quinta-feira, 21 de julho de 2011

Rádiotelefonia de sessenta III


Nesta terceira parte passamos em revista o ano de 1961, ao qual foi dedicado o ensaio "Telefonia de sessenta".

Texto e fotografia Dina Cristo

Com o assalto ao Santa Maria, Luanda ficou repleta de jornalistas tornando-se o palco ideal para a revolta da população negra. Os ataques, que se desencadearam a quatro de Fevereiro, intensificaram-se, tornando-se irreversíveis a partir de 15 de Março de 1961.
A cobertura do embarque das tropas portuguesas para Angola teve como pano de fundo a teoria da multirracialidade nacional: “Se há alguém que ainda tenha dúvidas que Portugal é um país multirracial, venha agora aqui ao cais e veja passar, como nós vemos, um pelotão no qual um dos graduados, um furriel à frente da sua secção, é um negro. Um negro de Angola ou de Moçambique, que aqui está no meio dos soldados brancos, respeitado como se respeita qualquer furriel, qualquer graduado no nosso exército”(1).
No dia 27 de Março, uma manifestação deslocou-se, em protesto, até à embaixada norte-americana, em Lisboa, devido à posição dos Estados Unidos, na ONU, contra a política colonial portuguesa. A transmissão da EN salientou: “Alguns dos homens que se desprenderam da multidão, ao encontro às varandas e janelas deste prédio dos Estados Unidos, são homens de cor e isso também é altamente significativo neste momento. Eles estão aqui, afinal, na firme determinação de defenderem Portugal, assim, sem armas, de peito feito, de peito descoberto, ou com armas na mão se for preciso (…) A polícia, aliás, devo dizer-vos, não mostra vontade decidida em dispersar a multidão, a polícia também é portuguesa e isto é uma reacção portuguesa (…)”(2). O dia quatro de Abril de 1961, aquando do 12º aniversário da NATO, foi aproveitado para nova exibição de anti-americanismo. As cerimónias, que decorreram na Universidade de Lisboa, tiveram uma cobertura intensiva da Emissora Nacional(3).
O Rádio Clube Português relatou a guerra de Angola, através de crónicas de José Drummond, enviado especial. Eram histórias, sem recolha de som, propagando a “resistência firme” dos colonos portugueses aos crimes praticados pelos “revoltosos negros”, terminando com a expressão “esteve a falar-vos José Drummond de Angola, província portuguesa de África; senhores ouvintes, até breve, se Deus quiser”.
No dia cinco de Abril o assunto foi um português que se salvou “(…) da fúria selvática dos assaltantes, dos grupos fanáticos”. A ideia defendida pelo Governo de que a revolta havia sido provocada por forças externas constituiu parte fulcral de uma outra crónica, do dia dois de Maio, onde o confronto angolano foi comparado a uma tragicomédia, com enredo em três actos: “Primeiro, semear o terrorismo, matando a esmo mulheres e crianças, para assim, e mais facilmente, dar início ao segundo acto. Neste, o objectivo seria acender o ódio racial (…) Enredo do terceiro acto: a intervenção de forças internacionais para restabelecer a ordem, tal como se está a verificar no Congo. (…) E pode até admitir-se que pretendem incluir Angola nesse espectáculo de conjunto. Mas os organizadores, os empresários desta hecatombe vão ter dificuldades na sua empresa odiosa, vão fracassar”(4).
O apontamento de 19 de Abril foi uma entrevista ao administrador do N`Gaje, António José dos Santos Reis, que afirmou viver-se um ambiente calmo, estando a população unida e empenhada em fazer frente a qualquer eventual ataque: “Aqui no N`Gaje, como em todas as terras de Angola, todos os habitantes, todos os bons portugueses, sejam da Metrópole sejam de Angola, estão no propósito fim de resistir a todos esses bandos de agitadores e enfim permanecer para sempre portugueses nestas terras portuguesas de Angola”(5).

Botelho Moniz

A tentativa de golpe de Estado, ensaiada por Júlio Botelho Moniz, terminou em fracasso quando Salazar, informado, se antecipou, demitindo os conspiradores. José Freire Antunes, na sua obra “Kennedy e Salazar – o leão e a raposa”, recorda: “Cerca das 15 horas, a Emissora Nacional interrompeu a programação normal para anunciar a demissão de Botelho Moniz e a sua substituição na pasta da Defesa Nacional por Salazar. As demissões de Almeida Fernandes e de Beleza Ferraz foram também noticiadas (…) O poder intimidatório da mensagem radiofónica fez-se sentir no campo rebelde. Botelho Moniz ficou a partir daí, e para efeitos da opinião pública, situado fora da legitimidade. Era sumariamente demitido sem que o incidente provocasse, como observou Elbrick, qualquer atenção da opinião pública.”(6)
Pela rádio, os ouvintes foram informados das remodelações – incluindo a transferência da pasta da Defesa para Salazar – mas permaneceram ignorantes quanto aos verdadeiros motivos da decisão, justificada pelo Presidente do Conselho aos microfones dos meios audiovisuais três horas e meia após a tomada de posse dos novos ministros, com a urgência de uma actuação rápida e em força no território angolano.
A campanha eleitoral de 1961 pautou-se pela neutralização da EN, impedindo desta forma qualquer divulgação de opiniões contrárias ao regime, que tomou uma atitude de autodefesa: “A lei eleitoral restringia a campanha aos distritos de onde os candidatos eram naturais, interditava o acesso dos candidatos à televisão e à rádio nacionais, instaurava uma rigorosa censura a matérias militares, proibia a entrada da imprensa estrangeira em Portugal, impedia os membros do PCP e grupos similares de se candidatarem e de votarem”(7).
Um dia após Salazar apelar ao voto através da rádio, a oposição apoderou-se de um avião da TAP e lançou panfletos de propaganda sobre Lisboa, numa operação de marketing bem sucedida.
No dia 15 de Dezembro, começaram a chegar a Portugal refugiados goeses, inseridos no plano de evacuação do Estado da Índia. A Emissora Nacional fez a cobertura do aeroporto de Lisboa: “Podemos dizer-vos, entretanto, senhores ouvintes, como primeira impressão, que todas as pessoas que chegam – as senhoras e mesmo as crianças – não reflectem, de maneira nenhuma, o pânico, a intranquilidade, o pavor das horas perigosas. Há efectivamente nelas, na sua expressão, a tranquilidade, sobretudo a confiança, de que tudo corre pelo melhor, a confiança de que estão bem entregues à protecção das autoridades portuguesas, diremos mesmo, à própria espontânea e sincera e natural protecção do povo português, que as acolhe como portugueses que são”(8).
O ano de 1961 não terminaria ainda sem mais “assaltos” ao Governo. Depois da perda efectiva de Goa, Humberto Delgado tentou ainda comandar uma revolta a partir de Beja, mas sem sucesso. A EN informou: “Na chegada a Beja da equipa da EN procuramos todos antes de mais nada o testemunho objectivo do médico assistente aos acontecimentos da madrugada de hoje. Havia um sossego absoluto na cidade como se nada tivesse acontecido, como se nenhuma ocorrência tivesse que ser marcada, no entanto, o hospital encontrava-se guardado pelas forças da ordem. O médico que prestou os primeiros socorros ao capitão Varela Gomes é o provedor do hospital, chama-se Dr. Joaquim Delgado e com ele travámos o diálogo que se segue de alguém que é bastante esclarecedor. Suficientemente esclarecedor sobre ou acerca dos acontecimentos desta noite de que ele foi testemunha activa, de que é testemunha objectiva. E senhor governador, como reagiu a população da cidade perante este autêntico atentado ao momento de unidade que Portugal necessita de viver para afrontar os problemas que tem diante de si e que são realmente graves?”(9) A resposta do médico foi que a população do distrito reagiu patrioticamente e que todas as pessoas viram este atentado com verdadeira indignação e repulsa.
“Senhor governador”, interpela ainda o repórter, “tenho aqui à sua beira o presidente da Câmara de Cuba, aliás que é uma cidade célebre em Portugal por ter nascido nela um dos seus mais ilustres escritores, o senhor governador permite que eu ausculte também a opinião do senhor presidente da Câmara de Cuba?”(10). Devidamente autorizada a pergunta a Francisco António Silva, este respondeu que o concelho de Cuba é nacionalista e que, portanto, não poderia estar ligado à intentona.
Na introdução de “O mundo em parada”, rubrica de retrospectiva anual, o RCP fez o seguinte balanço de 1961: “Vivemos mais um ano bem cheio de factos de transcendente importância, particularmente para nós portugueses. Grandes acontecimentos, que só terão paralelo com os vividos em meados do século XIV, estão a processar-se como consequência da forte personalidade de que demos provas durante um passado não muito distante. Dir-se-á que os avós foram grandes demais para que haja hoje netos que os possam continuar. Mas nada disso. O povo de Portugal tem dentro de si próprio a solução para os seus grandes problemas motivados, insistimos, pela sua grandeza como povo que, deslumbrado, talvez com tanta força em corpo tão pequeno, parecerá não saber encontrar o caminho em época menos propícia. Mas encontrá-lo-á, temos a certeza. Um novo e grande caminho eterno como a sua história passada e futura(11)”.
(1) AH RDP, EN 1961. (2) Idem, 27/03/1961. (3) “Kennedy e Salazar – o leão e a raposa”, pág. 212. (4) Idem 02/05/1961. (5) Idem, 19/04/1961, AHD 14340. Faixa 6. (6) Op Cit., pág. 224. (7) Op. Cit, pág. 284. (8) AH RDP EN 15/12/1961 (9) Idem 1962. (10) Idem, ibidem. (11) AH RDP RCP 31/12/1961.

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