sábado, 23 de Junho de 2012

Rádio Clube de Moçambique II


O Centro Emissor da Matola

Nesta segunda parte, apresentamos a(s horas de) programação na sede do RCM, na capital, bem como a local, nos Emissores Regionais que se vão instalando: Nampula, Quelimane, Cabo Delgado, Dondo, Tete, Vila Cabral, Inhambane

Texto Dina Cristo


Se em 1963 a emissão abre às 6h 30m (7h 30m no Domingo) e fecha às 23h 05m, com interrupção de hora e meia ao início da tarde, durante a semana, transmite quatro serviços de notícias, entre 10 a 15 minutos, dez anos mais tarde o programa principal inicia-se às 5h 56m e segue, ininterruptamente, até às 0h 10m, com nove noticiários, dois dos quais de meia hora.

Em termos globais, tendo em conta o plano de cobertura de rede em Moçambique, que se vai implementando, ao longo do período em estudo, há um progressivo aumento do número de horas de emissão. Se estas, em 1960, não atingem as dez mil horas, em 1972 ultrapassam as 60 mil.

As extensões das emissões vão aumentando também em função dos novos programas que, entretanto, vão sendo criados, ao longo da década de 60, nomeadamente o C e o D, totalizando quatro desdobramentos, com diferentes horários e cumprimentos de onda.

O programa A, em língua portuguesa, comercial, é o mais importante e propício aos programas ao vivo. Em 1968 é constituído 47,1% por canções e música ligeira, num ano que conta com 11,1% de noticiários e reportagens e 8,5% de publicidade. Em 1970 colabora regularmente com estações de Angola, Cabo Verde, Guiné, São Tomé, Macau e Timor, que transmitem gravações de algumas rubricas vivas.

O programa B, em língua africânder e inglesa, comercial, com dezoito horas de emissão, desde 1963, é transmitido em 24h diárias, desde o dia 1 de Março de 1964. Em 1968 integra 6.866 h de canções e música ligeira e 1.115 h de publicidade.

O programa C, em língua portuguesa, de carácter artístico e cultural, não comercial (sem publicidade), iniciado a 15 de Dezembro de 1962, é emitido através não só da Onda Média (OM) mas também da Onda Curta (OC) e Modulação de Frequência (FM), sendo captado na Metrópole. É composto essencialmente por música coral, de câmara, instrumental, ópera, canções, com destaque para a sinfónica. De acordo com o relatório de 1967 , 10% são programas falados, 4,2% noticiários e 2,6% teatro e contos; em 1968 tem 140h de ópera e 506h de música sinfónica, sendo transmitido em alta fidelidade e estereofonia.

O programa D cobre sobretudo a capital, num raio de cerca de 70 km durante o dia (um pouco mais à noite), durante nove horas, de acordo com o relatório referente ao exercício do mesmo ano, em que predomina a música ligeira e as canções, com 1960 h de emissão. A estação, no ar desde 2 de Janeiro de 1968, é criada com fins comerciais, para aumentar as receitas, aliviar a publicidade do programa A e melhorar a produção das agências publicitárias concorrentes.

Entre a programação, há teatro, folhetins, diálogos, programas infantis (como o “Teu programa”, de Maria Helena Jardim, iniciado em 1961, com rubricas à descoberta de valores no âmbito da poesia e da pintura) - crónicas, nomeadamente internacionais, palestras, como “Cinco minutos de espiritualidade” (proferida pelo Arcebispo de Lourenço Marques, D. Custódio Alvim Pereira, por exemplo sobre a visita do Papa Paulo VI a Fátima ou o Concílio Vaticano II ) e discos pedidos, que em 1957 recebem quase 28 mil solicitações. Em 1958, «Devido à afluência de senhas, só nos é permitido atender, 120 dentre todas recebidas, escolhidas por sorteio».

Figuras e factos da história de Moçambique, sublinhando a presença portuguesa também são motivo de atenção, como em “Terras de Portugal”, no ar desde 3 de Abril de 1963, no programa A: «Costumes. Artesanato. Folclore. Vindimas do Douro e lendas de Macau. Praias do Algarve e encantos da Madeira. Festas minhotas e mornas de Cabo Verde. S. João no Porto e povos de Angola. Moinhos metropolitanos e relíquias históricas da Ilha de Moçambique. Última Nata de Goa».

Alguns programas são assegurados por várias produtoras independentes, entre as quais as Produções Elmo (programa Tic-Tac), Produções Somar e Produções Golo (passatempos e relatos de futebol), que representam, em Moçambique, os parodiantes de Lisboa.

Igualmente a informação, jornais falados e reportagens, são presença constante, com o auxílio da Agência France Press, recebida desde 1963. O “Jornal de actualidades”, uma vez por semana, começa em 1958. Em 1968, no “Jornal da noite” abordam-se temas como a agricultura (os cereais), a indústria, os transportes e comunicações (como os caminhos de ferro). Dois anos mais tarde, para além do seu editorial próprio, “Nota do dia”, na rubrica “Volta ao mundo”, presta igualmente informações ligadas à arte, à ciência, ao cinema, à educação, à literatura, à medicina, à política, à sociologia, à tecnologia, ao trânsito e ao turismo.

As reportagens acompanham habitualmente os membros do Governo Central, o Governador-Geral ou Secretários Provinciais. Depois da visita do Presidente da República, Almirante Américo Tomás, em Julho de 1964, é a vez, em 1969, da cobertura da visita do Presidente do Conselho, Marcello Caetano, a Moçambique e das visitas de Baltazar Rebello de Souza às principais regiões do território, transmitindo directamente «(…) não só os actos oficiais como as manifestações populares (…)».

Em 1971 há 572h 45m dedicados aos noticiários e às reportagens, como a transmissão directa de todos os discursos pronunciados pelo Presidente da República, vários ministros, nomeadamente o do Ultramar, e outras individualidades (como o Presidente Banda do Malawi), o concurso Eurovisão da Canção, concertos e colóquios. Também são cobertos os grandes acontecimentos mundiais. No caso da alunagem, a cobertura, directa, teve 30 h de reportagem permanente, desde as 19h 30m do dia 20 de Julho de 1969 até às 7h 30 m do dia 21 abrangendo a retransmissão de reportagens de três origens diferentes, nas quais se inclui o serviço da EN.

Após a guerra em Angola, passa a haver programas de variedades e informativos. O “Jornal das Forças Armadas”, iniciado no dia 7 de Março de 1963, dedicado aos soldados, marinheiros e aviadores, produzido por Fernando Rebelo, responsável pela locução com Lisete Lopes, visa a recreação. O programa divulga biografias de heróis nacionais, como Sacadura Cabral, informações sobre os combates, correspondência, nomeadamente das madrinhas de guerra, que dão amparo moral, faz concursos e transmite poemas escritos e discos pedidos pelos militares. Magalhães Monteiro, enviado especial a Angola no início do conflito, sublinha a ideia de que um soldado indígena morto é mais um herói português tombado.

Emissores regionais

Ao nível da programação local, os centros emissores são estações que servem «(…) pequenos núcleos de população civilizada e grandes áreas povoadas por população não civilizada», estão aptos a retransmitir as emissões provenientes da capital, onde são preparadas, assegurando a cobertura do país, com a radiodifusão de um programa único. Os desdobramentos fazem-se num trabalho em cadeia, cooperativo, com a sede e para cujo custeamento foi criada uma taxa de radiodifusão. No caso do ER de Cabo Delgado os encargos são suportados pelos subsídios do Governo do Distrito, das Comissões Municipais, pelas circunscrições, pela publicidade e por pequenas receitas, como donativos.

O Emissor Regional do Norte, em Nampula, é inaugurado a 19 de Novembro de 1953. Em 1968, Pires Teixeira, escreve: «Os grandes dias da portugalidade, os grandes momentos de exaltação lusíada, as grandes manifestações de fé, assinalaram sempre, sem uma falha, a presença inestimável do Emissor, pundonoroso no cumprimento das suas obrigações e no respeito pelas suas imensas responsabilidades».

A 3 de Setembro de 1958 é inaugurado o Emissora da Zambézia, em Quelimane. O de Porto Amélia, em Cabo Delgado, no valor de 800 contos, é estreado a 20 de Abril de 1960.

Em Outubro de 1970 tem início o Centro Emissor do Dondo, que, em 1971, emite mais de sete mil horas. A 29 de Outubro de 1972, embora em instalações temporárias, é inaugurado o ER de Tete, uma cerimónia com a presença, além da Direcção do RCM, do Ministro do Ultramar, Silva Cunha, do Governador-Geral, Pimentel dos Santos, do Comandante-Chefe das Forças Armadas, Kaulza de Arriaga e dos Secretários Provinciais de Comunicações e Obras Públicas.

No mesmo ano, a 12 de Dezembro de 1972, é inaugurado o ER de Vila Cabral, no distrito de Niassa. Fazem parte da comitiva, o Secretário Provincial das Comunicações, Vilar Queirós, da Educação, Marques e Almeida, de Emprego, Wanonn Pinto e o director dos CTT, Armindo Fontes, instituição que os supervisionava. Além do Delegado Gerente, fazem parte dos quadros do pessoal, cinco locutores, cinco técnicos e uma secretária, instalados numa casa pré-fabricada. Nos dois últimos (Tete e Vila Cabral) são instalados emissores de 5 kw de OM e antenas concebidas e fabricadas no RCM.

Antes de terminar o ano de 1973, em 23 de Novembro, é inaugurado o ER de Inhambane. O Governador-Geral faz-se representar pelo Secretário Provincial das Comunicações que, por sua vez, põe no ar o emissor por intermédio da esposa do Governador do Distrito. Apesar da sua crise financeira e dos encargos que representa, o RCM decide antecipar os planos para a cadeia de emissores, com mais um elo, cooperando com a nação num momento crucial: «Esta magnífica instituição, integrando-se perfeitamente dentro das preocupações do Governo de Moçambique, não hesitou em alterar estruturalmente os seus planos para seguir aquilo que o Governo estabeleceu como primeira prioridade», profere o Secretário Provincial das Comunicações, Vilar Queiróz, durante as cerimónias

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