o que implica um novo contrato social, no qual as fronteiras são vistas como práticas de exclusão de grupos. É um novo sistema pós-estatal da sociedade civil, de uma cidadania voluntária e responsável, baseada na informação a todos acessível - a sociedade de informação - tal como nos direitos de cidadania política (mesmo a nível externo), culturais, de identidade e participação de todos os membros da sociedade num debate aberto e numa pressão política ascendente, vinda da acção dos movimentos sociais, pela consciencialização dos riscos e interesses comuns.
A cultura conflitual, de divisão de Estados (fruto da herança positivista e realista - etnocêntrica, ideologicamente fundamentalista, estrategicamente redutora e que deu prioridade aos factos em detrimento dos valores) era baseada na territorialidade, na lealdade de proximidade e no sistema estatal. A guerra baseou-se numa legitimidade clássica, que mobilizava os cidadãos para dar a vida pela pátria, e emancipadora, como instrumento de libertação dos povos. Neste contexto, o pacifismo foi visto como ingénuo, irreal, ideal e utópico.
As tentativas de construção de uma Cultura para a Paz (tanto humanistas como socialistas) vêm desde o final do Séc.XIX (com a restauração dos Jogos Olímpicos, as Exposições Mundiais) e continuam com a criação da Cruz Vermelha, Prémio Nobel da Paz, Conselho Mundial da Paz, Sociedade das Nações Unidas, em 1919, ONU, Governo mundial para ser capaz de garantir a paz, passando por Gandhi, que provou a sua eficácia, até aos movimentos pacifistas dos anos 60 e 70.
Durante o Séc.XX houve uma investigação científica sistemática, sobretudo entre a I e a II Guerra Mundial e, depois da Guerra Fria, sobre o imperialismo e a relação entre os gastos militares e as necessidades sociais. A investigação alterna-se entre estudos de segurança e estudos de paz, pois a atenção desloca-se para a segurança ambiental (dada a crise) e humana (devidos aos desalojados e refugiados). A democracia e a liberdade passam a ser consideradas necessidades básicas fundamentais - é a emergência de um novo paradigma científico, em evolução, com uma marca mais holística e ética.

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quarta-feira, 16 de julho de 2008

Informação sustentável

Quase a completar um ano, publicamos a primeira parte de um artigo sobre a fonte inspiradora deste projecto: a informação solidária.

Texto e fotografia Dina Cristo

Ao encetar o terceiro milénio, eis uma nova proposta de concepção e prática informativa: solidária, profunda, cooperativa, diversificada, sintética, lenta e humana. Uma alternativa à dominação das técnicas de manipulação e propaganda, que poluem a imprensa e intoxicam os cidadãos; uma resposta ao nível da comunicação social da mudança para um paradigma pacífico, ecológico e responsável.
Numa sociedade de consumo, onde quase tudo está à venda, com um preço de acordo com o nível de procura, e num sistema capitalista, que privilegia o capital económico-financeiro em detrimento de valores de honradez ou nobreza de carácter, o público está facilmente exposto aos riscos da comunicação hiper-industrializada, fértil em manipulação, em doses massivas de propaganda, de terror informativo, de incitamento ao medo, à dependência, ao isolamento e à inacção, apesar de todos os discursos em prol da cidadania activa e participativa visando o aprofundamento de uma sociedade democrática.
A informação solidária (IS) pretende dar instrumentos e condições para libertar o ser humano, seja ele produtor ou consumidor de informação, da dependência de quem o manipula, abusando da sua boa-fé, da sua confiança e ingenuidade para, através do estimulo de desejos, o conduzir a adoptar os comportamentos estrategicamente previstos.
O seu meio privilegiado é o webjornalismo, campo mais propício ao desenvolvimento deste movimento informativo, onde a par de uma nova agenda para a paz, com todas as suas repercussões, ganham importância novas áreas como a da responsabilidade social e a defesa de um quinto poder.
Quando o argumento mais comum para o terror informativo é o de que o mundo precisa de saber o que se passa, e, na sociedade da imagem, mostrar é uma forma de esconder aquilo que não se pretende que se saiba, o jornalismo tradicional está ainda na razão inversa da “informação”.
Património informativo


O século XX foi uma centúria de opressão, censura, manipulação, propaganda, distracção, entretenimento, “infotainment”, de adormecimento, alienação, dependência, inconsciência, irresponsabilidade e impotência, como mostra o documentário “Zeitgeist”. A propaganda manipula o cidadão e controla-o através do medo e das emoções, mantendo-o quieto, como se faz às crianças quando se tira da cartola o “bicho papão”.
No início do século XX um elemento de uma tribo desenhava-nos o perfil de ocidentais no que têm de pior ao nível da comunicação em sociedade: a prisão - dos apartamentos, das salas de cinema, dos próprios jornais -, a falta de contacto com a realidade. A necessidade de mediação, a leitura e interpretação da realidade em substituição da experiência directa e a homogeneidade. “Papalagui” mostra como a superioridade das culturas se reduz a uma questão de perspectiva e mais ainda de etnocentrismo, egoísmo em termos colectivos, arrogância em alguns casos e incompreensão em muitos deles. Fala-nos do excesso de informação e da “indigestão” que tal causa; o princípio de que nem tudo o que ingerimos é assimilado, neste caso pelo organismo mental.
A evolução da consciência humana quanto à manipulação (dos “media”), por um lado, e à necessidade de auto-realização, por outro, através de uma vida pacífica e harmoniosa, interna e externamente, a nível individual e colectivo, repercutiu-se num novo paradigma civilizacional e mediático, representado pela informação solidária.
Este novo modelo de comunicação social valoriza a força da união e da liberdade em detrimento da fraqueza do isolamento, permeável ao abuso e à opressão. A proposta é de uma maior consciência, autonomia e responsabilidade do Emerec, que ofereça protecção ao cárcere da segregação, competição, egotismo e isolamento, condições propícias a que a indústria cultural manipule o público, fragilizado.
O “segredo” de gerar consenso social para que as entidades empresariais possam ter o apoio dos próprios cidadãos, frágeis, isolados e crédulos, aos interesses daqueles, de colocar a maioria da população ao lado, de acordo, ou pelo menos não se mostrar contra, e silenciá-la, sem proibi-la de falar, está na indústria das relações públicas, que convence o público a acreditar nas mensagens falsas ou ideias distorcidas. A massa, como uma criança, confia e acredita em quem tem legalmente o poder de a informar.
Perante este voto de confiança, por vezes às cegas, a indústria das relações públicas persuade o público acerca de quase tudo, necessidades, veracidade das informações, e transforma as suas crenças e convicções em equívocos mal compreendidos, numa dependência, vitimação e necessidade de aprovação que só aumenta em ciclo a sua falta de confiança. Um ciclo vicioso difícil de sair – um cativeiro, local óptimo para a escravização, onde os senhores da indústria da comunicação o dom(in)am.
Novo paradigma social
Após a destruição provocada pelas guerras mundiais, emerge um novo paradigma de paz e cooperação. Surge por um lado a revolta contra o autoritarismo e por outro o desejo da devolução do poder ao povo, a democracia, o respeito pelas minorias; desponta um paradigma ecologista, uma visão de solidariedade ao nível planetário. No fundo, os ideais da Revolução Francesa começam a expressar-se de forma notória.
Há mais de duzentos anos que foi necessária uma revolução para terminar o autoritarismo e o absolutismo. Aos poucos instituem-se, primeiro nos ideais depois na prática, os valores da liberdade, da igualdade perante a lei e em dignidade humana, a fraternidade, a solidariedade, a união que reforça o poder de cidadania. Numa visão mais ampla, cada parte integra um todo, ao qual pertence, e no âmbito do qual está inevitavelmente ligada às outras: a comunidade em rede, reticular de que nós hoje experimentamos; um modelo horizontal de comunicação, descentralizado e democratizado.
Desde a sequela da I e II Guerra Mundial, quer ao nível diplomático quer ao nível do direito internacional, os valores da cooperação e da paz têm estado na agenda política. O respeito pelos direitos humanos e a importância da pacificação dos territórios, evitando as mortes, atrocidades e crueldades, têm sido uma preocupação. Desde há décadas que os homens se juntam em conversações e diálogos para tentarem pela via verbal aquilo que anteriormente era resolvido militarmente.
Ao nível nacional e internacional foram criados vários organismos e instituições com estas preocupações (como a UNESCO, a Comissão Justiça e Paz, a Universidade da Paz). Na prática, há uma parte da comunidade que se agita face aos novos valores. Exige-se uma agenda para a paz, comemora-se o Dia dos Jornalistas pela Paz, há institutos que formam os jornalistas neste sentido (caso da Agência internacional pela Paz) e novos projectos no âmbito do jornalismo alternativo vão surgindo. Entretanto, o paradigma tem tido alguma expressão ao nível social, económico e científico.
Ao nível social, a globalização, processo de conhecimento, troca, partilha, integração e fusão cultural que vem, pelo menos, da era dos Descobrimentos, em cuja promoção o comércio tem sido pioneiro, tem provocado, juntamente com a venda de bens e serviços, o contacto humano e a troca de ideias, crenças, valores, formas de estar e conceber o universo. O processo de construção de um planeta numa aldeia global, antecipado por vários homens da ciência, é visivelmente sentido nos dias actuais. Ele visa, em última instância, a promoção da partilha humana, ao nível cultura e tem derrubado, por isso, várias fronteiras mentais, psicológicas e físicas, como foi o caso do muro de Berlim ou o fim do “apartheid”.
Ao nível económico, a economia e comércio solidários são hoje, perante a globalização económica internacional, uma alternativa humana, que tem em consideração a vida das pessoas, de quem trabalha, de quem consome, de quem vende e respeito por um padrão ético.
Ao nível científico, surge a teoria de Gaia, de James E. Lovelock, os campos mórficos de Rupert Sheldrake, a física quântica e a teoria das cordas, o paradigma holístico.
É, assim, na transição do século XX para o século XXI que mais se fazem sentir os efeitos da mudança de paradigma: ecológico, solidário, democrático que, ao influenciar vários sectores, não pôde deixar de ter efeito sobre os “media” e o jornalismo.
Nova concepção informativa
Os Estudos Culturais vêem os “media” como opressores mas também com a potencialidade de se transformarem em instituições de libertação. Se derem voz às minorias (étnicas, culturais, religiosas, políticas, sociais, económicas, sexuais entre outras) estarão a equilibrar a sua representação mediática com a sua existência efectiva. Ao variar as fontes a que recorrem, os “media” estarão a relatar a realidade sob diferentes ângulos contribuindo assim para o enriquecimento de olhares e um conhecimento mais completo. É a valorização das várias culturas, modos de fazer dissemelhantes, que podem ser úteis ao desenvolvimento humano em detrimento de predomínio de um só ponto, uniforme, politicamente correcto, convencional, de uma legitimidade construída.
O relatório McBride, escrito há cinco décadas, está ainda por cumprir, mas foi um marco desta nova etapa. O documento apontou as fragilidades de uma informação internacional desequilibrante, com o predomínio das fontes e relatos dos países do norte em relação aos do sul, e salientou a importância de reequilibrar o fluxo informativo para o progresso e desenvolvimento político e social dos países e continentes. Para que o retrocesso não suceda e o sistema social não bloqueie era - e é - urgente o livre fluxo de informação, o seu livre curso.
Estamos, pois, a usufruir dos primeiros resultados das alterações havidas no último quartel do século XX. Após a “era” do jornalismo de opinião, no séc. XIX, e do jornalismo industrial, no séc. XX, eis que emergiram no seu final novos meios, técnicas, ideias e condições de produção informativa. Depois dos “media” tradicionais, surge um novo, multimédia, que os converge.
A web permitiu nos últimos anos do século XX conjugar e conciliar a forma e a técnica. Além da passagem a um nível de informação virtual, numa dimensão desmaterializada, permitiu a integração dos meios de comunicação até então separados em imprensa, rádio e televisão, na sua dimensão escrita, oral e (audi)visual. A Internet possibilitou o multimédia, a síntese mediática, que no caso do webjornalismo conjuga todas as linguagens anteriores, promovendo a evolução da linguagem jornalística a um nível de hipertextualidade, "multimedialidade" e interactividade inovadoras.
A história da comunicação e do jornalismo tem sido um acumular de técnicas que têm permitido ultrapassar ou eliminar barreiras de tempo e de espaço. Por outro lado, a informação tem-se orientado, com alguns momentos históricos de censura e inquisição, para a descentralização, com tendência a ser democrática, de acesso cada menos restrito ao poder de saber. A web, flexível, ubíqua, é um instrumento técnico que tem permitido, desde a viragem do século, um impulso a esse desafio que é formar uma comunidade cada vez mais internacional, com uma opinião pública, e concretizar a utopia da comunicação, tornar como um, numa unidade o globo terrestre.

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quarta-feira, 25 de julho de 2007

Sonho informativo


Sabemos o que queremos, mas não se o conseguiremos fazer. Não prometemos independência, rigor ou objectividade nem apresentamos a diversidade, a profundidade e a sensibilidade como metas. Devagar, navegaremos até à outra margem informativa.

Texto e fotografia Dina Cristo

O “Aqui & Agora” (A & A) é uma experiência informativa, um sonho que hoje começa a tornar-se realidade. Não seguimos uma linha editorial rígida, contudo, somos inspirados na "Informação Solidária". A concretização deste projecto, não seguramente na sua pureza idealizada, depende também de si, da sua participação; será, assim, aquilo que, em conjunto, conseguirmos fazer dele.
O A&A é um site voluntário, e como tal apenas pretende ensaiar uma informação que não se deverá preocupar com o lucro, a quantidade, a audiência, a dependência do leitor, a actualidade ou o crescimento. Partilharemos o que de melhor nós temos para dar a conhecer ao mundo, para (o)informar e ler (em opinião). Aqui e agora, onde e quando nos sintonizar, sempre que nos (re)ligarmos.
Desenvolver-se-á lentamente, de certo, e o único compromisso que assumimos é o de experienciarmos seguir uma agenda própria, de assuntos que sejam úteis e o mais próximo possível da verdade, tanto quanto a vislumbramos. Não prometemos, para já, assim, nem conteúdos nem critérios, mas apenas um objectivo: o de tentarmos.
Dedicamos este trabalho a todos aqueles que acreditam na verdade, no jornalismo, na solidariedade e muito especialmente aos que confiaram nele antes de o verem nascer.

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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Arrefecimento mediático?

Seis anos depois de realizarmos a Conferência sobre Informação Solidária(ante)vemos alguns sinais do (sobre)aquecimento mediático.

Texto Dina Cristo pintura Lídia Pinto

A exclusão do sujeito e o tomar a parte, assim, incompleta pelo todo transformou-se numa informação distanciada, objectiva e exclusiva de que resultou a crise de imprensa, em que de tanto afastamento os leitores a abandonaram tal como a atitude dos eleitores em relação aos políticos.
Agora, para recuperar da crise, o próprio jornalismo público defende o restabelecimento da ligação, do vínculo entre (e)leitores e agenda dos media e a agenda política, com envolvimento e participação.
Tal religação é também hoje defendida no âmbito do novo paradigma da ciência, holístico (quer o reaparecimento do sujeito enquanto tal quer no próprio objecto), na ética do cuidado (com a importância pública e profissional da atenção ao outro) – também aplicada aos jornalistas – e da informação social, com tripé mais equilibrado entre os líderes, acções, fontes e perspectivas não só política e económica mas também social.
Immanuel Kant chamava a atenção para o facto de o nível racional corresponder ao cumprimento da lei moral, sendo o amor aos outros a principal moralidade, que inclui não só o cumprimento da lei (mera legalidade) mas sobretudo o espírito da lei, por mor dela, ou seja, de forma desinteressada e impessoal.
Ora a informação irracional - que responde à satisfação das inclinações pessoais e dos interesses particulares, do mundo dos sentidos e dos fenómenos – e saturada, em alta definição e resolução de hoje, sem espaço para a reflexão, corresponde, em certa medida, à noção de colonização mediática, defendida por Adorno.
O sistema mediático, que apesar de ter como origem a lifeworld, autonomizou-se dela de tal forma que desenvolveu, dentro da complexidade das sociedades modernas, a especialidade e os códigos legais – que além de reduzir a necessidade de troca, entendimento partilhado e consenso, através da comunicação – delegando neles de tal forma o seu poder que passou a penetrar e até a determinar a própria vida de todos os dias. Os vários sistemas criados pelo ser humano, entre os quais o mediático, passaram não só a influenciar o quotidiano como a dominá-lo.
Numa acepção mcluhaniana, os meios verticais, unilaterais, fechados, agressivos e uniformes, já de si quentes, estão em sobreaquecimento, intensificando o seu carácter activo, distante, controlador, quantitativo e objectivo. Contudo, como nada está em expansão permanente, além de que o ponto de não retorno da sua ampliação conduzirá ao seu contrário, à contracção, é previsível (tal como ao nível climático) o arrefecimento.
Tal processo implica, ao nível mediático, uma maior aproximação à horizontalidade, bi e multeralidade, canais mais abertos, de baixa definição e espaço para a interpretação e participação do sujeito receptor, inclusão do feed-back, da subjectividade e da qualidade – dando valor não apenas ao rigor, aos números, aos factos e object(iv)os, mas também à compaixão, ao significado, às intenções, aos princípios e valores.
A deslocação para meios mais frios, passivos, receptivos, lentos e amplos, com efeitos ao nível da moderação e equilíbrio mediático, implica, ao nível informativo, também um jornalismo mais compreensivo, compassivo, democrático, integrando a diversidade, com implicações ao nível da unificação e da verdade dos relatos, representações e interpretações.
O arrefecimento mediático, mais soft e slow, verifica-se ao nível do maior envolvimento, quer do sujeito emissor, mais comprometido, quer do receptor, mais implicado na agency social. Tal significa menos informação e mais útil – capaz de se traduzir numa (mudança de) atitude efectiva.
Os media e a informação que produzem, neste âmbito, torna-se mais humilde, tolerante, diferente e sintética, com poder não ao nível do controlo informativo mas do desenvolvimento da comunicação. Enquanto se mantiverem ao nível de meios técnicos, extensões criadas pela humanidade, esta conserva-se enquanto fim, assegurando a sua dignidade e evitando que, em circunstância alguma, os humanos se tornem um meio sendo a técnica pervertida num fim em si mesma – a Humanidade como extensão tecnológica.
Esta moderação dos media traduz-se numa descolonização do sistema mediático: meios menos hierárquicos, ruidosos, analíticos, de alta definição também conceptual e resolução cultural, o que significa, segundo a escola crítica, menos dominadores e manipuladores. Diminuir a definição implica menos controlo na limitação do todo na parte (codificada) e uma alta informação, preservando a dialéctica, o conflito enriquecedor entre as partes, deixadas em aberto pelos criadores para que o receptor as possa recriar.
A valorização nomeadamente da rádio comunitária - indício de um maior equilíbrio entre a via pública, massiva, mais colectiva, e a via privada, de elite, mais individual, sinal não apenas de uma fase grupal, mais moderada, portanto, mas igualmente de uma efectiva religação, participação e envolvimento, tal como é pretendido pelos defensores do jornalismo público – é um reflexo da descolonização mediática.
Quando as preocupações dos cidadãos são relatadas, debatidas e procuradas soluções, como no caso do jornalismo social – onde o cuidado colocado nas várias relações e tarefas durante o processo de produção informativa, como as fontes e a linguagem usada – o público mostra interesse, interage, toma parte e envolve-se, num espaço auditivo apropriado, nem demasiado próximo nem excessivamente distante.
A acção concreta dos agentes mediáticos no âmbito social está a contribuir para a transformação do sistema, em algo mais harmonioso, contemplando não apenas a acção rápida, automática e interessada de qualquer dos seus agentes, mas atendendo igualmente à recepção, com mais baixa frequência e melhor processamento da informação, mais profundamente entendida e desinteressada – assente no princípio do bem comum, da comunicação e da comunidade – numa consciência e identidade já não líquida mas gasosa correspondente ao estágio pós-convencional de Kohlberg, indicativo de um círculo de cuidado e atenção de carácter universal.
É notória a tentativa actual para colocar o social no seio de grande parte do discurso e preocupações públicas, desde a teoria e pesquisa social até à comunicação social, passando pela semiótica social, função social, estrutura social, construção social da realidade, instituição social, relação social, agente social, estado social, segurança social, solidariedade social, justiça social ou, entre outras ainda, desenvolvimento social. Ao nível dos media, Ignatio Ramonet aponta a dimensão do quinto poder e Alicia Cytrynblum da informação social.
O decreto InterMirifica começa a produzir os seus efeitos, para além dos media sociais, nas redes sociais ou no jornalismo participativo - onde sob o argumento da interacçção e intervenção do receptor, se atinge a sua colaboração voluntária e graciosa na produção e reprodução de acontecimentos, transformando-o, na prática, em distribuidor gratuito de notícias, sendo explorado, muitas vezes sem tal consciência, dada o carácter sedutor, imediato e de aparente facilidade – numa real interdependência, integrando e ultrapassando a dicotomia entre a dependência, solidária e colectiva, e a independência, livre e individual.
Há, pois, sinais de arrefecimento mediático concretizando a designação “Meios de Comunicação Social” e de fortalecimento do meio sonoro, constantemente presente no audiovisual – omnipresente, subtil e invisivelmente, o que é fonte de poder e veículo de retribalização, à escala global, promovida pela actual digitalização que, por sinal, deixa mais espaço de transmissão disponível, capacitando-a para receber novos e diversos emissores.
Assiste-se, assim, à tentativa de religar e cuidar das partes excluídas, até aqui censuradas, por uma razão parcial, degenerada, distorcida e corrompida pelos mass media e a indústria cultural, como Adorno denunciou, rebaixada à impureza, à instrumentalidade e ao utilitarismo. A expressão da subjectividade, assim recuperada, será, pois, um reflexo da regeneração da razão, como Kant defendeu, o que significa o restabelecimento da centralidade do sujeito que, no âmbito do novo paradigma científico, se aprofunda mais pela colocação da Natureza no centro da própria pessoa, já de si nuclear nas formas pós-modernas de conhecimento.
Este reaparecimento do sujeito, da razão desembrutecida, da descolonização do sistema mediático na lifeworld - após a sua saturação, ao penetrar na própria vida social, indiferenciando a vida produtiva do espaço-tempo de lazer - implica a renovação da identidade e da consciência, com consequências ao nível da agency grupal, temperada, após o desequilíbrio entre o excesso e a falta de solidariedade, ambas inibidoras da acção social, da passagem da benevolência à beneficência, próxima e concreta.
Após a separação, o distanciamento, a exclusão, a razão enfraquecida, a colonização, o aquecimento, o domínio do sistema, em várias áreas sociais, da política ao jornalismo, há indícios (d)e vontade de (re)união das partes extirpadas, como a natureza mental, interior e subjectiva, de (re)aproximação, de (re)integração no todo original, de valorização da lifeworld, da purificação da razão, com um interesse cada vez mais impessoal e transpessoal, manifestada em novas disciplinas especializadas na área social, como a Semiótica social, a Jurisdição social ou também solidária, como a Economia ou o Turismo.
Num meio quente como a rádio, estimulante de um único sentido, a audição, tipicamente tribal, das sociedades arcaicas – prévias à complexidade e especialidade moderna – há sinais de arrefecimento depois da colonização informativa, como ocorreu no Rádio Clube de Moçambique, entre 1953 e 1973, com o aumento progressivo de horas de emissão de “A Voz de Moçambique” bem como a expansão, intensificada no período de Marcello Caetano, dos Emissores Regionais - uma forma mais agradável, subtil e próxima de a fazer infiltrar nos povos autóctones.
O (sobre)aquecimento mediático, a aceleração, a expansão, a saturação e a limitação máxima de espaço e tempo à participação terá, atingido o seu nível máximo, um efeito contrário, ou seja, de desaceleração, de (s)low information, mais ‘silenciosa’ e espaçosa, por forma a permitir o envolvimento democratizado, agora à escala digital e planetária e, portanto, uma maior aproximação, (re)ligação, comunicação e unidade social livre e com base na diversidade, o que, após os períodos de forte ênfase quer no comunitarismo, na ordem e na estabilidade social, quer no individualismo, na liberdade e na mudança social, acelerará o processo de retribalização universal e de fusão grupal.

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domingo, 23 de setembro de 2012

Rádio Clube de Moçambique IV


Revista "Rádio Moçambique", nº 332, Março de 1964, pág.10


Nesta quarta parte falamos da rádio como instrumento de propaganda.


Texto Dina Cristo


A rádio é considerada um meio ubíquo, indiscriminado, capaz de ultrapassar as fronteiras, barreiras ou distâncias e nem mesmo o muro de Berlim é capaz de a deter: «Ligeira como o vento, ágil como o pensamento, vence as distâncias, abre os ferrolhos mais possantes, transpõe os muros mais impenetráveis, instala-se nos lares e nos corações como uma presença benigna, fiel e amiga. (….) A Rádio vai a toda a parte; visita todos os lares e tanto se faz ouvir na humilde palhota escondida na selva, como no luxuoso palacete dos bairros elegantes».



Sobretudo em África, é sentido a sua função afectiva, como um meio que proporciona companhia e amizade: «Aqueles que vivem nas lonjuras da terra africana são os que melhor compreendem e estimam o receptor radiofónico, fabulosa criação do espírito humano que se transporta de um lado para outro, na camioneta, na mão, a tiracolo. À noite, quando o silêncio torna as trevas ainda mais densas e aviva a saudade, é ao aparelho de rádio que se recorre, na certeza de que nele encontramos um amigo sempre pronto a consolar-nos. É então ao Rádio Clube de Moçambique que, normalmente se recorre para preencher essas horas nostálgicas. A um simples toque dos nossos dedos, que actuam como varinhas de condão, a caixa electrónica anima-se, vibra, ganha alma e comunica connosco para vencer a desoladora solidão e dominar a melancolia».



A sua capacidade de estreitamento de laços, de aproximação e de interligação entre pessoas, faz-se sentir em Ultramar, fortalecendo a unidade nacional para além da dispersão territorial, sobretudo num momento de guerra fria através das ondas sonoras: «(…) É sempre consolador ouvir a voz de Portugal aos portugueses espalhados pelo mundo, mas agora, é necessário também que essa voz seja eco que nunca se apague nos corações das gentes e ao mesmo tempo tenha neles ressonâncias que não diminuam em comparação com outros ecos que também lhe chegam».



A rádio desenvolve-se enquanto meio de formar a vontade, de orientar o espírito, de conduzir e controlar a opinião pública, de convencer alguém a acreditar em algo ou a agir de determinado modo a que se chamará educação, nos casos positivos, ou propaganda, nos casos negativos, segundo Eduardo Rebelo, autor da crítica radiofónica na revista “Rádio Moçambique”. A força da rádio, o seu poder é reconhecido: «A Rádio (…) influencia, sugestiona e, desta forma, conduz (…)».



Enquanto meio acessível, imediato, úbíquo e intencional, é explorada em prol da colonização portuguesa e o RCM ao serviço do interesse nacional, moral e material: «(…) colocando-se num dos postos da vanguarda da radiodifusão em África, o Rádio Clube teve mais o mérito de servir triunfantemente a propaganda portuguesa moçambicana nos territórios do continente ao sul da linha equatorial. E como já uma vez aqui dissemos, desta obra que parece entrar por um ouvido e sair pelo outro, alguma coisa ficou: “Um eco dos apelos nos corações, um conhecimento que se aprendeu, um gosto que se ilustrou, um prazer de espírito que se firmou, um reavivar da consciência de português”. Uma contribuição positiva para a grande obra de portuguesismo e de universalidade que nesta Província nos compete realizar: a da civilização de Moçambique».



A rádio assume-se como um dos meios mais eficazes de divulgação rápida, de propagação directa das mensagens governativas. Os discursos oficiais, nomeadamente aquando de visitas ou eleições, são oportunamente difundidos através da informação que se incrementa.



Se em 1958 já há consciência da especificidade da natureza do meio com a sua linguagem peculiar - simples, natural e compreensível – nos inícios dos anos 60, a rádio inova em termos informativos, aproximando-se da vida de todos os dias: ela deixa de «(…) se confinar aos estúdios para ir às casas em que se vive e aos lugares em que se trabalha – residências, escritórios, fábricas, oficinas, etc. – e descer à rua e em todos os lugares, estuante de energia vital, acompanhar a vida, transmitindo as suas manifestações».



Sobretudo no período marcelista, a função informativa e a palavra adquirem proeminência em detrimento da função recreativa e da música (apesar desta agradar mais aos adolescentes, em Lisboa). A primazia da voz dá lugar ao que é dito e ao modo como é feito: os ouvintes «(…) preferem que lhes digam coisas que tenham interesse mesmo numa voz descolorida, a banalidades numa voz maravilhosa».



A rádio ganha vitalidade, apura o seu valor social, desempenha o seu papel no campo cívico, concentra-se no interesse colectivo e torna-se uma “porta-voz” da sociedade, assumindo a responsabilidade moral e o primado da consciência, dos valores, da opinião e da cultura: «A rádio é um instrumento poderoso na educação e formação da vontade».



Assim, ela vai para a rua, testemunha e documenta as manifestações de vida, fora dos estúdios, seja nos confins da terra, no mar ou no ar, como a transmissão da “Hora das Vedetas” feita a bordo dum Boeing 737 . «Ao longo do ano, funcionários dos Serviços Redactoriais e do quadro de locutores efectuaram mais de 3500 apontamentos de reportagem, entrevistas, etc., em serviço fora da sede».



No início dos anos 70, entre os vários factores que concorrem para que a informação radiofónica se expanda está a colaboração dos Emissores Regionais, com o envio de notícias, crónicas e reportagens. Em 1971, quando existem nove noticiários diários, a pedido da EN, é criado um serviço noticioso diário para a Metrópole. Em 1972 realizam-se três grandes reportagens fora de Moçambique: a visita do Presidente do Conselho e do Presidente da República de Portugal ao Brasil e os Jogos Olímpicos de Munique; em Moçambique, predomina a cobertura das várias visitas oficiais, como as do Governador-Geral, Pimentel dos Santos, aos distritos.



A “Voz de Moçambique” também transmite informação oficial, nomeadamente das visitas, como a do Presidente da República em Julho de 1964, objecto de 31 reportagens (19 directas – as relativas às sessões solenes - e 12 gravadas) , e «(..) está em todas as casas. Ensina e orienta em massa, todos os dias, em toda a parte, saltando fronteiras, fazendo progredir, interessando, ensinando, fazendo-se amar, conquistando corações, como é próprio deste povo amorável e compreensivo que é o povo Português. E, enquanto os ouvintes da V.M. tiverem oportunidade de escutar esta Voz, não escutarão outras… E isto porque é o Amor e não o ódio que permanece e aquece imperecivelmente o coração dos homens».



Em relação à política do espírito, que ao longo dos anos estudados se vai intensificando, alia a informação à educação. A difusão das ideias, cuja necessidade vai crescendo à medida que os ataques e contestações à política portuguesa vão aumentando, era levada a cabo por programas como a rádio-escolar, inaugurada na Metrópole a 25 de Novembro de 1960 e em Moçambique em Fevereiro de 1972, um programa para professores e para alunos, produzido pela Secretaria Provincial de Educação, mais concretamente pelo Centro de Produção Radiofónica.



A cultura e a instrução, mas também a recreação, a diversão e a distração são estratégicos na política propagandística de que o programa dirigido às Forças Armadas é exemplar. No final de 1968, mais de 60 elementos do RCM partem em direcção à Beira e a Nampula, para realizar sete espectáculos para os soldados, militares doentes e a população. A caravana conta com a Orquestra Típica de Música Portuguesa, o coro feminino e os cantores Natércia Barreto e Carlos Guilherme, entre outros - uma embaixada chefiada por Eduardo Parreira, que levou confiança e conforto moral «(…) junto daqueles homens sobre quem pesa a responsabilidade de defender a terra portuguesa ameaçada pelo bandoleirismo partido do exterior e que, heroicamente, asseguram a continuidade de Portugal na rota de Nação livre e independente».



Num contexto internacional de luta através das ondas radiofónicas entre o Ocidente e o Oriente, com uma rede radiofónica de centenas de emissores , depois da vaga de independências, designadamente a do Congo, em 1960, e da guerra nos territórios ultramarinos, desde o estalar do conflito, em Angola, em 1961, a rádio é, cada vez mais, usada como um verdadeiro soldado, em que a arma é o microfone e as balas as palavras.



A rádio transforma-se num elemento bélico, de defesa contra os ataques da propaganda comunista, como uma arma poderosa, sobretudo de propaganda, mais efectiva, por um lado, e menos perigosa, por outro. A radiodifusão torna-se, assim, um verdadeiro instrumento de contra-ataque , daí, também, o surgimento das emissões nocturnas e ininterruptas como medida de proteção contra investidas exteriores.



A necessidade de reforçar a disseminação da causa nacional cresce, ao mesmo tempo que a ideia de missão e de serviço do RCM, enquanto voz de Portugal em África, se enfatiza. Em 1970, quando o «programa de mentalização» “Hora da Verdade” é distribuído por todos os dialectos, cobrindo toda a província e se recebem lições de português em língua nativa, «(…) zonas imensas do Norte moçambicano estão inteiramente abrangidas nas áreas de influência de emissoras estrangeiras – nomeadamente as de Dar-es-Salam, Pequim, Moscovo e Cairo. Lourenço Marques não se consegue fazer ouvir (…)» , daí a urgência de se criarem postos regionais, estando nesta altura a ser montados mais sete, além dos quatro existentes.



A irradiação da mensagem nacionalista tem a atenção, ajuda e intercâmbio da EN. A Emissora oficial em Lisboa é a fonte de programas que são retransmitidos - nomeadamente os relatos de futebol -, propositados - como o “Jornal da Metrópole”, produzido pelos Serviços Ultramarinos - e para a qual são enviados programas como o “Minuto da Amizade” ou “Presença de Moçambique”, “um documentário radiofónico”, transmitido desde Maio de 1963.



Já em 1958, aquando da comemoração das bodas de prata, o delegado do RCM em Lisboa, agradece as relações amistosas e a solidariedade entre a Emissora Nacional e o Rádio Clube de Moçambique, que vêm, pelo menos, desde 1942: «Nunca será demais lembrar a obsequiosa, correcta e eficiente colaboração dos Serviços Técnicos desta emissora à sua congénere de Moçambique; nunca serão esquecidos, de igual modo, o empenho, o sentido da oportunidade e a diligência indesmentida com que os Serviços de Intercâmbio permitem manter o elevado nível artístico e cultural da programação do Rádio Clube de Moçambique; nunca nós teremos a expressão exacta para exaltar e agradecer a compreensão e o carinho com que todos os departamentos da Emissora Nacional acolhem e satisfazem os desejos da estação moçambicana para bem desempenhar a missão que lhe compete do vasto plano dos interesses do País».



Entre os principais argumentos usados durante a propagação dos valores nacionais enquanto nação multirracial, pluricultural e transcontinental, estão a harmonização, a amizade, o entendimento, a compreensão, o progresso e a pacificação: «A paz reina entre as populações autóctones e a civilização progride, onde não há muito lutas entre as tribos causavam o desassossego, mortes, violências e latrocínios».



Portugal presta não só protecção, entendimento, liberdade e humanidade, como refere Adriano Vidal, numa das suas “Notas do dia” do “Jornal da Noite”, como também o bem-estar às populações, a fraternidade racial, a sociedade multirracial (contra o terrorismo alimentado pelo comunismo) ou a transcontinentalidade: «Portugal é sempre Portugal. Não importa que o banhe o Atlântico, o Índico ou o Pacífico. Não importa que esteja situado nos Trópicos ou no Equador» . Neste contexto, a deserção é apontada como uma monstruosa traição, uma «(…) podridão moral e cívica».

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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Jornalismo social III


Hoje, precisamente, completamos cinco anos de actividade semanal contínua. Antes de interrompermos, em Agosto, regressamos às nossas origens.

Texto  Dina Cristo imagem Cais

Desde há quase 20 anos que o jornalismo público se propõe recuperar a ligação perdida com os leitores, manifestada numa crise de imprensa, após a aplicação dos valores da objectividade e falsa neutralidade e imparcialidade, decorrentes de uma má interpretação da razão iluminista, autónoma e independente, e que degenerou num distanciamento, alheamento e indiferença perante o universo do público.
Conscientes acerca do quanto se haviam afastado dos destinatários, os jornalistas cívicos apresentaram três principais objectivos: a comunidade, a cidadania e a deliberação. Pretendiam agora envolver o público, levá-lo a interessar-se pelos temas públicos, motivá-lo a informar-se sobre os assuntos mediáticos, políticos, económicos ou militares e conduzi-lo à discussão e ao debate dos mesmos.
A sua intenção – medida para o valor moral de uma acção, segundo Kant – era sobretudo comercial, a recuperação das tiragens, em queda. A proposta traduzia-se em aumentar ainda mais a presença das elites em detrimento da inclusão dos problemas das pessoas comuns na agenda mediática. Assim, se esculpiria ainda mais o fosso entre os sub-sistemas e a lifeworld - os anseios, as acções e os sofrimentos dos indivíduos na sua vida de todos os dias.
Entretanto, o desenvolvimento das ferramentas digitais e a multiplicação de possibilidades e facilidades de publicação on line pelos cidadãos elevou a desejada contribuição do público. Com a Web passou a ser possível recolher, seleccionar e publicar histórias, sem controlo por parte de qualquer profissional e “desalinhadas” dos critérios jornalísticos convencionais.
Em alguns casos as atitudes dos cidadãos ultrapassaram a pretendida participação, limitada à recolha e envio de material, nomeadamente fotográfico. Este caso - em que o trabalho voluntário do cidadão é estimulado e usado pelas empresas que mantêm o poder de seleccionar e publicar – vai um pouco mais além do que o jornalismo interactivo, em que o cidadão apenas pode intervir após a publicação dos artigos, mas fica um pouco aquém do jornalismo de cidadão, onde todo o processo de produção é realizado pelo autor, como defendia Walter Benjamin.
Nesta segunda fase do jornalismo público as acções dos cidadãos ultrapassaram as próprias empresas que se sentiram obrigadas a acolher, de uma forma mais generalizada, os materiais enviados pelo público, não sem, contudo, resistirem à perda do exclusivo de informação exacerbando ainda mais o seu controlo. Como refere Sparks(1) «o tipo de material que tem maior sucesso on line é o que remete para os problemas da elite, e a esfera pública on line encarna o mesmo tipo de exclusões que estão presentes off line, mas numa forma mais extrema».
A par do discurso propagandísticos e demagógico, que afirma estar ao serviço da igualdade, pluralidade ou democraticidade, na prática o que se verifica, como demonstrou Lincoln Dahlberg, é o aprofundamento das desigualdades - desde as mais básicas, como o desnível de acesso, às mais elaboradas, como a produção do próprio discurso -, as exclusões, do diferente e particular, e a supremacia das ideias, vozes e grupos que já são bem vistos e predominam, quer na vida quer nos sub-sistemas.
O jornalismo público, que também se afirma cívico, mais focado no utilitarismo do que nos princípios, arrastado pelo empirismo, vê, afinal, os seus proclamados objectivos, como os de religação à audiência ou de oportunidades de expressão, informação e deliberação, por exemplo, ser mais e melhor atingidos por novas formas de fazer jornalismo, resistindo perante a efectiva participação e envolvimento da audiência, o que nos leva a questionar se os seus verdadeiros interesses não são efectivamente corporativos, privados e particulares.
O jornalismo público responsabiliza a audiência pelo dever de se interessar pelos factos que habitualmente integram a agenda mediática em detrimento de assumir a recuperação de uma agenda social, a par da política e da económica, que privilegia, de se ligar, dedicar e preocupar com as pessoas, público e fontes, e seus anseios, problemas e sofrimentos, nomeadamente em relação a grandes sectores da população como pobres, mulheres, cuidadores, sofredores ou vítimas. Afinal, trata-se de temas públicos que merecem atenção e deliberação pública.

Jornalismo alternativo

Além do jornalismo de cidadão (com o caso exemplar do Indymedia), um dos três tipos ao serviço do jornalismo público, segundo Nip Joyce, existem novas formas de reportar a actualidade que dão resposta a, pelo menos, algumas das dúvidas levantadas por autores da Escola Crítica de Frankfurt, nomeadamente a segregação e discriminação de largas camadas da população inseridas na vida do dia-a-dia e ocultadas, invisíveis e silenciadas nos sub-sistemas, como a indústria cultural mediática.
As novas formas de exercício do jornalismo representam e reintegram, de forma mais atenta e cuidadosa, as partes marginalizadas pelos principais meios de comunicação social. No caso da imprensa alternativa, esta constitui mesmo uma esfera pública alternativa, onde se informam e debatem, não só em livrarias alternativas mas já em “infoshops” especializadas, assuntos preteridos pelos “media” convencionais, ligados a causas pontuais ou grupos de interesse.
Trata-se com novos canais de comunicação, com ênfase na actividade, movimento e troca, na qual experiências, críticas e especificidades se podem expor e desenvolver através do estímulo ao pensamento livre, autónomo e independente do Estado, numa relação vital com os movimentos sociais, que esta imprensa reporta, suporta e desenvolve, pela transmissão de ideias dissidentes e mesmo radicais.
A imprensa alternativa está, pois, associada a minorias, isto é, grupos sub-representados nos “media” tradicionais tendo em vista a sua expressão na vida real, como ambientalistas, anarquistas(2), feministas, jovens, operários, pacifistas, pobres ou socialistas. Introduz, portanto, novos actores sociais, oprimidos e/ou marginalizados e articula, pelo menos, a agenda política com a social, conforme defende Alicia Cytrynblum.
A imprensa alternativa não reduz o indivíduo a um mero objecto manipulado mas capacita-o para se realizar como ser humano total, preferindo integrar os seus escassos recursos na vida dos seus participantes. Não concebe o ser humano como um meio, mas com um fim em si mesmo, em sintonia com Immanuel Kant, para quem o ser humano era sagrado e, portanto, não podia ser usado por ninguém como mero meio.
Comprometida contra o capitalismo, a favor de uma vida humilde e da acção social e política tendo em vista uma mudança social, por um todo mais equitativo, tão ou mais importante do que a informação é, na imprensa alternativa, o modo de produção, em auto-gestão, em comunicação horizontal, do escritor ao leitor, a atitude e posição nas relações de produção.
Coerente com os seus valores, a participação aplica-se ao ponto de incluir os leitores nas suas decisões e ao tornar a audiência em produtora. A criação é mesmo um dos seus pontos fortes, próprio da alta cultura, com tensão e distinção, tal como explicado por Adorno, ao contrário da mera cultura de reprodução dos “media” mais reconhecidos, o mais vulgar.
Consequente, a imprensa alternativa defende a aplica os baixos níveis de finanças, direitos autorais, circulação ou distribuição ou mesmo de graus de abertura, liberdade e gratuitidade. Possui, normalmente (muito) pouca publicidade, embora seja receptiva a donativos e acções de beneficiência, nomeadamente ao nível de concertos, e realiza-se com base no voluntariado.
Actuando no âmbito descentralizado, de micro-empresa, não comercial, exerce uma organização colectiva e pugna pela diversidade, a sua essência e a sua força democrática, defende Chris Atton que cita o Oxford Institute of Social Disengineering: «uma centena de publicações com uma circulação de mil é cem vezes melhor do que uma publicação com uma circulação de centenas de milhar»(3).
Além de dar voz às partes colonizadas pelos sub-sistemas, esta imprensa permite igualmente aproximá-las quando, por exemplo, no caso das revistas de rua, como a “The Big Issue”, facilita a conversa entre compradores e vendedores (seis mil em Inglaterra), os mesmos indivíduos que ali são retratados. Nas conversas que se proporcionam, nomeadamente sobre o problema da falta de habitação, o bloqueio entre “nós”, os centrais e integrados, e “eles”, os periféricos do sistema, dissipa-se ou atenua-se.
Nestes casos as publicações promovem o trabalho, alguma remuneração e aumentam consideravelmente a auto-estima, ao contrário da imprensa regular que a diminui, instala complexos, desrespeito pela auto-imagem e adormece a identidade do público através da “chupeta electrónica” sedutora mas perigosamente alienante, manipuladora e escravizante. Ao contrário, a imprensa alternativa esforça-se por repor o princípio da justiça.
Criada e distribuída para os indivíduos para as quais existe, esta imprensa, ligada às necessidades comuns das pessoas e à vida de todos os dias, opta pela partilha de recursos, até como potencial educativo de ânimo à participação, em detrimento da determinação económica ou da competição directa com os mercados ou modos de produção da imprensa convencional.
Uma imprensa activa, motivada para o desenvolvimento, com participação directa e realização humana, comprometida com um estilo de vida simples, aberta ao confronto com o diferente, o divergente, o heterodoxo, assumindo a pluralidade e envolvimento defendidos pelo jornalismo público que, segundo Joyce Nip, pelo menos em relação ao segundo, já acontecia e com mais profundidade antes do jornalismo industrial e objectivo.

Jornalismo de paz

O jornalismo de paz é orientado para a paz, para as pessoas e para uma solução. Representa as partes em conflito com multiplicidade e variedade, perseguindo muitos objectivos e com diversas oportunidades de intervenção, reconhece que o problema do conflito pode parecer muito diferente quando examinado através de ângulos cruzados pelos que estão no terreno e está preparado para procurar e reportar iniciativas de paz, vindas de qualquer procedência.
Parte da imprensa alternativa, o jornalismo de paz, com uma implantação de sete décadas, é não só um contributo para melhor realizar os intuitos de justiça, inerentes à própria profissão, como para o seu próprio desenvolvimento ao possibilitar a correcção, desde logo, dos relatos, habitualmente mais conflituosos e agressivos do que são na realidade.
Mas não só. Este jornalismo permite rectificar o desequilíbrio de fontes sistematicamente usadas – o privilégio de informações procedentes de entidades oficiais, de elite (individual ou colectivamente) ou militares – e do predomínio da linguagem agressiva, conflituosa ou de vitimação.
O novo paradigma emergente dá mais atenção às fontes orientadas para o povo, a vida concreta e real. Jake Lynch cita John Paul Lederach, que afirma nunca ter experienciado nenhuma situação de conflito em que, frequentemente emergindo da sua experiência de sofrimento, não tenha encontrado uma pessoa com visão de paz.
Estas pessoas, as suas acções, pensamentos e sentimentos, não deixam de ser prezadas pelo jornalismo de paz pelo facto de não possuírem poder político ou influência económica. Aliás esta imprensa não ignora as tentativas, os esforços e as propostas no sentido da harmonização social, para a qual contribui através de uma linguagem cuidadosa e de critérios que não “inflamem” ainda mais os conflitos.
Mas o aperfeiçoamento propiciado pelo jornalismo de paz verifica-se igualmente no reequilíbrio dos fluxos de informação a nível internacional, tal como recomendado no relatório de MacBride, há cerca de 30 anos, bem como no melhor nivelamento entre o que mais tem sido omitido, o construtivo e benéfico, e o que é repetido, o destrutivo e maléfico para uma grande quantidade de pessoas e países na base da pirâmide do poder.
De igual modo o jornalismo de paz evita o erro de fazer equivaler ou substituir a parte, a citação oficial, pelo todo, o acontecimento no espaço e tempo físicos, com múltiplos ângulos, diversos intervenientes e várias motivações. Também não tenta dissipar, ocultar ou dissolver artificialmente eliminando os conflitos, que se estendem pelo mundo, do discurso mediático ou reduzindo-os à insistência dos que mais intimamente se relacionam com interesses restritos.
O apuramento da actividade informativa traduz-se ainda na estima e carinho quer pela audiência - a quem se evita os efeitos de stress, causados pelo jornalismo de guerra – quer pelas fontes civis, como as Organizações Não Governamentais (ONG), a quem se previne a discriminação e desconexão, pela subserviência do sub-sistema informativo em relação ao sistema capitalista.
Esta pesquisa e reportagem das propostas, respostas e acções não violentas constitui um desafio às relações de dominação e opressão, baseadas precisamente na violência sistémica, como lembra, entre outros autores, Theodor Adorno. Trata-se de uma abordagem mais profunda, completa e contextual, tal como também defendido por Alicia Cytrynblum.
Até aqui têm prevalecido critérios de noticiabilidade - como a negatividade, o conflito, a morte, a notoriedade, a amplitude, a frequência, o inesperado, a clareza, entre muitos outros - com consequências designadamente ao nível da preferência pela cobertura de guerras e acontecimentos extraordinários, que têm como protagonistas pessoas e países de elite, com um grande número de indivíduos ou que se adequam bem ao planeamento e agendamento de notícias.
Estes critérios - além dos valores da objectividade, neutralidade e imparcialidade, que têm conduzido ao afastamento e à indiferença, entre público e jornalistas - têm vindo a ser cada vez mais contestados pelos activistas mediáticos, fontes, jornalistas, audiência, investigadores, e a própria ONU, que pretende criar um Banco de “Media” como forma de fomentar o jornalismo de paz e uma ética mediática a nível global.
A discussão está presente na teoria, com a ética do cuidado a defender a expressão da subjectividade, até aqui (auto)censurada, incluindo tomadas de posição – diferentes da parcialidade - e na prática, através do jornalismo de paz, cujo fundador é precisamente Johan Galtung, que nos anos 60 sistematizou as escolhas de noticiário estrangeiro e nos anos 90 se orientou mais especifica e directamente para o jornalismo de paz.

Jornalismo social

No caso do jornalismo social - uma disciplina emergente, como afirma, no seu livro, a jornalista Alicia Cytrynblum - alguns critérios são usados para mostrar a relevância dos assuntos sociais, que têm impacto, proximidade, interesse humano e importância económica, social e cultural, além de representarem o poder das pessoas comuns face ao Estado e às empresas.
A agenda social faz parte de uma trilogia constituída pelas bem conhecidas agendas políticas e económicas. Ignorar o tecido social, seus líderes e acções sociais é um erro que decorre da dependência dos jornalistas face ao poder instituído (dos sub-sistemas da burocracia e do capital) e que os levou a afastarem-se do seu papel original de mediadores equidistantes entre governantes e governados, informando em ambos os sentidos e não apenas na direcção da elite governativa para a massa eleitora.
É motivação do jornalismo social a articulação entre as três agendas, o que significa fazer a necessária e sublinhada, pela análise crítica, ligação entre os sub-sistemas (políticos e económicos) e a lifeworld. É próprio do jornalismo social somar novas fontes, como as ONG, ouvir as vozes dos directamente atingidos – como adolescentes, crianças, deficientes, mulheres ou pobres – e relatar a sua perspectiva, contribuindo para o seu conhecimento e reconhecimento público com impacto ao nível da representação e do imaginário social.
Alicia Cytrynblum lembra que o jornalista é o guardião do vínculo entre o poder e os cidadãos e que deve ter presente não apenas o seu papel social mas igualmente a sua função pontifica, de religação, fundamental não só para a recuperação da crise de imprensa e um dos propósitos do jornalismo público, mas também para a própria organização sistémica, que se tem vindo a desagregar, a fragmentar e a distanciar cada vez mais.
Segundo sustenta o jornalismo social, é inerente à profissão tornar visível ao poder o que para este está invisível: «Se estes [os actores sociais] participam na notícia devem ser incluídos na cobertura. Se foram omitidos será tarefa do jornalista denunciá-lo claramente»(4). Não se trata de transformar o profissional em porta-voz das causas sociais, mas antes de ser de tal forma independente que não as abafa ou amputa da representação pública, quando estas possuem uma dimensão tão ou mais importante que as demais.
Na Argentina há mais de 460 mil empregados no terceiro sector e mais de 80 mil organizações sociais, entidades de bem público que constituem uma rede social, por todo o lado, que, entre outras coisas, gera emprego e defende os direitos das minorias representando o interesse social, repleto de pessoas que fazem coisas, às vezes heróicas, por outros, e que congrega o tecido social e a acção social da sociedade civil.
Ora a independência, para além das condições proporcionadas pela empresa na qual se exerce a profissão, é construída, é uma decisão pessoal que faz parte da responsabilidade individual de cada jornalista. Tal pode efectuar-se não apenas na soma de novas fontes mas também no uso mais atento, cuidadoso e adequado das palavras, em especial dos adjectivos, sobretudo quando relativos a pessoas já desfavorecidas ou estigmatizadas.
A dedicação dada às palavras, instrumentos de trabalho, não só eleva o nível de rigor com que se reporta a realidade como se traduz num esforço para espelhar a vida - em vez de a obscurecer, distorcer, manipular ou censurar, extirpando-a da percepção pública – e evitar a reprodução de pré-conceitos e estereótipos que reduzem o todo à parte assim redefinida, como explica Adorno.
A preocupação colocada na linguagem usada reflecte o respeito pelos indivíduos enquanto seres humanos, designadamente os noticiados, considerados na sua dimensão humana, integrando as suas possibilidades e potencialidades, em detrimento das suas condições pontuais de eventuais dificuldades ou incapacidades. Assim, não se trata de “pobres”, por exemplo, mas de “pessoas em situação de pobreza”.
Pode parecer um pormenor subtil mas altera o ângulo perspectivado: «São imensas legiões de pessoas a quem se prejudicou o acesso ao trabalho digno, à saúde, à educação e à habitação, entre outros direitos. Quer dizer, a pessoa pobre é uma vítima do sistema económico, nunca o vitimador. É a consequência, nunca a causa. Neste sentido os meios de comunicação e os jornalistas devem ser cuidados no enfoque ideológico das coberturas»(5).
Uma das características da imprensa social é precisamente a compreensão, explicação e contextualização dos fenómenos, a descrição das suas causas - frequentemente associadas a razões políticas e económicas - o seguimento das notícias e a pesquisa de soluções já empreendidas por alguma entidade nacional ou internacional, não se limitando à denúncia dos problemas sociais, ao relato isolado, fragmentado e objectivado, como acontece através da mera apresentação de números, taxas e estatísticas.
O jornalismo social prefere, pois, a profundidade, a abrangência, ao impacto imediato, estéril e paralisante. A informação sobre as alternativas disponíveis ou concretizadas para resolver o problema altera a percepção (da falta) de empenho das entidades responsáveis e mobiliza a audiência para a co-responsabilidade social, a acção concreta, a beneficiência, como defende a ética do cuidado.
Além do mais os problemas sociais não são um espectáculo. No jornalismo social vigora o princípio da prudência – um valor inerente à responsabilidade social e à máxima do amor de si que, segundo Kant, deve ser, de acordo com a lei moral, estendida ao outro – poupando não só o sofrimento gerado ao nível da audiência (como vimos ao nível do jornalismo de paz) mas também a quem é objecto de atenção mediática, nomeadamente em secções policiais.
Naqueles casos, Alicia Cytrynblum defende que o tratamento da informação deve ser baseado nos direitos humanos, evitando o seu uso estratégico para fins de controlo das massas - através do medo, do terror, da desestabilização, da insegurança, para assim melhor obter o consentimento para políticas mais agressivas, vigilantes e violentas - ou para gerar audiência, através do instinto da morbidez. Uma forma de actuação mais independente, activa e consciente que se nega a ser usada como meio para a construção de um sujeito vulnerável, amedrontado, controlado e subordinado.
Tal como o jornalismo de paz, o jornalismo social empreende um esforço no sentido do desenvolvimento do jornalismo, até aqui demasiado envolvido com os campos políticos e económicos, e da sua correcção - da distorção, do enviesamento, do deslocamento (que acompanhou o das próprias identidades) ou da exclusão de partes essenciais.
No caso da discriminação das ONG - quando estas são fontes percebidas pelo público pelo seu grau de independência, inovação e, fundamentalmente, confiança - em detrimento de outras, consultadas quase em exclusivo e nas quais a audiência não acredita, não só afasta os leitores, que não se revêem nos temas e ângulos tratados, como agrava a crise de imprensa. Além de poderem contribuir para a recuperação da credibilidade e pluralidade jornalística, as ONG são fontes de novos actores, líderes, ideias, temas, métodos e acções sociais, produzindo também informações relevantes.
Ao cumprir o seu papel social, ao comprometer-se com os processos sociais, o jornalismo social não só fortalece a democracia como colabora activamente na participação – uma reivindicação do jornalismo público e uma necessidade identificada pelas investigações teóricas de (re)tomar parte na representação pública, dada a sua importância e influência, nomeadamente em termos sociais.
O jornalismo social não negligencia a questão comercial, mas a verdade é que consegue aumentar as audiências sem prescindir dos princípios de cidadania e de serviço aos cidadãos – pelo que lhes fornece os dados necessários para poderem contactar directamente as fontes - capacitando-os, ao contrário do jornalismo público que, ao insistir nas obrigações da audiência e descuidando dos seus interesses, cada vez mais a perde.
O jornalismo social assume uma ideologia - como a democracia ou o desenvolvimento sustentável - promove a acção comunitária e tem a preocupação de compreender e de respeitar(6) a dignidade das pessoas envolvidas, difundindo os seus direitos e confirmando as informações transmitidas, atendendo e cuidando em relação às perguntas, aos enquadramentos ou ao uso de linguagem inclusiva e não violenta.
O jornalismo social (re)conhece a importância da agenda social sem, contudo, exacerbar a solidariedade nas notícias. Não se limita à mera informação, argumentativa e agressiva, à discussão de mente a mente, própria do hemisfério esquerdo, antes contribui para promover a comunicação, bidireccional, a comunhão - a constituição de comunidades fluentes, coesas, integradas e identificadas - e a inclusão da linguagem do amor, de coração a coração, própria do hemisfério direito.
A linguagem e acção amorosas, mesmo ao nível público e profissional, como defende a ética do cuidado, não deixam de corresponder às exigências de verdadeira liberdade, moralidade, autonomia e independência de uma razão esclarecida e não distorcida pelas inclinações, interesses ou necessidades empíricas. Equivale à acção virtuosa, o cumprimento da lei por amor dela - sendo que a lei das leis é precisamente o amor ao próximo - sem qualquer interesse pessoal, o que constitui, para Kant, o soberano bem.
Além de ajudar a implementar esta comunicação veramente racional – o que inclui a expressão da subjectividade, unificadora de todas as multiplicidades e, assim, verdadeiramente discernida, pura, genuína, livre e independente – a sua conduta concretiza diversas aspirações de outras tipologias de jornalismo, nomeadamente o jornalismo público, alternativo e de paz, que vimos, mas também realiza a própria natureza da profissão, presente desde logo na sua designação enquanto “meios de comunicação social”.
A dimensão social, presente na vida de todos os dias mas até aqui ocultada, silenciada e amputada da indústria cultural, é, agora, resgatada pelo jornalismo social que, assumindo a sua missão social e estando atento à nova ordem social e às reivindicações de expressão, representação e participação públicas das largas camadas de população colonizadas, não deixa de abordar questões como a política social, os valores sociais, a economia social ou o capital social.

(1) SPARKS, Colin – The Contribution of Online Newspapers to the Public Sphere: A United Kingdom Case Study in Trends in Communication 11(2), pág.111-126. citado por NIP, Joyce – Exploring the second phase of public journalism in Journalism Studies, vol.7, nº2, 2006, pág. 231. (2) No Reino Unido, os anarquistas são responsáveis por 25 publicações alternativas e 12 editores.  (3) ATTON, Cris – A reassessment of the alternative press in “Media, Culture & Society”, Sage Publications, London, 1999, vol.21, pág.64. (4) CYTRYNBLUM, Alicia – Periodismo social – Una nueva disciplina. La Crujía Ediciones. 2004, pág. 69. (5) Idem, pág.115. (6) Segundo Kant, este apenas se dirige a pessoas, sobretudo quando cumprem a lei moral, ao contrário da admiração e do amor.

Bibliografia: ATTON, Cris – A reassessment of the alternative press in “Media, Culture & Society”, Sage Publications, London, 1999, vol.21, pág.51-76. CYTRYNBLUM, Alicia – Periodismo social – Una nueva disciplina. La Crujía Ediciones. 2004. LYNCH, Jake – Peace journalism in ALLAN, Stuart (editor) - The Routledge Companion to News and Journalism. London and New York, 2010, p.541, p.543-553. NIP, Joyce – Exploring the second phase of public journalism in Journalism Studies, vol.7, nº2, 2006, pág.212-236.

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