Telefonia de sessenta IV

Ao relatar os acontecimentos mais significativos de 1961, a rádio portuguesa adopta uma atitude propagandística. Num país ditatorial, com a interiorização da censura, a ‘habituação’ da polícia política e a interdição partidária (para além da União Nacional, do Governo), a circulação do pensamento e ideias limita-se à realidade clandestina.
Com o conflito em Angola, a censura passa, a partir de 1961, a alargar-se também ao noticiário internacional. A nova circular interna dos Serviços de Censura incute um maior rigor censório[1] sobre os jornais.
A rádio, por outro lado, estava controlada à partida. “Em Portugal o poder encontra na radiodifusão um poderoso instrumento de propaganda. Salazar não só controla directamente a Emissora Nacional, como encontra na RR e no Rádio Clube Português fiéis e úteis aliados”[2].
Na Emissora Nacional, o dono era o próprio Estado e, portanto, a selecção de funcionários era, na generalidade, baseada na ideologia política perfilada. “Os próprios colaboradores dos órgãos de comunicação social só podem expressar-se sendo do regime, já que a opinião diferente é impedida”[3]. São as regras. Olga Serra Cruz, testemunha dos dias da rádio portuguesa nos anos 60, confirma a governamentalização da rádio. Os repórteres «eram escolhidos a dedo para dizer o que ‘deviam dizer’»[4].
Na Rádio Renascença, a Igreja está comprometida com os valores do regime. É, aliás, liderada pelo cardeal Cerejeira – um aliado fundamental do Presidente do Conselho – que defende a política do Governo junto da Santa Sé e do mundo Ocidental[5].
Cerejeira silencia-se aquando da repressão policial sobre os estudantes no início da década, aceita a limitação da liberdade de imprensa, usufruindo de absoluta protecção na comunicação social e na actividade editorial. Quando o bispo do Porto escreve, a 13 de Julho de 1958, uma missiva a Salazar, que o obriga a um exílio de dez anos, o cardeal não reage.
De acordo com José Barreto[6], o Estado Novo mantivera com a Igreja, ao longo de 40 anos, um relacionamento harmonioso, quase ideal, estabelecendo uma relação do tipo “alma e corpo” medieval.
O Rádio Clube Português era ligado ao regime, até mesmo por questões familiares, relacionadas com o seu fundador, Jorge Botelho Moniz[7].
A radiodifusão é, assim, usada como instrumento de propaganda política. No pós II Guerra Mundial, a rádio torna-se o veículo mais adequado à transmissão ou contraposição de uma (ou mais) ideia(s) para o exterior do país.
Em Portugal, o processo é acelerado nos anos 60, altura em que o país sofre ataques multilaterais e multiformes. Nesta altura, há muito mais uma radiodifusão do Governo do que do Estado.
Tudo remonta aos anos 40, quando para a criação do Gabinete de Coordenação dos Serviços de Propaganda e Informação, junto da Presidência do Conselho, se forma um Gabinete de Coordenação, constituído pelos directores do Secretariado de Propaganda Nacional dos Serviços de Censura e pelo Presidente da Comissão Administrativa da Emissora Nacional.
A EN está subordinada à Presidência do Conselho, quer em relação à propaganda quer aos programas, e os seus presidentes são da estrita confiança pessoal de Salazar, nomeadamente Henrique Galvão, António Ferro[8], António D`Eça de Queiroz, Jaime Ferreira e José Sollari Allegro.
Legalmente, o secretário nacional de propaganda podia ser, ao mesmo tempo, director do SNI e presidente da direcção da EN.
(Auto) censura
Na rádio, os censores estão dentro da própria estação, pelo que a censura faz-se quase automaticamente. «É notória a proximidade e dependência da Emissora Nacional em relação às mais altas instâncias do regime. A intervenção das entidades oficiais na EN opera-se directamente, através da reunião, do telefonema, da carta pessoal ao presidente da Estação, do despacho. Esta intervenção dispensa a censura, pois a EN é a “voz do dono”. A censura encontra-se assegurada pela própria estrutura orgânica da EN, na qual se integra o próprio poder. Não que os censores não existam. Porque eles estão lá, nomeados pelo Governo, cumprindo zelosamente a sua missão e as ordens recebidas, algumas emanadas directamente da própria direcção da EN, cujo presidente é um “censor-mor” (…)»[9].
Os censores são, na sua maioria, oficiais do exército reformados ou na reserva, geralmente com pouco zelo. Noutras ocasiões, com uma falta de sensibilização radiofónica, deixam transmitir textos escritos que, depois de ditos ao microfone, ganham um novo sentido. É a escrita radiofónica nas “entrelinhas” para fazer difundir uma mensagem diferente da que aparenta no papel.
“A voz dos ridículos”, o programa mais antigo da rádio portuguesa, chega a “ironizar” com expressões como “estava o sol a dar”, “era só azar”. Era tudo uma questão de ouvido (homofonia). Nos ensaios, em presença dos censores podia representar-se uma peça de forma seca e fria, a mesma que dias depois, dita na rádio, se enche de vibração, entusiasmo e entoação.
Para esta equipa nortenha, havia censura prévia. Os textos eram continuamente levados ao estabelecimento comercial, na Rua de Santa Catarina, antes de irem para o ar. Algumas rubricas eram cortadas: “Houve programas que foram refeitos no espaço de horas”[10]. A empatia com o censor apenas podia fazer acelerar ou demorar mais o processo, obrigatório, contudo.
De qualquer forma, a auto-censura domina. Os profissionais são pessoas da confiança do Governo, têm como fontes os jornais, já filtrados, e a informação é quase sempre oficial, muitas vezes baseada em comunicados lidos tal e qual estão escritos, sem quaisquer adaptações radiofónicas.
Muitas pessoas são formadas nesse quadro político-social e é como se houvesse um "muro", para além do qual, nada mais se vê. Para a rádio, não há regras escritas. Mas elas funcionam em pleno. As reportagens permitidas são sobre factos anódinos, sem importância.
Para os trabalhos que escapam à (auto)censura, existe ainda a censura “a posteriori”. Eis um caso de suspensão: «Porque o “Diário do Ar” insistiu em transmitir espontaneamente estribilhos patrióticos acerca de Angola, a Rádio Renascença fez-lhe saber, sempre telefonicamente, e sem confirmação por escrito, apesar de haver um contrato que ainda não caducou, que resolvera cessar o “Diário do Ar” a partir de hoje, 16 de Junho de 1961, pois não podia tolerar as suas “piadas”. Seguiria uma carta»[11].
A missiva nunca chega e o programa é suspenso. No entanto, reaparece em três semanas, com equipa rejuvenescida, em novo emissor, o de Miramar, do Rádio Clube Português, e passa a chamar-se “Rádio Jornal: o seu diário do ar”.
[1] Alerta o documento que os jornais devem continuar a enviar as respectivas provas, acompanhadas de títulos e subtítulos, nomeadamente os referentes a assuntos militares de Ultramar e de ordem político-social.
[2] TEIXEIRA, João Luís Arruda et all “A rádio em Portugal”. Trabalho executado no âmbito da cadeira “História dos Media”, coordenada por Francisco Rui Cádima. Policopiado. Lisboa. 1988. Vol. I, pág. 46.
[3] Idem, pág. 63.
[4] CRUZ, Olga Serra - “A rádio – anos 60”. Trabalho executado no âmbito da cadeira “História dos Media”, coordenada por Francisco Rui Cádima. Policopiado. Lisboa. 1986. Vol. I, pág. 15.
[5] O cardeal Cerejeira fora um amigo pessoal de Salazar, desde os tempos de estudante no seminário. Salazar estudou em Viseu, de 1900 a 1908, e Cerejeira em Braga, desde 1906 e 1909.
[6] José Barreto é autor da introdução e anotações da “Carta ao cardeal Cerejeira”, escrita por D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, a 16 de Julho de 1968 e editada pelas Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1996.
[7] “Júlio Botelho Moniz era um homem mais sólido e calmo do que o seu irmão Jorge, demasiado truculento”, afirma Mário Soares à jornalista Maria João Avillez (pág. 155).
[8] Foram presidentes da Emissora Nacional Henrique Galvão, António Ferro, António D´Éça de Queiroz. Na década de 60, passaram pelo lugar Jaime Ferreira e José Sollari Allegro.
[9] TEIXEIRA, João Luís Arruda et all “A rádio em Portugal”. Trabalho executado no âmbito da cadeira “História dos Media”, coordenada por Francisco Rui Cádima. Policopiado. Lisboa. 1988. Vol. I, pág. 88.
[10] Entrevista pela autora a Júlio Couto, no Porto.
[11] “Pensando tratar-se de um meio de intimidação e como à hora habitual não tivesse chegado qualquer carta, os produtores fizeram a ligação com o estúdio da Rádio Renascença para iniciar a emissão. Mas ao bater das 15 horas, a Emissora Católica Portuguesa, sem qualquer satisfação ao público, anunciou o seu programa da tarde com música, muita música e um dia memorável para os seus locutores” in “Rádio e Televisão”, 24 de Junho de 1961, pág. 3.
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