quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A Comunicação (Ir)racional




Texto e fotografia Dina Cristo

O sujeito iluminista possuía uma identidade baseada na razão. Um núcleo interno, inato, central, que lhe permitia conhecer a sua essência, sintetizando, assim, de forma coerente, as suas várias características. Era, por isso, uma identidade una, completa, segura, estável, fixa e auto-suficiente.

O auto-conhecimento, através da razão, permitia a este sujeito, com um sentido de si mesmo e do seu lugar no mundo, ser autónomo e soberano. Uma personalidade, assim fundada na mente, era, pois, real, individual - única, singular, distinta – imprevisível e, contudo, univeral. Uma absolutização cultural, para Stuart Hall, ligada à trans-historiedade.

A Razão Pura, esclarecida e genuína, conduzia à autonomia, à liberdade, à verdade e ao desenvolvimento humano. Por isso Immanuel Kant defendia o racionalismo, o universo da razão, do entendimento e das Ideias, dos conceitos “a priori”, do ser em si - o númeno, a unidade e a essência dos objectos.

Este mundo inteligível, livre das inclinações, e, deste modo, desinteressado dos fenómenos, permitia a ordenação (dá ordem e hierarquiza), a elevação e, apesar do inicial sofrimento (para além do conflito com as paixões, a razão pura danifica o amor de si, a benevolência, e aniquila a auto-complacência), depois o vero auto-contentamento e mesmo felicidade (a harmonia da sua natureza com a sua vontade).

O Supra-sensível é, pois, a voz celeste, intuitiva e sintética, do mundo interior, simples e pura, que julga de forma livre, independente e autónoma. O reino dos princípios e predisposições, do arquétipo – divino - onde reside a lei, a moral (e a lei moral), o dever, a virtude e o bem, que o ser humano deve (per)seguir.

Tal dimensão da vontade, necessária e causal, é fonte central e unificadora, o todo que inclui efectivamente todas as partes. Um plano de consciência, geral e mesmo universal, sem fronteiras, incondicionado e real, onde se manifesta não apenas a comunhão e a compreensão mas uma comunicação com livre arbítrio e racional.

Ora um dos principais cuidados de Kant, no seu livro “Critica da Razão Prática”, sublinhados no prefácio e na conclusão, é precisamente a distinção entre o racionalismo e o empirismo e a atenção para que não se tome o condicionado, o mundo sensível, pelo incondicionado, o mundo supra-sensível.

Ao contrário do mundo da razão, o dos sentidos - da sensibilidade, das sensações, dos impulsos, das inclinações, das paixões – é aparente, ilusório e enganador. É o plano do ser para nós, dos fenómenos, das acções, dos objectos e das experiências. Não já o mundo da essência, dos arquétipos e das causas, mas da existência, das cópias e dos efeitos.

Trata-se, pois, da voz terrestre, das disposições, humores e desejos, que rebaixa o sujeito e o mantém dependente e constrangido pelas necessidades de prazer imediato, a princípio cativante, mas trará, contudo, auto-censura, culpa, arrependimento e sofrimento, em especial nos prazeres inferiores e tratando-se de um sujeito com sentimento moral.

Um universo degradante, caótico, irracional, periférico, fonte de exigências dos direitos, da formulação de máximas, onde o sujeito se desorienta com os seus interesses, fins e objectivos, submetido à percepção, limitada, do plano empírico – exterior, diverso, contingente e condicionado - que embrutece e ensombra o seu entendimento e acção.

Com a modernidade, a razão - antes pura, genuína e virtuosa, do iluminismo – degenerou, desvirtuou-se e, degradando-se numa razão impura, instrumental, calculista, obscurecida e embrutecida, perverteu-se num meio para atingir os interesses, particulares e egotistas. A complexificação das sociedades, o êxodo rural para as cidades, a industrialização, nomeadamente ao nível cultural, o capitalismo e as nacionalizações foram algumas das contribuidoras para que a razão impessoal e livre do mundo inteligível fosse distorcida, enfraquecesse e recuasse.

O sujeito moderno, ao emigrar para a cidade, afasta-se da sua cultura tradicional, ligada à região e ao local, à religião e ao sagrado, ao passado e à memória, à co-presença e ao simbólico. Deslocado, nas cidades desconhecidas, ali se exila e isola, transforma-se em mais um sujeito anónimo e atomizado na massa citadina.

Analogamente, a identidade, antes interna, una e auto-suficiente, se exterioriza, descentraliza e desagrega. Com uma ênfase cada vez mais colocada na relação social - reflectida ao nível de vários ramos científicos - o indivíduo vai-se alienando, afastando cada vez mais não só de si mesmo e da vida, mas também, paradoxalmente, dos outros e dos objectos, numa relação crescentemente mediada.

Desvinculado e vulnerável, progressivamente exposto ao mundo social, público, técnico e mediático, o indivíduo substitui a tensão própria da tese e antítese identitárias, que permite a síntese integradora, por propostas vindas do exterior, já pré-fabricadas e padronizadas, prontas a adquirir imediatamente.

A sua identidade, distante do seu núcleo interno, de onde é progressivamente desalojada, enfraquece e torna-se cada vez mais dependente dos vários modelos difundidos, tornando-se cada vez definida social, historica e heteronomamente, mais nacionalizada, submetida à influência de padrões estranhos que se vão entranhando, infiltrando e penetrando.

Trata-se de um relativismo cultural, de indivíduos que se vão traduzindo, assimilando e homogeneizando, tornando-se mais permeáveis a um poder de influência que vai suprimindo as suas diferenças - de forma regressiva, agressiva e coersiva – dissipando e convertendo-as em características mais estáveis, previsíveis e, assim, manipuláveis.

O seu ser real e coerente vai-se desmoronando, substituindo por múltiplas possibilidades de ser, descontínuas e variáveis, às vezes contraditórias e mesmo inconciliáveis – que o dividem. Ao mesmo tempo que se vai afastando da sua natureza humana e racional, o indivíduo vai-se aproximando, seduzido, do alheio e objectivo, que vai integrando e (re)conhecendo.

A indústria cultural, através da informação, entretenimento e publicidade, vai regulando e “disciplinando” o sujeito, amputando dele certos traços, através da crítica, ridicularização ou invisibilidade, e ampliando outros - modelos pré-determinados, uniformizados e ilusórios de parecer - que vão sendo repetidamente representados.

Esta forma mediatizada de contacto com outras formas de “dever” ser, que rebaixa o sujeito, o estigmatiza, deprecia sua auto-imagem e instala nele complexos (ao contrário do psicanalista que os tenta retirar), estimula o sensacional e a infantilidade, e excita a tal ponto as motivações utilitaristas e empíricas que o indivíduo se torna incapaz de compreender as racionais.

Um sub-sistema que captura e transforma a consciência do indivíduo - submetendo-o ao consumo de signos, seduzindo-o pela imagem, fascinando-o com (as enganosas facilidades de) a técnica – e o vai envolvendo, dominando e controlando, transformando-o num ser adormecido, passivo e prisioneiro - numa escravização ‘desejada’ pelo sujeito e planeada pela indústria.

A indústria cultural, sub-sistema do Sistema Capitalista, não apenas fabrica produtos como também produz audiências e é ela que(m) dirige, define e delibera personalidades, desejos e objectos; opiniões e decisões assim induzidas que são, na verdade, falsas escolhas, além de irracionais e previsíveis, como vimos.

Esta baixa cultura industrial, que oferece satisfação sensorial imediata, concretizada na televisão banal, por exemplo, é a manifestação de uma razão embrutecida e estratégica que, obscurecida pelos interesses, neste caso comerciais, assim conquista as audiências massivas, às quais submete uma falsa homogeneidade, consonância e abstracção.

Na verdade é uma uniformização, conseguida pela extirpação das partes, diferenciadas, específicas, que assim se vão ocultando, silenciando e discriminando. Uma marginalização, separatista e anti-comunicativa, que, tal como na personalidade do indivíduo, ocorre igualmente entre os próprios sub-sistemas - Governo, Mercado e “Media”, burocracia, capital e técnica - que se distinguem e valorizam, nomeadamente através dos seus líderes e especialistas, e da lifeworld, a vida de todos os dias, onde ocorre a interacção social e se movem os generalistas.

A razão, assim distorcida, em vez de integrar e sintetizar, unindo, analisa, desintegrando e separando. Evidencia e salienta umas partes, que a reproduzem, e abafa e desautoriza outras, que a criticam, ou ameaçam, pela alternativa que constituem. É, pois, uma razão totalitária, hegemónica, que coloniza, hoje, corporativamente.

Com origem na vida orgânica, da qual se destacaram, as partes sub-sistémicas “autonomizaram-se” de tal forma que passaram a ser confundidas com o próprio todo, que copiavam, representavam e duplicavam, primeiro e depois passaram a impor a sua supremacia, redefinindo o dia-a-dia, sem consentimento, embora de forma condescendente, consequência das suas estratégias de propaganda e manipulação. Eis a razão sensível a agir, como criticava Kant, tomando o falso pelo verdadeiro, o aparente pelo real, a parte pelo todo.

A princípio a ambição de se distinguir e sobrepor, de se diferenciar, levou os sub-sistemas a criarem palavras, signos, códigos, canais, linguagem, discursos e representantes – cada vez mais técnicos, especializados e complexos – promovendo a graduação, a estratificação e a desigualdade e, simultaneamente, rejeitando largas camadas da população que os ignoravam.

Trata-se das maiorias, sub-representadas nos sub-sistemas, incluindo o mediático, mal ‘traduzidas’, assim, em minorias. Uma perversão proporcionada por uma mente astuta, mas não inteligente, que, além da falsa equivalência, porque redutora, e da invasão da vida doméstica, familiar e social, sobrepôs códigos e regulamentações com soluções estandardizadas à livre troca de argumentos, própria da negociação linguística, para partilha, entendimento e consenso, dada a real diferenciação especificamente humana.

Uma vez mais, a razão sensível age condicionada pelas condições e ambições empíricas e, seduzida pela facilidade e falsidade (nomeadamente técnica e comunicativa), prende-se nela, comprometendo o seu desenvolvimento, superação e elevação humanas. Em vez do conceito, das categorias apriorísticas de Kant, a razão concreta baseia-se em preconceitos, algo que parece ordenar, estabilizar e dar segurança perante o desconhecido mas que constitui uma forma de conhecimento redutora, superficial, que priva da verdadeira compreensão do mundo, das coisas e do seres.

O sub-sistema cultural, ao mesmo tempo que reduz, nega e despreza o verdadeiro - seja em relação à identidade, à vida quotidiana, às maiorias sociais ou mesmo à razão discernida – expande o falso ou falsificado, a hiper ou pseudo-realidade, abusando da eficácia sub-consciente da imagem, tornando o espectáculo, antes próprio do entretenimento, cada vez mais disperso e difuso, injectado na informação e derramando-se pela vida de todos os dias.

A personalidade do indivíduo está tão enfraquecida e a simulação é de tal forma preparada e planeada que a cópia, a parte, não só se parece cada vez mais com o original, o todo, como corre o perigo não apenas de se lhe sobrepor mas mesmo de o destruir, o que significa deixar de haver simulações para passar a existir simulacros, signos já sem referentes, imagens às quais já não corresponde qualquer objecto, sujeito ou acontecimento.

Na formação das nações, as diferenças tribais, linguísticas e culturais foram suprimidas pelo uso da força, violência e barbárie, que impôs o predomínio de uma língua vernácula sobre todas as outras, de um destino comum aos demais, de uma falsa narrativa unitária sobre as divergências. O sistema nacionalista e capitalista, com a sua super-estrutura ideológica ubíqua e panóptica, passou a oprimir, a vigiar e a policiar.

As expressões assim bloqueadas, forçadas para um pressuposto consensual de fundo, constituíram uma repressão ocultada que destruiu o processo de comunicação. A comunicação democrática, baseada na simetria, na igualdade de oportunidades de expressão e na reciprocidade, na livre troca de argumentos, com base em informação genuína, não deturpada e sem coação, é eclipsada sobretudo quando a imprensa privilegia determinados indivíduos, líderes e especialistas, em detrimento da audição dos directamente afectados.

Autores como Habermas, Adorno ou Lincoln Dahlberg asseveram a existência de uma desigualdade estrutural, de uma violência sistémica – um problema criado pela arrogante razão sensacionalista, má juíza em causa própria, que esconde a lógica conservadora, reprodutora, brutal, opressora, exclusiva, parcial e desigual através de um discurso retórico onde propaga ser o oposto: inovadora, criativa, prazerosa, livre, inclusiva, plural e igualitária.

Os sub-sistemas propagandísticos disseminam de forma tão permanente, cruzada e continuada a ideia de que o Sistema encarna a liberdade de expressão e de que não pode ser alterado sem a sua perda que faz as alternativas e dissonâncias parecerem vagas, irrealistas, indesejáveis, impossíveis ou impensáveis, depreciando-as em programas de humor, autêntico alívio pré-determinado para a sua própria violência.

Embora funcione num registo individualista, consumista e capitalista, difundindo tais significados e discursos, a sua auto-propaganda dissemina a ideia de que é altruísta e se move ao serviço da audiência e não dos seus interesses mercantilistas. Uma razão poluída que se afirma central e geral, um “nós”, sendo, na verdade, periférica e particular, um “eles”, como lhe chamam as pessoas comuns no seu dia-a-dia.

Tal designação demonstra a separatividade, o distanciamento, o fosso que os sub-sistemas, produtos da razão distorcida, provocaram no indivíduo - cada vez mais excêntrico, escravizado e dominado pelos meios técnicos, que se tornaram um fim, e pela mente objectiva, que se converteu num meio - cada vez mais carente, incompleto e alheado, numa perseguição astuta, impulsiva e narcísica de conquista dos seus desejos, como sensação compensadora.

Contudo, das largas maiorias reais, assim oprimidas e reprimidas, barradas na sua entrada no discurso mediático, nem todas foram assimiladas, destruídas e eliminadas. Algumas, em transição, desapegadas das raízes culturais mas também resistentes à assimilação, mas sobretudo as tradicionais, irrompem através dos movimentos sociais dos anos 60, da globalização e da Web.

No pós-modernismo, as identidades ocultadas e abafadas das vozes, grupos, géneros ou etnias, até então ignoradas, reivindicam doravante representação adequada e justa no espaço público e mediático. Um anseio de reconhecimento por parte do todo, preservando as suas diferenças, reclamando a reconstituição, reunificação e recuperação da essência, do fechamento e da coesão originais.

Uma resposta, a ocidente e a oriente, dos mais puristas, tradicionalistas e fundamentalistas, à segregação como reacção às vagas migratórias, fascinadas pelo estilo de vida e produtos ocidentais publicitados por uma indústria cultural, cada vez mais internacional, e pela maior interdependência cultural.

Agora sem fronteiras, a indústria cultural global, aumentou a sua capacidade de penetração, elevou ainda mais a oferta de múltiplas identidades possíveis, incrementando, paralelamente, identidades cada vez mais fragmentadas, descentralizadas, desagregadas e isoladas.

O mesmo sistema, ao criar novos meios, digitais, reforça os efeitos anteriores de supremacia e imposição, por um lado, e de despersonalização e menoridade, por outro, acentuando a desvinculação do lugar e da co-presença e intensificando a abertura ao estranho e cada vez mais distante, o “ausente”, confundindo o indivíduo, uma vez mais, a interacção comunitária virtual com a experiência de comunicação e solidariedade que almeja.

A Web, particularmente a Web 2.0, que para os entusiastas, serviria de oportunidade para reequilibrar o desnível existente entre o sistema, o on line, e o mundo da vida, o off line, segundo Lincoln Dahlberg não só não diminuiu como, além de se manter, se agravou. Numa nova economia da atenção, onde a (in)visibilidade é determinante, os que já eram bem vistos passaram a sê-lo ainda mais, quer no sentido literal quer simbólico.

O novo sistema passou a ser, assim, uma oportunidade para aqueles que já (pre)dominavam - social, económica e educativamente - aumentarem as suas vantagens competitivas e oportunidade nenhuma, nem mesmo de melhorar as condições de vida, como defende o autor, das largas camadas de população que nem sequer têm as condições mínimas para lhe aceder, como infra-estruturas, equipamento, electricidade, competência ou tempo.

A nova geração Web aprofunda ainda mais o fosso não só em termos de acesso mas também de participação, uma vez que a actividade na Web, para os que têm acesso, se limita maioritariamente à reprodução, à retransmissão ou imitação dos principais “mass media”, revalorizando, assim, as ideias já bem notadas. Mesmo no campo da blogosfera são residuais os «vloggers», “bloggers” que conseguem ter uma audiência relevante, enquanto os «floggers», pagos por corporações para publicitarem os seus produtos ou serviços sem o conhecimento do público, pululam.

Acentua-se o desequilíbrio entre os que têm condições, competência e poder, nomeadamente económico, e criam, produzem, actuam, decidem se e quando querem ser vistos, e os que não o tendo se limitam a copiar, a disseminar, a consumir passivamente e a ser monotorizados, vigiados e controlados nas suas pesquisas, compras e perfis, agora reconstruídos pelas grupos empresariais de “media” e telecomunicações e vendidos às empresas de publicidade.

De forma acentuadamente refinada e cada vez mais sofisticada, as corporações dominam, controlam e manipulam os cidadãos, seduzidos com as aparentes facilidades, vantagens imediatas e prazeres instantâneos, quer ao nível dos conteúdos, licenciados, quer da forma, através de códigos ou termos de uso, e também dos dados pessoais armazenados, obtidos através dos registos obrigatórios dos “cadastrados” para acesso aos “domínios”.

As diferenças também se salientam entre os proprietários, grupos que não têm em conta o interesse público, o Bem Comum, e os que são abusados, explorados e expropriados, nomeadamente quando fazem trabalho voluntário que, em última instância, não lhes pertence e, anonimamente, contribuem para fomentar grandes audiências, baseadas num número restrito de fontes, com a supremacia de conteúdos comerciais e profissionais, ainda que presentes em menor quantidade, como é o caso do You Tube.

O sub-sistema técnico e cultural actual, digital, é pois mais um meio do mesmo Sistema se impor, dominar e discriminar os indivíduos, fascinados, dependentes e isolados. O hiato entre os que integram ou se adaptam aos sub-sistemas e os que deles permanecem distantes, ignorados, desprezados, abusados ou rejeitados reflecte-se na vida orgânica, agravando o seu desfavorecimento e empobrecimento, designadamente em capital social, económico ou digital.

As ferramentas e plataformas que a Web 2.0. traz consigo, além da referência, exemplo e esperança da Wikipédia - como comunicação significativamente mais livre, voluntária, autónoma, cooperativa, colaborativa, produtiva, aberta, disponível e, portanto, mais justa - não estão a ser suficientemente usadas e ocupadas, pelo que as promessas dos cyber-libertários, como lhes chama Dahlberg, de ultrapassar as desigualdades, estão ainda por cumprir.

Lincoln Dahlberg confia que, ao contrário das outras diferenças, as de poder, ligado ao discurso, são reversíveis. O mesmo signo, linguagem, logos, “medium”, representação que até aqui serviu, mal usado ou interpretado, para obstruir, barrar, separar servirá, bem usado e compreendido, para fluir, ligar e reunir as partes cindidas, num todo coeso, completo e integral.

De igual modo, Habermas defende que a via, o caminho seguro para a emancipação social é a comunicação racional. Ultrapassar a escravidão de extensas massas de população e atingir a libertação, a expressão de uma subjectividade, personalidade e identidade até aqui sufocadas, abafadas e censuradas, será possível se a razão impura - deturpada pelos sentidos, sensações e ambições, zeladora dos seus interesses particulares em detrimento do conjunto – se submeter a uma razão superior, mais pura, unificadora e universal, que efectivamente religue e integre todas e cada uma das partes no mesmo centro, sintetizador e não discriminativo.

Até aqui, a mente esperta mas não desperta, calculista e interesseira, desvirtuada e descuidada manifestou-se em diferentes áreas. Ao nível da imprensa, esta degeneração concretizou-se na maximização da presença do objecto e na minimização da marca do sujeito, reflectindo, também aqui, a sujeição do profissional aos factos, às coisas, aos acontecimentos empíricos.

O jornalismo industrial adoptou, por auto-defesa, uma falsa imparcialidade, fragmentando, descontextualizando, desideologizando e desidentificando, motivado por finalidades comerciais de aumentar as tiragens, expandir as vendas e aumentar significativamente as audiências. Chamou-se-lhe objectividade.

A repressão dos sujeitos, abafados e ocultados, na sua personalidade, identidade e expressão, ocorreu não apenas com a audiência e as fontes – foram privilegiadas as que possuíam um discurso ofensivo, agressivo, competitivo, militar e oficial, em detrimento dos actores sociais, com um discurso e uma prática mais inofensivos, cooperativos e pacifistas - mas igualmente com os profissionais que passaram, nas fábricas de notícias, a assumir parâmetros de neutralidade.

Em resultado dos critérios definidos também o jornalista se foi alheando, distanciando e tornando-se cada vez mais indiferente aos outros sujeitos, quer fossem fontes, temas das suas narrativas ou leitores, não sem gerar, contudo, um conflito de identidades, entre a profissional, desautorizada e reprimida, e a pessoal, cada vez mais ansiosa por conhecer, aproximar-se e relacionar-se com o outro, como mostram Linda Steiner e Chad Okrusch.

Desde há quase 20 anos que os efeitos foram detectados: uma crise de imprensa equivalente à da vida política, com o público, no primeiro caso, e os eleitores, no segundo, a afastarem-se, a desligarem-se e a ficarem também eles indiferentes às respectivas agendas, mediática e política. Encetaram-se, então, com o jornalismo público, esforços no sentido de recuperar a ligação, a conexão e a atenção perdidas.

Estas são três características fundamentais da ética do cuidado, que propõe precisamente a expressão da subjectividade aprisionada, agora livre para publicar a sua posição. Como afirma Martin Bell, o jornalismo de religação é “um jornalismo que cuida tanto quanto relata; que está consciente das suas responsabilidades; que não se manterá neutral perante o bem e o mal, o certo e o errado, a vitima e o opressor”(1).

Não se trata, contudo, de uma reafirmação de ainda mais parcialidade mas, pelo contrário, da verdadeira imparcialidade, desinteresse ou interesse colectivo – a defesa do Bem Comum. Uma Subjectividade inerente ao campo privado, da autonomia e da auto-regulação, correspondente a uma razão mais despoluída e discernida, que possibilitará a transição da opressão para a expressão, da exclusão para a vera inclusão e da diferenciação para a igualdade perante a lei moral.

Segundo o tratado “Crítica da Razão Prática”, de Immanuel Kant, a lei moral, universo do racionalismo, ordena o cumprimento dos deveres, do soberano bem, a moralidade - a predisposição de ânimo de acordo com o espírito da lei, por amor dela - e não a mera legalidade - a acção de acordo com a letra da lei, tendo em vista compensações, gratificações ou satisfações, como o mérito.

A primeira condição para o soberano bem é a virtude, a intenção pura - desinteressada, livre e independente de quaisquer apegos, inclinações ou vantagens sensacionais, próprios de uma razão afectada ou patológica – um espírito que julga segundo princípios racionais, universais, “a priori”, as leis, e não segundo finalidades empíricas, particulares, “a posteriori”, as máximas.

Além da ética da justiça (que enfatiza os direitos) e dos valores de religação e reconexão, do jornalismo público, que assume, a ética do cuidado propõe-se integrar também a ética da virtude, não como algo que se deva ocultar a nível público mas, antes, como uma qualidade cognitiva a aplicar e a desenvolver, mesmo a nível profissional.

No caso do jornalismo, uma profissão moralmente séria - com valores de justiça, verdade e democracia – a virtude cognitiva traduz-se numa epistemologia moral, uma forma de conhecimento e modos de produção noticiosa moralmente orientados, o que implica recolher, seleccionar, tratar e publicar informação de uma forma atenta, cuidada e correcta, com dedicação, envolvimento e carinho, não só em relação às pessoas mas também aos factos, aos documentos e às palavras usadas(2).

Numa profissão assim, com agentes e modos de produção morais, as respostas tendem a sê-lo também e crescentemente conscientes. Num jornalismo cuidadoso, a preocupação em relação aos efeitos sobre o público operacionaliza-se através do princípio da precaução, que integra a responsabilidade social – de acordo com uma das principais leis morais, conforme tratadas por Kant, que é a extensão da prudência, o amor de si, à felicidade dos outros.

Mas a principal lei moral, a lei das leis, é «Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo»(3). Ora este amor humano relativo à segunda parte do mandamento está em sintonia com as necessidades de reaproximação, religação e reconexão, reconhecidas pelo jornalismo público, ou de reintegração, identificadas por Habermas, Adorno ou Dahlberg.

De igual modo, as propostas de compreensão, caridade ou compaixão assumidas pela ética do cuidado - embora esta última, na perspectiva kantiana, esteja sob o domínio dos afectos, das inclinações e não da razão – vão no mesmo sentido de restabelecer os vínculos, as relações. Segundo os investigadores Steiner e Okrusch, o jornalismo cuidadoso não só deve ter e manter ligações, pessoais e profissionais, como as deve esclarecer no seu trabalho.

Está, pois, (em) aberto o caminho para que as partes até aqui excluídas do discurso mediático – os pobres, as mulheres, os cuidadores, por exemplo – possam doravante ser nele incluídos, com atenção e com amor. Quem cuida de outros em sofrimento são, de entre os seres humanos, os mais sofredores e a escolha de os colocar na agenda mediática, enquanto tema público, é também ela uma decisão moral – de quem mais precisa e merece atenção pública.

Em vez de ignorar estas camadas da população – habitualmente num trabalho mais privado, voluntário ou mal remunerado, mas mais exigente, em tempo e dedicação, generoso e amoroso – a proposta é passar a ouvi-las com atenção e escutá-las. Tal não só permitirá aliviar a sua sensação de isolamento como incentivar quem assiste a passar da mera benevolência (“care about”), a preocupação com o outro, a bondade, para a beneficiência (“care for”), a acção concreta de cuidar do outro.

Numa altura em que se eleva a consciência da audiência relativamente ao sofrimento humano em todo o mundo e também aumenta a sua vontade de ajudar a minorá-lo, tal como sucede com os próprios jornalistas, possibilitar a acção de serviço social, generosa e desinteressada, o voluntariado, permite não só a expressão saudável de uma subjectividade até aqui contida, como vislumbrar a tal acção virtuosa e caritativa apenas e só por respeito pela lei, tal como colocada por Kant.

Uma atitude, que além de possibilitar a reunificação das partes diferentes, divergentes, alternativas, habitualmente desprezadas, reflecte uma mudança profissional – da clássica exploração do sofrimento alheio para benefício económico das corporações mediáticas, através do estímulo intenso dos instintos humanos – para a elaboração de novas e mais perguntas sobre os agentes e acções que, no terreno, aliviam esse sofrimento, e, mesmo nos gabinetes, estudam propostas de (re)soluções mais institucionais, como defende o jornalismo de paz(4), contribuindo, assim, para o desenvolvimento da intuição humana.

O ser humano, pela sua personalidade, pertence aos dos mundos, o sensível e o supra-sensível. É, portanto um ser sagrado, digno de respeito – sentimento exclusivamente dirigido a pessoas, ao contrário da admiração também dirigível a objectos ou o amor, a animais -, sobretudo em presença da rectidão de carácter, uma maneira de pensar prática consequente e reveladora do soberano bem no homem.

Assim, «Que, na ordem dos fins, o homem (e com ele todo o ser racional) seja fim em si mesmo, isto é, que não possa jamais ser utilizado por alguém (nem sequer por Deus) simplesmente como meio, sem ao mesmo tempo ser ele próprio um fim; que, por conseguinte, a humanidade deva ser para nós próprios sagrada na nossa pessoa, eis o que decorre de si mesmo, porque o homem é o sujeito da lei moral, por conseguinte, daquilo que é santo em si»(5).

A beneficiência aos pobres é um dos exemplos, apontados por Kant, de prazer superior da faculdade de desejar em que a vontade é determinada pela razão. O resgate da subjectividade, da sua auto-expressão, constitui a emancipação através da razão transmutada, purificada e regenerada, ultrapassando a análise tradicional, positivista e objectiva, analítica e uniformizad(or)a, e aproximando-se do conhecimento sintético, unificador e autónomo.

A proposta de uma informação produzida atentamente e de forma cuidadosa, expressão do dever moral do amor a si mesmo e ao próximo, representa uma vontade determinada pela razão, segundo princípios universais, uma (re)aproximação ao próprio núcleo interno e inato, central e uno, do entendimento humano, “a priori”, e do julgamento livre e independente das prisões e ilusões dos sentidos, interesses, conveniências ou vantagens particulares.

Segundo Kohlberg, os jornalísticas cívicos e de investigação atingem o máximo na sua escala de desenvolvimento moral correspondente ao estádio pós-convencional em que a (pre)ocupação com o outro não se limita à família e ao círculo de amigos mas se estende a toda a humanidade – uma nova consciência e responsabilidade à escala universal, resultado de uma comunicação (mais) racional que poderá transmutar o isolamento em solidariedade globalizada.

(1) Bell, Martin. The journalism of attachement in M. Kieran (ed). Media ethics, pág.19, London: Routledge – citado por Linda Steiner e Chad Okrusch, Care as a virtue for journalists in Journal of Mass Media Ethics, 2006, 21, pág. 116. (2) Cf. CYTRYNBLUM, Alicia – Periodismo social – una nueva disciplina, La Crujía ed. 2004, pág. 83-89. (3) KANT, Immanuel – Critica da Razão Prática, Edições 70, 1985, pág. 98/99. (4) LYNCH, Jake – Peace journalism in ALLAN, Stuart (editor) - The Routledge Companion to News and Journalism. London and New York, 2010, p.541, p.543-553. (5) KANT, Immanuel – Critica da Razão Prática, Edições 70, 1985, pág. 151. Bibliografia: DAHLBERG, Lincoln – Web 2.0 divides: A critical political economy. University of Queensland. s/d. HALL, Stuart – A identidade cultural na pós-modernidade. D&A Ed. Pág. 7-97. KANT, Immanuel – Critica da Razão Prática, Edições 70, 1985. LAYDER, Derek (1994) – “Habermas`s Lifeworld and System” in Understanding social theory. Sage. 2005. Pág. 213-238. STEINER, Linda; OKRUSCH, Chad – Care as a virtue for journalists in Journal of Mass Media Ethics, 2006, 21, pág. 102-122. TAYLOR, Paul; HARRIS, Jan – Critical theories of Mass Media: Then en Now Maidenhed. Open University Press. 2008. Pág. 62-84.

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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Rádiotelefonia de sessenta VI


Nesta sexta parte abordamos a censura, na informação e programação.

Texto e fotografia Dina Cristo


Com o início da guerra em África, a censura passou a alargar-se ao noticiário internacional. Contudo, na rádio, e mais particularmente, na EN, a própria estrutura organizativa da emissora era o garante de uma filosofia e prática censória. “É notória a proximidade e dependência da Emissora Nacional em relação às mais altas instâncias do regime. A intervenção das entidades oficiais na EN opera-se directamente, através da reunião, do telefonema, da carta pessoal ao presidente da Estação, do despacho”1. Além da existência na redacção de um telefone directo à censura, a selecção da cadeia hierárquica era controlada pelo nível de adesão ao poder.

O Governo exercia uma interferência de forma mais ou menos explícita, através da nomeação, além do seu presidente (da sua inteira confiança) e dos directores de serviço, do presidente do conselho de programas e de um mais apertado controlo e fiscalização sobre a programação2. De acordo com o regulamento da Emissora Nacional de Radiodifusão, publicado em 1966, era requisito essencial para admissão aos concursos “estar integrado na ordem social e constitucional vigente, com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas”3.

A rádio oficial estava, assim, dominada internamente e à partida, o que permitia utilizá-la de forma mais ofensiva e propagandística do que a imprensa, sobre a qual era necessário um maior controlo externo desencadeando comparativamente, por parte do regime, uma atitude mais defensiva4.

Programação

A “Rádio Mocidade” foi um programa representativo da absorção ideológica do regime, através da EN. As suas emissões semanais, produzidas pelo Comissariado Nacional da MP, eram constituídas por “(…) uma nota sobre os ideais ou sobre os motivos que levaram a criar a organização, em que se dá a conhecer a cada um o que é e o que vale a Mocidade Portuguesa; em episódio radiofónico, narrando um facto histórico, uma data, contando uma biografia, citando um personagem ilustre ou, simplesmente, transportando a diálogo um facto ocorrido num acampamento e em outra actividade de rapazes; um “placard” de noticiário, em que se leva ao conhecimento do dirigente e do filiado uma resenha dos factos ocorridos dentro da Organização durante uma semana; por último, a encerrar o programa, um comentário sobre uma actividade ou sobre uma notícia, escrito e dito, normalmente, por um jornalista”5.

De notar a inovação ao introduzir-se dois conceitos fundamentais para a produção informativa. O termo jornalista, e já não redactor ou repórter, e o facto de este profissional da informação fazer ambas as tarefas: escrever o texto e depois dizê-lo ao micro. O facto de ser empregue a expressão falar ao microfone em vez de ler um papel testemunha a actualização juvenil relativamente à especificidade da linguagem radiofónica. As fontes radiofónicas eram maioritariamente oficiais, com utilização regular de comunicados, e a imprensa, já filtrada, restando incólumes temas como a vida artística e desportiva.

A equipa de “A voz dos ridículos”, programa criado em 1945, era forçada a apresentar sistematicamente os seus textos aos serviços de censura, antes de irem para o ar. Os cortes, então produzidos, provocavam, por vezes, a reelaboração do programa (parcial ou integralmente) em algumas horas e só a relação mais ou menos empática estabelecida com o censor podia acelerar o processo burocrático6.

No entanto, ao longo dos anos, a equipa trabalhou no sentido de ocultar quer as palavras quer as intenções à censura, como se tratasse de um jogo do gato e do rato. “Havia uma data de ejaculações cerebrais ali com o lápis azul na mão. Era uma vingançazinha. Não interessava o que é que [a censura] cortava e muitas vezes até cortava coisas só para dizer que estava lá”7.

Havia, contudo, formas mais ou menos elaboradas de ultrapassar o sistema censório, constituído por homens sem qualquer sensibilização radiofónica, que deixavam passar textos escritos que, depois de ditos ao microfone, ganhavam um novo significado e alteravam o sentido.

A equipa, explorando tal deficiência, utilizava palavras alternativas, cujo sentido advinha da sua sonoridade, muito mais do que da sua grafia, passando assim ao crivo do lápis azul expressões como “estava o sol a dar” ou “era só azar”. A mesma diferença se notava, por vezes, nos ensaios assistidos pelo censor. Antes da sua presença eram dadas instruções para que os textos fossem interpretados quase sem inflexões. Depois, ao microfone, a mesma voz adquiria uma entoação forte e quase irreconhecível.

Censura

Para as emissões que escapavam à auto-censura e à censura prévia, existia ainda outro tipo, efectuado “a posteriori”, pelo qual foi atingido o programa “Diário do ar” (1959-1963), suspenso porque “insistiu em transmitir espontaneamente estribilhos patrióticos acerca de Angola (…) a Rádio Renascença fez-lhe saber, sempre telefonicamente, e sem confirmação por escrito, apesar de haver um contrato que ainda não caducou, que resolvera cessar o “Diário do Ar” a partir de hoje, 16 de Junho de 1961, pois não podia tolerar as suas “piadas”. Seguiria uma carta. Pensando tratar-se de um meio de intimidação e como à hora habitual não tivesse chegado qualquer carta, os produtores fizeram a ligação com o estúdio da Rádio Renascença para iniciar a emissão. Mas ao bater das 15 horas, a Emissora Católica Portuguesa, sem qualquer satisfação ao público, anunciou o seu programa da tarde com música, muita música e um dia memorável para os seus locutores”8.

Em 1965, durante a cerimónia de imposição de insígnias aos novos doutores, na Aula Magna da Reitoria da Universidade Clássica de Lisboa, os estudantes interromperam o discurso do reitor, que afirmava: “Pretende-se dar a esta solenidade o sentido virado ao futuro, na medida em que os actos que a integram representam sobretudo o esforço e o mérito mais nobres na universidade que garantem a continuidade da vida da instituição cultural e política”.

Entretanto, o grito de liberdade dos estudantes irrompeu, em uníssono e fortemente, várias vezes. O orador ainda tentou recuperar a mensagem inicial – “Por isso, a imagem…”, mas ouviram-se, outra vez, os gritos pela liberdade e uma pergunta: “Não vais falar mais, pois não?”9. À resposta – “É lamentável a má criação”, seguiu-se, apesar do coro de assobios, a segunda tentativa de recuperar o discurso, mas os gritos de demissão prosseguiram insistentes. Contudo, não foram escutados pelos ouvintes da EN, porque nunca foi permitida tal transmissão.

Já depois do 25 de Abril, a “Rádio & Televisão” organizou uma mesa redonda sobre a rádio. “Havia coisas que só se pensavam, outras que as pessoas tinham medo de pensar e outras que só diziam ao ouvido umas das outras. Nós, que falámos para o público, precisávamos de ter todos esses cuidados e muitos outros mais. Era a repressão que se exercia sobre nós, homens da Rádio. Em especial sobre aqueles que estavam empenhados numa determinada acção informativa. Tínhamos que fazer prodígios de imaginação para dizer coisas que, por um lado, resistisse a todos os tipos de censura existentes e que, ao mesmo tempo, pudessem comunicar, através de metáforas, de imagens (as chamadas entrelinhas); falávamos de modo a que as pessoas ouvissem os nossos silêncios (…)”10, lembrou Cândido Mota.

(1) “A rádio em Portugal”, pág.88 (policopiado). (2) Dec-Lei nº 46927 de 30/03/1966. Artº28º e 36º. (3) Idem, Artº119 – 6º e 7º. (4) Op. Cit., pág.85/86. (5) R&T 30/12/1961, pág.17. (6) Entrevista a Júlio Couto. Porto. 21/07/1997. (7) Idem. (8) R&T 24/06/1961, pág.3. (9) A.H.RDP. EN 1965. AHD 2394. Faixa 50. (10) R&T 18/05/1974, pág.6.

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Telefonia de sessenta IV


Nesta quarta parte, abordamos a estrutura radiofónica enquanto aliada do regime.

Texto Dina Cristo

Ao relatar os acontecimentos mais significativos de 1961, a rádio portuguesa adopta uma atitude propagandística. Num país ditatorial, com a interiorização da censura, a ‘habituação’ da polícia política e a interdição partidária (para além da União Nacional, do Governo), a circulação do pensamento e ideias limita-se à realidade clandestina.
Com o conflito em Angola, a censura passa, a partir de 1961, a alargar-se também ao noticiário internacional. A nova circular interna dos Serviços de Censura incute um maior rigor censório[1] sobre os jornais.
A rádio, por outro lado, estava controlada à partida. “Em Portugal o poder encontra na radiodifusão um poderoso instrumento de propaganda. Salazar não só controla directamente a Emissora Nacional, como encontra na RR e no Rádio Clube Português fiéis e úteis aliados”[2].
Na Emissora Nacional, o dono era o próprio Estado e, portanto, a selecção de funcionários era, na generalidade, baseada na ideologia política perfilada. “Os próprios colaboradores dos órgãos de comunicação social só podem expressar-se sendo do regime, já que a opinião diferente é impedida”[3]. São as regras. Olga Serra Cruz, testemunha dos dias da rádio portuguesa nos anos 60, confirma a governamentalização da rádio. Os repórteres «eram escolhidos a dedo para dizer o que ‘deviam dizer’»[4].
Na Rádio Renascença, a Igreja está comprometida com os valores do regime. É, aliás, liderada pelo cardeal Cerejeira – um aliado fundamental do Presidente do Conselho – que defende a política do Governo junto da Santa Sé e do mundo Ocidental[5].
Cerejeira silencia-se aquando da repressão policial sobre os estudantes no início da década, aceita a limitação da liberdade de imprensa, usufruindo de absoluta protecção na comunicação social e na actividade editorial. Quando o bispo do Porto escreve, a 13 de Julho de 1958, uma missiva a Salazar, que o obriga a um exílio de dez anos, o cardeal não reage.
De acordo com José Barreto[6], o Estado Novo mantivera com a Igreja, ao longo de 40 anos, um relacionamento harmonioso, quase ideal, estabelecendo uma relação do tipo “alma e corpo” medieval.
O Rádio Clube Português era ligado ao regime, até mesmo por questões familiares, relacionadas com o seu fundador, Jorge Botelho Moniz[7].
A radiodifusão é, assim, usada como instrumento de propaganda política. No pós II Guerra Mundial, a rádio torna-se o veículo mais adequado à transmissão ou contraposição de uma (ou mais) ideia(s) para o exterior do país.
Em Portugal, o processo é acelerado nos anos 60, altura em que o país sofre ataques multilaterais e multiformes. Nesta altura, há muito mais uma radiodifusão do Governo do que do Estado.
Tudo remonta aos anos 40, quando para a criação do Gabinete de Coordenação dos Serviços de Propaganda e Informação, junto da Presidência do Conselho, se forma um Gabinete de Coordenação, constituído pelos directores do Secretariado de Propaganda Nacional dos Serviços de Censura e pelo Presidente da Comissão Administrativa da Emissora Nacional.
A EN está subordinada à Presidência do Conselho, quer em relação à propaganda quer aos programas, e os seus presidentes são da estrita confiança pessoal de Salazar, nomeadamente Henrique Galvão, António Ferro[8], António D`Eça de Queiroz, Jaime Ferreira e José Sollari Allegro.
Legalmente, o secretário nacional de propaganda podia ser, ao mesmo tempo, director do SNI e presidente da direcção da EN.
(Auto) censura
Na rádio, os censores estão dentro da própria estação, pelo que a censura faz-se quase automaticamente. «É notória a proximidade e dependência da Emissora Nacional em relação às mais altas instâncias do regime. A intervenção das entidades oficiais na EN opera-se directamente, através da reunião, do telefonema, da carta pessoal ao presidente da Estação, do despacho. Esta intervenção dispensa a censura, pois a EN é a “voz do dono”. A censura encontra-se assegurada pela própria estrutura orgânica da EN, na qual se integra o próprio poder. Não que os censores não existam. Porque eles estão lá, nomeados pelo Governo, cumprindo zelosamente a sua missão e as ordens recebidas, algumas emanadas directamente da própria direcção da EN, cujo presidente é um “censor-mor” (…)»[9].
Os censores são, na sua maioria, oficiais do exército reformados ou na reserva, geralmente com pouco zelo. Noutras ocasiões, com uma falta de sensibilização radiofónica, deixam transmitir textos escritos que, depois de ditos ao microfone, ganham um novo sentido. É a escrita radiofónica nas “entrelinhas” para fazer difundir uma mensagem diferente da que aparenta no papel.
A voz dos ridículos”, o programa mais antigo da rádio portuguesa, chega a “ironizar” com expressões como “estava o sol a dar”, “era só azar”. Era tudo uma questão de ouvido (homofonia). Nos ensaios, em presença dos censores podia representar-se uma peça de forma seca e fria, a mesma que dias depois, dita na rádio, se enche de vibração, entusiasmo e entoação.
Para esta equipa nortenha, havia censura prévia. Os textos eram continuamente levados ao estabelecimento comercial, na Rua de Santa Catarina, antes de irem para o ar. Algumas rubricas eram cortadas: “Houve programas que foram refeitos no espaço de horas”[10]. A empatia com o censor apenas podia fazer acelerar ou demorar mais o processo, obrigatório, contudo.
De qualquer forma, a auto-censura domina. Os profissionais são pessoas da confiança do Governo, têm como fontes os jornais, já filtrados, e a informação é quase sempre oficial, muitas vezes baseada em comunicados lidos tal e qual estão escritos, sem quaisquer adaptações radiofónicas.
Muitas pessoas são formadas nesse quadro político-social e é como se houvesse um "muro", para além do qual, nada mais se vê. Para a rádio, não há regras escritas. Mas elas funcionam em pleno. As reportagens permitidas são sobre factos anódinos, sem importância.
Para os trabalhos que escapam à (auto)censura, existe ainda a censura “a posteriori”. Eis um caso de suspensão: «Porque o “Diário do Ar” insistiu em transmitir espontaneamente estribilhos patrióticos acerca de Angola, a Rádio Renascença fez-lhe saber, sempre telefonicamente, e sem confirmação por escrito, apesar de haver um contrato que ainda não caducou, que resolvera cessar o “Diário do Ar” a partir de hoje, 16 de Junho de 1961, pois não podia tolerar as suas “piadas”. Seguiria uma carta»[11].
A missiva nunca chega e o programa é suspenso. No entanto, reaparece em três semanas, com equipa rejuvenescida, em novo emissor, o de Miramar, do Rádio Clube Português, e passa a chamar-se “Rádio Jornal: o seu diário do ar”.

[1] Alerta o documento que os jornais devem continuar a enviar as respectivas provas, acompanhadas de títulos e subtítulos, nomeadamente os referentes a assuntos militares de Ultramar e de ordem político-social. [2] TEIXEIRA, João Luís Arruda et all “A rádio em Portugal”. Trabalho executado no âmbito da cadeira “História dos Media”, coordenada por Francisco Rui Cádima. Policopiado. Lisboa. 1988. Vol. I, pág. 46. [3] Idem, pág. 63. [4] CRUZ, Olga Serra - “A rádio – anos 60”. Trabalho executado no âmbito da cadeira “História dos Media”, coordenada por Francisco Rui Cádima. Policopiado. Lisboa. 1986. Vol. I, pág. 15. [5] O cardeal Cerejeira fora um amigo pessoal de Salazar, desde os tempos de estudante no seminário. Salazar estudou em Viseu, de 1900 a 1908, e Cerejeira em Braga, desde 1906 e 1909. [6] José Barreto é autor da introdução e anotações da “Carta ao cardeal Cerejeira”, escrita por D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, a 16 de Julho de 1968 e editada pelas Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1996. [7] “Júlio Botelho Moniz era um homem mais sólido e calmo do que o seu irmão Jorge, demasiado truculento”, afirma Mário Soares à jornalista Maria João Avillez (pág. 155). [8] Foram presidentes da Emissora Nacional Henrique Galvão, António Ferro, António D´Éça de Queiroz. Na década de 60, passaram pelo lugar Jaime Ferreira e José Sollari Allegro. [9] TEIXEIRA, João Luís Arruda et all “A rádio em Portugal”. Trabalho executado no âmbito da cadeira “História dos Media”, coordenada por Francisco Rui Cádima. Policopiado. Lisboa. 1988. Vol. I, pág. 88. [10] Entrevista pela autora a Júlio Couto, no Porto. [11] “Pensando tratar-se de um meio de intimidação e como à hora habitual não tivesse chegado qualquer carta, os produtores fizeram a ligação com o estúdio da Rádio Renascença para iniciar a emissão. Mas ao bater das 15 horas, a Emissora Católica Portuguesa, sem qualquer satisfação ao público, anunciou o seu programa da tarde com música, muita música e um dia memorável para os seus locutores” in “Rádio e Televisão”, 24 de Junho de 1961, pág. 3.

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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Edição Especial


Faz vinte anos, este Domingo, 16 de Dezembro. Passadas duas décadas, a ética e o mercado, a informação e o espectáculo, o conteúdo e a imagem continuam presentes. Eis a realidade da ficção.

Texto Dina Cristo

James L. Brooks argumentou, realizou e produziu. Deixou-nos há duas décadas uma longa metragem que retrata a realidade do jornalismo televisivo de hoje. Nela, expõe uma trilogia com que telespectadores e profissionais se defrontam: a ética e o rigor, representada por Jane Craig (Holly Hunter), a cultura e a vida interior, por Aaron Altman (Albert Brooks) e a imagem e a aparência, por Tom Grunick (William Hurt).
Neste, que é também um triângulo amoroso, Brooks confronta Jane com os seus princípios e valores profissionais (o relato - mais - puro da realidade) com a atracção por um homem (Tom) que, reconhece, encarna “o que eu considero perigoso” - “o demónio”, nas palavras de Aaron que, enciumado, lhe diz: “tens de admitir que ele personifica tudo o que tu lutas contra”.
Jane é uma produtora de elevado nível profissional que enfrenta os seus altos padrões de ética, numa realidade de concorrência televisiva, com frequentes crises de choro. Em reportagem com Aaron, na Nicarágua, por exemplo, opõe-se radicalmente a encenar seja o que for: “Não estamos aqui para criar notícias! Façam o que têm a fazer. As decisões são vossas”, ao que o soldado decide calçar as botas. Quando lhe dizem que foi fantástica ela apenas responde: “Não houve falhas de maior (…) Vocês são muito bons”.
Aaron adora Jane, de quem é imensamente amigo. É um homem de conhecimentos gerais bem fundados, grande repórter, que um dia quer experimentar ser apresentador; com o seguinte resultado: “Ali estava eu a promover-me, sentado sobre o casaco. A dar ênfase às ideias, mas acontece que tive um ataque de suor. Perdi um dos teus chumaços. Foram na cheia. Até recebemos telefonemas (...) de preocupação se eu estava a ter um ataque de coração”, conta a Jane. “Foi tão ridículo que se tornou engraçado (…) O suor a correr, a maquilhagem a entrar-me nos olhos. Tentaram secar-me com secadores de cabelo para eu poder ler as instruções dos repórteres que, afinal, é o que eu gosto de ser”.
Tom é fisicamente atraente, mas com enormes lacunas de conhecimentos e de expressão; não passa sequer nos mais singelos testes que (Jane e) Aaron frequentemente (lhe) faz e admite: “Na maioria das vezes não entendo as notícias que leio. Isto não são complexos de inferioridade, acredite! Sou mesmo mau!”. Ao contrário de Aaron, a sua imagem começa a ser imediatamente reconhecida, dentro e fora da redacção. Inexperiente, mas dominando as técnicas televisivas da imagem, supera os testes da estação e, mesmo perante um despedimento em massa, é promovido para Londres. No final, é ele quem desafia Aaron: “Se te fartares de Portland, informa-me”.
Saber (ou) vender?
Quando a redacção em peso está a ver o trabalho encenado de Tom, Aaron pergunta: “Posso ligar para as notícias?”, e perante os protestos dos colegas ironiza: “Está bem, sexo e lágrimas devem ser as notícias”. Contudo, quando se trata de enfrentar as câmaras, é Tom quem o aconselha: “Senta-te um pouco sobre o casaco. Fica com melhor aspecto, olha para o monitor, não mexas os olhos durante cada frase(…) Não estás só a ler. Estás a narrar notícias. Estás a vender-lhes a tua imagem”.
Jane, ao descobrir que Tom criou a sua própria emoção, através da fabricação de lágrimas “a posteriori”, recusa o seu convite para irem até uma ilha: “É terrível o que fizeste (…) Passaste a fronteira entre a ética e o lixo (…) Cometes uma violação à ética e procedes como se eu fizesse uma tempestade num copo de água?!”.
A extraordinária menina que escreve à máquina e que interrompe para dizer ao pai (por)que não está obsessiva é a exigente profissional cujo reconhecimento lhe dará o cargo de editora. Tom, que não era um bom aluno mas teimava em esforçar-se, não o precisa fazer. Quando enfrenta o desafio das câmaras, a primeira coisa que faz é escolher a camisa a vestir; o texto virá de Jane e as dicas de Aaron que, mesmo em casa, a ler e a ouvir música, o informa sobre o que apresenta na TV: “Falo aqui e aparece ali!”, diz estupefacto. Aaron, quando termina o liceu, como um dos melhores alunos, diz num discurso crítico: “Nunca sairão daqui (…), não conseguirão escrever ou ter um pensamento original”. Contudo, apesar da sua competência, acabará numa estação secundária, (a segunda de Portland).
A fita “abre” com Jane numa conferência: preparada para falar sobre a celebridade, o lucro, a economia, “Oh! Ia mostrar-vos uma cassete duma notícia dada, em todos os noticiários da mesma noite. Na mesma noite em que deixaram escapar uma mudança política importante sobre o desarmamento nuclear. Aqui está o que nos mostraram… Sei que é divertido. Eu gosto de me divertir. Só que isto não são notícias!”. Conforme fala assim as pessoas lhe viram costas, excepto Tom. No fim do filme, fecha-se o ciclo: é Tom a estrela aplaudida. E tudo o que ele tem para dizer ao público que enche a sala é… apresentar a sua noiva.

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Jornalismo de interesse público



Na véspera da litúrgia relativa ao patrono dos Jornalistas, S. Francisco de Sales, recuperamos o conceito de jornalismo público*, a assinalar vinte anos.

Texto e fotografia Dina Cristo
No jornalismo tradicional os profissionais controlavam todo o processo de produção de informação, desde a recolha à sua publicação. Aos receptores era dada apenas a possibilidade de reagirem, escrevendo, “a posteriori”, uma carta ao director. Perante o afastamento dos leitores e a crise de imprensa, nasceu nos EUA, em 1993, uma nova proposta de exercício do jornalismo: o jornalismo público que passa a liderar a mudança de relacionamento entre profissionais e audiência.
Com o objectivo de promover o aumento de vendas e recuperar a ligação com os leitores, o jornalismo público visa sobretudo envolvê-los nos assuntos públicos. Já que a internet havia retirado efectivamente o privilégio do fabrico do produto informativo aos profissionais, estes aceitaram oferecer aos leitores, telespectadores, ouvintes e usuários um papel na participação na elaboração dos conteúdos das notícias. Desde então o jornalismo público tem vindo a experimentar parcerias privadas na recolha e produção de notícias, embora reserve para si a publicação.
São três os seus principais objectivos. Ligar-se aos problemas das pessoas (comuns), dando-lhes a possibilidade de se expressarem sobre assuntos públicos, o que implica a noção de pertença, partilha de experiências, interacção, vínculo e espaço social, ultrapassando o lugar geográfico - a comunidade. Envolver as pessoas na contribuição para os assuntos públicos, mantendo-se informadas sobre a agenda pública e política, assumindo-se enquanto cidadãos, o que implica vontade, respeito, informação e igualdade de oportunidades de expressão - a cidadania. Debater e discutir os temas, opções, perspectivas, posições e informações em agenda, procurar soluções e decidir de forma inteligente - a deliberação.
Esta reconexão com o público tem-se concretizado sobretudo em três modelos: o jornalismo interactivo, em que o público pode participar mas apenas após a publicação, ao nível informativo, no conteúdo – através de uma leitura não linear e de uma escolha mais complexa – e ao nível comunicativo, na relação interpessoal – através do uso de correio electrónico, espaços de debate,  discussão e comentário. O jornalismo participativo em que os usuários recolhem e enviam conteúdos noticiosos, sobretudo fotografias, ao nível hiperlocal e de forma voluntária, como ocorreu no âmbito do Tsunami, em 2004. O jornalismo de cidadão em que os cidadãos realizam todo o processo produtivo, desde a recolha à publicação, passando pela produção e selecção, desde as fontes ao enquadramento noticioso. É o mais envolvente de todos, o que mais se liga às comunidades de leitores e o que melhor se tem desenvolvido. Geralmente exercido através de blogues, os primeiros a reportar, necessitam dos “media” tradicionais para exercerem a sua influencia e se tornarem (re)conhecidos, afirma Joyce Nip. São uma forma de jornalismo legítima desde que contenham entrevistas originais, reportagens e análise de acontecimentos públicos. Um dos maiores e melhores exemplos é o Indymedia, do Independent Media Center.
Mas até que ponto, questiona a autora, estes modelos de jornalismo têm contribuído para os fins do jornalismo público? No caso do jornalismo on line, por exemplo, as potencialidades, como a interactividade, não têm sido suficientemente aplicadas, pelo contrário a reprodução de produtos existentes nos media off line revelou-se frequente.
Desaproveitamento
Não bastam existir canais de comunicação com o público, caso dos endereços electrónicos, links, comentários a posts, é preciso que sejam usados, o que não se verifica em número suficiente, como no caso da falta de respostas aos @mails por parte dos profissionais. No caso dos arquivos, notícias personalizadas, sondagens e hiperligações facilitam o engajamento do público nos assuntos comunitários, contudo a sua optimização está aquém do necessário. Para o estímulo à conversação, com comunicação (a)síncrona, é imprescindível a administração e o agendamento dos assuntos para debate.
Apesar das finalidades de estreitamento da relação com o público, o jornalismo público, na prática, tem-se mostrado débil. Os blogues com mais sucesso reportam sobretudo as preocupações da elite; os dos jornalistas são os mais credíveis e confiáveis pelos “media” de mainstream que os citam e publicam e com os quais os próprios profissionais se relacionam; as hiperligações para websites oficias são menos comuns tal como é rara a oportunidade de conversação entre participantes; nos chats a tendência é convidar pessoas já conhecidas; a ligação entre as comunidades on line e off line está por fazer e a esfera pública on line, principal plataforma da prática dos modelos interactivo, participativo e de cidadão, não só também exclui como o faz de forma ainda mais extrema.
Para além das dificuldades de recursos (financeiros) e literacia (tecnológica) de vários membros das comunidades acresce o excessivo controlo administrativo, incluindo a pré-censura, e uma forma selectiva dos temas em debate insuficientemente democrática para o nível de deliberação pública pretendido.
Se a Web trouxe ferramentas inovadoras e forneceu novas oportunidades de concretização dos objectivos do jornalismo público também aumentou a complexidade das tarefas. Ainda assim, os seus princípios no âmbito do fornecimento de uma informação completa e na representação de todos os pontos de vista, na aceitação de formas diferentes de construir histórias, incluindo composições, enquadramentos e acções alternativas, com vista à compreensão dos temas, a ênfase nas possibilidades de soluções e na agenda pública, para além da estritamente política e mediática, são valiosos contributos para o desenvolvimento da actividade jornalística. 
De uma audiência tradicionalmente ignorada, onde apenas eram ouvidas as fontes especializadas ou governamentais, esta passou a integrar o próprio processo de fabrico, em diferentes graus de participação e actividade. Entrámos na segunda fase do jornalismo público, com a audiência a tomar a iniciativa e a ultrapassar as acções dos próprios meios de comunicação social.
Apesar das potencialidades da Web estarem sub-aproveitadas, a verdade é que com a facilidade da auto-publicação e a popularização dos blogues, a maior parte dos profissionais acredita que o futuro da imprensa depende da interactividade com o público ao que o autor acrescenta vantagens de um trabalho em rede que beneficiaria ambos, cidadãos e profissionais.
O envolvimento das comunidades, previsto e pretendido pelo jornalismo público há duas décadas, foi superado pela própria dinâmica tecnológica e motivação do público, cada vez mais envolvido na procura, realização e discussão dos assuntos comunitários. O objectivo de ir para além da mera informação, os dados, e atingir a comunicação, a relação com os receptores, foi promovido pelas próprias circunstâncias e condições técnicas.
Contudo, ainda assim, de uma forma geral, é o profissional que exerce o “gatekeeping”, é ele que tem o poder de escolher, editar e publicar os conteúdos informativos. Talvez esta resistência a perder o controlo do monopólio da (definição da) informação explique a actual controvérsia e enfraquecimento do jornalismo público, com a anterior directora do Pew Center for Civic Journalism, Jan Schaffer, a fundar projectos no âmbito da cidadania.

* Seguimos o artigo de NIP, Joyce – Exploring the second phase of public journalism in Journalism Studies, vol.7, nº2, 2006, pág.212-236.

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