quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Vi(d)a rápida?

Perto do atraso de uma hora, na madrugada de Domingo, reflectimos sobre o “vírus” da pressa, que nos põe à mercê dos ponteiros do relógio, cinco anos depois do primeiro dia nacional nos EUA pela diminuição das horas de trabalho e a defesa de mais tempo livre para o lazer.

Texto e fotografia Dina Cristo

Quem, hoje, não está ocupado? Poucos. E quem não está por vezes parece estar. Estar ocupado tornou-se uma espécie de estatuto social elevado: quanto mais atarefado mais importante se parece ser. Parar, fazer uma pausa, estar disponível parece ter sido relegado para o mundo dos fracos e indigentes. Mais do que isso, os humanos são de tal forma “elevados” que correm e vivem continuamente apressados, para aqui e para ali, fazendo isto e aquilo, atarefados entre um compromisso e outro, entre uma e outra chamada telefónica, @mail, e os mais afazeres que a tecnologia nos possibilitou.

«Na maioria da humanidade», escreveu Max Heindel, «existe tal preponderância de egoísmo e um desejo tão veemente de tirar o maior partido possível da vida física, que os seres humanos se encontram sempre ocupados, seja em manter o “lobo fora da porta”, seja acumulando posses e cuidando delas. Daí que tenham pouco tempo ou inclinação para se ocuparem com a cultura da alma, tão necessária para o verdadeiro êxito da vida»[1].
Para além das nossas actividades, sempre “importantes” e quase sempre urgentes, homens e mulheres esforçam-se por ser os primeiros: na escola, no trabalho, na estrada. Chegar primeiro é ser “mais” do que os outros e acrescenta ainda uma sensação de mais “poder”. É, assim, que muitas vezes já não corremos mas “voamos”, e algumas vezes nos estatelamos. Nesta correria, esquecemo-nos de que estar ocupado é estar preso, como explica Luís Martins Simões, é não deixar vago o lugar para tudo o que o agora nos pode presentear, e de que os últimos são os primeiros.
Embora os lamentos acerca da falta de tempo sejam habituais, o horror à pausa (como ao silêncio ou ao espaço vazio) parece ser ainda maior. E assim ocupamos excessivamente os tempos livres (talvez a mesma disfunção que leva a condicionar o ar) tentando encaixar numa vida, numa década ou, de preferência, num ano, quem sabe numas férias, todas as experiências possíveis. Para poder viver e fazer tudo só aumentando o ritmo. E foi o que fizémos: tudo, cada vez mais rápido. Fotografias num minuto, consertos rápidos, “conversas” de 30 segundos, crescimento intensificado (mesmo de crianças), canções concentradas num refrão.
Infectados pelo vírus da pressa, contagiamo-nos e de aguda tornou-se em doença crónica. A preocupação em gerir o tempo de forma eficaz gerou o aparecimento de gurus que nos aconselham a poupar tempo ao segundo. Só que a contabilização cada vez mais precisa do tempo torna-nos autênticos neuróticos, numa relação com o tempo patológica, perigosa e disfuncional.
Há mesmo quem sonhe em travar o tempo e o “anuncie” como marca do seu serviço e até bancos do tempo, onde as actividades são gratificadas consoante as horas dispendidas e não segundo o valor de mercado de cada serviço. Em Portugal existem agências desde 2002. Pagamos o trabalho com aquilo que, em cada época tem, para nós, mais valor. Se outrora fora o sal (daí o salário) e hoje é o dinheiro, quem sabe se no futuro vai ser o tempo a retribuição do exercício profissional.
Mas o tempo não tem todo o mesmo valor. O mundo, que se tornou num gigantesco centro mundial sempre acessível, potenciado com a internet, dá-nos essa ilusão. Quase tudo está a qualquer hora ao nosso alcance. Em Portugal a “revolução” começou com a abertura dos hipermercados ao Domingo e não mais parou. Fazem-se compras indiscriminadamente, de dia e de noite, à semana e ao fim-de-semana, durante a hora do almoço ou do jantar, nos dias profanos ou sagrados. Sempre as festas (diárias) das novas aquisições.
Desrespeitámos as tradições, os ritmos naturais e passámos a ter tudo sempre. É o caso da fruta que, congelada e vinda de vários países, temos durante todo o ano, a luz artificial que nos permite fazer da noite dia e trabalhar como se houvesse luz do sol. Mas, recorda Carl Honoré[1], a natureza tem os seus próprios horários e há uma altura certa para tudo. O Sábado, por exemplo, é um dia consagrado ao descanso (de onde vem a dispensa sabática) e não ao trabalho, muitas vezes duro, como se vê por quase todo o lado.
Desafiámos também os nossos próprios limites, até a (e à) morte. Quando aceleramos em excesso colocamos a vida em perigo, corremos o risco, na estrada, no trabalho (onde se verificam vários óbitos devido ao excesso de actividade) e na vida, com todo o desgaste orgânico gerado pelo stress continuado e de cuja tensão resultam inúmeras doenças. Radicalizamos, mesmo no desporto.

Devagar que tenho pressa

Queremos ser tão despachados por fora, que acabamos empachosos por dentro. Como, entre tanta pressa, sem tempo para “intervalo” – quantas vezes mesmo o natural e vital sono – havemos de assimilar e digerir tanta “comunicação”, experiências e “novidades”? Como, sem reflexão, atingiremos a consciência? Como, à força de assumirmos ritmos e horários apostados no trabalho sem tempo para a vida – incluindo o tão sonhado tempo para nós próprios e as coisas (às vezes mais simples) que nos alimentam a alma e nos devolvem a felicidade e alegria – não nos desumanizamos?
Haverá forma de nos protegermos desta doença do tempo, a necessidade gerada pela tecnologia de termos e fazermos sempre mais – mesmo à custa de sermos cada vez menos – com uma sensação crescente de falta de tempo e a mania de poupá-lo?
Desacelerar, como explica Carl Hororé no seu livroO movimento slow[2], é um risco numa sociedade apressada, competitiva e materialista. Abrandar tem um preço e os Lentos sabem-no bem. Mas deixar voluntariamente uma carreira de alta tensão, estatuto e lucros para adoptar uma vida mais simples, criativa, e descontraída tem inúmeras vantagens e uma delas é a de ser mais feliz.
Podemos começar por recuperar quer a sensação de ter tempo suficiente quer o auto-controlo. O primeiro passo - após a tomada de consciência de que o poder de escolha é nosso - é “dizer não” e optar: libertar a agenda e deixar espaço de tempo livre para passatempos que nos agradem, enriqueçam e alegrem ou, quem sabe, aproveitar para visitar o Museu do Relógio António Tavares D`Almeida, em Serpa.
Em relação às outras tarefas, seremos mais eficazes se tivermos em conta dois factores: primeiro, começar pelo essencial, depois o importante e no final o acessório; segundo, aproveitar os 20% de tempo em que atingimos os 80% de produtividade – período variável consoante os casos. Seja como for é importante manter o equilíbrio entre o trabalho e a vida ou, como sugere Louise Hay, dedicar oito horas por dia ao trabalho, ao lazer e ao descanso, bem como saber aplicar diferentes velocidades consoante as circunstâncias internas e externas, como indica Carl Honoré.
Não se trata de deixar de “correr” com fundamento, mas reconciliar-se com arte do fabrico manual, atentar ao aqui e agora, sem dele tentar escapar, saber dar tempo ao tempo, porque “Roma e Pavia não se fizeram num dia”, ser capaz de relaxar, parar ou, simplesmente, contemplar. “Não fazer nada, ser Lento, é essencial para se pensar bem” lembra Carl Honoré.
Por outro lado, “Ler implica tempo para reflectir (…)”[3], como lembra Paul Virilio, e “Tudo o que seja digno se ser lido é digno de ser lido lentamente”, reforça Cecília Howard. Para Uwe Kliemt “É estúpido beber um copo de vinho rapidamente. E é estúpido tocar Mozart muito depressa”[4]. É hora, pois, de reconhecer as virtudes da tartaruga.


[1] HEINDEl, Max - Princípios Ocultos de Saúde e Cura, Cap.V, pág.5. [2] HONORÉ, Carl - O movimento slow, Ed. Estrela Polar, 2006. [3] Citado por Carl Honoré [4] Citado por Carl Honoré

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quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Imprensa regional de parabéns

O “Trevim”, uma das publicações mais estruturantes do jornalismo de proximidade nacional, está a comemorar 40 anos de existência. Eis um olhar sobre a história da alma de um povo: o lousanense.

Texto e fotografia Susana Nunes

No centro da vila, tocam os sinos da igreja. Terça-feira. Do outro lado da rua, num antigo edifício, procura-se terminar os últimos pormenores para se fechar a edição. E o telefone vai tocando, interrompendo a música que habitualmente acompanha a movimentada jornada de trabalho. É o dia mais complicado da semana. Os cigarros vão-se sucedendo, uns após os outros. O fumo paira no ar. No entanto, o espírito de entreajuda e de camaradagem é uma constante. É este o ambiente vivido no edifício do jornal Trevim, um jornal local, ou “de proximidade”, como João Silva, um dos fundadores e actual director, gosta de referir. Um jornal cuja longevidade não o envelheceu. Muito pelo contrário. Tem rejuvenescido ao ritmo dos tempos: “Uma voz nova, para uma Lousã renovada”, sendo uma referência constante nas vivências da sua terra, a Lousã. E sempre “de caneta em riste”. Se existem histórias cuja profundidade não pode ser alcançada através de meras palavras e factos, a do Trevim é uma delas.
Sonho
Tudo começou nos finais da década de 50, quando um grupo de jovens, Pedro Malta, João Silva, José Duarte, António Ribeiro, Fortunato de Almeida, José Redondo e Rui Fernandes, cansados da pobreza cultural, da rotina e da monotonia local, e procurando trazer uma “lufada de ar fresco” para a sua terra, idealizaram um novo jornal. Segundo Pedro Malta, um dos fundadores e o primeiro director do Trevim, pretendiam “abordar os problemas da Lousã noutra perspectiva, numa vertente mais independente, isenta de ligações políticas, religiosas” e “falar com as pessoas, cobrir o concelho e arranjar correspondentes em cada freguesia, portanto, dar uma maior abordagem aos problemas da terra”. Desejavam, também, fomentar o debate e a discussão pública, a defesa dos interesses do povo lousanense e a divulgação cultural.
Mas, passar do sonho à realidade não foi fácil. A ideia levou alguns anos a concretizar. Por um lado, nenhum deles tinha experiência, nem verdadeira consciência da dificuldade da sua concretização, tanto a nível burocrático, como a nível económico. Por outro, tratava-se de uma época em que a divulgação da informação e a liberdade de expressão eram bastante controladas. A censura era algo muito presente.
Concretização
Apesar das evidentes dificuldades, a determinação e o idealismo próprios da juventude foram mais fortes, o sonho não morreu. Para a sua concretização, foi fundamental a ajuda de João Fernandes de Almeida, que, através da sua empresa, garantiu a fiança bancária exigida pela Lei, a boa-vontade do Presidente da Câmara da altura, Henrique de Figueiredo, que acelerou o processo burocrático, e a colaboração e a solidariedade de Joaquim Duarte, simpaticamente apelidado de “Ti Joaquim da Gráfica”, proprietário da Gráfica da Lousã, indispensável para a impressão dos primeiros números do jornal.
Passo a passo, o projecto inicial ia ganhando forma, tornando-se uma realidade. Mas havia ainda um importante aspecto a definir: a sua denominação. Inicialmente, tinham pensado em “Arunce” ou “Arouce”, designações bastante ligadas às raízes, às origens da sua terra. No entanto, como é referido na edição nº 447 deste jornal, “uma noite já em época de exames, encontrando-nos no café Tropical em Coimbra, aparece-nos o Pedro Malta com um ar feliz, justificando e propondo «TREVIM» para cabeçalho do novo órgão da imprensa regional que estava para sair”. Segundo o autor da ideia, “tratava-se de um nome mais significativo, porque representava, no cume mais alto da montanha, o ponto de encontro de povos vizinhos, comungantes da mesma cultura de uma serra, onde só o génio de porfiar do Homem seria capaz de rasgar e contornar os agrestes alcantis e arrotear as courelas conquistadas a pulso, procurando, ao mesmo tempo, manter as costas rijas para suportar torrentes de injustiça séculos adiante”. Para além disso, significava “uma amplidão de horizontes susceptíveis de poderem vir a receber a mensagem dos nossos ideais, generosos mas firmes nos seus objectivos”.
Primeiros Anos
As dificuldades não se ficaram apenas pela concretização inicial do jornal, que começou por ser quinzenário. Os primeiros anos foram bastante complicados, sobretudo no que diz respeito à sua relação com o poder instituído. Como é referido na edição do Trevim inicialmente mencionada, “a não aceitação do jornal por alguma da elite socio-política local, levou mesmo esta à denúncia junto dos membros da Censura distrital de falsas acusações sobre os membros do jornal”. Segundo João Silva, esta “era uma situação um pouco embaraçosa porque o jornal, muitas vezes, era censurado e censurado de uma forma extremamente exagerada. Por vezes, havia cortes quase brutais, o que implicava que se tivesse de refazer os textos cortados e, também, uma despesa bastante grande”.
Para além disso, “a partida de alguns fundadores, quer por motivos militares, quer por razões profissionais, implicou igualmente dificuldades administrativas que o Pedro Malta soube suportar, realizando essa missão com esforço e sinceridade”. Não existia uma administração profissional, o jornal era feito em regime de voluntariado, nas horas vagas, “por 'amor à arte', sem estar à espera de qualquer compensação material”. Foi Pedro Malta quem, durante muito tempo, tratou da parte administrativa, os recibos, as cobranças. E, desta maneira, como o próprio o comenta, “lá foi andando”.
No entanto, a situação financeira foi-se agravando, cada vez mais, até ao ponto de, em Março de 1970, a edição ter de ser suspensa. A dívida à gráfica atingiu uma dimensão complicada para a época, portanto, “teve de se fazer a paragem, para se pensar o que se iria fazer”. A solução encontrada foi a mudança de gráfica: o jornal passa a ser composto e impresso em Coimbra, pois esta era mais acessível financeiramente.
Quatro meses depois da sua suspensão, o Trevim regressa, afirmando a continuidade e a renovação das suas intenções e dos seus objectivos, evidenciando um notável amadurecimento: “porque deixámos em aberto algumas promessas que a nossa consciência teima em obrigar-nos fazer cumprir ou a lutar por isso. Para darmos realização a um corpo de ideais que encontram na via jornalística o meio mais apropriado para a sua exteriorização. (...) Trata-se de um novo tempo de intervenção, baseado num novo conceito de jornalismo regional, que se quer cada vez mais menos pessoal, virado na sua totalidade, para o conjunto dos problemas da grei, quer a nível de zona, quer à escala nacional. (...) Exigimos a crítica – aplauso ou discordância – ou a sugestão. Desejamos manter bem vivo o diálogo que sempre soubemos travar com todos os que têm acreditado na sinceridades das nossas palavras, na autenticidade dos nossos actos”. O reconhecimento de que se pode fazer sempre mais e melhor, de que foram cometidos alguns erros foi um grande sinal do seu amadurecimento. A 1 de Outubro de 1970, no seu terceiro aniversário, chega-se mesmo a publicar o seu próprio de Ipiranga: “Transformação ou morte”.
Pós 25 de Abril
A Revolução dos Cravos foi vivida com bastante empolgamento por todos os que se dedicavam a este jornal. O entusiasmo foi tal que incentivou a chegada de novos colaboradores, o que foi bastante positivo. Havia um longo trabalho pela frente, pois, com a implantação de novos ideais, era necessária uma revolução e uma renovação a nível de mentalidade. O fim da censura abriu “novas perspectivas à projecção do jornal”, o que se materializou num aumento do número de notícias, tanto nacionais como internacionais.
A 1 de Novembro de 1978, “por conveniência redactorial e necessidade de melhoria gráfica”, o jornal passa a ser composto e impresso novamente na Lousã, mas, desta vez, na Tipografia Lousanense.
Em Agosto do mesmo ano, como forma de ultrapassar as dificuldades que continuamente colocavam em causa a sobrevivência do jornal, anuncia-se a intenção de se constituir uma Cooperativa. Graças ao esforço dos seus promotores e à significativa adesão de amigos do jornal, a 3 de Março de 1979, é registada a escritura da constituição da Cooperativa Editora e de Promoção Cultural Trevim (SCARL), no Cartório Notarial da Lousã. Esta assume, alguns meses depois, o direito de propriedade e a administração do jornal, tendo como objectivo a sua produção e gestão. Para além disso, tinha também a finalidade de editar outras publicações e de realizar eventos culturais. Os sócios fundadores da Cooperativa foram: Pedro Malta, António Ribeiro, João Silva, José Casimiro, José Simões, José de Almeida, Paulino Tavares, José Reis, António Rodrigues e José Duarte.
Em Novembro é criado o conselho de redacção, mas dificuldades continuam a ser uma constante. O 25 de Abril não foi premissa para o fim da conturbada relação entre este jornal e o poder local, o que foi bastante notório quando, existindo a necessidade de novas instalações, “a Câmara Municipal – dispondo na ocasião de outros espaços vagos – concedeu apenas a utilização de uma sala na então arruinada escola do regueiro, de onde se teve de 'fugir', por causa da constante permissividade de assaltos”. Em alternativa, e “à custa de sacrifícios financeiros”, optaram pelo aluguer das actuais instalações (embora, inicialmente, não tivesse sido na sua totalidade).
Em Novembro de 1985, Carlos Henggeler Antunes assume o cargo de director-adjunto interino.
Novas Tecnologias
Segundo José Orlando Reis, “o Trevim foi dos primeiros jornais de âmbito regional que procedeu à reconversão tecnológica. O Governo, reconhecendo a importância do papel da Comunicação Social, estabeleceu um programa de financiamento para a modernização tecnológica de jornais (...) Nós concorremos, apresentámos um projecto e conseguimos apoio. Na altura, esse projecto foi liderado pela Cooperativa Trevim, mas foi em conjunto com o jornal de Poiares e com o de Miranda. O equipamento que veio foi repartido pelos três jornais”, refere.
Para haver um melhor aproveitamento destas novas tecnologias, o jornal passa, a partir de 1992, a ser impresso na Tipografia Comercial, em Coimbra.
A renovação tecnológica torna-se uma preocupação constante da Cooperativa, “é um desafio a que, como é óbvio, não podíamos (nem devíamos) furtar-nos, pois é na sua superação que assenta, em grande parte, a sobrevivência do 'Trevim' como órgão de informação moderno. O futuro aponta, cada vez mais com mais força, a implantação de novas tecnologias como arma decisiva a favor do combate a que a Imprensa desde sempre se devotou”, salienta Orlando Reis. A Cooperativa procura, assim, uma melhoria a nível da qualidade do jornal e o alargamento do número de assinantes, tal como a continuação do trabalho de animação cultural.
Declaração de Utilidade Pública
A 12 de Julho de 1988, a Cooperativa Trevim é declarada instituição de Utilidade Pública, por despacho do primeiro-ministro da época, Cavaco Silva. Segundo João Silva, “ser de utilidade pública é sempre um benefício para a própria instituição porque, perante as pessoas que a consideram como tal, se manifestou de um grande interesse para a comunidade”. Para além disso, existem algumas vantagens a nível económico.
Mais tarde, este jornal viria a ser também distinguido pela Câmara Municipal da Lousã, na comemoração do seu 32º aniversário, a 23 de Outubro de 1999, com a atribuição da Medalha de Mérito do Município.
Em Abril de 1989, Pedro Júlio Malta demite-se da direcção do jornal, a seu pedido, sendo substituído por José Ricardo de Almeida.
Em Novembro de 1990, este também abandona, a seu pedido, as funções de director do Trevim, “cargo que desempenhou com a dedicação e empenho” que sempre consagrou ao jornal, “particularmente desde a criação da cooperativa que ajudou a fundar”.
Casimiro Simões, profissional que trabalha na Agência Lusa, e que já era colaborador do jornal, é convidado para o cargo: “nessa altura fazia de tudo: escrevia textos, fazia notícias, programava, fazia noitadas aqui, às vezes sozinho, para o jornal sair, ia à tipografia...”.
Processos Judiciais
Em Março de 1992, Horácio Antunes, presidente da Câmara, acusa judicialmente o Trevim de abuso de liberdade de imprensa, devido a um artigo publicado alusivo ao processo de licenciamento da rádio local, em que se afirmava como falsa uma declaração autenticada com o selo branco da autarquia. Segundo Casimiro Simões, que viveu este processo como director, autor, co-autor e defensor, este foi um momento que marcou bastante a vida do jornal e que foi vivido com muita preocupação, no geral. Na véspera do julgamento, Horácio Antunes volta a apresentar outra queixa, relativa a um texto opinativo de Casimiro Simões, em que o título era “Câmara abre vagas apenas para inglês ver”, pois denunciava um processo fictício de abertura de vagas para cantoneiros.
A 2 de Novembro de 1993 é criado o Conselho Editorial.
Só em Dezembro deste mesmo ano é que, finalmente, “pára a chuva de processos” contra o jornal, tendo este sido absolvido do primeiro e Horácio Antunes desistido incondicionalmente do segundo, já que “as eleições autárquicas estavam outra vez à porta”.
Renovação
Na edição de 5 de Outubro de 1995, nº 642, o Trevim surge com uma nova concepção gráfica e com um novo cabeçalho, concebido por Manuel Vieira. Esta renovação, “apesar de singela”, visava uma melhor qualidade do projecto informativo, “aproximando-o ainda mais do leitores”.
Em 18 de Dezembro de 1999, as instalações do jornal são parcialmente destruídas por um incêndio, que terá deflagrado por causa de uma avaria num aquecedor eléctrico. São perdidos alguns documentos irrecuperáveis e parte do material de escritório e equipamento da sala da administração.
A 20 de Junho de 2002, o jornal passa a ter uma periodicidade semanal.
A 5 de Setembro do mesmo ano, Casimiro Simões pede a demissão de director: “cabe-me informar os leitores, todos os colaboradores, anunciantes e amigos do jornal que, a meu pedido, formalizado junto da direcção da Cooperativa Trevim, o meu nome figura no cabeçalho pela última vez nesta edição. Não foi fácil esta decisão, sobretudo numa altura em que o jornal já trilha o seu caminho como semanário”, sendo substituído por João Silva. Este, na edição de 12 de Setembro, afirma que procurará dar continuidade ao projecto com dedicação e manter a atitude habitual do Trevim, citando a directriz da primeira edição do jornal: “critica, construindo, informa, formando”. Para além disso, reforça o apelo à colaboração, sobretudo no que diz respeito aos jovens.

Na edição de 1 de Abril de 2004, nº 904, é declarada a aprovação da criação do cargo de Provedor de Leitor do Trevim: “teria de ser alguém bom profissional e bom conhecedor da profissão, que pudesse analisar textos dentro do contexto do jornal”, como afirma Pedro Malta.
Defesa da Cultura Local
Desde o seu nascimento que o Trevim se declarou de imediato um órgão de divulgação de cultura. E isso não foi esquecido com o tempo. Ao longo das suas muitas edições, não é difícil depararmo-nos com os mais diversos programas culturais. A Cooperativa Trevim foi, muitas vezes, protagonista na organização de exposições, de debates, de sessões de caricatura, de concursos, de passeios, de palestras, entre outros, podendo-se dizer que em muito tem contribuído para o fim do “marasmo cultural” por terras lousanenses.
Outra das preocupações deste jornal, foi mostrar que a Imprensa local, ou de proximidade, não tem de ser necessariamente “pobre”, nem tem de estar dependente de qualquer tipo de poder, procurando ser uma prova “viva” disso mesmo.
Para além disso, procurou participar activamente no esclarecimento dos seus leitores sobre o que é a Imprensa local e qual é o seu verdadeiro papel, realizando congressos, palestras, cursos e publicando notícias e artigos alusivos a esta temática: “um jornal regional, ou local, é como um coração. Dirige as pulsações das entradas e saídas de ar. E é, também, como uma espécie de fotografia: por ele podem conhecer-se os rostos reais que estão por detrás de cada notícia, de cada nome, de cada página impressa em velhas tipografias que cumpriam a reprodução de notícias e de lamentos, recordações, euforias, desenganos. (...) Os jornais regionais, ou locais, informando e publicando as suas notícias directamente relacionadas com a sua região, com o bairro de cada assinante, de cada leitor que a um determinado dia da quinzena procura no seu jornal o reconhecimento do seu próprio mundo – esses jornais, dizia eu, cumprem outra função essencial: a da comunicação directa, que rareia hoje nos grandes órgãos de comunicação social, nos diários nacionais, nos semanários de grande informação. (...) São obras de vontade, mais do que dinheiro. São produto de entusiasmo e de empenhamento”.
Apelo à Colaboração

Frequentemente se apelou à colaboração, sobretudo dos mais jovens. Segundo Casimiro Simões, “se não temos jovens, não temos futuro”. O mesmo é salientado por Pedro Malta, “antes de tudo, temos de olhar para a gerações que vêm. Um jornal tem de estar sempre a par do seu público leitor. As gerações vão-se sucedendo, o jornal tem de estar sempre a acompanhar as gerações que se seguem. Embora já tenhamos discutido muito sobre arranjar assuntos que possam interessar a estas gerações mais novas, nem sempre se tem conseguido, mas é importante. É tão importante ter jornalistas jovens, como é importante fornecer a informação que os leitores jovens estejam à espera de receber”.
Segundo José Orlando Reis, administrativamente, o Trevim é um jornal que desde sempre funcionou em regime de voluntariado, o que não permitiu ainda o avanço para um departamento comercial, vivendo muito na base dos assinantes, “cerca de 40 a 60% das receitas assenta nos assinantes, o que, à partida, nos dá uma certa autonomia e independência, não estamos dependentes dos anunciantes. Mas, hoje em dia, de facto, é fundamental ter uma boa carteira de publicidade. E esse é um dos problemas que temos para resolver actualmente”, refere.
Segundo João Silva, na Lousã de hoje, o papel desempenhado pelo Trevim, que ultrapassa as 3500 assinaturas e tem uma redacção profissional com dois jornalistas a tempo inteiro, “continua a ser um papel de defesa dos interesses da nossa terra, da comunidade. Continua a ser um papel de dar voz às pessoas, para se manifestarem, em relação àquilo que não concordam, e um papel de natureza cultural, de levas a cultura às pessoas. A função deste tipo de jornais é ser um transmissor, um veículo de cultura para a comunidade. Penso que o jornal Trevim tem cumprido, dentro das suas limitações, das suas dificuldades, esse papel”, comenta. Quanto à motivação existente, João Silva não tem dúvidas em afirmar que “é óbvio que os tempos são outros. Há 37 anos, havia um entusiasmo muito grande para termos na Lousã um jornal que nos permitisse defender a nossa terra, participar na defesa dos seus interesses e no seu desenvolvimento cultural e levar um pouco às pessoas o conceito de liberdade, que, efectivamente, era importante. Hoje, noutros contextos, o entusiasmo continua. É claro que as dificuldades também (...) Mas eu penso que, mesmo assim, nós continuamos com o mesmo entusiasmo que existia. Até porque também temos aqui jovens, que têm sempre mais entusiasmo. E, enquanto o houver, penso que o jornal Trevim continuará”.

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quarta-feira, 6 de abril de 2011

(Quanto) custa ser feliz?


Texto e desenho* Dina Cristo

O bem-estar é o tema do 10º congresso da Associação Cais, que hoje começa. Durante três dias, duas dezenas de conferencistas debatem as relações desta economia com o mercado (Quarta-Feira), o humano (Quinta-Feira) e o político (Sexta-Feira).
Contribuir para a “prossecução e construção pessoal e comunitária de um estado de felicidade para lá do prazer” é um dos principais objectivos da reflexão que decorre no auditório principal do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), na Rua do Quelhas em Lisboa.
Depois de nove congressos onde se focaram questões sociais, como “Gostar de si” e "Jornalismo social”, eis a hora, em tempo de vi(r)agem do discurso económico actual, como refere a organização, de apurar, em encontro gratuito, o preço da felicidade.

* Anos 70

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