quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A Comunicação (Ir)racional




Texto e fotografia Dina Cristo

O sujeito iluminista possuía uma identidade baseada na razão. Um núcleo interno, inato, central, que lhe permitia conhecer a sua essência, sintetizando, assim, de forma coerente, as suas várias características. Era, por isso, uma identidade una, completa, segura, estável, fixa e auto-suficiente.

O auto-conhecimento, através da razão, permitia a este sujeito, com um sentido de si mesmo e do seu lugar no mundo, ser autónomo e soberano. Uma personalidade, assim fundada na mente, era, pois, real, individual - única, singular, distinta – imprevisível e, contudo, univeral. Uma absolutização cultural, para Stuart Hall, ligada à trans-historiedade.

A Razão Pura, esclarecida e genuína, conduzia à autonomia, à liberdade, à verdade e ao desenvolvimento humano. Por isso Immanuel Kant defendia o racionalismo, o universo da razão, do entendimento e das Ideias, dos conceitos “a priori”, do ser em si - o númeno, a unidade e a essência dos objectos.

Este mundo inteligível, livre das inclinações, e, deste modo, desinteressado dos fenómenos, permitia a ordenação (dá ordem e hierarquiza), a elevação e, apesar do inicial sofrimento (para além do conflito com as paixões, a razão pura danifica o amor de si, a benevolência, e aniquila a auto-complacência), depois o vero auto-contentamento e mesmo felicidade (a harmonia da sua natureza com a sua vontade).

O Supra-sensível é, pois, a voz celeste, intuitiva e sintética, do mundo interior, simples e pura, que julga de forma livre, independente e autónoma. O reino dos princípios e predisposições, do arquétipo – divino - onde reside a lei, a moral (e a lei moral), o dever, a virtude e o bem, que o ser humano deve (per)seguir.

Tal dimensão da vontade, necessária e causal, é fonte central e unificadora, o todo que inclui efectivamente todas as partes. Um plano de consciência, geral e mesmo universal, sem fronteiras, incondicionado e real, onde se manifesta não apenas a comunhão e a compreensão mas uma comunicação com livre arbítrio e racional.

Ora um dos principais cuidados de Kant, no seu livro “Critica da Razão Prática”, sublinhados no prefácio e na conclusão, é precisamente a distinção entre o racionalismo e o empirismo e a atenção para que não se tome o condicionado, o mundo sensível, pelo incondicionado, o mundo supra-sensível.

Ao contrário do mundo da razão, o dos sentidos - da sensibilidade, das sensações, dos impulsos, das inclinações, das paixões – é aparente, ilusório e enganador. É o plano do ser para nós, dos fenómenos, das acções, dos objectos e das experiências. Não já o mundo da essência, dos arquétipos e das causas, mas da existência, das cópias e dos efeitos.

Trata-se, pois, da voz terrestre, das disposições, humores e desejos, que rebaixa o sujeito e o mantém dependente e constrangido pelas necessidades de prazer imediato, a princípio cativante, mas trará, contudo, auto-censura, culpa, arrependimento e sofrimento, em especial nos prazeres inferiores e tratando-se de um sujeito com sentimento moral.

Um universo degradante, caótico, irracional, periférico, fonte de exigências dos direitos, da formulação de máximas, onde o sujeito se desorienta com os seus interesses, fins e objectivos, submetido à percepção, limitada, do plano empírico – exterior, diverso, contingente e condicionado - que embrutece e ensombra o seu entendimento e acção.

Com a modernidade, a razão - antes pura, genuína e virtuosa, do iluminismo – degenerou, desvirtuou-se e, degradando-se numa razão impura, instrumental, calculista, obscurecida e embrutecida, perverteu-se num meio para atingir os interesses, particulares e egotistas. A complexificação das sociedades, o êxodo rural para as cidades, a industrialização, nomeadamente ao nível cultural, o capitalismo e as nacionalizações foram algumas das contribuidoras para que a razão impessoal e livre do mundo inteligível fosse distorcida, enfraquecesse e recuasse.

O sujeito moderno, ao emigrar para a cidade, afasta-se da sua cultura tradicional, ligada à região e ao local, à religião e ao sagrado, ao passado e à memória, à co-presença e ao simbólico. Deslocado, nas cidades desconhecidas, ali se exila e isola, transforma-se em mais um sujeito anónimo e atomizado na massa citadina.

Analogamente, a identidade, antes interna, una e auto-suficiente, se exterioriza, descentraliza e desagrega. Com uma ênfase cada vez mais colocada na relação social - reflectida ao nível de vários ramos científicos - o indivíduo vai-se alienando, afastando cada vez mais não só de si mesmo e da vida, mas também, paradoxalmente, dos outros e dos objectos, numa relação crescentemente mediada.

Desvinculado e vulnerável, progressivamente exposto ao mundo social, público, técnico e mediático, o indivíduo substitui a tensão própria da tese e antítese identitárias, que permite a síntese integradora, por propostas vindas do exterior, já pré-fabricadas e padronizadas, prontas a adquirir imediatamente.

A sua identidade, distante do seu núcleo interno, de onde é progressivamente desalojada, enfraquece e torna-se cada vez mais dependente dos vários modelos difundidos, tornando-se cada vez definida social, historica e heteronomamente, mais nacionalizada, submetida à influência de padrões estranhos que se vão entranhando, infiltrando e penetrando.

Trata-se de um relativismo cultural, de indivíduos que se vão traduzindo, assimilando e homogeneizando, tornando-se mais permeáveis a um poder de influência que vai suprimindo as suas diferenças - de forma regressiva, agressiva e coersiva – dissipando e convertendo-as em características mais estáveis, previsíveis e, assim, manipuláveis.

O seu ser real e coerente vai-se desmoronando, substituindo por múltiplas possibilidades de ser, descontínuas e variáveis, às vezes contraditórias e mesmo inconciliáveis – que o dividem. Ao mesmo tempo que se vai afastando da sua natureza humana e racional, o indivíduo vai-se aproximando, seduzido, do alheio e objectivo, que vai integrando e (re)conhecendo.

A indústria cultural, através da informação, entretenimento e publicidade, vai regulando e “disciplinando” o sujeito, amputando dele certos traços, através da crítica, ridicularização ou invisibilidade, e ampliando outros - modelos pré-determinados, uniformizados e ilusórios de parecer - que vão sendo repetidamente representados.

Esta forma mediatizada de contacto com outras formas de “dever” ser, que rebaixa o sujeito, o estigmatiza, deprecia sua auto-imagem e instala nele complexos (ao contrário do psicanalista que os tenta retirar), estimula o sensacional e a infantilidade, e excita a tal ponto as motivações utilitaristas e empíricas que o indivíduo se torna incapaz de compreender as racionais.

Um sub-sistema que captura e transforma a consciência do indivíduo - submetendo-o ao consumo de signos, seduzindo-o pela imagem, fascinando-o com (as enganosas facilidades de) a técnica – e o vai envolvendo, dominando e controlando, transformando-o num ser adormecido, passivo e prisioneiro - numa escravização ‘desejada’ pelo sujeito e planeada pela indústria.

A indústria cultural, sub-sistema do Sistema Capitalista, não apenas fabrica produtos como também produz audiências e é ela que(m) dirige, define e delibera personalidades, desejos e objectos; opiniões e decisões assim induzidas que são, na verdade, falsas escolhas, além de irracionais e previsíveis, como vimos.

Esta baixa cultura industrial, que oferece satisfação sensorial imediata, concretizada na televisão banal, por exemplo, é a manifestação de uma razão embrutecida e estratégica que, obscurecida pelos interesses, neste caso comerciais, assim conquista as audiências massivas, às quais submete uma falsa homogeneidade, consonância e abstracção.

Na verdade é uma uniformização, conseguida pela extirpação das partes, diferenciadas, específicas, que assim se vão ocultando, silenciando e discriminando. Uma marginalização, separatista e anti-comunicativa, que, tal como na personalidade do indivíduo, ocorre igualmente entre os próprios sub-sistemas - Governo, Mercado e “Media”, burocracia, capital e técnica - que se distinguem e valorizam, nomeadamente através dos seus líderes e especialistas, e da lifeworld, a vida de todos os dias, onde ocorre a interacção social e se movem os generalistas.

A razão, assim distorcida, em vez de integrar e sintetizar, unindo, analisa, desintegrando e separando. Evidencia e salienta umas partes, que a reproduzem, e abafa e desautoriza outras, que a criticam, ou ameaçam, pela alternativa que constituem. É, pois, uma razão totalitária, hegemónica, que coloniza, hoje, corporativamente.

Com origem na vida orgânica, da qual se destacaram, as partes sub-sistémicas “autonomizaram-se” de tal forma que passaram a ser confundidas com o próprio todo, que copiavam, representavam e duplicavam, primeiro e depois passaram a impor a sua supremacia, redefinindo o dia-a-dia, sem consentimento, embora de forma condescendente, consequência das suas estratégias de propaganda e manipulação. Eis a razão sensível a agir, como criticava Kant, tomando o falso pelo verdadeiro, o aparente pelo real, a parte pelo todo.

A princípio a ambição de se distinguir e sobrepor, de se diferenciar, levou os sub-sistemas a criarem palavras, signos, códigos, canais, linguagem, discursos e representantes – cada vez mais técnicos, especializados e complexos – promovendo a graduação, a estratificação e a desigualdade e, simultaneamente, rejeitando largas camadas da população que os ignoravam.

Trata-se das maiorias, sub-representadas nos sub-sistemas, incluindo o mediático, mal ‘traduzidas’, assim, em minorias. Uma perversão proporcionada por uma mente astuta, mas não inteligente, que, além da falsa equivalência, porque redutora, e da invasão da vida doméstica, familiar e social, sobrepôs códigos e regulamentações com soluções estandardizadas à livre troca de argumentos, própria da negociação linguística, para partilha, entendimento e consenso, dada a real diferenciação especificamente humana.

Uma vez mais, a razão sensível age condicionada pelas condições e ambições empíricas e, seduzida pela facilidade e falsidade (nomeadamente técnica e comunicativa), prende-se nela, comprometendo o seu desenvolvimento, superação e elevação humanas. Em vez do conceito, das categorias apriorísticas de Kant, a razão concreta baseia-se em preconceitos, algo que parece ordenar, estabilizar e dar segurança perante o desconhecido mas que constitui uma forma de conhecimento redutora, superficial, que priva da verdadeira compreensão do mundo, das coisas e do seres.

O sub-sistema cultural, ao mesmo tempo que reduz, nega e despreza o verdadeiro - seja em relação à identidade, à vida quotidiana, às maiorias sociais ou mesmo à razão discernida – expande o falso ou falsificado, a hiper ou pseudo-realidade, abusando da eficácia sub-consciente da imagem, tornando o espectáculo, antes próprio do entretenimento, cada vez mais disperso e difuso, injectado na informação e derramando-se pela vida de todos os dias.

A personalidade do indivíduo está tão enfraquecida e a simulação é de tal forma preparada e planeada que a cópia, a parte, não só se parece cada vez mais com o original, o todo, como corre o perigo não apenas de se lhe sobrepor mas mesmo de o destruir, o que significa deixar de haver simulações para passar a existir simulacros, signos já sem referentes, imagens às quais já não corresponde qualquer objecto, sujeito ou acontecimento.

Na formação das nações, as diferenças tribais, linguísticas e culturais foram suprimidas pelo uso da força, violência e barbárie, que impôs o predomínio de uma língua vernácula sobre todas as outras, de um destino comum aos demais, de uma falsa narrativa unitária sobre as divergências. O sistema nacionalista e capitalista, com a sua super-estrutura ideológica ubíqua e panóptica, passou a oprimir, a vigiar e a policiar.

As expressões assim bloqueadas, forçadas para um pressuposto consensual de fundo, constituíram uma repressão ocultada que destruiu o processo de comunicação. A comunicação democrática, baseada na simetria, na igualdade de oportunidades de expressão e na reciprocidade, na livre troca de argumentos, com base em informação genuína, não deturpada e sem coação, é eclipsada sobretudo quando a imprensa privilegia determinados indivíduos, líderes e especialistas, em detrimento da audição dos directamente afectados.

Autores como Habermas, Adorno ou Lincoln Dahlberg asseveram a existência de uma desigualdade estrutural, de uma violência sistémica – um problema criado pela arrogante razão sensacionalista, má juíza em causa própria, que esconde a lógica conservadora, reprodutora, brutal, opressora, exclusiva, parcial e desigual através de um discurso retórico onde propaga ser o oposto: inovadora, criativa, prazerosa, livre, inclusiva, plural e igualitária.

Os sub-sistemas propagandísticos disseminam de forma tão permanente, cruzada e continuada a ideia de que o Sistema encarna a liberdade de expressão e de que não pode ser alterado sem a sua perda que faz as alternativas e dissonâncias parecerem vagas, irrealistas, indesejáveis, impossíveis ou impensáveis, depreciando-as em programas de humor, autêntico alívio pré-determinado para a sua própria violência.

Embora funcione num registo individualista, consumista e capitalista, difundindo tais significados e discursos, a sua auto-propaganda dissemina a ideia de que é altruísta e se move ao serviço da audiência e não dos seus interesses mercantilistas. Uma razão poluída que se afirma central e geral, um “nós”, sendo, na verdade, periférica e particular, um “eles”, como lhe chamam as pessoas comuns no seu dia-a-dia.

Tal designação demonstra a separatividade, o distanciamento, o fosso que os sub-sistemas, produtos da razão distorcida, provocaram no indivíduo - cada vez mais excêntrico, escravizado e dominado pelos meios técnicos, que se tornaram um fim, e pela mente objectiva, que se converteu num meio - cada vez mais carente, incompleto e alheado, numa perseguição astuta, impulsiva e narcísica de conquista dos seus desejos, como sensação compensadora.

Contudo, das largas maiorias reais, assim oprimidas e reprimidas, barradas na sua entrada no discurso mediático, nem todas foram assimiladas, destruídas e eliminadas. Algumas, em transição, desapegadas das raízes culturais mas também resistentes à assimilação, mas sobretudo as tradicionais, irrompem através dos movimentos sociais dos anos 60, da globalização e da Web.

No pós-modernismo, as identidades ocultadas e abafadas das vozes, grupos, géneros ou etnias, até então ignoradas, reivindicam doravante representação adequada e justa no espaço público e mediático. Um anseio de reconhecimento por parte do todo, preservando as suas diferenças, reclamando a reconstituição, reunificação e recuperação da essência, do fechamento e da coesão originais.

Uma resposta, a ocidente e a oriente, dos mais puristas, tradicionalistas e fundamentalistas, à segregação como reacção às vagas migratórias, fascinadas pelo estilo de vida e produtos ocidentais publicitados por uma indústria cultural, cada vez mais internacional, e pela maior interdependência cultural.

Agora sem fronteiras, a indústria cultural global, aumentou a sua capacidade de penetração, elevou ainda mais a oferta de múltiplas identidades possíveis, incrementando, paralelamente, identidades cada vez mais fragmentadas, descentralizadas, desagregadas e isoladas.

O mesmo sistema, ao criar novos meios, digitais, reforça os efeitos anteriores de supremacia e imposição, por um lado, e de despersonalização e menoridade, por outro, acentuando a desvinculação do lugar e da co-presença e intensificando a abertura ao estranho e cada vez mais distante, o “ausente”, confundindo o indivíduo, uma vez mais, a interacção comunitária virtual com a experiência de comunicação e solidariedade que almeja.

A Web, particularmente a Web 2.0, que para os entusiastas, serviria de oportunidade para reequilibrar o desnível existente entre o sistema, o on line, e o mundo da vida, o off line, segundo Lincoln Dahlberg não só não diminuiu como, além de se manter, se agravou. Numa nova economia da atenção, onde a (in)visibilidade é determinante, os que já eram bem vistos passaram a sê-lo ainda mais, quer no sentido literal quer simbólico.

O novo sistema passou a ser, assim, uma oportunidade para aqueles que já (pre)dominavam - social, económica e educativamente - aumentarem as suas vantagens competitivas e oportunidade nenhuma, nem mesmo de melhorar as condições de vida, como defende o autor, das largas camadas de população que nem sequer têm as condições mínimas para lhe aceder, como infra-estruturas, equipamento, electricidade, competência ou tempo.

A nova geração Web aprofunda ainda mais o fosso não só em termos de acesso mas também de participação, uma vez que a actividade na Web, para os que têm acesso, se limita maioritariamente à reprodução, à retransmissão ou imitação dos principais “mass media”, revalorizando, assim, as ideias já bem notadas. Mesmo no campo da blogosfera são residuais os «vloggers», “bloggers” que conseguem ter uma audiência relevante, enquanto os «floggers», pagos por corporações para publicitarem os seus produtos ou serviços sem o conhecimento do público, pululam.

Acentua-se o desequilíbrio entre os que têm condições, competência e poder, nomeadamente económico, e criam, produzem, actuam, decidem se e quando querem ser vistos, e os que não o tendo se limitam a copiar, a disseminar, a consumir passivamente e a ser monotorizados, vigiados e controlados nas suas pesquisas, compras e perfis, agora reconstruídos pelas grupos empresariais de “media” e telecomunicações e vendidos às empresas de publicidade.

De forma acentuadamente refinada e cada vez mais sofisticada, as corporações dominam, controlam e manipulam os cidadãos, seduzidos com as aparentes facilidades, vantagens imediatas e prazeres instantâneos, quer ao nível dos conteúdos, licenciados, quer da forma, através de códigos ou termos de uso, e também dos dados pessoais armazenados, obtidos através dos registos obrigatórios dos “cadastrados” para acesso aos “domínios”.

As diferenças também se salientam entre os proprietários, grupos que não têm em conta o interesse público, o Bem Comum, e os que são abusados, explorados e expropriados, nomeadamente quando fazem trabalho voluntário que, em última instância, não lhes pertence e, anonimamente, contribuem para fomentar grandes audiências, baseadas num número restrito de fontes, com a supremacia de conteúdos comerciais e profissionais, ainda que presentes em menor quantidade, como é o caso do You Tube.

O sub-sistema técnico e cultural actual, digital, é pois mais um meio do mesmo Sistema se impor, dominar e discriminar os indivíduos, fascinados, dependentes e isolados. O hiato entre os que integram ou se adaptam aos sub-sistemas e os que deles permanecem distantes, ignorados, desprezados, abusados ou rejeitados reflecte-se na vida orgânica, agravando o seu desfavorecimento e empobrecimento, designadamente em capital social, económico ou digital.

As ferramentas e plataformas que a Web 2.0. traz consigo, além da referência, exemplo e esperança da Wikipédia - como comunicação significativamente mais livre, voluntária, autónoma, cooperativa, colaborativa, produtiva, aberta, disponível e, portanto, mais justa - não estão a ser suficientemente usadas e ocupadas, pelo que as promessas dos cyber-libertários, como lhes chama Dahlberg, de ultrapassar as desigualdades, estão ainda por cumprir.

Lincoln Dahlberg confia que, ao contrário das outras diferenças, as de poder, ligado ao discurso, são reversíveis. O mesmo signo, linguagem, logos, “medium”, representação que até aqui serviu, mal usado ou interpretado, para obstruir, barrar, separar servirá, bem usado e compreendido, para fluir, ligar e reunir as partes cindidas, num todo coeso, completo e integral.

De igual modo, Habermas defende que a via, o caminho seguro para a emancipação social é a comunicação racional. Ultrapassar a escravidão de extensas massas de população e atingir a libertação, a expressão de uma subjectividade, personalidade e identidade até aqui sufocadas, abafadas e censuradas, será possível se a razão impura - deturpada pelos sentidos, sensações e ambições, zeladora dos seus interesses particulares em detrimento do conjunto – se submeter a uma razão superior, mais pura, unificadora e universal, que efectivamente religue e integre todas e cada uma das partes no mesmo centro, sintetizador e não discriminativo.

Até aqui, a mente esperta mas não desperta, calculista e interesseira, desvirtuada e descuidada manifestou-se em diferentes áreas. Ao nível da imprensa, esta degeneração concretizou-se na maximização da presença do objecto e na minimização da marca do sujeito, reflectindo, também aqui, a sujeição do profissional aos factos, às coisas, aos acontecimentos empíricos.

O jornalismo industrial adoptou, por auto-defesa, uma falsa imparcialidade, fragmentando, descontextualizando, desideologizando e desidentificando, motivado por finalidades comerciais de aumentar as tiragens, expandir as vendas e aumentar significativamente as audiências. Chamou-se-lhe objectividade.

A repressão dos sujeitos, abafados e ocultados, na sua personalidade, identidade e expressão, ocorreu não apenas com a audiência e as fontes – foram privilegiadas as que possuíam um discurso ofensivo, agressivo, competitivo, militar e oficial, em detrimento dos actores sociais, com um discurso e uma prática mais inofensivos, cooperativos e pacifistas - mas igualmente com os profissionais que passaram, nas fábricas de notícias, a assumir parâmetros de neutralidade.

Em resultado dos critérios definidos também o jornalista se foi alheando, distanciando e tornando-se cada vez mais indiferente aos outros sujeitos, quer fossem fontes, temas das suas narrativas ou leitores, não sem gerar, contudo, um conflito de identidades, entre a profissional, desautorizada e reprimida, e a pessoal, cada vez mais ansiosa por conhecer, aproximar-se e relacionar-se com o outro, como mostram Linda Steiner e Chad Okrusch.

Desde há quase 20 anos que os efeitos foram detectados: uma crise de imprensa equivalente à da vida política, com o público, no primeiro caso, e os eleitores, no segundo, a afastarem-se, a desligarem-se e a ficarem também eles indiferentes às respectivas agendas, mediática e política. Encetaram-se, então, com o jornalismo público, esforços no sentido de recuperar a ligação, a conexão e a atenção perdidas.

Estas são três características fundamentais da ética do cuidado, que propõe precisamente a expressão da subjectividade aprisionada, agora livre para publicar a sua posição. Como afirma Martin Bell, o jornalismo de religação é “um jornalismo que cuida tanto quanto relata; que está consciente das suas responsabilidades; que não se manterá neutral perante o bem e o mal, o certo e o errado, a vitima e o opressor”(1).

Não se trata, contudo, de uma reafirmação de ainda mais parcialidade mas, pelo contrário, da verdadeira imparcialidade, desinteresse ou interesse colectivo – a defesa do Bem Comum. Uma Subjectividade inerente ao campo privado, da autonomia e da auto-regulação, correspondente a uma razão mais despoluída e discernida, que possibilitará a transição da opressão para a expressão, da exclusão para a vera inclusão e da diferenciação para a igualdade perante a lei moral.

Segundo o tratado “Crítica da Razão Prática”, de Immanuel Kant, a lei moral, universo do racionalismo, ordena o cumprimento dos deveres, do soberano bem, a moralidade - a predisposição de ânimo de acordo com o espírito da lei, por amor dela - e não a mera legalidade - a acção de acordo com a letra da lei, tendo em vista compensações, gratificações ou satisfações, como o mérito.

A primeira condição para o soberano bem é a virtude, a intenção pura - desinteressada, livre e independente de quaisquer apegos, inclinações ou vantagens sensacionais, próprios de uma razão afectada ou patológica – um espírito que julga segundo princípios racionais, universais, “a priori”, as leis, e não segundo finalidades empíricas, particulares, “a posteriori”, as máximas.

Além da ética da justiça (que enfatiza os direitos) e dos valores de religação e reconexão, do jornalismo público, que assume, a ética do cuidado propõe-se integrar também a ética da virtude, não como algo que se deva ocultar a nível público mas, antes, como uma qualidade cognitiva a aplicar e a desenvolver, mesmo a nível profissional.

No caso do jornalismo, uma profissão moralmente séria - com valores de justiça, verdade e democracia – a virtude cognitiva traduz-se numa epistemologia moral, uma forma de conhecimento e modos de produção noticiosa moralmente orientados, o que implica recolher, seleccionar, tratar e publicar informação de uma forma atenta, cuidada e correcta, com dedicação, envolvimento e carinho, não só em relação às pessoas mas também aos factos, aos documentos e às palavras usadas(2).

Numa profissão assim, com agentes e modos de produção morais, as respostas tendem a sê-lo também e crescentemente conscientes. Num jornalismo cuidadoso, a preocupação em relação aos efeitos sobre o público operacionaliza-se através do princípio da precaução, que integra a responsabilidade social – de acordo com uma das principais leis morais, conforme tratadas por Kant, que é a extensão da prudência, o amor de si, à felicidade dos outros.

Mas a principal lei moral, a lei das leis, é «Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo»(3). Ora este amor humano relativo à segunda parte do mandamento está em sintonia com as necessidades de reaproximação, religação e reconexão, reconhecidas pelo jornalismo público, ou de reintegração, identificadas por Habermas, Adorno ou Dahlberg.

De igual modo, as propostas de compreensão, caridade ou compaixão assumidas pela ética do cuidado - embora esta última, na perspectiva kantiana, esteja sob o domínio dos afectos, das inclinações e não da razão – vão no mesmo sentido de restabelecer os vínculos, as relações. Segundo os investigadores Steiner e Okrusch, o jornalismo cuidadoso não só deve ter e manter ligações, pessoais e profissionais, como as deve esclarecer no seu trabalho.

Está, pois, (em) aberto o caminho para que as partes até aqui excluídas do discurso mediático – os pobres, as mulheres, os cuidadores, por exemplo – possam doravante ser nele incluídos, com atenção e com amor. Quem cuida de outros em sofrimento são, de entre os seres humanos, os mais sofredores e a escolha de os colocar na agenda mediática, enquanto tema público, é também ela uma decisão moral – de quem mais precisa e merece atenção pública.

Em vez de ignorar estas camadas da população – habitualmente num trabalho mais privado, voluntário ou mal remunerado, mas mais exigente, em tempo e dedicação, generoso e amoroso – a proposta é passar a ouvi-las com atenção e escutá-las. Tal não só permitirá aliviar a sua sensação de isolamento como incentivar quem assiste a passar da mera benevolência (“care about”), a preocupação com o outro, a bondade, para a beneficiência (“care for”), a acção concreta de cuidar do outro.

Numa altura em que se eleva a consciência da audiência relativamente ao sofrimento humano em todo o mundo e também aumenta a sua vontade de ajudar a minorá-lo, tal como sucede com os próprios jornalistas, possibilitar a acção de serviço social, generosa e desinteressada, o voluntariado, permite não só a expressão saudável de uma subjectividade até aqui contida, como vislumbrar a tal acção virtuosa e caritativa apenas e só por respeito pela lei, tal como colocada por Kant.

Uma atitude, que além de possibilitar a reunificação das partes diferentes, divergentes, alternativas, habitualmente desprezadas, reflecte uma mudança profissional – da clássica exploração do sofrimento alheio para benefício económico das corporações mediáticas, através do estímulo intenso dos instintos humanos – para a elaboração de novas e mais perguntas sobre os agentes e acções que, no terreno, aliviam esse sofrimento, e, mesmo nos gabinetes, estudam propostas de (re)soluções mais institucionais, como defende o jornalismo de paz(4), contribuindo, assim, para o desenvolvimento da intuição humana.

O ser humano, pela sua personalidade, pertence aos dos mundos, o sensível e o supra-sensível. É, portanto um ser sagrado, digno de respeito – sentimento exclusivamente dirigido a pessoas, ao contrário da admiração também dirigível a objectos ou o amor, a animais -, sobretudo em presença da rectidão de carácter, uma maneira de pensar prática consequente e reveladora do soberano bem no homem.

Assim, «Que, na ordem dos fins, o homem (e com ele todo o ser racional) seja fim em si mesmo, isto é, que não possa jamais ser utilizado por alguém (nem sequer por Deus) simplesmente como meio, sem ao mesmo tempo ser ele próprio um fim; que, por conseguinte, a humanidade deva ser para nós próprios sagrada na nossa pessoa, eis o que decorre de si mesmo, porque o homem é o sujeito da lei moral, por conseguinte, daquilo que é santo em si»(5).

A beneficiência aos pobres é um dos exemplos, apontados por Kant, de prazer superior da faculdade de desejar em que a vontade é determinada pela razão. O resgate da subjectividade, da sua auto-expressão, constitui a emancipação através da razão transmutada, purificada e regenerada, ultrapassando a análise tradicional, positivista e objectiva, analítica e uniformizad(or)a, e aproximando-se do conhecimento sintético, unificador e autónomo.

A proposta de uma informação produzida atentamente e de forma cuidadosa, expressão do dever moral do amor a si mesmo e ao próximo, representa uma vontade determinada pela razão, segundo princípios universais, uma (re)aproximação ao próprio núcleo interno e inato, central e uno, do entendimento humano, “a priori”, e do julgamento livre e independente das prisões e ilusões dos sentidos, interesses, conveniências ou vantagens particulares.

Segundo Kohlberg, os jornalísticas cívicos e de investigação atingem o máximo na sua escala de desenvolvimento moral correspondente ao estádio pós-convencional em que a (pre)ocupação com o outro não se limita à família e ao círculo de amigos mas se estende a toda a humanidade – uma nova consciência e responsabilidade à escala universal, resultado de uma comunicação (mais) racional que poderá transmutar o isolamento em solidariedade globalizada.

(1) Bell, Martin. The journalism of attachement in M. Kieran (ed). Media ethics, pág.19, London: Routledge – citado por Linda Steiner e Chad Okrusch, Care as a virtue for journalists in Journal of Mass Media Ethics, 2006, 21, pág. 116. (2) Cf. CYTRYNBLUM, Alicia – Periodismo social – una nueva disciplina, La Crujía ed. 2004, pág. 83-89. (3) KANT, Immanuel – Critica da Razão Prática, Edições 70, 1985, pág. 98/99. (4) LYNCH, Jake – Peace journalism in ALLAN, Stuart (editor) - The Routledge Companion to News and Journalism. London and New York, 2010, p.541, p.543-553. (5) KANT, Immanuel – Critica da Razão Prática, Edições 70, 1985, pág. 151. Bibliografia: DAHLBERG, Lincoln – Web 2.0 divides: A critical political economy. University of Queensland. s/d. HALL, Stuart – A identidade cultural na pós-modernidade. D&A Ed. Pág. 7-97. KANT, Immanuel – Critica da Razão Prática, Edições 70, 1985. LAYDER, Derek (1994) – “Habermas`s Lifeworld and System” in Understanding social theory. Sage. 2005. Pág. 213-238. STEINER, Linda; OKRUSCH, Chad – Care as a virtue for journalists in Journal of Mass Media Ethics, 2006, 21, pág. 102-122. TAYLOR, Paul; HARRIS, Jan – Critical theories of Mass Media: Then en Now Maidenhed. Open University Press. 2008. Pág. 62-84.

Etiquetas: , ,

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Moralidade



Antes da Páscoa, em tempo de morte e renascimento, falamos da proposta de Immanuel Kant: a renúncia às inclinações e disposições sensíveis a favor de algo mais elevado e fonte de vero auto-contentamento.

Texto Dina Cristo

O tratado de Immanuel Kant, “Crítica da Razão Prática”*, foi publicado pela primeira vez em 1788. Não tem uma única referência bibliográfica mas é até hoje uma obra fundamental do pensamento humano. Nela o autor explica, por exemplo, a relação fundamental entre a lei (moral) e a liberdade.

A primeira parte, que ocupa 167 das 195 páginas da investigação densa e rigorosa, embora traduzida em palavras simples1, contém a Doutrina Elementar da Razão Pura Prática; divide-se entre um primeiro livro sobre a analítica, crítica, e um segundo sobre a dialéctica, argumentativa.

Com o objectivo de um dia se chegar a discernir a unidade de todo o poder da Razão Pura, por um lado, e de evitar a ilusão de tomar o condicionado pelo incondicionado, por outro, Kant incide, antes de mais, na lógica analítica dos princípios “a priori” e dos conceitos dos objectos. Apesar de todo o seu trabalho2, termina-o da forma mais modesta possível3.

Kant pretende ao longo do tratado comprovar não só como há uma razão pura prática, como só ela o pode ser e é – incondicionalmente – prática. No capítulo III da Dialéctica, Kant explica como na ligação da razão pura especulativa com a razão pura prática, uma união necessária fundada “a priori” na própria razão e que permite às Ideias realizarem-se objectivamente, o interesse da razão pura prática, que é a determinação da vontade, o uso prático, é superior ao interesse da razão pura especulativa, que é o conceito do objecto “a priori”.

É fundamental no seu estudo a distinção entre o racionalismo, fundado numa necessidade discernida, do empirismo, pobre e superficial, que toma os objectos da experiência por coisas em si, e que trouxe rigidez e cepticismo. Uma separação, exortada no final, quando quase em tom poético o filósofo escreve: «Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e com maior assiduidade delas se ocupa a reflexão: O céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim»4.

A primeira refere-se ao lugar ocupado no mundo exterior dos sentidos, uma conexão contingente (até ao imensamente grande em tempos ilimitados) que aniquila a importância de um ser humano a um simples ponto no universo. A segunda começa na personalidade, o eu invisível independente de todo o mundo sensível, que o expõe a um mundo, só revelado ao entendimento, numa conexão universal e necessária e que o eleva como inteligência. Dois mundos, o sensível e supra-sensível, a que se ocupa sobretudo aquando da dedução dos princípios da razão pura prática.

Estes são proposições que contêm uma vontade que inclui regras práticas. Podem ser princípios subjectivos, máximas válidas apenas para a vontade do sujeito, numa “legislação” interior, ou leis objectivas, válidas para todo o ser racional, independentemente das suas inclinações, que fazem das acções práticas um dever, um imperativo categórico e necessário, numa legislação exterior e universal; exprime uma obrigação para quem a razão não é o único princípio determinante da vontade.

Assim, temos uma vontade livre, independente do mundo sensível, quando a máxima serve de lei, e outra afectada, em que existe um antagonismo entre a máxima e a lei, ou patológica, quando a submissão à lei implica desprazer para o indivíduo. As representações ligadas ao prazer podem ter origem nos sentidos, sentimentos ou inclinações e ser mais grosseiras e embrutecida, como o deleite na acumulação de dinheiro, na sensibilidade brutal ou no uso da força, ou pode ter origem no entendimento e serem mais delicadas e refinadas, como o agrado em se cultivar, ampliar os conhecimentos ou na beneficiência aos mais pobres. Embora sejam manifestações da mesma energia vital, uma representa uma faculdade de desejar anímica inferior, outra superior, em que a vontade é determinada pela razão. Ao contrário da sensibilidade, que exprime uma relação da representação segundo os sentidos a um sujeito, o entendimento exprime uma relação da representação segundo conceitos a um objecto.

A vontade, que causa (des)prazer é, pois, a capacidade de agir segundo princípios, ou seja, a faculdade de determinar a sua causalidade pela representação de regras. Estas podem ser gerais, quando em média são correctas a maior parte das vezes, ou universais, quando são sempre válidas. Uma das regras para julgar as acções é a seguinte: «Interroga-te a ti mesmo se a acção que projectas, no caso de ela ter de acontecer segundo uma lei da natureza de que tu próprio farias parte, a poderias ainda considerar como possível mediante a tua vontade»5. Uma regra pretende evitar misticismos, imaginações ou empirismos, princípio prático que pressupõe um objecto.

A razão pura, que tem o poder de determinar a vontade, pode julgar pois não tem qualquer interesse sensível, e julga segundo princípios “a piori”, racionais, incondicionados, o que lhe dá a faculdade de conhecimento e de determinação de máximas da vontade livre através destas intuições que conhecem sinteticamente. A razão, ao discernir a relação entre os meios e fins desejados e reflectir sobre o que é, em si, bom ou mau, tem o poder de mover uma acção. É a voz celeste, que ajuíza de forma livre e independentemente das condições sensíveis.

A razão representa, assim, a lei moral, lei fundamental de uma natureza supra-sensível, de um mundo puro inteligível, de natureza arquetípica, cujo equivalente deve existir no mundo sensível, em reprodução. Uma vontade santa é incapaz de máximas opostas à lei moral. Porém, numa vontade humana, com uma natureza sensível, a lei é um imperativo, ordena a acção devida, que é precisa ser feita, ou seja, manda cumprir os deveres humanos, com autoridade, dada pela sua autonomia e liberdade, não apenas em sentido negativo, a independência, mas também em sentido positivo, a legislação. A lei fundamental da razão pura prática é: «Age de tal modo que a máxima da tua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo como princípio de uma legislação universal»6.

Esta lei moral que determina não só a acção, como o seu móbil e objectos, não apenas danifica a benevolência, o amor próprio natural, como aniquila a complacência, a condescendência de si próprio, enfraquecendo a arrogância e a presunção. Contudo, esta humilhação das suas tendências e disposições sensíveis em detrimento de um objecto de maior respeito, significa uma elevação, um domínio das inclinações, assim restritas, que acaba por conduzir, apesar do sofrimento inicial, pela resistência e conflito, a um sentimento posterior de auto-aprovação, ordenado pela razão. Um exemplo de constrangimento, que enfraquece as necessidades sensíveis é a obrigação de estender a máxima do amor de si, que aconselha prudência, à felicidade dos outros.

A lei moral determina não só o conceito de bem (a acção conforme à lei é boa em si mesma; uma vontade sempre conforme à lei é absolutamente boa) como as suas quatro categorias: Da quantidade (máximas, princípios e leis), da qualidade (regras práticas da acção, omissão ou excepção), da relação (personalidade, estado e reciprocidade) e da modalidade ([i]lícito, [contrário ao] dever e dever [im]perfeito). A perfeição pode ser integral (transcendental), geral (metafísica), suprema (externa) ou humana (interna – no talento e habilidade).

O valor moral das acções reside sobretudo na sua intenção. A legalidade é a consciência de ter agido em conformidade com o dever, em que o que é relevante são as acções de acordo com a letra da lei, movidas pelos fins que podem produzir, como sentimentos agradáveis, ou pelo mérito. Já a moralidade é a consciência de ter agido por dever, por mor da lei, em que o importante são os princípios, as intenções, as (pre)disposições anímicas em virtude do espírito da lei. É este o alto valor que a humanidade pode adquirir através deste princípio de causalidade, desde há muito, na razão de todos os homens.

«Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo» é a lei das leis. Um arquétipo ao qual o ser humano se deve esforçar por aproximar e assemelhar progressivamente. Embora cada acção esteja submetida às condições do tempo passado, têm havido acções nobres e sublimes, que tiveram lugar, não sem sacrifício, só por causa do dever. Seres que merecem respeito, pois o espírito se inclina perante a rectidão do seu carácter, pela lei que encarnam, pela sua maneira de pensar prática consequente, pela estima pela lei, destituída de toda a vantagem ou interesse que não seja o da observância da própria lei ou respeito, o que se traduz pelo sentimento moral. O dever, que dá a ordem e põe ordem, fortalece a alma e eleva o homem acima de si mesmo, submetendo o mundo sensível.

Por dedução dos princípios da razão pura prática, as leis que regem a natureza humana são as de dois mundos, aos quais o ser racional pertence, pela personalidade. O mundo inteligível, da razão pura, entendimento e vontade, a natureza das causas, Ideias e arquétipos; o reino da liberdade, do incondicionado, da autonomia; das leis e princípios, das coisas em si mesmas; do númeno, inteligência pura, não determinável segundo o tempo, o mundo da existência segundo leis independentes de todas as condições empíricas. Por seu lado, o mundo sensível, dos fenómenos, acções, experiências, objectos (que determinam a vontade) e da diversidade (de sensações, sentidos, sensibilidades e necessidades); o mundo dos efeitos, consequências, do condicionado e da reprodução; da experiência espaço-temporal em que a vontade está submetida às leis, condicionadas empiricamente, logo segundo uma heteronomia para a razão.

A lei moral, que implica auto-coerção, dos desejos, necessidades e egoísmo, permite reconhecer a infâmia da mentira e o respeito em relação à verdade, a pacificação interior, não recear o auto-exame, não se auto-censurar ou arrepender, não se envergonhar de si mesmo e ser aos seus olhos digno de viver, o que não se coaduna com a satisfação de viver. Quando se fala de dever, a razão pura prática não quer que se tome em consideração a felicidade, embora tal não implique a sua renúncia, já que contém meios para o cumprimento do dever, como a habilidade, saúde ou riqueza, e a sua carência a tentação de violar o cumprimento dos mandamentos.

A moralidade é condição racional (conditio sine qua non) indispensável para atingir a felicidade mas não um meio de a adquirir, pois não a garante. É expectável que decorra da predisposição moral, o respeito desinteressado pela lei, e não da legalidade, a acção interessada. A moralidade é a doutrina de como nos devemos tornar dignos da felicidade. Moralidade e felicidade são, respectivamente, o primeiro e segundo elementos do soberano bem, a virtude. Embora sendo totalmente heterogéneos, factor não reconhecido pelos estóicos e sobretudo pelos epicuristas, os dois elementos estão conectados através de uma unidade sintética, isto é, em que a ligação é real segundo a lei da causalidade que produz um efeito.

Felicidade é a consciência do agrado da vida ao longo de toda a existência humana, quando a sua natureza está em harmonia com os costumes e a sua vontade. Quando a conformidade da vontade à lei moral é plena atinge-se a perfeição. A felicidade da santidade, a beatitude, apenas é atingível numa eternidade ou existência “mesmo para lá desta vida”7, num esforço progressivo, perseverante e persistente, o que só é possível sob o pressuposto da imortalidade da alma, um dos principais postulados8 da razão pura prática. Se a extensão temporal dá esperança de atingir a perfeição moral, que “não pode ser alcançada neste mundo”9 também aumenta os deveres.

Da lei moral decorre outro dos pressupostos que dão às Ideias da razão especulativa realidade objectiva, dada a sua relação ao prático: a existência de Deus, o princípio primordial e infinito, e autor do mundo de suprema perfeição, causa da ordem e finalidade da natureza, Ser supremo, auto-suficiente e bem incondicionado e total.

Por outro lado, se a lei moral é a condição sob a qual um ser racional se pode primeiramente tornar consciente da “ratio cognoscendi” da liberdade, o terceiro princípio deduzido da razão pura prática, esta também é a condição, a “ratio essendi”, da lei moral já que se não houvesse nenhuma liberdade de modo algum se encontraria em nós a lei moral. A liberdade é a faculdade de determinar a vontade segundo a lei do mundo inteligível e a independência em relação ao mundo sensível e às suas inclinações (mesmo a compaixão ou simpatia), onerosas para um ser racional. O sujeito da lei moral é o homem, um ser sagrado, que também pertence, como vimos, ao mundo inteligível e ao qual se deve respeito «Em toda a criação, tudo o que se quiser e sobre que se tem algum poder pode também utilizar-se simplesmente como meio; unicamente o homem e, com ele, toda a criatura racional é fim em si mesmo»10.

Em suma, é a lei moral que determina a vontade de acção do soberano bem, a virtude, sob os pressupostos da imortalidade da alma, da existência de Deus e da liberdade. É direito e dever de todo o ser racional fomentar o soberano bem, a acção virtuosa e moral desinteressada (sem temor ou esperança), o respeito à lei por mor dela, reveladora do carácter e sabedoria que permite vislumbres do reino supra-sensível e proporciona auto-contentamento.

A razão prática, que existe “a priori", submete a diversidade dos desejos à unidade da consciência, procurando conhecimentos supra-sensíveis até onde são necessários ao fim prático. Para tal temos não só as regras imperativas como as Ideias categóricas, usadas para prevenir o antropomorfismo e o fanatismo, princípios transcendentes tornados imanentes para realização do soberano bem, fim último da razão pura prática e doutrina filosófica por excelência. As predisposições morais da natureza humana devem ser buscadas criticamente e introduzidas metodicamente ao nível da ciência tendo a filosofia como fiel depositária.

Ao nível pedagógico, Immanuel Kant sugere o uso de biografias para estimular os princípios, a pureza, o desinteresse, a honra e a auto-confiança. Algo que distinga os direitos humanos, que regulam os deveres, das necessidades humanas, não essenciais e que só provocam descontentamento. Que entre os estudantes seja louvado o valor do dever e da virtude. «Dever! Nome grande e sublime, que nada em ti incluis de deleitável, trazendo em si a adulação, mas exiges a submissão; no entanto, nada ameaças que excite no ânimo uma aversão natural e cause temor, mas, para mover a vontade, propões simplesmente uma lei que por si mesma encontra acesso na alma e obtém para si, ainda que contra a vontade, veneração (embora nem sempre obediência), lei perante a qual emudecem todas as inclinações, se bem que secretamente contra ela actuem: que origem é digna de ti e onde se encontra a raiz da tua nobre linhagem que recusa nobremente todo o parentesco com as inclinações, raiz essa da qual descender é a condição indispensável daquele valor que os homens unicamente a si mesmos podem dar»11.

* Foi usada a edição das Edições 70, publicada em 1985. (1)«Forjar palavras novas, quando a língua de nenhum modo carece de expressões para conceitos dados, é um esforço pueril para se distinguir entre os demais, se não por ideias novas e verdadeiras, ao menos por um remendo novo num vestido velho», pág. 18/19. (2)«Se um sistematal como o da razão pura prática, desenvolvido aqui a partir da crítica desta última, deu muito ou pouco trabalho (…) é uma questão que devo deixar ao juízo dos conhecedores de um trabalho deste género.», pág. 16. 3«(…) desculpar-se-me-á se eu, num escrito como este, que é apenas um exercício preliminar, me atrenho a estas linhas fundamentais», pág.182. (4) Pág. 183. (5) Pág. 83 (6) Pág. 42. (7) Pág. 142. (8) Enquanto a hipótese é fundada numa necessidade da razão pura, no uso especulativo, princípio de explicação considerado em relação à razão teorética, o postulado decorre da necessidade da razão pura, no seu uso prático, como «É um dever realizar o soberano bem segundo a nossa máxima capacidade», pág. 163. (9) Pág. 148.  (10) Pág. 103. (11)Pág. 102

Etiquetas: , ,

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Vida inteligente



Na semana em que recomeçam as aulas, reflectimos sobre a natureza, tipologia, poder e efeitos do pensamento.

Texto e fotografia Dina Cristo


Há duas formas de pensar. Uma é com lógica. É própria do intelecto, é estratégica, astuta, interessada, pessoal e apaixonada; é confusa, `animalesca`, intoxicante, venenosa ou, como diria Kant, impura. É a razão calculista, egoísta, agressiva, separatista e analítica, dos impulsos e inclinações. Está ligada às sensações e corresponde à esperteza. A outra é com amor. É própria da inteligência, é natural, desinteressada, impessoal, desapegada - pura; é clara e esclarecida, verdadeira e curativa. É natural, “nutritiva”, amorosa, humana, comunicativa e sintética.



É a razão distorcida, do pensamento concreto, que, tendo em conta o desenvolvimento humano, deve ser controlada, dominada, domesticada, orientada e direccionda. Pelo contrário, a razão pura, do pensamento abstracto, deve ser libertada. Óscar Quiroga escreveu «Você deve perguntar-se constantemente a respeito do pensador interno para que a mente seja instrumento útil em vez de chicote que invade seu tempo com idéias para lá de absurdas e inconsistentes. Dominar a mente é a próxima etapa evolutiva de nossa humanidade» .

O Ser Humano, que possui consciência individual e vontade própria, tem capacidade para melhorar e aperfeiçoar o seu modo de pensar. Este pode tornar-se melhor, mais qualitativo, subtil, “afiado”, despoluído, belo, universal e tranquilo - como acontece na passagem para a lentidão, da consciência alfa, em que um neurónio se descarrega entre sete a 14 ciclos por segundo de informação e o pensamento predomina sobre a acção – e mais elevado, através do foco em ideias nobres – como a solidariedade - e ideais, como a sonhada fraternidade universal.

Também é possível substituir os pensamentos negativos, analíticos, repetitivos, críticos, problemáticos, obscuros, pesados, de carência (como o pressuposto da economia capitalista), inúteis e destrutivos, que provocam enfraquecimento, aprisionamento, fatiga e doença por outros mais positivos, criativos, de síntese, aceitação, leveza e abundância (como a economia da dádiva), orientados para as soluções - úteis e construtivos, que promovem o fortalecimento, a libertação e a saúde.

Contudo, transitar de pensamentos viciosos, como o medo, a inquietação, a preocupação ou o desânimo, para pensamentos virtuosos, de confiança, tranquilidade e ânimo implica um esforço, dada a frequência habitual dos primeiros e o grau de dificuldade da mudança. Evitar a dispersão, treinando a concentração é essencial. Como uma espécie de combustão, ao inflamar, o pensamento focado – no Bem - além de proteger, potencia a purificação dos detritos ou resíduos tóxicos, provocados pelos pensamentos negativos, demasiada informação e não processada.



Há cerca de um século, Erich Scheurmann, o chefe da tribo dos tiavéa, retratava o pensamento dos europeus, os Papalagui, como vão, contínuo, rápido, excessivo, ruidoso como «a grave doença de estar sempre a pensar», provocando velhice, feiura, divisão, paixão, conflito, tormento, orgulho, embriaguez, sobrecarga, cansaço e tristeza. Quanto aos livros, as «esteiras com pensamentos», afirmava: “quem absorver esses pensamentos ficará imediatamente contaminado, e eles ingerem essas esteiras como se fossem bananas doces. Em cada cabana há baús cheios delas a transbordar. Velhos e jovens Papalaguis roem naquilo como ratos em cana de açucar» .



Entre o excesso de pensamentos e a falta de consciência há que procurar o equilíbrio. Mais difícil ainda talvez seja a gestão da sua ligação aos sentimentos, que influencia. A razão pura inclui e não exclui o amor, ela corresponde ao nível ético em que se cumpre a lei desinteressadamente, por amor a ela, sendo a lei máxima, amar o próximo como a si próprio, como se conclui do livro "Crítica da razão prática", de Immanuel Kant. Daí o provérbio chinês: «Recorda-te sempre da boa acção e nunca da injúria».



Falando metaforicamente para discípulos, Omraam Aivanhov aconselha a dar prioridade ao pensamento. Se os sentimentos são importantes porque constituem uma espécie de “maquinaria” que faz mover e avançar o “navio”, deve ser a cabeça, que está no topo do corpo humano, a funcionar como um capitão que decide a direcção, observa, orienta e dá ordens, fazendo-o chegar a bom porto. Como Carlos Cardoso Aveline referiu «A habilidade de pensar é muito nova, e ainda perturba a coordenação das sensações e dos gestos concretos» .



Os pensamentos filtram e influenciam o que se sente, por sua vez os sentimentos influenciam o olhar e filtram as acções. Pensar é criar: «Tudo é criação da mente», como escreveu Fernando Nené. Tal potência está expressa ao nível religioso (com o poder criador do Verbo) como ao nível científico, com o construtivismo - sendo dada cada vez mais importância à imagem porque não apenas representa o mundo mas também o recria e forma. Assim se constroem realidades mais ou menos vastas ou limitadas consoante o pensamento original. Para Omraam Aivanhov, o pensamento é uma entidade viva, que deixa marcas visíveis ao ponto de esculpir o próprio corpo. «(…) conhecer a natureza da mente é saber a origem de todas as coisas» lê-se no Livro Tibetano da Vida e da Morte.

Como publicou a revista Rosacruz , os pensamentos são uma espécie de gema que influencia a clara, o ambiente. Flávia de Monsaraz afirmou que “a energia segue o pensamento”. Dieter Duhm declara a propósito do seu poder: «Através de pensamentos e visões são construídos campos de energia e de informação invisíveis que não possuem nenhumas fronteiras espaciais (…) a partir dos quais o mundo visível surge». Cada pensamento é uma semente da qual depende o futuro. É preciso, pois, peneirar o trigo do joio, queimar a má colheita como se faz às ervas daninhas, e guardar a boa no celeiro para mais tarde a semear.



O documentário “Que raio sabemos nós?” trata esse bit de informação concentrada, que é o pensamento, do ponto de vista de onda, quando ao olhar se “vê” infinitas possibilidades de escolha, e de partícula, em que apenas se observa de forma objectiva. O mesmo vídeo considera o impacto dos pensamentos para além água, conforme estudado por Massaru Emoto. A pergunta é: se os pensamentos provocam a (de)formação de cristais de água, com as mais diferentes cores e formas conforme a natureza dos que são expressos - quanto mais elevada for a ideia mais harmoniosa e bela a forma geométrica - que farão às pessoas, que são constituídas essencialmente por água?



Os pensamentos emitem frequências (incluindo sobre objectos) que, segundo a lei do feed-back, realimentarão a sua própria fonte; depois de formados lançam-se em todas as direcções à volta de quem os emitiu. Daqui, como também do seu poder de realização, decorre a responsabilidade por cada pensamento emitido e transmitido, o cuidado a ter com a focagem no mal, na crítica investindo, em vez disso, no agradecimento e reconhecimento – caso em que, para Omraam Aivanhov, permite renovar a matéria, tornando-a ao mesmo tempo mais resistente e sensível. Enquanto mente dual, como uma escada rolante, ela tanto pode projectar a Humanidade para andares superiores, o “paraíso”, ou inferiores, o “inferno”,”lugar” subterrâneo sem luz, calor, ar ou espaço, como lembra o autor búlgaro.



A substância mental corresponde à intenção e permite a comunicação, a ligação do Ser Humano com a sua essência mais profunda, com as outras pessoas (a ligação mental, pelo amor ou pelo ódio, é habitualmente mais forte do que a física), com a Natureza (e a sua linguagem universal e silenciosa) e com o mundo divino. Contudo, este capital mental sofre várias vezes de apego - provocando uma obstipação “cerebral”, resistindo a prescindir das ideias ultrapassadas, ou diarreia mental, quando não é aceite a chegada de novas ideias – ou ainda de orgulho, falta de integridade mental, preguiça ou indolência, quantas delas provocadas pela indústria cultural, como explicou Theodor Adorno, que as adormece, infantiliza, reprime, domestica e “hipnotiza”.



O facto dos dois hemisférios do cérebro estarem frequentemente desequilibrados e por vezes fortemente desligados dificulta o processo de desenvolvimento mental. Enquanto o lado direito, da mente mais abstracta, concentra-se no todo, é mais subjectiva, imaginativa, compreensiva, não sequencial e produz pensamentos mais complexos e também mais flexíveis e divergentes, o lado esquerdo, da mente concreta, critica, analisa, pormenoriza, calcula, classifica, compara, separa e dispersa, actuando de forma estratégica, linear, objectiva, parcial e produzindo pensamentos directos e dominantes. É esta racionalização fria, intelectual mas não inteligente, que se manifesta em diversos sistemas, nomeadamente o administrativo, através da burocracia.

Foi a mente que permitiu ao Ser Humano criar cultura, fazer ciência e, ao ter valores, a ética, discernir o bem do mal, ser lúcido e esclarecido. Contudo, os Humanos têm-se pensado a si próprios como pecadores (pela religião) ou manipuláveis (pela ciência). Hoje, porém, têm condições para assumir o poder de se governar, de se tornar criadores benéficos, ao conduzir os seus próprios pensamentos para a verdade, para o bem comum, procurando abrir espaço para o silêncio e, ao ultrapassar as nuvens mentais no céu da intuição, o sexto sentido, provocar a cura. «Porque o pensamento que nos permite compreender também nos permite agir: ele é algo mais do que uma simples faculdade que tem por objectivo o conhecimento; ele é a chave de tudo, é a varinha mágica, o instrumento da omnipotência» .



Através do pensamento, é possível purificar a matéria, dar sentido aos gestos, fazer acupunctura mental ou proporcionar a mudança social. Para Dieter Duhm, «A humanidade tornar-se-á também capaz de mudar rapidamente e facilmente as estruturas materiais através do poder do pensamento». Os pensamentos circulam e, positiva ou negativamente, irão influenciar algures uma acção; como diapasões despertam ecos noutras mentes receptivas e sintonizadas. Daí a importância de o melhorar, focá-lo na pureza da impessoalidade, recuperar a naturalidade e aprender a despreocupar - sobretudo em lua vazia, como defende Óscar Quiroga, uma forma mais eficaz de descansar do que nada fazer.

Roberto Carlos recomenda, em “Não quero ver você triste assim”, «Esqueça o mal, pense só no bem que, assim, a felicidade um dia vem». Pensar no bem ou no mal constitui um poder pessoal e, embora seja uma decisão difícil, como uma pedra que se deixa cair o movimento vai acelerando, com as suas benfeitorias ou malfeitorias. Costa Alves e Joaquim Soares já relacionaram os padrões de pensamento com as anomalias climáticas, por exemplo. A própria ideia de mente, de um sujeito, está a ser reintroduzida na própria ciência, quer ao nível do observador quer do observado.



O desafio é, assim, transmutar os pensamentos com lógica, frios, interessados e separatistas, em pensamentos com amor, calorosos, desapegados e comunicativos. Tal processo implica uma aprendizagem e mais facilmente pode ocorrer depois dos 21 anos, altura em que finaliza a consciência ainda animalizada. Depois disso, há que ultrapassar os obstáculos internos - a que Carlos Cardoso Aveline chama a luta sem tréguas, no campo de batalha mental, entre a verdade e a ilusão – e os externos, que, como a indústria mediática ao serviço do ruído, reprimem o florescimento da inteligência espiritual.

Etiquetas: ,

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A priori


Texto Dina Cristo

Faleceu com 80 anos, na sua cidade natal. Königsberg, faz amanhã 205. Immanuel Kant, filósofo alemão, iluminista, luterano e pietista, defendeu no séc. XVII, em pleno desenvolvimento da ciência e crise metafísica, “o conhecimento de um Ser Supremo”. Para melhor o fundamentar, submeteu a razão ao “tribunal” da crítica, fosse pura ou prática. Conclui pela liberdade da vontade, a imortalidade da alma e a existência de Deus.

Após a emancipação de entidades transcendentes, o risco desta heteronomia dar lugar à escravatura das inclinações e paixões era real. Kant reconhecia à Humanidade livre arbítrio para se submeter aos instintos mas defendeu outro caminho: o da acção autónoma, livre e independente. Tal seria possível através do uso da razão, numa acção de acordo com a lei, por dever. Até à perfeição da vontade santa, que identifica com a moral.

Etiquetas: , ,

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A Comunicação Oculta I



Neste Dia Mundial da Filosofia encetamos a publicação de um ensaio sobre a Comunicação Oculta, Transpessoal. Iniciamos com o Logos, que permitiu a passagem do Caos para o Cosmos.

Texto e desenho* Dina Cristo

Antes do Verbo era o Caos Primordial, o Silêncio[1] Intemporal - o mais belo desígnio humano, nas palavras de Ana Isabel Neves –, o Som Causal e Insonoro, a Idade de Ouro do Ser Humano Áfono, como (d)escreve Julia Kristeva[2]

O Pai

É no seio de Mulaprakriti, a raiz da substância pré-cósmica, que surge o primeiro Logos, a Unidade, o ponto no círculo, o Pai (nosso que está no Céu), que torna a substância cósmica obscura, informe e estéril (Pradhâna) susceptível de ser fecundada e transformada em “mãe” primordial, ordenada, fértil e radiante, o Maha-Akasha ou o Akasha primordial.
É do Absoluto, a Fonte, o Tao, Para-Brahman, que irradia a Luz Primordial, Daiviprakriti, que contém toda a informação (sabedoria) a partir da qual todo o Universo vai ser construído, organizado, animado, movimentado e manifestado.
O primeiro logos corresponde ao Ser, a causa primeira, o Espírito puro, Purusha, o Uno, o ponto de partida, Atman, a Mónada, o Poder, a Vontade e a Força criativa, o conjunto de Hierarquias, Dhyani-Chohans, o Demiurgo[3], o Altíssimo e o Santíssimo, Ishvara, o Ser Humano no seu Alfa e Ómega.
O primeiro princípio é Pasyantî, o Som sintético e primordial pelo qual “todas as coisas foram feitas”[4], é a nota-chave, a emissão sonora, a modalidade eléctrica, o padrão vibratório primordial que põe, a matéria, inicialmente virgem, em movimento e impulsiona a manifestação e dá origem a um novo cosmos: «Deus canta e, ao fazê-lo, ecoa um Verbo arquetípico e soberanamente harmónico através de séculos, milénios e idades de ritmo cadenciado. Ali, na Substância Una primordial, Ele repercute os sons que darão origem à múltipla manifestação»[5].
Corresponde a sattva, à expansão, ao conhecimento, discernimento e acção desinteressada, ao primeiro raio, ao tempo, ao céu (svar), ao sol (surya), à endoderme (a parte interna), ao referente, ao programador, ao emissor, à essência, ao braço, ao Espírito, ao Um.

O Filho

O segundo aspecto do logos, semi-manifestado ou (i)manifestado, é o gérmen da diferenciação (svabhavat) – sem separação – entre os dois pólos, o da Ideação Cósmica, Mahat, o Pai, e o da Raiz da Substância, a Mãe, Adi-Prakriti. O Filho, Cristo, Vishnu, bipolarização da unidade, simultaneamente Pai e Mãe, é o intermediário de um junto do outro. Como transmitiu Clemente de Alexandria, “O Pai só vê o mundo conforme este é reflectido no Filho”.
Corresponde à Luz, Lúcifer, Madhyamâ, ao Verbo, Vâch, a deusa da linguagem do hinduísmo, à Palavra Sagrada, perdida, germinal, sintética, perfeita, completa, paradigmática, que contém o significado, o plano, o propósito de todos os universos manifestados. É o Fiat Lux, a consciência que permite expressar a Vida e ao Pai tornar-se carne, manifestar-se e (fazer) existir os mundos.
É o Fiat criador, a energia dinâmica e vitalizadora, que resulta da dualidade e interação, força atractiva, que permite a manutenção, a sustentação, a conservação, a estabilidade, o equilíbrio, a duração e a coerência da estrutura dos mundos e do Universo. Corresponde a rajas, à ambiguidade, à actividade apaixonada e interessada, ao segundo raio, ao espaço-tempo, à região (bhuvar) e à mesoderme (a parte intermédia), à atmosfera, ao software, à mensagem, ao significado, à relação, ao antebraço, à Alma, ao dois.
Equivale ao nous, a inteligência espiritual, ao “Santificado seja o vosso nome” do “Pai Nosso”. Recorde-se que, um nome é, segundo Humberto Álvares da Costa[6], um movimento oscilatório, uma periodicidade, o incessante alento, a mudança que, do ponto de vista numerológico, se relaciona com o “cinco”. Além das nossas cinco vogais, existem 50[7] (5+0=5) letras do alfabeto sânscrito, que correspondem às 50 portas de Binah, o Conhecimento; também segundo a tradição islâmica, teriam sido dadas a Adão 32 letras (3+2=5) básicas do Verbo.
O segundo logos diferencia-se entre um pólo espiritual (Yang, Teo, Sangue, Vinho, consciência, fogo, masculino, positivo, compaixão, sul) e material (Yin, Sofia, corpo, pão, substância, água, feminino, negativo, rigor, norte), numa dimensão superior (Individualidade imperecível, o abstracto, o númeno, o emissor, o Sujeito, Transpessoal, Intemporal e Pleno, o Espiritual, Sagrado, a Senhora, a Virgem) e inferior (a personalidade mortal, o concreto, o fenómeno, o receptor, o objecto, o pessoal, temporal e limitado, o psicológico, o profano, a escrava, a prostituta).
Esta dualidade revela-se igualmente num mundo inteligível (o Mundo comum, solar, transcendente, infinito, incondicionado, necessário, Subjectivo, Invisível, da Potencialidade, o Res Cogitans de Descartes, o mundo Arûpa, dos arquétipos, das ideias, da Realidade, a dimensão inteligível, de Platão e Kant) e sensível (o privado, lunar, imanente, finito, condicionado, contingente, objectivo, visível, da actualidade, a res extensa de Descartes, o mundo da forma, Rûpa, da reprodução, das cópias, o reflexo da realidade, a ilusão, a dimensão sensível, de Platão e Kant). 

Espírito Santo

Desta relação dual surgirá o terceiro logos-locus - onde se dá a separação entre o pólo espiritual, emissor, activo, ideativo, e o pólo material, receptivo, passivo e substantivo – o logos feminino, Shiva, o Espírito Santo, o transformador e renovador, Vaikharî, a palavra manifestada, a vibração do som externo de cada forma, o significante.
Corresponde a tamas, a destruição, à ignorância, às trevas, à inércia, mas também à regeneração e à actividade inteligente, ao três, ao terceiro raio e princípio “Venha a nós o vosso Reino”, ao espaço, à terra (bhur), ao fogo (agni), à ectoderme (a parte externa), ao hardware, ao receptor, à existência, à mão (com os seus cinco dedos), à personalidade, à matéria, à manifestação, à encarnação verbal, ao absoluto no relativo. É a melodia e o acorde final.
Assim, é por intermédio do logos - poder colectivo constituído por um conjunto de mónadas, a Alma Universal do Mundo, a Mente e Sabedoria Divina, a razão ordenadora que executa o Pensamento Divino - que é criado, formado, ordenado e dirigido, tal como destruído e abandonado, tudo quanto existe, sobretudo quando a atenção e a intenção forem dirigidas[8], pois ao imprimir movimento no akasha, gera o universo objectivo[9]. Por isso, o Génesis afirma que no princípio era o Verbo e este era Deus.

* Anos 70

[1] «A Voz do Espaço-Tempo expressa muita coisa; porém o Silêncio permanece ainda além» in CLUC - No domínio do Espaço-Tempo, CLUC, 2000, pág. 95. [2] KRISTEVA, Julia – História da Linguagem, Edições 70, Lisboa, 1969, pág.67-82. [3] ANACLETO, José Manuel – Demiurgo in Biosofia, nº18, pág.15-20.[4] CLUC – Ritual de circulação de Luz, CLUC, 2001, pág. 66 [5] CLUC - Introdução à Sabedoria e Técnicas Grupais, CLUC, 1990. [6] COSTA, Humberto Álvares in As sete leis fundamentais, ST, pág. 15. [7] O mesmo número de radiações emitidas pelas unidades de força dos chakras Muladhara (quatro), Svadhisthana (seis), Manipura (dez), Anahata (dois), Vishudda (dezasseis) e Ajna (dois). [8] CLUC – No templo do Espírito Santo, CLUC, 1992, pág.152. [9] Cf. Teoria das Cordas.

Etiquetas: , , ,