quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Liberdade de imprensa?


Próximo do Dia Europeu dos Direitos dos Jornalistas, Sexta-Feira, enfrentamos a relação, longa e íntima, entre o bloqueio e o fluxo informativo, o como e o porquê da resistência geral à novidade.

Texto Elton Rodrigues Malta cartoon Zé Oliveira

A censura e a imprensa sempre estiveram ligadas, ainda que nuns momentos mais e noutros menos. Apesar de parecerem ser inseparáveis, dedicam-se à exterminação uma da outra.
É inegável que o controlo e repressão da literatura ao longo dos tempos contribuiu para o atrofio e atraso do jornalismo português relativamente ao estrangeiro. Tal como este, há muitos outros aspectos negativos, nomeadamente os massacres e até mortes. A censura também vem colocar a população num estado de ignorância perante o qual não consegue agir.
Mas num primeiro passo há questões sobre as quais devemos reflectir:
Até que ponto é que sabemos dar uso à liberdade que temos? Seremos suficientemente respeitadores para sabermos viver sem censura, sem um controlo e sem leis? Será que sabemos usar essa liberdade sem a tornar num poder com o qual combatemos a liberdade e espaço do outro?
Tal como o dia e a noite, sendo a liberdade e a censura opostos, são inseparáveis. Como afirma Platão “os opostos são dois corpos unidos por uma só cabeça”. Desta forma, pode haver muitas mudanças nas leis mas, sempre que houver uma tendência em excesso para um dos extremos, tem de haver uma regulação externa que equilibre e faça pender, com igual força, para o outro extremo de forma a encontrar o centro.
O ser humano naturalmente resiste à mudança, devido ao forte comodismo que o caracteriza, portanto é compreensível que desde sempre tenha havido censura às ideias que vinham abalar a estagnação das sociedades. A própria população se sente atacada quando surgem novas correntes ideológicas. É recíproca a influência que imprensa e sociedade exercem. Desta forma, e tendo em conta a pouca vontade de mudança, a censura passa a ser necessária. Não que seja o caminho do progresso. Mas é o caminho que a maioria, através dos seus comportamentos, decide seguir.
Hoje em dia a censura, entre outras, é conseguida através do agendamento, não havendo liberdade para o jornalista escolher temas nem para o público escolher o que consome. Numa sociedade dita democrática (num extremo, em que se reivindica direitos e menospreza os deveres, obediência e ordem), não será também uma das formas de censura mais evoluídas e bem sucedidas?
Falta referir ainda o outro método: a sobre-informação. Com ela não só se distrai as pessoas que não sabem o que querem saber como se despista quem sabe o que quer, mas que se perde no meio de tanto lixo.
Um terceiro processo é a auto-censura, dirigida ao pensamento próprio. Esta, no nosso meio, é promovida pela exclusão social. Censuramos a censura, contudo censuramo-nos a nós próprios. Já não precisamos que ninguém nos proíba, nós tratamos disso.
Até o jornalista está impedido de ser livre devido à sua intenção de ascensão social. Não podia deixar de lembrar do caso de Mário Crespo e Manuela Moura Guedes. Não se pode censurar temas de interesse do público, mas temas importantes que não dêem lucro e temas de interesse público sim. Mas felizmente vivemos numa democracia na qual há liberdade de pensamento e expressão. Só é pena sufocá-la com a distração.

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