quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Repartir




Próximo do Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, ponderamos, neste texto escrito há mais de dois anos, a necessidade de redefinir prioridades e encetar a partilha de recursos.

Texto Isabel Mota
A partir de agora não vai dar mais para continuar com base no argumento de que somos pobres a fechar os olhos à realidade e a não ajudar os outros. Uma parte significativa das pessoas dos países desenvolvidos vão ter dois caminhos: ou voluntariamente vão partilhar o que têm com os outros, de preferência o seu próprio tempo, elas próprias, ou involuntariamente serão roubadas ou irão à falência. Muitas pessoas só acordarão para a importância da solidariedade quando dela necessitarem: os novos pobres de gravata, por exemplo, que agora têm de recorrer à sopa dos pobres.

Convencemo-nos, durante muito tempo, de que o que tínhamos era pouco (haveria sempre alguém que tinha mais), de que éramos pobres. Essa insuficiência vem de dentro, de uma falta de amor próprio, de falta de (se) amar (falo de amor, não de posse ou desejo). Esse sentimento jamais será eliminado através de uma recompensa externa – muito dinheiro, muito prestígio ou poder. E dada a carência será sempre aquém tudo o que se tiver acumulado. Não haverá euros, milhões de euros que nos livrem do sentimento de insegurança; pelo contrário: crescerá, até pelo sentimento de o perder, o medo de o perder.

 
Por isso as pessoas foram acumulando créditos para adquirirem carros, vivendas, férias, tecnologia... Não se limitaram ao tradicional, “quem não tem dinheiro não tem vícios”. Quiseram ter mais, muito mais do que podiam para se compensar (do desamor) e para obterem o reconhecimento dos outros. Criámos uma sociedade em que só é relevante quem tem um montante de dinheiro significativo, não interessando muito como foi adquirido, à custa da exploração de quem, ou mesmo de roubo, nomeadamente do erário público. Deixámos de acreditar na dignidade de todos os seres, deixámos de respeitar o pobre, ainda que seja uma pessoa sábia, honesta e trabalhadora. Pobre talvez porque com valores, porque nunca quis nada que não fosse seu. Como salientava S. Paulo, devíamo-nos contentar com aquilo que temos e não cobiçar o que os outros têm.

O Estado terá de regular os negócios. Tudo tem de ter um limite razoável, até os lucros, a partir dos quais terão necessariamente de ser distribuídos pela população mais carenciada. Estabelecer um tecto onde a partir do qual tal reverta para o apoio a pessoas, famílias e instituições úteis em dificuldades. Um jogador que ganhe mais do que x, uma empresa que facture lucros superiores a y terá de reverter para o Estado. Este terá de ter como prioridade as pessoas e não as finanças. A economia ao serviço das pessoas e não as pessoas (como máquinas) ao serviço da economia.

Será intolerável a crueldade dos lucros astronómicos de empresas com exércitos de desempregados e pessoas em desespero para tentar sobreviver. Sempre houve ricos e pobres. Estamos no século XXI e agora não podemos deixar mais que pessoas morram em sequência de falta do básico: alimentação. Não podemos permitir que “grandes” empresários continuem a facturar, sem respeito, de facto pelas repercussões ambientais, danificando os recursos humanos à custa da exploração ambiental e da escravização humana, da desgraça dos outros. Esses empresários criminosos ou se suicidarão ou serão presos. A alternativa é voluntariamente partilharem os seus recursos com os mais necessitados. Temos tido, mesmo em Portugal, já alguns exemplos de solidariedade. Todos sentindo mais dificuldades vão valorizar as mãos que os ajudem.

Em tempo de recessão, vamos ter de redefinir o que é básico, essencial, e o que é um luxo, dispensável. Todos os agentes. O Estado também. Este pode não ter dinheiro para os luxos, mas para o essencial terá de ter: a educação (informação), a saúde pública, a alimentação. Terá de regular. Há muito distribuidor a enriquecer à custa do produtor e do consumidor. Tudo terá que ser reequacionado em termos de escala. Continuará a haver o muito grande, a grande escala, mas terá de haver espaço para a pequena escala: a pequena empresa, o pequeno produtor, o pequeno comércio.

O próprio Estado chegará à conclusão que tem recursos mais do que suficientes, tem é as prioridades trocadas. Tem de se investir no desenvolvimento humano e não no crescimento económico. Além de que toda a crise económica não passa de um reflexo de uma crise ideológica. O que as pessoas querem e precisam é serem tratadas como tal e não como cifrões ou parafusos. Para ajudar às vezes basta simplesmente olhar e dar uns segundos de atenção: cumplicidade muito mais do que financiamento. Parar de correr atrás de mais dinheiro e admirar uma paisagem natural ou a uma face humana. Tudo o que temos a fazer é partilhar os recursos que já temos. Só assim seremos mais ricos e mais felizes. De outra forma, por mais e mais rápido que acumulemos, será apenas uma via para o insucesso, frustração e decadência.

Somos ricos quando temos o suficiente para viver com alguma dignidade – alimentação, habitação e amor. Tudo o que nos conduz à opulência, vaidade e arrogância é uma riqueza mais do que dispensável e que, por isso, a crise se encarregará de levar com o vento da mudança.

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