domingo, 23 de setembro de 2012

Rádio Clube de Moçambique IV


Revista "Rádio Moçambique", nº 332, Março de 1964, pág.10


Nesta quarta parte falamos da rádio como instrumento de propaganda.


Texto Dina Cristo


A rádio é considerada um meio ubíquo, indiscriminado, capaz de ultrapassar as fronteiras, barreiras ou distâncias e nem mesmo o muro de Berlim é capaz de a deter: «Ligeira como o vento, ágil como o pensamento, vence as distâncias, abre os ferrolhos mais possantes, transpõe os muros mais impenetráveis, instala-se nos lares e nos corações como uma presença benigna, fiel e amiga. (….) A Rádio vai a toda a parte; visita todos os lares e tanto se faz ouvir na humilde palhota escondida na selva, como no luxuoso palacete dos bairros elegantes».



Sobretudo em África, é sentido a sua função afectiva, como um meio que proporciona companhia e amizade: «Aqueles que vivem nas lonjuras da terra africana são os que melhor compreendem e estimam o receptor radiofónico, fabulosa criação do espírito humano que se transporta de um lado para outro, na camioneta, na mão, a tiracolo. À noite, quando o silêncio torna as trevas ainda mais densas e aviva a saudade, é ao aparelho de rádio que se recorre, na certeza de que nele encontramos um amigo sempre pronto a consolar-nos. É então ao Rádio Clube de Moçambique que, normalmente se recorre para preencher essas horas nostálgicas. A um simples toque dos nossos dedos, que actuam como varinhas de condão, a caixa electrónica anima-se, vibra, ganha alma e comunica connosco para vencer a desoladora solidão e dominar a melancolia».



A sua capacidade de estreitamento de laços, de aproximação e de interligação entre pessoas, faz-se sentir em Ultramar, fortalecendo a unidade nacional para além da dispersão territorial, sobretudo num momento de guerra fria através das ondas sonoras: «(…) É sempre consolador ouvir a voz de Portugal aos portugueses espalhados pelo mundo, mas agora, é necessário também que essa voz seja eco que nunca se apague nos corações das gentes e ao mesmo tempo tenha neles ressonâncias que não diminuam em comparação com outros ecos que também lhe chegam».



A rádio desenvolve-se enquanto meio de formar a vontade, de orientar o espírito, de conduzir e controlar a opinião pública, de convencer alguém a acreditar em algo ou a agir de determinado modo a que se chamará educação, nos casos positivos, ou propaganda, nos casos negativos, segundo Eduardo Rebelo, autor da crítica radiofónica na revista “Rádio Moçambique”. A força da rádio, o seu poder é reconhecido: «A Rádio (…) influencia, sugestiona e, desta forma, conduz (…)».



Enquanto meio acessível, imediato, úbíquo e intencional, é explorada em prol da colonização portuguesa e o RCM ao serviço do interesse nacional, moral e material: «(…) colocando-se num dos postos da vanguarda da radiodifusão em África, o Rádio Clube teve mais o mérito de servir triunfantemente a propaganda portuguesa moçambicana nos territórios do continente ao sul da linha equatorial. E como já uma vez aqui dissemos, desta obra que parece entrar por um ouvido e sair pelo outro, alguma coisa ficou: “Um eco dos apelos nos corações, um conhecimento que se aprendeu, um gosto que se ilustrou, um prazer de espírito que se firmou, um reavivar da consciência de português”. Uma contribuição positiva para a grande obra de portuguesismo e de universalidade que nesta Província nos compete realizar: a da civilização de Moçambique».



A rádio assume-se como um dos meios mais eficazes de divulgação rápida, de propagação directa das mensagens governativas. Os discursos oficiais, nomeadamente aquando de visitas ou eleições, são oportunamente difundidos através da informação que se incrementa.



Se em 1958 já há consciência da especificidade da natureza do meio com a sua linguagem peculiar - simples, natural e compreensível – nos inícios dos anos 60, a rádio inova em termos informativos, aproximando-se da vida de todos os dias: ela deixa de «(…) se confinar aos estúdios para ir às casas em que se vive e aos lugares em que se trabalha – residências, escritórios, fábricas, oficinas, etc. – e descer à rua e em todos os lugares, estuante de energia vital, acompanhar a vida, transmitindo as suas manifestações».



Sobretudo no período marcelista, a função informativa e a palavra adquirem proeminência em detrimento da função recreativa e da música (apesar desta agradar mais aos adolescentes, em Lisboa). A primazia da voz dá lugar ao que é dito e ao modo como é feito: os ouvintes «(…) preferem que lhes digam coisas que tenham interesse mesmo numa voz descolorida, a banalidades numa voz maravilhosa».



A rádio ganha vitalidade, apura o seu valor social, desempenha o seu papel no campo cívico, concentra-se no interesse colectivo e torna-se uma “porta-voz” da sociedade, assumindo a responsabilidade moral e o primado da consciência, dos valores, da opinião e da cultura: «A rádio é um instrumento poderoso na educação e formação da vontade».



Assim, ela vai para a rua, testemunha e documenta as manifestações de vida, fora dos estúdios, seja nos confins da terra, no mar ou no ar, como a transmissão da “Hora das Vedetas” feita a bordo dum Boeing 737 . «Ao longo do ano, funcionários dos Serviços Redactoriais e do quadro de locutores efectuaram mais de 3500 apontamentos de reportagem, entrevistas, etc., em serviço fora da sede».



No início dos anos 70, entre os vários factores que concorrem para que a informação radiofónica se expanda está a colaboração dos Emissores Regionais, com o envio de notícias, crónicas e reportagens. Em 1971, quando existem nove noticiários diários, a pedido da EN, é criado um serviço noticioso diário para a Metrópole. Em 1972 realizam-se três grandes reportagens fora de Moçambique: a visita do Presidente do Conselho e do Presidente da República de Portugal ao Brasil e os Jogos Olímpicos de Munique; em Moçambique, predomina a cobertura das várias visitas oficiais, como as do Governador-Geral, Pimentel dos Santos, aos distritos.



A “Voz de Moçambique” também transmite informação oficial, nomeadamente das visitas, como a do Presidente da República em Julho de 1964, objecto de 31 reportagens (19 directas – as relativas às sessões solenes - e 12 gravadas) , e «(..) está em todas as casas. Ensina e orienta em massa, todos os dias, em toda a parte, saltando fronteiras, fazendo progredir, interessando, ensinando, fazendo-se amar, conquistando corações, como é próprio deste povo amorável e compreensivo que é o povo Português. E, enquanto os ouvintes da V.M. tiverem oportunidade de escutar esta Voz, não escutarão outras… E isto porque é o Amor e não o ódio que permanece e aquece imperecivelmente o coração dos homens».



Em relação à política do espírito, que ao longo dos anos estudados se vai intensificando, alia a informação à educação. A difusão das ideias, cuja necessidade vai crescendo à medida que os ataques e contestações à política portuguesa vão aumentando, era levada a cabo por programas como a rádio-escolar, inaugurada na Metrópole a 25 de Novembro de 1960 e em Moçambique em Fevereiro de 1972, um programa para professores e para alunos, produzido pela Secretaria Provincial de Educação, mais concretamente pelo Centro de Produção Radiofónica.



A cultura e a instrução, mas também a recreação, a diversão e a distração são estratégicos na política propagandística de que o programa dirigido às Forças Armadas é exemplar. No final de 1968, mais de 60 elementos do RCM partem em direcção à Beira e a Nampula, para realizar sete espectáculos para os soldados, militares doentes e a população. A caravana conta com a Orquestra Típica de Música Portuguesa, o coro feminino e os cantores Natércia Barreto e Carlos Guilherme, entre outros - uma embaixada chefiada por Eduardo Parreira, que levou confiança e conforto moral «(…) junto daqueles homens sobre quem pesa a responsabilidade de defender a terra portuguesa ameaçada pelo bandoleirismo partido do exterior e que, heroicamente, asseguram a continuidade de Portugal na rota de Nação livre e independente».



Num contexto internacional de luta através das ondas radiofónicas entre o Ocidente e o Oriente, com uma rede radiofónica de centenas de emissores , depois da vaga de independências, designadamente a do Congo, em 1960, e da guerra nos territórios ultramarinos, desde o estalar do conflito, em Angola, em 1961, a rádio é, cada vez mais, usada como um verdadeiro soldado, em que a arma é o microfone e as balas as palavras.



A rádio transforma-se num elemento bélico, de defesa contra os ataques da propaganda comunista, como uma arma poderosa, sobretudo de propaganda, mais efectiva, por um lado, e menos perigosa, por outro. A radiodifusão torna-se, assim, um verdadeiro instrumento de contra-ataque , daí, também, o surgimento das emissões nocturnas e ininterruptas como medida de proteção contra investidas exteriores.



A necessidade de reforçar a disseminação da causa nacional cresce, ao mesmo tempo que a ideia de missão e de serviço do RCM, enquanto voz de Portugal em África, se enfatiza. Em 1970, quando o «programa de mentalização» “Hora da Verdade” é distribuído por todos os dialectos, cobrindo toda a província e se recebem lições de português em língua nativa, «(…) zonas imensas do Norte moçambicano estão inteiramente abrangidas nas áreas de influência de emissoras estrangeiras – nomeadamente as de Dar-es-Salam, Pequim, Moscovo e Cairo. Lourenço Marques não se consegue fazer ouvir (…)» , daí a urgência de se criarem postos regionais, estando nesta altura a ser montados mais sete, além dos quatro existentes.



A irradiação da mensagem nacionalista tem a atenção, ajuda e intercâmbio da EN. A Emissora oficial em Lisboa é a fonte de programas que são retransmitidos - nomeadamente os relatos de futebol -, propositados - como o “Jornal da Metrópole”, produzido pelos Serviços Ultramarinos - e para a qual são enviados programas como o “Minuto da Amizade” ou “Presença de Moçambique”, “um documentário radiofónico”, transmitido desde Maio de 1963.



Já em 1958, aquando da comemoração das bodas de prata, o delegado do RCM em Lisboa, agradece as relações amistosas e a solidariedade entre a Emissora Nacional e o Rádio Clube de Moçambique, que vêm, pelo menos, desde 1942: «Nunca será demais lembrar a obsequiosa, correcta e eficiente colaboração dos Serviços Técnicos desta emissora à sua congénere de Moçambique; nunca serão esquecidos, de igual modo, o empenho, o sentido da oportunidade e a diligência indesmentida com que os Serviços de Intercâmbio permitem manter o elevado nível artístico e cultural da programação do Rádio Clube de Moçambique; nunca nós teremos a expressão exacta para exaltar e agradecer a compreensão e o carinho com que todos os departamentos da Emissora Nacional acolhem e satisfazem os desejos da estação moçambicana para bem desempenhar a missão que lhe compete do vasto plano dos interesses do País».



Entre os principais argumentos usados durante a propagação dos valores nacionais enquanto nação multirracial, pluricultural e transcontinental, estão a harmonização, a amizade, o entendimento, a compreensão, o progresso e a pacificação: «A paz reina entre as populações autóctones e a civilização progride, onde não há muito lutas entre as tribos causavam o desassossego, mortes, violências e latrocínios».



Portugal presta não só protecção, entendimento, liberdade e humanidade, como refere Adriano Vidal, numa das suas “Notas do dia” do “Jornal da Noite”, como também o bem-estar às populações, a fraternidade racial, a sociedade multirracial (contra o terrorismo alimentado pelo comunismo) ou a transcontinentalidade: «Portugal é sempre Portugal. Não importa que o banhe o Atlântico, o Índico ou o Pacífico. Não importa que esteja situado nos Trópicos ou no Equador» . Neste contexto, a deserção é apontada como uma monstruosa traição, uma «(…) podridão moral e cívica».

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